sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bicas e sorrisos


O café que frequento, na rua onde moro, abre muito cedo. Pelas 6.30 da madrugada. Não apenas para fornecer a dose matutina de café a quem sai para o trabalho como para vender o pão que irá cobrir as mesas de muitos pequenos-almoços da vizinhança.
Sendo que encerra pelas 22.30, tem dois turnos de trabalho, tanto na zona de fabrico como na de atendimento ao público. E se o primeiro é assegurado pelos donos do estabelecimento, atrás do balcão as caras vão mudando. Pela efemeridade dos contratos, pelos baixos salários e por outros motivos. Um destes “outros motivos” toca-me de perto.
No turno da tarde entrou, faz algum tempo, uma moça. Com ar rústico, quase campesino, consigo imagina-la atrás de um balcão de madeira, numa venda de aldeia. As suas formas opulentas, o carrapito na cabeça, a pintura demasiado forçada que usa na cara não são, definitivamente, típicos da zona da grande Lisboa.
Mas nada disto me afectaria – nem ao normal funcionamento do café – não fosse o seu relacionamento humano.
A forma como trata os clientes (um sorriso forçado para os homens, semblante fechado para as mulheres), uma atitude de desprezo para com as colegas que com ela fazem este turno e que pouco tempo lá estão (uma, duas semanas, por vezes apenas dias), o facto de atender todos como se de um grande e penoso favor se tratasse, o quase maltratar clientes que mostram simpatia ou um pouco mais de confiança para com colegas ou ex-colegas…
Num estabelecimento comercial não procuro que me saltem para o colo e me dêem beijos na boca (não seria mau, mas não o espero).
Mas não gosto de ser maltratado!
É por isso que, em calhando estar em casa de tarde e em sabendo que ela lá está a trabalhar, recorro a um dos outros cafés da rua. E, pela redução do movimento que neste constato de tarde, mais são os vizinhos que fazem o mesmo. E, pelas conversas de coscuvilhice que vou ouvindo aqui e ali, pelos mesmos motivos.
Lamentavelmente, parece que o seu relacionamento com um dos sócios (o do turno vespertino) fará com que por lá fique para sempre.
A minha sorte, no meio de toda esta conversa de “meter o nariz na vida dos outros”, só de manhã vou ao café para escrever. Ao fim da tarde, nem dou tempo a que a bica arrefeça na chávena. Nem azo a que me maltratem. Mas, em me apetecendo, opto pelo do lado. Que, assim como assim, pelo mesmo preço, tenho a bica e um sorriso. E este nem tem preço!

Texto e imagem: by me

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