domingo, 9 de dezembro de 2018

Fraude é fraude!




Sobre a polémica dos registos de presenças fraudulentos na Assembleia da República, leio num jornal:
“…
O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, já tinha apontado a necessidade de uma maior exigência na "responsabilidade e responsabilização individual (de cada deputado) e coletivas (de cada grupo parlamentar), sancionando as irregularidades".
Fernando Negrão limitou-se a dizer que fará um "trabalho de sensibilização" e que há uma "relação sagrada entre deputado e eleitor", onde o grupo parlamentar não mete a colher. Essa sensibilização passa por "chamar a atenção dos deputados", mas o grupo parlamentar "não é uma empresa, não pode ir além disto".
...”
Pergunto ao lider da bancada do PSD onde enquadra a “relação sagrada entre deputado e eleitor” na disciplina ou liberdade de voto que os partidos aplicam.
Tal como pergunto se os parlamentares não estão ao serviço de Portugal, tal como os funcionários públicos. E se estes podem ser objecto de procedimentos disciplinares, que incluem o despedimento, o que impede que os deputados tenham o mesmo tratamento em situações análogas?
Fraude é fraude!


Imagem: edit by me

Fotografia – Purismo ou edição?



Essa é uma questão antiga, quase tão antiga quanto a fotografia. E que tem envolvido muitos e bons fotógrafos em torno dela.
Por mim, tenho que “fotografia” é tudo aquilo que medeia entre o que vejo e o que mostro. Por vezes pesado, complexo, dispendioso, por vezes tão simples quanto o click da obturação e o click da impressão ou publicação on-line.
Importa, do meu ponto de vista, que a imagem final mostre aquilo que os olhos e a alma viram. E se aquilo que a alma viu não corresponde ao que os olhos viram, por limitações técnicas no momento ou por incapacidade do fotógrafo, faz sentido ajustar posteriormente. 
Claro que há uma “terra de ninguém” entre o que é fotografia, mesmo que ajustada à visão da alma, e o que é “arte gráfica”, construída a partir de um registo fotográfico. 
Quando, e no tempo em que só havia película, se usavam filtros coloridos na câmara para controlo de contraste, se faziam máscaras no ampliador, se alteravam as características do papel ou a forma de revelar, se alteravam os enquadramentos originais no conteúdo ou proporção… não seria isso equivalente às edições electrónicas de hoje? 

Creio ser tão legítimo o recusar a edição posterior como o usá-la. Desde que o resultado final corresponda ao que o autor pretende mostrar. 

Imagem: 
À esquerda “O violino de Ingres” (1924) de Man Ray
À direita “Joiners”, (1983?) de David Hockney.

By me

Em tempo de crise




Recordo uma história cuja veracidade não asseguro. Por aquilo que suponho saber, remontará aos tempos do PREC.
Terá um dirigente partidário português comentado para um outro escandinavo: “Nós queremos acabar com os ricos.” Ao que o outro terá respondido “Pois nós queremos acabar com os pobres”.
Verdade, com estes ou outros, ou mentira, lembro isto a propósito do quanto estão escandalizados os sindicatos dos funcionários públicos sobre o aumento salarial decidido pelo governo apenas para os escalões inferiores, deixando todos os demais na mesma. Por aquilo que li nos jornais, esta medida abrange 50 a 70 mil pessoas, deixando de fora mais de 600 mil. Segundo as mesmas fontes, o salário mínimo na função pública passa para 635 euros, no lugar do fixado para o sector privado que se fica pelos 600 euros.
Caramba!
Eu gostava de ver os sindicatos (e os trabalhadores por eles representados) satisfeitos por saberem que os que menos ganham passaram a ganhar um pouco mais. Que para quem receba líquido 1500 euros pode ser pouco significativo, mas para quem receba 600, 35 euros é notório.
A cupidez de alguns é terrível!
E é doloroso ver gente emparelhada em tarefas com os mesmos objectivos e, na pausa para a refeição, uns a comerem bife e outros a comerem salsicha.



By me

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Crises




Pese embora estar meio encapotada, a verdade é que a crise está aí.
Continua a haver gente com fome, continua a haver gente sem trabalho, a dívida nacional existe e é grande, os negócios abrem e fecham…
Pela minha parte vou fazendo o que posso para a mitigar, variando os meus consumos por diversas lojas. Mesmo o que acontece com os meus impostos, bem ou mal geridos, não é algo que deixe por inteiro em mãos alheias, estando mais ou menos atento ao que vou sabendo sobre o assunto e intervindo se e quando possível.
No entanto, há um peso que tenho na consciência: O meu barbeiro está a ir à falência. E se mais houver quem use a sua pilosidade como eu, mais rápido será.



By me

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Mistérios




Gostava de ler um conto ou romance escrito por George Simenon, Agatha Christie, Erle Stanley Gardner ou mesmo Ross Pin sobre o mistério das meias desaparecidas.
Crime passional? Terá sido o mordomo? Ou uma questão de heranças?


By me

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Tempo



É uma daquelas brincadeiras inocentes sobre comportamentos que qualquer um pode fazer: 
Em vendo alguém consultar um aparelho de medida de tempo (de pulso, de bolso, de parede ou num telemóvel), assim que for de novo guardado perguntar de imediato “Que horas são?”.
Constatarão que a esmagadora maioria das pessoas olhará de novo para o relógio, porque não o sabe de cor.
Na verdade, quando olhamos para um relógio, aquilo que queremos saber ou aquilatar não é o valor nele indicado mas sim a sua relativização. Quanto tempo falta para ou quanto tempo já passou desde que. É cedo ou tarde.
O valor real, em horas, minutos ou segundos de pouca monta é. Que no momento seguinte estará alterado, pertencendo ao passado. 

Assim, não fiquei de todo surpreendido ou incomodado quando fiz esta fotografia.
Olhando para o que este relógio de sol me indicava e comparando isso com o meu relógio de pulso, o telemóvel e a indicação da câmara fotográfica, obtive quatro informações diferentes. Mas pouco relevantes, já que estava exactamente na hora de fazer uma fotografia. Ou, em o preferindo, faltava pouco para dali a um pedaço.
Em última análise, e para os cépticos ou cientistas, será a demonstração prática de uma das leis de Murphy: aparelhos de medida iguais, nas mesmas condições, mostram resultados diferentes.

By me

sábado, 1 de dezembro de 2018

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Não




“And there we go again!”
Por aquilo que li num jornal, a votação do orçamento de estado para 2019 contou com um voto contra de um deputado que não votou porque não estava presente.
De acordo com o jornal, o deputado do PSD esteve presente no parlamento e no hemiciclo durante os debates mas ausentou-se de emergência por via de um problema de saúde de um familiar. E, aquando da votação, alguém terá votado por ele.
Se as ausências são justificadas e se a saúde complicada de um filho é motivo mais que suficiente para se sair a correr de onde quer que seja, já os votos por procuração ou correspondência no parlamento são proibidos.
Taxativamente!
Quem quer que se tenha registado no computador de Feliciano Duarte para que este voto contasse, bem sabia o que estava a fazer: uma ilegalidade.
Diz o jornal que o deputado irá contactar os serviços da assembleia para que, eventualmente, lhe seja marcada falta. Desculpem, mas não percebi.
Comete-se uma ilegalidade e o mais que se pretende fazer é marcar uma falta, mesmo que legítima e mais que justificada?
Comete-se uma ilegalidade no lugar onde são feitas as leis e onde, por estatuto dos membros, a “palavra do deputado faz fé”, e apenas se pensa em marcar falta?
E, por outro lado: é inconsequente que a opinião e vontade do povo português, representadas por cada um dos deputados na Assembleia da República, seja assim tão malbaratada, a ponto de os eleitores verem que outro alguém vota e decide por nós sem que para tal tenha sido mandatado?

Recordo que, nos tempos da Troica e do governo de Passos Coelho, decorria uma manifestação de rua e um deputado terá afirmado que “o poder não pode cair nas ruas”. Esta afirmação, que politicamente é forte nos motivos e consequências, impede a democracia participativa e defende a democracia representativa, excluindo a expressão livre e legítima dos cidadãos nos assuntos da sociedade.
Mas se os representantes não são honestos (alguns deles) qual a legitimidade das suas decisões?
O estatuto dos deputados coloca-os num nível de elite, acima dos cidadãos que representam. Talvez esteja na altura de revermos este estatuto e de os conduzir à justiça pelas ilegalidades que cometem. Incluindo a falsificação de presenças e votações.

By me

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Fisgas e carabinas




Uma faca é uma faca, dizem-me. Não, penso eu. E ajo em conformidade.
Apesar de uma faca ser uma faca, não creio que sobrevivesse sozinho na selva com uma faquinha de compota. Ou que passasse despercebido se num restaurante usasse uma faca de mato para atacar uma posta de peixe espada grelhado. Nem seria de todo cómodo usar uma faca de trinchar para afiar a ponta de um lápis.
Ao longo dos tempos temos vindo a aperfeiçoar as ferramentas, algumas só depois de muitas tentativas falhadas, e conseguimos ter um razoável conjunto de utensílios específicos para diversas tarefas.
Podemos usar, genericamente, qualquer um de qualquer família de utensílios para quase todas as funções iniciais. Mas é muito mais fácil, e agradável, se usarmos as específicas caso as tenhamos.
Não pensaria em ir fazer reportagem de guerra com uma câmara técnica 9x12. Apesar de o poder fazer. Ou publicidade para painéis exteriores com um telemóvel. Apesar de o poder fazer.
Uma câmara é uma câmara, tal como uma faca é uma faca.
Mas, tal como um velho anúncio televisivo, “Não mate leões com fisga nem moscas com carabina”.


By me

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Ortodoxias




Por vezes há que ser rigorosamente nada ortodoxo!
Aquela turma era um pouco mais “indisciplinada” que o habitual. Coisa que me agradava e agrada, já que nas áreas criativas a indisciplina é vital: há que ser indisciplinado na vida para deixar a criatividade crescer e ganhar raízes. Haverá que quebrar regras, mesmo que as de uma sala de aula, para ir mais longe.
Claro está que haverá sempre algum limite para este tipo de indisciplina. Em particular dentro de uma sala de aula, onde a “criatividade” individual não deve atrapalhar em demasia o trabalho do colectivo. Colegas ou professores.
Naquele dia, ou por ser primavera, ou porque as hormonas estivessem mais descontroladas, ou porque o fim de semana se aproximava, ou fosse lá porque fosse, a coisa estava mais difícil.
Os do costume, sentados atrás como habitualmente, estavam a ultrapassar as marcas. Eu bem tentava “acalmar as hostes”, com uns chamar de atenções, uns comentários mais incisivos, um levantar de voz… mas a coisa estava difícil.
Até que, a certa altura e já meio desesperado e não querendo usar das medidas disciplinares que o ambiente escolar permite, me lembrei disto: um apito que jazia num dos bolsos do colete, comprado uns dias antes para uma fotografia.
Peguei nele, pousei-o na mesa mesmo a meu lado e ficámos a namorarmo-nos por um pedaço. Até que, já sem outros recursos, o usei. Com força. A plenos pulmões. A ponto de até os meus ouvidos me doerem.
Fez-se um silêncio sepulcral naquela sala. Isso e um montão de olhos espantados virados para mim, a tentarem perceber que raio de maluquice me haveria ter atingido.
Quando os tímpanos deixaram de zumbir, expliquei à turma o que estava a acontecer, o como aqueles lá de trás estavam a impedir que os demais aprendessem e como esses mesmos estavam a impedir que eu fizesse o meu trabalho de os ajudar a aprender. E que havia e há momentos para a indisciplina e rebeldia, como já lhes havia demonstrado e até incitado, mas que outros havia e há em que o respeito pelos demais se sobrepõe.
Depois de uma pausa para digerir a situação, alguns deles fizeram exactamente aquilo que eu sabia que fariam: pediram desculpa aos colegas. Por meio de algumas gargalhadas que todos soltámos.
Por estranho que possa parecer a alguns mais incautos e que não conheçam este tipo de estudantes e adolescentes, o caso foi remédio quase santo. Durante algum tempo – semanas - quando a idade e a rebeldia os levava a excederem-se em sala, eram os outros que os lembravam do apito do maluco do prof JC. E entravam na normalidade livre que pretendíamos, sem peias nem mordaças, mas com respeito pelo trabalho do colectivo.
É evidente que nesse dia ouvi das boas dos colegas na sala de professores. Que o belo do apito se tinha ouvido em todo o edifício. E, explicadas as causas e as consequências, ficaram a olhar de lado para mim, uma vez mais. Pondo em dúvida a minha própria sanidade mental e a eficácia do método.
Mas certo é que se assistissem ao que se passava connosco portas adentro ou portões afora, e se verificassem os resultados no que a aprendizagem diz respeito, verificariam que a ortodoxia não será a melhor abordagem quando falamos em criatividade e descoberta de novos e pessoais caminhos.



By me