quarta-feira, 8 de abril de 2015

Heroi desconhecido





Tenho alguns heróis na vida!
Alguns são bem conhecidos, de outros guardo o seu nome para mim, que são modestos. Mas deste nem o nome conheço. Infelizmente.
O meu trabalho obrigava-me a estar dentro do edifício, mesmo de frente para aquela grande janela rasgada no piso térreo.
Do outro lado da vidraça, um cruzamento entre a avenida principal e uma rua secundária. Cruzamento “manhoso”, que os semáforos de saída da rua protegiam os peões, mas quem vinha da avenida e entrava na menor fazia-o com demasiada leviandade.
Naquele fim de tarde, com grande quantidade de gente a caminho da estação ferroviária, um jovem cego parou na beira do passeio, junto do semáforo.
Bem vestido, óculos escuros e a cana branca na mão. E ali ficou, a bater com ela no passeio, num pedido de ajuda, mudo mas inequívoco.
O sinal abriu e fechou por três vezes sem que ninguém desse por ele ou, melhor ainda, lhe desse um braço para atravessar o perigoso cruzamento.
Até que o assunto se resolveu da forma mais surpreendente: um motorista de táxi, com passageiro a bordo, ficou retido no sinal vermelho. Saiu do carro, ajudou o jovem a atravessar a rua e regressou ao seu volante. E seguiu o seu caminho.
De onde estava, agarrado à “rabicha do arado” e impossibilitado de lá ir, registei indelevelmente na minha retina este gesto de mais um herói desconhecido.
Numa cidade em que cada transeunte mais não é que um obstáculo no nosso trajecto.

By me

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