O resto são mentiras, crenças e hipocrisias.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Quem se interessa por fotografar não pode deixar de parte o
aquilatar da luz. Quer seja com os sistemas inclusos na câmara, quer seja com
fotómetros externos.
Eu gosto desses aparelhos, nas suas diversa valências, e
uso-os, em casos de dúvidas, para ter algumas certezas no que faço. E gosto de
os ir colecionando, numa coleção que é forçosamente diminuta pelos preços e
pelo que há no mercado. Principalmente os mais antigos, alguns dos quais, por força
do seu sistemas de medição de luz, já não funcionam.
Um destes dias apareceu à venda um aparelho que cobiçava
para completar uma série de uma dada marca. E o preço era muito convidativo.
Combinado o encontro, quem o vendia confundiu-se e tinha
consigo um completamente diferente. Na marca, na forma de funcionar, na forma
de manuseio, no tamanho... meio em jeito de compensação por eu não levar o que
queria, ofereceu-me este.
Fiquei a ganhar e nem quem vendia sabe quanto.
Se, por um lado, aquele que quero aparecerá cedo ou tarde, este
é peça mais que incomum, ainda que não rara.
Podendo funcionar como todos os outros, na mão, tem um
encaixe que permite ser colocado na sapata dita de flash, libertando a mão mas
estando sempre disponível.
O sistema nem é novo, bem pelo contrário: se era usado na
época em que os fotómetros tinham a célula sensível à luz em selénio e não
usavam pilha, alguns hoje, com o revivalismo das câmaras de película, já são
digitais com o mesmo sistema de suporte e vendem-se em lojas on-line.
Este pertence a um periodo intermédio (anos 1970), já com
célula em silício (necessita de pilha) e com um sistema de medição equivalente
ao das câmaras da época com fotómetro incorporado. Não terão existido muitos
fabricantes a apostarem neste sistema, que foi rapidamente ultrapassado pelo
usado nas câmaras reflex como as conhecemos, antes do advento do digital.
É assim que por vezes, “sem saber ler escrever” se encontram
peças que marcaram a história da fotografia, mesmo que brevemente.
E uma das vantagens de as ir colecionando, ou juntando, é o
irmos investigando o possível sobre o que adquirimos. E admirarmos a
engenhosidade dos fabricantes e o complexo que era fazer as fotografias que
hoje admiramos.
Mesmo que seja por uma pecinha do tamanho de meio maço de
cigarros. E de borla.
Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4
By me
Tenho sempre esta dúvida sobre comportamentos ao entrar num
sanitário público:
Perante tantos urinóis vazios (ou cabines individuais
vazias) quais as que são preferidas pelos necessitados?
Alguma escolha será feita, algum desses equipamentos será
mais usado: Pela proximidade da entrada, face à urgência sentida? O mais
central, numa atitude de indiferença? O mais distante, em busca de privacidade?
Não será muito adequado o colocar câmaras ou sensores nestes
locais para efectuar estatísticas. Mas acredito que os gestores ou manutentes
destes espaços terão alguma opinião formada, quanto mais não seja pela
degradação dos equipamentos ou pela sujidade acumulada ao fim do dia. Já quanto
às motivações… só um inquérito junto dos aliviados poderá levar a alguma
conclusão válida.
Alguém quer opinar?
Telemovel
By me
Na minha câmara, caixa, artefacto, o que lhe queiram chamar,
tinha um mostruário.
Não é particularmente grande – três fotografias de cada lado
– e faz muito que não o mudo. Tenho andado com vontade e de o fazer, mas a
preguiça tem-se imposto e lá vai ficando. Ainda bem!
Uma das fotografias é de uma senhora e de sua filha.
Romenas, a mãe não tem ofício certo que não seja andar a pedir, ao que me
parece.
Uma ocasião um garoto, igualmente romeno e que as conhece,
orgulhoso da sua recente aquisição – uma bicicleta – viu-me e veio
cumprimentar-me. Tão orgulhoso estava que insistiu em ser de novo fotografado –
tinha-o sido uns meses antes – mas desta feita aconteceu montado no corcel.
Enquanto a imagem se processava, sempre me foi dizendo que
aquela senhora tinha estado ausente para a sua terra natal mas que regressaria
na semana seguinte.
Umas semanas depois constatei que ela tinha regressado!
Sou abordado por dois homens, com uma terrível dificuldade
em se exprimirem em português. Mas ao verem a fotografia da senhora, todas as
barreiras linguísticas se derrubaram. Um deles soube dizer-me que a criança era
linda, conhecendo-a pelo nome. E que era linda, e que era linda, e tão linda ao
ponto de beijar a fotografia ali pendurada.
O seu companheiro lá se fez entender e comunicou-me que era
a filha que ali estava fotografada.
Claro que quiseram ser fotografados e se a fotografia não
fosse gratuita passaria a sê-lo.
Poder unir, ainda que com corantes jorrados num papel, uma
família nómada e de parquíssimas posses, é pagamento que baste. E se a tarde
rendeu pouco em quantidade, sobrou em qualidade!
By me
Suficientemente ébrio para ser o motivo de chacota da
garotada; suficientemente sóbrio para sentir curiosidade.
Suficientemente grosso para ter a língua entaramelada;
suficientemente lúcido para perguntar, com timidez, se também podia.
Suficientemente bêbado para mal se aguentar direito;
suficientemente arejado para guardar com mil cautelas a fotografia no seu saco
maltrapilho.
Suficientemente toldado para me confidenciar alguns dos
detalhes miseráveis da sua vida profissional; suficientemente ser humano para
querer que se escrevesse por trás da foto o meu nome, a data e o local para
mais tarde recordar.
Suficientemente gente para, ao afastar-se, agradecer com um
aperto de mão e pedir desculpa de não estar nos seus melhores dias.
Suficientemente bom para, ao ir para onde quer que fosse
naquele fim de dia, ainda olhar para trás com um sorriso para a garotada que
dele chacoteava.
Quem? Não sou suficientemente despudorado para aqui e assim
o exibir!
By me
A crise está de tal modo que tudo nos roubam, tiram,
subtraem. Legal ou ilegalmente.
Hoje sonegam-nos tempo, ao retirarem-nos uma hora de sono.
Nikon Coolpix P7000
By me
Tem vinte anos esta fotografia. E recordo com muito rigor as
circunstâncias em que foi feita.
É que não sou pessoa de fotografar quem pede, quem dorme nem
se sabe onde, quem passa fome. Não procuro colecionar troféus com a desgraça
alheia.
Mas este caso... estava sentada no chão, com um copo como
receptáculo de eventuais esmolas. Até aqui, infelizmente, o habitual. O que
nada tinha de normal era o local onde se encontrava: numa transversal de uma
avenida muito “bem” de Lisboa, numa zona de prédios vetustos e condenados para
breve e onde os transeuntes mais que rareavam. E rareiam, segundo imagino.
Saltou-me à vista o seu total isolamento, de tudo e todos, o
seu olhar perdido num ponto para além do horizonte bloqueado por prédios.
Contribuí. Uma espécie de obrigação, um dizer “hoje ainda
recolhes alguma coisa”. E tentei
entabular conversa. Inconsequentemente. Que não partilhávamos língua nem
vontade de conversar.
Foi por gestos que lhe pedi por uma fotografia, feita com
uma câmara de bolso que tinha comigo. Anuíu com aquele olhar de “tanto me faz”.
Nem sequer me pediu por uma moeda adicional pelo acto fotográfico.
Não tenho orgulho neste registo. Mas faz parte do meu
arquivo e guardo-as todas, pois fazem parte do meu próprio percurso.
Samsung S1060
By me
Este é o protagonista da história. Um quase vítima, salvo
devido a boas vontades já raras e alguns sacrifícios.
Mas eu conto do princípio.
Em sendo fim de semana, o meu desembarque ferroviário em Lisboa,
a caminho do trabalho, era na estação de Benfica. Dava-me mais jeito.
A mim e a muitos outros, que aqui fazem transbordo para
autocarros com diversos destinos, próximos ou distantes.
Sendo que nunca gostei de correr de ou para o trabalho,
costumo deixar os mais apressados tomar a dianteira. Acendo um cigarro e vou
olhando em redor, umas vezes vendo coisa nenhuma, outras remoendo em ideias
crescidas no comboio, outras ainda em busca de algo que justifique a câmara que
trago no bolso. Naquele dia não foi excepção.
Mas notei que a composição demorava a partir. Coisa pouca,
mas o suficiente para me alertar.
Eis que, de uma das portas abertas (estavam quase todas) saiu
o revisor. Afastou-se do comboio enquanto que, com o olhar, varreu a plataforma
já quase deserta. Em passos rápidos dirigiu-se à rampa de saída, debruçou-se
sobre o parapeito e chamou. Não sei o que disse, que não estava eu perto o
suficiente par ouvir, mas fez um chamamento. Que foi ouvido.
Uma mocinha, de vintes e poucos, arrepiou caminho, entrou
numa carruagem e saiu de seguida. Na mão trazia um saco de plástico cheio.
O revisor olhou de novo para a plataforma, primeiro um lado,
depois o outro. Neste, o seu olhar cruzou-se com o meu. Um sorriso e um aceno
de cabeça meus, de agradecimento p’la atitude, um sorriso igualmente breve, com
um encolher de ombros da parte dele. E embarcou, fazendo sinal ao maquinista
para seguir. Que fez soar o apito, fechou as portas e reiniciou a marcha.
Todo este compasso de espera terá demorado, no máximo dos
máximos, 90 segundos. O suficiente, talvez, para que algum passageiro a bordo
bufasse de impaciência. No entanto não creio que tenha estragado em demasia a
“tabela” a cumprir.
Desci as escadas, agora já sem gente apressada, e dirigi-me
para a paragem onde haveria de tomar o autocarro. Sem grande surpresa,
constatei que na fila estava a mocinha meio-esquecida. Que embarcou à minha
frente e se sentou onde encontrou lugar. Aqui!
Não poderia eu meter conversa para um registo fotográfico
mais explícito. Nem o lugar nem as circunstâncias o permitiriam.
Restou-me o fotografar à sorrelfa o saco, o bendito saco que
quase seguia para destino desconhecido, não fora a boa vontade de um revisor da
CP.
Andamos todos preocupados com o presente e apreensivos sobre
o futuro. Alguns há, felizmente, que tratam de pintar com cores um pouco mais
alegres e fruto dos seus bons actos o negrume que vemos.
Bem hajam!
Nikon Coolpix P7000
By me
A primeira vez que fui escalado para uma transmissão de uma
tourada foi um drama.
Foi um drama para mim, que já então abominava essa prática e
não queria contribuir para a sua divulgação; foi um drama no trabalho, que não
aceitaram o meu pedido de mudança de tarefa por objeção de consciência; foi um
drama em casa que me alertaram para a possibilidade de ser despedido se não
comparecesse... foi um drama.
Acabei por ir e criar reboliço.
Quando a minha câmara estava no ar no momento em que o ferro
era cravado, no lugar de acompanhar o vitorioso cavaleiro ou matador,
acompanhava o toiro, apertando o plano até ficar apenas com a cabeça, os
quartos dianteiros e, bem em evidência, o local onde ficara a bandarilha
espetada. E, se o toiro me desse o seu melhor perfil, o brilho vermelho do
sangue a escorrer.
O gritos do realizador eram portentosos, com insultos pelo
caminho, mas não me desviei do meu objectivo. E repeti a proeza nas lides
seguintes.
Em acabada a transmissão ouvi das boas, com ameaças dos
quintos dos infernos, mas eu estava na minha, argumentando que se o objectivo
era cravar a bandarilha, era isso que mostrava, por muito que isso incomodasse
o público. E esse era o meu objectivo secreto: que o público se incomodasse e deixasse
de ver aquilo.
Fiz mais duas ou três transmissões esse verão e nunca mais
me escalaram para esses trabalhos. Fiquei uns tempos de castigo não formal, mas
ganhei a guerra: comigo não contavam para essa barbárie.
Agora, passados que são uns decénios valentes, estou num dilema
equivalente. Termina dentro de dias uma exposição fotográfica em Lisboa em que
o tema são corridas de toiros.
Não duvido da qualidade do exposto. Se bem conheço o
galerista, posso apostar que as fotografias são muito boas, mesmo sem as ter
visto.
Mas não me apetece contribuir com a minha presença para o
sucesso de uma exposição sobre esse tema.
Sei que estas minhas posições são polémicas e conduzem a
conversas ou discussões sem fim e sem vencedores ou vencidos. E tenho-as tido
ao longo da vida sobre diversos assuntos, desde produtos alimentares a
actividades político-partidárias, passando por certames fotográficos e apertos
de mão a figuras gradas da nossa sociedade.
Mas também sei que ninguém irá escrever na minha lápide
fúnebre “Aqui jaz um tipo de bom feitio”.
Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5
By me