domingo, 18 de agosto de 2019

Segurança



Foi há uns dias.
Liguei o televisor num desses canais temáticos e foi mesmo a tempo de apanhar o fim de um programa. A voz masculina que se ouvia afirmava, em tom apocalíptico, que devemos usar as tecnologias para vivermos em segurança contra o terror.
Mudei de canal para um outro que nos mostrava uns quaisquer animais que, com a tranquilidade secular, comiam, trepavam às árvores e cuidavam das crias.
É que tenho para mim que esse tal terror se diverte à brava com as tais medidas de segurança da tecnologia – vigilância, inspecção, suspeição – já que elas, as medidas, mais que garantirem a segurança de quem nelas confia, alimentam o tal estado que o terror deseja: medo.
A cada passo que damos, em cada palavra que proferimos, por cada pensamento que temos, ficamos sempre com a sensação que o terror deles se poderia aproveitar contra nós, mas que os vigilantes, que cada vez mais tudo conseguem saber e sobre tudo conseguem agir, nos garantem que podemos estar descansados que eles nos protegem.
E vamos dando graças por eles, os vigilantes, lerem a nossa correspondência, escutarem as nossas conversas, espreitarem os nossos gestos escrutinarem as nossas bagagens. E os nossos medos, assim alimentados e assim tranquilizados, mantêm-nos na dependência deles, dos vigilantes, para gáudio do tal terror.
Que já nada precisa de fazer, que nós mesmos nos encarregamos de nos aterrorizar.
Paulatinamente vamos cedendo na nossa privacidade, na nossa condição de indivíduos autónomos, capazes de decidir das nossas vidas, em prol de uma sociedade castrante e castrada, qual rebanho que deixa os cães morder as canelas, conduzindo-nos para um redil gradeado e farpado.
Cada vez mais tenho a certeza que os tais do terror vestem fatinhos caros, falam para as câmaras e assinam decretos.

By me

Singelo




Este projecto ou colectânea de fotografias das tampas que pisamos tem duas origens:
Por um lado porque acho que devemos prestar atenção ao que nos cerca, incluindo onde pomos os pés. Tanto por questão de óbvia segurança, como por percebermos o mundo em que nos inserimos e prestarmos a devida homenagem a quem, de algum modo, embeleza o quotidiano.
O segundo motivo é mais divertido:
Um dia um colega veio perguntar-me se eu já teria reparado que as tampas de esgoto têm gravado a referência da estrada a que pertencem. Nunca tinha dado por tal e achei estranha a coisa. Insistiu mesmo, que tinha encontrado tampas com a inscrição EN124, aludindo, certamente, à estrada nacional 124.
Fui investigar, que não gosto de pontos de interrogação flutuando por cima da cabeça, e fiquei sabendo que se trata de uma referência às características técnicas da tampa, entre outras a sua robustez e capacidade de carga.
E, com esta dúvida esclarecida, comecei a prestar atenção a elas, às tampas, e a ver como algumas são bonitas, nos desenhos que possuem, enquanto outras, não sendo feias, são singelas nos relevos que possuem, cuja função será o garantir alguma tração a quem passa, a pé ou sobre rodas.
Esta, estou em crer, será a campeã de singeleza.



By me

A língua e os discursos




Dizer “Mais de sessenta vítimas mortais” ou “Sessenta e seis vítimas mortais” é quase a mesma coisa. Quase!
É que 66 é um número exacto, que não dá azo a segundas interpretações. É o frio rigor dos números.
Já dizer “mais que” permite que quem disso toma conhecimento interprete a seu modo, podendo ir de 61 a 69. E o próprio termo “mais” dá uma enormidade ao valor, dando uma carga subjectiva de “muito”, “grande valor”, “excesso”.
Sejam 60, 66, ou qualquer outro valor de vítimas mortais, será sempre demasiado. Uma que fosse seria demais.
Mas virem a terreiro os políticos tirar dividendos da tragédia é, no mínimo, desonesto. E muito pouco humano.


By me

sábado, 17 de agosto de 2019

A explicitude e o seu oposto



O trabalho que tive em explicar a um profissional da imagem que a comunicação visual não tem que ser clara, explícita, inequívoca!
Esse é um dogma que se transmite em quase todas as escolas, manuais e workshops.
Mas não é verdade! Pelo menos não é uma verdade absoluta, universal.

Se falamos de consumo rápido de imagens – fotográficas, videográficas, cinematográficas – esse dogma aplica-se. Simplicidade na forma para facilitar o acesso ao conteúdo.
Mas posso querer eu, enquanto fotógrafo, não ser assim tão explícito. Querer obrigar quem vê o que faço a não entender de imediato, a parar para perceber, a questionar e questionar-se naquilo para onde olha e a, mais que olhar, ver.
O desconcerto na leitura, a dúvida, a procura de significado… também isto é comunicação, visual no caso da fotografia.
Dir-me-ão, talvez, que esta forma de comunicação reduz a muito poucos os que a lêem, na medida em que a dificuldade de acesso ou de interpretação, nos tempos que correm e com a rapidez de consumo de conteúdos, afasta os mais apressados ou menos curiosos.
Mas talvez nem sempre eu queira comunicar com esses, pouco me importando se entendem ou não. Ou melhor: ficando satisfeito se o entendem mas nada preocupado com o seu oposto.
Fazer diferente, mesmo que fora dos códigos habituais de comunicação, é uma necessidade que a todos assola de quando em vez.
A diferença entre a grande maioria dos que usam a fotografia e de alguns que também a usam, é que estes, nestes casos, pouco se importam com a reacção ou interpretação do público. “Likes” e “Coments” são “Cenas que não os assistem”.
Fazem-no e exibem-no porque lhes apeteceu, porque foi assim que alinharam a cabeça, o olho e o cérebro. E não para que outros gostem, ou mesmo que interpretem, entre dois clicks ou o passar rápido das páginas de um site ou revista.

Se o objectivo de um fotógrafo for a comunicação de massas, o chegar a todos, o fazer passar uma mensagem, o ganhar apreço ou dinheiro, mesmo que seja com uma pasta de dentes ou com um pôr-do-sol, esqueça-se tudo o que disse acima. Sigam-se as regras da academia, as fórmulas e os algoritmos, as modas e as convenções.


Mas se o objectivo for colocar a sua alma no que faz e mostra, pouco preocupado com as interpretações ou opiniões de terceiros…

By me

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A janela



Foi do lado de lá desta janela. Ou talvez da do lado, não posso já garantir.
Mas foi do lado de lá que, naquela segunda-feira, pelas 8.30 da manhã, pela primeira vez fiquei frente-a-frente com uma turma de alunos. Sozinhos, eles e eu.
Para eles era uma estreia, já que se tratava do primeiro dia de um ano escolar e estavam no primeiro ano de um curso profissional onde esperavam vir a aprender um ofício. Um ofício que queriam ou supunham querer.
Mas, mais que para eles, que toda a sua vida tinham sido alunos em turmas, era a minha primeira vez daquele lado da secretária. Com todos os receios que o peso da responsabilidade e a consciência da minha ignorância naquela actividade acarretavam. Talvez mesmo, mais que receios, roçava o pânico.
E, à medida que eles iam entrando na sala, cada um deles sozinho e a descobrir o que era aquilo, eu, de pé em frente da secretária e sorrindo para eles, olhava-os e o medo crescia. Que, na expressão de cada um e uma, na pose de cada um e uma, eu via ou tentava descobrir quem eram e ao que vinham. Mas, pior ainda, era ir adivinhando demoníacas tropelias e terríveis dificuldades no relacionamento aluno/professor. Passados todos estes anos, tenho que confessar que estive quase a abandonar a sala e o trabalho!
No entanto, e por um qualquer motivo, deixei-me ficar, venci os medos quase pânicos e, findos uns dias de convivência, apercebi-me do quanto estava enganado.
Ao contrário do que havia visto, aquela era uma turma de rapaziada e raparigada excelente, ávidos de aprender e desejosos de trabalhar. Foi óptimo ter estado com eles!
Resta-me saber quem, daquele ano lectivo, mais lucrou e aprendeu: se eles enquanto alunos, se eu enquanto ajudante de aprendizagem. Que foi exactamente nesse ano, o primeiro, que entendi e aprendi a diferença entre ajudar a aprender e ensinar.
Claro que, e para além disto e de tudo o mais que fui entretanto aprendendo com os alunos, ficou-me a certeza que não devemos dar crédito à primeira impressão com uma turma. Ou com um individuo. Que essa primeira impressão depende do nosso próprio estado de espírito, bem como do daqueles que avaliamos. E que, nesse processo de recíproca abordagem, em regra ficam escondidas as melhores facetas.
Dar tempo ao tempo e oportunidade de cada um se descobrir, se desvendar, de dar o seu melhor e o seu pior. E aí sim, fazer ou ir fazendo um juízo sobre o grupo ou pessoa. É uma boa regra que deve ser seguida sempre!
Claro que o “Sempre”, tal como o “Nunca”, são conceitos que nunca devem ser seguidos sempre. Até porque, por vezes, a primeira impressão acaba por se revelar a mais correcta, por mais tempo e esforço que se use no aprofundar o conhecimento.
Foi o caso de um aluno que tive, passados anos e noutra escola. Desde o primeiro dia que não tive boa opinião a seu respeito. Enquanto cidadão, enquanto aluno, enquanto futuro profissional. E, do que recordo das reuniões de professores, era a opinião generalizada.
Acabo agora por o reencontrar neste mundo maluco dos audiovisuais. Não o reconheci de imediato, para vergonha minha, e foi ele que mo recordou. E, se também então não recordei a opinião que tinha formado dele, a consulta aos arquivos, então em papel, refrescou-me a memória.
E tive a tristeza de constatar que essa opinião era correcta. O que dele vi a trabalhar bem como o que dele vi enquanto mero cidadão veio, sem sombra de dúvidas, na linha do que havia sentido anos atrás. Mais valia que, quando abandonou o curso a meio, já não sei porque motivos, tivesse seguido uma qualquer outra actividade onde, para além de ganhar a vida, o fizesse com mais qualidade e brio.
Mas, por outro lado, fiquei satisfeito. Foi o facto de ele ter abandonado o curso, bem como mais um ou dois ao longo dos anos que com jovens trabalhei, que fez com que o meu objectivo se mantivesse impoluto: Não reprovar um aluno! Que em algum sendo mais fraco na aprendizagem apenas iria exigir mais esforço da minha parte. Afinal, é para isso que se está numa escola: para aprender, sendo essa a função dos que lá estão a “ensinar”.
Porque “Escola” é isso mesmo: O abrir das janelas sobre o futuro e mostrar aos alunos os horizontes que dali se vislumbram. As portas que se abram, os caminhos que se tracem e os horizontes que se atinjam, isso, já não depende de nós. Serão eles que o farão!

By me

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Conceitos



“… Quando não houver verdadeiro impacto, não haverá arte. Quando a forma artística não é capaz de provocar o desconcerto no espírito do espectador e não o obriga a mudar de forma de pensar, não é actual.”

Antoni Tàpies, in “A prática da arte”, Edições Cotovia
Imagem: by me

Liberdade



O conceito “A minha liberdade termina onde começa a do outro” é um absurdo!
A liberdade não termina. A liberdade não tem limite, ou deixa de o ser. Ponto final!
A liberdade é o eu fazer o quero fazer, sem amarras ou peias.
Se assim não for, mais não será que liberdade condicional, como vemos nos filmes.

Acontece que eu não quero interferir com a liberdade dos demais.
Faz parte da minha liberdade o querer que os outros sejam livres. A minha liberdade depende de os outros serem igualmente livres. É uma decisão minha, livre e autónoma. Não imposta por um qualquer dogma ou conceito vindo de fora.

Talvez que seja nesta questão, que aparenta ser apenas semântica, que reside toda a diferença.

By me

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Um olhar sobre o olhar



De arquivo de há dez anos

Foi coisa que sempre tive pudor em fazer: fotografar um cego.
Como diabo se pede a alguém para fazer algo que não poderá saber o que é?
Já me é particularmente difícil fotografar alguém sem o seu conhecimento e consentimento. Para além das eventuais questões legais, que as há, sempre se me pôs a questão de, ao fazê-lo, estar abusivamente a entrar na intimidade do fotografado. Mesmo que na rua, mesmo que no meio de uma multidão, existe uma privacidade, um recato que há que respeitar.
Agora fotografar um cego? Não apenas se me afigura muito mais difícil, como nem sequer sei como lhe pedir para tal!

Esta questão, que sempre me incomodou um niquinho, tomou proporções bem maiores nas últimas trinta horas.
Nestes dois dias usei, para o regresso a casa, uma estação de caminho de ferro que nunca uso em início de tarde. E, curiosamente, em ambos os dias, dou comigo a auxiliar cegos, meio perdidos naquela confusão de uma grande estação, com inúmeras escadas e acessos. Auxiliei-os nas suas necessidades imediatas, bem como nas seguintes, acabando por os conduzir a pontos ou lugares bem para além ou ao lado dos meus próprios trajectos.
O que me permitiu manter alguma conversa com eles (dois homens ontem, uma senhora hoje) e que, em circunstâncias normais, poderia acabar com um retrato ou um “olhar”.
Mas, apesar desse contacto de quase uma hora cada, sempre estive com pudor em lhes propor semelhante coisa. Como diabo se lhes pode pedir para fazer uma coisa que eles mesmos não sabem o que é, nem virão a saber?

Se eu fosse pessoa para acreditar num destino pré-concebido, até poderia pensar que estas duas situações incomuns e fortuitas para mim, em dois dias consecutivos, seriam alguma premonição para o fazer. Mas não sei se, amanhã tropeçar noutro cego, terei a coragem ou o atrevimento para lho pedir.

E não! Na imagem não está um cego, ainda que use óculos para ver melhor. Apenas o olhar de um amigo que gostaria de ter agora por perto para lhe perguntar que faria ele nestas circunstâncias.

Platonismo fotográfico



A minha primeira câmara fotográfica digital foi uma Mavica, fabricada pela Sony.
A escolha por esta marca e modelo não foi à toa e, ainda hoje, estou convencido que foi bem feita. Para além de possuir uma objectiva mediana com um bom poder de zoom, tinha também foco manual, condição de base para qualquer câmara que compre.
Mas o principal motivo da escolha, então, foi outro. Ainda que tivesse menor resolução que outras então no mercado, o suporte da imagem era uma disquete de 31/2. E esta era – ainda que já não – lida em qualquer computador, sem necessitar de instalar qualquer software especial. Nos tempos que correm, com os cartões e com os sistemas operativos existentes e o reconhecerem qualquer leitor de memórias, o problema não se põe. Mas, na altura, era complicado.

Claro que uma primeira câmara digital leva a que se façam inúmeras imagens a propósito de tudo e de nada. E se há local onde isso pode ser feito é lá onde trabalho, onde há algum tempo morto, cenários e condições de luz incomuns e gente disposta a ser fotografada ou a partilhar das experiências. Intervenientes e colegas.

Uma ocasião cruzei-me com uma ex-colega. Há muito que não nos víamos mas a relação então mantida foi forte e, apesar dos anos passados, sobreviveram algumas memórias agradáveis.
A meio do jantar, recorda ela que ainda possuía uma fotografia que lhe tinha feito. Estaria ela a comer um gelado mas eu, mais tarde no PC, tê-lo-ei apagado, ficando um retrato invulgar e, segundo ela, engraçado e de guardar.

Admito que não recordava o episódio e que ainda não tive tempo de pesquisar os arquivos para a encontrar. Mas o facto de ter sido recordada pela retratada e de ainda guardar a imagem, leva-me a algumas cogitações.

Será que uma boa fotografia é aquela que mostra o que os olhos vêem?
Será que uma boa fotografia é aquela que mostra impolutamente aquilo que a objectiva projecta no alvo?
Será que a fotografia, mostrando algo de concreto e sendo um retrato, tem que ser objectiva?
Será que uma fotografia que “mente” deverá ser considerada como uma má fotografia ou como uma “não-fotografia”?
Será que eu, ao manipular em laboratório digital a fotografia, estive a fazer algo de diferente daquilo que faço com o enquadramento, deixando de fora deste tudo aquilo que não interessa?
Será que a fotografada, passados todos estes anos, se recordaria ou conservaria uma fotografia feita casualmente em que estivesse a comer um gelado?

Tenho para mim que a fotografia não mente!
Apenas mostra aquilo que o seu autor quis mostrar, directamente da luz para o suporte ou com tratamento pelo caminho. E a uma fotografia não tem que corresponder a realidade objectiva mas antes a realidade subjectiva do fotógrafo e do fotografado. Por que a realidade é apenas aquilo que fizermos dela e nada mais.
Não seria Platão, na sua caverna, um fotógrafo do seu tempo?

By me

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Memórias




Recordo, nos idos de ’74 e ’75, de filas intermináveis para abastecimento de combustível. E de pão. E de leite. E, se a memória me não falha, de água, por via de umas “avarias” nas condutas.
Este mapa com a indicação de onde ainda há e já não há gasolina teria sido útil então.
Mas, tal como há quarenta anos, também hoje os açambarcadores estão impunes, sendo eles os responsáveis em parte pela escassez que se sabe.
Só que, obviamente, não se recomenda usar armas de fogo junto de bombas de combustível. É pena.



By me