Fiz isto por duas
vezes na vida:
Olhei para os
livros que tinha em casa relativos a fotografia e imagem (técnica, estética,
semiótica, filosofia) e dividi-os em três grupos:
- Interessantes
mas que não voltarei a ler;
- Interessantes e
merecedores de uma eventual segunda leitura ou consulta;
- Imprescindíveis
cá em casa.
Feita a divisão,
peguei no primeiro grupo, reavaliei-o e fui depositá-lo na biblioteca da escola
onde trabalhava.
Não se tratou de
um acto abnegado ou altruísta. Nem um gerir espaço e interesses, deixando
espaço para mais.
É que tenho para
mim que um livro que não seja lido, aberto, conhecido por leitores atentos, é
uma tristeza. Ter livros em casa que sabemos que mais já não farão que estarem
ali, ocupando espaço, fazendo peso e ganhando pó, sem mais préstimo que isso,
faz-me doer a alma.
Um livro – os
livros – foram e são feitos para serem lidos, para que o seu conteúdo seja
conhecido, para que a realidade ou sonho neles descritos vá mais longe que a
mente do seu autor.
É um prazer para
mim garantir que esse desígnio seja cumprido: lendo-os, apreciando-os,
divulgando-os, partilhando-os, oferecendo-os.
Numa biblioteca de
uma escola especializada, livros sobre o que ali se ensina e aprende são bem
mais uteis que repousando ad eternum numa estante particular. Foi o que fiz.
Mas a minha
relação com os livros não passa apenas por os ler e os saber legíveis.
O entrar numa
livraria e olhar os expositores, apreciar lombadas e capas, ponderar autores e
temas, adivinhar conteúdos para além do sumariamente descrito, antecipar o
prazer em os ler… Esta é uma das formas de me deliciar com o escrito.
Claro que nem
sempre (as mais das vezes) tenho como os levar para casa. Que não é coisa
barata, isto dos livros. Nem tenho uma gestão de tempo que me permita ler tanto
quanto gostaria. Aliás, os que possuo e estão em lista de espera formam pilhas
instáveis de prazeres futuros.
Mas ir a uma
livraria é um prazer por antecipação.
Por tudo isto,
saber fecha é um momento de tristeza.
Não me refiro às
grandes superfícies, onde os livros são mera mercadoria, a par com detergentes,
discos ou tecnologias.
Refiro-me a
livrarias que vendem livros, sabendo de livros, gostando de livros, escolhendo
livros para os clientes, filtrando qualidade... livrarias independentemente do
local ou área.
Ao longo dos anos
tenho sabido, com alegria, da abertura de livrarias. De livros novos ou usados,
tanto faz. Tal como tenho constatado o fecho de livrarias. Com profunda
tristeza. São locais especiais onde deixo de poder ir, que me ficam na memória
e registados (tradição antiga) na primeira página de cada um que delas trago.
Hoje de manhã tive
a triste notícia do encerramento de uma livraria. Uma livraria especial:
Kowasa.
Não ficava logo
ali. Em boa verdade, ficava as uns 1200Km de casa, em Barcelona. O que não faz
ou fazia dela um localfrequentado amiúde. Pelo menos por mim.
Mas de cada vez
que ia a essa cidade, era local de visita obrigatória. E de negócio
obrigatório. Aliás, gardava a visita para o penúltimo dia da estada para
controlar gastos e não ficar "depenado" logo no início.
O que tinha esta
livraria de especial?
Era a única, que
conheça pessoalmente, que se dedicava a livros de fotografia. Com fotografias e
sobre fotografia. De todas as idades e para todas as idades. Em quase todos os
idiomas e para todas as bolsas. Com gente que gostava de livros e de
fotografia.
Em indo a
Barcelona era obrigatório lá ir, regressando sempre com a bolsa mais leve mas a
alma bem mais cheia.
Perdi uma livraria
e isso torna-nos a todos bem mais pobres!
By me
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