quinta-feira, 26 de março de 2026

Atitudes




A primeira vez que fui escalado para uma transmissão de uma tourada foi um drama.

Foi um drama para mim, que já então abominava essa prática e não queria contribuir para a sua divulgação; foi um drama no trabalho, que não aceitaram o meu pedido de mudança de tarefa por objeção de consciência; foi um drama em casa que me alertaram para a possibilidade de ser despedido se não comparecesse... foi um drama.

Acabei por ir e criar reboliço.

Quando a minha câmara estava no ar no momento em que o ferro era cravado, no lugar de acompanhar o vitorioso cavaleiro ou matador, acompanhava o toiro, apertando o plano até ficar apenas com a cabeça, os quartos dianteiros e, bem em evidência, o local onde ficara a bandarilha espetada. E, se o toiro me desse o seu melhor perfil, o brilho vermelho do sangue a escorrer.

O gritos do realizador eram portentosos, com insultos pelo caminho, mas não me desviei do meu objectivo. E repeti a proeza nas lides seguintes.

Em acabada a transmissão ouvi das boas, com ameaças dos quintos dos infernos, mas eu estava na minha, argumentando que se o objectivo era cravar a bandarilha, era isso que mostrava, por muito que isso incomodasse o público. E esse era o meu objectivo secreto: que o público se incomodasse e deixasse de ver aquilo.

Fiz mais duas ou três transmissões esse verão e nunca mais me escalaram para esses trabalhos. Fiquei uns tempos de castigo não formal, mas ganhei a guerra: comigo não contavam para essa barbárie.

Agora, passados que são uns decénios valentes, estou num dilema equivalente. Termina dentro de dias uma exposição fotográfica em Lisboa em que o tema são corridas de toiros.

Não duvido da qualidade do exposto. Se bem conheço o galerista, posso apostar que as fotografias são muito boas, mesmo sem as ter visto.

Mas não me apetece contribuir com a minha presença para o sucesso de uma exposição sobre esse tema.

Sei que estas minhas posições são polémicas e conduzem a conversas ou discussões sem fim e sem vencedores ou vencidos. E tenho-as tido ao longo da vida sobre diversos assuntos, desde produtos alimentares a actividades político-partidárias, passando por certames fotográficos e apertos de mão a figuras gradas da nossa sociedade.

Mas também sei que ninguém irá escrever na minha lápide fúnebre “Aqui jaz um tipo de bom feitio”.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


By me

quarta-feira, 25 de março de 2026

Le nu




Termos que nos deslocar a pé na cidade tem destas coisas: ser surpreendido com mercados de rua onde podemos encontrar pequenos tesoiros. Foi o caso.

Este livro, usado, custou-me cinco euros. Quase o preços da chuva, convenhamos. Mas o seu valor é muito superior, se considerarmos outros factores que não os de capa.

Para além de fazer parte de uma série de livros que existe desde há 40 anos, ao que sei, que são razoavelmente bem impressos para o preço, no seu conjunto abordam todas as vertentes da fotografia. Monografias por autor ou temáticas.

Claro está que um livro temático depende, no seu conteúdo, das opções do editor. Que pode não deixar de ser tendencioso e terá, certamente, preferências. Este exemplar é um exemplo oposto num aspecto.

Ao contrário da esmagadora maioria das obras sobre o nu fotográfico, este não se atém ao nu feminino. Contendo fotografias desde 1855 até 1984, talvez que 20% delas são masculinas, o que é particularmente raro.

Começa, desde logo, por geralmente se fazerem muito menos fotografias de nu de homens que de mulheres. Suponho que haverá algum receio por parte dos homens fotógrafos de serem chamados de “bichas” se o fizerem.

Depois porque, e isto aplica-se na pintura também, a maioria dos consumidores de fotografia (em livro, em revistas ou individuais) serem homens. Quer os que compram avulso, quer os que encomendam aos autores para comprar. E, não nos enganemos, a grande maioria dos consumidores de fotografia, bem assim como os produtores, fazem-no como substituto daquilo que não podem possuir. Seja um pôr-do-sol, seja um castelo, seja um automóvel, seja um ser humano. Um acto de cobiça, se quiserem ir longe nos conceitos. Sendo a maioria dos consumidores e produtores de fotografia homens, faz algum sentido que cobicem mulheres. Na posse ou na produção de fotografias, as mais das vezes, o sentido estético pesa objectivamente. Mas a posse do fotografado pesa subjectivamente, sem que disso nos apercebamos.

Como se tudo isso não bastasse, existe um conceito bacoco em que o belo no corpo humano apenas acontece no feminino. Só as mulheres são belas, só os corpos das mulheres podem acordar a líbido, só os corpos das mulheres podem evocar sentimentos. Conceito bacoco e machista! Sugiro que perguntem às mulheres se assim acontece.

É assim, pelo acima dito sumariamente e por tudo o que não é dito que longo seria, que um livro que aborde a fotografia do nu e inclua fotografias de nus masculinos se torna numa peça rara de encontrar. Numa livraria, numa feira de rua ou numa biblioteca. Excepção feita à minha, onde constam alguns.

Acrescento que imagem da capa que mostro está assumidamente censurada por mim para evitar que os puritanos (humanos ou algoritmos) das redes sociais a bloqueiem tão rápido a encontrem ou seja denunciada.

 

Pentax K1 mk2, Tamron SP 90 1:2,5

 

By me


Reunião magna

Acho que todos conhecemos a expressão “o idiota da aldeia”.

É que todas as aldeias têm um, seja qual for o tamanho da aldeia. Mais cómico ou mais trágico ou mais violento. Mas, no fundo, são todos e cada um mais ou menos inofensivos.

A questão complica-se porque há muitas aldeias. E todas enviam o seu representante idiota a uma reunião magna. E nesta se toma o poder sobre todas as aldeias.

Temos tido diversos exemplos ao longo do tempo e do espaço. Alguns tão próximos que são o presente. E com isso somos geridos num congresso de idiotas em que o líder foi escolhido por ser o mais idiota de todos.

 

By me

segunda-feira, 23 de março de 2026

Histórias velhas




À época não havia onde aprender o ofício. Aliás, só uma empresa tinha profissionais na área, já que era a única em Portugal que tinha aquele tipo de ramo: televisão.

Dos que passaram nas provas de admissão alguns de nós fomos admitidos ao curso de formação que nos daria as bases. Três meses de teóricas e dois meses de práticas. Na primeira parte seis horas por dia com diversos formadores em sala de aula, sem autorização de acedermos às áreas técnicas.

No primeiro dia de prática fomos recebidos no estúdio por três consagrados operadores de câmara. Daqueles cujo nome era de encher a boca.

Depois das apresentações, convidaram-nos a por em prática algo que haviamos aprendido das teóricas: executar um traveling. Por outras palavras, movimentar uma câmara para a frente ou para trás ou para os lados sempre com imagem útil.

Os que encheram o peito e foram mostrar as suas habilidades ou capacidades, ficaram todos de orelha murcha, já que nenhum foi capaz de o fazer, mesmo sob o sorriso irónico desafiante dos formadores.

Após o fiasco, um deles agarrou-se ao tripé e à câmara e quase que dançou uma valsa com ela, com uma suavidade e perfeição impressionantes.

Acabada a demonstração disseram-nos que no final do curso saberiamos fazer aquilo assim (ou lá perto) e que o truque ou técnica não estava (e não está) na força mas no jeito de o fazer. E isso aprende-se. Aprendemos.

Anos mais tarde sorria eu ao ver recém chegados, vindos de escolas profissionais ou mesmo já com experiência, a não serem capazes de fazer aqueles movimentos de câmara com suavidade, agarrando-se com força aos pedestais, coisa muito mais fácil de manobrar que um tripé.

Explicava-lhes então eu que aquilo se faz com quatro dedos: dois para o pedestal e dois para o punho da câmara. E que é fácil, muito fácil. E demonstrava.

Dava-me um prazer imenso ver como os seus olhos se abriam de espanto (mesmo os de alguns já com experiência) ao perceberem que afinal aquilo é quase manteiga, desde que se saibam os truques ou técnicas.

Terminava eu com a explicação dos motivos da física e da dinâmica que justificam essa facilidade. E essa é a “pedra de toque”. Perceber o porquê das coisas funcionarem. Permite bem fazer aquilo que se sabe fazer e aplicar esse conhecimento a situações novas ou diferentes, facilitando e melhorando a sua execução.

Os que não se preocupam em saber o que está para além do botão ou do manípulo nunca serão algo mais que repetidores ad nauseam das mesmas tarefas, incapazes de criar ou improvisar. A menos que se seja um génio, coisa rara de encontrar.

Isto é válido para imagem, culinária ou astronautica.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

domingo, 22 de março de 2026

Amor/ódio




Há tarefas com as quais tenho uma relação amor/ódio em que o ódio prevalece. Um bom exemplo é o emparelhar meias.

Com o passar dos anos acabei por encontrar uma solução que me evita ter que o fazer: desfiz-me das meias que tinha, novas ou velhas, e comprei vários pares de meias iguais. Todas iguais no tecido, na cor, no padrão. Assim, quando as tiro do varal onde secaram depois de lavadas, vão a monte para a gaveta. E quando vou por meias lavadas basta-me meter a mão e tirar duas. Sei que serão iguais.

Mas há outras tarefas que não podem assim ser tratadas. Implicam tempo disponível, disposição para as executar e tranquilidade no fazer. Um bom exemplo é o limpar o sensor de uma câmara digital.

Sabemos que o sensor é uma parte delicada da câmara e que qualquer poeira se nota na imagem final. E que qualquer risco no sensor é o seu fim. Por saber da delicadeza da tarefa, de que não gosto pela dose risco que implica, faço-a apenas em último recurso e quando me sinto suficientemente tranquilo para tal. Foi o caso.

Sentado à mesa de trabalho do “estúdio”, o local tão imaculamente limpo quanto o possível, deito mãos à obra. Cavidade da câmara limpa antes de expor o sensor, espátula de limpeza retirada do invólucro estéril e devidamente humedecida, faço a primeira passagem. A meio da segunda passagem, em sentido inverso, aconteceu o mais improvável: fiquei sem energia elétrica.

Não que processo implique eletricidade. De preferência até não, para evitar estáticas. Mas convém que eu veja o que estou a fazer, principalmente quando estou a intervir no sensor. E ficar às escuras com a espátula nele encostada será algo de todo não recomendável.

Consegui retirar a espátula da cavidade sem com ela tocar o que quer que fosse e desliguei a câmara. Às escuras fui em busca de uma luz alternativa e tratei de aguardar tranquilamente pelo regresso da energia. O que não demorou mais de meia hora.

Mas, ali mesmo quase às escuras, fiz uma jura solene: de agora em diante ou faço esta limpeza de dia, perto de uma janela, ou faço-a à luz de baterias devidamente carregadas. Sempre evito o susto, o risco e o soltar uns valentes palavrões.

Nota adicional: o sensor ficou incólume.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

quarta-feira, 18 de março de 2026

Imagem




Hoje fui tratado de um modo quase indigno: fizeram-me uma imagem!

É verdade que foi sugerida e eu aceitei mas, no final, nem ma mostraram e muito menos se proposeram dar-ma ou enviar-ma. “Tá feito, tá feito, venha outro!” como se eu estivesse na rua a acender um cigarro e viesse alguém com uma câmara apontada para mim.

Pior ainda: desnudei-me a pedido para a imagem.

Não que isso me incomode por demais. Nunca fui exibicionista ou envergonhado. Menos ainda com esta idade. No entanto, caramba: um tipo que se desnuda assim sem preconceitos perante a máquina merece um pouco de consideração. No mínimo deixarem-me ver aquilo que eles viram em mim que justificou o quererem fazer uma imagem. Mas não: nadica de nada.

Quando vim embora, vinha de mãos a abanar. Enfim, não completamente porque, liberto das restrições óbvias, vinha com um cigarro aceso, bem seguro por via da ventania.

Mas na minha cabeça ainda ressoavam aquelas palavras de antanho, que se repetem e que quase todos bem conhecem: “Encha bem. Não respire. Pode respirar.”

Saudades dos tempos em que ficávamos com o positivo em papel, à saída do fotógrafo. Ou a chapa em negativo à saída do consultório de RX.

 

Olympus C3030Z


By me

terça-feira, 17 de março de 2026

Imagem e realidade




Por vezes, pensando nisto e naquilo, chegamos a conclusões estranhas!

De acordo com as lei da física em geral e da óptica em particular, uma lente positiva – ou um sistema óptico positivo – formam uma imagem real, invertida e menor que o objecto.

Vem nos compêndios, aprendemos na escola e usamo-lo no quotidiano. Nas lupas, nas objectivas, no cristalino.

O que me leva a constatar que as imagens que temos e fazemos do mundo são, na sua essência original, o inverso do que pensamos e com que lidamos. Para chegarmos ao universo como o entendemos temos que inverter as imagens que produzimos, quer sejam a da câmara ou a do olhar.

Daqui que possa concluir, sem grande esforço, que o mundo que nos cerca e que constatamos com as imagens que construímos, é real, verdadeiro, muito maior do que o vemos e invertido à forma como o vemos.

Pergunto-me assim se, sendo o universo o inverso do que vemos, será que nós, seres humanos, temo motivos para assumirmos a importância que nos atribuímos?

E será que quando nos travamos de razões com alguém, o facto de vermos a vida de pernas para o ar não nos porá a ver o mundo com uma distorção diferente da do nosso interlocutor?

E vale a pena agredirmo-nos e matarmo-nos porque vemos e sentimos a vida do avesso?

 

Samsung S1060


By me

domingo, 15 de março de 2026

Cultura




Eis que me recordo de alguém que conheci que se candidatou ao cargo de realizador de televisão.

Na prova de cultura geral teve uma classificação de zero valores, da qual recorreu.

No recurso era argumentado que nenhuma das questões colocadas constavam num livro de cultura geral que havia estudado e que até sabia de cor.

Durante algum tempo este episódio era contado entre amigos e colegas, quando algum se sentia mais em baixo ou frustrado.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55

sábado, 14 de março de 2026

Escritas




Se pensarmos bem sobre o que fazemos, nós os fotógrafos, acabamos por chegar à conclusão que a nossa actividade funciona pela negativa.

Já nem falo, agora, na questão do enquadramento, em que com ele excluímos tudo o que nos cerca menos o que nos interessa. O sistema fotográfico assim nos obriga.

Falo, antes sim, que ao fotografarmos não estamos a registar a luz que nos agrada mas antes a modificação que ela sofreu. Quer seja por atravessar a atmosfera, quer seja porque algo se interpõe no seu caminho, quer seja a que é reflectida de um qualquer objecto ou ser vivo.

Não fotografamos a luz mas sim as suas consequências.

Tenho uma especial predilecção por fotografar empenas.

São telas grandes, impolutas de cores e irregularidades de formas, o local certo para que a luz, que não vemos, incida, se manifeste e nos mostre as alterações que sofre: as modificações de quando o sol está baixo no horizonte, atravessando mais atmosfera e materiais em suspensão; a reflexão na atmosfera, mostrando-nos um cor celeste tão breve quanto o pôr-do-sol; a interrupção no seu trajecto, feita pelos prédios vizinho, que reduz à bidimensionalidade fotográfica o que é de facto tridimensional…

Para todos os efeitos, sombras projectadas são fotografias, na medida em que é a escrita da luz que vemos.

Naquele dia atrasei-me no meu caminho, entretido que estive a ver aquele magote de gente jovem a desfrutar do jardim, do fim do dia e da antecipação de férias. Espraiados pela relva em pequenos grupos sentados nela ou não, cavaqueavam e riam-se por entre golos de cerveja barata com a displicência e alegria própria de quem ainda não entrou nas rotinas e obrigações laborais, parentais e horárias. Bom de ver, mesmo!

Quando decidi seguir e ir até a uma das minhas empenas favoritas constatei que era tarde: não chegaria a tempo de assistir à última fotografia ali exibida pelo sol.

Mas sendo que estava disposto a fotografar uma fotografia, escolhi outra: esta, que estava mesmo ali e que, fosse lá porque fosse, ainda não havia descoberto.

E se nós, fotógrafos, procuramos com a nossa parafernália tecnológica a perpetuidade do nosso trabalho, o universo, na sua eternidade, escreve breve e rápido, não se preocupando com conceitos estéticos ou tecnologias.

Gosto de empenas ao cair do dia. E de sentir, com a modificação das sombras, a nossa rotatividade. E a nossa brevidade.

Manias!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

sexta-feira, 13 de março de 2026

Zippo




Um dos meus muitos defeitos é o ter enorme dificuldade em deitar coisas fora. O que faz com que tenha um montão de coisas aparentemente inúteis em casa.

Quando deixei de usar os isqueiros Zippo para fumar, conservei tudo o que dessa marca tinha. Para além, claro, dos isqueiros. Torcidas, pedras, estojos, combustível...

As latas, estas três, estão por meio. Tinha uma em casa em uso, uma outra em casa de reserva e uma terceira no cacifo no trabalho. Assim como estavam, assim as guardei. Nunca se sabe se voltarei a usar os meus estimados Zippos.

Mas agora, considerando os tempos que correm e o que ainda têm dentro, pergunto-me quanto darão por elas numa casa de penhores.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4