sábado, 30 de junho de 2018

Dificuldades




Ah pois é!
O difícil não é ganhar um campeonato do mundo de futebol. É garantido que alguma equipa o fará, seja lá qual for.
Difícil mesmo é conseguir enfiar uma linha num buraco de agulha tendo apenas um olho activo e zero de visão tridimensional.
Sempre gostava de ver se algum dos jogadores da selecção o consegue fazer.


By me

Motivos obscuros




Leio nos jornais que desapareceram mais de cem pessoas num naufrágio de um barco com migrantes e refugiados no mediterrâneo.
“Trágico”, dirão muitos.
Mas não se deduz ser essa a opinião dos media!
Olhando para o relevo que é dada a esta notícia, e só em alguns jornais, e ao que é dado à chacina de jornalistas nos EUA, constata-se que a segunda é bem mais importante.
Talvez pelo corporativismo profissional.
Talvez porque já não ser notícia inédita a morte de migrantes e refugiados no mediterrâneo.
Talvez porque não seja politicamente correcto falar disso, agora que os europeus tentam acertar agulhas sobre o que fazer aos migrantes e refugiados.
Talvez porque não seja politicamente correcto voltar a falar na posição italiana sobre o tema em geral e este caso em particular.

Imagem palmada da net

Liberdade




“Posso discordar do que dizes, mas bater-me-ei para que o possas dizer”.

Não sei se a citação estará textualmente correcta, nem sei quem o terá afirmado. O certo é que concordo com ela até ao limite: A liberdade de expressão é algo que não podemos – eu não posso – limitar ou coarctar, seja em que circunstâncias forem.
E dois motivos há para tal:
À uma, porque se admitirmos que se pode impedir alguém de dizer o que pensa teremos que admitir que podemos ser impedidos de dizermos o que pensamos. Não gosto que me impeçam de falar. (Argumento egoísta)
Depois, porque o acto censório seguinte será o de impedir pensar. E isso, sabemos, é um dos maiores desejos de qualquer ditador ou aspirante a tal. (Argumento político ou filosófico)
Mas já me faz sair do sério que algumas pessoas ponham ou tentem por em prática o que dizem ou pensam, transformando-se em centro do universo e reduzindo os demais a meras existências em seu proveito.
Lido regularmente com gente com quem discordo de pensamento. Tento, na medida do possível, ser urbano na troca de argumentos, ainda que, por vezes, a conversa descambe na ignorância: aumento de volume de voz.
Mas quando vejo algumas dessas pessoas a colocarem em prática o que pensam, ignorando os que os cercam em prol dos seus interesses, por vezes mesquinhos, já não consigo tolerar. Mesmo quando as suas acções não se reflectem directamente na minha pessoa.

Eis um exemplo:
Recentemente tive que agir numa acção em tribunal. Como testemunha.
Foi-me solicitado por uma das partes e anuí. Porque sabia da justeza da sua pretensão e porque a justiça, no seu conceito abstracto, é cidadania e devo ser cidadão por completo, participando quando solicitado.
Tal como eu, outros foram convocados para a audiência, depois de terem acedido a pedido da parte em questão.
Pois uma dessas pessoas achou que, num dos dias de convocatória, não deveria comparecer. Não estava doente, nem distante, nem tinha alguém dependente de si. Apenas argumentou que o seu chefe não achava conveniente para o serviço a sua ausência.
Por sorte para todos, e na sequência de uma reunião de conciliação antes do julgamento, a audiência não se realizou, nem se notando a sua não comparência.
Não gostei. Nem um bocadinho!
Não apenas não cumpriu com o seu dever de cidadão – colaborar com a justiça – como não honrou o seu compromisso voluntário junto de quem lho pediu.

Temos tido, eu e esta pessoa, diversa conversas ao longo dos anos em que os argumentos estão diametralmente opostos. Irredutíveis, muitas vezes. Mas é legítimo – e saudável – a não concordância e o ventilar ideias.
Mas, depois deste episódio, isso não se repetirá.
Para além da urbanidade que se impõe e dos deveres profissionais, não mais trocarei ideias – ou piadas ou apartes ou outro tipo de convívio – com quem não cumpre os seus compromissos voluntários, prejudicando terceiros, apenas porque socialmente não é “recomendável”.

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sexta-feira, 29 de junho de 2018

De manhã




Primeiro objectivo – Greve no sector, local inactivo. Frustração.
Segundo objectivo – Feriado municipal, local inactivo. Frustração.
Terceiro objectivo – Dia de folga semanal, local inactivo. Frustração.
Felizmente a chave de casa funcionou.


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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Tradições




Os santos populares acabaram.
Manda a tradição que nestes festejos existam altares em honra do respectivo santo. Em cascata ou não.
Este é o altar que ergui em honra da minha santa padroeira.
Cada um sabe de si.



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Critérios




Parece que um bispo português foi graduado em cardeal.
A hierarquia da igreja católica apostólica romana assim o decidiu. Vou presumir que tenha merecido a promoção e que esteja à altura do cargo e novas funções.
Os media têm tratado de dar destaque a este facto. Nalguns casos em demasia, mas é o meu ponto de vista.
Já não é dado destaque, nem um décimo dele, ao facto de já terem sido obtidas por portugueses doze medalhas, entre ouro, prata e bronze, nos jogos do mediterrâneo. Equitação, atletismo, ciclismo, triatlo... Um evento sob o patrocínio do Comité Olímpico Internacional.
Critérios editoriais duvidosos, digo eu.



Imagem palmada da net

Projecto formativo




Tivesse eu a oportunidade e a coragem de conceber de raiz uma formação em imagem (fotografia), e seria radical na diferença.
Presumindo que alguém alguma vez teria a coragem de querer aprender o pouco que sei e os primeiros tempos, talvez dois meses, seriam passados sem recurso a câmaras fotográficas, computadores ou quejandos.
Cada sessão, de duas a três horas, seria passada em laboratório. Preto e branco. Não a imprimir imagens já feitas mas a fazer imagens no papel, recorrendo a objectos opacos ou mais ou menos translúcidos.
Um pouco à imagem e semelhança do que fez Man Ray e outros, com os seus conhecidos Rayogramas.
Claro que isto implicaria alguma coragem e aceitação por parte dos formandos. Tanto tempo sem produzir uma fotografia que fosse…! E paciência.
Há várias vantagens nesta invulgaridade.
Desde logo a disciplina pessoal. O laboratório, com o seu rigor de método, a impossibilidade de se acelerar os processos, o respeito pelos demais participantes no trabalhar em ambiente de luz controlada, a sistematização de raciocínio… Tudo isto vai permitir que o formando se discipline e que seja capaz de aceitar o tempo como parte do processo criativo e não como um obstáculo.
Em seguida, o permitir antever os resultados na mente antes de executar algo. E com certezas. A opacidade ou a translucidez dos objectos tem comportamentos diferentes à vista e no papel sob a luz. Ser capaz de prever os resultados e de gerir a experimentação em função da experiência e do desconhecido faz parte do processo criativo. Fotográfico ou outro.
Do ponto de vista estético, este método permite gerir manchas mais escuras ou mais claras, antevendo-as, no rectângulo do papel. Mais que regras de composição, linhas de fuga, proporções anatómicas ou jogos de perspectiva, a produção de rayogramas permite descobrir e explorar o equilíbrio de massas, áreas, densidades de claro escuro dentro do espaço disponível. Definição de equilíbrios e importâncias na forma para além do conteúdo.
Vai ainda permitir a descoberta da gestão das relações de contraste do claro escuro em função da emoção que se pretende reproduzir, para além de conteúdos conhecidos e formas definidas. E antever isso mesmo olhando para uma superfície branca, antes de nela incluir qualquer obstáculo à luz.
Mas, acima de tudo, irá permitir que o formando de habitue à sua própria sensibilidade na disposição dos elementos no espaço definido à margem de regras, códigos ou imposições sociais. O formando consigo mesmo, sujeito apenas às opiniões de colegas e formadores, sem outros códigos que as suas sensibilidades.

Só depois disto, só depois de ter criado formas e lidado com o rectângulo passaria a incluir elementos concretos, agora com o recurso a tudo o que a fotografia permite: a câmara e a objectiva, com o tratamento posterior num editor de imagem.
Mas em aqui chegando, vai sem mais vícios que os que tinha ao entrar, nem desconfia que existam regras de composição e já se habituou a gerir o espaço.

A ideia não é minha de raiz mas antes o resultado de algumas leituras e experiências.
Mas não acredito que algum industrial da educação ou formação alguma vez arriscasse a investir em tal projecto.
Fica naquele canto onde guardamos projectos que sabemos só concretizar se houver meios e oportunidade.



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Rigores




Deveria existir uma qualquer aplicação que nos dissesse com exactidão para que lado saltam as pingas ao deitar uma pastilha efervescente num copo de água.
É que, e parecendo estar de acordo com as Leis de Murphy, elas vão sempre para o lado onde causam maior estrago.


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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Pedaços de história




Parece que vai fechar a pastelaria Suíça.
Para além de tudo o que isso significa dentro do campo do excesso de especulação imobiliária e turística, desaparece mais um pedaço de história. Daquela história que não consta dos livros, mas verdadeira. Como todas as histórias que não se contam.
Há umas dezenas de anos valentes, era normal ver as senhoras finas nas boas pastelarias da cidade a lanchar. Na Suíça e noutras, algumas das quais ainda não ameaçadas.
Algumas dessas senhoras pediam um serviço de chá frio, que lhes era servido: bule cheio, leiteira, açúcar, scones, manteiga, doce…
Acontece que este pedido não era o que aparentava.
No interior do bule, no lugar de chá existia vinho branco. Que era bebido com o mesmo deleite que se sabia existir nos tascos.
Acontece que as senhoras finas não podiam ser vistas a beber vinho branco em público. Não era decente.
Por isso o “chá frio”, código cúmplice de consumidoras e alguns empregados de algumas pastelarias finas da cidade.
Com o anunciado fecho da pastelaria Suíça, desaparecem algumas das paredes que o testemunharam.
Ficam as memórias dos que as viveram. Que não eu, que esta história que não consta dos livros me foi contada por quem assistiu e por quem serviu chá frio.



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Reciprocidades e preferencias


Ao que li, foi considerado correcto pelo supremo tribunal norte-americano o impedir-se a entrada nesse país de naturais de sete países: Irão, Líbia, Somália, Síria, Iémen, Coreia do Norte e Venezuela.
A esta decisão soma-se o barrar a entrada a quem tenha viajado para esses países, como foi o caso, recentemente, do antigo secretário-geral da NATO e alta figura da União Europeia Javier Solana. Suponho que muitos outros, não mediáticos, tenham tido a mesma sorte.
Será legítimo que um país não queira no seu território determinadas pessoas vindas de outros países. Em última análise, na minha casa também só entra quem eu permito.
E, claro, podemos perguntarmo-nos se o facto de ter uma dada nacionalidade ou credo será motivo para tal. Na minha casa não é.
Mas também será legítimo a reciprocidade, directa ou indirecta.
O saber que um vizinho da minha rua tem essa atitude, indiscriminada e sem motivos específicos que não o credo ou a nacionalidade, faz com que eu não queira que entre na minha casa.
O facto de os EUA recusarem a entrada no seu país a gente só porque professam determinada religião ou nascerem de determinado país faz com que eu não queira que entre em Portugal – o meu país – pessoas nativas dos EUA.
Simples!
Poderão dizer-me que a decisão foi tomada por um presidente e não por todo aquele povo. Mas a verdade é que foi eleito livremente por esse povo e foi-lhe confiado o poder de tomar decisões deste cariz.
Até que seja, eventualmente, arredado do cargo, as leis criadas pelo actual presidente dos EUA representam a vontade do respectivo povo.
E não me apetece ser hospitaleiro para com um povo que segrega em função da nacionalidade ou da religião.



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sábado, 23 de junho de 2018

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O Amor também é isto, apesar de doer fundo saber que acontece assim.
Roubado do mural de um amigo que, naturalmente, manterei em anonimato.

“Mxxxxxxx, my dear wife and companion, is dying.
She is a fighter but I wish she left this damn World without suffering any more pain.
Once she goes, I intend to follow her.
It’s ok Mxxxxxxx, please let it go...”
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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Celebrações




Gente houve que ontem se deslocou a lugares mais ou menos especiais para fazer a celebração. O mais conhecido destes é Stonehenge.
E juntaram-se, oraram, usaram cores e roupas coloridas, flores na cabeça e decorações corporais alusivas à natureza.
De um modo ou outro, repetiram rituais antigos, conhecidos ou supostos, tentando estar em uníssono com um deus cósmico ou universal.
Bonito e mais ou menos mediático pela raridade actual das práticas e conceitos.
Por mim, assumido como agnóstico, não fiz nenhuma dessas coisas. A ideia que tenho do divino é todo o universo, englobando vivos e inanimados, conhecidos e desconhecidos, num todo uno em que cada um é parte dele. Tal como cada átomo nosso faz parte do corpo que somos. E não faz sentido, pelo menos para mim, agradecer-me do que quer que seja.
Mas tentei não deixar passar o dia ignoto.
Para além do alertar os meus iguais do momento particular (como venho fazendo deste há muitos anos) guardei uns minutos para apreciar o fim do dia mais longo do ano neste hemisfério.  
Coincidiu com um dos passeios diários com o cãopanheiro. E, enquanto ele se preocupava com os cheiros da terra, na busca dos estímulos para se aliviar ou marcar território, no meio de ervas e insectos, eu apreciava o chegar da noite, a artificialidade da luz humana e, coincidência, um fogo de artifício lá longe, largado para lá da linha de horizonte meio citadina.
Na nossa busca pelas explicações, mais teológicas ou mais científicas, do que nos cerca, ignoramos as mais das vezes as coisas simples mas quase imutáveis. Que existem muito antes dos seres vivos, humanos incluídos, terem surgido no planeta. E que continuarão a existir muito depois de já nem haver memória de por cá termos estado.

Espero que tenham tido um bom solstício e veremo-nos com este tema na próxima data equivalente: o equinócio.

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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Hoje é feriado




Daqui por umas duas horas (são oito e troca o passo da manhã) será o momento alto do dia:
Na sua trajectória de translação em torno do Sol, o nosso planeta estará no solstício de verão.
Olhando pela janela, com a chuva e trovoada que acontece lá fora, não parece. Aliás, nem sequer se consegue ver o sol, tapado que está por pesadas e cinzentas nuvens.
Por isso mesmo, fico parado a pensar no quão importante e difícil era para os nossos antepassados pré-históricos assinalarem a data única no ano sem verem o sol.
Mandarmos sondas para além do sistema solar, usarmos a intenet, erradicarmos doenças ou mantermos alimentos comestíveis por mais de um ano não me espanta. A ciência e o conhecimento escrito permitem isto e muito mais.
Agora que os antigos, sem registos físicos, sem matemáticas ou telescópios, com uma língua presumivelmente reduzida de vocábulos e com pouca interacção entre povos, conseguissem identificar solstícios e equinócios e considera-los tão importantes a ponto de lhes erguerem monumentos que implicariam o recurso a todos os elementos da comunidade…
Quando hoje, lá pelas onze pouco da manhã (hora portuguesa) atravessarmos todos esse ponto no espaço, reconheçam que os antigos talvez fossem bem mais inteligentes do que pensamos, apesar de toda a nossa arrogância.
Os solstícios e os equinócios deveriam ser, do meu ponto de vista, dias a celebrar como feriados por todo o mundo, já que registados e venerados muito para além de calendários e fronteiras.
E, quando pensarem nisso, pensem também no quão pequenos, efémeros e insignificantes somos, num universo que quase desconhecemos e que, garantidamente, não dominamos.



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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Responsabilidades




Sobre a questão das crianças separadas dos pais, migrantes clandestinos, e detidas em algo a que podemos chamar de “campos de concentração”, confinadas a gaiolas:
Ainda que me deixe arrepiado, entendo um tresloucado que o ordena: são conceitos políticos e “patrióticos”, aos quais recorre para consolidar o poder.
O que me custa mesmo a entender é o cumprir instruções por parte dos agentes que estão no terreno. Provavelmente, com filhos, mulheres ou maridos em idades semelhantes àqueles sobre os quais agem.
De algum modo, recordo-me de Nuremberga, em que quase todos os que ali responderam alegaram cumprir ordens, chutando para cima.
Os crimes, sejam eles quais forem, são tanto da responsabilidade de quem manda como de quem é mandado.
E, não nos podemos esquecer, ainda não há muito que o KKK medrava por aquelas paragens.

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terça-feira, 19 de junho de 2018

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Há sons que são beras de ouvir.
O choro de uma criança. A broca do dentista. A sirene de chamada dos bombeiros voluntários.
A uns acudimos de imediato. Ou queremos acudir.
A outros tentamos evitar, ainda que não o possamos.
Os outros afligem-nos por não sabermos para onde irão nem com que consequências.


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segunda-feira, 18 de junho de 2018

Diatribe sobre métodos com pergunta no final




Certo! Há muitas de fazer as coisas. Se assim não fosse, todos teríamos resultados idênticos e isto da vida seria uma sensaboria.
E a fotografia, (que é parte da vida para alguns, é a vida para outros) não é diferente.
Sabemos que a fotografia é a escrita da luz (ou a escrita com a luz). Como tal, o seu domínio é vital. Em questões de qualidade e em questões de quantidade.
É por isso que os fabricantes colocam no mercado cada vez melhores sistemas de aquilatar a luz, quer se trate de aparelhos externos à câmara, quer se trate da forma como a própria câmara mede a luz. Pontual, matricial, ponderada ao centro, são vários os sistemas.
Mas as variáveis são sempre as mesmas, em princípio: a quantidade de luz existente, o tempo de exposição, a abertura do diafragma e a sensibilidade do sistema.
Há várias formas de lidar com estas variáveis.
Deixando que os automatismos façam o seu trabalho. Resulta mediano, na maioria das situações.
Completamente em manual. Tempo, abertura e sensibilidade sempre controladas pelo fotógrafo, decidindo sobre cada factor em função das circunstâncias. É divertido, dá-nos o total controlo sobre o resultado, mas moroso (ou mais moroso).
A terceira alternativa é um misto. Deixar que os automatismos aconteçam apenas em alguns factores, dependendo das decisões que tomamos nos outros. “Prioridade” a isto ou àquilo.
As mais das vezes opto pela terceira. A sensibilidade é sempre a mesma, o diafragma é decidido por mim, em função do que quero e vou estando atento ao tempo seleccionado pelo automatismo. Confesso que pouco trabalho desta forma, bastando-me um olhar de relance para os indicadores para me certificar que os valores automáticos estão dentro dos limites que aceito.
Claro que isto tem resultados medianos. Que depende sempre das condições de luz e dos contrastes da cena. E é aqui que uso a função extra que não referia: a compensação de exposição.
Conhecendo a forma de medir a luz da câmara, decido se aquilo que ela está a medir e a actuar em concordância está ou não de acordo com o que quero. As mais das vezes, trata-se de uma decisão minha antes mesmo de fazer a medição ou levar a câmara à cara: quero mais escuro que, ou mais claro que porque o assunto onde medirá é de si pouco ou muito reflector. Ou porque a interpretação subjectiva das luz existente implica uma abordagem que não meramente técnica e fiel do que está ali.

Nas recomendações que vou dando a quem me vai fazendo perguntas ou vai ouvindo o que vou dizendo, recomendo esta abordagem numa primeira e segunda fases: optar por abertura e definir profundidade de campo e decidir sobre a forma de medir e o seu resultado.
Deixo o manuseamento integralmente manual para uma fase mais avançada, em que o hábito de interpretar o assunto esteja bem enraizado.

E fica aqui a razão de ser desta diatribe: será que os demais que fazem fotografia ou ajudam a aprender fotografia têm abordagens semelhantes ou optam por outros caminhos?

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domingo, 17 de junho de 2018

Encontros furtuitos




No cais do Metro, a caminho do trabalho, o meu olhar ficou irremediavelmente preso a uma mocinha.
Teria ela uns 18 ou 20 anos, tal como a amiga e já estavam vestidas de acordo com a canícula que se sentia lá fora.
Mas o que me prendeu o olhar não foi a mocinha de per si, mas antes o que tinha com ela: pendurada dos pescoço uma Pentax ME Super, equipada com uma Pentax-A 28-80.
Caramba!
Ver alguém com uma Pentax já é coisa rara. Ver alguém a usar uma Pentax de película é ainda mais raro.
Não resisti e meti conversa: Dei-lhe os parabéns pelo uso da marca e modelo.
Riram-se ambas e ela disse-me que não era dela mas de um amigo e que a estava a usar para um trabalho escolar. Não perguntei qual nem de onde.
Já sentados no comboio, constatei que o livro que lia era uma coletânea de poemas de Mário de Sá Carneiro.
Encontro fortuito e raro, nestes tempos de fast-tudo, incluindo fotografia e literatura.

A imagem? Não tive coragem de a fotografar com o meu telemóvel, pelo que esta foi roubada da net.



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Repórteres fotográficos




Os primeiros dois grandes conflitos armados que foram acompanhados por fotógrafos aconteceram na Crimeia e nos EUA. Ambas mais ou menos a meio do séc. XIX.
Em ambos os casos os condicionalismos técnicos para a actividade dos fotógrafos eram semelhantes: os primitivos equipamentos, a fracas sensibilidades dos materiais, a necessidade de preparar, expor e processar quase de imediato… tudo isto impunha, por exemplo, que os fotógrafos se deslocassem em carros próprios, arrastando consigo as suas próprias câmaras escuras e laboratórios.
Mas as semelhanças terminam aqui.
Das não muitas imagens da época (como se imagina) as abordagens dos fotógrafos ao tema “guerra” são tão diferentes que quase que se pode perguntar se o tema será mesmo.
É que, enquanto na guerra civil americana um dos principais objectivos seria o mostrar o absurdo de uma guerra fratricida, em que a destruição e morte são patentes na sua grande maioria, já na Crimeia o principal objectivo seria o mostrar em como as tropas britânicas, lá longe nos Balcãs, estariam bem e vitoriosas.
Uma olhada rápida, mesmo que pela net, pelas imagens de então demonstra isso muito bem.
De então para cá, todos os conflitos bélicos envolvendo as chamadas “sociedades ocidentais” foram retratados pelos fotógrafos. E alguns fora deste universo.
Algumas dessas reportagens de imagem foram feitas com pulso livre pelos fotógrafos, outras bem limitadas ou condicionadas pelos beligerantes.
Mas nenhuma delas foi “inocente” nos motivos que estiveram atrás de quem enviou ou propiciou que acontecessem. Não há reportagens de guerra (ou do que quer que seja) isentas ou inócuas. Nem então nem hoje.

Nós, o público que no conforto da paz a elas temos acesso, temos também o dever de saber interpretar o que nos chega, a obrigação de saber quem enviou gente e meios para lá e com que motivo, com qual das partes estão alinhados. E, neste actual mundo de informação, saber procurar o outro lado da história, saber o que se conta e mostra para lá da terra de ninguém.
Que a morte será sempre a morte, de um lado ou do outro da trincheira. As motivações é que variam. E o que nos contam sobre elas também.

Na imagem, um carro de reportagem fotográfica, durante a guerra da Crimeia, séc. XIX.
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sábado, 16 de junho de 2018

Memória




Em ’82 estive em Málaga a colaborar com a transmissão do Mundial de Futebol de Espanha.
Tenho os registos fotográficos algures, no arquivo.
Mas trago memórias inolvidáveis que em pouco se relacionam com futebol:
Uma cicatriz na cabeça, já que a parti por lá de encontro a uma viga de betão ao preparar o material;
O saber quanto pesa um leão bebé, já que o tive ao colo para assim ser fotografado;
Uma troca de palavras azeda com o director do Centro Operacional local, já que quis menosprezar a qualidade e profissionalismo dos técnicos portugueses que ali estavam a colaborar e ainda antes de nos ver a trabalhar;
Uma conversa com um argentino (tinha acabado havia semanas a guerra da Falkland) que me disse que no seu país havia liberdade, já que podiam sair à noite;
O saber que cerveja com gasosa é tão desenxabido quanto os “expressos” que por lá se vendem;
O ter assistido à representação de “Porgy and Bess” por uma companhia novaiorquina e ter sido substituído pelo director técnico que se ofereceu para eu ter a noite livre;
O ter dado formação a colegas espanhóis;
As centenas de fichas BNC cravadas, já que tudo foi montado de raiz;
Os rostos de alguns dos companheiros com quem ali trabalhei e aprendi;
O ter medido 42º à sombra e antes de almoço;
E…;
E…;
E…;

Não preciso de fotografias para activar a memória.



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Usurpação de direitos




Esta fotografia faz parte de um projecto meu.
Inspirado numa moda que correu mundo em 2011 (Planking), decidi fazer um conjunto de imagens em que eu estivesse em modo “planking”. Selfies, como lhes chamam, sem intervenção de terceiros e sem colocar-me em risco.
Pois um dia, poucas semanas depois de a ter publicado, vejo-a usada num site de um periódico português para ilustrar um artigo. Sem que tivesse sido consultado para tal, pese embora o contacto seja sempre possível através das redes sociais onde a divulguei.
Contactei o director do periódico em questão, afirmando que a fotografia é minha e de mim e que não gostara da quebra de ética jornalística e económica que tinham tido.
A resposta, ainda que polida, não me agradou. Ainda que fotografia e artigo tenham sido retirados do respectivo site.
E não me agradou porque, ainda que tenham usados justificações esfarrapadas, não apresentaram um pedido de desculpa. Um director de um jornal de grande tiragem nacional não o pode fazer. Acrescente-se que foi um adjunto que respondeu e não o destinatário da minha reclamação.
Para aqueles que publicam as suas fotografias na net, aqui fica o relato e o aviso: imagens mais pessoais podem sempre ser usadas por entidades “idóneas”, sem que um simples pedido de desculpa seja feito. Apesar de tudo o que possa advir desse mesmo uso.



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sexta-feira, 15 de junho de 2018

Censuras e soluções




Naquele ano, uma das propostas feitas a uma das turmas foi o fazer-se uma fotografia para ilustrar a capa de um livro policial.
Discutimos o que é um livro policial, falámos dos estereótipos, concebemos espaços e manchas a preencher e deixar livres para títulos e grafismos de editor e cada grupo ficou de conceber e executar um trabalho.
Um dos grupos, três mocinhas, apresentou uma proposta que incluía um quase semi-nu. Por aquilo que conversámos, nada que se são visse nos escaparates das livrarias, na secção dos policiais.
E discutimos as técnicas e as éticas envolvidas.
Acontece que a direcção da escola onde isto decorria soube da coisa, chamou-me e interditou a realização daquele trabalho em particular. Entre outros aspectos, puseram em causa o que os pais ou encarregados de educação poderiam dizer, se soubessem que na escola se faziam fotografias daquelas. Peremptória, a interdição.
Quando voltei a encontrar-me com o grupo, expliquei-lhes a situação e trabalhámos uma imagem alternativa, aceitável perante quem decidia.
No dia da execução do trabalho, em que o estúdio estava por nossa conta, ele foi feito de acordo com as indicações superiores: técnicas, estéticas e objectivos cumpridos de acordo com o combinado.
Em terminado, e havendo tempo disponível, disse-lhes que tinha que ir tratar de um assunto à secretaria, que era coisa para demorar uma hora, mas que elas poderiam ficar por ali, aproveitando espaço e equipamento. Entreguei-lhes um rolo virgem e fui.
Nunca soube o que ali aconteceu naquela hora. Mas quando regressei, depois de ter ido à secretaria, ao bar por um café, ao pátio fumar dois cigarros e ter dado uns dedos de conversa com quem por ali estava, o ambiente naquele estúdio era esplêndido.

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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Questões de bola




A universalidade da importância do futebol.



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Arrepios




Fico com arrepios por todo o corpo ao ler este título.
É que, apesar de não ser do meu tempo, ainda não esqueci o que foi o “Eixo”.
Mas talvez tenha sido propositado o terem-no usado. E com estes países.



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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Desejos



Morrer por morrer, que seja a rir ou a fotografar.

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terça-feira, 12 de junho de 2018

Importância da fotografia




Oiço uma senhora a lamentar o que perdeu com o incêndio pavoroso do ano passado em Castanheira de Pera.
A dado passo diz: “Nem um prato, nem uma colher, nem uma toalha, nem um guardanapo, nem… Nada, nada, nada! Nem as fotografias que eu tinha de recordação… Nada!
Aqueles que encaram a fotografia e o acto fotográfico com a maior das displicências deveriam pensar nisto!


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Desculpem qualquer coisinha, mas…
Pôr uma criança, mesmo que em modo “faz-de-conta”, a manobrar uma arma, de guerra ainda por cima, não me parece lá grande espingarda em prol da paz mundial.
O nosso presidente aparenta nada saber sobre pedagogia e crianças.

Imagem roubada da net
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Previsões




Disseram os especialistas que vinha aí o calor. Onde?
Não tivesse o meu vetusto termómetro de laboratório na respectiva caixa e era vê-lo partir-se com a temperatura a cair!


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Pepinos e jornalismo




As minhas manhãs iniciam-se, desde há muito, com uma ronda pelas notícias on-line. Defeito profissional, que querem!
Nas de hoje, o título de abertura principal, ou na secção internacional, fala da cimeira entre os presidentes norte americano e norte coreano. Faz sentido!
E, tal como nos últimos dias, muitas têm sido as notícias em torno do assunto: umas mais sérias e preocupantes, outras mais leves “divertidas”.
Hoje encontro uma destas últimas: a ementa do almoço que uniu os dois presidentes em torno de uma mesa.
Nela, fala-se de uma entrada pouco conhecida, que uma jornalista a BBC foi investigar: pepinos recheados. E, diz-nos o jornal, que se trata de algo muito apreciado no norte, desde os tempos da Dinastia Joseon.
Fiquei eu curioso: essa dinastia aconteceu quando, de quando a quando? Convenhamos que os detalhes históricos sobre dinastias não serão conteúdo corrente nos livros de história das nossas escolhas. Nem tema de conversa de café. Fui saber.
A web, mais rica sobre a história da Coreia do que eu esperava, disse-me que a Dinastia Joseon começou em 1392 e terminou em 1897. Admitamos que longa. E que abrangeu toda a península coreana. E que esteve em conflito com os seus vizinhos chineses e japoneses, uma vezes mais intensa outras mais leves. Nada de estranho, de acordo com o muito pouco que sei da história mundial e para um período tão longo.
E é a sua longevidade e área de influência que me leva a questionar a notícia: então uma iguaria está datada num período de 500 anos e é desconhecida? Indo mais longe: a expressão usada na notícia é “desde o tempo de…” Desde o seu início? Era conhecida no seu final, que terminou há pouco mais de um século? E são os pepinos vegetais tão raros assim naquele país? E recheados com quê? Vegetais? Carne? Peixe? Marisco?
Quando eu era pequeno, havia uma paragem obrigatória no caminho de férias da família para uma refeição que a todos agradava: pimentos recheados. Para meu sofrimento, que sempre odiei o sabor dos pimentos. Mas sei, apesar de não os ter comido, que o recheio desses pimentos era composto por uma mistura de carne picada e vegetais. A minha alternativa, apesar do incómodo do aroma intenso dos pratos vizinhos, era um clássico bitoque.

O jornalismo de hoje é assim que se faz: contam-se umas pontas soltas, sem contextualização nem desenvolvimento. E quem quiser que vá saber mais.
Foi o que fiz e encontrei alguns artigos sobre o assunto. Não teria sido difícil ao articulista fazer o mesmo, já que evidenciou a iguaria.
Deixo à vossa curiosidade o irem procurar qual o recheio dos pepinos que foram servidos a tais personalidades.

Fotografia palmada da net
By me

domingo, 10 de junho de 2018

Exercício de estilo





Éramos três e todos ligados à fotografia, ao vídeo e TV e à escrita.
Das várias coisas que então partilhámos, e já lá vão umas dezenas de anos, recordo um exercício de criatividade, sugerido já não sei por quem.
Cada um de nós entregava a um dos outros uma fotografia feita por si e da sua escolha. Passado algum tempo, suponho que quinze dias mas não garanto, cada um apresentava ao terceiro a fotografia acompanhada de um texto, entretanto escrito. Novo ciclo de tempo e a foto e o texto eram entregues de novo ao primeiro, agora com uma nova fotografia a acompanhar. E quem recebia teria de novo um tempo limite para fazer um novo texto. E por aí fora até que algum de nós dissesse sobre o que tinha na mão: “Está completo! Não lhe acrescento nem uma virgula ou fotão”!
O exercício terminava aqui com três conjuntos de fotografias e textos evolutivos e de criação colectiva.
Nem para o texto nem para a imagem havia restrições. Poderia ser uma palavra, uma frase, um poema ou várias páginas de escrita “caótica”. E poderia ser em cores ou preto e branco, positivo, negativo ou diapositivo, fosse qual fosse o tamanho apresentado.

A Terra rodou milhares de  vezes e cada um de nós seguiu o seu rumo, aquém e além mar.  
Mas certamente que este exercício de estilo, esta diversão de comunicação de ideias e saudavelmente exigente, tê-los-á marcado como a mim.

Ainda hoje as imagens me provocam palavras, as palavras sugerem imagens e ambas as situações me levam a emoções.
E continua a ser um exercício interessante, ainda que agora a uma só voz, manter diariamente a relação palavra/imagem e imagem/palavra. Conseguir a ilustração certa, por vezes com tempos reduzidíssimos, ou a verborreia adequada a algo que vi e registei, consegue manter-me acordado e alerta, mesmo nas ocasiões mais apertadas.
Se o resultado é bom ou mau? Não sou juiz em causa própria, mas são incontáveis as vezes em que penso que poderia ter feito ou abordado o tema de outra forma.



By me

sábado, 9 de junho de 2018

Caricas




Acredito que hoje já poucos saibam o eram as "cavas, piras e matas".
Os nomes das gloriosas covas do jogo do guelas.
Mas também já não há recreios em terra batida. E os tacões das sapatilhas e botas de hoje, em borracha, já não permitem escavá-las, duas rotações do corpo e a um passo, religiosamente medido, umas das outras.
Quanto aos gelas, ou bilas, vendem-se hoje em sacos quase que a peso, numa mistura quase pecaminosa com abafadores e papa-mundis.
E do "palmo de ganso", que tanto se aplicava com os gelas como com as caricas? Quem recorda?
Mas se não se recordam dos bilas, redondos e coloridos, de vidro uns, de plástico fosco os mais baratinhos, como se recordarão das caricas, recolhidas nos tascos e cafés, sempre em busca das menos dobradas ou vincadas?
O prémio, escondido por sob o vedante interior da carica? Já é depois do meu tempo de jogador de rua.


By me

A propósito de uma fotografia




Excerto do livro “Introdução à análise da imagem”, de Martine Joly

“…
Trata-se de uma passagem do livro “O foi do horizonte” de António Tabucchi, em que a personagem principal, Spino, tenta encontrar a identidade de um morto graças a uma fotografia que subtraíra da sua carteira.

Em casa instalou tudo na cozinha para trabalhar mais à vontade do que no cubículo onde tem a câmara escura. Durante a tarde tratara de arranjar os químicos e comprara uma tina de plástico numa secção de jardinagem dos grandes armazéns. Conseguiu um rectângulo de luz de trinta centímetros por quarenta e inseriu o negativo de reprodução que mandara fazer num laboratório de confiança.
Imprimiu toda a fotografia, deixando o ampliador aceso uns segundos mais que o necessário porque a reprodução estava sobrexposta. Na tina do revelador os contornos pareciam custar a delinear-se, como se uma realidade passada e longínqua, irrevogável, resistisse a ser ressuscitada, se opusesse à profanação de olhos curiosos e estranhos, se negasse a despertar num contexto que não lhe pertencia. Sentiu que aquele grupo familiar se recusava a voltar ao palco das imagens para satisfazer a curiosidade de um estranho, num lugar também estranho, num tempo que já não é o seu. Percebeu igualmente que estava a evocar fantasmas, que estava a tentar extorqui-los com o ignóbil estratagema da química, numa cumplicidade forçada, num compromisso equívoco a que eles, vitimas ignaras, se tinham prestado com uma pose improvisada diante de um fotógrafo de então.
Torpe virtude a dos instantâneos! Sorriem. E aquele sorriso é agora para ele, mesmo que não queiram. A intimidade de um instante irrepetível da vida deles pertence-lhe agora, dilatado no tempo e sempre idêntica a si mesma; pode vê-la quantas vezes quiser, pendurada numa corda que atravessa a cozinha, a escorrer. Um risco em diagonal, que a sobrexposição acentuou desmesuradamente, atravessa de lado a lado os corpos deles e a paisagem deles. É o risco involuntário de uma unha, a inevitável corrosão das coisas, o vestígio de um metal (chaves, relógios, isqueiros) com o qual aqueles rostos coabitaram em bolsos e gavetas? Ou será a marca voluntária de uma mão que queria apagar aquele passado?
Mas, seja como for, aquele passado está agora num outro presente, expõe-se sem querer a uma decifração. É o alpendre de uma casa modesta de subúrbio, os degraus são de pedra, enrolada num dos pilares cresce uma trepadeira enfezada, florida de campânulas claras; deve ser verão: adivinha-se uma luz ofuscante e os fotografados têm roupas leves.
O rosto do homem tem uma expressão surpreendida e, ao mesmo tempo, indolente. Está de camisa branca, com as mangas arregaçadas, sentado por trás de uma mesinha de mármore, e tem à frente um jarro de vidro, a que está encostado um jornal dobrado. Decerto estava a ler, e o improvisado fotógrafo chamou-o para o fazer erguer os olhos.
A mãe vem a transpor a soleira da porta, entrou na fotografia por acaso e nem sequer deu por isso. Tem um aventalinho às flores, o rosto é magro. É ainda jovem, mas a sua juventude parece já passada.
As duas crianças estão sentadas num degrau, mas afastadas, alheias uma à outra. A menina tem duas tranças queimadas pelo sol, óculos com aros de massa, usa tamanquinhos. No regaço tem uma boneca de trapos. O rapaz está de sandálias e calções. Tem os cotovelos sobre os joelhos e o queixo apoiado às mãos. Um rosto redondo, uns cabelos em que brilham alguns caracóis, uns joelhos sujos. Do bolso dos calções emerge a forquilha de uma fisga. Olha em frente, mas os seus olhos perdem-se para lá da objectiva, como se seguisse uma aparição no ar, algo que escapa aos outros fotografados. Olha ligeiramente para cima, as pupilas indicam-nos sem qualquer possibilidade de erro. Talvez esteja a olhar para uma nuvem, para a copa de uma árvore.
No canto da direita, onde o terreno se prolonga num caminho empedrado, sobre o qual o telhado do alpendre desenha uma escada de sombra, distingue-se o corpo enroscado de um cão. O olho do fotógrafo, desatento à presença dele, apanhou-o por acaso no enquadramento e a fotografia corta-lhe a cabeça. É um cachorro com malhas pretas que pode parecer um fox mas é com certeza um rafeiro.
Algo o inquieta naquele instantâneo plácido de desconhecidos; algo que parece esquivar-se à sua decifração: um sinal escondido, um elemento aparentemente insignificante e que, no entanto, pressente ser fundamental. Depois aproxima-se, atraído por um pormenor. Através do vidro do jarro, onduladas por efeito da água, as letras do jornal dobrado a meio que o homem tem à frente dizem: “Sur”. Emociona-se, dá por isso e diz para consigo: a Argentina, estamos na Argentina, porque me emociono?, o que é que a Argentina tem a ver? Mas agora sabe o que os olhos do rapaz estão a fixar. Por trás do fotógrafo, imersa na vegetação, há uma moradia cor-de-rosa e branca. O rapaz fixa uma janela com as persianas fechadas, porque aquela persiana pode entreabir-se lentamente, e então…
E então o quê? Porque é que estás a inventar nesta história? Que diabo está a tua imaginação a inventar fazendo-se passar por memória? Mas justamente naquele instante, não em ficção, bem real dentro de si, uma voz infantil chama distintamente: Biscoito é o nome do cão, não pode ser outra coisa.
…”

Imagem: by me