sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A catita



A Catita era uma pacata jumenta que residia com meus avós, no Algarve. De bom feitio, prestava-se sem grandes protestos aos pouco carregos que lhe eram pedidos ou às raras vezes que tinha que puxar a charrete amarela e vermelha em que os meus avós se deslocavam às aldeias vizinhas em visitas familiares.
Encontrava-a todos os anos quando por lá ia passar as férias de verão.

Rotina diária era ir pôr a Catita ao pasto no final do dia e ir buscá-la de manhãzinha. Ficava ao relento, com umas peias e uma espia numa estaca, dando-lhe um raio de acção de uns 25 metros.
Acompanhava eu o meu avô nessa rotina, orgulhosamente montado na manta de riscas que a cobria. Já conhecia os truques e técnicas, de tanta vez o fazer.

Um dia quis ser grande. Quis ir buscar a Catita sozinho. Não me queriam deixar, mas tanto insisti que acabei por levar a minha avante.
Em lá chegando, cometi um erro fatal: retirei-lhe as peias e a espia antes de lhe colocar o cabresto.
Ora a bela da Catita, que até era pachola, apanhou-se livre como nunca e pirou-se. Correu pelo restolho fora, atravessou o pomar vizinho e quase me fugiu de vista.
E digo quase porque não fiquei inerte. Assim que ela desembestou, percebi o que tinha feito, peguei no cabresto e vá de correr atrás dela.

Agora tentem lá correr por cima do restolho e torrões rijos, com um cabresto na mão e a respectiva arreata rojando no chão. Isto tentando igualar a jumenta na corrida.
Dei vários trambolhões em cima daquele restolho aguçado e cortante, mas nunca esmoreci.
Acabei por a apanhar numa vinha próxima, onde a Catita se deliciava com as uvas ainda frescas da madrugada.
Já encabrestada, regressei pelo mesmo caminho a fim de recolher as peias, espia, estaca e manta e voltar para casa.

À chegada, e perante o meu atraso, já meu avô se preparava para me ir buscar, junto ao portão que separava o quintal calcetado da estrada asfaltada.
Em face do meu estado, pouco me foi dito. Os meus calções e camisa rasgados, o peito, braços e pernas escorrendo dos arranhões profundos e o meu olhar cabisbaixo foram castigo mais que suficiente. Isso e a desinfecção que o meu avô, ex-enfermeiro do exercito, tratou de me fazer.
E nunca mais se falou em eu ir buscar a Catita sozinho.


Mas aprendi a lição: Procedimentos de segurança em primeiro lugar.

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Grafia



Há cinco anos contava eu esta história.
Foram uns tempos que, felizmente, consegui transformar em divertidos, com diversos episódios que, bem mais que divertidos, me mostraram que a espécie humana não está tão à beira do precipício quanto podemos pensar.
E faz bem, em certas ocasiões, lembramo-nos disso.


“Isto é uma fotografia.
Melhor dizendo, isto é a grafia feita por algo com comprimentos de onda muito inferiores ao da luz.
Por outras palavras, isto é uma radiografia.
Faz o registo daquilo que não vemos porque, por exemplo, coberto de carne. Humana, neste caso.
Em boa verdade, é daquelas grafias, ou imagens, que estamos sempre desejando nunca ver ou, melhor ainda, nunca sermos o objecto registado.
Trata-se, para ser rigoroso, da minha mão esquerda, com um belo de um ossinho fracturado, e antes ainda de ter sido engessada.
Há sempre uma primeira vez para tudo na vida, hoje, tocou-me esta.
Isto e mais a história, realmente mirabolante, que contarei assim que me habituar (e terei bastante tempo para isso) a usar somente a mão direita no teclado.

Bem como somente a mão direita para um montão de outras coisas.”

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Só para que conste




Subir na vida não significa isto.

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

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É assustador a quantidade de gente que se insurgiu a propósito do post sobre o carro na passadeira de peões, achando que aquilo, afinal, até que nem é grave.
Até ao dia em que a cadeira do bebé ou a sua própria cadeira não consiga passar porque alguém ali decidiu deixar o seu popó.

Um carro estacionado numa passadeira de peões, numa paragem de autocarro ou em cima do passeio não é um acidente, não é uma distracção, não é justificável com um “é só um minuto”.
Porque é necessário menos de um minuto para atropelar um peão.

Legalmente quase que se pode chamar de tentativa de assassínio por negligência.
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93-RX-79



Claro que o dono deste carro, marca BMW e matricula 93-RX-79, de 2016, poderá sempre alegar que estava correcta e legalmente estacionado e que foram os mal-formados funcionários municipais que pintaram o chão e colocaram os semáforos. Ontem mesmo e junto a um dos portões do Jardim Gulbenkian.
Mas não acredito que algum juiz aceite tal desculpa. Nem eu.

Assim, e se virem o responsável pela viatura, dêem-lhe os meus cumprimentos. Directamente no trombil com um pé-de-cabra, de preferência.

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Livros



A situação é recorrente.
E por recorrente entenda-se ter sucedido umas quatro vezes nos últimos seis meses. Dadas as condicionantes, posso chamar-lhe recorrente.
Em procurando eu um livro que não encontro porque esgotado ou semelhante nas livrarias habituais, clássicas mesmo, ou da moda nos centros comerciais, vou a esta.
Perguntando por aquilo que procuro e ficando a saber que não possuem, pergunto se mo arranjam por encomenda. A resposta é, as mais das vezes, sim. E deixo o contacto, o que com um ou dois dos que lá trabalham não preciso porque já me conhecem.
Passados dias, poucos, recebo uma mensagem dizendo-me que já lá está à minha espera.
E recordo um caso concreto em que o editor deixou de ter representante em Portugal e que mo foram encontrar lá fora. Tendo o cuidado de me informar disso antes de encomendarem, para saberem se eu estaria pelos ajustes pelo óbvio pequeno aumento de preço.
Desta feita perguntei por um livro que possuo e de que quero oferecer uma cópia. E sobre ele já ouvi mais de meia dúzia de negativas, que incluem o estar esgotado no editor.
Fiz a pergunta e mais uns dedos de conversa ontem, domingo, a meio da tarde. Hoje, segunda-feira, por volta da hora de almoço, recebo a informação de já lá o terem reservado para mim.
É por esta e por outras, que incluem a simpatia de quem lá trabalha, o saberem e gostarem daquilo que vendem, o cartaz na montra e o haver bancos de jardim em frente da loja, na rua, que faz com que tanto goste desta livraria.
O seu nome? “Pó dos Livros”. E fica na av. Duque de Ávila, em Lisboa.
Recomenda-se a visita.

Nota adicional:

Disse-me alguém uma ocasião que muitas vezes compramos livros na expectativa de um dia virmos a ter oportunidade de os ler. Tão verdade.

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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Uma história divertida



Uma das características do meu projecto “Old Fashion” era a possibilidade de as fotografias feitas poderem ser publicadas na net.
Se essa possibilidade hoje nada tem de extraordinário, na altura era quase que uma inovação. Quase.
Claro está que os fotografados eram inquiridos sobre se o autorizavam ou não e a resposta registada e cumprida sacramentalmente.
Quando acontecia dizerem-me que não, e para além de anotar a resposta, perguntava se se importavam de me dizer o motivo da recusa. E sempre o soube.
E uma das respostas foi divertida.
Um casal, em que ela era extrovertida e faladora, ele reservado e calado, recusou a publicação. Disse ela que eram amantes, que ela já tinha assumido a relação mas que ele não, pelo que não poderia haver publicidade.
A resposta primou pela originalidade, bem como o que ele disse de seguida: “E agora quem fica com a fotografia?”, já que eu tinha entregue apenas um exemplar, tal como combinado.
Claro que ela já estava a resolver a questão, ajustando com uma pequena tesoira o tamanho da fotografia à janela disponível no plástico da sua carteira de documentos.
Olhei eu para um e para outro, ela satisfeita, ele triste, a tratei de fazer segunda impressão, tão à borla quanto a primeira, que lha entreguei. Não creio que eu pudesse receber melhor pagamento que o sorriso com que ele me brindou.

E espero que hoje ainda mantenham o afecto de então, agora bem mais às claras.

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O universo numa chávena de café



Aquilo que mais me agrada no universo é o seu desequilíbrio, a sua evolução e mudança constante, que fazem com que o conceito de estabilidade ou de eterno sejam uma anedota cósmica.

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Corando



Há duas formas de pôr a roupa a corar.
Uma é esta, clássica, recorrendo ao sol natural.
Outra é contar-lhe uma anedota porca.

Mas camisa velha e batida já dificilmente cora com uma piada.

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sábado, 18 de fevereiro de 2017