Tem vinte anos esta fotografia. E recordo com muito rigor as
circunstâncias em que foi feita.
É que não sou pessoa de fotografar quem pede, quem dorme nem
se sabe onde, quem passa fome. Não procuro colecionar troféus com a desgraça
alheia.
Mas este caso... estava sentada no chão, com um copo como
receptáculo de eventuais esmolas. Até aqui, infelizmente, o habitual. O que
nada tinha de normal era o local onde se encontrava: numa transversal de uma
avenida muito “bem” de Lisboa, numa zona de prédios vetustos e condenados para
breve e onde os transeuntes mais que rareavam. E rareiam, segundo imagino.
Saltou-me à vista o seu total isolamento, de tudo e todos, o
seu olhar perdido num ponto para além do horizonte bloqueado por prédios.
Contribuí. Uma espécie de obrigação, um dizer “hoje ainda
recolhes alguma coisa”. E tentei
entabular conversa. Inconsequentemente. Que não partilhávamos língua nem
vontade de conversar.
Foi por gestos que lhe pedi por uma fotografia, feita com
uma câmara de bolso que tinha comigo. Anuíu com aquele olhar de “tanto me faz”.
Nem sequer me pediu por uma moeda adicional pelo acto fotográfico.
Não tenho orgulho neste registo. Mas faz parte do meu
arquivo e guardo-as todas, pois fazem parte do meu próprio percurso.
Samsung S1060
By me


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