sábado, 28 de fevereiro de 2026

Um clássico




Suponho que conste em todos os manuais de governação:

Criar um inimigo, dentro ou fora de fronteiras, agir contra ele e afirmar que o estado e os governantes protegem os cidadãos.

Quanto assustador for esse inimigo e mais veemente for essa acção, quer pelos discursos, quer pelas legislações, quer por acções bélicas, mais os cidadãos se juntam em redor dos líderes, dando-lhes mais poderes na sua acção.

Claro que, em usando esta estratégia, o poder instituído consegue afastar para segundo plano, por vezes definitivamente, os seus detratores, garantindo assim a manutenção do status adquirido.

Isto nada tem de novo e tem sido usado ao longo de séculos em diversas civilizações mais ou menos autocráticas ou governantes com grandes ambições a tal.

Mesmo neste jardim à beira-mar e mal amanhado a que chamamos Portugal.

Já agora recordo o incremento da contestação interna e as eleições intercalares nos EUA em novembro.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

Alfarrabismo




Confesso que não resisti.

Numa página on-line sobre fotografia o autor mostra-nos este livro. Não exatamente este mas a sua versão original cuja capa não contém fotografias.

Quando o vi soaram campainhas na minha memória. Melhor, soaram carrilhões cá dentro. Eu conhecia aquilo e, ao mesmo tempo, não conhecia.

Apesar da hora bem tardia, atirei-me às estantes que, apesar de não lá muito bem organizadas, me mostravam as lombadas. Ao fim de um bom pedaço lá encontrei. Este.

O que acaba por ter graça é que o autor da página é um bem-disposto e provocava o público dizendo que lojas de livros usados sobre fotografia que se prezem têm que ter um ou dois exemplares deste. Claro que residindo no Reino Unido, local onde a versão original foi publicada, não conhece a realidade livreira portuguesa. Mas lá lhe respondi, exibindo o meu exemplar, que não está à venda.

Graça, mas graça mesmo, foi saber pelos demais comentários que esta obra se espalhou pelo mundo, do Brasil à Bulgária, passando pela Àfrica do Sul. Não sei se na Bulgária fizeram uma tradução ou se foi a versão original.

O que sei é que o meu exemplar foi comprado em Lisboa em 1982 e que custou 750 escudos. Provavelmente na livraria Bertrand.

Se o recomendo? O que recomendo sem sombra de dúvida é que andem de olho nos alfarrabistas e feirinhas onde aparecem livros com mais de 40 anos, como este. Garantidamente que estão desactualizados no que toca a técnica. As imagens serão “datadas” no que a estética diz respeito, pois seguirão as modas e tendências da época. Mas há coisas que não mudam e com os antigos aprendemos sempre qualquer coisa. Nem que seja a forma estável de segurar uma câmara ou a importância que tem um pára-sol.

Quanto ao resto, ver fotografias é sempre um prazer.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 50 1:4


By me

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Saberes e gerações




É um clássico do conflito de gerações: os mais novos escarnecerem dos saberes dos mais velhos e estes espantarem-se com as ignorâncias dos mais novos. Creio que sempre foi e que continuará a ser.

No meu caso, pertencendo aos mais velhos, creio ser bastante tolerante neste campo. Sei que ninguém nasce ensinado e que os mais novos têm saberes e competências que os mais velhos não têm ou não conseguem. O melhor mesmo é aproveitar o melhor dos dois mundos, partilhando conhecimentos e práticas.

No entanto, coisas há que me deixam mesmo surpreendido. Chegando a ficar incomodado com aquilo que os mais novos (ou alguns dos mais novos) desconhecem.

Um destes dias tive uma equipa de dois homens, um com 21 anos e o outro com 31, para fazer uma instalação de um equipamento aqui em casa. Competentes e bem sabendo do seu ofício, fizeram o que tinham a fazer a contento do cliente – eu.

Mas a dado passo, e para simplificar e melhorar o que faziam, emprestei-lhes um nível de bolha. Assim, verticais e horizontais ficavam garantidas.

E não é que não sabiam o que aquilo é?!

Que não soubessem o que é um fio de prumo ainda aceito. Não são nem pedreiros nem marceneiros, pelo que acredito que nunca tenham tido necessidade de usar um. Apesar de ter séculos de inventado. Agora um nível de bolha?!

De um modo ou de outro o seu princípio de funcionamento e a sua utilização fazem parte dos conteúdos do ensino, em ciências, física ou história. E, de um modo ou de outro, terão visto um exemplar mais elaborado ou mais simples.

Indo mais longe, a necessidade de garantir a horizontalidade de algo e a forma de o aferir, é algo que a todos toca algures e em muitos campos durante a vida. E não necessariamente longa.

Lá lhes expliquei o modo de funcionamento de ambos, onde se encontram e como o seu uso pode melhorar bastante os seus ofícios. Ou as suas casas.

A este respeito, recordo uma rábula do Jô Soares parodiando a situação, que terminava sempre com a mesma frase: “A ignorância da juventude é um espanto! É um espanto!”

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Pontos de vista e fotografia




Não vale a pena pensar de outra forma!

 

Escancaradas que estão as hostilidades no leste europeu, estamos a ser bombardeados com informação. Opiniões de especialistas, políticos a falarem com alguma cautela mas hostis a uma das partes, repórteres e correspondentes no local, dizendo o que podem sobre os acontecimentos a que assistem...

A guerra está aberta e a comunicação social é uma das armas.

Claro que o imediatismo é importante. Não apenas o público quer saber como o negócio da informação vive de ser o primeiro a noticiar.

Uma das formas de comunicar, mas mais lenta, é a fotografia. Pese embora os meios de fazer e enviar as imagens recolhidas, o consumo de imagens prefere as que sejam animadas, com som, que encham os noticiários.

Veremos apenas daqui a uns tempos as “belas” fotografias da frente de combate, com material e gente a sofrer as consequências das decisões de quem está no conforto dos gabinetes. E, como é de esperar, mostrando os acontecimentos do ponto de vista do público a que se destina. E se os fotógrafos são ocidentais e vendem os seus trabalhos para jornais ou agências noticiosas ocidentais, serão quase de certeza imagens defensoras das perspectivas políticas ocidentais.

No entanto, esta abordagem parcial de um conflito mortal não é original.

Sugiro que se comparem as fotografias feitas há uns 150 anos, pouco depois da invenção da fotografia. Em particular as feitas na guerra da Crimeia com as da guerra civil Norte-Americana.

Se esta mostra imagens de destruição e de vítimas do conflito, numa clara demonstração da violência dos combates, já as feitas na Crimeia, por correspondentes Britânicos, são muito mais tranquilas, mostrando aquartelamentos e soldados em bom estado e saudáveis. Havia, neste caso, que tranquilizar os Ingleses sobre o que acontecia com os seus compatriotas na frente de combate.

As fotografias não mentem. Agora a forma e com que intuitos são feitas dependem dos objectivos dos fotógrafos no local e da utilização que lhes forem dadas.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Leituras




Esteve assim durante mais de uma hora.

Com o solzinho a bater-lhe nas costas, com as pernas em cima do banco, cabeça protegida por um lenço, o livro na mão.

Lendo devagar, mudando as páginas com calma e concentrada no que fazia, ao princípio nem dei por ela. Mas sendo que o meu artefacto, se não tiver “clientes”, não exige atenção, acabei por me aperceber da sua imobilidade. E fiquei curioso.

Ainda fiquei curioso com aquela figura, com um aspecto já não trivial, a ler num jardim. Afinal, não é todos os dias que se vê um idoso a ler um romance num banco de jardim, por muito apetitoso que possa ser o calor solar neste Fevereiro de noites frias.

E a curiosidade aumentou com o passar do tempo. E a falta de vergonha também, a ponto de fazer a foto que aqui se vê. E ainda fui mais longe:

Fazendo de conta que estava apenas num dos meus deambulares de cigarro na mão, aproximei-me o suficiente para ler o título do que ela lia. Nem Condessa de Ségur, nem Richard Bach, nem um opúsculo religioso.

Tratava-se, afinal, do “Guia prático da Artrose”.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Prazeres de caça




Quem faz fotografia gosta que o seu equipamento esteja em boas condições. E está sempre alerta para as ocasiões em que o pode usar. Faz sentido e eu faço fotografia.

Quem coleciona artigos de fotografia gosta que as peças que possui estejam em tão boas condições quanto o possível, apesar da idade que algumas já possam ter. E está sempre alerta para as ocasiões em que pode completar ou melhorar a sua coleção. Faz sentido e eu sou colecionador.

Mas há um outro aspecto que conta para o colecionador e, eventualmente, para quem faz fotografia: a história em torno da peças de equipamento que possui. E eu pertenço aos dois grupos.

Lembro, por exemplo, de uma Pentax Super A, que me foi vendida usada por alguém que me contou ter ela sido comprada pela filha quando estudava na alemanha e que agora estava no fundo de um armário porque ela preferia as câmaras digitais. E ele estava a precisar de dinheiro...

De igual modo recordo uma Pentax SFXn, comprada barata com duas objectivas e alguns acessórios pouco comuns, sobre os quais quem me vendeu me disse que tinham pertencido ao falecido pai que tinha tal estima no seu equipamento que o guardava religiosamente numa divisão da casa fechada à chave para que os filhos não lhe acedessem.

Eu gosto de conversar com quem vende para conseguir este manancial de histórias.

O que se vê na fotografia junta também tem história. Aliás, tem várias histórias.

Começa com a quase oferta da peça menor à direita, bem como do respectivo estojo, junto com uma outra compra que fiz. Trata-se de uma acessório a colocar num fotómetro Gossen Lunasix 3 para permitir fazer leituras de luz no ampliador fotográfico. Eu não tinha o fotómetro mas sabia que cedo ou tarde o teria, enquanto esta peça extra seria raro de encontrar. Esteve bastante tempo guardada à espera do momento. Que veio agora.

O dito fotómetro estava acompanhado de dois outros acessórios, à venda em Lisboa e por uma valor mais ou menos dentro dos parâmetros habituais e compatível com a minha disponibilidade. E em excelentes condições de funcionamento. Não me fiz rogado, já que o conjunto é invulgar, e tratei de combinar o encontro de negócios.

Neste, fiquei a saber que pertenciam ao seu patrão, o António Homem Cardoso, que estava a vender as peças mais antigas e que já não usa, para ficar com um conjunto minimalista. Até por causa da sua idade. Sorte a minha.

Sorte não apenas nas peças de per si mas com o acréscimo de saber que que me chegam às mãos vindas de alguém que é alguém no panorama fotográfico português.

Mas “cereja no topo do bolo” estava no aparelho, fabricado em meados dos anos 60. E de que só me apercebi em chegando a casa. Usa ele, de origem, pilhas que já não se fabricam porque baseadas em mercúrio. Há formas de contornar o problema, umas mais complexas que outras. Uma delas é o recurso a adaptadores para baterias actuais, vendidos pelo fabricante, caros e de encomenda demorada. Pois o belo do aparelho já os tinha, o que diz do cuidado e atenção do seu dono para com o que usava.

Todas as peças têm uma história, em que por vezes somos nós que as vivemos. Mas, para mim, as que realmente são importantes são as que me antecederam. É também com elas que se faz uma coleção.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4


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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Vontades




Porque me apeteceu.

 

Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Oh poder




De todos os graffitis que tenho visto e fotografado, este é um dos meus favoritos.

Na mensagem e na intemporalidade.

 

Nikon Coolpix 7000


By me


Não me fΘd@m!




Volta e meia recordo uma expressão que um chefe que tive usava amiúde: “Oh pah, fΘd@-se, não me fΘd@s!”

Vem isto a propósito do conceito bacoco de a representação pictórica (pintura ou fotografia) ter que ser objectica, clara, legível, inequívoca.

Não me fΘd@m! Não tem que ser!

Tem que ser, antes de mais, um equivalente do que a alma de quem criou “viu”, sentiu, pensou, idealizou. A partir do momento em que o que fez corresponda a isso, está feito e bem feito.

O ser interpretável por quem isso veja é outra questão, bem mais complexa.

Começa, desde logo, pela decisão do autor sobre se essa questão é ou não pertinente.

Se for pertinente o autor terá, naturalmente, que se expressar usando códigos visuais que o público entenda. Óbvia ou implicitamente. E terá que adaptar aquilo que sente ou imaginou a esses códigos. A isto chama-se “comunicação visual”. E só será um trabalho bem feito se conseguir comunicar com o público. Se este conseguir “ver” ou sentir aquilo que o autor quis que “visse” ou sentisse. Mesmo dando uma “margem de manobra” muito grande, permitindo múltiplas interpretações.

Mas se não for pertinente, se o factor “comunicação” não for importante... Não me fΘd@m! O autor pode fazer o que muito bem entender, explícito ou confuso ao público, mesmo não interpretável, que a única coisa que conta é a sua satisfação em ter conseguido materializar o que “viu” ou sentiu.

E o público, especialista ou não, o mais que pode dizer é “não entendo”. Qualquer outro tipo de comentário é um disparate, porque o que está a ver não foi feito para que entenda ou interprete.

Claro que no caso da fotografia a coisa é mais complicada que na pintura. Que se admite a um autor pintar sem ser representativo, mas não se aceitam fotografias que não sejam “legíveis”! A ideia, oriunda dos primórdios do processo fotográfico, de que a fotografia é uma cópia da realidade ainda hoje vinga. É um disparate, mas ainda hoje vinga.

E como a esmagadora maioria dos utilizadores de câmaras fotográficas procura o agrado do público, procura igualmente produzir imagens interpretáveis, quantas vezes castrando a sua própria criatividade em prol do aplauso.

Oh pah! Não me fΘd@m!

 

Nikon Coolpix P7000


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Entaladas




Talvez já tenham reparado que alguns edifícios de Lisboa têm “enfeites” destes na sua fachada, geralmente encimando a porta principal.

Não sei se existem no resto do país, mas em Lisboas há-os. Na zona de Benfica, de Alvalade, de Belém...

Apelidadas de “Entaladas” pelo arquiteto Keil do Amaral, foram colocadas entre a porta principal do edifício e a varanda do primeiro andar, permitindo que a “obra de arte” valorizasse o imóvel e, com isso, a venda ou aluguer bem mais alto.

Estas esculturas ou relevos têm como motivo genérico mulheres (musas ou ninfas) mas não se restringindo a isso. Há exemplos de figuras masculinas, operários e não só, numa abordagem e simbolismo muito à época do decénio de 1950. Os temas também versavam o mundo animal, privilegiando a pomba da paz que, numa versão não tão prosaica, se referiria eventualmente ao espírito santo.

De parceria com estas “entaladas”, e com o mesmo objectivo de valorizar o negócio imobiliário, também encontramos azulejos mais ou menos trabalhados, por vezes colocados no átrio do prédio e não no exterior. Sempre com o mesmo objectivo de enobrecer o edificado, aumentando-lhe o valor e, com isso fazer distinguir os residentes dos demais em redor, quantas vezes muito mais singelos nas decorações, se alguma, e nas dimensões. A elite protege-se.

Ainda hoje, no bairro de Alvalade, qualquer prédio da avenida de Roma onde as entaladas pululam, é muito mais valorizado que os circundantes.

As entaladas marcam uma época da cidade no conceito arquitetónico, na separação social e no uso das artes enquanto elemento agregador.

 

Pentax K-S2, smc Pentax pancake 40 1:2,8


By me