segunda-feira, 13 de julho de 2020
Até ao próximo episódio
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Insólitos Oldfashion
segunda-feira, 5 de março de 2012
À fé de quem sou!
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
O Jardim da Estrela
sábado, 19 de março de 2011
O pai
Na minha câmara, caixa, artefacto, o que lhe queiram chamar, tinha um mostruário.
Não é particularmente grande – três fotografias de cada lado – e faz muito que não o mudo. Tenho andado com vontade e de o fazer, mas a preguiça tem-se imposto e lá vai ficando. Ainda bem!
Uma das fotografias é de uma senhora e de sua filha. Romenas, a mãe não tem ofício certo que não seja andar a pedir, ao que me parece.
Uma ocasião um garoto, igualmente romeno e que as conhece, orgulhoso da sua recente aquisição – uma bicicleta – viu-me e veio cumprimentar-me. Tão orgulhoso estava que insistiu em ser de novo fotografado – tinha-o sido uns meses antes – mas desta feita aconteceu montado no corcel.
Enquanto a imagem se processava, sempre me foi dizendo que aquela senhora tinha estado ausente para a sua terra natal mas que regressaria na semana seguinte.
Umas semanas depois constatei que ela tinha regressado!
Sou abordado por dois homens, com uma terrível dificuldade em se exprimirem em português. Mas ao verem a fotografia da senhora, todas as barreiras linguísticas se derrubaram. Um deles soube dizer-me que a criança era linda, conhecendo-a pelo nome. E que era linda, e que era linda, e tão linda ao ponto de beijar a fotografia ali pendurada.
O seu companheiro lá se fez entender e comunicou-me que era a filha que ali estava fotografada.
Claro que quiseram ser fotografados e se a fotografia não fosse gratuita passaria a sê-lo.
Poder unir, ainda que com corantes jorrados num papel, uma família nómada e de parquíssimas posses, é pagamento que baste. E se a tarde rendeu pouco em quantidade, sobrou em qualidade!
Texto e imagem: by me
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Detalhes
O homem identificou-me pelo nome. Pelo menos por metade dele, que me sabia o apelido. E, enquanto trocávamos umas frases sobre a origem deste conhecimento, o filho continuava por ali a circular na sua pequena bicicleta.
Por mim, admito, não me recordava dele, já que não é fácil fixar uma cara que vai a conduzir um táxi chamado de noite, quando vamos sentados no banco de trás. Mas ele não esquecia a barba, o chapéu, a circunstância em que me tinha conduzido… umas três semanas antes.
Por fim, lá conseguiu convencer o filhote a fazer-se fotografar, bicla e capacete incluídos. E quando, depois de impressa, a foto estava a ser analisada pelo pai babado, disse:
“Nem sabe como esta fotografia vai ser importante. Ele esteve de férias, na terra, durante um mês, voltou hoje e a mãe ainda não o viu. E enquanto esteve com os avós, caíram-lhe os dois dentes da frente. É a primeira fotografia que ele tem assim, com aqueles dois buraquinhos ali na frente da boca.”
Se a fotografia é para mais tarde recordar, espero que os corantes jorrados sobre papel durem tanto quanto as memórias.
É que o primeiro dente que cai é um marco na vida. Do próprio e dos pais.
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Não foi difícil de convencer, que queria mesmo fazer a fotografia.
Na verdade, o difícil foi fazê-lo aceitar as condições do negócio. Dizia ele que nada na vida é grátis, que tudo é por dinheiro e que o custo zero não existe.
Quando lhe disse que assim não era, que o ver aqueles periquitos que por ali vão passando, que o sentir o ameno da tarde estival, que o ouvir a criançada a rir lá no parque infantil era bom e era de borla, achou graça mas não ficou convencido.
E quando lhe contei que naquele negócio o lucro das partes era discutível, já que ele levaria a fotografia mas que eu ficaria com o seu sorriso e que, ponderadas as coisas, não saberia dizer quem ficava a ganhar, riu-se um pouco mais, chamou-me de “poeta” e ficou convencido.
Quando preenchia o formulário entendi todas as suas reticências: Profissão Economista! A sua imagem? Tenho-a mas não a publico. Que a privacidade é um direito e um bem e esse ele não negoceia!
Texto e imagem: by me
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Em luta
Pelo que me pareceu, a rapaziada que por ali andava tinha deitado para o chão aquele meio pastel de carne. Não sei se por não gostarem dele se porque carga de água. Mas ali ficou, com um comentário mental meu, que mais valia terem-no deitado no caixote, que disso por ali não falta.
Seja como for, os pombos acabaram por o ver e vieram por ele. Primeiro um, depois outro, depois aos pares e aos trios, acabaram por ali se juntar mais de uma vintena de pombos. Todos atraídos pelo meio pastel de carne, suculento e apetitoso.
Mas se eram muitos, poucos puderam descobrir a que sabia. Que desde cedo veio um pombo maior, corpulento e de penas rebrilhantes, que entendeu que aquilo lhe pertencia. E sua convicção era tal que mal conseguia dele comer, tal era a sanha com que corria à bicada e assanhado com todos os outros que se aproximavam.
Estes, grandes e pequenos, machos e fêmeas, usavam de todas as artimanhas, desde chegarem-se em grupos até esperarem que ele se afastasse um nico, correndo com alguns, para virem pelas costas. Mas de nada servia, que ele a todos topava e a todos corria.
Incomodou-me! Afinal, ainda que fosse só meio pastel de carne, os seus sete a oito centímetros de comprido eram bastante mais do que caberia no seu papo e daria, pela certa, para partilhar com os restantes.
Avancei, de navalha aberta e, para espanto da garotada que por ali convivia, baixei-me e cortei o pastel em quatro, afastando as partes um pouco umas das outras. Daria para todos, pensei.
Como me enganava! No regresso de lavar a lâmina no chafariz do parque, dou com o tal matulão, bem no meio das partes no chão, a reclamar a sua posse em luta com os que se aproximavam. Tinha muito mais trabalho, que a área a cobrir era francamente maior, mas bicava a torto e a direito, sobre todos os que quisessem uma nica.
Fiquei francamente furioso. Afinal aquilo dava para todos! Em duas valentes passadas aproximei-me, enxotei todos em redor e, a pontapé, afastei francamente os restos mortais do pastel. Sempre queria ver como é que o valentão iria defender aquela área enorme. Não o fez!
Depois de ter andado de um para outro, apropriou-se do maior e defendeu-o com a mesma energia de sempre. Aos restantes acercaram-se os menos afoitos, mas ficaram confrontados com outros proprietários, de menor porte mas suficiente para defender aqueles pedaços menores. No lugar de um grande ditador, criaram-se quatro ditadores, cada um à medida do pedaço que defendia. Os mais pequenos, esses, acabaram por conseguir bicar apenas nas migalhas que saltavam para longe dos pedaços grandes. Até que tudo ficou consumido e limpinho, como se nunca ali tivesse estado. E partiram para outras paragens!
Para que não haja confusões nem erros de interpretação, deixo aqui uma imagem ilustrativa. Ficar-se-á assim com a certeza de que estou a falar de pombos num jardim e não de homens em torno de um lugar na política ou de um posto de chefia numa empresa.
Texto e imagem: by me
sábado, 13 de novembro de 2010
Uma boa fotografia?
Um dos prazeres da fotografia é o desafio que nos levanta. Confrontados com um dado assunto ou objecto, conseguirmos usar a luz (quantidade e qualidade), materiais sensíveis, perspectiva e suporte final para reproduzirmos o que vimos ou imaginámos. A transposição da tridimensionalidade para a planura do papel ou ecrã.
Um dos temas que tenho por mais difícil de fotografar é vidros, joalharia ou cutelaria. Para além da questão do contexto em que são mostrados, o seu brilho e textura levam a que o rigor na tomada de vista seja levado muito a sério. Nunca tentei fotografar profissionalmente automóveis, mas creio que as dificuldades sejam semelhantes.
Outro tema que tenho por difícil é o bicho-homem. A sua mobilidade constante, a permanente mudança de expressão e de humor, a necessidade de transpor para a imagem a sua alma, karma ou que lhe queiram chamar, tornam este género fotográfico num dos mais difíceis e polémicos.
Acrescente-se que o retrato é a “pérola da dificuldade”, já que, e para além da crítica do fotógrafo e do público em geral, o próprio retratado é do que há de mais exigente. As questões técnicas e estéticas em geral deixam-no indiferente, mas as poses, as expressões, os olhares e sorrisos ou a postura corporal são vitais, e a culpa é sempre do fotógrafo.
Um bom exemplo desta prática e dificuldade é o meu projecto "Oldfashion". A perspectiva é escolhida por mim, considerando os elementos do fundo, a luz e a sua rotação de 90º durante o tempo que por ali estou.
Para simplificar o processo, os retratados são colocados em zona de sombra, tal como o fundo. Não apenas reduz os eventuais excessos de contraste difíceis de controlar neste método, como ainda permite que os sistemas automáticos de focagem e exposição funcionem medianamente bem.
O local onde os fotografados se colocam também é por mim escolhido. Por uma questão de composição de elementos – o corpo é vertical, o enquadramento horizontal – como também para que exista algum contraste de tons e luz entre o torso e o fundo. Nem sempre consigo que fiquem onde gostaria, já que demasiado controlo neste aspecto retira alguma espontaneidade aos fotografados. E a câmara, compromisso meu, não sai do local.
Sobre a pose, pouco ou nada intervenho. Para além de ajustar um tudo ou nada o eixo dos corpos em relação à objectiva, se for demasiado chocante o que naturalmente assumem, e de deixar cair uma laracha no momento da obturação, o resto é por conta deles.
De tudo isto resultam fotografias que técnica e esteticamente estão no limite do aceitável. Algumas abaixo, talvez. Mas a reacção dos retratados é particularmente divertida.
Ainda que a fotografia seja fracota, quase todos dizem que gostaram e que ficou boa, manifestando algum espanto que aquela caixa as possa fazer. Mesmo que as suas expressões demonstrem que não gostaram por ai além. As suas preocupações debruçam-se sobre as poses, os sorrisos, os olhares…
Uma senhora houve que, olhando para o papel que tinha na mão, comentou: “Esta sou eu, não é!” Pela conversa, prévia e posterior, entendi a sua tristeza face às agruras da sua vida. Uma outra, brasileira, e na casa dos quarenta, comentou o quanto tinha envelhecido nos últimos dois anos, tempo da sua estada por cá. A gente jovem ri-se de si mesma e procura com afinco os olhos e a expressão da boca. Num caso, cheguei mesmo a ter que ceder a minha lupa do relógio para que fossem vistos.
Mas, muito curioso, é o facto de serem os agentes das forças de segurança (PSP e GNR) os mais exigentes com o que vêem e recebem. É neste grupo, independentemente das idades e cuja maioria quer a fotografia em papel mas recusa a sua presença na internet, que se encontram a mais duras críticas. Quer seja a luz, quer seja o instante da expressão captada, quer seja a pose ou o local escolhido, quer seja por parecerem mais gordos… Nem mesmo outros fotógrafos que quiseram ser fotografados foram tão críticos. Não sei se esta atitude de rigor advirá dos seus ofícios, em que não deixam de ser o que são, estejam fardados ou à paisana.
Quanto aos demais fotografados, em regra, tomam por uma boa fotografia aquela que não o é, e que por vezes é medíocre.
O que me põe a perguntar, muito seriamente: “Afinal, o que é uma boa fotografia?”
Texto e imagem: by me
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Ouvido e recordado
Toda a conversa surgiu por ter sido mais ou menos ali que conheceu o futuro marido, por ter sido mais ou menos ali que fizeram a primeira fotografia juntos… Mas tinha algum receio em fazer uma agora já que, e nas suas palavras:
“Sou feia! Agora sou feia! Mas quando era nova, valha-me Deus, não podia dar um passo fora de casa que não estivesse guardada! Olhe, até doutores de lei e de medicina namorei. Houve um – eu até gostava de ir à televisão contar a história ao Artur Agostinho – que era juiz de direito e não me largava.
Trabalhava eu na casa de uma patroa, ali em Campo de Ourique. Era ela e a filha, já mulher feita.
Uma vez, já ao fim do dia, diz-me a patroa para ir ali, à taberna, buscar vinho que já não havia para o jantar. Eu pus a garrafa num saco de pano e vim à rua. A taberna era como que daqui ali, umas quatro portas de distancia.
Mas do outro lado do passeio estava o juiz. Queria falar comigo, que eu fosse com ele e eu que não, que as patroas estavam à espera do vinho para o jantar. Mas tanto insistiu, tanto teimou, que acabámos por ir de eléctrico até à estrela. Está a ver: o eléctrico a andar devagar, as patroas à espera e nós à conversa. Foi o ir e o vir. Uma demora!
Quando voltei a casa, já com o vinho, ia cheia de medo da patroa. Mas lá inventei, fazendo-me de zangada, que na taberna não havia meio de me atenderem, que só estavam a ouvir o relato. E eu a querer o vinho e eles a ouvir o relato do Artur Agostinho. E eu sem saber se havia ou não jogo ou relato! Mas a filha lá me safou, dizendo em voz baixa para a mãe que sim, que estava a dar um relato na telefonia e que até tinha ouvido quando marcaram um golo.
Depois de lhes servir o jantar, vim espreitar devagarinho atrás das cortinas para a rua. O juiz ainda lá estava, ora olhando para as janelas, ora olhando para a porta, andando de um lado para o outro.
Sabe, depois fiquei a pensar e é que percebi. O que ele queria era que eu fosse despedida logo naquela noite para me por conta num quarto que já tinha alugado, ali à Graça. É que, naqueles tempos, nem um beijinho podíamos dar na rua. E ele sempre era um juiz, mais velho, casado e tudo!
Depois, já a trabalhar noutra patroa, acabei por encontrar o meu homem. Já morreu, coitado!
Agora estou feia. Mas naquele tempo, benza-me Deus, nem podia vir à rua!”
Este relato é fiel ao que ouvi. Tão fiel quanto o é possível, escrito umas duas horas depois de ouvido.
Mas enquanto vai escorrendo a tinta no papel, vou-me perguntando como o irei ilustrar. Tenho dela duas fotografias, uma à-lá-minuta, outra um retrato à minha maneira, com a reflex. Que, olhando para ela, ainda que com idade avançada, se lhe reconhecem nas feições e no corpo a beleza que tinha e tem, testemunho ainda iluminado do brilhante que foi na juventude. Acredito que de fazer parar o trânsito.
Mas sinto pudor em aqui e assim a exibir. Estas estórias de antanho, assim contadas a um estranho, fazem parte do seu tesoiro de vida. Que ela almeja contar no ecrã. Espero que o possa fazer, na primeira pessoa, que não serei eu que ligarei relato com rosto.
Fiquem apenas a saber que foi aqui que mo contou. Não importa quando!
Texto e imagem: by me
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Névoas
Batem regular e apressadamente a zona, jardim incluído. O seu olhar rápido de predador ou de acossado analisa os presentes e, destes, quais os potenciais clientes.
Um deles, o mais baixo, é quem transporta os pequenos pedaços de lousa que esculpe com uma simples chave de fendas e cuja venda promove junto de quem por ali está.
O outro, o mais alto, acompanha-o de perto e com a mesma velocidade no périplo, mas mantém-se afastado e vigilante aquando da conversa para vendas. E, tanto quanto me foi dado a observar, faz a barba uma vez por semana.
A mesma frequência com que, ao que parece à distância, mudam de roupa e tomam banho. Já entraram na casa dos 50’s há algum tempo e, pelo aspecto, actividade, olhares e frenesim de gestos e tiques, parecem ser toxicodependentes de longa data.
Nunca meteram conversa comigo. Afinal, a minha presença ali regular e daquela forma não me torna num potencial cliente mas antes num eventual concorrente de negócio. Até um dia destes.
O mais baixo passou por mim, sozinho, e meteu conversa. Admirou a câmara e quis saber que “lente” eu usava, distâncias focais e aberturas. Enquanto tentava encontrar as respostas, olhando e espreitando por ela, sempre me foi dizendo que em tempos tinha andado no ramo, como fotógrafo de reportagem e subaquático, ali para os lados de Peniche.
Conversa vai, conversa vem, e em sabendo o preço, quis fazer o retrato. Enquanto a imagem imprimia, foi fazendo o questionário habitual e, em chegando à questão de “ofício”, disse-me ser engenheiro electrotécnico. Espero que a minha barba e a pala do meu boné tenham escondido o meu espanto, que as minhas palavras não o demonstraram certamente.
Mas, ao mesmo tempo, a minha admiração.
O seu futuro é tão risonho quanto os seus dedos tintos e as pedras negras que esculpe e vende. Estou em crer que o sabe com a certeza de quem luta para manter o vício.
Mas o seu orgulho e amor-próprio ainda não foram atingidos! Afinal, um título é um título, que nunca se perde. Ainda que pertença a um passado distante e nebuloso.
Mas nunca se sabe quando ou se o céu clareará.
Texto e imagem: by me
domingo, 26 de setembro de 2010
Matemática social
Foi assim que ele se descreveu e ao seu ofício. O nome oficial será “Cantoneiro Municipal” e, em tempos, chamávamos-lhes “Almeidas”, ainda que eu não saiba porquê. A abordagem inicial foi a costumeira: Querer saber se num outro dia poderia vir para eu lhe “tirar o retrato”. É a atitude habitual de quem quer saber detalhes mas não tem a coragem de perguntar quanto custa, por não ter dinheiro para o pagar.
Em sabendo-o grátis não o acreditou mas, perante a minha insistência no preço, quis fazer uma. Estou convencido que estaria na disposição de pagar no final, ainda que não soubesse o valor e correndo o risco de ser demasiado para ele. É que o seu espanto e gratidão quando, no fim e depois de a receber, constatou que era mesmo a custo zero, foi sincero. Até a forma de o demonstrar.
Para além das expressões e gestos usados, foi a oferta de um copo de tinto, pago no tasco vizinho de sua casa, nas imediações do pátio onde reside, ali na vizinhança. E a firmeza com que me apertou a mão e, muito estranhamente, a levou aos dois lados da sua cabeça, não me permitem duvidar que, em lá indo, terei um copo à minha espera.
É particularmente curioso constatar que são quem tem proventos mais modestos, quiçá nenhuns, alguns mesmo a “carregar a merda que os outros fazem”, que mais insistem em pagar a fotografia recebida, que mais genuinamente ficam agradecidos por ela e em quem se vê um sorriso mais sincero.
Talvez porque, em regra, a solidariedade é inversamente proporcional ao nível económico!
Texto e imagem: by me
sábado, 4 de setembro de 2010
Barbas

Que fazer?
Que fazer quando um grupo de três crianças, dos seus cinco ou seis anos, se nos dirige de corrida e nos saúda:
“Olá Pai Natal!”
Bem sei que as minhas barbas grisalhas estão grandes.
Sei igualmente que o meu cabelo está anormalmente grande, mais merecendo o apodo de trunfa, que há muito que não vê tesoura.
Também sei que esta confusão não é de todo anormal, mas costuma acontecer lá mais para Dezembro, e nas cercanias dos respectivos pais.
Agora num jardim, largarem os três a correr de junto da mãe de um deles que os acompanhava, e virem direitos a mim com esta!...
Em situações normais, lanço um sorriso meio amarelo, para os pais, tentando perceber até que ponto o mito ali existe. Em seguida, costumo dizer que não sou o Pai Natal, até porque não estou vestido de tal. Neste entretanto, a intervenção dos crescidos salva-me de mais embaraços, a conversa passa para os adultos com sorrisos ternurentos para os catraios e ficamos por ali.
Mas desta vez eram três, foram categóricos e os seus acompanhantes estavam longe. Para piorar as coisas, antes ainda de eu ter tempo de responder o que quer que fosse, o mais atrevidote sai-se com esta:
“Eu já sei o que quero de prenda! Posso pedir já? Posso? Posso?”
Foi o embaraço total! Desfaz-se o mito? Tira-se a alegria de um encontro imediato do terceiro grau?
Saí-me com um:
“Ainda é muito cedo! O Natal é só para Dezembro. Pergunta aos teus pais quando é.”
“Sim, e falta muito? Posso fazer já o pedido? Posso? Posso?”
“Tens que perguntar primeiro aos teus pais se podes. Além disso, eu não sou o Pai Natal.”
“Não!? É sim senhor!”
“Não sou não! Estou aqui para…”
Surge a voz salvadora e autoritária do poder materno, que afirma:
“Deixem lá o senhor em paz! Não é nada o Pai Natal! Não chateiem! Não vêem que é só um senhor de barbas brancas? Vamos embora!”
Foi a minha vez de ficar triste. Não apenas por as minhas barbas não serem brancas – são grisalhas! – como, e principalmente, pelo olhar desanimado dos petizes, que me tocou fundo.
Afastaram-se, mãe à frente, pequenos atrás, tal e qual os patinhos no lago ali ao lado. O mais reguila, no fim, cabisbaixo como os demais. Ao fim de meia dúzia de metros, olhou de novo para mim.
E eu, que estava ali especado, sem saber o que fazer, não resisti:
Um ligeiro aceno de cabeça e um piscar de olho.
Foi quanto bastou: a alegria estampou-se-lhe na cara, deu dois pulos e desatou a correr, passando pela mãe e continuando.
E eu fiquei na dúvida: terá ele entendido a brincadeira do tipo das barbas – grisalhas – ou ficou a acreditar que o Pai Natal lhe piscou o olho?
Em qualquer dos casos, eu fiquei a ganhar a tarde, seja qual for a cor das minhas barbas.
Texto e imagem: by me
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Só uma pontinha

O final do mês é, para a maioria dos residentes neste país, uma altura penosa. Já não se vive de dinheiro mas tão só de moedas contadas e de despesas controladas para além do limite. É que, e ao contrário do que os nossos governantes querem fazer crer, o cinto está apertado faz muito e as vacas já só consultam o dermatologista e o ortopedista, de magras que estão.
Assim, quando surge algo vindo do nada, um extra inesperado e a custo zero, é certamente uma alegria. Nalguns casos, verdadeiros momentos de felicidade.
Um domingo houve foi bastante profícuo no que a fotografias diz respeito. Se o início da tarde foi fraco, aparentando ser mau presságio, o fim da tarde rendeu como nunca. A ponto de esgotar a reserva de papel e de não poder atender as últimas solicitações.
No início da enchente, duas senhoras e uma criança posaram para o retrato. Ficaram satisfeitas com o resultado, só lamentaram ser apenas uma cópia. Quem iria ficar com esta? Se bem me recordo, tratava-se de duas irmãs e do filho de uma delas. Bem que quiseram que eu imprimisse uma segunda cópia, mas algo no meu instinto me fez recusar, nem pagando. Creio que, intimamente, antecipava a enchente que viria ao final da tarde.
Mas a tristeza das senhoras foi tal e tão visível que acabei por lhes prometer que, se voltassem durante a semana e me encontrassem, eu teria uma outra cópia para lhes dar. Tomei nota do caso e pedi-lhes que não o divulgassem, que era uma quebra séria na rotina instituída.
Em chegando a casa, ao processar as imagens e dados, lá estava a anotação e tratei de a imprimir e guardar onde sabia que me acompanharia nas idas ao jardim da Estrela.
Acabaram por surgir, tia e sobrinho. Não os vi chegar, que vieram das minhas costas, mas quando nos encarámos, e após as saudações (pimpolho incluído), a pergunta foi imediata:
“Tem aí alguma coisa para nós? Lembrou-se?”
O seu olhar dizia-me que não supunha que me tivesse recordado, mas lá no fundo, meio escondida, uma centelha de esperança brilhava.
Quando rebusquei os suportes de plástico do mostruário onde a tinha guardado e a retirei, protegida por um papel, o sorriso com que me brindou foi impagável! Não apenas me tinha lembrado como tinha cumprido a promessa!
Por vezes, não damos o real valor que uma fotografia pode ter para quem nela está representado.
Não creio que venha a ter nova oportunidade de conversar com esta senhora, passante ocasional que é. E enquanto ali esteve, o pirralho não deu azo a conversas mais demoradas. Mas sempre me questiono sobre quantas fotografias das duas irmãs com a criança existirão naquela família. Ou mesmo, quantas fotos das duas irmãs juntas!
Por vezes, basta só um niquinho, uma pontinha de nada de luz, para fazer a diferença e provocar uns momentos de felicidade!
Texto e imagem: by me
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Três gerações - Três continentes

Chegaram, mãe filho, este ao colo dela. Aliás, teria que ser assim se para trajectos maiores, que o pirralho era tão piquinino que o seu andar pouco mais era que pôr um pé à frente do outro para não cair.
Falámos um pouco e fizemos a fotografia. E quedámo-nos na conversa, mesmo depois da função terminada.
O pequenote, esse, é que pouco se interessou no que dizíamos. Partiu para descobrir novos mundos, na imensidão de uns dez metros em redor. E, sendo o seu caminhar o que era, cedo caiu.
À distância a que estava, a mãe constatou que nada de grave acontecera. Tal como eu. O minorca, estendido ao comprido, de barriga para baixo, olhou em redor, sem choro ou beicinho, verificou a proximidade da mãe e lá se levantou para mais uma caminhada. Que acabou em queda de igual gravidade.
Afinal, é assim que aprendemos a caminhar, caindo, levantando-nos e continuando. E aprendendo como usar o que temos e onde e como pôr os pés.
A sua inexperiência era tal que, passado pouco, ei-lo de novo no chão.
A mãe, estrategicamente colocada na nossa conversa, ia verificando o resultado das quedas, ao mesmo tempo que se certificava que o seu trajecto não coincidia com o das bicicletas, skates ou patins que por ali pululam. Estava tudo controlado e tranquilo.
Quem assim não pensou foi uma velhinha, com ar de avó tremida mas extremosa, que à terceira queda do aprendiz de caminhante, achou que era demais.
Levantou-se do seu banco de jardim e, com uma dificuldade em caminhar equivalente à da criança, abeirou-se dele e levantou-o do chão. Regressando de seguida ao seu lugar sentado, não fora ser este selvaticamente ocupado por algum dos muitos outros idosos do jardim.
Pouquinho tempo depois, a cena repete-se: o pimpolho cai, a velhinha levanta-se e levanta-o e regressa ao seu repouso. Tudo sob o olhar vigilante da mãe, que ia cavaqueando comigo, à beira da minha câmara e tripé.
À terceira a coisa foi diferente: Depois de levantar o pequeno, que continuava sorridente como sempre, caminhou para nós com ele segurando-lhe o dedo. E a sua expressão advertia das advertências que haveria de dar à mãe “descuidada”.
Nada ouvi, que se encontraram a meio caminho, com troca de dedo agarrado. Trocado por calças, à altura dos joelhos, quando regressaram para junto de mim.
Com um sorriso, disse-me ela que este era um dos motivos para gostar do Jardim da Estrela: Fora aqui que ele dera o seu primeiro passo e era aqui que estava a aprender a andar. Bonito de ouvir!
Como que inspirado na conversa, o rapazinho afastou-se caminhando, de novo em direcção ao local onde a boa da velhinha continuava sentada. E a mãe, continuando a sorrir e fazendo contrastar o tom dos dentes com o da pele, acrescenta: “É melhor ir busca-lo antes que ela venha cá de novo!”
E foi, regressando ele ao colo e com a mãozinha esticada para a pelagem branca que me cresce no queixo e cara.
Quando, passado um pouco, se foram de vez, fiquei pensando que, na verdade, a melhor forma de aprender é ir caindo até aprender a coisa. E aproveitar a pequenez da altura para que as quedas sejam pequenas e pouco dolorosas.
Acontece, porém, que há sempre uma avozinha, cheia de boas intenções, que se intromete e tenta mudar o curso natural da vida. E que, ou bem que já se esqueceram que foram crianças e mães, ou bem que mais nada lhes resta fazer que interferir na vida dos outros, queiram ou não eles que isso aconteça.
E quem é que está na imagem? Pela certa que não se esperaria que eu aqui mostrasse os intervenientes neste episódio em torno do meu “Oldfashion”!
Em alternativa mostro este retrato. Que em comum com a estória apenas tem o local onde foi feito e minha câmara de madeira. Que a estória falou de três gerações e aqui mostro a Ana, vinda de um terceiro continente.
É que o Jardim da Estrela é assim como que um centro do mundo, onde de tudo acontece e onde de tudo converge.
Texto e imagem: by me
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Inna e Roma

Os sentimentos, ainda que genuínos, podem ser reforçados com estímulos externos.
Sabendo isto, da teoria e da prática, crio uma pequena expectativa antes de entregar a fotografia já impressa.
Depois de a retirar da “caixa-mágica”, olho-a por vezes de relance, outras com fingida atenção e, mantendo-a virada para mim e encostada ao peito, lanço uma frase para os que estão ansiosos por a ver. Uma delas é (e não posso aqui revelar todos os meus trunfos) “Se não gostar não leva!” Um pouco na linha que certas lojas e produtos usam: “Satisfação total ou devolução do dinheiro”.
Neste caso, o riso meio da graça, meio do nervoso, manifesta-se e, acto contínuo, entrego a fotografia.
Sendo que parte das pessoas esperam uma partida ou equivalente, outros contam com algo de muito má qualidade e outros ainda têm uma péssima opinião sobre si mesmos, a surpresa é em regra agradável, apesar de algumas não serem lá grande coisa como fotografias.
Mas também há quem não goste. E o diga! As mais das vezes, pouco ou nada referente à qualidade da imagem ou da impressão, mas antes referente à pose ou expressão facial. Ou, como não poderia deixar de ser, em relação ao peso, nuns casos que parecem ter muito, noutros o contrário.
Este casal, que reagiu de forma típica durante todo o processo que antecedeu a entrega da fotografia, não gostou. Uma destas pessoas não gostou da sua pose mas, como em 100% dos casos, quis levar a fotografia, sim senhor!
Mas eu é que não gostei do desagrado que ali vi! E como até eram particularmente divertidos e bem-dispostos, mandei as rotinas às urtigas e fiz uma segunda, com a DSLR. Como gosto de fazer, jogando com contra-luz natural e luz frontal difusa.
A opinião mudou por completo e a alegria de terem esta segunda compensou o desgosto face à primeira.
E porque o prometi, aqui fica, ainda que noutro espaço que não o “Oldfashion”. Mas, mesmo que não o tivesse prometido, e desde que não mo interditassem, aqui a poria. Porque também eu gosto dela, pese embora a ausência de sorriso que assumiram, e de que eu tanto estava a gostar.
Texto e imagem: by me
sábado, 24 de julho de 2010
Magic Garden

Agora imaginem:
Estão de pé no meio de um jardim há horas. Deambulam em torno de uma câmara num tripé, fumando cigarros que vão deitando, conscienciosamente, no lixo depois de apagados. Com o olhar, vão analisando quem passa, tentando perceber se vai ou não parar e ter curiosidade. Em caso positivo, vão desenrolando a conversa e fazendo algumas fotografias.
Imaginem ainda que, já pelo fim da tardinha, depois de um bom pedaço sem gente que vos aborde, estão parados. Que a vossos pés pousa um bando de pombos. Que, de súbito, um deles levanta voo e vem pousar numa das vossas mãos. Que atrás dele vem outro, e ainda outro. Imaginem que ficam atónitos com a situação e que esta evolui para mais um pousado no vosso ombro.
Imaginem também que eles levantam voo e outros os substituem, sentindo nos dedos das mãos, esticados agora e na pele dos vossos antebraços, as garras de uma meia dúzia de pombos que, delicadamente, se firmam.
Imaginem mais ainda que, com alguma cautela, três garotos aí com cinco ou seis anos se aproximam, de olhos esbugalhados, e que vos perguntam como é que conseguiram fazer aquilo. E imaginem que não lhes sabem responder outra coisa que não seja pedir-lhes pouco barulho e pouco movimento para não os espantar.
Conseguiram imaginar?
Então conseguiram sentir o que eu mesmo senti hoje, pelas seis e tal da tarde, em pleno Jardim da Estrela.
Garanto que é tudo verdade, excepção feita ao pombo aqui retratado, num outro dia fotografado.
Afinal, com as mãos cheias de pombos, como poderia eu manobrar uma câmara?
Mágico, este Jardim!
Texto e imagem: by me
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Ser photógrapho

Estava eu no Jardim da Estrela, na minha actividade habitual por lá: Photógrapho.
E estava mais ou menos rodeado de gente: curiosos, pessoas que esperavam vez, gente que fazia fila para receberem a beberagem que nesse dia se promovia por ali… Bastante gente em redor.
A dado passo constato que, num relvado próximo, acontecia fotografia. Um homem na casa dos 50’s, razoavelmente equipado para tal, ia fotografando uma moça/senhora, no início dos trinta, vestida de forma provocante e tirando partido disso e que, com um cachorrinho, ia posando de pé, sentada e deitada na relva. Achei piada, mas tinha mais com que me preocupar: as minhas próprias fotografias.
Entre duas delas, dou de novo uma olhada e reparo que a objectiva estava, discretamente por entre as folhagens, assente em mim e no meu artefacto. Ora subia, ora descia, ora abria, ora fechava, mas era para os meus lados que os clicks aconteciam.
Não me espantei ou incomodei. Afinal, o meu artefacto e a minha actividade não só estávamos num local público como éramos algo de invulgar. E já vou ficando habituado a ser objecto de enquadramento nestes propósitos.
Passado um pouco, no meio da minha azáfama, dou comigo encostado à moça/senhora. Sorridente, com sotaque brasileiro, insinuante e colocando o cachorro entre nós, o roço era evidente.
A princípio não percebi. O cão lambeu-me o nariz – só o cão, entenda-se – e ela foi dizendo umas piadas meio sem nexo mas fartando-se de rir com elas. Até que, em virando o meu olhar, vejo o fotógrafo disparando insistentemente. Horizontal, vertical, mais aberto, mais fechado, o obturador electrónico da DSLR não parava de trabalhar.
Mantive uma certa bonomia para com a moça (que o merecia), o cachorrinho (que de nada entendia) e o fotógrafo (que olhava para mim dentro e fora do visor).
Ao fim de um pedaço, lá entenderam que já chegava e afastaram-se. Sem uma palavra, um sorriso, um olhar cúmplice ou mesmo um menear de cabeça. O trabalho estava feito e pronto.
Aqui saltou-me a tampa!
Pedindo desculpas para uma pequena pausa a quem me rodeava e esperava vez, dirigi-me ao portador da câmara fotográfica, segurei-lhe levemente no braço e afastei-o de quem com ele estava, que o que lhe tinha para dizer não era para muitos ouvidos. E ouviu!
Ouviu que, ainda que mestres no mesmo ofício, o respeito recíproco não se perdia; Que ainda que me não tivesse manifestado, um pedido prévio ou um agradecimento posterior teria sido simpático; Que por muito discreto que ele pudesse ser, a potente teleobjectiva dava nas vistas por entre as ramagens e que a encenação da moça nada tinha de espontâneo; Que eu estava a sentir-me usado e abusado; Que noutras circunstancias, com menos gente por ali e com menos trabalho também, trataria de lhe confiscar a câmara, à força se tal tivesse que ser, até à chegada das forças policiais que eu mesmo chamaria, para que as minhas imagens fossem destruídas na sua presença; E que não confiasse em demasia na alvura e comprimento das minhas barbas, que atrás delas estava quem o pudesse pôr em prática.
Engoliu em seco, atirou-me com um “obrigado” mais frio que o pólo Norte, pegou no braço da moça e afastou-se. O canito, esse, não teve que correr, que estava nos braços dela.
Por mim, voltei à diversão colectiva e consentida que o meu “Oldfashion” permite e propícia.
Não sou pessoa de ler publicações “cor-de-rosa” ou do “jet-set”. Mas, e se por acaso, vier a ver alguma imagem minha com aquela senhora e cão e sem o meu consentimento expresso… Bem, para alguma coisa servirão advogados e tribunais!
Que uma coisa é ser Photógrapho, outra é ser fotógrafo!
Texto e imagem: by me
domingo, 18 de julho de 2010
Como ilustrar?

Quando se aproximou, meteu conversa. O artefacto ali exposto é, quase sempre, motivo de conversas com o seu utilizador, de sorrisos de memórias distantes ou de apartes para os companheiros de passeio. Mas os oitenta anos deste passeante não perdoaram e acabou por se sentar no banco de jardim.
Passado um pouco de bate-papo de recordações, eis que, do outro lado do coreto, surge uma cara conhecida. Já por lá tinha passado várias vezes e muitas tinham sido as horas de conversa filosófico-política. Um dos seus entreténs é tentar desmontar a afirmação do fotógrafo em ser anarquista.
Na sua companhia vinha um gigante. Não um mitológico, mas media, bem medidos, um e noventa e cinco. Para cima.
Fotógrafo e câmara são apresentados, como figuras raras mas já típicas do local, com um comentário “Não te tinha dito?!”
Conversa vai, conversa vem e, a propósito de qualquer coisa, falou-se de basquetebol. Que o mais alto dos dois Luíses tinha praticado há uns bons quarenta anos.
E o pequenino, lá do banco com o cão ao lado, salta como que picado:
“Basquetebol? Você praticou basquetebol? É que, sabe, eu fui seleccionador do Clube Tal! Sou o Carvalhal!”
“Nem me diga! Quando? Então deve-se lembrar de mim, que treinámos e jogámos juntos!”
E lembrava! As memórias conjuntas jorraram como que fresquinhas: nomes, lugares, encontros e resultados. Fotógrafo e visitante habitual ficaram de fora, que nada daquilo lhes dizia respeito, a não ser a satisfação daquele encontro fortuito e improvável.
Dos relatos distantes resultaram nomes e encontros recentes e foram reforçados por telefonemas para outros dali ausentes mas que tinham partilhado lugares e experiências. E trocas de números de telefone.
Antes de se separarem, os dois para um almoço com terceiros, o mais pequeno com o cão para casa, deixou o conhecido uma pergunta:
“E agora? Como é que vai registar este encontro? Nem uma fotografia dos dois juntos faz?”
“Não! retorquiu o fotógrafo, Como mau repórter, fico-me com as memórias e as letras, mais tarde lançadas no papel. Depois logo penso numa imagem!”
Aqui fica, deixando as recordações e o reencontro para quem o viveu.
Texto e imagem: by me
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Janelas fotográficas

Quer seja a ver quer seja a fazer, a fotografia faz parte das nossas vidas e mais ou menos um carregar no botão é um acto banal. Tal como é banal lidarmos com fotografias, nos media, nos álbuns, nos computadores. Seja de coisas e lugares desconhecidos, de recordações de gentes e locais, de nós mesmos. Haverá mesmo, como me foi confessado em conversa informal, quem as rasgue por não gostar do que si nelas via. Aquela memória não a queria!
Mas, as mais das vezes, não nos apercebemos que a fotografia não é universal, nem geográfica, nem culturalmente e, importante da mesma forma, nem economicamente.
Eles eram dois.
Com um ar sujo e um olhar acossado, que lhes dava uma maturidade que em nada correspondia à sua juventude de 16 e 15 anos. A nossa comunicação foi francamente difícil, que de Búlgaro nada sei e eles de português menos que nada. No final, acabámos por falar em inglês, que o de um deles ainda dava para tal, ainda que igualmente muito fraco.
Pois quando souberam que as fotografias eram grátis – palavra quase universal – não resistiram e quiseram fazer. Questionados sobre se queriam uma dos dois ou duas individuais, optaram pelas segundas, que sempre seriam duas fotos que levariam.
Depois de as fazermos, de as receberem e de preenchido o inquérito, conversaram um pouco entre eles e quiseram fazer outra, agora em conjunto. Disse-lhes que não, que grátis seria apenas uma e que as seguintes seriam pagas. Á falta de dinheiro, recorreram a argumentos, alguns engenhosos e com o recurso à ajuda divina, mas fiquei na minha. É assim que funciono e as excepções têm que ser muito bem justificadas, o que não era o caso.
E afastaram-se ali para o lado, para a relva, com os seus odores bem fortes, com os seus sacos maltrapilhos e os seus sorrisos de meninos-homens.
Passado um pouco, e porque havia pouca gente pelo jardim, reparo neles de novo. Deitados na relva, de barriga para o ar e a cabeça assente na bagagem, entretinham-se a observar as fotografias recém feitas. Mais de perto, mais de longe, vendo, apontando e mostrando ao companheiro os detalhes, deles mesmos ou da paisagem.
Pela forma como as viam e como, mais tarde, as guardaram nos sacos informes, aquelas fotografias eram quase como que um tesoiro, imprevisto e precioso. E quando, mais tarde ainda, e depois de terem ali dormido a sesta, um à vez por segurança, a forma como passaram por mim ao partirem e se despediram apenas reforçou a minha certeza: a importância daqueles papeis coloridos que levavam nos sacos. Junto com a sujidade, a evidente fome e aqueles olhares – imberbes - que os colocam numa vivência que desconhecemos de perto. Nós, que lidamos como a fotografia como eles com restos e moedas de cêntimo.
Esta imagem que vos mostro foi feita quando eles repousavam na relva, vendo as fotografias. Aperceberam-se do retirar da DSLR do saco e do apontar a 400mm e, sem hesitar, “fizeram-se à fotografia”. Não era esta que eu queria fazer, que preferia tê-los a ver as fotos.
Mas talvez assim seja melhor. Para estes sem abrigo certo a menos de uns milhares de quilómetros, a descontracção na relva e o respectivo registo seria uma invasão da sua privacidade, que não têm. E vieram espreitar por sob uma cortina inexistente, da sua casa sem paredes, para ficarem na janela do meu enquadramento burguês.
E, como costumo dizer em tom de brincadeira mas cada vez mais a sério, não sei quem, neste negócio de fotografias grátis, fica a ganhar: Se quem as leva se quem as faz.
Texto e imagem: by me
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Amor com amor se paga

Vi-a aproximar-se. Fins dos 60’s, principio dos 70’s, bem vestida e com um andar firme. Ao passar pelo chafariz (avariado e sem torneira, por sinal), parou. Deu meia volta, abeirou-se de um canteiro florido e colheu um ramalhete. Não uma nem duas mas um ramalhete de flores.
Não gostei! Não gostei nem um bocadinho! Claro que elas estão ali, sem redes nem guardas. Mas tenho para mim que, ainda que sejam pagas pelo erário público, ou por isso mesmo, as devemos lá deixar ficar, para nosso prazer e dos que em seguida vierem. Mas como ela não terá sido a primeira nem, infelizmente, será a última, deixei-me ficar, registando para mim o facto. Nada mais.
Depois de as ter composto na mão, retomou a marcha. Para os meus lados. E quando deu com os olhos no meu artefacto, inflectiu o rumo e aproximou-se.
Às saudações habituais, de quem está bem disposto consigo e com o mundo, acrescentou a questão de, estando eu por ali, porque não iria eu também ao Jardim da Parada, ali em Campo de Ourique?
Lá lhe respondi, cortês mas sem grandes sorrisos, que gosto mais do da Estrela (ainda que já lá tenha estado e até nem me tenha desagradado. É uma alternativa possível.)
Quando me perguntou pelo preço, não perdoei! Disse-lhe que eram grátis mas não roubadas, como as flores que tinha na mão! E que se todos fizessem como ela, nenhuma restaria para vermos e gostarmos!
A resposta? Bem, foi sublime!
Disse que sabia ser pecado; Que antes mesmo de as arrancar tinha pedido perdão a deus; Que eram para a sua neta, pelo que seriam para uma boa causa; Que ela mesma até era muito piedosa, alimentando mais de vinte gatos vadios lá na rua dela, sem pedir nada a ninguém.
Os deuses perdoam, os burros esquecem! Não sendo eu nem uma coisa nem outra, quando acrescentou que haveria de passar por ali de novo, desta feita com a neta, para “tirar” uma fotografia, sempre lhe disse que logo se veria se me apeteceria ou não fazê-la.
Olhou para mim uns segundos, sorriu como se tivesse acabado de me perdoar de uma terrível blasfémia e seguiu o seu caminho sem mais uma palavra.
Não sei se lhe recordarei a cara caso regresse daqui a uns dias. Mas se a memória me não falhar e ela voltar, fotos minhas de borla não terá!
Manias minhas, que até gosto de ver as flores nos jardins!
Texto e imagem: by me











