quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Dúvidas


A questão das calendarizações ou oportunidades é terrível!
Há actividades que, sendo certas em qualquer momento do ano ou da vida, nalguns momentos serão mais oportunas que noutras. Ou mais convenientes.
O campo politico-laboral é um deles acontecimentos.
Faz sentido actuar por melhores condições de vida e de trabalho: segurança, salários, futuro. Em qualquer momento se deve providenciar para que isso aconteça.
Mas há ocasiões em que essas actuações serão mais convenientes que outras. Não no que concerne ao objectivo explícito da luta ou reivindicação mas antes ao que em torno disso acontece, ao ambiente social existente, às causas e consequências do momento em que se actua.
Ver mais longe que o fim do dia, do mês ou do ano permite-nos aperceber disso. Ou pensarmos que nos apercebemos. E as dúvidas, as interacções extra, os argumentos explícitos e implícitos podem levar-nos a concluir que, em torno de uma dada luta, outros interesses se levantam.
Por outras palavras: cheios de razão, de motivos para agir e intervir social e/ou laboralmente, podem muitos estar a ser levados para que se conquistem outros objectivos não confessos.
Ao contrário do outro, que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, eu tenho muitas. Sempre! E neste momento ainda mais.
Não mudei de posição ou atitude no que se refere a intervenção social. Apenas entendo que a manipulação tem limites.

By me

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

As camisas



Foi há uns trinta e tal anos, não posso precisar.
Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.
Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia comprado pouco tempo antes.
Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação. 
O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia.
O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores. 
Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…
E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.
Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.
Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!
Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente, inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser feito como combinado.
Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com argumentos técnicos e estéticos que não iria ser possível fazer boas imagens com a presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por inteiro e sem a presença das operárias. 
A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o que eu queria com aquilo. 
Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por algumas, não muitas, horas. 
As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.
Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este produtor. 
Ainda hoje as recordo. 

Nota extra: A fotografia não da época. Os originais, em diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a correr, para acompanhar o texto.

By me

Consumo informativo



O que surgiu primeiro: o ovo ou a galinha?
O que é mais importante: a informação que os media querem vender ou a informação que o público quer consumir?

Os media procuram vender. Mais unidades e em mais quantidade que os seus concorrentes. Logo, vão atrás dos “gostos” do público.
O público usa a informação como forma de exorcizar os seus males, satisfazendo-se com o sucesso dos seus heróis e minimizando os seus males com a grandeza dos males dos outros.

Mas o público não quer ser informado em profundidade sobre as vitórias dos heróis. Porque sabe que cada vitória é consequência de muitas derrotas, e de derrotas está ele cheio no dia-a-dia.
E o público não quer saber das origens e consequências dos males dos outros, com receio de neles encontrar os seus próprios males, aqueles que o atrapalham e incomodam, e de poder antever o dia seguinte.
E como ninguém é herói todos os dias, o herói de hoje é o esquecido de amanhã, que novos heróis serão descobertos pelos media. Que se não tiverem novos heróis a apresentar, venderão menos e terão menos lucros, que ter lucro é o seu objectivo.
E como falar dos males em profundidade é remexer em feridas dolorosas, há que evitar essas dores, que ninguém compra produtos que provoquem dores agudas e prolongadas, e ter lucro é o seu objectivo.

A missão do comunicador contemporâneo (seja ele de texto, som, imagem ou ideias) é encontrar todos os dias novos heróis, novos males, que ajudem na facturação da empresa onde trabalham. Como esta facturação depende, em boa medida, da facturação da concorrência, há que ir mais longe, há que ser mais apelativo, há que mostrar ao público que os novos males que se mostram são mais maus e mais distantes, que os novos heróis que se exibem são mais dignos e mais credíveis.
Deixou de ser importante fazer, como nos juramentos de tribunal dos filmes americanos, “a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade.” Na concorrência dos media, apenas a “a verdade” tem algum peso (e não muito!). “Toda a verdade” deixou de ser importante, porque incómoda para o público e cara na produção. Já o “Nada mais que a verdade” depende dos conceitos éticos de quem produz, nem sempre os mais recomendáveis.

Assim, a relação entre os media e o público tornou-se (e é!) uma relação simplista em que um vende e o outro compra produtos para aliviar consciências e incómodos quotidianos. Tal como a botica vende pomadas para o lumbago e pensos para os calos.
A missão do jornalista ou do técnico de comunicação deixou de ser (se alguma vez foi) intervencionista na sociedade para ser a de fabricante de notícias, com a conta certa de dor e prazer no público para o manter como consumidor fiel.
E o público deixou de querer (se alguma vez quis) estar alerta sobre o que o cerca, restringindo-se ao seu pequeno mundo doméstico e familiar. Procura na informação os paliativos para as suas maleitas, não se preocupando com as suas causas nem com o prevenir de novas.

Alguns há, honra lhes seja feita, que não se encaixam neste consumismo informativo. Pessoas há que procuram saber mais e mais fundo, comunicadores há que procuram contar e explicar tudo sobre cada tema e sobre todos os temas. Mas como estas atitudes são cada vez em menor número, este circuito produtor/consumidor é cada vez mais marginal, talvez condenado à extinção.

Está em nós (produtores) e em nós (consumidores), não permitir que esta estupidificação no conhecimento do mundo que nos rodeia grasse como uma epidemia fatal!

By me

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Jornaleiros




Em tempos dizia-se uma piada que nada tem de abonatório para os intervenientes:
“As principais ferramentas do jornalista são a tesoura e a fita-cola”.
Usava-se este chiste para caricaturar os “jornalistas” que faziam o seu trabalho limitando-se a recortar artigos de outros jornais e a colá-los no seu próprio.
Nos tempos que correm “As principais ferramentas do jornalista são o copy/past”.
Esta é piada minha, resultado da observação do como as notícias são resultado do que lhes é enviado pelas agências noticiosas e reproduzidas sem confirmação ou tratamento.
Mas os jornalistas hoje vão mais longe no seu “fazer notícias”.
Tropeço num artigo do Diário de Notícias que nos conta um pouco da vida da herdeira da fortuna e indústria dos cristais Swarovsky.
No final do artigo duas notas: uma remetendo-nos para o artigo original, publicado no “Dinheiro Vivo” e uma outra informando-nos que o artigo havia sido corrigido na nacionalidade da pessoa. E a data da correcção: 31 de Janeiro. O artigo original possui a mesma correcção.
A única coisa que diferem um do outro é que o do “Dinheiro Vivo” tem data de 6-12-2018 e o do “Diário de Notícias” tem data de 9-12-2018.
Por outras palavras: os jornais estão a publicar artigos agora que já têm quase um ano de escrita. A actualidade do texto será pouco importante, mas quem os ler ou bem que vai até ao fim e lê todos as palavras ou fica convencido que foi escrito agora.
Um pouco pior é o facto de ter sido copiado, palavra por palavra, sem acrescentar nem retirar uma vírgula. Já as ilustrações diferem, uma com uma galeria de imagens e um vídeo, a outra só com uma fotografia.

Ficam-me várias perguntas, fruto do meu mau feitio e cepticismo:
Qual ou quais as pertinências de publicar hoje um artigo com um ano?
Será que nada há a acrescentar ao que então foi escrito, actualizando-o?
Será que a referida senhora está com problemas com o seu império de cristais e jóias e necessitou de uma publicidade encapotada de notícia?
E se assim for, qual a transparência destes “jornais” no que toca a diferenciar notícias de publicidade?



By me

Génios



Ao caminhar na rua encontrou aquele insólito objecto caído no chão. Baixou-se, pegou-o e sacudiu-lhe o pó.
De imediato de lá saiu um estranho ser que lhe disse:
“Meu amo e senhor: Obrigado por me libertares. Tendes direito a um desejo!”
“Mas…. Quem és tu?”
“Sou um aprendiz de génio da lâmpada e tens direito à satisfação de um desejo.”
“Um desejo?! Mas o génio dá sempre três desejos!”
“Pois é, mas eu sou apenas um estagiário, pelo que só posso conceder um. E pede-me uma coisa simples, que ainda estou a aprender isto da magia.”
“Se é só um, tenho que pensar bem! 
Podia ser um carro… Um monte de dinheiro… Juventude… 
Não! Vou ser magnânimo! 
Se é apenas um, será algo para bem da humanidade! 
Desejo que termines com a guerra no médio Oriente! Esse é o meu desejo!”
“Eh lá! Olha que isso é muito difícil! Pede antes uma coisa mais fácil, por favor, que ainda estou a aprender…”
“Bem, então sendo assim… Desejo que termines com a crise em Portugal!”
“Ora bem, vejamos! Onde é que era mesmo essa guerra?”

By me

domingo, 9 de dezembro de 2018

Fraude é fraude!




Sobre a polémica dos registos de presenças fraudulentos na Assembleia da República, leio num jornal:
“…
O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, já tinha apontado a necessidade de uma maior exigência na "responsabilidade e responsabilização individual (de cada deputado) e coletivas (de cada grupo parlamentar), sancionando as irregularidades".
Fernando Negrão limitou-se a dizer que fará um "trabalho de sensibilização" e que há uma "relação sagrada entre deputado e eleitor", onde o grupo parlamentar não mete a colher. Essa sensibilização passa por "chamar a atenção dos deputados", mas o grupo parlamentar "não é uma empresa, não pode ir além disto".
...”
Pergunto ao lider da bancada do PSD onde enquadra a “relação sagrada entre deputado e eleitor” na disciplina ou liberdade de voto que os partidos aplicam.
Tal como pergunto se os parlamentares não estão ao serviço de Portugal, tal como os funcionários públicos. E se estes podem ser objecto de procedimentos disciplinares, que incluem o despedimento, o que impede que os deputados tenham o mesmo tratamento em situações análogas?
Fraude é fraude!


Imagem: edit by me

Fotografia – Purismo ou edição?



Essa é uma questão antiga, quase tão antiga quanto a fotografia. E que tem envolvido muitos e bons fotógrafos em torno dela.
Por mim, tenho que “fotografia” é tudo aquilo que medeia entre o que vejo e o que mostro. Por vezes pesado, complexo, dispendioso, por vezes tão simples quanto o click da obturação e o click da impressão ou publicação on-line.
Importa, do meu ponto de vista, que a imagem final mostre aquilo que os olhos e a alma viram. E se aquilo que a alma viu não corresponde ao que os olhos viram, por limitações técnicas no momento ou por incapacidade do fotógrafo, faz sentido ajustar posteriormente. 
Claro que há uma “terra de ninguém” entre o que é fotografia, mesmo que ajustada à visão da alma, e o que é “arte gráfica”, construída a partir de um registo fotográfico. 
Quando, e no tempo em que só havia película, se usavam filtros coloridos na câmara para controlo de contraste, se faziam máscaras no ampliador, se alteravam as características do papel ou a forma de revelar, se alteravam os enquadramentos originais no conteúdo ou proporção… não seria isso equivalente às edições electrónicas de hoje? 

Creio ser tão legítimo o recusar a edição posterior como o usá-la. Desde que o resultado final corresponda ao que o autor pretende mostrar. 

Imagem: 
À esquerda “O violino de Ingres” (1924) de Man Ray
À direita “Joiners”, (1983?) de David Hockney.

By me

Em tempo de crise




Recordo uma história cuja veracidade não asseguro. Por aquilo que suponho saber, remontará aos tempos do PREC.
Terá um dirigente partidário português comentado para um outro escandinavo: “Nós queremos acabar com os ricos.” Ao que o outro terá respondido “Pois nós queremos acabar com os pobres”.
Verdade, com estes ou outros, ou mentira, lembro isto a propósito do quanto estão escandalizados os sindicatos dos funcionários públicos sobre o aumento salarial decidido pelo governo apenas para os escalões inferiores, deixando todos os demais na mesma. Por aquilo que li nos jornais, esta medida abrange 50 a 70 mil pessoas, deixando de fora mais de 600 mil. Segundo as mesmas fontes, o salário mínimo na função pública passa para 635 euros, no lugar do fixado para o sector privado que se fica pelos 600 euros.
Caramba!
Eu gostava de ver os sindicatos (e os trabalhadores por eles representados) satisfeitos por saberem que os que menos ganham passaram a ganhar um pouco mais. Que para quem receba líquido 1500 euros pode ser pouco significativo, mas para quem receba 600, 35 euros é notório.
A cupidez de alguns é terrível!
E é doloroso ver gente emparelhada em tarefas com os mesmos objectivos e, na pausa para a refeição, uns a comerem bife e outros a comerem salsicha.



By me

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Crises




Pese embora estar meio encapotada, a verdade é que a crise está aí.
Continua a haver gente com fome, continua a haver gente sem trabalho, a dívida nacional existe e é grande, os negócios abrem e fecham…
Pela minha parte vou fazendo o que posso para a mitigar, variando os meus consumos por diversas lojas. Mesmo o que acontece com os meus impostos, bem ou mal geridos, não é algo que deixe por inteiro em mãos alheias, estando mais ou menos atento ao que vou sabendo sobre o assunto e intervindo se e quando possível.
No entanto, há um peso que tenho na consciência: O meu barbeiro está a ir à falência. E se mais houver quem use a sua pilosidade como eu, mais rápido será.



By me

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Mistérios




Gostava de ler um conto ou romance escrito por George Simenon, Agatha Christie, Erle Stanley Gardner ou mesmo Ross Pin sobre o mistério das meias desaparecidas.
Crime passional? Terá sido o mordomo? Ou uma questão de heranças?


By me