sábado, 24 de outubro de 2026

Plasticidades - verso e reverso




Verso

Um destes dias apresentar-me-ei no Parlamento, pedirei respeitosamente a palavra e, quando me a derem, lerei a minha proposta de revisão do código civil, penal, comercial, fiscal, …

Tratar-se-á de uma obra volumosa, de muitas páginas, tendo escrito na última a palavra “continua” e coisa nenhuma em todas as outras.

O bicho-homem, na sua busca de uma sociedade perfeita, justa e livre, acaba por fazer exactamente o oposto: usa uma teia intrincada de leis, regras códigos, normas, imposições e proibições que, ao invés de o libertarem, apenas o mantém limitado.

Na expressão plástica acontece o mesmo. Os autores vêem-se confrontados com os limites dos suportes. Definidos em formas padronizadas pela indústria e com regras concebidas em tempos de antanho e consideradas inabaláveis.

No caso da fotografia ainda se vai mais longe, levando o acto de distribuir as formas dentro do suporte com o nome de “enquadramento”. Colocar dentro de um quadro ou quadrado, com limites bem visíveis.

As indústrias de câmaras, papeis, molduras, imprensas, jornais, TVs, cinema, web, revistas… seguem pela mesma linha.

Um quarto ou meia placa, dois por três, três por quatro, widescreen, cinemascope, meia página, mancha inteira, duas colunas…

Estou em crer que o artista plástico mais livre da história do Homem, terá sido o nosso ante-ante-antepassado. Com as suas pinturas e gravuras rupestres e a ausência de limites ou imposições.

Talvez que o seu descendente actual seja o pintor de graffitis, mas mesmo assim é discutível.

Mas certamente não serão os fotógrafos que, nas artes plásticas, se comportam com mais liberdade ou a assumem, atados que estão a regras e limites.

P.S.: Não sei se sou fotógrafo, se não sou fotógrafo ou se sou uma coisa ambivalente, vivendo dentro das minhas próprias contradições!

 

Reverso

Vir aqui, ou onde quer que seja, gritar “Abaixo a regras e as leis! Viva a liberdade total!” é bonito.

Dá um aspecto de rebeldia, de excentricidade, de enfant terrible, agravado pelo facto de quem o diz não ser exactamente um adolescente a querer marcar um lugar ao sol.

Se a estas afirmações lhe juntarem um toque de anarquismo e se falarmos de artes, a classificação passa para um intelectual, eventualmente culto, que sabe do que está a falar.

Mas como a Terra gira sempre e mesmo nos pólos existe o dia e a noite, temos que ver a questão do outro lado também: as convenções, as razões da sua existência, a sua eficácia e necessidade. Mesmo que falemos de arte e de formas de expressão.

A espécie humana é gregária. Se exceptuarmos alguns excêntricos que decidem levar uma vida de ermitas, todos os indivíduos se juntam, tentando usar as suas próprias fraquezas individuais em proveito próprio e dos outros. Unidos temos mais força.

Mas esta vida em grupo só é possível se nos entendermos, se comunicarmos os nossos desejos ou necessidades e se os outros elementos do grupo (um continente, um país, uma religião, uma família) entenderem o que queremos dizer.

Até aqui nada de novo!

As artes, maiores ou menores - e incluamos nelas a fotografia - são uma forma de expressão individual mas também, quiçá principalmente, uma forma de comunicação.

Haverá alguns que dirão que fotografam (pintam, escrevem, compõem, etc.) para si mesmos, pouco lhes importando a reacção dos seus iguais.

Isto é uma mentira do tamanho de um comboio!

Por muito egocêntrico que se seja, por muito auto-suficiente que se se declare, por muito que se aparente uma indiferença total pela opinião dos demais, sempre se sente satisfação quando o nosso trabalho é reconhecido e agrada. Fotografias incluídas.

Para que este agrado aconteça, há que conhecer o que e como os outros gostam e, de algum modo, ir ao seu encontro. A mais das vezes até não é difícil, já que somos fruto de culturas semelhantes ou iguais e a globalização vai-as aproximando a cada dia que passa, estreitando os conceitos de bom e de mau – no relacionamento entre indivíduos ou grupos e nas artes e comunicação.

Os que hoje vivem, nasceram e cresceram sob a égide dos audiovisuais (fotografia, cinema, tv, web) que, de tanto divulgados, formataram os gostos e as preferências. E os códigos de comunicação, já agora.

Assim, é mais ou menos fácil de fazer um trabalho fotográfico que agrade. Basta usarmos como referência os gostos colectivos, escolhermos deles uma linha ou abordagem que mais nos agrade, introduzir um pequeno elemento de diferença que crie alguma surpresa et voilá: aí estamos nós a comunicar e a agradar!

Aqueles raros génios que rompem com os códigos e normas de comunicação e expressão artística estabelecidos são, em regra, repudiados. Pelo menos numa primeira fase. Porque o academismo não aceita a fuga aos cânones tradicionais, porque o comum do consumidor ou receptor da mensagem não o entende e aos seus códigos e não quer ter trabalho para o decifrar…

Com o passar do tempo, este novos códigos acabam por ser entendidos, vingam e, alguns, são elevados à categoria de mestria.

Mas a maioria dos indivíduos não têm a capacidade (ou não se querem dar ao trabalho) de inovar tão radicalmente. Contentam-se em usar os códigos de comunicação instituídos (ou não são capazes de deles se afastarem) e procuram que os seus iguais os descodifiquem de imediato, na busca do reconhecimento e da satisfação.

Esta atitude conservadora, que não é nem boa nem má, é tanto mais vital quanto quem está a comunicar é um profissional ou especialista de comunicação. O seu trabalho é fazer passar mensagens (escritas, pintadas, fotografadas) e quanto maiores forem as dificuldades na percepção do seu conteúdo, mais difícil se torna ele encontrar trabalho ou clientes.

Estes profissionais debatem-se diariamente com o mesmo problema: usando as regras para a facilidade e eficácia da comunicação (códigos conhecidos, estéticas reconhecidas, uma pitada de surpresa), ficam muitas vezes limitados no até onde podem ir na inovação. Em regra, não muito longe.

E isto passa-se com os fotógrafos também, que a fotografia é uma forma de comunicação. Quer se trate de fotógrafos amadores ou profissionais. Se pretendem que o seu trabalho, a sua expressão - individual ou a pedido - seja entendida pelos seus iguais, pelo público anónimo das revistas ou bem identificado na família, amigos ou conhecidos, tem que usar os códigos, as regras, os métodos reconhecidos por eles. E, se puder ou souber, colocar uma pitada de surpresa pelo caminho para fazer a diferença.

Terá se que se ater às paletes de cor dos suportes, aos formatos industrializados, às perspectivas convencionadas e inteligíveis, aos sentidos de leitura e aos suportes finais de exibição.

Não respeitar os códigos de comunicação, mesmo na fotografia, é correr o risco de ser recebido com um sorriso de condescendência ou mesmo a indiferença explícita.

E quem é que gosta de assim ser tratado?


By me

 

Uma esquina




Foi há mais de um quartel, talvez.

Seguia com metade da turma para o Largo do Camões, ao fundo à direita, para uns exercícios com câmara de vídeo. Se bem recordo, iriamos praticar panorâmicas a velocidades diferentes jogar com velocidades angulares.

Em chegando a esta esquina, o “bando de pardais” ignorou o semáforo, como este fulano aqui, e atravessou para o outro lado. Em lá chegando, e dando pela minha falta, olharam para trás e chamaram-me.

Fiz orelhas moucas e esperei pelo verde. Só que, ao contrário do que estavam à espera, quando ele surgiu no lugar de eu atravessar chamei-os.

Vieram, meio sem saber o que se passava, e eu nada. Nos entretantos o sinal voltou a ficar vermelho e eu nada.

Quando ficou de novo verde para os peões aí sim, falei: “Agora que está verde, podemos todos passar em segurança.”

Riram-se do insólito da situação, devem ter pensado “Mais uma do stor JC!”, e lá fomos como e ao que íamos: um bando de gente a querer fazer e aprender aquilo de que gostam.

Passados todos estes anos, eu com a cabeça toda branca, eles e elas a começarem a ficar, mesmo que disfarcem, ainda há um ou dois que se recordam do episódio. Fico todo babado com isso.

 

Pentax K1 mkII, Pentax-M 28mm 1:2,8

 

By me

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Vigilias




E quem é que, na hora crítica deste fim de semana, estará acordado para acertar os relógios?


Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

By me

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Barracadas




Aparentemente as entidades governativas e as forças policiais estão de acordo:

Não se pode montar tendas no espaço público.

E barraca, pode? É que ali para os lados de São Bento as barradas são mais que muitas!

 

Pentax K7, Tamron 18-200

 

By me

Objectivos




Duro mesmo é ver como as diversas organizações sociais e políticas que vão emergindo defendem mais do mesmo.

Formais ou informais, com aspirações legislativas ou com actividades no terreno, defendendo esta ou aquela metodologia, o certo é que os ideais de sociedade que defendem passam por uma organização estratificada, em que alguns têm direito e acesso a muito e muitos quase não têm direito a muito pouco.

Os cuidados médicos, a alimentação, a educação, a justiça, a habitação, não devem ser em função de uma classe social, com mais ou com menos posses.

Ou há diferença no valor humano entre quem recolhe o lixo dos contentores e quem produz esse mesmo lixo?

Ou há diferença no valor humano entre quem pastoreia as cabras e quem lhes come o queijo?

Ou há diferença no valor humano entre quem tece a seda e quem dorme nos respectivos lençóis?

 

Enquanto os objectivos forem os mesmos – a manutenção de uma sociedade estratificada, com uns a existirem para servirem os outros -, bem que podem mudar de estratégias, discursos ou fatiotas: não me convencem!

 

Pentax K100D, Pentax 18-55

 

By me

domingo, 18 de outubro de 2026

Candeeiros




Podem chamar de arruaceiros. Tal como podem chamar de fascistas, de esquerdalha, de radicais, de carneirada, de provocadores, de ...

Aquilo que não podem tirar é o desejo e o direito de ter uma vida digna, de um tecto para si e para os seus filhos, de comida na mesa, de ...

Demorou quase meio século e uma cadeira partida, mas os que queriam impedir de a isso aceder acabaram por cair. Ficaram os saudosistas, mas esses irão ter o mesmo fim.

Porque há muitas cadeiras em portugal. Tal  como há muitos candeeiros onde colocar os exemplos!

 

Pentax K7, Pentax 18-55

 

By me

sábado, 17 de outubro de 2026

Duas Pentax




Duas da minha família Pentax, vestidas de preto.

Repare-se como cresceu a mais nova, à esquerda: Cinquenta anos e o dobro do peso as separam.

E sim, esta é forma que mais gosto de iluminar: considerar que a fonte de luz principal vem do lado de lá do assunto. Tudo o mais que coloque é para controlar contrastes ou sombras.

 

Pentax K50, Tamron SP Adaptal2 90mm 1:2,5

 

By me


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Motivos




Vários têm sido os que me questionam sobre os motivos que me levaram a partir para e manter este projecto “Oldfashion”. E o que pretendi com ele.

Sobre as perguntas originais, as que entretanto sobrevieram e as respostas que tenho ou virei a encontrar, mantenho alguma discrição. Se e quando chegar a um fim definido, e se valer a pena a sua divulgação, cá estarei então para isso.

Mas posso dizer que as referências exteriores passaram e passam pelos trabalhos de diversos autores, nem todos directamente ligados à fotografia.

Pese embora possa parecer alguma imodéstia, aqui ficam alguns dos que, pelo que fizeram ou pensaram, me impulsionaram a partir nesta viagem:

 

August Sander,

A exposição “The family of Man”,

Susan Sontag,

Roland Barthes,

John Berger,

Antoni Tàpies,

Roussado Pinto.

 

Esta lista, que muito peca por defeito, deixa de fora inúmeros nomes da fotografia ou do pensamento ligado às artes ou ao conhecimento do Homem e do seu comportamento que, de uma forma ou de outra, me foram provocando e questionando.

Tal como aqueles que, não tendo nome sonante ou obra publicada, me fizeram ou fazem pensar, em tertúlias ou conversas em volta de uns copos.

E uma enorme dose de rebeldia ou contestação, já que este trabalho, do ponto de vista estritamente fotográfico, é a antítese da reportagem ou do caçador de imagens que, com a sua inquietude e itenerância, persegue assuntos e luzes.

Já quanto às questões estéticas, não são, neste caso, uma prioridade que me inquiete.

 

Olympus C3030Z


By me

 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Olhar nos olhos




Há momentos na vida em que o melhor é ficar quieto e calado. É uma arte, o saber quando.

Mas há outros em que essa é a pior opção!

Daqui por uns tempos, olhando olhos nos olhos e em falando dos dias de hoje e de então, que dirás tu quando te perguntarem:

“E tu, que fizeste?”


Samsun S-60

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

D'impulso




Faltavam 25 minutos para me encontrar com um desconhecido que me iria vender mais uns itens para a minha colecção. Nada de muito dispendioso, mas fazia-me falta.

Apesar de ter a câmara no saco, não estava lá com muita vontade de a tirar, pelo que, para matar o tempo, entrei naquela livraria. Fica num centro comercial e só lá vai quem for à sua procura. Fui.

Passei pelo balcão, onde confirmei a localização dos livros de fotografia, e fui sózinho pois já sabia o caminho. A secção era pequena, isso já eu esperava, mas acabei por ficar com um na mão. E um ensaio de uma autora portuguêsa, veja-se lá a coisa.

Regressei ao balcão para pagar e dou comigo numa fila de gente com o mesmo fito, bem como para encomendar obras de outros lados. Quatro pessoas.

Dá gosto ver fila de gente para pagar numa livraria. Ainda por cima num centro comercial, num recanto de uma esquina. É bom indicador, ainda que as idades fossem de meio para cima.

A minha impaciência agudizou-se, vendo o tempo a passar e a hora do negócio a aproximar-se.

Tentando distrair-me, fui vendo que obras estavam ali perto, na secção das compras por impulso. Sim, por uma livraria também tem disso, não são apenas os supermercados.

Dou com os meus olhos nisto e pensei demasiado alto, a ponto de vocalizar o pensamento: “Há muito que não leio Kafka. Nos tempos que correm faz falta um pouco de lucidêz”.

Quem estava à minha frente, já com o cartão na mão para pagar, olhou a tempo de me ver pegar nele e juntar ao outro. Não sei o que aquele cota como eu pensou, mas gostei de ver o discreto sorriso antes de se voltar para a frente.

Juntei os dois na mão, para não perder tempo a abrir o saco, e cheguei mesmo na hora combinada para o negócio cá fora.

Será a terceira obra a que me vou dedicar, que a vida não pode ser só fotografia.

Mas sempre com aquela dúvida: “Que escreveria ele, se vivesse hoje?”

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me