terça-feira, 20 de setembro de 2022

Dejá vu




 A minha primeira intervenção pública sobre a matéria foi há quase quarenta anos e foi uma “barraca”!

Gravava eu uma peça de teatro, em estúdio, e quiseram que fizesse um conjunto de planos variados sobre um quadro. Não recordo nem o quadro e muito menos o autor (ele que me perdoe). Recordo, antes sim, que me recusei a fazê-lo!

Argumentei com a veemência da juventude e a certeza da razão que não deveria ser truncada a obra de um artista, neste caso um quadro. Não se estava a fazer um trabalho de crítica ou análise sobre a obra ou o autor mas tão só a aproveitar o trabalho intelectual de outrem com fins que nunca sonhados por quem o tinha feito e, ainda por cima, a destruir esse mesmo trabalho ao fragmentá-lo.

A discussão foi feia, tanto com quem realizava o trabalho televisivo como com os colegas seniores que comigo constituam a equipa de câmaras.

Mas não arredei pé nem cedi um milímetro que fosse! Eu não o faria. Eu não iria destruir um trabalho criativo, mesmo que para fazer um outro.

Acabei por ser afastado daquela gravação, substituído por outro operador que não tinha os meus escrúpulos e, durante uns tempos, estive “de castigo”, arredado dos trabalhos que davam gozo fazer e remetido para as emissões, chatas e monótonas.

Mas dormi tranquilo naquela noite e em todas as que se lhe seguiram. Da mesma forma que não aceito que trunquem, fraccionem, destruam aquilo que eu mesmo crio, não serei eu que o farei às obras de outros.


Os anos foram passando, eu envelhecendo e ganhando experiência (alguma, pelo menos) mas neste aspecto continuo tão seguro quanto o estava então. E, ao longo de todo este tempo, muitas têm sido as conversa, mais tranquilas ou mais acesas, com repórteres de imagem e jornalistas. Tentando convencê-los que num trabalho em que se informa da existência de uma exposição ou equivalente, em que não há, por parte de quem o faz, uma atitude crítica ou analítica mas tão só de divulgação, o respeito pelo trabalho autoral deve ser primordial. Inventem-se soluções estéticas ou técnicas que o respeitem, gaste-se mais tempo com dada imagem ou reportagem mas, por favor, respeite-se o autor e a sua criatividade.


Dificilmente, hoje, voltarei a ser confrontado profissionalmente com uma situação análoga. Cada vez menos se usa de tempos de antena para mostrar eventos culturais e menos ainda em estúdio, que eu não ando em reportagem. Mas se a situação se repetir, será um dejà vu com quase 40 anos!


By me

domingo, 18 de setembro de 2022

O saco


 


Recordo o local exacto onde o comprei: uma loja, uma das melhores lojas do ramo de então, na esquina da rua de santa Justa com a rua dos Douradores, em Lisboa.

Atraíu-me, então, o formato, a capacidade e o facto de ser de fabrico português.

Algum tempo depois descobri-lhe o ponto fraco: a correia e a forma como prendia no saco. Resolvi a questão como se vê, recorrendo aos sólidos materiais usados pelo exército, com um pouco de pele de seleiro e algum trabalho artesanal.

Remonta isto à primeira metade dos anos 80 do século XX. Uns quarenta anos, portanto.

Como tudo o mais, envelheceu. E se fez muitos km no meu ombro, cheia ou quase, foi ficando gasta aqui e ali. E eu mudei de estratégia, preferindo mochila nas costas a saco num só ombro. Uma inflamação no nervo ciático convenceu-me.

E passou a ser útil para guardar equipamento em casa. E para transporte quando a quantidade a levar assim o exigia. Depois... já nem isso, apenas para guardar. Com o passar do tempo e a chegada de novos sacos, mochilas e malas, passou mesmo a guardar aquilo que, tal como ele, já não estava em uso.

Agora, que há que fazer escolhas, é mais um a que darei a merecida reforma. Será colocado no exterior no contentor de lixo, esperando que ainda possa vir a ser útil a alguém. Para fotografia, vídeo ou o que quer que seja.

Se bem recordo, comprei-o pelo outono. É a chegar ao outono que dele me despeço.


By me

sábado, 17 de setembro de 2022

Absurdos




Não é fácil de explicar a quem defende a ecologia quase que como solução última para a humanidade. Ou a quem acha que a simetria é o pináculo da perfeição. Ou a quem pensa que o equilíbrio, interior ou exterior, será a manifestação divina de algum estado de graça universal.

Em boa verdade, o equilíbrio, a ecologia, a simetria, são invenções humanas. Retrógradas, conservadoras, rígidas como aço e anti-natura no seu máximo.

O universo não é simétrico. O universo não é equilibrado. Quer vejamos isto do ponto de vista cósmico, quer vejamos isto à escala humana.

Se o universo fosse equilibrado, não teríamos a expansão e contração galáctica. Nem as amibas teriam saído do seu ambiente aquoso. Nem o ser humano teria descido das árvores.

É no desequilíbrio, na intranquilidade, na ausência de simetria (que nem o corpo humano possui) que a evolução acontece, que melhoramos e nos melhoramos. É na insatisfação, no tentar atingir o horizonte planetário, nas super-novas, que algo de novo acontece. Terá sido o desequilíbrio que provocou a extinção dos dinossaurios e o surgimento de novas espécies. Nós incluídos. Terá sido algum desequilíbrio que terá provocado o famoso big bang.

A estabilidade, a simetria, o equilíbrio, serão algo que procuramos porque raro, como os diamantes. E só porque raro lhes atribuímos valor. Material ou não.

Sou apologista da ausência de equilíbrio, da instabilidade, da assimetria. Na vida, na estética, na evolução.

A balança é uma invenção humana! Absurda, claro.

domingo, 4 de setembro de 2022

Olhando para trás


 


Numa livraria tropeço num livro.

Não que estivesse no chão, mas porque fiquei cativo de alguém ter pegado num texto de Fernando Pessoa e ilustrado com fotografias.

De confessar que as fotografias não me atraíram por demais. Documentais quanto baste, nem más nem boas, do meu ponto de vista.

Agora o texto…

Passe-se a imodéstia, esta foi a fotografia que fiz logo a seguir a o ter lido. Vale o que vale, como as fotografias do livro. Mas é a minha interpretação:



“Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer de me ser fácil entrar sem constrangimento nas casas conhecidas. A minha sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado.


Quando me sentei na cadeira, perguntei, por um acaso que lembra, ao rapaz barbeiro que me ia colocando no pescoço um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita, mais velho e com espírito, que estava doente. Perguntei-lhe sem que me pesasse a necessidade de perguntar: ocorreu-me a oportunidade pelo local e a lembrança. «Morreu ontem», respondeu sem tom a voz que estava por detrás da toalha e de mim, e cujos dedos se erguiam da última inserção na nuca, entre mim e o colarinho. Toda a minha boa disposição irracional morreu de repente, como o barbeiro eternamente ausente da cadeira ao lado. Fez frio em tudo quanto penso. Não disse nada.


Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.



O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um «o que será dele?». E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Delitos e critérios




As coisas são o que são, tal como as pessoas e as instituições.

Em 2010 o então deputado e vice presidente da bancada do PS, Ricardo Rodrigues, não gostou de algumas perguntas feitas no decorrer de uma entrevista para uma revista portuguesa. Irritado, levantou-se, guardou no bolso os gravadores de som que estavam a ser usados para a entrevista e abandonou o local. Esqueceu-se, coitado, que também ali estava uma câmara de vídeo que tudo registou.

O caso foi levado à justiça com algum mediatismo, e terminou, ao que sei, com uma indemnização de alguns, poucos, milhares de euros.

Ricardo Rodrigues, entretanto, deixou o protagonismo do Parlamento e foi eleito como autarca nos Açores.

Agora surge uma notícia que nos conta que o Ministério Público o acusa de prevaricação e abuso de poder ao, alegadamente, ter favorecido um irmão e outros familiares de autarcas locais na cedência de um espaço comercial para restauração.

Diz-se que a justiça e as suas sentenças servem para reparação de danos às vítimas e para reinsersão dos delinquentes, fazendo-os aprender da gravidade dos seus actos e o imperioso de não os repetirem.

No entanto há quem não aprenda e que continue a praticar actos que a sociedade condena. Mas esta também não aprende, continuando a eleger delinquentes para lugares públicos, onde decidem e gerem aquilo que é de todos nós.

A isto acrescente-se um detalhe curioso:

Soube deste caso recente através de uma notícia num jornal diário on-line. Como é hábito, ela está ilustrada com uma fotografia. No caso, uma de arquivo. Mas a fotografia mostra a fachada da Procuradoria Geral da República e não, como também é habitual, o retrato de quem aqui é acusado.

Pequenos requintes editoriais que muito contam a quem neles reparar.

 


By me

sábado, 16 de julho de 2022

Manias



 

O texto e a imagem têm dez anos, mais ou menos uns dias. O que acaba por ter graça é ter repetido as conversas e acções há poucos dias, agora noutro local. De facto, são manias.

 

“Manias

Há coisa de quinze dias tive uns técnicos de comunicações aqui em casa.

O trabalho implicava passar cabos e instalar equipamento, pelo que ainda demorou um pedaço.

A dada altura não resisti e perguntei-lhes se poderia fumar um cigarro.

Ficaram a olhar para mim, com cara de espanto, dizendo-me de seguida que naturalmente que sim, que eu estava em minha casa.

Ainda assim, fiquei na dúvida se a resposta foi de circunstância ou se, de facto, não se importavam que eu fumasse por perto.

É que, mesmo estando eles em minha casa, estavam também a trabalhar e não faria sentido obrigá-los a suportar os restos do meu vício.

Pouco tempo depois, numa jantarada de colegas num restaurante, um houve que não se conteve e, por duas vezes, tratou de acender um cigarro, às escondias de quem nos atendia. Era tarde e o espaço estava quase por nossa conta. Mas a noite estava simpática e aporta mesmo ali ao pé.

Ele há uns e há outros. Por mim, prefiro continuar a perguntar a quem recebo em casa, mesmo que em trabalho, se não incomodo.”


By me

sábado, 2 de julho de 2022

A explicitude e o seu oposto




O trabalho que tive em explicar a um profissional da imagem que a comunicação visual não tem que ser clara, explícita, inequívoca!
Esse é um dogma que se transmite em quase todas as escolas, manuais e workshops.
Mas não é verdade! Pelo menos não é uma verdade absoluta, universal.

Se falamos de consumo rápido de imagens – fotográficas, videográficas, cinematográficas – esse dogma aplica-se. Simplicidade na forma para facilitar o acesso ao conteúdo.
Mas posso querer eu, enquanto fotógrafo, não ser assim tão explícito. Querer obrigar quem vê o que faço a não entender de imediato, a parar para perceber, a questionar e questionar-se naquilo para onde olha e a, mais que olhar, ver.
O desconcerto na leitura, a dúvida, a procura de significado… também isto é comunicação, visual no caso da fotografia.
Dir-me-ão, talvez, que esta forma de comunicação reduz a muito poucos os que a lêem, na medida em que a dificuldade de acesso ou de interpretação, nos tempos que correm e com a rapidez de consumo de conteúdos, afasta os mais apressados ou menos curiosos.
Mas talvez nem sempre eu queira comunicar com esses, pouco me importando se entendem ou não. Ou melhor: ficando satisfeito se o entendem mas nada preocupado com o seu oposto.
Fazer diferente, mesmo que fora dos códigos habituais de comunicação, é uma necessidade que a todos assola de quando em vez.
A diferença entre a grande maioria dos que usam a fotografia e de alguns que também a usam, é que estes, nestes casos, pouco se importam com a reacção ou interpretação do público. “Likes” e “Coments” são “Cenas que não os assistem”.
Fazem-no e exibem-no porque lhes apeteceu, porque foi assim que alinharam a cabeça, o olho e o cérebro. E não para que outros gostem, ou mesmo que interpretem, entre dois clicks ou o passar rápido das páginas de um site ou revista.

Se o objectivo de um fotógrafo for a comunicação de massas, o chegar a todos, o fazer passar uma mensagem, o ganhar apreço ou dinheiro, mesmo que seja com uma pasta de dentes ou com um pôr-do-sol, esqueça-se tudo o que disse acima. Sigam-se as regras da academia, as fórmulas e os algoritmos, as modas e as convenções.


Mas se o objectivo for colocar a sua alma no que faz e mostra, pouco preocupado com as interpretações ou opiniões de terceiros…

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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Chamem-me o que quiserem




Uma das questões que mais atrapalha e comanda os comportamentos é o estar-se ou não integrado numa dada sociedade ou grupo.

E, com isso, controlar os seus comportamentos pelos comportamentos medianos, por aquilo que a “sociedade” define como correcto e não criticável.

Nada de mais errado, absurdo, contraproducente e castrante!


Esta atitude não permite o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo, com todas as suas características e potencialidades!

Apenas o transforma em mais um número, ajustando-se à mediania, com receio de ser diferente, notado, apontado a dedo, marginalizado em última análise.

E o erro, a meu ver e ainda ninguém argumentou e me convenceu em contrário, está na definição de “pertencer à sociedade”!

O que de facto acontece, e que poucos são os que o reconhecem ou afirmam e menos ainda os que agem em conformidade, é que no lugar de se pertencer, é-se a sociedade.

A sociedade é o conjunto de todos, com todas as vantagens do grupo e de cada um dos indivíduos. Não se integra a sociedade mas antes molda-se a sociedade à medida de cada um. E a soma de todos os “uns” forma o conjunto!

A contribuição que cada um faz nela, o empurrão que cada um dá no seu trajecto é que define o seu rumo, as suas regras, as suas leis e os comportamentos do todo.

Estas não são definidas por uma qualquer entidade obscura, mítica e autocrática, mas antes pela vivência e vontade de cada um dos seus componentes.

Andar nu, de fraque ou com nariz vermelho e grande é igualmente legítimo!

Ter este ou aquele comportamento apenas porque o grupo o define e não porque o queremos, é integrar um grande rebanho onde os pastores, filósofos, gestores ou políticos nos conduzem pela certa através de um pasto verdejante até ao matadouro ou altar onde nos sacrificam aos seus interesses privados ou entidades divinas.


Pela parte que me toca, tenho comportamentos que estão de acordo ou em desacordo com os que me cercam, não porque eles o querem ou o censuram mas antes porque eu o quero e eu sou a sociedade.


Sem todos os eus, a sociedade não existia!  


By me

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Dos arquivos de um photógrapho à-lá-minuta – Uma fotografia que não mostro



 

Eram duas famílias: Mãe e uma filha, mãe e três rebentos. E se a primeira já era conhecida e queria fazer uma fotografia, desta feita apenas com a filha, a segunda estanhava tudo aquilo e escondia-se atrás dos seus grandes óculos escuros.

Mas uma piada aqui, um elogio ali, bem como o pedir para ver o que se escondia, acabou com alguma inibição e também quiseram ficar com uma recordação. Mas sempre com desconfiança!

Aquando das perguntas habituais, inquiri se também não queria a fotografia na web e se pelos mesmos motivos. Tristemente, a resposta foi que sim, e mais não adiantámos sobre o assunto. Mas as perguntas sacramentais e inocentes fizeram-se e foram respondidas.

Pela mãe a seu respeito e sobre as crianças mais pequenitas. Com a mais velhinha, que ainda era um pirralho de gente mas já capaz de responder, falei directamente. Estava de cenho franzido e cara zangada. E, quando questionada, soube dizer o seu nome e idade, tal como desmentiu a mãe sobre os restantes membros da família, tanto em nomes como em idades.

O sorriso da mãe, percebido pelo canto do olho, foi confrangedor mas não me dei por achado. Não alterei uma virgula ao que já tinha escrito, anotando apenas o que à pequenita dizia respeito.

A fotografia, entretanto pronta, foi entregue e, com mais uns elogios aos olhos e sorrisos que eram de facto lindíssimos, afastaram-se após a saudação e os desejos de que aproveitassem a tarde que estava apetitosa.

Mas ficou-me a cutucar cá por dentro a história recente não contada desta família e a desconfiança escondida. Não resisti:

Aproveitando uma paragem, fruto de umas corridas dos pequenotes, aproximei-me e chamei-a de parte. Em tom baixo, e aproveitando a brancura e tamanho das minhas barbas, lembrei-lhe que nem todo o mundo é merecedor de desconfiança. Talvez mesmo até pelo contrário.

Sorriu, baixou os olhos e murmurou um obrigado. E afastou-se, chamada que foi por uma das crianças.

 

Fiquei a ver todos eles a afastarem-se, minorcas e maiorcas. E com a esperança que, em breve, tenham motivos para acreditarem no que lhe disse. Podendo, nessa altura, voltarem a este espaço com sorrisos reais e menos tristeza na alma.


By me

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Livros




Acabo de ler um post de um editor e livreiro, com alguma amargura, a falar da actual tendência para a leitura em suporte digital.

Entendo-o, enquanto profissional e enquanto amante de livros. Tal como entendo, em parte, a tendência actual.

Por mim, enquanto amante da leitura em papel, que não resiste a uma livraria ou alfarrabista, entristece-me a digitalização do livro.

O cheiro, a posse do objecto, o manuseio, a identificação da capa ou lombada... há coisas que o digital não substitui.

Mas há outra coisa que me entristece: saber que o meu acumulo de livros, com uma quantidade de obras relacionadas com a imagem, mais antigos ou mais actuais, será algo para ignograr, vender a peso ou apenas para queimar aquando da minha morte.

Os conteúdos ali registados perder-se-hão sem aproveitar a mais ninguém. Não creio que algum familar ou amigo dê algum valor ao que aqui consta, seja económico ou imaterial.

Com sorte, o que deles consegui aprender ou irei aprender, passei-o ou irei passá-lo a quem me queira ouvir ou ler. Mas será sempre a minha interpretação do que absorvi, não o prazer de o fazer e disso reter a sua própria interpretação e escolha.

Em breve o espaço aqui em casa irá diminuir notoriamente com o que irei receber de uma biblioteca particular da qual sou um dos herdeiros. Espero ter tempo de todos ler e com eles aprender. Que disso nunca desistirei.


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domingo, 12 de junho de 2022

Auto-crítica



O meu cão não gosta de ser fotografado. Tal como algumas pessoas.

Só que estas protestam contra o acto ou conformam-se com o haver um fotógrafo por perto. Já ele, por seu lado, não protesta. Quando vê uma objectiva apontada para ele afasta-se ou vira-se costas, o que vem a dar no mesmo.

Conseguir “apanha-lo” é assim uma questão de sorte ou de teimosia.

Neste caso, o truque foi que ele não desse por mim a usar uma câmara. Tentando não ser notado, nem pensei em ir buscar uma câmara: foi mesmo com o telemovel.

O problema é que o seu ângulo de visão é bem aberto e a minha atitude de não lhe chamar a atenção impediu-me de me aproximar.

O recurso foi “enquadrar dentro do enquadramento”. Por outras palavras, foi usar os objectos em redor, truncando-os e criando um outro rectângulo, de modo a que o olhar fosse conduzido irremediavelmente para onde eu queria. O chão vazio não ajudava, mas o colocar os pés encheu-o.

Está torta, a fotografia. Está sim senhor!

Não me apercebi disso quando fotografei, que a minha posição e a do telemovel não me permitiram dor pela coisa. Mas pouco depois, ao editá-la, vi que estava e decidi, mesmo assim, não a corrigir. O declive do chão e a instabilidade de algo que sabemos vertical são assumidos, tentando demonstrar a contradição da pacatez de uma pouco mais que madrugada ainda tépida, mas que se antevê vir a ser bem quente, com o nervosismo de quem fotografa e não quer deixar passar a ocasião.

Não gosto de fotografias “só um poucochinho” tortas. Mas esta aceito-a. Talvez porque existe uma linha não real – a do olhar dele – que olhando para o horizonte por entre as cortinas, está horizontal.


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sábado, 11 de junho de 2022

À espera do namorado




Disse um mestre na matéria: “Um fotógrafo é um taxidermista do tempo”.

Eis um bom exemplo de algo irrepetível registado para sempre pelos processos da escrita da luz:

Esta árvore não mais poderá ser fotografada desta forma. Elas crescem, os galhos alongam-se e as folhas espraiam-se de modo diferente de ano para anos;

Aquela mocinha ali sentada, talvez estudante universitária, talvez esperando pelo namorado, não mais ali se sentará assim. Passados que são doze anos sobre o registo, se ali se voltar a sentar talvez esteja a cuidar de um pimpolho que corre atrás dos pombos no jardim;

Aquela parede, com idade para ser minha avó, já não existe, tal como ela. Na voragem da modernidade urbana, foi criteriosamente demolida para dar lugar a um qualquer empreendimento residencial ou de serviços. Que os valores do centímetro quadrado não se compadecem com os valores históricos da arquitetura industrial.

Porque é que fiz esta fotografia? Bem, deste espaço por onde passo amiúde, tenho diversas fotografias. Mas dele também tenho a frustração de ainda não ter conseguido registá-lo de forma satisfatória. A sensação que tenho, conhecendo-lhe a história, é que ainda não captei a sua “alma”, que todos os espaços possuem uma.

Aguardo que termine o interregno entre a demolição e a inauguração para tentar descobrir que “alma” sobrevem por aqui.


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quarta-feira, 8 de junho de 2022

Projecto formativo




Tivesse eu a oportunidade e a coragem de conceber de raiz uma formação em imagem (fotografia), e seria radical na diferença.

Presumindo que alguém alguma vez teria a coragem de querer aprender o pouco que sei e os primeiros tempos, talvez dois meses, seriam passados sem recurso a câmaras fotográficas, computadores ou quejandos.

Cada sessão, de duas a três horas, seria passada em laboratório. Preto e branco. Não a imprimir imagens já feitas mas a fazer imagens no papel, recorrendo a objectos opacos ou mais ou menos translúcidos.

Um pouco à imagem e semelhança do que fez Man Ray e outros, com os seus conhecidos Rayogramas.

Claro que isto implicaria alguma coragem e aceitação por parte dos formandos. Tanto tempo sem produzir uma fotografia que fosse…! E paciência.

Há várias vantagens nesta invulgaridade.

Desde logo a disciplina pessoal. O laboratório, com o seu rigor de método, a impossibilidade de se acelerar os processos, o respeito pelos demais participantes no trabalhar em ambiente de luz controlada, a sistematização de raciocínio… Tudo isto vai permitir que o formando se discipline e que seja capaz de aceitar o tempo como parte do processo criativo e não como um obstáculo.

Em seguida, o permitir antever os resultados na mente antes de executar algo. E com certezas. A opacidade ou a translucidez dos objectos tem comportamentos diferentes à vista e no papel sob a luz. Ser capaz de prever os resultados e de gerir a experimentação em função da experiência e do desconhecido faz parte do processo criativo. Fotográfico ou outro.

Do ponto de vista estético, este método permite gerir manchas mais escuras ou mais claras, antevendo-as, no rectângulo do papel. Mais que regras de composição, linhas de fuga, proporções anatómicas ou jogos de perspectiva, a produção de rayogramas permite descobrir e explorar o equilíbrio de massas, áreas, densidades de claro escuro dentro do espaço disponível. Definição de equilíbrios e importâncias na forma para além do conteúdo.

Vai ainda permitir a descoberta da gestão das relações de contraste do claro escuro em função da emoção que se pretende reproduzir, para além de conteúdos conhecidos e formas definidas. E antever isso mesmo olhando para uma superfície branca, antes de nela incluir qualquer obstáculo à luz.

Mas, acima de tudo, irá permitir que o formando de habitue à sua própria sensibilidade na disposição dos elementos no espaço definido à margem de regras, códigos ou imposições sociais. O formando consigo mesmo, sujeito apenas às opiniões de colegas e formadores, sem outros códigos que as suas sensibilidades.


Só depois disto, só depois de ter criado formas e lidado com o rectângulo passaria a incluir elementos concretos, agora com o recurso a tudo o que a fotografia permite: a câmara e a objectiva, com o tratamento posterior num editor de imagem.

Mas em aqui chegando, vai sem mais vícios que os que tinha ao entrar, nem desconfia que existam regras de composição e já se habituou a gerir o espaço.


A ideia não é minha de raiz mas antes o resultado de algumas leituras e experiências.

Mas não acredito que algum industrial da educação ou formação alguma vez arriscasse a investir em tal projecto.

Fica naquele canto onde guardamos projectos que sabemos só concretizar se houver meios e oportunidade.


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segunda-feira, 6 de junho de 2022

Só um bocadinho




Oh pah! Vocês que me desculpem, mas se há coisa que me tira do sério em fotografia é ver imagens ”um bocadinho” tortas.

Claro que a criatividade e a representação do universo como o vemos ou sentimos não tem limites. Nem pequenos nem grandes.

Sabemos que o mar, lá no horizonte, é tão curvo quanto o planeta. Mas este é tão grande que criámos um termo para a forma como o vemos: horizontal!

Também sabemos que candeeiros e prédios têm uma verticalidade matemática. A tal ponto que a Torre de Pisa é icónica por o não ser. E só uma situação de perspectiva forçada mostra postes e empenas tortas. Ou então deduzimos de imediato que houve um acidente ou que o prédio está para cair.

O “só um bocadinho” torto incomoda-me. Não apenas põe em causa o equilíbrio do universo (supondo que ele existe) como demonstra falta de cuidado do fotógrafo. Na tomada de vista ou na edição.

Claro que até pode ser propositado. Criar desconforto em quem vê a imagem, demonstrar um estado de desânimo ou de bebedeira, de protesto contra as regras instituídas... claro que pode ser propositado, este entortar o que é horizontal ou vertical. Mesmo que “só um bocadinho”.

Se o objectivo é incomodar-me, conseguem-no. Mas as mais das vezes não é. Paisagens paradisiacas, fins de dia explêndidos, urbes plenas de geometrias e movimento... ver isto “só um bocadinho” desnivelado incomoda-me porque se percebe, para além de qualquer dúvida, que não foi intencional mas tão só descuido.

Por favor: nivelem ou desnivelem as vossas imagens, mas façam-no propositadamente.


By me

sábado, 4 de junho de 2022

Presente/futuro




A fotografia e o texto têm dez anos, mais dia, menos dia. Tão actual hoje como então!


Uma das coisas que a rapaziada nova se vai queixando, e com alguns motivos para tal, é de a escola ser como que uma prisão!

Em boa verdade, a escola, como ela é hoje e tem sido ao longos dos tempos, obriga a disciplina, ao silêncio, ao prestar atenção a matérias nem sempre fáceis de entender, a trabalhar quando o clima e os afectos pedem outras coisas… E, principalmente, a gestão do tempo é decidida por toques de campainha e façanhudos adultos que repetem até à exaustão “É proibido, é obrigatório, é a hora de!”

Na prática, estes impositores de acções apenas vão preparando a canalha miúda ou os irrequietos adolescentes para uma vida activa e integrada na sociedade, onde essas imposições e proibições sucedem sem o olhar complacente ou protector de professores ou funcionários e onde a lei do “salve-se quem puder” é a base do relacionamento.

Claro que esta preparação para o futuro, na escola, pode ser divertidíssima, numa mescla do lúdico e da aprendizagem, desde a creche até à universidade. Assim saibam os gestores e decisores do sistema de ensino criar as condições para que tal aconteça.

Mas, por muito agradável que possa ser o que se passa entre muros escolares, por muito simpáticos e divertidos que sejam quem lá trabalha e os conteúdos que por lá se aprendem, certamente que não é apetecível entrar na escola se esta tiver os seus limites desta forma decorados: com arame farpado!

Estas barreiras dolorosas, física e psicologicamente agressivas, são certamente um motivo de desânimo e desinteresse para quem, querendo viver a vida a seu bel-prazer, se vê obrigado a franquear estes portões todos os dias.

Foi isto que fui encontrar um destes dias, bem como cacos de vidros cimentados no topo dos muros, num liceu que frequentei na minha própria juventude, bem no centro de Lisboa. No liceu Rainha Dona Leonor, ali ao Alvalade.

Foi neste espaço, que frequentei nos anos que se seguiram à revolução, que aprendi na prática e na teoria, o que era liberdade, civismo, respeito pelo individuo e pelo grupo, solidariedade…

Duvido muito que o tivesse aprendido até ao tutano como o sei hoje, se tivesse que frequentar um local cercado de arame farpado, que não sei se serve para impedir a entrada se para dificultar a saída.


Não se espantem os pedagogos de hoje, se os jovens que agora ensinam os desprezarem amanhã.

Afinal, que vontade haverá de apoiar e ajudar na velhice aqueles que, na nossa juventude, nos colocaram num redil de arame farpado?


By me

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Praxis




A fotografia pode ser doce e suave ou amarga e forte ou aquilo que quisermos, dependendo principalmente da forma como a fazemos e a vemos.

Abaixo vos deixo um pedaço, por sinal o fim, de uma obra de Vilém Flusser: “Ensaio sobre a fotografia”.

Recomendo-a vivamente a todos os que se debruçam sobre fotografia, sobre a produção de imagem e, principalmente, sobre a vida.

Deixo, no entanto, o sério aviso de que não sou responsável p’los vossos actos depois de a lerem.


"…/…

A tarefa da filosofia da fotografia é dirigir a questão da liberdade aos fotógrafos, a fim de captar a sua resposta. Consultar a sua praxis. Eis o que tentaram fazer os capítulos anteriores. Várias respostas apareceram:

1. o aparelho é infra-humanamente estúpido e pode ser enganado;

2. os programas dos aparelhos permitem introdução de elementos humanos não previstos;

3. as informações produzidas e distribuídas pelos aparelhos podem ser desviadas da intenção dos aparelhos e submetidas a intenções humanas;

4. os aparelhos são desprezíveis.

Estas respostas, e outras possíveis, são redutíveis a uma: a liberdade é jogar contra o aparelho. E isto é possível.

No entanto, esta resposta não é dada pelos fotógrafos espontaneamente. Só aparece como escrutínio filosófico da sua praxis. Os fotógrafos, quando não provocados, dão respostas diferentes. Quem lê textos escritos por fotógrafos, verifica crerem eles que fazem outra coisa. Crêem fazer, "obras de arte", ou que se comprometem politicamente ou que contribuem para o aumento do conhecimento. E quem lê uma história da fotografia (escrita por um fotógrafo ou por um crítico), verifica que os fotógrafos crêem dispor de um novo instrumento para continuar a agir historicamente. Crêem que, ao lado da história da arte, da ciência e da política, há mais uma história: a da fotografia. Os fotógrafos são inconscientes da sua praxis. A revolução pós-industrial, tal como se manifesta, pela primeira vez no aparelho fotográfico, passou despercebida aos fotógrafos e à maioria dos críticos da fotografia. Eles nadam na pós-indústria, inconscientemente. Há, porém, uma excepção: os chamados fotógrafos experimentais; estes sabem do que se trata. Sabem que os problemas a resolver são os da imagem, do aparelho, do programa e da informação. Tentam, conscientemente, obrigar o aparelho a produzir uma imagem informativa que não está no seu programa. Eles sabem que a sua praxis é uma estratégia dirigida contra o aparelho. Mesmo sabendo, não se dão conta do alcance da sua praxis. Não sabem que estão a tentar dar resposta, através da sua praxis, ao problema da liberdade num contexto dominado por aparelhos, problema que é, precisamente tentar opor-se.

Urge uma filosofia da fotografia para que a praxis fotográfica seja consciencializada. A consciencialização dessa praxis é necessária porque sem ela, jamais captaremos as aberturas para a liberdade na vida do funcionário dos aparelhos. Noutros termos: a filosofia da fotografia é necessária porque é uma reflexão sobre as possibilidades de se viver livremente num mundo programado por aparelhos. Uma reflexão sobre o significado que o homem pode dar à vida, onde tudo é um acaso estúpido, rumo à morte absurda. Assim vejo a tarefa da filosofia da fotografia: apontar o caminho da liberdade. Filosofia urgente por ser ela, talvez, a única revolução ainda possível."


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sábado, 28 de maio de 2022

Projectos




Quando cheguei estavam todas preenchidas. Todas as quatro colunas.

Eis que, da mesa ao lado se levantam os três (uma ela e dois eles) e começam a fazer um pequeno video com um deles em frente disto e, a meio, começam a apagar.

Pedi-lhes “Alto!, Deixem-me fotografar antes de apagarem!” fiz o registo e eles lá seguiram.

Faz parte de um projecto artístic/social, num dos jardins de Lisboa e, quando está todo preenchido, registam e deixam para novas respostas. Não percebi bem como irá acabar, com o somatório de todas as respostas ou afirmações, mas achei graça.

Passado ou pouco, e depois de lhes ter dito que talvez ainda vá tirar proveito disto daqui por umas semanas, num outro projecto em que estou envolvido, fiz a minha parte enquanto participante.

Somos uns para os outros, certo?


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sexta-feira, 27 de maio de 2022

Responsabilidades




Esta fotografia tem um pouco mais de dez anos e faz parte de uma série que vou mantendo, agora com menos frequência: "Um olhar".

Publiquei-a na altura com o seguinte texto:

 

“A menina das tintas

Era tímida e foi o cabo dos trabalhos para conseguir convencê-la a deixar-se fotografar. O que não consegui foi que me desse o seu nome. Sendo que estávamos numa loja de artigos de belas-artes, foi assim que a baptizei, disse-lho e aceitou-o. Ficou!"

Aquilo com que na altura não poderia contar foi o que aconteceu um ano depois:

Entrando na mesma loja, a Menina das Tintas veio ter comigo e perguntou o que havia eu feito com a fotografia que lhe havia feito e se a poderia ver.

A internete tem destas coisas e mostrei-lha de imediato. Gostou.

 

Uma demonstração para além de qualquer dúvida da importância que os fotografados dão às fotografias que lhes são feitas, muito mais que a importância que quem faz fotografia dá ao resultado do seu trabalho. As mais das vezes.

Que uma fotografia, mesmo que dela nos recordemos, é "mais um troféu", é “mais uma" fotografia.

Mas o fotografado, quer se trate de uma fotografia de estúdio ou uma ocasional algures fora dele, considera cada uma como especial. No fim de contas, está ali um pedaço dele/a. Naquele breve instante da obturação, foi o centro do mundo e ele parou para isso.

 

Convém que nós, que fazemos fotografia por profissão ou por devoção, tenhamos em conta o que pensa cada fotografado, o que sente cada fotografado.

E que respeitemos aqueles que se deixam fotografar e ajudam a encher a nossa coleção de troféus.


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quarta-feira, 25 de maio de 2022

Festas populares




Junho está à porta e com ele a época dos santos populares.

Em Lisboa, no Porto e por todo o país, as festas, procissões, arraiais e outras formas de comemorações popular regressam, desta feita sem as restrições impostas pela pandemia.

Igual tradição, ainda que mais recatada e de menor expressão, é a existência de altares domésticos, com uma vela ou lamparina acesa todo o ano, em honra do santo por quem se tem devoção. Não serão tantos como eram há cinquenta anos, mas ainda devem existir aqui ou ali.

Por mim, não tenho um altar montado permanentemente. Mas, em me apetecendo, lá vou eu dar uma voltinha pelos icones da minha devoção. E, se tiver paciência, monto um altar só para o registo.

Este já tem uns anitos. Faltando-lhe alguma modernidade tecnológica, mantem todo o espírito da coisa.

Divirtam-se com os vossos santos preferidos e com as vossas fotografias.


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terça-feira, 24 de maio de 2022

Super-abundancia




“Como Serge Daney gosta de dizer, “ficamos cegos diante da hipervisibilidade do mundo.” De tanto ver já não vemos nada: o excesso de visão conduz à cegueira por saturação. Essa mecânica contagia outras esferas da nossa experiência: se antigamente a censura era aplicada privando-nos de informação, hoje, ao contrário, consegue-se a desinformação imergindo em uma superabundância indiscriminada e indigerível de informação. Hoje, a informação cega o conhecimento.”

By Joan Fontcuberta, in “A Câmara de Pandora”


E eu acrescentaria:

O mesmo se pode dizer, sem sombra de dúvida, da fotografia.

De tanto vermos fotografias sofríveis ou medíocres, perde-se a noção do que é bom ou não, afinando os nossos padrões por baixo.

É aqui que livros, exposições e alguns sites, em que as escolhas podem ter duvidosa qualidade mas não costumam ser, servem para definirmos e aferirmos os padrões do que entendemos por bom e muito bom.

E por bom não entendamos apenas o clássico, as abordagens convencionais e os jogos de cor, luz e composição de acordo com as regras habituais.

A experimentação, o fazer diferente, o insólito abordar de algo que estamos fartos de ver mas que nunca imaginaríamos registado daquela forma, mesmo e principalmente que à margem do convencional, fazem parte do “bom” ou “muito bom” desde que falem connosco.

As mais das vezes, não é isto que encontramos nas redes sociais ou nas revistas massificadas de fotografia.

Vendo a quantidade quase que incontável de imagens fotográficas que são disponibilizadas todos os dias, quase que podemos ficar com a ideia que foram feitas por apenas um pequeno punhado de pessoas, de tão semelhantes e inócuas que são.

O ruído provocado pela superabundância de fotografias sofríveis, ou nem isso, impede-nos de ver ou reconhecer boas imagens.


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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Sem título

 



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Tédio ou nem tanto




Quase ao acaso escolho um livro. É particularmente cedo na madrugada, apetece-me ler e vou à procura de algum autor que me conforte a alma. Ou que, pelo contrário, me tire do marasmo quotidiano do casa-trabalho-casa e das preocupações que me assolam a mente, em que pensar e criar é algo que acontece quase que como por acaso, nos intervalos das abjectas obrigações do sobreviver.

E fico na mão com um, já de lombada bem vincada, cheio de papéis com anotações de parágrafos ou páginas inteiras de referências: “A prática da arte”, de Antoni Tàpies.

Deixo que pelos meus dedos passem as folhas, sem que haja uma intenção específica de parar num ponto específico que não seja… Agora!

E dou com este parágrafo, na introdução da obra.

Mas um texto sem ilustração é-me difícil de publicar. E, sendo que já é tarde na noite, nem me apetece ir procurar no arquivo nem montar o que quer que seja a propósito. Assim, deixo o meu olhar vaguear pelo que me cerca aqui, neste meu canto, e prende-se ele na parede oposta. Acender luzes, pegar na câmara e fotografar, sem outro cuidado que o balanço de brancos foi acto de dois tempos.

A fotografia, já a haveis visto. O texto, é o que se segue, copiado mas quase que citado de cor:



“E nem falemos de todas as estéticas dos mercenários para acelerarem o consumo de certos produtos – hoje tão nervosos “à procura da respeitabilidade e de um estatuto finalmente artístico”, como diz Christiane Duparc; dos que hoje julgam que tem tanta importância um Gernica como um cartaz a anunciar umas calças ou uma marca de automóvel; dos estetas do “conforto”, material e espiritual, do ópio do falso “moderno” decorativo, da arte do xarope e do não dizer seja o que for que comprometa, que é o que mais adoram os vigilantes oficiais da cretinização sistemática da sociedade.”


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terça-feira, 17 de maio de 2022

Porquê




Nem sempre o tempo ou a inspiração do momento é suficiente para explanarmos tudo o que queremos ou como queremos.
Mas porque mo perguntaram, aqui fica o resumo de um sumário minimalista de tópicos das razões de fotografarmos.
Entenda-se que cada um dos temas abordados daria para muitos livros de grossa lombada: alguns que já li, outros que ainda não li e outros que eu mesmo ainda não acabei de escrever.

O fazer de fotografia pode ter vários motivos, uns mais bonitos que outros.
Em primeiro lugar, e para alguns, é um modo de vida, de garantir o pão de cada dia.
Mas pode querer apenas criar algo que não existe: um jogo de luz, cor e formas que, de algum modo, satisfaça a necessidade criativa de quem fotografa.
Pode ser apenas uma moda. Há anos, quando comecei, a fotografia era particularmente cara, o suficiente para ser chamada de “hobby”: algo que se faz por gosto mas que esgota os recursos materiais e intelectuais. Agora, qualquer um a pode fazer, que o equipamento de captura e processamento está ao alcance de qualquer um (ou quase). “E se um fotógrafo de renome pode fazer, porque não eu, que basta apontar e disparar?”, será o que muitos pensam ou sentem.
Pode ainda ser uma necessidade de comunicar, que outras formas não satisfaçam. Mostrar o que de belo ou de horrendo vemos é comunicar sentimentos.
Pode ainda ser um acto de exibicionismo, que ao mostrar o que fizemos podemos estar a dizer “vejam como penso e sinto isto!” E, com isto, afirmar a nossa forma de pensar.
Por outro lado ainda, a febre das tecnologias de comunicação fazem com que a imagem faça parte do nosso quotidiano. E comunicar sem se usar imagens é ser-se “out” nas modas modernas. Boas ou más, há que fazer fotografia, de preferência com câmaras ou caras ou vistosas. Será, no entanto, fácil de ver que os bons fotógrafos raramente se exibem falando do que têm mas tão só do que fazem.
Há também um outro motivo possível: cobiça! Não podemos possuir tudo o que gostamos: o pôr-do-sol, o carro, a pessoa. Vai daí, fotografa-se e fica-se com o seu ícone. Não será bem o mesmo, mas é o mais próximo possível.
Ainda se pode acrescentar outra razão: a vida actual é vivida em frenesim, rapidamente e esquecendo com facilidade os momentos que vamos vivendo. A fotografia permite, mesmo que inconscientemente, abrandar o tempo e “guardar para mais tarde recordar”. Claro que, com os Gb dos cartões, câmaras e sistemas de arquivo, não se recorda coisa nenhuma, que tantas se fazem que cada uma deixa de ter importância.
Por fim (ou talvez não) faz-se fotografia porque sim. Pelo mesmo motivo pelo qual se trauteia uma musiquinha, ou se fica parado a olhar uma borboleta no verão, ou porque se dá um beijo: porque nos apetece, nos dá prazer, nos satisfaz naquele pedaço de nós que não tem razão ou, como diria o poeta, “tem razões que a razão desconhece.”
Criar, para alguns, é uma necessidade afectiva; para outros, uma necessidade cultural; para outros ainda, uma necessidade social; e para outros, uma necessidade intelectual. O que diferencia uns de outros é que alguns fazem-no para serem mais que outros. Outros para serem mais que si mesmos.
Em qualquer dos casos, o mais importante será, creio eu, que encontremos satisfação no que fazemos. Porque o fazemos e não porque outros o fazem.

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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Facilitismos




O acto de fotografar é hoje quase tão banal quanto o beber um copo de água.

Um pássaro, uma festividade, um acidente, um raio de luz e já está! Saca-se da câmara, como o cowboy da pistola, e dispara-se, perdão, fotografa-se.

O relativamente baixo custo das câmaras digitais, por vezes disfarçadas de telemóveis, e o quase nulo custo do apertar do botão do obturador - que nome se dará nas câmaras digitais? - faz com que talvez se produzam mais fotografias por unidade de tempo que cigarros fumados. Ainda bem!

Há cada vez mais gente a registar aquilo que vê - e por vezes aquilo que sente - o que permite que um maior número de pessoas tenha acesso a uma forma de expressão que os satisfaça.


Mas este facilitismo tecnológico e, porque não, económico, tem as suas desvantagens!

Por um lado, a fragilidade do seu suporte. As imagens apagam-se com enorme facilidade, com um simples delete, para poupar espaço nos arquivos. Ou ainda perdem-se com avarias imprevistas nos discos rígidos ou ópticos, desaparecendo assim o trabalho e a memória colectiva.

Por outro, o custo zero do disparo faz com que os fotógrafos produzam muito mais imagens de um mesmo assunto, cada uma delas menos pensada, ponderada.

“Clic, clic, clic, à velocidade do processamento da memória ou da prontidão do flash. Alguma delas estará boa. Depois logo se verá!”

A aprendizagem, através da “tentativa e erro” é francamente mais lenta. O guardar na memória electrónica daquilo que o sensor vê é feito com muito menos certezas e muito mais por acasos.


Talvez por tudo isto eu seja um pouco “conservador”!

Ainda que, no momento, quase só utilize equipamento digital e, com ele, siga um pouco “na onda” do acima descrito, sinto alguma nostalgia das câmaras clássicas de película. Em particular as de médio e grande formato.

O custo de cada imagem, tanto a nível do original como do laboratório, implicava algum grau de certeza no acto de fotografar. E a complexidade do equipamento e o seu peso e tempo usado antes e depois da tomada de vista eram tais que só se disparava o obturador pela certa. Gastar trinta ou mais minutos numa fotografia para “deitar fora” não é apelativo!

Estas câmaras, e o seu manuseio, tinham implicações - limitações, desvantagens, vantagens? - que nos levavam a pensar o assunto, na sua forma e conteúdo, que nos levavam a estudar a técnica e a estética de cada imagem antes de a fazer. Que nos obrigava a “VER” a imagem, antes de a obter.

Não significa isto que as imagens produzidas por estas câmaras e métodos fossem melhores que as actuais. A qualidade das fotografias - e do trabalho do Homem - não depende da ferramenta mas dele mesmo e do uso que lhes dá!

Mas levava a uma maior disciplina interior que hoje cada vez mais se vê menos.

No caso da fotografia, cada vez mais se vêem imagens que, sendo bastante razoáveis e tendo grande potencial, poderiam ser muito melhores se o fotógrafo tivesse “pensado” e “visto” a imagem antes de a fazer.

O facilitismo e a quantidade nem sempre - ou raras vezes - significam um aumento da qualidade na mesma proporção.


E contra mim falo, entenda-se!


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quinta-feira, 12 de maio de 2022

Telas e sombras




 Uma empena cega, ou uma parede absolutamente vazia, é a tela ideal para que o sol faça as suas obras de arte.

Todos os dias do ano diferentes, pese embora os objectos utilizados sejam os mesmos.

Desta empena e das sombras nela projectadas tenho dezenas de fotografias feitas. Volta e meia estou no local, ou para comer num restaurante favorito ou apenas de passagem, como foi este o caso. 

Desta feita, decidi desvendar o “mistério” do local, registando bem mais que apenas a obra de arte, incluindo o que a provoca.

Faz parte da minha aprendizagem (ou teimosia) de aprender a tirar partido de tal objectiva.

Que teimosia é o meu nome do meio.


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Sniper



 

Durante anos fiz uma piada com alunos e formandos.

Em vendo uma fotografia que me apresentavam, perguntava-lhes se tinham sido militares e atiradores especiais.

Claro que ficavam a olhar para mim, espantados com tal disparate. Mas eu explicava:

“Colocaste o assunto principal, o centro de interesse, bem no meio da imagem. Como se estivesses a espreitar por uma mira telescópica de uma espingarda”.

Claro que se riam, tal como eu. E continuava com a necessidade de espaço, ou ar, que todos e tudo necessitam. De seres vivos a objectos inanimados. Espaço esse que é resultado da sensação de segurança e tranquilidade dos seres vivos e da forma como usamos objectos inanimados, desde uma cadeira a uma caneta, passando por um automóvel ou um portão de quinta. Tudo tem um espaço próprio. Que devemos respeitar em condições normais, a menos que queiramos criar uma sensação de desconforto em quem vê a imagem, ou qualquer outra mensagem diferente do habitual.

Um destes dias, de conversa com um conhecido, passei-lhe para a mão a minha câmara. Espantou-se com o peso, olhou para aqueles botões todos e perguntou-me se podia fazer uma fotografia. Claro que sim, as que quisesse.

Quando as vi, disse-lhe a piada do costume, sobre ser atirador especial. Saíu-me o tiro pela culatra! Então não é que sim, que no seu tempo de militar tinha sido atirador especial, sniper se quiserem.

Rimo-nos e trocámos umas dicas sobre fotografia e tiro de espingarda, cada qual a falar do que conhece.

 

Claro que não estavam à espera que aqui mostrasse uma das fotografias em causa, pois não? Nem a pessoa fotografada foi questionada sobre a utilização da sua imagem, nem perguntei a quem fotografou se poderia usar o que fez.

Em alternativa, um auto-retrato. Juro que me foi penoso fazer este enquadramento!


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terça-feira, 10 de maio de 2022

Limitações fotográficas




De pouco adianta discutirmos as vituosidades deste ou daquele equipamento, desta ou daquela marca.

Todas elas fazem fotografia e ponto final.

O importante no fazer fotografia é quem está atrás da câmara: como vê e como tira partido da ferramenta que tem na mão.

Claro que há limitações: fotografia aérea com telemovel não será o de mais útil. Tal como o actual conceito de “street photography”, em que os transeuntes são fotografados sem disso se aperceberem, não será prático ou viável com grande formato.

O domínio da ferramenta e o conhecer as suas capacidades e limitações é importante, e isso faz parte de estar atrás da câmara.

Posso dar um exemplo, neste caso em primeira mão:

Adquiri recentemente ma objectiva extremo grande angular: 115º em full frame. Foi uma conjugação de oportunidades: estar no mercado, preço acessível e eu poder comprá-la.

Nunca fui grande fã de grandes ângulos de visão, pelo que isto, mais que um capricho ou oportunidade, foi um desafio: “Vou ser capaz de trabalhar com isto”.

Ainda não! O meu olhar ainda não se adaptou a esta forma de ver, ainda não domino a perspectiva que ela impõe e a forma de medir a luz em TTL, por preguiça de usar um fotómetro de mão, ainda é algo que não domino por completo.

Mas eu sou teimoso e vou “dominar o bicho”. À fé de quem sou que vou! Vai é levar mais tempo e mais tentativa e erro do que eu gostaria ou esperaria.

Até porque o problema não está na objectiva mas em mim. E isso posso ou devo resolver.


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