Tal como a maquinaria, também o corpo humano se vai
gastando. E, de quando em vez, vá de ir fazendo testes: para confirmar aquilo
que já se sabe ou para descobrir novas maleitas. Hoje foi dia disso.
Ao entregar a papelada perguntei quando estariam prontos, ao
que me disseram que enviariam os resultados por correio eletrónico. Mas que se
os quisesse impressos, que estariam disponíveis no dia 3.
“No dia 3?! Mas é dia de greve geral!”
“Pois é, mas eu venho de carro e não uso o comboio.”
“Mas o problema não é os comboios estarem parados. A questão
mesmo é vocês virem trabalhar nesse dia.”
“Ah, bem, sabe como é...”
“Sei, ou acho que sei. Eu não faço greve porque já não estou
no activo. Mas farei questão de nada fazer que dependa do trabalho de alguém
que nesse dia não está de greve. Mas ao não fazerem greve, mesmo que estejam a não
se incompatibilizarem com quem vos emprega, estão a não acautelar o vosso
futuro. Em muitos aspectos importantes. Até no assegurarem o vosso posto de
trabalho actual. Informem-se e actuem! Virei na quinta-feira, dia 4!”
Calei-me para mudar de posição. Que a minha anca esquerda
estava a dar sinal de si. E olhei em redor.
Além de quem me atendia, mais três funcionárias atendiam
gente a querer tratar da sua saúde. E em frente delas, várias pessoas a serem
atendidas.
Mas todas elas, com ou sem farda imaculada, estavam paradas
e a olhar para mim, o tipo das barbas que assim falava, num tom em crescendo.
Quando viram o meu varrer de olhar, fizeram de conta que estavam muito ocupadas
e o silêncio que se tinha feito, apenas cortado pela minha voz, desfez-se como
que por magia.
Com um pouco de sorte, uma ou mais daquelas pessoas se
recordarão no momento certo daquele cota barbudo que, já pouco podendo fazer
pelo seu próprio futuro, não desiste de lutar pelos futuros alheios. Com
palavras e com actos.
Lumix DCM – DZ 60
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