sábado, 21 de julho de 2018

Parabéns




É uma daquelas histórias ou estórias que não me canso de ir contando.
O meu tio Artur era uma figura impar. Era meu tio-avô, o que faz dele alguém de outras épocas. Tecnológica e socialmente.
Do que dele recordo, e recordo alguns episódios em primeira mão ou contados na família, lembro agora este:

Tinha ele uma agenda. Nada de especial nisto. Era uma daquelas grandes, de secretária, com capa de couro e que todos os anos implicava algum tempo para mudar o recheio e copiar para o novo as informações pertinentes do ano anterior. Coisa que ele fazia.
Tinha-a pousada num pequeno móvel, junto à porta de casa, tal como o telefone e as listas telefónicas. A pessoal e as que eram distribuídas anualmente.
Pois o meu tio Artur todos os dias consultava a sua agenda antes de sair e, se fosse o caso, descia a rua até à esquina, entrava na estação de correios que ainda lá está e enviava um telegrama. Um telegrama de parabéns a quem quer que conhecesse e constasse na sua agenda.
Um acto personalizado, decisão consciente e voluntária, querendo com isto fazer saber que aquela ou aquelas pessoas não estavam esquecidas. E custava-lhe algum dinheiro.
Nos tempos que correm, as redes sociais encarregam-se de nos lembrar e somos incitados e dizer algumas palavras de circunstância para pessoas que, tantas vezes, não conhecemos de outro mundo que não o virtual. Tão virtual quanto a sinceridade dos votos automáticos assim enviados.

Por mim, deixei de usar agenda faz tempo. A maior parte das anotações de que necessito guardo-as de outra forma e é algo que não preciso de transportar.
E não sou defensor de se dar os parabéns por um acto do qual nem sequer se é responsável, como será o caso do aniversário. Dos outros ou do meu.
Em qualquer dos casos, acho bonito que se tenha um gesto personalizado caso se o queira fazer. Coisa rara, nos tempos que correm.
Mas o meu tio Artur era de outros tempos.
E sendo certo que não sei a sua data de aniversário e que já por cá não está ninguém a quem o possa perguntar, aqui fica uma referência personalizada, que talvez lhe chegue ao conhecimento, sem importar a data. Onde quer que esteja.


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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Étcas e ironias



Esta fotografia foi feita nos inícios da minha autonomia fotográfica. 
E foi um marco vital nesta minha actividade.

Tinha eu laboratório à disposição, a película comprava-a a metro e os químicos e papeis não eram assim tão caros. Desde que em preto e branco, que a fotografia a cores era um outro campeonato.
E tinha o mundo à minha disposição para registar. E registei! O que pude, o que quis, o que me pediram.
Lembro-me de a fazer: no bairro de Alvalade, em Lisboa, na manhã de um 24 de Dezembro. E lembro de, na altura, algo me ter batido forte.
Tal como me lembro de, mais tarde junto ao ampliador e olhando a prancheta branca, me ter questionado sobre a legitimidade de a ter feito. Questão essa que foi aumentando à medida que os halogenetos de prata foram escurecendo na tina do revelador. 
Ainda hoje me questiono. 
Este Dezembro, tantos anos depois, fui em busca do retratado. 
Suspeitava eu que poderia ser uma de duas pessoas, ainda hoje vendendo na rua e na zona. Não eram. 

Depois desta fotografia tenho pensado muito seriamente no direito que nós, possuidores de uma câmara fotográfica, temos em fazer registos de gente anónima, sem lhe perguntar se o podemos fazer ou se podemos divulgar. 
A minha opinião, que se formou nesse distante Natal, é que não! Não temos o direito de assim entramos na intimidade de terceiros, divulgando-o ao mundo na imprensa, nas galerias ou na net.
A vida de cada um a ele pertence e a minha câmara não é uma arma de caçar troféus na selva de betão que são as cidades.

Entendo que a fotografia em preto e branco é um caso particular da fotografia.
Não a tenho por melhor ou pior que a fotografia colorida, apenas se adequa ou não nalguns casos. Como as cores saturadas, como as High Key, como as silhuetas…

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Raízes




A cadeia de lojas de refeições rápidas MacDonalds tem uns ecrãs de computador em algumas mesas.
Suponho que o investimento se tenha justificado com o manter as crianças mais calmas e entretidas, enquanto os adultos terminam as suas refeições. E, quem sabe, estes se levantem e vão buscar mais qualquer coisa ao balcão. Isto porque a página de entrada é, por aquilo que tenho percebido, relativa a jogos infantis e afins.
Mas poderá ter outros usos.
Um destes dias, numa dessas lojas e num momento tranquilo a meio da tarde, dois desses ecrãs estavam ocupados. Nada de crianças mas por um adolescente e um jovem adulto. Cada um no seu.
Tinham conseguido aceder a um site que exibia um filme na sua língua natal, indiano, estavam deliciados a ver e ouvir a pantalha.
O aspecto que possuíam, não sendo andrajoso nem muito sujo, indiciava notória falta de recursos. E não me espantaria de os ver, juntos ou separados, a arrumar carros num parqueamento ou sentados com um cartão a pedir esmola em frente a um restaurante ou igreja. Aquilo que conhecemos.
Mas também consigo entender – e entenderia mesmo sem ter visto o que vi – a satisfação deles por estarem a ver e ouvir aquilo.
Presumivelmente sem recursos para acederem a canais indianos (satélite ou por cabo), o acesso à língua e cultura materna ser-lhes-á apenas possível de quando em vez e nestas circunstâncias. Ou em casa de algum conterrâneo mais afortunado.
Imagine-se o que teria sido para os nossos migrantes se, no tempo da “mala de cartão”, os canais portugueses tivessem a difusão que têm hoje.



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Identidades




Leio uma crónica num jornal, bem escrita, quase ridicularizando as colónias e aftershave “Old Spice”.
Fiquei escandalizado!
O tom que é usado, mesmo algumas citações e referências, atiram o consumo deste produto, e alguns outros da mesma época, para o conservadorismo bacoco.
Aceito que se tenha esta opinião, mas gostaria de contrapor outra.

Durante anos a fio fui consumidor deste produto. Era caro e eu, que até nem sou muito de usar cosméticos e aromas, fui-o tendo para usar de quando em vez, quando me apetecesse cheirar a alguma coisa. Herdei o gosto pelo aroma de família, identifiquei-me com ele e nunca senti necessidade de o mudar. Afinal, com o passar dos tempos, aquele era o meu cheiro ocasional.
Até que…
Até que um dia, faz já algum tempo, em constatando que o frasco icónico estava a chegar ao fim (por ser opaco só se dá por isso quando começa a ser difícil o extrair as gotas odoríferas) decidi que ao passar pelo lugar onde habitualmente o comprava, haveria de trazer um.
Qual não foi a minha surpresa quando, algum tempo depois, abri o novo e me apercebi que não cheirava ao mesmo. Fui comparar com o restinho que ainda tinha e, apesar de fumador e sem ter o olfacto muito apurado, confirmei-o. Haviam mudado a fórmula e o resultante aroma.
Não gostei. Nem um nico. Afinal, o “meu cheiro” havia mudado por imposição de um fabricante, não por decisão minha.
Zanguei-me com a marca e não mais a comprei. Aliás, considerando a raridade com que usava tal tipo de produto, um frasco durava anos. Zanguei-me com a marca e com o uso de aromas e até hoje continuo a não os usar só para serem aromas.
O que me incomodou na crónica, e me fez saltar a faísca para estas linhas, foi a consideração de que manter um aroma, mesmo que antigo, seja sinal de conservadorismo.
Caramba! Sei que as modas o propalam, aromas, vestuário, até cortes de pelo, até à exaustão, tentando que, com novos produtos, aumentem as vendas. Ou não as façam decair.
Mas se as roupas se vão estragando e haverá que as substituir, os aromas de cada um são como que uma espécie de identidade, artificiais ou naturais. Cada pessoa tem o seu próprio aroma natural e animal que o identifica. Tal como os cães, os cavalos e todos os outros animais. E eles usam o olfacto para identificar indivíduos. Tal como nós.
Com a diferença que a mudança de aroma artificial é como que uma mudança de personalidade, um querer parecer outra coisa que não o próprio (ou própria).
Todos os anos, nas campanhas natalícias, tentam convencer os potenciais consumidores a comprarem novos aromas. Sedutores, afirmam. Identificadores, confirmam.
A questão é saber se será mesmo necessário ser artificialmente sedutor. Ou se fará sentido mudar de identidade. Até porque uma coisa será ter mesmo necessidade disso, outra o fazer crer que se tem necessidade disso.
Infelizmente, a nossa sociedade de consumo impõe essa necessidade. Através de publicidades, através de crónicas, através de mudanças de produto. Que tanto acontecem nos aftershaves e nas colónias como nos desodorizantes.
E fico furioso quando, em sendo altura de comprar um novo, constato que deixaram de fabricar o aroma que me havia convencido e adoptado como meu. A alternativa tem passado por testar no local e tentar encontrar um aroma que me convença. Um novo aroma que me convença e com o qual me identifique.
E não se trata de conservadorismo, aromático ou outro. É mesmo uma questão de identidade. Sei quem sou e não preciso que um ou vários fabricantes me digam quem devo ser! Ou quem devo parecer ser!
Quando não, quero mudar o meu número nacional de cidadão. Gosto de capicuas e quero ter uma! Afinal, se posso mudar de identidade, se me impõem a mudança, porque não neste campo?



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quinta-feira, 19 de julho de 2018

Pára-sol



Desculpem lá qualquer coisinha, mas esta eu não deixo escapar.

Vejo gente a querer entrar no mundo da produção e comércio da fotografia. 
Bem vindos! 
Oferecem-se essas pessoas para cobrir fotograficamente os mais variados tipos de eventos, bem como fazer books (seja lá isso o que for) e fotografia de charme. 
Sendo que não estou no mercado, não fazemos concorrência recíproca. Perfeito.
Exibem nas páginas que possuem on-line alguns exemplos do que são capazes de fazer. 
Certo! Ninguém nasceu sabendo tudo e o tempo haverá de lhes melhorar o olho e a mão.
Exibem como atributos para o que fazem imagens do material que possuem. Alto lá!
Não é o material que faz o trabalho, mas ajuda. Ajuda no fazer e ajuda no convencer potenciais clientes do que são capazes de fazer.
Mas garantidamente que não me convenceriam ao mostrarem-me um conjunto de três, quatro ou mesmo cinco objectivas e dois ou três corpos e nem um só pára-sol. Nem um para amostra.
Eu sei que algumas marcas vendem os pára-sol como um extra. Também sei que os preços oscilam entre os vinte e pouco e os mais de setenta euros, dependendo da marca e da objectiva. 
Mas não ter um só pára-sol num conjunto de trabalho que será utilizado em estúdio ou em exterior diz-me muito de quem se propõe a fazer os trabalhos.
E o que me diz não é nem um nico abonatório. 
Que, por muito boa que seja a objectiva, por excelente que seja o sensor, por complexo que seja o processador de imagens, um simples flare vai destruir todo um dia de trabalho. As cores, os contrastes, os brilhos, os detalhes… tudo pode ir por água abaixo porque se não comprou uma porcaria de um pára-sol, vendido como extra.
Tenho tido as guerras mais feias e as discussões mais agrestes com responsáveis por equipamento e vendedores por não fornecerem os pára-sol adequados às objectivas, por não quererem gastar mais uns trocos nos orçamentos para este “extra” que pode garantir a fidelidade de um cliente ou assustá-lo para qualquer outro concorrente no ramo.
Infelizmente, já gente altamente colocada em empresas de alto gabarito vieram, mais tarde, dar a orelha a torcer por não me terem dado ouvidos na altura certa. 
Querem agradar a potenciais clientes? Mostrem-lhes imagens do vosso material, em que os pára-sol servirão para aumentar o volume do equipamento, mesmo que os nubentes não saibam para que serve. Sabem vocês.
Querem convencer um eventual empregador? Mostrem-lhes que têm os pára-sol certos. Se ele perceber da poda, entende-os. 
Querem fazer contra-luzes? Usem o raio do pára-sol! Tirem-no se o flare for desejável, mas tenham-no posto em todas as outras ocasiões. 

E, se outro motivo não existir, posso-vos garantir que já parti dois pára-sol de plástico com pancadas que dei com a câmara em obstáculos. Mas nunca uma objectiva. Comparem os prejuízos!

Usem o pára-sol, raios!

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Cartas de amor




As cartas de amor são sempre estúpidas. E fúteis. E tolas.
Tentam pôr por palavras aquilo para que ainda não se encontraram palavras, tentam organizar sentimentos desorganizados, tentam materializar o imaterial.
As cartas de amor, para além de estúpidas, fúteis e tolas, também são algo que escrevemos, uma ou várias vezes na vida. Com a caneta, com as teclas, com a luz. As cartas de amor são escritas de acordo com o que cada um sabe ou pode fazer.
As cartas de amor, para além de estúpidas e fúteis e tolas e múltiplas, são também inúteis. Que ninguém se apaixona pelas cartas de amor que recebe. Nem ninguém se apaixona pelas cartas de amor que escreve.
As cartas de amor, para além de estúpidas e fúteis e tolas e múltiplas e inúteis, são também perigosas. Que uma carta de amor fica, para além do tempo. E mesmo que queimada, rasgada, apagada, palavras e sentimentos não se apagam. O que lá estiver, não importa como, fica para sempre gravado. Em quem leu e em quem escreveu. E o que se sente depois de ler ou de escrever, por muitas tolices e inutilidades e futilidades que se digam, pode ser bom ou mau, dependendo do tempo que passou e das cartas que, entretanto, se escreveram ou leram.
Apesar de tudo, as cartas de amor são magníficas, mesmo que estúpidas e fúteis e inúteis e tolas e perigosas. De escrever e de receber.
Quase tão boas quanto amar!

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Do contra




Sobre a polémica instalada: “Os Maias”.
Não o li no liceu. Era obrigatório mas não o li. Os tempos eram outros, os apelos da vida mais que hoje, era proibido obrigar e os primeiros capítulos enfadaram-me para além do suportável. Não o li.
Safou-me, nos testes e no exame os excelentes apontamentos que a professora nos havia dado. Apesar de o exame ter sido um fiasco. Se hoje alguém respondesse como então respondi…
Anos depois, muitos anos depois, peguei nele. Mais por graça que por vontade, disse para comigo um dia: “Olha! Está aqui há que tempos e nunca o li. É agora!”
E foi! Foi de uma assentada.
Enfrentei o início como algo que tinha que ser feito e deliciei-me com o que se lhe seguiu, contextualizado que estava na época, nos personagens, no arranque para o enredo.
Foi a escrita, a forma de expor ideias e acontecimentos, que me prendeu. Não o enredo entre personagens, que isso tem qualquer novela ou literatura de cordel. Foi a literatura e o mundo ali contado.
Não creio que haja um momento certo para a literatura. Cada um, fruto da experiência, da personalidade e da imaginação, lida com a literatura de seu modo. Uns mais cedo, outros mais tarde.
O papel dos professores, cumprindo um programa, é destaparem o belo da literatura, mesmo que ela descreva mundos sem redes sociais. Melhor: com outras redes sociais e outras realidades.
A importância dos escritos é darem-nos a conhecer outras formas de pensar e de viver, mesmo que não concordemos com elas. E de sonhar.
Mas é esse sonho, esse conhecimento de outras realidades, que nos permite melhor coexistir com a que temos. Eventualmente ajustando-a em função dos nossos ideais. Idealmente ajustando-a com os nossos ideais.
Não li “Os Maias” quando era obrigatório. Mas deliciei-me quando o fiz.
Mas eu sou do contra.



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Campanhas




O título diz que “PSP lança campanha de alerta aos carros mal estacionados em Lisboa”.
Fala-se no transtorno dos carros em segunda fila, no bloqueio à passagem dos transportes públicos, na questão das cargas e descargas…
Uma das imagens para esta campanha é um automóvel estacionado num passeio, impedindo a passagem de um carro de bombeiros.
É uma campanha meritória, sem dúvida.
Pena é terem deixado de parte a questão do espaço para peões. Aquele espaço para caminhar em segurança nos passeios. Aquele espaço vital para que uma cadeira de rodas não tenha que ir para o asfalto. Aquele espaço para se poder sair ou entrar em casa, caminhando, sem se ser um acrobata contorcionista. Aquele espaço seguro para atravessar uma rua.
Nos tempos actuais o automóvel faz parte do quotidiano. Mas não pode expulsar os cidadãos peões do seu próprio espaço.
Mas quando são as próprias autoridades a dar prioridade ao trânsito automóvel descurando quem caminha…



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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Arquivos




Um destes dias resolvi fazer um teste de determinação à minha pessoa:
Com uma tesoira, destruir uma tira de negativos. Dos mais antigos, retirado do arquivo bem antigo e sem ver o que continham.
Ainda tive ambos, tesoira e negativo, na mão. Mas não fui capaz. Por muito que dissesse para mim mesmo que aquelas imagens já não contavam, que faziam parte dos meus inícios na área e que seriam, muito provavelmente tão más que o mundo ficaria melhor sem elas, não fui capaz.
Devolvi ambos aos seus lugares de origem e recolhi-me: afinal, não sou tão determinado quanto pensava.

Se eu reagi assim, e estou em crer que a maioria reagiria da mesma forma, porque o fazem com os arquivos digitais e a maldita tecla “delete”?
Arquivo é arquivo e mesmo que não seja visitado, deve ser conservado.



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Talvez iconoclasta




Leio um texto numa revista fotográfica digital/blog fotográfico em que autor faz uma crítica muto forte.
Afirma ele que fotografar mulheres bonitas de costas, na rua, não é “street photography”.
Indo mais longe, diz-nos que fazer este tipo de imagem, bem como a de crianças, que não seja pela estética fotográfica ou integrando um projecto fotográfico, mais não será que um acto de voyerismo e eticamente condenável.

Sobre isto, começo por achar que todo e qualquer fotógrafo é um voyeur e um “bem acabadinho”. E acrescento que é um cobiçador também.
Eu explico:
É um voyeur na medida em que se delicia com o que de belo ou horrendo encontra. A sua atenção está primordialmente focada nisto, quase o impedindo de participar no que o cerca, que aproveitando o belo momento, quer agindo sobre o horrendo, diminuindo-o.
É um “bem acabadinho”, cheio de regras e normas organizativas, na medida em que a sua atenção se concentra no que sai das normas. Só o incomum, bom ou mau, o atrai, ficando indiferente perante o banal, o inconsequente.
É um cobiçador porque, não podendo possuir o que vê, fotografa-o. Não pode levar  consigo o pôr-do-sol, o humano bonito, a ave do céu… Assim, e na sua substituição, guarda um ícone do que lhe fez agitar as emoções, cobiçando o que a vista e demais sentidos lhe mostraram.
Posto isto, continuo afirmando que os “fotógrafos de rua” serão tudo o acima descrito com o acréscimo de o fazerem à sorrelfa as mais das vezes. Fotografam gente, metida nas suas vidas, sem que saibam que estão a ser fotografadas. Emboscados atrás de uma objectiva potente ou escondidos atrás de uma pequena e discreta câmara, satisfazem as suas necessidades de notar o fora do comum, o seu voyreuismo e a sua cobiça sem que os seus objectos cobiçados e assim caçados disso se apercebam e sobre isso se possam pronunciar.
Por fim, não vejo grande diferença entre fotografar um ser humano de costas ou de frente sem lhe perguntar se o pode fazer. Não há, de facto, grande diferença entre apreciar e cobiçar um rabo, um par de mamas ou um peito musculado.
Não será à toa que ao acto de fotografar se diz “disparar a câmara” e o sair para fotografar aleatoriamente tem o apodo de “ir dar ao gatilho”.
A fotografia é encarada por muitos como caça. E os melhores troféus são aqueles que são caçados desprevenidos, com a naturalidade de quem vive a sua vida sem saber que estão a ser espiados e alvo de um “tiraço”.
Ainda por cima, a maior parte destes “fotógrafos” de rua não usam as suas imagens para mudar o quer que seja. Quer se trate de fazer de algo um exemplo a seguir quer se trate de uma denúncia de algo a suster.
Os seus troféus são para ser exibidos numa parede, num álbum ou, mais modernamente, nas redes sociais. São orgasmos fotográficos feito à custa dos incautos que tratam da sua vida na via pública.
Fotografar alguém de frente ou de trás, sem seu conhecimento ou consentimento é algo que, se agora tolerado ou aclamado, será socialmente condenável num futuro não muito distante.



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