sexta-feira, 10 de julho de 2020

Vã glória



É sempre interessante ver como o comum do cidadão procura um pouco da fama ou da gloria de terceiros ao querer um autógrafo ou uma fotografia com gente de renome ou que admira.

Da política, das artes ou das letras, do desporto, do espectáculo…

Como se, pelo facto terem estado na proximidade e terem um testemunho material disso os fizessem maiores, mais importantes ou mais famosos.

Incapazes (e aqui estou a ser bera) de fazerem a diferença, de fazerem melhor, de fazerem apenas, engrandecem-se com a grandeza dos outros.

Sendo mais bera ainda (e bera será um eufemismo) são os parasitas da grandeza de terceiros.

Provavelmente serão felizes assim. Aliás, são-no mesmo, pelos sorrisos que ostentam ou pelas exibições desses troféus. E, confesso, nada tenho contra a felicidade dos outros, bem pelo contrário.

Mas preferia que o fossem baseados naquilo que fazem no lugar daquilo que outros fazem.

Mas eu sou bera e hoje acordei azedo.


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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Velhos avisos



Os avisos têm sido mais que muitos:

O investimento maioritariamente no turismo, em Portugal, é empenhar o futuro.

Havia quem falasse na acalmia bélica do norte de áfrica e do médio oriente como fortes concorrentes a Portugal. Havia quem falasse em fortes investimentos na caraíbas e no índico para retirar movimento ao nosso país. Claro que ninguém aventava a possibilidade de não ser nada disto mas sim uma pandemia, fechando países e estancando o fluxo turístico.

Mas seja pela paz, seja pelo investimento, seja por doenças, a verdade é que estamos dependentes do turismo quase em exclusivo.

A hotelaria e a restauração surgiram como ervas por entre as pedras da calçada, necessitaram de mão de obra e as formações de jovens viraram-se para esse mercado.

Temos agora montões de gente formados em turismo e similares, comércio e serviços vocacionados para os estrangeiros e não temos gente, equipamentos ou indústria nos sectores capazes de fazer o país não dependente (ou pouco dependente) de gentes de outras paragens.

Não produzimos riqueza: aquele tipo de riqueza palpável, material, capaz de nos por a comer sem ter que andar a pedir a terceiros “venham cá, por favor”.

Transformamos o país de produtor a prestador de serviços. E em não havendo clientes não temos que vender ou, em último caso, de comer.

Bem avisado seria pensarmos a longo prazo, já que no curto é inconsequente, e tornar Portugal capaz de sobreviver sem tanto depender da sorte ou azar do clima, das guerras ou das doenças. Capaz de ser alguém e não um serviçal venerando e obrigado às esmolas ou vontades de terceiros.

A globalização, mesmo no turismo, tem destas coisas.

Como exemplo veja-se o desespero de políticos e afins com o destino de uma companhia aérea que é a transportadora de boa parte dos turistas que recebemos.

Há algo de errado na forma como projectamos o futuro, quando investimos tudo numa só via.


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terça-feira, 30 de junho de 2020

Equidades



Sabemos que o futebol profissional não é um desporto: é uma indústria.

Movimenta muitos milhões (a liga milionária, por exemplo) os salários e as transferências envolvem quantias que nem imaginamos poder ver, e o luxo e mordomias que principais intervenientes usufruem é quase obsceno.

Apesar disso, o governo português decidiu isentar de impostos (irs e irc, bem como iva parcial) o que acontecer com a “Champions” em Portugal este ano. Incluindo as transmissões televisivas. À semelhança do que aconteceu com o “euro” e outros eventos do mesmo calibre.

Mas o anónimo desgraçado que não pagar o irs ou não apresentar a respectiva declaração de rendimentos está condenado. Mesmo que o faça para conseguir pagar a renda ou ter comida na mesa.

Há algo de muito errado em tudo isto!


Imagem: edit by me from the web

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Pandemias e jogos de bola

Parece que o Benfica perdeu com o Marítimo, depois de ter perdido com o Santa Clara.

Faz sentido.

Se pensarmos bem, as equipas insulares estão habituadas a viver confinadas nas suas ilhas e os continentais têm por horizonte todo um continente e não lidaram bem com o confinamento.


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domingo, 28 de junho de 2020

Cadeira



“Evite viajar nas horas de ponta”, dizem eles.

Por mim, tudo bem. Às quatro da manhã não há gente no metro e até há espaço e levar a minha cadeira para esperar pelas nove e meia, que é a hora a que abre a loja em que trabalho.

Só é pena é não haver metro às quatro da manhã.

Tal como é pena que todas as lojas abram às nove e meia.


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sexta-feira, 26 de junho de 2020

Bolhas



Estávamos na Páscoa de ’75. Os tempos eram confusos e a certeza de ter o futuro nas nossas mãos suplantava, de longe, os escolhos que íamos encontrando.
Este primeiro ano lectivo do pós-revolução foi confuso. Muito. Programas e conteúdos, métodos e abordagens, relações hierárquicas e sociais… acima de tudo o não haver ensino segregado por género. Ensino oficial com escolas mistas era também novidade.
Para todos, incluindo alunos e alunas, que não estávamos habituados a lidar no quotidiano com o sexo oposto. Não era fácil aquilo, e tivemos que descobrir, de súbito, como o encarar e viver.
No meio de tudo isto, o material escolar foi-se degradando. Por material escolar incluo mobiliário: mesas, cadeiras, carteiras… A dado passo, havia que dividir um assento por dois rabos, que não havia que chegasse para todos.
Pois uns quantos de nós, enquadrados por um continuo solícito, voluntarizamo-nos e passámos metade das férias da Páscoa no sótão do liceu, reparando mesas e cadeiras.
Não imaginam, decerto, o quão rija é aquela madeira. Rija de desaparafusar. Rija de aparafusar. Rija de serrar. Rija de martelar. Rija de moldar.
No fim daquela semana havia muitas mais mesas, cadeiras e carteiras para distribuir pelas salas de aula do que pensávamos que fosse possível. E havia muitas mãos cheias de bolhas. Daquelas bem altas, cheias de líquido, que secávamos com uma linha atravessada nela com a ajuda de uma agulha.
Bolhas dolorosas e alegres.
Bolhas que provocavam queixumes entre gargalhadas e que se aguentavam firmes com o receber de novo no dia seguinte o cabo da chave de fendas ou do serrote.
Bolhas que nos enrijeceram as palmas das mãos e da alma, que aprendemos com elas que o futuro é nosso e que temos que o construir.
Bolhas que se aguentaram firmes quando batemos palmas ao distribuir o recuperado pelas salas de aula, tornando-as compostinhas e apetecíveis.
Bolhas que se têm reproduzido ao longo dos anos, sempre com a mesma alegria de saber que o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Bolhas de fazer um mundo melhor sabem a mel e fazem-nos cócegas na alma.

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quarta-feira, 24 de junho de 2020

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O distanciamento social é apenas para quem é sociável.

Os anti-sociais (e basta ver a cara de toda esta gente logo de manhã) não se preocupam com a sociabilidade.

Aliás, nem sequer são socialities: são os anónimos que permitem que a sociedade se mantenha lubrificada para alguns.

A sociedade é só para alguns. O resto é rebanho.



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O altar



O mês de Junho é o mês dos santos populares.
Confesso que nunca percebi lá muito bem isso, porque me leva a concluir que todos os outros santos não são populares. E no entanto, atente-se, há mais santos no calendário que deputados no parlamento, o que é obra.
Em qualquer dos casos, e para não destoar da época, montei um altar ao santinho da minha devoção.

Só não está montado todo o ano porque, mais que adorar, prefiro praticar. Fotografia e tudo o mais na vida.

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terça-feira, 23 de junho de 2020

Fotografia ou retrato



Por vezes temos destas surpresas e curiosidades!
Veio parar-me às mãos um livro interessante, do ponto de vista histórico. Intitulado “Tirée par… A rainha D. Amélia e a fotografia”, é uma colectânea de fotografias da rainha e feitas pela rainha, no final do séc. XIX e inícios do séc. XX.
Fotografias formais, descontraídas, de cerimónias, de passeios, de visitas oficiais, no país e no estrangeiro… interessante.
A preciosidade, do meu ponto de vista, é esta fotografia da rainha.
Feita por Vidal & Fonseca, em Lisboa e algures entre 1890 e 1899, trata-se de uma fotografia de estúdio, como tantas outras.
A retratada de pé, provavelmente com algo atrás, ainda que oculto, onde se encostar para evitar imagens tremidas, uma luz suave, um fundo pintado e esfumado… uma fotografia normal para a época não fora o facto de a perspectiva ser demasiado baixa para a época.
Se observarmos bem, o eixo da objectiva encontra-se a, talvez, um metro do chão e não perto da altura do rosto ou olhos como era e é habitual.
Esta questão, que não é certamente uma limitação técnica, não é de somenos importância. Se atentarmos ao olhar da retratada, constatamos que ela olha para além a acima de nós (e da câmara) numa atitude de quem vê mais do que apenas o que a cerca. Quase como que se a câmara (ou o espectador) ali não estivesse.
É esta perspectiva contra-picada (de baixo para cima) que faz desta fotografia algo de especial, que transforma uma fotografia num retrato, que justifica o livro e que me fará ir em busca demais trabalhos do estúdio onde foi feita, para tentar saber se terá sido uma opção pontual neste trabalho ou uma abordagem usual dos seus fotógrafos.

Nesta pesquisa tenho para procurar, e para além da obra referida no livro, o arquivo fotográfico municipal de Lisboa, duas bibliotecas específicas na matéria, a minha própria biblioteca e algumas pessoas a quem farei algumas perguntas.

Mas não me peçam prazos, por favor.

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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Dádivas e partilhas



Aconteceu há uns anos.
A empresa onde trabalho entrou em greve por três dias. Segunda, terça e quarta.
Sendo que temos horários díspares, os tais que alguns entendem por privilégios, alguns de nós não estariam em horários de trabalho em alguns desses dias. Ou porque de folga, ou porque de férias.
Porque a essas pessoas, nessas circunstâncias, não seriam descontados esses dias de greve, propus eu o seguinte:
Por sectores de trabalho, essas pessoas contribuiriam, com o valor do que lhes seria descontado se estivessem de greve, para um saco comum, a dividir por todos. Assim, o sacrifício seria igual ou proporcional para todos e o auxílio também, que três dias de descontos é obra.
Da boca de um colega de trabalho ouvi o seguinte: “Oh JC! Se estás com problemas de dinheiro, faz como eu: pede ao banco.”
De pouco adiantou dizer que eu estaria de folga em dois desses três dias e que estaria a contribuir bem mais que a receber.
Nada aconteceu.

Entre o partilhar e o dar há uma fronteira. Ténue, mas existe.

Mas aqueles que nem sequer entram em território de partilha pouca consideração merecem da minha parte.

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