Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Eu tinha 17 anos.
Pôs-se a possibilidade de ir em viagem de finalistas a
Londres. A família não era abastada, longe disso, e não havia dinheiro para
tais aventuras, mas com boas-vontades daqui e dali a coisa compôs-se. Incluindo
a ajuda da família da minha namorada, que queria que eu fosse com ela.
O que não havia era como fazer o “para mais tarde recordar”.
Eu tinha uma câmara desde os doze anos, mas fazer fotografia era caro e estava
parada havia muito tempo. E era muito fracota. É muito fracota, que ainda a
possuo.
Um parente decidiu chegar-se à frente e emprestar-me a sua.
Recordo que era uma SLR mas não a marca. E possuía uma 50mm, mais que
suficiente para os registos, digam hoje o que disserem sobre zooms e edições
posteriores.
No dia em que me foi entregue (recordo o local exacto, a
luz, a sombra da frondosa árvore, a mesa e os bancos de pedra) foi-me dada uma
recomendação, entre outras, que não esqueci até hoje:
“Toma cuidado que ela só faz fotografias a cores!”
Quem ma emprestou já morreu, que o episódio é velho. As
fotografias que fiz foram a cores e estão algures no arquivo, numa caixa que
não sei qual. Já não olho para elas há anos e tenho a vaga memória de estarem
rosadas, naquele tom de fotografias coloridas e mal processadas, em que a luz e
a humidade são carrascos impiedosos.
E nunca virei a saber se esse meu primo, bem mais velho que
eu, estaria a falar a sério se na brincadeira. Segui as suas indicações mas, na
minha enorme ignorância sobre fotografia, aquela recomendação nunca me
convenceu por aí além.
Anos mais tarde, já a fotografia fazia parte integrante da
minha vida, disse-me uma senhora numa loja de fotógrafo em Castelo Branco que
os rolos em Preto e Branco já não se fabricavam. E que não tinham. E eu, que
tinha esgotado os que havia trazido de casa naquelas férias vadiando pelo país,
acabei por ir comprar num dos outros poucos fotógrafos que a cidade tinha,
ainda que tivesse penado para o encontrar.
Talvez que tivessem andado juntos na escola, aquela senhora
e aquele meu primo, ainda que a geografia não o indicasse.
Vadiei pelo Preto e Branco durante anos. Porque o
laboratório era meu, porque bem mais barato, porque o Ansel Adams era (e é) um
mestre a tentar imitar.
Mas percebi, a dado passo, que o suporte e a técnica têm que
ser usados em função daquilo que queremos transmitir e não podem ser
limitadores do que queremos fazer.
Tenho para mim que a vida é a cores, que reagimos a elas
como os cães aos cheiros, e é isso e dessa forma que quero mostrar.
O monocromatismo é apenas uma dessas formas.
Pentax K7,
Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5
By me
Quem achar que as temperaturas estão muito elevadas e quiser
algo mais fresquinho, sugiro um passeio até à Guarda.
De acordo com fontes oficiais enquanto que em Lisboa e pelas
oito da manhã se já registavam vinte e oito graus e uns trocos, à mesma hora na
Guarda os termómetros marcavam 14,6º.
É só uma dica.
Nicon Coolpix P7000
By me
Quando pego numa câmara ou
objectiva gosto de sentir uma de duas coisas: ou que é absolutamente nova (ou
quase) ou que tem história.
Algumas das que possuo vieram
para a minha mão novas. Ou quase novas. Retiradas da caixa por mim, ainda com o
“cheiro da fábrica”, ou da mãos de alguém adquiriu mas pouco uso lhe deu, tendo-a guardado com
cuidado ou carinho.
Muitas outras entraram em minha
casa depois de terem tido vários donos, uns mais cuidadosos que outros, algumas
com muito uso, amador ou profissional. Na medida em que consigo, tento saber essas
histórias, coisa que só é possível se for uma venda particular. Em lojas ou
feiras de rua, não sabem ou não querem contar qual o passado da câmara ou
objectiva.
Se aparentar ter um passado
vivido, tento conservar a aparência que possui. E tento tanto mais quanto mais
antiga é a peça. Tenho apenas o cuidado de a manter em condições de
funcionamento e evitar que se suje com pó ou semelhante. A chamada “patine” faz
parte do passado e da história.
Este é um detalhe de uma Pentax
S1A, fabricada entre 1962 e 1968. Absolutamente mecânica, haveria que usar um
fotómetro de mão ou um adicional à câmara para calcular a exposição. E esperar
não ter errado no calculo.
Da sua história pouco sei. Foi
comprada no meu mecânico de fotografia, e depois de muita insistência. O único
detalhe que consegui obter é o ter estado ali há muitos anos, na sequência da
desistência de um cliente.
Quando pego nela para lhe tirar
o pó ou para lhe apreciar algum detalhe, tento imaginar o seu passado.
Provavelmente nas mãos de um amador entusiasta, guardada no estojo de coiro de
origem, que entretanto se estragou, e usada para férias ou festas especiais.
Hoje tem marcas do tempo. Marcas
que não tentarei disfarçar e que tentarei não aumentar. Porque se não consigo
ver o que esteve à frente dela, essas marcas de algum modo contam sobre que
esteve atrás dela.
Quem quer que tenha sido,
obrigado por a ter conservado.
Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
Uma destas noites dou-me mal! A sério que me dou.
Preparava-me eu para ir conversar com Morfeu, já não tão
cedo quanto isso considerando a hora a que acabaria essa conversa, e batem-me à
porta. Sendo que ainda estava em trajes decentes, fui saber quem seria.
Tratava-se uma senhora minha vizinha, aliás, recém vizinha,
que me perguntou se teria uma chave com que pudesse abrir a porta dela.
Imagine-se o meu olhar de espanto. Ter eu uma chave que
abrisse a porta dela. Talvez que, noutras circunstâncias e com mais
aprofundados conhecimentos, isso fosse possível e até agradável. Mas sendo que
a conhecia apenas de vista e que nunca trocáramos mais que uns circunstanciais
cumprimentos, seria difícil de acontecer.
Lá lhe expliquei que não, que não tinha, ao que me contou
que tinha deixado a chave em casa e a porta se fechara.
“E está no trinco?” Estava! “Então espere um pouco que lhe
vou mostrar um truque.”
Voltei a casa e regressei com uma garrafa de litro e meio de
coca-cola, vazia. Já no patamar e usando do meu canivete, retalhei-a da forma
que se vê, ficando com uma tira de pouco mais de 25cm de plástico. Com ela, e
através da frincha, lá lhe abri a porta. Levei um pouco mais tempo do que
esperava: no lugar de dez, precisei de quase trinta segundo, que não encontrava
a malfadada lingueta a empurrar.
O seu olhar, inicialmente molhado, secou rapidamente e de
espanto passou a agradecimento.
E, antes que recuperasse o fôlego, expliquei-lhe a rir, que
aquele não era o meu ofício, que não andava a assaltar casas.
“Eu também não!” exclamou também já rir, exibindo um arame
retorcido com que tinha tentado fazer como nos filmes, no buraco da fechadura.
Rimos mais um pouco, trocámos nomes e um aperto de mão e
regressámos a casa, cada um à sua entenda-se. E se ela foi fazer o quer que
tenha sido que costuma fazer em sua casa, eu fui directo para a cama, que o
toque de alvorada é particularmente cedo por estes dias.
Mas já deitado, e enquanto esperava pela chegada da
inconsciência do sono, fiquei a pensar no episódio.
É que, aqui neste prédio e que me recorde, é terceira vez
que assim ajudo um vizinho. E se a coisa se sabe pode ser perigoso. Ou bem que
sou contactado pela polícia, depois de uma casa assaltada com este método, ou
sou acordado a altas horas da madrugada por alguém do prédio em apuros.
Ou, pior ainda, ser processado pela Coca-Cola por estar a
usar as suas garrafas para arrombar portas.
Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5
By me
Supostamente, o jornalista verá as cores do globo em preto e
branco.
Sem se deixar influenciar nem pelo colorido partidário, nem
pelos tons vivos das explosões ou os pálidos cadavéricos.
Em preto e branco para que todas as cores sejam tratadas
pelo que são, sem simpatias ou empatias pessoais.
Supostamente…
Nikon Coolpix P7000
By me
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
O que tem esta imagem de
particular? Nada, de facto, a não ser que uma foi feita com os últimos raios de
sol de um dia e a outra com os primeiros raios de sol do dia seguinte.
Entre uma e outra, a noite mais
curta do ano.
Detalhes pouco importantes a
menos que se pense, como eu, que os solstícios e os equinócios são datas
importantes. Tão importantes que os antigos, os muito, muito antigos, aqueles
que nem sabiam escrever, os celebravam. A tal ponto que se deram ao trabalho de
juntar esforços enormes para arrastar e erguer enormes penedos para com eles
assinalar as datas.
Do meu ponto de vista, os
solstícios e os equinócios deveriam ser feriados mundiais. Já que, aconteça o
que acontecer, faça o bicho homem o que fizer, continuarão a acontecer muito
para além da existência da espécie humana. E acontece desde antes da espécie
humana não passar de uma amiba.
A importância que nos atribuímos
reduz-se a coisa nenhuma perante o universo e a sua enormidade.
Bom solstício para todos vós.
Pentax K100D