segunda-feira, 21 de maio de 2012

Quem calça o sapato é que sabe onde lhe aperta




Já o tinha visto por lá, a fazer os seus exercícios acompanhado quando necessário.
Mas ainda o não havia visto a sair da sua cadeira de rodas.
Com ele estava o P., chamemos-lhe assim, o fisioterapeuta que vinha estimular os meus próprios músculos antes dos restantes tratamentos.
P., de pé ao lado dele, assistia ao seu difícil passar da cadeira para a marquesa. Com os braços abertos, quase que em forma de asa, apenas estava de sobre-alerta para intervir. Sem nada fazer excepto, no final da penosa passagem, o colocar as almofadas e afastar a cadeira de rodas.
Veio depois P. para junto de mim, cuidar da minha já quase insignificante mão.
Em tom baixo, que a circunstância e a exiguidade do espaço assim o exigiam, perguntei-lhe se a sua atitude se devia a uma necessidade do doente ou a um desejo do doente.
“Porque eu o quero!”, disse-me sem rodeios. E, em tom mais brando, completou:
“Ele já está a ficar sem tónus muscular. Não lhe vou fazer a papinha.”
E, em tom ainda mais baixo, acrescentou:
“Não lhe vai servir de muito. É um caso de esclerose múltipla. Da primeira vez que veio aqui tinha 18 anos, foi só um ligeiro caso, e vinha com uma canadiana. Agora, aos 22 anos, deu-lhe forte e está assim. Não sei por quanto mais tempo.”
E continuou a esfregar-me o braço e a mão, desta feita com bem mais força que o habitual.
Olhei por cima do ombro de P., à minha frente, e vi o jovem a esforçar-se por fazer abdominais. Com pouco sucesso, mas sempre a insistir, sozinho.
E tive vontade de me levantar e sair.

By me

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