A primeira vez que fui escalado para uma transmissão de uma
tourada foi um drama.
Foi um drama para mim, que já então abominava essa prática e
não queria contribuir para a sua divulgação; foi um drama no trabalho, que não
aceitaram o meu pedido de mudança de tarefa por objeção de consciência; foi um
drama em casa que me alertaram para a possibilidade de ser despedido se não
comparecesse... foi um drama.
Acabei por ir e criar reboliço.
Quando a minha câmara estava no ar no momento em que o ferro
era cravado, no lugar de acompanhar o vitorioso cavaleiro ou matador,
acompanhava o toiro, apertando o plano até ficar apenas com a cabeça, os
quartos dianteiros e, bem em evidência, o local onde ficara a bandarilha
espetada. E, se o toiro me desse o seu melhor perfil, o brilho vermelho do
sangue a escorrer.
O gritos do realizador eram portentosos, com insultos pelo
caminho, mas não me desviei do meu objectivo. E repeti a proeza nas lides
seguintes.
Em acabada a transmissão ouvi das boas, com ameaças dos
quintos dos infernos, mas eu estava na minha, argumentando que se o objectivo
era cravar a bandarilha, era isso que mostrava, por muito que isso incomodasse
o público. E esse era o meu objectivo secreto: que o público se incomodasse e deixasse
de ver aquilo.
Fiz mais duas ou três transmissões esse verão e nunca mais
me escalaram para esses trabalhos. Fiquei uns tempos de castigo não formal, mas
ganhei a guerra: comigo não contavam para essa barbárie.
Agora, passados que são uns decénios valentes, estou num dilema
equivalente. Termina dentro de dias uma exposição fotográfica em Lisboa em que
o tema são corridas de toiros.
Não duvido da qualidade do exposto. Se bem conheço o
galerista, posso apostar que as fotografias são muito boas, mesmo sem as ter
visto.
Mas não me apetece contribuir com a minha presença para o
sucesso de uma exposição sobre esse tema.
Sei que estas minhas posições são polémicas e conduzem a
conversas ou discussões sem fim e sem vencedores ou vencidos. E tenho-as tido
ao longo da vida sobre diversos assuntos, desde produtos alimentares a
actividades político-partidárias, passando por certames fotográficos e apertos
de mão a figuras gradas da nossa sociedade.
Mas também sei que ninguém irá escrever na minha lápide
fúnebre “Aqui jaz um tipo de bom feitio”.
Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5
By me


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