sexta-feira, 10 de julho de 2026

Velharias




Do ponto A ao ponto B na minha cidade natal, usando uma objectiva de 1967.

Praça de toiros do Campo Pequeno, ao cair da noite.

 

Pentax K7, Pentax Super Takumar 85 1:1,9


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Desvios




Quando, no decurso de uma viagem, encontramos indicação de desvio que nos força a tal, interpretamo-la como um incidente de percurso e continuamos, presumindo que se trata de algo inevitável mas temporário.

Mas se, na continuação dessa mesma viagem, constatamos que as placas de desvio se sucedem, erráticas e sem nexo aparente, começamos a colocar questões.

Será que embarquei na viagem certa?

Será que estou no veículo certo?

Será que chegarei a bom porto?

Será que chegarei a algum porto?

Será melhor sair nalguma escala?

Será que haverá alguma escala?

Adianta continuar numa viagem repleta de desvios e sem que saibamos que rumo temos ou mesmo se haverá rumo?

Por vezes, em viagens atribuladas e quase sem sentido, faz sentido arrear as velas, largar ancora, tomar a altura do sol, consultar o quadrante e pensar seriamente na jornada feita e naquilo que, eventualmente, teremos ainda p’la frente.

 

Nikon Coolpix P7000


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quinta-feira, 9 de julho de 2026

A bota da treta




Rígida, não caminha nem nunca caminhou. Mais ainda, apesar de amachucada, nunca foi calçada. E isto porque o seu interior, no lugar de vazio e pronto a receber um pé, é maciço, feito de loiça.

Como aliás toda ela.

Explicado num português com forte sotaque francófono, o seu vendedor da mesma cor da bota sempre me explicou que serviria, se o quiséssemos, como cinzeiro. E, como que para mo demonstrar, lá me mostrou a ranhura no calcanhar para segurar um cigarro a arder.

E, ao fim de tanto tempo com um olhar desperto para sapatos (botas, chinelos, pantufas e afins) abandonados na rua, não pude deixar de reparar que esta bota estava sozinha na banca de uma “feira” de ocasião, numa estação de caminho de ferro.

Não resisti e, não a podendo fotografar ali mesmo, comprei-a. Esta poderia não ter o par, mas não ficaria ali abandonada, no meio de tanta outra quinquilharia e artesanato senegalês.

Para minha tristeza e talvez porque sou ingénuo, mal me tinha afastado e outra ocupava o mesmo lugar.

Mas não pude deixar de dar uma gargalhada, ao constatar que também esta era do pé direito. Suponho que, por baixo da bancada, haveria um caixote cheio de botas de loiça, todas do pé direito.

E as do pé esquerdo? Onde estarão?

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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terça-feira, 7 de julho de 2026

Um clássico




Estava de férias em Lagos.

A família regularmente alugava a mesma casinha nos limites rurais da cidade e íamo-nos espraiar de manhã e à tarde para a meia praia.

Uma ocasião vi um glorioso carro dos anos 50 estacionado na avenida marginal. Impecável, parecia acabadinho de sair da fábrica. A seu lado, uma pequena palmeira no passeio. Mais ao fundo, a muralha de pedra do porto e o céu azul.

Este conjunto sugeriu-me uma imagem a fazer, desde que com a luz no ângulo certo. Feitas as contas e olhada a bússola, seria pelo meio-dia.

Uns dias depois, tendo o céu a limpidez adequada, parti descendo a colina, carregado com a câmara, as ópticas, os filtros, o tripé… toda a parafernália. Havia que chegar ao local a tempo de apanhar o sol na posição certa.

A meio caminho sou interpelado por um casal de velhotes que caminhava em sentido inverso:

“- Olá, como está?

- Desculpem mas… conheço-vos?

- Não se lembra de nós?

- Confesso que não. Querem ajudar-me?

- Em Coimbra, junto à Sé velha, há uns anos… Aquela fotografia que nos tirou…”

Recordei-me então e ficámos um niquinho à conversa.

Reformados que estavam, aproveitavam quando estava bom tempo para passear e conhecer o país como não tinham podido quando jovens.

E, à medida que iam viajando, iam fotografando o que viam, enquadrando-se ora um ora outro na imagem. Tinham uma única fotografia de ambos desses passeios: Aquela em que eu me tinha oferecido para fazer com a câmara deles, em Coimbra, aquando de uma das minhas peregrinações ao Encontros de Fotografia.

Apenas uma, de milhares que tinham. Apenas uma que os mostrava aos dois. Partilhando os Outonos amenos da vida e de Coimbra.

A minha oferta, tão natural quanto um copo de água, marcou-os indelevelmente. Aquela fotografia não é uma fotografia para eles:

É “A” fotografia.

Confesso que na altura já nem me recordava do facto. E, não fora eles, nem nunca mais o recordaria, de entre muitas situações semelhantes vividas.

E esta fotografia, que nunca vi, é uma daquelas que consta do meu álbum de recordações. Não como um ponto de viragem, mas mais como um parágrafo no livro que vamos escrevendo e a que chamamos vida.

Quanto à foto do carro? Bem, a hora de verão está atrasada em relação à solar, pelo que cheguei demasiadamente tarde nesse dia. Voltei lá mais tarde, mas não consegui dar-lhe aquele ar retro-californiano que queria.

 

Não adianta imitar. Há que ser espontâneo e generoso na fotografia, tal como na vida.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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domingo, 5 de julho de 2026

Era uma mocinha esperta




Estava numa feira de velharias e artesanato. O sol ainda não tinha aquecido a sério e prometia vir a estar bravo. Por isso, eu estava mais ou menos  com pressa, a tentar fechar negócio sobre um fotómetro Sverdlovsk 4 que ali estava à venda.

Mas não deixava de estar alerta com os demais visitantes. Nunca se sabe o que aparece. E apareceu!

Entre as pessoas que se aproximavam, duas mocinhas. Uma delas com duas câmaras penduradas no ombro esquerdo. Estranhei e esperei que se aproximassem para melhor perceber. Uma era esta e saí-lhe ao caminho.

Turistas, não sei de onde, acabámos por estar à conversa sobre a bela da Pentax. Herança do avô, tudo funcional excepto o fotómetro, mesmo com pilha. Mostrou-ma e não era de todo a correcta.

Lá estive a explicar-lhe que pilha deveria usar e onde comprar, mesmo que sem garantias de o fotómetro estar funcional.

Mas disse-me que usava a regra do f/16 e que, quando tinha dúvidas, usava a digital para medir a luz. Esperta, a mocinha.

Elas lá foram no seu passeio turístico, mesmo que escaldante. E eu fiquei com o registo de uma Pentax em uso na cidade de Lisboa, coisa cada vez mais rara.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-FA 28-200


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Estava muito calor




Pentax K7, Sigma 70-300


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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Suportes




Eu tinha 17 anos.

Pôs-se a possibilidade de ir em viagem de finalistas a Londres. A família não era abastada, longe disso, e não havia dinheiro para tais aventuras, mas com boas-vontades daqui e dali a coisa compôs-se. Incluindo a ajuda da família da minha namorada, que queria que eu fosse com ela.

O que não havia era como fazer o “para mais tarde recordar”. Eu tinha uma câmara desde os doze anos, mas fazer fotografia era caro e estava parada havia muito tempo. E era muito fracota. É muito fracota, que ainda a possuo.

Um parente decidiu chegar-se à frente e emprestar-me a sua. Recordo que era uma SLR mas não a marca. E possuía uma 50mm, mais que suficiente para os registos, digam hoje o que disserem sobre zooms e edições posteriores.

No dia em que me foi entregue (recordo o local exacto, a luz, a sombra da frondosa árvore, a mesa e os bancos de pedra) foi-me dada uma recomendação, entre outras, que não esqueci até hoje:

“Toma cuidado que ela só faz fotografias a cores!”

Quem ma emprestou já morreu, que o episódio é velho. As fotografias que fiz foram a cores e estão algures no arquivo, numa caixa que não sei qual. Já não olho para elas há anos e tenho a vaga memória de estarem rosadas, naquele tom de fotografias coloridas e mal processadas, em que a luz e a humidade são carrascos impiedosos.

E nunca virei a saber se esse meu primo, bem mais velho que eu, estaria a falar a sério se na brincadeira. Segui as suas indicações mas, na minha enorme ignorância sobre fotografia, aquela recomendação nunca me convenceu por aí além.

Anos mais tarde, já a fotografia fazia parte integrante da minha vida, disse-me uma senhora numa loja de fotógrafo em Castelo Branco que os rolos em Preto e Branco já não se fabricavam. E que não tinham. E eu, que tinha esgotado os que havia trazido de casa naquelas férias vadiando pelo país, acabei por ir comprar num dos outros poucos fotógrafos que a cidade tinha, ainda que tivesse penado para o encontrar.

Talvez que tivessem andado juntos na escola, aquela senhora e aquele meu primo, ainda que a geografia não o indicasse.

Vadiei pelo Preto e Branco durante anos. Porque o laboratório era meu, porque bem mais barato, porque o Ansel Adams era (e é) um mestre a tentar imitar.

Mas percebi, a dado passo, que o suporte e a técnica têm que ser usados em função daquilo que queremos transmitir e não podem ser limitadores do que queremos fazer.

Tenho para mim que a vida é a cores, que reagimos a elas como os cães aos cheiros, e é isso e dessa forma que quero mostrar.

O monocromatismo é apenas uma dessas formas.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Extremos




Quem achar que as temperaturas estão muito elevadas e quiser algo mais fresquinho, sugiro um passeio até à Guarda.

De acordo com fontes oficiais enquanto que em Lisboa e pelas oito da manhã se já registavam vinte e oito graus e uns trocos, à mesma hora na Guarda os termómetros marcavam 14,6º.

É só uma dica.

 

Nicon Coolpix P7000


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terça-feira, 30 de junho de 2026

História




Quando pego numa câmara ou objectiva gosto de sentir uma de duas coisas: ou que é absolutamente nova (ou quase) ou que tem história.

Algumas das que possuo vieram para a minha mão novas. Ou quase novas. Retiradas da caixa por mim, ainda com o “cheiro da fábrica”, ou da mãos de alguém adquiriu  mas pouco uso lhe deu, tendo-a guardado com cuidado ou carinho.

Muitas outras entraram em minha casa depois de terem tido vários donos, uns mais cuidadosos que outros, algumas com muito uso, amador ou profissional. Na medida em que consigo, tento saber essas histórias, coisa que só é possível se for uma venda particular. Em lojas ou feiras de rua, não sabem ou não querem contar qual o passado da câmara ou objectiva.

Se aparentar ter um passado vivido, tento conservar a aparência que possui. E tento tanto mais quanto mais antiga é a peça. Tenho apenas o cuidado de a manter em condições de funcionamento e evitar que se suje com pó ou semelhante. A chamada “patine” faz parte do passado e da história.

Este é um detalhe de uma Pentax S1A, fabricada entre 1962 e 1968. Absolutamente mecânica, haveria que usar um fotómetro de mão ou um adicional à câmara para calcular a exposição. E esperar não ter errado no calculo.

Da sua história pouco sei. Foi comprada no meu mecânico de fotografia, e depois de muita insistência. O único detalhe que consegui obter é o ter estado ali há muitos anos, na sequência da desistência de um cliente.

Quando pego nela para lhe tirar o pó ou para lhe apreciar algum detalhe, tento imaginar o seu passado. Provavelmente nas mãos de um amador entusiasta, guardada no estojo de coiro de origem, que entretanto se estragou, e usada para férias ou festas especiais.

Hoje tem marcas do tempo. Marcas que não tentarei disfarçar e que tentarei não aumentar. Porque se não consigo ver o que esteve à frente dela, essas marcas de algum modo contam sobre que esteve atrás dela.

Quem quer que tenha sido, obrigado por a ter conservado.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

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domingo, 28 de junho de 2026

Riscos




Há situações que devemos acautelar antes dos momentos críticos.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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