sábado, 28 de março de 2026

Um retrato – e nunca saberei o seu nome

 


Tem vinte anos esta fotografia. E recordo com muito rigor as circunstâncias em que foi feita.

É que não sou pessoa de fotografar quem pede, quem dorme nem se sabe onde, quem passa fome. Não procuro colecionar troféus com a desgraça alheia.

Mas este caso... estava sentada no chão, com um copo como receptáculo de eventuais esmolas. Até aqui, infelizmente, o habitual. O que nada tinha de normal era o local onde se encontrava: numa transversal de uma avenida muito “bem” de Lisboa, numa zona de prédios vetustos e condenados para breve e onde os transeuntes mais que rareavam. E rareiam, segundo imagino.

Saltou-me à vista o seu total isolamento, de tudo e todos, o seu olhar perdido num ponto para além do horizonte bloqueado por prédios.

Contribuí. Uma espécie de obrigação, um dizer “hoje ainda recolhes alguma coisa”.  E tentei entabular conversa. Inconsequentemente. Que não partilhávamos língua nem vontade de conversar.

Foi por gestos que lhe pedi por uma fotografia, feita com uma câmara de bolso que tinha comigo. Anuíu com aquele olhar de “tanto me faz”. Nem sequer me pediu por uma moeda adicional pelo acto fotográfico.

Não tenho orgulho neste registo. Mas faz parte do meu arquivo e guardo-as todas, pois fazem parte do meu próprio percurso.

 

Samsung S1060


By me

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