terça-feira, 7 de julho de 2026

Um clássico




Estava de férias em Lagos.

A família regularmente alugava a mesma casinha nos limites rurais da cidade e íamo-nos espraiar de manhã e à tarde para a meia praia.

Uma ocasião vi um glorioso carro dos anos 50 estacionado na avenida marginal. Impecável, parecia acabadinho de sair da fábrica. A seu lado, uma pequena palmeira no passeio. Mais ao fundo, a muralha de pedra do porto e o céu azul.

Este conjunto sugeriu-me uma imagem a fazer, desde que com a luz no ângulo certo. Feitas as contas e olhada a bússola, seria pelo meio-dia.

Uns dias depois, tendo o céu a limpidez adequada, parti descendo a colina, carregado com a câmara, as ópticas, os filtros, o tripé… toda a parafernália. Havia que chegar ao local a tempo de apanhar o sol na posição certa.

A meio caminho sou interpelado por um casal de velhotes que caminhava em sentido inverso:

“- Olá, como está?

- Desculpem mas… conheço-vos?

- Não se lembra de nós?

- Confesso que não. Querem ajudar-me?

- Em Coimbra, junto à Sé velha, há uns anos… Aquela fotografia que nos tirou…”

Recordei-me então e ficámos um niquinho à conversa.

Reformados que estavam, aproveitavam quando estava bom tempo para passear e conhecer o país como não tinham podido quando jovens.

E, à medida que iam viajando, iam fotografando o que viam, enquadrando-se ora um ora outro na imagem. Tinham uma única fotografia de ambos desses passeios: Aquela em que eu me tinha oferecido para fazer com a câmara deles, em Coimbra, aquando de uma das minhas peregrinações ao Encontros de Fotografia.

Apenas uma, de milhares que tinham. Apenas uma que os mostrava aos dois. Partilhando os Outonos amenos da vida e de Coimbra.

A minha oferta, tão natural quanto um copo de água, marcou-os indelevelmente. Aquela fotografia não é uma fotografia para eles:

É “A” fotografia.

Confesso que na altura já nem me recordava do facto. E, não fora eles, nem nunca mais o recordaria, de entre muitas situações semelhantes vividas.

E esta fotografia, que nunca vi, é uma daquelas que consta do meu álbum de recordações. Não como um ponto de viragem, mas mais como um parágrafo no livro que vamos escrevendo e a que chamamos vida.

Quanto à foto do carro? Bem, a hora de verão está atrasada em relação à solar, pelo que cheguei demasiadamente tarde nesse dia. Voltei lá mais tarde, mas não consegui dar-lhe aquele ar retro-californiano que queria.

 

Não adianta imitar. Há que ser espontâneo e generoso na fotografia, tal como na vida.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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domingo, 5 de julho de 2026

Era uma mocinha esperta




Estava numa feira de velharias e artesanato. O sol ainda não tinha aquecido a sério e prometia vir a estar bravo. Por isso, eu estava mais ou menos  com pressa, a tentar fechar negócio sobre um fotómetro Sverdlovsk 4 que ali estava à venda.

Mas não deixava de estar alerta com os demais visitantes. Nunca se sabe o que aparece. E apareceu!

Entre as pessoas que se aproximavam, duas mocinhas. Uma delas com duas câmaras penduradas no ombro esquerdo. Estranhei e esperei que se aproximassem para melhor perceber. Uma era esta e saí-lhe ao caminho.

Turistas, não sei de onde, acabámos por estar à conversa sobre a bela da Pentax. Herança do avô, tudo funcional excepto o fotómetro, mesmo com pilha. Mostrou-ma e não era de todo a correcta.

Lá estive a explicar-lhe que pilha deveria usar e onde comprar, mesmo que sem garantias de o fotómetro estar funcional.

Mas disse-me que usava a regra do f/16 e que, quando tinha dúvidas, usava a digital para medir a luz. Esperta, a mocinha.

Elas lá foram no seu passeio turístico, mesmo que escaldante. E eu fiquei com o registo de uma Pentax em uso na cidade de Lisboa, coisa cada vez mais rara.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-FA 28-200


By me

Estava muito calor




Pentax K7, Sigma 70-300


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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Suportes




Eu tinha 17 anos.

Pôs-se a possibilidade de ir em viagem de finalistas a Londres. A família não era abastada, longe disso, e não havia dinheiro para tais aventuras, mas com boas-vontades daqui e dali a coisa compôs-se. Incluindo a ajuda da família da minha namorada, que queria que eu fosse com ela.

O que não havia era como fazer o “para mais tarde recordar”. Eu tinha uma câmara desde os doze anos, mas fazer fotografia era caro e estava parada havia muito tempo. E era muito fracota. É muito fracota, que ainda a possuo.

Um parente decidiu chegar-se à frente e emprestar-me a sua. Recordo que era uma SLR mas não a marca. E possuía uma 50mm, mais que suficiente para os registos, digam hoje o que disserem sobre zooms e edições posteriores.

No dia em que me foi entregue (recordo o local exacto, a luz, a sombra da frondosa árvore, a mesa e os bancos de pedra) foi-me dada uma recomendação, entre outras, que não esqueci até hoje:

“Toma cuidado que ela só faz fotografias a cores!”

Quem ma emprestou já morreu, que o episódio é velho. As fotografias que fiz foram a cores e estão algures no arquivo, numa caixa que não sei qual. Já não olho para elas há anos e tenho a vaga memória de estarem rosadas, naquele tom de fotografias coloridas e mal processadas, em que a luz e a humidade são carrascos impiedosos.

E nunca virei a saber se esse meu primo, bem mais velho que eu, estaria a falar a sério se na brincadeira. Segui as suas indicações mas, na minha enorme ignorância sobre fotografia, aquela recomendação nunca me convenceu por aí além.

Anos mais tarde, já a fotografia fazia parte integrante da minha vida, disse-me uma senhora numa loja de fotógrafo em Castelo Branco que os rolos em Preto e Branco já não se fabricavam. E que não tinham. E eu, que tinha esgotado os que havia trazido de casa naquelas férias vadiando pelo país, acabei por ir comprar num dos outros poucos fotógrafos que a cidade tinha, ainda que tivesse penado para o encontrar.

Talvez que tivessem andado juntos na escola, aquela senhora e aquele meu primo, ainda que a geografia não o indicasse.

Vadiei pelo Preto e Branco durante anos. Porque o laboratório era meu, porque bem mais barato, porque o Ansel Adams era (e é) um mestre a tentar imitar.

Mas percebi, a dado passo, que o suporte e a técnica têm que ser usados em função daquilo que queremos transmitir e não podem ser limitadores do que queremos fazer.

Tenho para mim que a vida é a cores, que reagimos a elas como os cães aos cheiros, e é isso e dessa forma que quero mostrar.

O monocromatismo é apenas uma dessas formas.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Extremos




Quem achar que as temperaturas estão muito elevadas e quiser algo mais fresquinho, sugiro um passeio até à Guarda.

De acordo com fontes oficiais enquanto que em Lisboa e pelas oito da manhã se já registavam vinte e oito graus e uns trocos, à mesma hora na Guarda os termómetros marcavam 14,6º.

É só uma dica.

 

Nicon Coolpix P7000


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terça-feira, 30 de junho de 2026

História




Quando pego numa câmara ou objectiva gosto de sentir uma de duas coisas: ou que é absolutamente nova (ou quase) ou que tem história.

Algumas das que possuo vieram para a minha mão novas. Ou quase novas. Retiradas da caixa por mim, ainda com o “cheiro da fábrica”, ou da mãos de alguém adquiriu  mas pouco uso lhe deu, tendo-a guardado com cuidado ou carinho.

Muitas outras entraram em minha casa depois de terem tido vários donos, uns mais cuidadosos que outros, algumas com muito uso, amador ou profissional. Na medida em que consigo, tento saber essas histórias, coisa que só é possível se for uma venda particular. Em lojas ou feiras de rua, não sabem ou não querem contar qual o passado da câmara ou objectiva.

Se aparentar ter um passado vivido, tento conservar a aparência que possui. E tento tanto mais quanto mais antiga é a peça. Tenho apenas o cuidado de a manter em condições de funcionamento e evitar que se suje com pó ou semelhante. A chamada “patine” faz parte do passado e da história.

Este é um detalhe de uma Pentax S1A, fabricada entre 1962 e 1968. Absolutamente mecânica, haveria que usar um fotómetro de mão ou um adicional à câmara para calcular a exposição. E esperar não ter errado no calculo.

Da sua história pouco sei. Foi comprada no meu mecânico de fotografia, e depois de muita insistência. O único detalhe que consegui obter é o ter estado ali há muitos anos, na sequência da desistência de um cliente.

Quando pego nela para lhe tirar o pó ou para lhe apreciar algum detalhe, tento imaginar o seu passado. Provavelmente nas mãos de um amador entusiasta, guardada no estojo de coiro de origem, que entretanto se estragou, e usada para férias ou festas especiais.

Hoje tem marcas do tempo. Marcas que não tentarei disfarçar e que tentarei não aumentar. Porque se não consigo ver o que esteve à frente dela, essas marcas de algum modo contam sobre que esteve atrás dela.

Quem quer que tenha sido, obrigado por a ter conservado.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

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domingo, 28 de junho de 2026

Riscos




Há situações que devemos acautelar antes dos momentos críticos.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Sem volta




Uma destas noites dou-me mal! A sério que me dou.

Preparava-me eu para ir conversar com Morfeu, já não tão cedo quanto isso considerando a hora a que acabaria essa conversa, e batem-me à porta. Sendo que ainda estava em trajes decentes, fui saber quem seria.

Tratava-se uma senhora minha vizinha, aliás, recém vizinha, que me perguntou se teria uma chave com que pudesse abrir a porta dela.

Imagine-se o meu olhar de espanto. Ter eu uma chave que abrisse a porta dela. Talvez que, noutras circunstâncias e com mais aprofundados conhecimentos, isso fosse possível e até agradável. Mas sendo que a conhecia apenas de vista e que nunca trocáramos mais que uns circunstanciais cumprimentos, seria difícil de acontecer.

Lá lhe expliquei que não, que não tinha, ao que me contou que tinha deixado a chave em casa e a porta se fechara.

“E está no trinco?” Estava! “Então espere um pouco que lhe vou mostrar um truque.”

Voltei a casa e regressei com uma garrafa de litro e meio de coca-cola, vazia. Já no patamar e usando do meu canivete, retalhei-a da forma que se vê, ficando com uma tira de pouco mais de 25cm de plástico. Com ela, e através da frincha, lá lhe abri a porta. Levei um pouco mais tempo do que esperava: no lugar de dez, precisei de quase trinta segundo, que não encontrava a malfadada lingueta a empurrar.

O seu olhar, inicialmente molhado, secou rapidamente e de espanto passou a agradecimento.

E, antes que recuperasse o fôlego, expliquei-lhe a rir, que aquele não era o meu ofício, que não andava a assaltar casas.

“Eu também não!” exclamou também já rir, exibindo um arame retorcido com que tinha tentado fazer como nos filmes, no buraco da fechadura.

Rimos mais um pouco, trocámos nomes e um aperto de mão e regressámos a casa, cada um à sua entenda-se. E se ela foi fazer o quer que tenha sido que costuma fazer em sua casa, eu fui directo para a cama, que o toque de alvorada é particularmente cedo por estes dias.

Mas já deitado, e enquanto esperava pela chegada da inconsciência do sono, fiquei a pensar no episódio.

É que, aqui neste prédio e que me recorde, é terceira vez que assim ajudo um vizinho. E se a coisa se sabe pode ser perigoso. Ou bem que sou contactado pela polícia, depois de uma casa assaltada com este método, ou sou acordado a altas horas da madrugada por alguém do prédio em apuros.

Ou, pior ainda, ser processado pela Coca-Cola por estar a usar as suas garrafas para arrombar portas.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Just for the fun





Pentax K7, Pentax-M 50 1:1,7


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Supostamente




Supostamente, o jornalista verá as cores do globo em preto e branco.

Sem se deixar influenciar nem pelo colorido partidário, nem pelos tons vivos das explosões ou os pálidos cadavéricos.

Em preto e branco para que todas as cores sejam tratadas pelo que são, sem simpatias ou empatias pessoais.

Supostamente…

 

Nikon Coolpix P7000


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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Juro!


Juro que sempre me fez confusão como, nos filmes americanos, os personagens entendem que ficam protegidos de uma ameaça vinda da rua ao fecharem a porta com uma volta de chave e... a porta ser de vidro.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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domingo, 21 de junho de 2026

Duas fotografias




O que tem esta imagem de particular? Nada, de facto, a não ser que uma foi feita com os últimos raios de sol de um dia e a outra com os primeiros raios de sol do dia seguinte.

Entre uma e outra, a noite mais curta do ano.

Detalhes pouco importantes a menos que se pense, como eu, que os solstícios e os equinócios são datas importantes. Tão importantes que os antigos, os muito, muito antigos, aqueles que nem sabiam escrever, os celebravam. A tal ponto que se deram ao trabalho de juntar esforços enormes para arrastar e erguer enormes penedos para com eles assinalar as datas.

Do meu ponto de vista, os solstícios e os equinócios deveriam ser feriados mundiais. Já que, aconteça o que acontecer, faça o bicho homem o que fizer, continuarão a acontecer muito para além da existência da espécie humana. E acontece desde antes da espécie humana não passar de uma amiba.

A importância que nos atribuímos reduz-se a coisa nenhuma perante o universo e a sua enormidade.

Bom solstício para todos vós.

 

Pentax K100D

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Momentos




Em 10 de Novembro de 2015, pela tardinha, em frente a este edifício e na sequência de notícias do que ali havia sido votado, a multidão que ali se encontrava repetiu quase até à exaustão um grito espontâneo ali surgido, que ainda hoje recordo com um arrepio nas costas:

“Já caiu, já caiu, vai p’ra puta que pariu!”

Hoje não estava lá. Nem sei se lá se juntaram uns milhares como então.

Mas apeteceu-me gritar algo de semelhante aqui da minha janela, pese embora as causas e consequências sejam outras.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

Afectos e fotografia




Tenho vindo a afirmar, ao longo dos tempos, que fazer ou ter uma fotografia é o resultado de um sentimento de cobiça ou desejo de pose. Por aquilo que nela está iconificado: o pôr-do-sol, a pessoa, o objecto.

Apenas para dar um exemplo que consubstancia esta afirmação, quantos serão os que fotografam e exibem objectos que possuem? Com que lidam todos os dias? A excepção será, talvez, quando a fotografia e a sua exibição sirva para demonstrar que se possui o retratado – pessoa ou objecto.

E quanto mais precioso é o iconografado mais sacramentalmente se guarda a imagem: álbuns especiais para aquelas férias ou casamento, molduras caras para este ou aquele retrato de um parente ou amado e, cereja no topo do bolo, a carteira onde constam as fotografias de parentes, em regra muito queridos, vivos ou não. E, quando se fala nos filhos, netos, namorado/a ou pais, aí está a carteira (mais modernamente o telemóvel) onde se encontram as fotografias mais recentes ou significativas.

Mas a fotografia também é uma manifestação de afectos negativos! Fotografa-se o acidente, o insólito, o feio, o incómodo!

E, aqui, há dois tipos de motivos: Ou o exaltar o fotógrafo, mostrando assim, com a fotografia, que ele esteve no local, que testemunhou aquela situação ou, menos frequente mas real, como forma de exorcismo do mal retratado, tentando assim que o iconificado não passe disso e não seja parte integrante da vida do fotógrafo ou exibidor.

Um pouco como sucede com as anedotas, de que tanto nos rimos, e que, se bem as analisarmos, nunca falam de coisas agradáveis ou boas que tenham sucedido aos intervenientes. Pelo contrário, rimo-nos com o mal dos outros como que, com o riso, possamos afastar a possibilidade de o mesmo nos acontecer.

Mas há ainda uma terceira atitude negativa que é tida perante a fotografia. Neste caso, não perante o acto de a fazer mas antes para com ela enquanto objecto ou ícone: a negação ou destruição!

O rasgar, queimar, destruir de uma fotografia é uma forma de remover o que nela consta ou conta das vidas de quem assim age. Uma forma de negar o passado ou tentar, com isso, impedir que este se repita ou continue.

Exemplo mais ou menos corriqueiro é o que sucede aquando de uma zanga entre namorados ou quebra de votos de afectos. As fotografias do “outro” são destruídas, na tristeza do privado ou na raiva do público.

Acontece mesmo ser o retratado a exigir a devolução de fotografias que o “outro” possui de si, impedindo que o mesmo “outro” possua o que quer que seja de quem protesta ou reclama. Nem mesmo a sua imagem!

O gesto supremo, então, é a adulteração da fotografia, rasgando-a e destruindo apenas a metade em que se vê o “outro”, como que um afirmar que se continua por cá, vivendo, mas que o “outro” já não faz parte dessa vida.

Refira-se, também, nesta relação de afectos negativos para com a fotografia, a adulteração bem mais sofisticada da imagem que foi o caso (quem sabe se ainda é?) do apagar em fotografias presenças de gente caídas em desgraça perante o regime. Como sucedeu, por diversas vezes, na União Soviética, para citar apenas casos públicos e notórios.

É assim que se constata que a relação com a fotografia (ou com a imagem no seu todo) é uma relação de afectos, de desejos de pose ou de repúdio, como os agora descritos.

 

E você? Já destruiu alguma fotografia?

 

Fotografia original feita com o meu artefacto “À-Lá-Minuta”


By me

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A câmara




Ainda se fosse uma catraia, mesmo uma jovem adulta... Agora já quarentona, fazendo da imagem o seu ofício, isso já me deixa boquiaberto.

Passei-lhe a câmara para a mão para que visse uns detalhes.

E ficou a olhar para ela, e para mim uns segundos, perguntando de seguida "Está avariada? O ecrã não funciona!"

Lá lhe mostrei o visor óptico, dizendo-lhe que sim, que funciona, mas que uso o sistema reflex, característica nativa dela.

De seguida, ao testar o que era suposto testar, admirou-se de não conseguir focar. "Talvez porque aqui há pouca luz, adiantou."

E lá lhe expliquei, novamente, que também o autofocus funciona, mas que uso foco manual. E que aquela objectiva não está concebida para automatismos.

Fez-me lembrar aquelas crianças que não sabiam o que fazer perante um telefone de disco e não de teclas.

Ainda se fosse uma criança...

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Lusofonia


 

Uma janela, três bandeiras unidas na lusofonia e demasiado vento em demasia para a segurança do sistema usado.

Outra versão se encontrará.

 

Lumix DCM-TZ60

 

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Promessas

 



O que é que o El Corte Inglés tem de melhor? A porta de saída!

Procurava um artigo em particular que a internet me havia informado de ali estar à venda. E era o local que mais me convinha em termos de acessibilidade.

Sendo que não conheço os cantos à casa, quando entrei perguntei pelo local específico que procurava a um segurança que ali estava.

Olhou para mim de alto a baixo duas vezes antes de responder. Não foi nem rude nem simpático na resposta. Apenas altivo e formal. Não gostei. Nem um nico.

Dei um passo atrás, olhei-o de alto a baixo duas vezes, agradeci e virei costas, seguindo para o meu destino. Mas maldizendo a hora em que decidira poupar esforço indo ali.

Mas já que estava no supermercado, aproveitei para dar uma olhada em busca de um ou outro artigo mesnos comum noutras grandes superfícies. Não tinham. Mas tinham um segurança que me seguiu por todos os corredores uns passos atrás. Até eu passar as cancelas de mãos e resto vazios.

Pensei em dois ou três impropérios apropriados à situação e segui para onde me haviam indicado, realizando a compra que queria.

O que eu não queria era ter um outro segurança, que de discreto na sua função nada tinha, que me seguiu até eu entrar na loja, esperou por mim cá fora, e continuou a me seguir até eu sair do edifício.

Já não estava habituado a este tipo de tratamento neste local. Que, infelizmente, é o que recebo de cada vez que vou ao El Corte Inglés. Desdém de boa parte dos funcionários, suspeitas e vigilância nada discreta por parte da segurança.

É certo que não me visto nos seus departamentos ou na Avenida da Liberdade. Nem sou aparado por barbeiros de elite ou manicures de sorrisos artificias.

Mas também é certo que esta tarde apenas serviu para dar força a uma promessa pessoal já antiga: no El Corte Inglés só se for para uma refeição tipo fast-food num local específico ou para uma ida ao cinama. E mesmo assim só se não houver alternativa. Que isso de elites arrogantes não são a minha praia.

E prefiro dar dois dedos de conversa com uns sorrios de permeio com os cantoneiros de limpeza do meu bairro que frequentar esta gentalha asquerosa que desedenha os diferentes.

Gosto muito da placa de saída que ali existe.

 

Pentax K7, smc Pentax-FA 28-200 1:3,8-5,6


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domingo, 14 de junho de 2026

Todos os eus




Uma das questões que mais atrapalha e comanda os comportamentos é o estar-se ou não integrado numa dada sociedade ou grupo.

E, com isso, controlar os seus comportamentos pelos comportamentos medianos, por aquilo que a “sociedade” define como correcto e não criticável.

Nada de mais errado, absurdo, contraproducente e castrante!

Esta atitude não permite o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo, com todas as suas características e potencialidades!

Apenas o transforma em mais um número, ajustando-se à mediania, com receio de ser diferente, notado, apontado a dedo, marginalizado em última análise.

E o erro, a meu ver e ainda ninguém argumentou e me convenceu em contrário, está na definição de “pertencer à sociedade”!

O que de facto acontece, e que poucos são os que o reconhecem ou afirmam e menos ainda os que agem em conformidade, é que no lugar de se pertencer, é-se a sociedade.

A sociedade é o conjunto de todos, com todas as vantagens do grupo e de cada um dos indivíduos. Não se integra a sociedade mas antes molda-se a sociedade à medida de cada um. E a soma de todos os “uns” forma o conjunto!

A contribuição que cada um faz nela, o empurrão que cada um dá no seu trajecto é que define o seu rumo, as suas regras, as suas leis e os comportamentos do todo.

Estas não são definidas por uma qualquer entidade obscura, mítica e autocrática, mas antes pela vivência e vontade de cada um dos seus componentes.

Andar nu, de fraque ou com nariz vermelho e grande é igualmente legítimo!

Ter este ou aquele comportamento apenas porque o grupo o define e não porque o queremos, é integrar um grande rebanho onde os pastores, filósofos, gestores ou políticos nos conduzem pela certa através de um pasto verdejante até ao matadouro ou altar onde nos sacrificam aos seus interesses privados ou entidades divinas.

Pela parte que me toca, tenho comportamentos que estão de acordo ou em desacordo com os que me cercam, não porque eles o querem ou o censuram mas antes porque eu o quero e eu sou a sociedade.

Sem todos os eus, a sociedade não existia! 

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Conhecer o passado para prevenir o futuro




Tenho recordado recentemente as opções violentas alemãs da época nazi.

O envio para campos de concentração ou de extermínio daqueles que não estavam na “normalidade”: judeus, ciganos, deficientes, pretos, homossexuais, comunistas...

Todos aqueles que, de algum modo, eram diferentes do ideal nacionalista alemão imposto. Milhões!

E, de algum modo, todas estas vítimas serviram também para alimentar o medo dos “inimigos internos” e que o poder autoritário da ditadura se propunha a afastar da população “pura”.

Porque é que me tenho recordado desta barbárie e de como começou?

Porque por cá o poder político instituído e os que lhes vão dando apoio estão nesse inicio de caminho. São as leis contra os migrantes, é a perseguição a ciganos, são os subsídios a deficientes, são os símbolos gay...

A coligação governamental, com os seus parceiros à direita, estão a colocar como legal a discriminação aos diferentes. São normas, leis, regulamentos, ditas “suaves”, mas que penalizam a diferença e criam no cidadão comum a ideia de que aquilo que lhes custa na vida tem por origem essas pessoas. Mas que cá estará o governo para os proteger.

São passinhos pequenos, de bebé, que quase não se dão por eles no todo dessa discriminação social, na marginalização dos diferentes.

Mas nos anos 30 do século passado, na Alemanha, a coisa começou também assim, discreta. Até chegar onde chegou!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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segunda-feira, 8 de junho de 2026

O rigor da informação




Nesta loja não se engana ninguém!

Quando dizem “Liquidação Total” é mesmo isso que querem dizer, já que nem sobra para cobrir, pudicamente, os manequins da montra.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

Em redondo




Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestria ou nem tanto




Há normas, regras, técnicas, que temos por certas. Perfeitas.

Sabemo-lo dos livros, sabemo-lo dos trabalhos que vemos. Sabemo-lo dos trabalhos que fazemos.

E quando nos confrontamos com o seu quebrar ou distorcer, arrepiamo-nos. Porque sai das regras, porque nos incomoda na nossa procura do equilíbrio, do perfeito.

Uma dessas regras, e falando de cinema ou vídeo, é o racord.

Para quem não sabe, racord pode ser definido como continuidade, como coerência na sucessão do que é mostrado.

Pode ser na lógica da história, pode ser na lógica das imagens.

Um exemplo clássico será o vermos alguém com um objecto na mão direita e, na imagem seguinte, tê-lo na mão esquerda. Sem que nada se quebre na sucessão do tempo nem nos ter sido mostrado a mudança. E quem diz um objecto na mão, diz a direcção do caminhar ou olhar, uma peça de roupa, um penteado, a origem da luz…

A falha de racord é algo que os profissionais evitam, como o diabo a cruz.

Claro está que não há regras que não possam ser quebradas ou distorcidas. Sabendo-o e fazendo-o de propósito. Com o propósito explícito de provocar algum tipo de reacção ou emoção em quem o vê. Os mestres, os grandes mestres, usam-no. Para alterar ou condicionar a atitude passiva do espectador. Ou mostrar subtis alterações nas personagens.

Apercebermo-nos disso é um deleite.

O problema põe-se que esta quebra de regras não é segredo. Apenas implica mestria no seu uso, ou o resultado estará apenas um degrau assim de porcaria total.

Os não-mestres tentam imitá-los. As mais das vezes sem sucesso. No cinema, na televisão, nos vídeos on-line, na informação.

Afirmam que é uma técnica superior, que é admissível, que faz parte da nova linguagem do audiovisual.

Infelizmente, estes argumentos apenas servem para encobrir ou disfarçar a sua incapacidade de lidar com o racord e a sua falha. E dizem ser “arte” aquilo que é, na verdade, incompetência.

Ver um raro momento de arte é um prazer.

Ver tanta incompetência disfarçada é um tormento.

 

Pentax LX, Tamron SP 90 1:2,5, Agfachrome CT18


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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dificuldaddes




Ah pois é!

O difícil não é ganhar um campeonato do mundo de futebol. É garantido que alguma equipa o fará, seja lá qual for.

Difícil mesmo é conseguir enfiar uma linha num buraco de agulha tendo apenas um olho activo e zero de visão tridimensional.

Sempre gostava de ver se algum dos jogadores da selecção o consegue fazer.

 

Pentax K7, smc Pentax-M 50 1:1,7


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terça-feira, 2 de junho de 2026

Quando eu morrer




Quando eu morrer não ficarei conhecido, certamente, como um tipo de bom feitio. Ainda que procure ser afável quando tudo corre bem, se me incomodam ou se me sinto atingido, reajo nem sempre da forma mais previsível ou agradável.

Foi no Jardim da Estrela. A tarde corria bem, o dia estava bonito, toda a gente parecia estar de bem com a vida. A única excepção fora uma das idosas, habituées do espaço, a queixar-se de todos os bancos estarem ocupados, para ouvirem aquela “porcaria de música clássica”. Tratava-se, entenda-se, de um concerto de Jazz, ali, ao vivo e de borla, como as minhas fotografias. Mas, pondo este comentário de parte, tudo estava a correr pelo melhor.

A certa altura surgem estas duas mocinhas. Vieram direitas a mim, sabendo do preço que cobro, e quiseram fazer uma foto. Vinham com a boa disposição própria da sua adolescência, de ser final de férias, de estarem de regresso de uma temporada de praia e novos amigos e estarem, de volta a casa, a reencontrarem os velhos amigos. Típico de um domingo, inicio de Setembro, com óptimo tempo.

No final, ao verem-se no papel, reagiram como de costume nestas idades, variando apenas nos apodos com que se mimosearam. No caso, um “Que nojo!”, normal para quem ainda não encontrou o equilíbrio consigo mesmo. Mas, quando lhes disse que se não gostassem da fotografia, não a levavam, riram-se a bom rir e fugiram com ela.

Tudo pelo melhor! Para todos os intervenientes!

Passado um pedaço, uma hora talvez, hei-las de volta. Desta feita com uma amiga, com quem queriam repetir a função. Mas, enquanto trocávamos umas graçolas, uma delas, qual Luky Luke da Estrela, saca do telemóvel, interrompe a conversa comigo e saúda o seu interlocutor. E, sem mais explicações, zarpam as três para longe. Suponho que ao encontro de quem quer que estivesse do outro lado da antena.

Não gostei! Não gostei nem um pouco! Esta mania de que quando o telefone toca tudo pára, tudo se interrompe, incomoda-me de sobremaneira. Quase que me transforma num louco furioso! É que, afinal, a vida é bem mais que os telemóveis, as fotografias, os computadores, as músicas ou o que quer que seja. O mais importante nela é mesmo aquele ou aqueles com quem estamos e desrespeitá-los assim é bem pior que um insulto ou agressão. Pelo menos eu não gosto!

Uns vinte minutos depois, bem medidos, regressam. Acompanhadas as três por dois amigos, vieram interromper a conversa que eu mesmo estava a ter com uma já conhecida daquelas paragens, ainda que oriunda do outro lado do globo. E se eu não tinha gostado que a conversa anterior tivesse sido interrompida por um telemóvel, também não gostei de ser interrompido em directo, aquando de uma conversa ao vivo. Não gostei mesmo nada!

Tal como ela não gostou de ouvir, na sequência do seu “Quero agora fazer a fotografia!” o meu “Não!”, seguido de “”Não gostei que tivesses interrompido a conversa por causa do telemóvel; não gostei que tivesses interrompido a minha conversa com esta senhora só porque chegaste. Não faço a fotografia!”

Estranhou, insistiu e eu insisti: “As fotografias aqui são grátis porque eu quero. E esta fotografia eu não faço! Talvez que assim aprendas qualquer coisa de boa educação!”

Fez beicinho, bateu o pé em tom de birra, deu meia volta que nem um recruta na parada e, agarrando na mão de uma das amigas, afastou-se a trotar. Com o resto do bando a olhar para mim e para ela e a seguir-lhe os passos.

A senhora que comigo falava, do alto do seu metro e meio, sorriu, acenou que sim e traduziu para a amiga a conversa. Suponho que tenha sido factual, que eu de indiano nada sei. Sei, isso sim, que a companheira sorriu também e acenou que sim igualmente. E, após mais umas banalidades sobre o assunto, o tempo e a música que se iria ali escutar, afastaram-se para usufruir, prazenteiramente, o resto daquele domingo saboroso.

Quando morrer certamente que ninguém dirá: “Aqui jaz um tipo de bom feitio.” Mas, caramba, nessa altura também não estarei por cá para ouvir e retorquir. Espero, no entanto, que esta mocinha, agora mal-educada, continue por cá por muito tempo e com melhores atitudes para com os outros. Se assim for, valerá a pena o que de mim disserem!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Uma boa fotografia?




Um dos prazeres da fotografia é o desafio que nos levanta. Confrontados com um dado assunto ou objecto, conseguirmos usar a luz (quantidade e qualidade), materiais sensíveis, perspectiva e suporte final para reproduzirmos o que vimos ou imaginámos. A transposição da tridimensionalidade para a planura do papel ou ecrã.

Um dos temas que tenho por mais difícil de fotografar é vidros, joalharia ou cutelaria. Para além da questão do contexto em que são mostrados, o seu brilho e textura levam a que o rigor na tomada de vista seja levado muito a sério. Nunca tentei fotografar profissionalmente automóveis, mas creio que as dificuldades sejam semelhantes.

Outro tema que tenho por difícil é o bicho-homem. A sua mobilidade constante, a permanente mudança de expressão e de humor, a necessidade de transpor para a imagem a sua alma, karma ou que lhe queiram chamar, tornam este género fotográfico num dos mais difíceis e polémicos.

Acrescente-se que o retrato é a “pérola da dificuldade”, já que, e para além da crítica do fotógrafo e do público em geral, o próprio retratado é do que há de mais exigente. As questões técnicas e estéticas em geral deixam-no indiferente, mas as poses, as expressões, os olhares e sorrisos ou a postura corporal são vitais, e a culpa é sempre do fotógrafo.

 

Um bom exemplo desta prática e dificuldade é o meu projecto "Oldfashion". A perspectiva é escolhida por mim, considerando os elementos do fundo, a luz e a sua rotação de 90º durante o tempo que por ali estou.

Para simplificar o processo, os retratados são colocados em zona de sombra, tal como o fundo. Não apenas reduz os eventuais excessos de contraste difíceis de controlar neste método, como ainda permite que os sistemas automáticos de focagem e exposição funcionem medianamente bem.

O local onde os fotografados se colocam também é por mim escolhido. Por uma questão de composição de elementos – o corpo é vertical, o enquadramento horizontal – como também para que exista algum contraste de tons e luz entre o torso e o fundo. Nem sempre consigo que fiquem onde gostaria, já que demasiado controlo neste aspecto retira alguma espontaneidade aos fotografados. E a câmara, compromisso meu, não sai do local.

Sobre a pose, pouco ou nada intervenho. Para além de ajustar um tudo ou nada o eixo dos corpos em relação à objectiva, se for demasiado chocante o que naturalmente assumem, e de deixar cair uma laracha no momento da obturação, o resto é por conta deles.

De tudo isto resultam fotografias que técnica e esteticamente estão no limite do aceitável. Algumas abaixo, talvez. Mas a reacção dos retratados é particularmente divertida.

Ainda que a fotografia seja fracota, quase todos dizem que gostaram e que ficou boa, manifestando algum espanto que aquela caixa as possa fazer. Mesmo que as suas expressões demonstrem que não gostaram por ai além. As suas preocupações debruçam-se sobre as poses, os sorrisos, os olhares…

Uma senhora houve que, olhando para o papel que tinha na mão, comentou: “Esta sou eu, não é!” Pela conversa, prévia e posterior, entendi a sua tristeza face às agruras da sua vida. Uma outra, brasileira, e na casa dos quarenta, comentou o quanto tinha envelhecido nos últimos dois anos, tempo da sua estada por cá. A gente jovem ri-se de si mesma e procura com afinco os olhos e a expressão da boca. Num caso, cheguei mesmo a ter que ceder a minha lupa do relógio para que fossem vistos.

Mas, muito curioso, é o facto de serem os agentes das forças de segurança (PSP e GNR) os mais exigentes com o que vêem e recebem. É neste grupo, independentemente das idades e cuja maioria quer a fotografia em papel mas recusa a sua presença na internet, que se encontram a mais duras críticas. Quer seja a luz, quer seja o instante da expressão captada, quer seja a pose ou o local escolhido, quer seja por parecerem mais gordos… Nem mesmo outros fotógrafos que quiseram ser fotografados foram tão críticos. Não sei se esta atitude de rigor advirá dos seus ofícios, em que não deixam de ser o que são, estejam fardados ou à paisana.

Quanto aos demais fotografados, em regra, tomam por uma boa fotografia aquela que não o é, e que por vezes é medíocre.

 

O que me põe a perguntar, muito seriamente: “Afinal, o que é uma boa fotografia?”

 

Linhoff Kardan Color 9x12, Schneider 150 1:5,6, Agfachrome CT18, ca.1981


By me

O objecto e a sua imagem




O objecto

Comprado numa feira de velharias, quem mo vendeu não sabia para que servia. Nem eu.

Trata-se de um mecanismo de corda que, em escolhendo um tempo entre zero e dez segundos, e tendo encolhido a haste inferior, a solta no final desse tempo. É de fabrico Suisso, e foi-me vendido com o estojo de cabedal de origem pelo preço de um maço de cigarros. Dos baratos.

Não me pude queixar, principalmente por se tratar de objecto cuja finalidade desconhecia.

Já em casa ao fim de uma hora, o mais que tinha encontrado na net foi a data de fabrico (1922), algumas fotografias com e sem a embalagem de cartão original e até o esquema mecânico interior. Mas não a função. Mas acabei por dar com a coisa, depois de dar trabalho às células cinzentas entre orelhas.

Trata-se de um temporizador fotográfico invertido. Por outras palavras, ele não faz começar um exposição mas antes a termina, no máximo de dez segundos, deste que tenhamos ajustado a câmara para “B”. Aplicavel num cabo disparador de “bicha”, para evitar movimentos parasitas na câmara. Ou mesmo directo no botão do obturador, se este tiver uma gola onde prender a haste. Algo impossível de usar nas câmaras actuais.

Peça pouco comum, que irá para a minha coleção de peças raras e antigas.

 

A fotografia

Só há um coisa mais difícil de fotografar que mecanismos ou cutelaria em metal polido: Mecanismos ou cutelaria em metal polido. Tudo quanto é luz ali se reflete, como num espelho, e controlar esses reflexos não é coisa nem fácil nem rápida. Mas eles devem existir para mostrar o material de que são feitos os objectos.

Neste caso a coisa é mais complicada, já que haveria de mostrar a escala de tempo ajustável, bem como uma outra de afinação. Ambas rasgadas na superfície de metal e igualmente polidas e reflectoras. Indo mais longe, haveria que ter algo visível no enquadramento que desse uma escala de tamanho do referido objecto. Optei pela mão de madeira, que permite uma multiplicidade de posições.

Já quanto ao metal, fui pela minha abordagem incial do costume: a luz haveria que vir de cima e de trás. Mas para evidenciar as inscrições, haveria que usar uma luz razante, tão tangencial quanto possível. Que, de caminho, não apenas evitaria que a superfície ficasse um bloco de luz como se refletiriam nos bordos, criando volume. Usei uma da esquerda e de cima e um espelho de baixo e da direita que a refletia em oposição de 180º.

Propositadamente, deixei ficar algum pó na superfície metálica para ajudar a defini-la. O mesmo em relação aos reflexos que nela se vêem. Já o fundo deveria ter algo colorido para evidenciar a ausência de cor do metal.

Foi barato o objecto, considerando que usei mais de uma hora para o conhecer e mais de hora e meia para o fotografar.

 

Todos os prazeres fotográficos fossem assim.

 

Pentax K1 mkII, Tamron SP 90 1:2,5

 

By me

domingo, 31 de maio de 2026

Três gerações, três continentes




Chegaram, mãe filho, este ao colo dela. Aliás, teria que ser assim se para trajectos maiores, que o pirralho era tão piquinino que o seu andar pouco mais era que pôr um pé à frente do outro para não cair.

Falámos um pouco e fizemos a fotografia. E quedámo-nos na conversa, mesmo depois da função terminada.

O pequenote, esse, é que pouco se interessou no que dizíamos. Partiu para descobrir novos mundos, na imensidão de uns dez metros em redor. E, sendo o seu caminhar o que era, cedo caiu.

À distancia a que estava, a mãe constatou que nada de grave acontecera. Tal como eu. O minorca, estendido ao comprido, de barriga para baixo, olhou em redor, sem choro ou beicinho, verificou a proximidade da mãe e lá se levantou para mais uma caminhada. Que acabou em queda de igual gravidade.

Afinal, é assim que aprendemos a caminhar, caindo, levantando-nos e continuando. E aprendendo como usar o que temos e onde e como pôr os pés.

A sua inexperiência era tal que, passado pouco, ei-lo de novo no chão.

A mãe, estrategicamente colocada na nossa conversa, ia verificando o resultado das quedas, ao mesmo tempo que se certificava que o seu trajecto não coincidia com o das bicicletas, shates ou patins que por ali pululam. Estava tudo controlado e tranquilo.

Quem assim não pensou foi uma velhinha, com ar de avó tremida mas extremosa, que à terceira queda do aprendiz de caminhante, achou que era demais.

Levantou-se do seu banco de jardim e, com uma dificuldade em caminhar equivalente à da criança, abeirou-se dele e levantou-o do chão. Regresando de seguida ao seu lugar sentado, não fora ser este selvaticamente ocupado por algum dos muitos outros idosos do jardim.

Pouquinho tempo depois, a cena repete-se: o pimpolho cai, a velhinha levanta-se e levanta-o e regressa ao seu repouso. Tudo sob o olhar vigilante da mãe, que ia cavaqueando comigo, à beira da minha câmara e tripé.

À terceira a coisa foi diferente: Depois de levantar o pequeno, que continuava sorridente como sempre, caminhou para nós com ele segurando-lhe o dedo. E a sua expressão advertia das advertências que haveria de dar à mãe “descuidada”.

Nada ouvi, que se encontraram a meio caminho, com troca de dedo agarrado. Trocado por calças, à altura dos joelhos, quando regressaram para junto de mim.

Com um sorriso, disse-me ela que este era um dos motivos para gostar do Jardim da Estrela: Fora aqui que ele dera o seu primeiro passo e era aqui que estava a aprender a andar. Bonito de ouvir!

Como que inspirado na conversa, o rapazinho afastou-se caminhando, de novo em direcção ao local onde a boa da velhinha continuava sentada. E a mãe, continuando a sorrir e fazendo contrastar o tom dos dentes com o da pele, acrescenta: “É melhor ir busca-lo antes que ela venha cá de novo!”

E foi, regressando ele ao colo e com a mãozinha esticada para a pelagem branca que me cresce no queixo e cara.

Quando, passado um pouco, se foram de vez, fiquei pensando que, na verdade, a melhor forma de aprender é ir caindo até aprender a coisa. E aproveitar a pequenez da altura para que as quedas sejam pequenas e pouco dolorosas.

Acontece, porém, que há sempre uma avozinha, cheia de boas intenções, que se intromete e tenta mudar o curso natural da vida. E que, ou bem que já se esqueceram que foram crianças e mães, ou bem que mais nada lhes resta fazer que interferir na vida dos outros, queiram ou não eles que isso aconteça.

E quem é que está na imagem? Pela certa que não se esperaria que eu aqui mostrasse os intervenientes neste episódio em torno do meu “Oldfashion”!

Em alternativa mostro este retrato. Que em comum com a estória apenas tem o local onde foi feito e minha câmara de madeira. Que a estória falou de três gerações e aqui mostro a Ana, vinda de um terceiro continente.

É que o Jardim da Estrela é assim como que um centro do mundo, onde de tudo acontece e onde de tudo converge.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me