segunda-feira, 30 de março de 2026

Recortes do “Old fashion”




Na minha câmara, caixa, artefacto, o que lhe queiram chamar, tinha um mostruário.

Não é particularmente grande – três fotografias de cada lado – e faz muito que não o mudo. Tenho andado com vontade e de o fazer, mas a preguiça tem-se imposto e lá vai ficando. Ainda bem!

Uma das fotografias é de uma senhora e de sua filha. Romenas, a mãe não tem ofício certo que não seja andar a pedir, ao que me parece.

Uma ocasião um garoto, igualmente romeno e que as conhece, orgulhoso da sua recente aquisição – uma bicicleta – viu-me e veio cumprimentar-me. Tão orgulhoso estava que insistiu em ser de novo fotografado – tinha-o sido uns meses antes – mas desta feita aconteceu montado no corcel.

Enquanto a imagem se processava, sempre me foi dizendo que aquela senhora tinha estado ausente para a sua terra natal mas que regressaria na semana seguinte.

Umas semanas depois constatei que ela tinha regressado!

Sou abordado por dois homens, com uma terrível dificuldade em se exprimirem em português. Mas ao verem a fotografia da senhora, todas as barreiras linguísticas se derrubaram. Um deles soube dizer-me que a criança era linda, conhecendo-a pelo nome. E que era linda, e que era linda, e tão linda ao ponto de beijar a fotografia ali pendurada.

O seu companheiro lá se fez entender e comunicou-me que era a filha que ali estava fotografada.

Claro que quiseram ser fotografados e se a fotografia não fosse gratuita passaria a sê-lo.

Poder unir, ainda que com corantes jorrados num papel, uma família nómada e de parquíssimas posses, é pagamento que baste. E se a tarde rendeu pouco em quantidade, sobrou em qualidade!


By me

sábado, 28 de março de 2026

Recortes do “Old fasion”




Suficientemente ébrio para ser o motivo de chacota da garotada; suficientemente sóbrio para sentir curiosidade.

Suficientemente grosso para ter a língua entaramelada; suficientemente lúcido para perguntar, com timidez, se também podia.

Suficientemente bêbado para mal se aguentar direito; suficientemente arejado para guardar com mil cautelas a fotografia no seu saco maltrapilho.

Suficientemente toldado para me confidenciar alguns dos detalhes miseráveis da sua vida profissional; suficientemente ser humano para querer que se escrevesse por trás da foto o meu nome, a data e o local para mais tarde recordar.

Suficientemente gente para, ao afastar-se, agradecer com um aperto de mão e pedir desculpa de não estar nos seus melhores dias.

Suficientemente bom para, ao ir para onde quer que fosse naquele fim de dia, ainda olhar para trás com um sorriso para a garotada que dele chacoteava.

 

Quem? Não sou suficientemente despudorado para aqui e assim o exibir!

 

By me


Rapinagem


 


A crise está de tal modo que tudo nos roubam, tiram, subtraem. Legal ou ilegalmente.

Hoje sonegam-nos tempo, ao retirarem-nos uma hora de sono.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

Um retrato – e nunca saberei o seu nome

 


Tem vinte anos esta fotografia. E recordo com muito rigor as circunstâncias em que foi feita.

É que não sou pessoa de fotografar quem pede, quem dorme nem se sabe onde, quem passa fome. Não procuro colecionar troféus com a desgraça alheia.

Mas este caso... estava sentada no chão, com um copo como receptáculo de eventuais esmolas. Até aqui, infelizmente, o habitual. O que nada tinha de normal era o local onde se encontrava: numa transversal de uma avenida muito “bem” de Lisboa, numa zona de prédios vetustos e condenados para breve e onde os transeuntes mais que rareavam. E rareiam, segundo imagino.

Saltou-me à vista o seu total isolamento, de tudo e todos, o seu olhar perdido num ponto para além do horizonte bloqueado por prédios.

Contribuí. Uma espécie de obrigação, um dizer “hoje ainda recolhes alguma coisa”.  E tentei entabular conversa. Inconsequentemente. Que não partilhávamos língua nem vontade de conversar.

Foi por gestos que lhe pedi por uma fotografia, feita com uma câmara de bolso que tinha comigo. Anuíu com aquele olhar de “tanto me faz”. Nem sequer me pediu por uma moeda adicional pelo acto fotográfico.

Não tenho orgulho neste registo. Mas faz parte do meu arquivo e guardo-as todas, pois fazem parte do meu próprio percurso.

 

Samsung S1060


By me

sexta-feira, 27 de março de 2026

O protagonista




Este é o protagonista da história. Um quase vítima, salvo devido a boas vontades já raras e alguns sacrifícios.

Mas eu conto do princípio.

Em sendo fim de semana, o meu desembarque ferroviário em Lisboa, a caminho do trabalho, era na estação de Benfica. Dava-me mais jeito.

A mim e a muitos outros, que aqui fazem transbordo para autocarros com diversos destinos, próximos ou distantes.

Sendo que nunca gostei de correr de ou para o trabalho, costumo deixar os mais apressados tomar a dianteira. Acendo um cigarro e vou olhando em redor, umas vezes vendo coisa nenhuma, outras remoendo em ideias crescidas no comboio, outras ainda em busca de algo que justifique a câmara que trago no bolso. Naquele dia não foi excepção.

Mas notei que a composição demorava a partir. Coisa pouca, mas o suficiente para me alertar.

Eis que, de uma das portas abertas (estavam quase todas) saiu o revisor. Afastou-se do comboio enquanto que, com o olhar, varreu a plataforma já quase deserta. Em passos rápidos dirigiu-se à rampa de saída, debruçou-se sobre o parapeito e chamou. Não sei o que disse, que não estava eu perto o suficiente par ouvir, mas fez um chamamento. Que foi ouvido.

Uma mocinha, de vintes e poucos, arrepiou caminho, entrou numa carruagem e saiu de seguida. Na mão trazia um saco de plástico cheio.

O revisor olhou de novo para a plataforma, primeiro um lado, depois o outro. Neste, o seu olhar cruzou-se com o meu. Um sorriso e um aceno de cabeça meus, de agradecimento p’la atitude, um sorriso igualmente breve, com um encolher de ombros da parte dele. E embarcou, fazendo sinal ao maquinista para seguir. Que fez soar o apito, fechou as portas e reiniciou a marcha.

Todo este compasso de espera terá demorado, no máximo dos máximos, 90 segundos. O suficiente, talvez, para que algum passageiro a bordo bufasse de impaciência. No entanto não creio que tenha estragado em demasia a “tabela” a cumprir.

Desci as escadas, agora já sem gente apressada, e dirigi-me para a paragem onde haveria de tomar o autocarro. Sem grande surpresa, constatei que na fila estava a mocinha meio-esquecida. Que embarcou à minha frente e se sentou onde encontrou lugar. Aqui!

Não poderia eu meter conversa para um registo fotográfico mais explícito. Nem o lugar nem as circunstâncias o permitiriam.

Restou-me o fotografar à sorrelfa o saco, o bendito saco que quase seguia para destino desconhecido, não fora a boa vontade de um revisor da CP.

 

Andamos todos preocupados com o presente e apreensivos sobre o futuro. Alguns há, felizmente, que tratam de pintar com cores um pouco mais alegres e fruto dos seus bons actos o negrume que vemos.

Bem hajam!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

quinta-feira, 26 de março de 2026

Atitudes




A primeira vez que fui escalado para uma transmissão de uma tourada foi um drama.

Foi um drama para mim, que já então abominava essa prática e não queria contribuir para a sua divulgação; foi um drama no trabalho, que não aceitaram o meu pedido de mudança de tarefa por objeção de consciência; foi um drama em casa que me alertaram para a possibilidade de ser despedido se não comparecesse... foi um drama.

Acabei por ir e criar reboliço.

Quando a minha câmara estava no ar no momento em que o ferro era cravado, no lugar de acompanhar o vitorioso cavaleiro ou matador, acompanhava o toiro, apertando o plano até ficar apenas com a cabeça, os quartos dianteiros e, bem em evidência, o local onde ficara a bandarilha espetada. E, se o toiro me desse o seu melhor perfil, o brilho vermelho do sangue a escorrer.

O gritos do realizador eram portentosos, com insultos pelo caminho, mas não me desviei do meu objectivo. E repeti a proeza nas lides seguintes.

Em acabada a transmissão ouvi das boas, com ameaças dos quintos dos infernos, mas eu estava na minha, argumentando que se o objectivo era cravar a bandarilha, era isso que mostrava, por muito que isso incomodasse o público. E esse era o meu objectivo secreto: que o público se incomodasse e deixasse de ver aquilo.

Fiz mais duas ou três transmissões esse verão e nunca mais me escalaram para esses trabalhos. Fiquei uns tempos de castigo não formal, mas ganhei a guerra: comigo não contavam para essa barbárie.

Agora, passados que são uns decénios valentes, estou num dilema equivalente. Termina dentro de dias uma exposição fotográfica em Lisboa em que o tema são corridas de toiros.

Não duvido da qualidade do exposto. Se bem conheço o galerista, posso apostar que as fotografias são muito boas, mesmo sem as ter visto.

Mas não me apetece contribuir com a minha presença para o sucesso de uma exposição sobre esse tema.

Sei que estas minhas posições são polémicas e conduzem a conversas ou discussões sem fim e sem vencedores ou vencidos. E tenho-as tido ao longo da vida sobre diversos assuntos, desde produtos alimentares a actividades político-partidárias, passando por certames fotográficos e apertos de mão a figuras gradas da nossa sociedade.

Mas também sei que ninguém irá escrever na minha lápide fúnebre “Aqui jaz um tipo de bom feitio”.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


By me

quarta-feira, 25 de março de 2026

Le nu




Termos que nos deslocar a pé na cidade tem destas coisas: ser surpreendido com mercados de rua onde podemos encontrar pequenos tesoiros. Foi o caso.

Este livro, usado, custou-me cinco euros. Quase o preços da chuva, convenhamos. Mas o seu valor é muito superior, se considerarmos outros factores que não os de capa.

Para além de fazer parte de uma série de livros que existe desde há 40 anos, ao que sei, que são razoavelmente bem impressos para o preço, no seu conjunto abordam todas as vertentes da fotografia. Monografias por autor ou temáticas.

Claro está que um livro temático depende, no seu conteúdo, das opções do editor. Que pode não deixar de ser tendencioso e terá, certamente, preferências. Este exemplar é um exemplo oposto num aspecto.

Ao contrário da esmagadora maioria das obras sobre o nu fotográfico, este não se atém ao nu feminino. Contendo fotografias desde 1855 até 1984, talvez que 20% delas são masculinas, o que é particularmente raro.

Começa, desde logo, por geralmente se fazerem muito menos fotografias de nu de homens que de mulheres. Suponho que haverá algum receio por parte dos homens fotógrafos de serem chamados de “bichas” se o fizerem.

Depois porque, e isto aplica-se na pintura também, a maioria dos consumidores de fotografia (em livro, em revistas ou individuais) serem homens. Quer os que compram avulso, quer os que encomendam aos autores para comprar. E, não nos enganemos, a grande maioria dos consumidores de fotografia, bem assim como os produtores, fazem-no como substituto daquilo que não podem possuir. Seja um pôr-do-sol, seja um castelo, seja um automóvel, seja um ser humano. Um acto de cobiça, se quiserem ir longe nos conceitos. Sendo a maioria dos consumidores e produtores de fotografia homens, faz algum sentido que cobicem mulheres. Na posse ou na produção de fotografias, as mais das vezes, o sentido estético pesa objectivamente. Mas a posse do fotografado pesa subjectivamente, sem que disso nos apercebamos.

Como se tudo isso não bastasse, existe um conceito bacoco em que o belo no corpo humano apenas acontece no feminino. Só as mulheres são belas, só os corpos das mulheres podem acordar a líbido, só os corpos das mulheres podem evocar sentimentos. Conceito bacoco e machista! Sugiro que perguntem às mulheres se assim acontece.

É assim, pelo acima dito sumariamente e por tudo o que não é dito que longo seria, que um livro que aborde a fotografia do nu e inclua fotografias de nus masculinos se torna numa peça rara de encontrar. Numa livraria, numa feira de rua ou numa biblioteca. Excepção feita à minha, onde constam alguns.

Acrescento que imagem da capa que mostro está assumidamente censurada por mim para evitar que os puritanos (humanos ou algoritmos) das redes sociais a bloqueiem tão rápido a encontrem ou seja denunciada.

 

Pentax K1 mk2, Tamron SP 90 1:2,5

 

By me


Reunião magna

Acho que todos conhecemos a expressão “o idiota da aldeia”.

É que todas as aldeias têm um, seja qual for o tamanho da aldeia. Mais cómico ou mais trágico ou mais violento. Mas, no fundo, são todos e cada um mais ou menos inofensivos.

A questão complica-se porque há muitas aldeias. E todas enviam o seu representante idiota a uma reunião magna. E nesta se toma o poder sobre todas as aldeias.

Temos tido diversos exemplos ao longo do tempo e do espaço. Alguns tão próximos que são o presente. E com isso somos geridos num congresso de idiotas em que o líder foi escolhido por ser o mais idiota de todos.

 

By me

segunda-feira, 23 de março de 2026

Histórias velhas




À época não havia onde aprender o ofício. Aliás, só uma empresa tinha profissionais na área, já que era a única em Portugal que tinha aquele tipo de ramo: televisão.

Dos que passaram nas provas de admissão alguns de nós fomos admitidos ao curso de formação que nos daria as bases. Três meses de teóricas e dois meses de práticas. Na primeira parte seis horas por dia com diversos formadores em sala de aula, sem autorização de acedermos às áreas técnicas.

No primeiro dia de prática fomos recebidos no estúdio por três consagrados operadores de câmara. Daqueles cujo nome era de encher a boca.

Depois das apresentações, convidaram-nos a por em prática algo que haviamos aprendido das teóricas: executar um traveling. Por outras palavras, movimentar uma câmara para a frente ou para trás ou para os lados sempre com imagem útil.

Os que encheram o peito e foram mostrar as suas habilidades ou capacidades, ficaram todos de orelha murcha, já que nenhum foi capaz de o fazer, mesmo sob o sorriso irónico desafiante dos formadores.

Após o fiasco, um deles agarrou-se ao tripé e à câmara e quase que dançou uma valsa com ela, com uma suavidade e perfeição impressionantes.

Acabada a demonstração disseram-nos que no final do curso saberiamos fazer aquilo assim (ou lá perto) e que o truque ou técnica não estava (e não está) na força mas no jeito de o fazer. E isso aprende-se. Aprendemos.

Anos mais tarde sorria eu ao ver recém chegados, vindos de escolas profissionais ou mesmo já com experiência, a não serem capazes de fazer aqueles movimentos de câmara com suavidade, agarrando-se com força aos pedestais, coisa muito mais fácil de manobrar que um tripé.

Explicava-lhes então eu que aquilo se faz com quatro dedos: dois para o pedestal e dois para o punho da câmara. E que é fácil, muito fácil. E demonstrava.

Dava-me um prazer imenso ver como os seus olhos se abriam de espanto (mesmo os de alguns já com experiência) ao perceberem que afinal aquilo é quase manteiga, desde que se saibam os truques ou técnicas.

Terminava eu com a explicação dos motivos da física e da dinâmica que justificam essa facilidade. E essa é a “pedra de toque”. Perceber o porquê das coisas funcionarem. Permite bem fazer aquilo que se sabe fazer e aplicar esse conhecimento a situações novas ou diferentes, facilitando e melhorando a sua execução.

Os que não se preocupam em saber o que está para além do botão ou do manípulo nunca serão algo mais que repetidores ad nauseam das mesmas tarefas, incapazes de criar ou improvisar. A menos que se seja um génio, coisa rara de encontrar.

Isto é válido para imagem, culinária ou astronautica.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

domingo, 22 de março de 2026

Amor/ódio




Há tarefas com as quais tenho uma relação amor/ódio em que o ódio prevalece. Um bom exemplo é o emparelhar meias.

Com o passar dos anos acabei por encontrar uma solução que me evita ter que o fazer: desfiz-me das meias que tinha, novas ou velhas, e comprei vários pares de meias iguais. Todas iguais no tecido, na cor, no padrão. Assim, quando as tiro do varal onde secaram depois de lavadas, vão a monte para a gaveta. E quando vou por meias lavadas basta-me meter a mão e tirar duas. Sei que serão iguais.

Mas há outras tarefas que não podem assim ser tratadas. Implicam tempo disponível, disposição para as executar e tranquilidade no fazer. Um bom exemplo é o limpar o sensor de uma câmara digital.

Sabemos que o sensor é uma parte delicada da câmara e que qualquer poeira se nota na imagem final. E que qualquer risco no sensor é o seu fim. Por saber da delicadeza da tarefa, de que não gosto pela dose risco que implica, faço-a apenas em último recurso e quando me sinto suficientemente tranquilo para tal. Foi o caso.

Sentado à mesa de trabalho do “estúdio”, o local tão imaculamente limpo quanto o possível, deito mãos à obra. Cavidade da câmara limpa antes de expor o sensor, espátula de limpeza retirada do invólucro estéril e devidamente humedecida, faço a primeira passagem. A meio da segunda passagem, em sentido inverso, aconteceu o mais improvável: fiquei sem energia elétrica.

Não que processo implique eletricidade. De preferência até não, para evitar estáticas. Mas convém que eu veja o que estou a fazer, principalmente quando estou a intervir no sensor. E ficar às escuras com a espátula nele encostada será algo de todo não recomendável.

Consegui retirar a espátula da cavidade sem com ela tocar o que quer que fosse e desliguei a câmara. Às escuras fui em busca de uma luz alternativa e tratei de aguardar tranquilamente pelo regresso da energia. O que não demorou mais de meia hora.

Mas, ali mesmo quase às escuras, fiz uma jura solene: de agora em diante ou faço esta limpeza de dia, perto de uma janela, ou faço-a à luz de baterias devidamente carregadas. Sempre evito o susto, o risco e o soltar uns valentes palavrões.

Nota adicional: o sensor ficou incólume.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me