terça-feira, 14 de abril de 2026

Um assunto que a quase ninguém interessa




Qualquer um que use uma câmara fotográfica digital sabe que um dos parâmetros que pode ajustar em seu proveito é o “ISO”.

Sabe que corresponde à sensibilidade da câmara e que pode ser aumentado ou diminuído. Coisa que não sucede com a película, excepto em circunstâncias especiais e com consequências na qualidade da imagem.

Aquilo que a maioria desconhece é que nem sempre se usou esta escala.

Sendo que é uma evolução de “ASA”, significa o mesmo e é obtido de forma muito equivalente. Mas não era a única.

Os que começaram a fotografar em película talvez se recordem de um outro nome para a classificação da sensibilidade: “DIN”. E com valores distintos e por vezes confusos. Que se a escala ISO/ASA é uma escala aritmética, já a escala DIN é logarítmica, menos fácil de entender. O padrão ou escala ASA é de origem Norte Americana, tendo-se imposto nesse mercado tal como no europeu e no japonês. Já o padrão ou escala DIN é de origem Alemã e poucos fabricantes a usavam.

Mas não foram as únicas ao longos dos tempos. Cada país ou círculo industrial usava a sua: Weston no Reino Unido, Gost na Rússia, e até dois padrões diferentes com o mesmo nome (Scheiner), um na Alemanha, outro nos EUA, existentes assim porque as unidades métricas usadas localmente são diferentes.

Uma confusão como se imagina! Levando a que os fotógrafos usassem tabelas de conversão e a que os fabricantes de equipamentos pelo menos duplicassem a indicação das escalas usadas. Vejam-se as câmaras fotográficas SLR com fotómetro e mostrando os valores em ASA e DIN.

Vem isto a propósito de “me ter caído no colo” este lindíssimo fotómetro.

De marca Bertram modelo Chronostar, fabricado na Alemanha é datado de 1950. Foi concebido com o diâmetro de um relógio de bolso e para assim ser usado, no colete. Com tampa e tudo. Claro que, sendo a sua célula de selénio, está hoje irremediavelmente não funcional como seria de esperar.

Mas o que torna este aparelho fora de série, para além do formato e da sua beleza, é que contém na sua régua de cálculo de exposição todas as escalas de sensibilidade em vigor então: ASA, DIN, Weston e Scheiner (suponho que a versão alemã). Prima pela ausência o padrão soviético (Gost), mas nos anos ’50 já os blocos existiam e não se contaria vender para o bloco de leste. Ou usar material foto sensível com essa origem. Uma jogada de mestre no mundo que começava a ser global.

Irá este aparelhinho que cabe na palma da mão para lugar de destaque na minha coleção, para juntar a outras peças pouco comuns que por cá tenho.

Porque se a fotografia é a escrita da luz, temos que saber dosear a “tinta”.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4


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Moto continuo




O Moto Continuo, ou Movimento Perpétuo, é algo que o Homem procura há muito.

Um movimento ininterrupto, sem necessidade de usar energia externa ou combustível, e que esse movimento seja passível de ser usado como forma de energia para uso em prol do Homem.

Claro está que a Ciência tem demonstrado através daquilo que sabe, e de que faz lei, que o Moto Continuo é impossível. Atritos, perdas térmicas e outras minudências técnicas impedem que a energia produzida seja maior que a energia aplicada.

Aquilo que conhecemos de mais próximo ao Movimento Perpétuo será o movimento dos astros e as forças de atracção e repulsão entre eles.

No entanto, julgamos saber que mesmo isso é finito, já que presumimos que toda as estrelas (ou corpos celestes emissores de luz ou outras formas de energia) cedo ou tarde se esgotam e se apagam ou explodem.

Portanto, perpétuo coisa nenhuma. Não há movimentos, e consequentes energias, perpétuos!

Claro que podemos sempre tentar definir o conceito de ”perpétuo”: À escala da vida de um ser humano? À escala da existência da humanidade? À escala, calculada, da idade da Via Láctea e do que dela podemos prever que ainda existirá?

Donde, o Moto Continuo ou Movimento Perpétuo não pode existir porque o próprio conceito de “Perpétuo” não passa de um sonho teorizado, derrubado pela especulação científica.

Mas devo confessar que me agrada a impossibilidade da existência do Movimento Perpétuo. Porque se assim é quando aplicado a dois ou mais pedaços de matéria, quiçá energia também, nos referentes espaço/tempo, então o Movimento Perpétuo também não é aplicável ao Homem, porque parte integrante, e não excepção, do universo que conhecemos e especulamos.

E haver movimentos criados pelo Homem que sejam perpétuos é algo que me assusta para além do terror.

Que um movimento que seja perpétuo, seja ele científico, esotérico ou estético, acaba por se tornar numa sensaboria, num conservadorismo atroz, numa situação que, pareça embora uma contradição, não o é: um movimento intelectual perpétuo acaba por se tornar imóvel e imutável, deixando de ser movimento, ainda que perpétuo.

Agrada-me assim, de sobremaneira, que o Movimento Perpétuo não exista. Que o Homem se sinta tentado em quebrar os rumos e impulsos do passado e procurar novas fronteiras, dentro e fora de si, que procure inovar contra todos os que se acomodaram aos pseudo Moto Contínuos criados no pensamento.

Abaixo o Movimento Perpétuo! Acima o fim das coisas e o nascimento de novas ideias. Eu mesmo e o universo incluídos!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ignorância




Eu ignorante me confesso: não sei o que seja “Fotografia fine art”!

Vejo on-line (e em alguns livros) a classificação mas, olhando com atenção, não vejo nada de excepcional no que me é mostrado.

Nem do ponto de vista estético, nem do ponto de vista técnico, nem do ponto de vista semiotico, nem do ponto de vista conceptual.

Por outro lado, vejo nos mesmos meios fotografias de excepção, sob um ou mais conceitos, daquelas que me prendem o olhar, que me dão vontade de continuar a ver, daquelas que falam comigo e que me provocam emoções. E que não levam esse carimbo. Nem as fotografias nem os fotógrafos.

Talvez que seja eu o ignorante nestas coisa de fotografia e que melhor seria dedicar-me à pesca ou ao cultivo de hortícolas.

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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domingo, 12 de abril de 2026

Ferramentas




A importância de uma ferramenta está na proporção directa daquilo que se é capaz de fazer com ela.

É por isso que eu, em tendo acesso a uma ferramenta que não conheço mas sobre a qual só posso deduzir as suas potencialidades, trato de ir praticando e fazendo experiências com ela até que me seja “natural” o seu uso. Tentando perder a lógica e hábitos de outras ferramentas e procurando adaptar-me a novas lógicas e métodos.

No caso de objectivas, haverá que “ver” com o seu ângulo de visão, com as suas distâncias de trabalho, focagem e profundidades de campo. Haverá que antever as perspectivas que permitem, o como evidenciar centros de interesse pertinentes e anular conteúdos impertinentes.

E perceber quais as potencialidades e limitações que cada uma tem e decidir se é aquele ângulo de visão (vulgo distância focal ou potência) é ou não útil para materializar aquilo que vimos e imaginámos.

Admito que é um desafio pessoal e muito intimista o olhar para algo e decidir qual a objectiva certa para o que quero. Claro que o uso das objectivas zoom facilita o trabalho, mas quero mesmo é dizer-me “Para isto é uma XXmm”. E sinto-me realizado se a minha escolha, com mais ou menos algum ajuste, é a certa.

Tal como é um desfio pessoal encontrar soluções técnicas e estéticas para contar o que quero dispondo apenas de uma objectiva: perspectiva e enquadramento. E é aqui que recorro à objectiva zoom mais antiga que conheço e que funciona a dois tempos: pé direito e pé esquerdo. Porque, e como costumo dizer, se a luz é a minha matéria-prima, a perspectiva é a minha ferramenta.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 24 1:2,8



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Abris




Já não há fascismo. Já não há PIDE. Já não há censura. Já não há guerra colonial. Já não há caciques. Já não há bufos.

Não é verdade!

Ainda há censura, embora encapotada.

Ainda há caciques, embora com vários cartões.

Ainda há bufos, mas não ideológicos: ambições de carreira, actualmente.

As revoluções são momentos específicos no tempo. As mais das vezes, o mais notório que dá origem aos actos revolucionários extingue-se de um modo ou de outro.

Mas aquilo que é inerente ao ser Humano mantém-se. Por cultura ou por genética.

Mais de meio século passou sobre Abril. E festeja-se a data com alegria. Mesmo que a maioria dos cidadãos não saiba, na pele, o que foi o “antes de”. Saberão por aquilo que leram, por aquilo que ouviram aos antigos, pelos filmes e séries, por aquilo que romancearam.

Mas quando alguém é afastado de funções porque a chefia não gostou do olhar que recebeu; quanto se ouve “cala-te, que falas e escreves demais”; quando se “inventa um caso” para esconder outro; quando há figuras que são alvo de notícia, várias vezes ao dia, em detrimento de outras; quando os representantes representam os seus próprios interesses ou ideias, em detrimento dos representados; quando os ideais políticos e partidários semelhantes aos de antigamente ganham força entre os cidadãos...

Abril acabou há mais de meio século. Hoje estamos em Maio, ou Outubro, ou Fevereiro. O mês é outro, os ingredientes e métodos são outros, as guerras fazem-se com petro-dolares ou petro-rublos.

Se não estivermos alerta para o regresso daquilo que não quisémos, se não nos acautelarmos para novas ditaduras e métodos repressivos, se não escutarmos com espírito crítico os discursos castrantes, mais ou menos inflamados, se não afastarmos os candidatos a não democratas no poder...

De nada servirá descermos a avenida dando vivas ao que foi. O que será virá igual com outras roupagens e outras formas de servidão famélica.

 

Festeje-se a revolução. Mas acautele-se o futuro. Todos os dias.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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sábado, 11 de abril de 2026

Iconógrafo




Não mais sou fotógrafo!

Doravante considero-me, e assim gostarei de ser tratado, como iconógrafo, um fazedor de ícones.

Porquê esta mudança? Substancialmente devido às discussões que proliferam em tudo quanto é lado sobre se determinada imagem é ou não fotografia. As confusões sobre este tema são tantas que decidi colocar-me à margem delas.

 

Para todos os efeitos, as imagens são ícones.

Produzidas por meios foto-mecânico-quimico-eléctronicos, são o substituto de uma realidade, imagens representativas, ícones daquilo visto ou sentido pelo seu autor e como tal interpretado pelos que as vêem.

A alguns destes ícones é dada a categoria de fidedigno, por serem fiéis aos acontecimentos descritos. Fidedignos?!

Como pode uma imagem ou ícone ser fidedigno se apenas mostra duas de quatro dimensões?

Como pode ser cópia da realidade se deixa de fora quatro dos cinco sentidos?

Como pode ser fiel representação de um acontecimento se os bordos do seu enquadramento são como guilhotinas afiadas truncando do todo o visível apenas uma parte?

 

Por fotografia encontro num dicionário esta definição:

“do Gr. Phôs, photós, luz + graph, r de graphein, desenhar

s. f. arte de fixar numa chapa sensível, por meio da luz, a imagem dos objectos;

fig. Cópia fiel; retrato”

 

Eu ponho em causa quase tudo o que aqui se afirma, no que ao meu trabalho concerne:

- Não sabendo eu o que é uma “fotografia artística”, como já aqui o afirmei, não posso dizer que o que faço seja “arte”;

- Não uso chapas! Já as usei, nos tempos em que trabalhava com grandes formatos (saudades, caramba!). Agora uso película e flexível, em rolos ou, e é o que mais disso se aproxima, suportes digitais, em que o CCD se poderá comparar a uma chapa, mas não mais que isso;

- Cópia fiel não o é! Eventualmente uma fotocópia sê-lo-á, mas não aquilo que faço com a minha câmara.

O único aspecto com o qual concordo é a definição de “retrato”.

Efectivamente aquilo que faço (e entendo que todos os que usam câmaras fotográficas fazem) são retratos daquilo que vêem. Imagens subjectivas e interpretativas daquilo que vêem, sentem, pensam sobre o que está em frente da sua objectiva.

E depois do acto fotográfico, da captura da luz (essa efémera), é tudo trabalhado, subvertido, adulterado. Quer seja com químicos, com electrões, com a nobre prata ou os menos nobres corantes. Embutidos ou projectados sobre papel ou pedaços fosfóricos excitados por electrões.

Seja qual for a técnica usada, não são nunca, por nunca o serem, cópias fiéis da realidade mas tão só a minha interpretação dela. Da minha actividade resultam ícones do que vi, senti ou pensei!

E se até agora me intitulei de “fotógrafo” foi porque, tendo que haver um termo que definisse o que fazia, este era consensual: fotografia!

Mas, nos tempos que correm, são tantos os que a põem em causa, que argumentam se um dado trabalho será ou não fotografia, se esta ou aquela imagem é ou não arte fotográfica, que decidi deixar-me à margem de semelhantes discussões.

Aquilo que faço com a minha câmara, químicos e computador são ícones dos meus sentimentos.

E eu sou um iconógrafo!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Reduções estéticas




A maior parte das fotografias feitas nos dias de hoje por amadores ou entusiastas de fotografia são feitas para serem consumidas na web. Nos sites de fotografia, nas redes sociais, enviadas como mensagem.

Elas são consumidas em tamanhos que não ultrapassam, optimisticamente, um palmo de largo se em computador, poucos centímetros se em dispositivos moveis.

O tempo gasto por cada consumidor com cada uma dessas fotografias não ultrapassa os poucos segundos: cinco, na melhor das hipóteses.

E se é certo que as imagens são divulgadas, também é certo que quem as divulga quer algum tipo de resposta, um feed-back positivo de preferência. Um click para um um like, meia dúzia de palavras elogiosas.

Acontece que este consumir a correr, estes tamanhos minúsculos de imagens e a enormidade de fotografias publicadas faz com que não haja tempo para se interpretar toda a imagem, dos elementos que a compõem à forma como estão distribuídos e a respectiva mensagem. Do que resulta indiferença se a fotografia for complexa, cheia de conteúdo, sem leitura imediata ou fácil. Sem feed-back, portanto.

O que conduz quem produz fotografia, amador ou entusiastas, a minimalizar as imagens, a retirar elementos, a reduzi-las a pouco mais que simples grafismos, como que icones de um sistema operativo. Em que pouco há que pensar ou interpretar. Porque o agrado ao público é o principal objectivo e há que fotografar e exibir fotografias que lhe agrade.

Esta redução ao mínimo no acto fotográfico, se bem que venha a criar o chamado “estilo minimalista” está a “estupidificar” fotógrafos e consumidores de fotografia.

Imagens elaboradas, com diversas interpretações possíveis, com jogos de luz, cor, composição e elementos, que enchem a alma e nos fazem pensar, são coisas que estão a desaparecer. Da web, da imprensa, dos albuns.

E, com isto, a identificação cultural de quem produz e de quem consome.

As vertentes estéticas e semióticas dos povos, das culturas, dos quatro cantos do mundo, estão a aproximar-se, criando uma abordagem fotográfica uniforme, informe e incaracterística.

A vertente artística ou de expressão pessoal está a definhar, muito mais rapidamente do que gostaríamos.

Em breve, se não já, a fotografia mais não será que como as fontes de letra que usamos: padronizadas, imutáveis, iguais em todo o lado. E o seu uso para mais que dez linhas ou com mais de dois ou três centros de interesse e duas linhas de fuga será tão anacrónico quanto o saber apertar a cilha de um muar.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Espera lá!




Se eu bem entendo daquilo que tenho lido por aí, em paralelo com o tal pacote laboral pretende-se reduzir as penas a aplicar aos patrões que ocultem à segurança social a contratação de trabalhadores.

Logicamente, se ocultam também não pagam as respectivas contribuições.

Por outras palavras, facilitam as entidades patronais a infrigir a lei e, caso sejam apanhados, pagam em multas só 25% das penas actuais e não vão presos.

Ou, se preferirem, o crime passa a compensar.

Em contrapartida, os trabalhadores que assim ficarem “invisíveis” perante a segurança social vêem reduzidos os tempos e montantes a contar para as respectivas reformas.

Foi neste conjunto de partidos que você votou? Então conte amargar a longo prazo a decisão tomada. Você e todos os outros que, apesar de assim não terem votados, vão também ver o seu futuro comprometido.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

À-Lá-Minuta




Alguém me fez o favor de fazer este registo.

Da minha pessoa exercendo o mister de fotógrafo de jardim. Ou, se preferirem, de fotógrafo à-là-minuta.

Era, de facto, um conjunto pouco convencional, ver este tipo manuseando um artefacto supostamente vetusto, numa actividade já extinta ou quase, usando pendurada do ombro uma DSLR novinha em folha. E não cobrando p’la fotografia que fazia e entregava.

Destruidor de negócios, dirão alguns. Alegrador de corações, dirão os que por ela passaram. Doido varrido, acrescentarão ainda outros.

Serei tudo isso e mais um par de botas.

Mas posso assegurar que todas as centenas de pessoas que posaram para esta câmara ao longo daqueles três anos se afastaram com um sorriso nos lábios. De todos os estratos sociais, de todos os níveis culturais, de todos os continentes.

E, garanto, quando ao fim do dia regressava eu a casa puxando o carrinho onde tudo isto se arrumava e carregando-o por autocarros e comboios, ia trauteando uma qualquer musiquinha alegre e bem disposta. Com a certeza de ter feito nesse dia mais um quantos felizes, de que levavam uma história p’ra contar, tal como eu, e que obtiveram de borla aquilo que, nalguns casos, não tinham como pagar.

Há quem ande p’las ruas e templos a prometer ou anunciar a felicidade numa vida posterior e eterna. Há quem se bata por uma vida melhor nos quatro anos consecutivos. Durante três anos, e por poucos minutos que fossem (nalguns casos sei que foi por anos a fio), fiz gente feliz.

Creio ter ganho um lugar tranquilo no céu dos photógraphos.


By me

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Com cabeça




Das minhas primeiras compras a sério no campo da fotografia, a terceira foi um semi-fiasco.

Comecei por uma Pentax MX, com uma 50mm f/1,7. Um conjunto de entrada, particularmente fiel e robusto. Ainda possuo a objectiva.

A segunda foi uma objectiva 75-150mm f/4. Foi o que o meu orçamento permitiu e continua a prestar bons serviços, ainda que ambicionasse uma Vivitar 70-210mm f/4, série 1. Um topo de gama, à época e creio que ainda hoje.

A terceira foi um tripé. Um barato, cuja marca já não recordo, escolhido pelo aspecto, leveza e preço, ignorando eu muita coisa sobre tripés. Durou uns anos, mas antes de passar à reforma tratei de adquirir outro.

Não tinha eu a noção da importância da robustez, fruto dos materiais, peso e localização do centro de gravidade. Menos ainda sabia da importância da solidez da cabeça. Não apenas para suportar o peso que lhe é colocado como para absorver as vibrações provocadas pelo mecanismo de obturação: movimento do espelho e das cortinas.

 

De momento, passados todos estes anos, possuo diversos suportes de câmara. Uns minúsculos tripés de mesa, para câmaras de bolso ou quejando, um tripé de madeira e alumínio, mais velho que eu e usado quase que em exclusivo com a minha câmara “À-Lá-Minuta”, um Gitzo suficientemente pequeno para passeios, mas não tão leve quanto o meu corpo, já não tão novo, gostaria, e um Bembo.

Sou um fã incondicional deste último!

O seu sistema de fixação da abertura das pernas ou do ângulo de posicionamento da coluna são incomuns e, sem prática, arriscado. Um único travão para tudo isso. Mas permite colocar a cabeça em qualquer posição, em qualquer eixo, usando uma mão para segurar a câmara e outra para travar o conjunto. Engenhoso mas ardiloso.

Tem este tripé uma característica também original: nas suas pernas, de apenas duas secções, é a superior que entra na inferior e não o inverso como habitualmente. Isto aumenta-lhe o peso e o volume, mas permite usar o conjunto em água, lama ou areia sem que estas entrem no sistema. Recomenda-se para quem faça fotografia no exterior, em terrenos “sujos”, já que é muito fácil de limpar sem colocar em risco tubos e roscas de fixação.

Claro que tudo isto o torna pesado e um pouco incómodo de transportar, mas é fiel, robusto e, com o tempo, aprende-se a gostar muito. É o meu tripé de serviço.

 

No topo dos tripés, a cabeça. Peça tantas vezes negligenciada, tanto no peso que suporta como na forma como é travada. E, com o passar dos tempos e sem manutenção, acaba por nos trair naquilo que mais queremos: uma câmara solidamente colocada.

Tenho uma Gitzo clássica, velha e muito usada, e três Manfrotto: uma de rótula, relativamente robusta, e duas 115. Estas suportam razoavelmente bem o peso que lhes costumo colocar, absorvem bem as vibrações da câmara e são muito fáceis de manter e limpar. Dependendo do uso que lhes dou, uma vez a cada dois ou três anos mais ou menos.

Acrescente-se a vantagem de estas 115 de terem uma grande flexibilidade no tocante a posição, bem como os manípulos serem ajustáveis.

 

A maioria dos fotógrafos preocupa-se com sensores ou películas. Ainda bem!

Preocupam-se igualmente com as objectivas. Importantíssimo!

Mas os suportes, bem como os pára-sois, acabam por ficar “para quando houver oportunidade”. Alguns dos problemas que se encontram mas imagens finais surgem desta atitude.

Disse-me um mestre e amigo, atribuindo-o a uma mestre mundial: “Só há dois tipos de fotografia: tremidas ou feitas com tripé”.

Tal como me disse, com a mesma origem: “Se não podes ter um bom tripé, arranja um monopé!”

Passe-se os exageros, são dois bons conselhos.

 

Pentax K100D, Tamron SP 90 1:2,5


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terça-feira, 7 de abril de 2026

Vai ser bonito, vai!




Foi nomeado pelo presidente da Câmara Municipal de Sintra para o cargo de chefe da divisão da polícia municipal um elemento das listas do chega às legislativas e às autárquicas.

Consigo imaginar as mudanças de comportamento deste corpo de polícia em função das ordens emanadas de tal pessoa com tais conceitos sociais e políticos. Principalmente num município com tamanha variedade de etnias e origens.

Vai ser um fartote!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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domingo, 5 de abril de 2026

Encontros




E duas K100D encontraram-se numa tarde de festa.

Mas também numa tarde de afirmação, bem antes das troicas, das pandemias e das extremas direitas.

Pentax K100D, Tamron 18-200


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sábado, 4 de abril de 2026

Juventude




“Não sou optimista nem pessimista. Entre mim e a vida não há mal-entendidos.”

Almada Negreiros

 

Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6


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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Um retrato consentido - 2010



 

Espero apenas que o bonito sorriso que aqui exibes não seja apenas porque o dia estava bom, havia festa e tinhas uma flor na mão. Desejo mesmo que ele, o sorriso, seja porque acreditas, de alguma forma, no que ele significou e significa, e que tenhas como verdade que o futuro te pertence e que o irás construir à tua medida.

Quanto ao não teres hoje aquilo que, então, nós acreditámos e sonhámos, mais não posso fazer que, a ti e aos da tua geração, pedir desculpa pelo nosso falhanço.

E citar António Gedeão, excelentemente interpretado por Manuel Freire:

 

"...

Eles não sabem nem sonham

Que o sonho comanda a vida

E que sempre que o homem sonha

O mundo pula e avança

Como bola colorida

Entre as mãos duma criança."

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Literatura




Recordo um livro de ficção científica onde, num universo paralelo, a governação era obrigatória e rotativa por todos os cidadãos.

Ficavam apenas excluídos aqueles que manifestavam algum tipo de interesse em exercer o cargo.

Justificação do autor:

“A governação da coisa pública dá tanto trabalho e é tão incómoda que só quem tiver motivos obscuros a pode querer exercer. E esses não os queremos lá!”

 

Eu disse que era num universo paralelo.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Abril é Abril!




O resto são mentiras, crenças e hipocrisias.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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terça-feira, 31 de março de 2026

Golpes de sorte




Quem se interessa por fotografar não pode deixar de parte o aquilatar da luz. Quer seja com os sistemas inclusos na câmara, quer seja com fotómetros externos.

Eu gosto desses aparelhos, nas suas diversa valências, e uso-os, em casos de dúvidas, para ter algumas certezas no que faço. E gosto de os ir colecionando, numa coleção que é forçosamente diminuta pelos preços e pelo que há no mercado. Principalmente os mais antigos, alguns dos quais, por força do seu sistemas de medição de luz, já não funcionam.

Um destes dias apareceu à venda um aparelho que cobiçava para completar uma série de uma dada marca. E o preço era muito convidativo.

Combinado o encontro, quem o vendia confundiu-se e tinha consigo um completamente diferente. Na marca, na forma de funcionar, na forma de manuseio, no tamanho... meio em jeito de compensação por eu não levar o que queria, ofereceu-me este.

Fiquei a ganhar e nem quem vendia sabe quanto.

Se, por um lado, aquele que quero aparecerá cedo ou tarde, este é peça mais que incomum, ainda que não rara.

Podendo funcionar como todos os outros, na mão, tem um encaixe que permite ser colocado na sapata dita de flash, libertando a mão mas estando sempre disponível.

O sistema nem é novo, bem pelo contrário: se era usado na época em que os fotómetros tinham a célula sensível à luz em selénio e não usavam pilha, alguns hoje, com o revivalismo das câmaras de película, já são digitais com o mesmo sistema de suporte e vendem-se em lojas on-line.

Este pertence a um periodo intermédio (anos 1970), já com célula em silício (necessita de pilha) e com um sistema de medição equivalente ao das câmaras da época com fotómetro incorporado. Não terão existido muitos fabricantes a apostarem neste sistema, que foi rapidamente ultrapassado pelo usado nas câmaras reflex como as conhecemos, antes do advento do digital.

É assim que por vezes, “sem saber ler escrever” se encontram peças que marcaram a história da fotografia, mesmo que brevemente.

E uma das vantagens de as ir colecionando, ou juntando, é o irmos investigando o possível sobre o que adquirimos. E admirarmos a engenhosidade dos fabricantes e o complexo que era fazer as fotografias que hoje admiramos.

Mesmo que seja por uma pecinha do tamanho de meio maço de cigarros. E de borla.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4


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Dúvida




Tenho sempre esta dúvida sobre comportamentos ao entrar num sanitário público:

Perante tantos urinóis vazios (ou cabines individuais vazias) quais as que são preferidas pelos necessitados?

Alguma escolha será feita, algum desses equipamentos será mais usado: Pela proximidade da entrada, face à urgência sentida? O mais central, numa atitude de indiferença? O mais distante, em busca de privacidade?

Não será muito adequado o colocar câmaras ou sensores nestes locais para efectuar estatísticas. Mas acredito que os gestores ou manutentes destes espaços terão alguma opinião formada, quanto mais não seja pela degradação dos equipamentos ou pela sujidade acumulada ao fim do dia. Já quanto às motivações… só um inquérito junto dos aliviados poderá levar a alguma conclusão válida.

Alguém quer opinar?

 

Telemovel


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segunda-feira, 30 de março de 2026

Um retrato roubado

 


Um retrato roubado

 

Pentax K100D, Pentax 18-55


By me

Recortes do “Old fashion”




Na minha câmara, caixa, artefacto, o que lhe queiram chamar, tinha um mostruário.

Não é particularmente grande – três fotografias de cada lado – e faz muito que não o mudo. Tenho andado com vontade e de o fazer, mas a preguiça tem-se imposto e lá vai ficando. Ainda bem!

Uma das fotografias é de uma senhora e de sua filha. Romenas, a mãe não tem ofício certo que não seja andar a pedir, ao que me parece.

Uma ocasião um garoto, igualmente romeno e que as conhece, orgulhoso da sua recente aquisição – uma bicicleta – viu-me e veio cumprimentar-me. Tão orgulhoso estava que insistiu em ser de novo fotografado – tinha-o sido uns meses antes – mas desta feita aconteceu montado no corcel.

Enquanto a imagem se processava, sempre me foi dizendo que aquela senhora tinha estado ausente para a sua terra natal mas que regressaria na semana seguinte.

Umas semanas depois constatei que ela tinha regressado!

Sou abordado por dois homens, com uma terrível dificuldade em se exprimirem em português. Mas ao verem a fotografia da senhora, todas as barreiras linguísticas se derrubaram. Um deles soube dizer-me que a criança era linda, conhecendo-a pelo nome. E que era linda, e que era linda, e tão linda ao ponto de beijar a fotografia ali pendurada.

O seu companheiro lá se fez entender e comunicou-me que era a filha que ali estava fotografada.

Claro que quiseram ser fotografados e se a fotografia não fosse gratuita passaria a sê-lo.

Poder unir, ainda que com corantes jorrados num papel, uma família nómada e de parquíssimas posses, é pagamento que baste. E se a tarde rendeu pouco em quantidade, sobrou em qualidade!


By me

sábado, 28 de março de 2026

Recortes do “Old fasion”




Suficientemente ébrio para ser o motivo de chacota da garotada; suficientemente sóbrio para sentir curiosidade.

Suficientemente grosso para ter a língua entaramelada; suficientemente lúcido para perguntar, com timidez, se também podia.

Suficientemente bêbado para mal se aguentar direito; suficientemente arejado para guardar com mil cautelas a fotografia no seu saco maltrapilho.

Suficientemente toldado para me confidenciar alguns dos detalhes miseráveis da sua vida profissional; suficientemente ser humano para querer que se escrevesse por trás da foto o meu nome, a data e o local para mais tarde recordar.

Suficientemente gente para, ao afastar-se, agradecer com um aperto de mão e pedir desculpa de não estar nos seus melhores dias.

Suficientemente bom para, ao ir para onde quer que fosse naquele fim de dia, ainda olhar para trás com um sorriso para a garotada que dele chacoteava.

 

Quem? Não sou suficientemente despudorado para aqui e assim o exibir!

 

By me


Rapinagem


 


A crise está de tal modo que tudo nos roubam, tiram, subtraem. Legal ou ilegalmente.

Hoje sonegam-nos tempo, ao retirarem-nos uma hora de sono.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

Um retrato – e nunca saberei o seu nome

 


Tem vinte anos esta fotografia. E recordo com muito rigor as circunstâncias em que foi feita.

É que não sou pessoa de fotografar quem pede, quem dorme nem se sabe onde, quem passa fome. Não procuro colecionar troféus com a desgraça alheia.

Mas este caso... estava sentada no chão, com um copo como receptáculo de eventuais esmolas. Até aqui, infelizmente, o habitual. O que nada tinha de normal era o local onde se encontrava: numa transversal de uma avenida muito “bem” de Lisboa, numa zona de prédios vetustos e condenados para breve e onde os transeuntes mais que rareavam. E rareiam, segundo imagino.

Saltou-me à vista o seu total isolamento, de tudo e todos, o seu olhar perdido num ponto para além do horizonte bloqueado por prédios.

Contribuí. Uma espécie de obrigação, um dizer “hoje ainda recolhes alguma coisa”.  E tentei entabular conversa. Inconsequentemente. Que não partilhávamos língua nem vontade de conversar.

Foi por gestos que lhe pedi por uma fotografia, feita com uma câmara de bolso que tinha comigo. Anuíu com aquele olhar de “tanto me faz”. Nem sequer me pediu por uma moeda adicional pelo acto fotográfico.

Não tenho orgulho neste registo. Mas faz parte do meu arquivo e guardo-as todas, pois fazem parte do meu próprio percurso.

 

Samsung S1060


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sexta-feira, 27 de março de 2026

O protagonista




Este é o protagonista da história. Um quase vítima, salvo devido a boas vontades já raras e alguns sacrifícios.

Mas eu conto do princípio.

Em sendo fim de semana, o meu desembarque ferroviário em Lisboa, a caminho do trabalho, era na estação de Benfica. Dava-me mais jeito.

A mim e a muitos outros, que aqui fazem transbordo para autocarros com diversos destinos, próximos ou distantes.

Sendo que nunca gostei de correr de ou para o trabalho, costumo deixar os mais apressados tomar a dianteira. Acendo um cigarro e vou olhando em redor, umas vezes vendo coisa nenhuma, outras remoendo em ideias crescidas no comboio, outras ainda em busca de algo que justifique a câmara que trago no bolso. Naquele dia não foi excepção.

Mas notei que a composição demorava a partir. Coisa pouca, mas o suficiente para me alertar.

Eis que, de uma das portas abertas (estavam quase todas) saiu o revisor. Afastou-se do comboio enquanto que, com o olhar, varreu a plataforma já quase deserta. Em passos rápidos dirigiu-se à rampa de saída, debruçou-se sobre o parapeito e chamou. Não sei o que disse, que não estava eu perto o suficiente par ouvir, mas fez um chamamento. Que foi ouvido.

Uma mocinha, de vintes e poucos, arrepiou caminho, entrou numa carruagem e saiu de seguida. Na mão trazia um saco de plástico cheio.

O revisor olhou de novo para a plataforma, primeiro um lado, depois o outro. Neste, o seu olhar cruzou-se com o meu. Um sorriso e um aceno de cabeça meus, de agradecimento p’la atitude, um sorriso igualmente breve, com um encolher de ombros da parte dele. E embarcou, fazendo sinal ao maquinista para seguir. Que fez soar o apito, fechou as portas e reiniciou a marcha.

Todo este compasso de espera terá demorado, no máximo dos máximos, 90 segundos. O suficiente, talvez, para que algum passageiro a bordo bufasse de impaciência. No entanto não creio que tenha estragado em demasia a “tabela” a cumprir.

Desci as escadas, agora já sem gente apressada, e dirigi-me para a paragem onde haveria de tomar o autocarro. Sem grande surpresa, constatei que na fila estava a mocinha meio-esquecida. Que embarcou à minha frente e se sentou onde encontrou lugar. Aqui!

Não poderia eu meter conversa para um registo fotográfico mais explícito. Nem o lugar nem as circunstâncias o permitiriam.

Restou-me o fotografar à sorrelfa o saco, o bendito saco que quase seguia para destino desconhecido, não fora a boa vontade de um revisor da CP.

 

Andamos todos preocupados com o presente e apreensivos sobre o futuro. Alguns há, felizmente, que tratam de pintar com cores um pouco mais alegres e fruto dos seus bons actos o negrume que vemos.

Bem hajam!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

quinta-feira, 26 de março de 2026

Atitudes




A primeira vez que fui escalado para uma transmissão de uma tourada foi um drama.

Foi um drama para mim, que já então abominava essa prática e não queria contribuir para a sua divulgação; foi um drama no trabalho, que não aceitaram o meu pedido de mudança de tarefa por objeção de consciência; foi um drama em casa que me alertaram para a possibilidade de ser despedido se não comparecesse... foi um drama.

Acabei por ir e criar reboliço.

Quando a minha câmara estava no ar no momento em que o ferro era cravado, no lugar de acompanhar o vitorioso cavaleiro ou matador, acompanhava o toiro, apertando o plano até ficar apenas com a cabeça, os quartos dianteiros e, bem em evidência, o local onde ficara a bandarilha espetada. E, se o toiro me desse o seu melhor perfil, o brilho vermelho do sangue a escorrer.

O gritos do realizador eram portentosos, com insultos pelo caminho, mas não me desviei do meu objectivo. E repeti a proeza nas lides seguintes.

Em acabada a transmissão ouvi das boas, com ameaças dos quintos dos infernos, mas eu estava na minha, argumentando que se o objectivo era cravar a bandarilha, era isso que mostrava, por muito que isso incomodasse o público. E esse era o meu objectivo secreto: que o público se incomodasse e deixasse de ver aquilo.

Fiz mais duas ou três transmissões esse verão e nunca mais me escalaram para esses trabalhos. Fiquei uns tempos de castigo não formal, mas ganhei a guerra: comigo não contavam para essa barbárie.

Agora, passados que são uns decénios valentes, estou num dilema equivalente. Termina dentro de dias uma exposição fotográfica em Lisboa em que o tema são corridas de toiros.

Não duvido da qualidade do exposto. Se bem conheço o galerista, posso apostar que as fotografias são muito boas, mesmo sem as ter visto.

Mas não me apetece contribuir com a minha presença para o sucesso de uma exposição sobre esse tema.

Sei que estas minhas posições são polémicas e conduzem a conversas ou discussões sem fim e sem vencedores ou vencidos. E tenho-as tido ao longo da vida sobre diversos assuntos, desde produtos alimentares a actividades político-partidárias, passando por certames fotográficos e apertos de mão a figuras gradas da nossa sociedade.

Mas também sei que ninguém irá escrever na minha lápide fúnebre “Aqui jaz um tipo de bom feitio”.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


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quarta-feira, 25 de março de 2026

Le nu




Termos que nos deslocar a pé na cidade tem destas coisas: ser surpreendido com mercados de rua onde podemos encontrar pequenos tesoiros. Foi o caso.

Este livro, usado, custou-me cinco euros. Quase o preços da chuva, convenhamos. Mas o seu valor é muito superior, se considerarmos outros factores que não os de capa.

Para além de fazer parte de uma série de livros que existe desde há 40 anos, ao que sei, que são razoavelmente bem impressos para o preço, no seu conjunto abordam todas as vertentes da fotografia. Monografias por autor ou temáticas.

Claro está que um livro temático depende, no seu conteúdo, das opções do editor. Que pode não deixar de ser tendencioso e terá, certamente, preferências. Este exemplar é um exemplo oposto num aspecto.

Ao contrário da esmagadora maioria das obras sobre o nu fotográfico, este não se atém ao nu feminino. Contendo fotografias desde 1855 até 1984, talvez que 20% delas são masculinas, o que é particularmente raro.

Começa, desde logo, por geralmente se fazerem muito menos fotografias de nu de homens que de mulheres. Suponho que haverá algum receio por parte dos homens fotógrafos de serem chamados de “bichas” se o fizerem.

Depois porque, e isto aplica-se na pintura também, a maioria dos consumidores de fotografia (em livro, em revistas ou individuais) serem homens. Quer os que compram avulso, quer os que encomendam aos autores para comprar. E, não nos enganemos, a grande maioria dos consumidores de fotografia, bem assim como os produtores, fazem-no como substituto daquilo que não podem possuir. Seja um pôr-do-sol, seja um castelo, seja um automóvel, seja um ser humano. Um acto de cobiça, se quiserem ir longe nos conceitos. Sendo a maioria dos consumidores e produtores de fotografia homens, faz algum sentido que cobicem mulheres. Na posse ou na produção de fotografias, as mais das vezes, o sentido estético pesa objectivamente. Mas a posse do fotografado pesa subjectivamente, sem que disso nos apercebamos.

Como se tudo isso não bastasse, existe um conceito bacoco em que o belo no corpo humano apenas acontece no feminino. Só as mulheres são belas, só os corpos das mulheres podem acordar a líbido, só os corpos das mulheres podem evocar sentimentos. Conceito bacoco e machista! Sugiro que perguntem às mulheres se assim acontece.

É assim, pelo acima dito sumariamente e por tudo o que não é dito que longo seria, que um livro que aborde a fotografia do nu e inclua fotografias de nus masculinos se torna numa peça rara de encontrar. Numa livraria, numa feira de rua ou numa biblioteca. Excepção feita à minha, onde constam alguns.

Acrescento que imagem da capa que mostro está assumidamente censurada por mim para evitar que os puritanos (humanos ou algoritmos) das redes sociais a bloqueiem tão rápido a encontrem ou seja denunciada.

 

Pentax K1 mk2, Tamron SP 90 1:2,5

 

By me


Reunião magna

Acho que todos conhecemos a expressão “o idiota da aldeia”.

É que todas as aldeias têm um, seja qual for o tamanho da aldeia. Mais cómico ou mais trágico ou mais violento. Mas, no fundo, são todos e cada um mais ou menos inofensivos.

A questão complica-se porque há muitas aldeias. E todas enviam o seu representante idiota a uma reunião magna. E nesta se toma o poder sobre todas as aldeias.

Temos tido diversos exemplos ao longo do tempo e do espaço. Alguns tão próximos que são o presente. E com isso somos geridos num congresso de idiotas em que o líder foi escolhido por ser o mais idiota de todos.

 

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segunda-feira, 23 de março de 2026

Histórias velhas




À época não havia onde aprender o ofício. Aliás, só uma empresa tinha profissionais na área, já que era a única em Portugal que tinha aquele tipo de ramo: televisão.

Dos que passaram nas provas de admissão alguns de nós fomos admitidos ao curso de formação que nos daria as bases. Três meses de teóricas e dois meses de práticas. Na primeira parte seis horas por dia com diversos formadores em sala de aula, sem autorização de acedermos às áreas técnicas.

No primeiro dia de prática fomos recebidos no estúdio por três consagrados operadores de câmara. Daqueles cujo nome era de encher a boca.

Depois das apresentações, convidaram-nos a por em prática algo que haviamos aprendido das teóricas: executar um traveling. Por outras palavras, movimentar uma câmara para a frente ou para trás ou para os lados sempre com imagem útil.

Os que encheram o peito e foram mostrar as suas habilidades ou capacidades, ficaram todos de orelha murcha, já que nenhum foi capaz de o fazer, mesmo sob o sorriso irónico desafiante dos formadores.

Após o fiasco, um deles agarrou-se ao tripé e à câmara e quase que dançou uma valsa com ela, com uma suavidade e perfeição impressionantes.

Acabada a demonstração disseram-nos que no final do curso saberiamos fazer aquilo assim (ou lá perto) e que o truque ou técnica não estava (e não está) na força mas no jeito de o fazer. E isso aprende-se. Aprendemos.

Anos mais tarde sorria eu ao ver recém chegados, vindos de escolas profissionais ou mesmo já com experiência, a não serem capazes de fazer aqueles movimentos de câmara com suavidade, agarrando-se com força aos pedestais, coisa muito mais fácil de manobrar que um tripé.

Explicava-lhes então eu que aquilo se faz com quatro dedos: dois para o pedestal e dois para o punho da câmara. E que é fácil, muito fácil. E demonstrava.

Dava-me um prazer imenso ver como os seus olhos se abriam de espanto (mesmo os de alguns já com experiência) ao perceberem que afinal aquilo é quase manteiga, desde que se saibam os truques ou técnicas.

Terminava eu com a explicação dos motivos da física e da dinâmica que justificam essa facilidade. E essa é a “pedra de toque”. Perceber o porquê das coisas funcionarem. Permite bem fazer aquilo que se sabe fazer e aplicar esse conhecimento a situações novas ou diferentes, facilitando e melhorando a sua execução.

Os que não se preocupam em saber o que está para além do botão ou do manípulo nunca serão algo mais que repetidores ad nauseam das mesmas tarefas, incapazes de criar ou improvisar. A menos que se seja um génio, coisa rara de encontrar.

Isto é válido para imagem, culinária ou astronautica.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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domingo, 22 de março de 2026

Amor/ódio




Há tarefas com as quais tenho uma relação amor/ódio em que o ódio prevalece. Um bom exemplo é o emparelhar meias.

Com o passar dos anos acabei por encontrar uma solução que me evita ter que o fazer: desfiz-me das meias que tinha, novas ou velhas, e comprei vários pares de meias iguais. Todas iguais no tecido, na cor, no padrão. Assim, quando as tiro do varal onde secaram depois de lavadas, vão a monte para a gaveta. E quando vou por meias lavadas basta-me meter a mão e tirar duas. Sei que serão iguais.

Mas há outras tarefas que não podem assim ser tratadas. Implicam tempo disponível, disposição para as executar e tranquilidade no fazer. Um bom exemplo é o limpar o sensor de uma câmara digital.

Sabemos que o sensor é uma parte delicada da câmara e que qualquer poeira se nota na imagem final. E que qualquer risco no sensor é o seu fim. Por saber da delicadeza da tarefa, de que não gosto pela dose risco que implica, faço-a apenas em último recurso e quando me sinto suficientemente tranquilo para tal. Foi o caso.

Sentado à mesa de trabalho do “estúdio”, o local tão imaculamente limpo quanto o possível, deito mãos à obra. Cavidade da câmara limpa antes de expor o sensor, espátula de limpeza retirada do invólucro estéril e devidamente humedecida, faço a primeira passagem. A meio da segunda passagem, em sentido inverso, aconteceu o mais improvável: fiquei sem energia elétrica.

Não que processo implique eletricidade. De preferência até não, para evitar estáticas. Mas convém que eu veja o que estou a fazer, principalmente quando estou a intervir no sensor. E ficar às escuras com a espátula nele encostada será algo de todo não recomendável.

Consegui retirar a espátula da cavidade sem com ela tocar o que quer que fosse e desliguei a câmara. Às escuras fui em busca de uma luz alternativa e tratei de aguardar tranquilamente pelo regresso da energia. O que não demorou mais de meia hora.

Mas, ali mesmo quase às escuras, fiz uma jura solene: de agora em diante ou faço esta limpeza de dia, perto de uma janela, ou faço-a à luz de baterias devidamente carregadas. Sempre evito o susto, o risco e o soltar uns valentes palavrões.

Nota adicional: o sensor ficou incólume.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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quarta-feira, 18 de março de 2026

Imagem




Hoje fui tratado de um modo quase indigno: fizeram-me uma imagem!

É verdade que foi sugerida e eu aceitei mas, no final, nem ma mostraram e muito menos se proposeram dar-ma ou enviar-ma. “Tá feito, tá feito, venha outro!” como se eu estivesse na rua a acender um cigarro e viesse alguém com uma câmara apontada para mim.

Pior ainda: desnudei-me a pedido para a imagem.

Não que isso me incomode por demais. Nunca fui exibicionista ou envergonhado. Menos ainda com esta idade. No entanto, caramba: um tipo que se desnuda assim sem preconceitos perante a máquina merece um pouco de consideração. No mínimo deixarem-me ver aquilo que eles viram em mim que justificou o quererem fazer uma imagem. Mas não: nadica de nada.

Quando vim embora, vinha de mãos a abanar. Enfim, não completamente porque, liberto das restrições óbvias, vinha com um cigarro aceso, bem seguro por via da ventania.

Mas na minha cabeça ainda ressoavam aquelas palavras de antanho, que se repetem e que quase todos bem conhecem: “Encha bem. Não respire. Pode respirar.”

Saudades dos tempos em que ficávamos com o positivo em papel, à saída do fotógrafo. Ou a chapa em negativo à saída do consultório de RX.

 

Olympus C3030Z


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