quinta-feira, 16 de julho de 2026

Imitando




Se fosse de dia, se fosse uma lamparina e se não tivesse óculos, poderia dizer-se que estaria a fazer uma imitação de Diógenes, que assim procurava um homem honesto.

Não sendo nada disso, até porque é uma busca que já desisti de fazer, é apenas uma fotografia de noite, o estado luminoso em que se encontrava a rua na altura em que consegui terminar a reparação de uma coitada câmara que me foi pedido para fazer.

E se filosofia é, etimologicamente, a procura ou o amor ao conhecimento, então talvez eu seja um praticante, mas só talvez, que dá mesmo muito trabalho.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Color Finder




Não, isto não é uma imagem da frente e verso de um mesmo aparelho de medição de luz.

São dois fotómetros quase identicos: o mesmo fabricante, o mesmo sistema interior, o mesmo aspecto exterior, o mesmo nome. A única diferença está na parte de trás do aparelho.

Nela consta o que aqui se vê e a que o fabricante, Gossen, deu o nome de color finder.

Nos anos ’60, bem antes do digital, haveria que ter bem em conta qual a temperatura de cor existente no local. E se os profissionais, com mais poder de compra, tinham o caríssimos termocolorímetros, os amadores tinham este sistema engenhoso que, não sendo rigoroso, dava uma ideia aproximada.

Em olhando para as duas barras coloridas, uma continua, a outra dividida em pequenos quadrados, e colocando tudo isto sob a luz do assunto, um dos quadrados seria mais parecido visualmente com a outra barra. E a escala lida nos diria, mais ou menos, a temperatura de cor existente. Simples, pouco rigoroso mas bastante facilitador do trabalho.

Os sitemas electrónicos e os automatismos ou ajustes manuais de hoje não dão a mais pálida ideia do que era fotografar em côr há 60 anos.

Suponho que os aparelhos que possuiam o Color Finder seriam um pouco mais caros que os seus iguais sem tal acréscimo. E que menos se venderiam então. Por isso o não ser muito fácil de os encontrar à venda no mercado de  usados, pelo menos por cá. E fazia tempo que procurava um exemplar. Veio este agora.

O que acaba por ser interessante é que boa parte de quem vende fotómetros e que não é comerciante, é um aficionado pela fotografia ou um profissional. Indo mais longe, tenho três aparelhos que me foram vendidos por directores de fotografia que, por este ou aquele motivo decidiram “despachar” as velharias das gavetas. E, na sua maioria, ficaram mais que satisfeitos por fazer negócio com alguém que estima este tipo de equipamento, conhece o ofício e com quem pôde estar uns bons minutos de conversa sobre a actividade.

O prazer de uma coleção não está apenas na posse do que a constitui. Esse será um aspecto com menos de metade do peso. A satisfação está na caça e no encontrar das peças que se procuram e na aprendizagem que se pode obter conversando e ouvindo quem as vende. Essa é a verdadeira riqueza e não há dinheiro que a pague.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Um retrato - Inês

 



Acredito que muitos dos que usam a câmara fotográfica não entendam este prazer:

Estarem confrontados com uma situação a registar e fazê-lo com o ângulo de visão que têm disponível. Ajustando as diversas vertentes do acto fotográfico a essa objectiva. Ou, em alternativa, decidirem que querem esta ou aquela objectiva porque é a que tem as características que se desejam e colocá-la na câmara. A satisfação advém, neste caso, da decisão se verificar acertada.

Últimamente tenho andado com uma 85mm 1:1,9, numa câmara APS-C. É um ângulo de visão que se aproxima do meu natural, sendo quase uma extensão natural do meu olhar. Hoje, ao sair de casa, acrescentei ao saco, nem sei porquê, uma 35mm 1:3,5. Bingo!

Sentado na esplanada, retemperando forças da tarde longa que as minhas pernas já não são o que eram, ia contemplando a avenida, o seu movomento, as suas luzes.

Eis que fui surpreendido por uma mocinha (esta) que se sentou a uma mesa de distância mas que me surpreendeu: sentou-se de costas para a avenida e de frente para mim. Poderia ser lisonjeiro para com a minha pessoa, mas não era o caso.

E ficámos ali, eu de volta do meu bolo de chocalate, ela de volta do seu croissant, tentado cada um lidar com os pombos atrevidos que vinham pelas migalhas.

Já ela se afastava e acabámos por estar à conversa, agora partilhando mesa, sobre arte, críticos de arte, filósofos da imagem contemporânos e trocando sugestões literárias sobre os temas. Entenda-se que ela é estudante de artes nas vertentes teóricas, pelo que estes assuntos não lhe serão estranhos.

Mas não se foi embora sem me satisfazer a minha curiosidade: porque se havia sentado de costas para avenida, ao contrário de todos os demais que ali estavam. Queria ela isolar-se para poder pensar muito a sério. Não lhe perguntei sobre o quê.

Antes de levantar, o meu pedido sacramental: “Posso fazer-lhe uma fotografia?”, que anuiu.

Abençoei o momento, uns minutos antes, em que havia trocado a 85 pela 35. O trocar de objectiva é sempre um quebrar o momento do acordo tácito ou explícito com um desconhecido. Foi o que me saiu!

E para aqueles que defendem que a 35mm não serve para retrato, eis uma demonstração do seu contrário, pese embora a perspectiva próxima.

E eis também a demonstração que uma objectiva com mais de meio século completamente manual faz corar de vergonha algumas das modernas, com todos os seus automatismos e etc.

 

Pentax K7, Super Multi Coated Takumar 35 1:3,5


By me

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Velharias




Do ponto A ao ponto B na minha cidade natal, usando uma objectiva de 1967.

Praça de toiros do Campo Pequeno, ao cair da noite.

 

Pentax K7, Pentax Super Takumar 85 1:1,9


By me

Desvios




Quando, no decurso de uma viagem, encontramos indicação de desvio que nos força a tal, interpretamo-la como um incidente de percurso e continuamos, presumindo que se trata de algo inevitável mas temporário.

Mas se, na continuação dessa mesma viagem, constatamos que as placas de desvio se sucedem, erráticas e sem nexo aparente, começamos a colocar questões.

Será que embarquei na viagem certa?

Será que estou no veículo certo?

Será que chegarei a bom porto?

Será que chegarei a algum porto?

Será melhor sair nalguma escala?

Será que haverá alguma escala?

Adianta continuar numa viagem repleta de desvios e sem que saibamos que rumo temos ou mesmo se haverá rumo?

Por vezes, em viagens atribuladas e quase sem sentido, faz sentido arrear as velas, largar ancora, tomar a altura do sol, consultar o quadrante e pensar seriamente na jornada feita e naquilo que, eventualmente, teremos ainda p’la frente.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A bota da treta




Rígida, não caminha nem nunca caminhou. Mais ainda, apesar de amachucada, nunca foi calçada. E isto porque o seu interior, no lugar de vazio e pronto a receber um pé, é maciço, feito de loiça.

Como aliás toda ela.

Explicado num português com forte sotaque francófono, o seu vendedor da mesma cor da bota sempre me explicou que serviria, se o quiséssemos, como cinzeiro. E, como que para mo demonstrar, lá me mostrou a ranhura no calcanhar para segurar um cigarro a arder.

E, ao fim de tanto tempo com um olhar desperto para sapatos (botas, chinelos, pantufas e afins) abandonados na rua, não pude deixar de reparar que esta bota estava sozinha na banca de uma “feira” de ocasião, numa estação de caminho de ferro.

Não resisti e, não a podendo fotografar ali mesmo, comprei-a. Esta poderia não ter o par, mas não ficaria ali abandonada, no meio de tanta outra quinquilharia e artesanato senegalês.

Para minha tristeza e talvez porque sou ingénuo, mal me tinha afastado e outra ocupava o mesmo lugar.

Mas não pude deixar de dar uma gargalhada, ao constatar que também esta era do pé direito. Suponho que, por baixo da bancada, haveria um caixote cheio de botas de loiça, todas do pé direito.

E as do pé esquerdo? Onde estarão?

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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terça-feira, 7 de julho de 2026

Um clássico




Estava de férias em Lagos.

A família regularmente alugava a mesma casinha nos limites rurais da cidade e íamo-nos espraiar de manhã e à tarde para a meia praia.

Uma ocasião vi um glorioso carro dos anos 50 estacionado na avenida marginal. Impecável, parecia acabadinho de sair da fábrica. A seu lado, uma pequena palmeira no passeio. Mais ao fundo, a muralha de pedra do porto e o céu azul.

Este conjunto sugeriu-me uma imagem a fazer, desde que com a luz no ângulo certo. Feitas as contas e olhada a bússola, seria pelo meio-dia.

Uns dias depois, tendo o céu a limpidez adequada, parti descendo a colina, carregado com a câmara, as ópticas, os filtros, o tripé… toda a parafernália. Havia que chegar ao local a tempo de apanhar o sol na posição certa.

A meio caminho sou interpelado por um casal de velhotes que caminhava em sentido inverso:

“- Olá, como está?

- Desculpem mas… conheço-vos?

- Não se lembra de nós?

- Confesso que não. Querem ajudar-me?

- Em Coimbra, junto à Sé velha, há uns anos… Aquela fotografia que nos tirou…”

Recordei-me então e ficámos um niquinho à conversa.

Reformados que estavam, aproveitavam quando estava bom tempo para passear e conhecer o país como não tinham podido quando jovens.

E, à medida que iam viajando, iam fotografando o que viam, enquadrando-se ora um ora outro na imagem. Tinham uma única fotografia de ambos desses passeios: Aquela em que eu me tinha oferecido para fazer com a câmara deles, em Coimbra, aquando de uma das minhas peregrinações ao Encontros de Fotografia.

Apenas uma, de milhares que tinham. Apenas uma que os mostrava aos dois. Partilhando os Outonos amenos da vida e de Coimbra.

A minha oferta, tão natural quanto um copo de água, marcou-os indelevelmente. Aquela fotografia não é uma fotografia para eles:

É “A” fotografia.

Confesso que na altura já nem me recordava do facto. E, não fora eles, nem nunca mais o recordaria, de entre muitas situações semelhantes vividas.

E esta fotografia, que nunca vi, é uma daquelas que consta do meu álbum de recordações. Não como um ponto de viragem, mas mais como um parágrafo no livro que vamos escrevendo e a que chamamos vida.

Quanto à foto do carro? Bem, a hora de verão está atrasada em relação à solar, pelo que cheguei demasiadamente tarde nesse dia. Voltei lá mais tarde, mas não consegui dar-lhe aquele ar retro-californiano que queria.

 

Não adianta imitar. Há que ser espontâneo e generoso na fotografia, tal como na vida.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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domingo, 5 de julho de 2026

Era uma mocinha esperta




Estava numa feira de velharias e artesanato. O sol ainda não tinha aquecido a sério e prometia vir a estar bravo. Por isso, eu estava mais ou menos  com pressa, a tentar fechar negócio sobre um fotómetro Sverdlovsk 4 que ali estava à venda.

Mas não deixava de estar alerta com os demais visitantes. Nunca se sabe o que aparece. E apareceu!

Entre as pessoas que se aproximavam, duas mocinhas. Uma delas com duas câmaras penduradas no ombro esquerdo. Estranhei e esperei que se aproximassem para melhor perceber. Uma era esta e saí-lhe ao caminho.

Turistas, não sei de onde, acabámos por estar à conversa sobre a bela da Pentax. Herança do avô, tudo funcional excepto o fotómetro, mesmo com pilha. Mostrou-ma e não era de todo a correcta.

Lá estive a explicar-lhe que pilha deveria usar e onde comprar, mesmo que sem garantias de o fotómetro estar funcional.

Mas disse-me que usava a regra do f/16 e que, quando tinha dúvidas, usava a digital para medir a luz. Esperta, a mocinha.

Elas lá foram no seu passeio turístico, mesmo que escaldante. E eu fiquei com o registo de uma Pentax em uso na cidade de Lisboa, coisa cada vez mais rara.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-FA 28-200


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Estava muito calor




Pentax K7, Sigma 70-300


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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Suportes




Eu tinha 17 anos.

Pôs-se a possibilidade de ir em viagem de finalistas a Londres. A família não era abastada, longe disso, e não havia dinheiro para tais aventuras, mas com boas-vontades daqui e dali a coisa compôs-se. Incluindo a ajuda da família da minha namorada, que queria que eu fosse com ela.

O que não havia era como fazer o “para mais tarde recordar”. Eu tinha uma câmara desde os doze anos, mas fazer fotografia era caro e estava parada havia muito tempo. E era muito fracota. É muito fracota, que ainda a possuo.

Um parente decidiu chegar-se à frente e emprestar-me a sua. Recordo que era uma SLR mas não a marca. E possuía uma 50mm, mais que suficiente para os registos, digam hoje o que disserem sobre zooms e edições posteriores.

No dia em que me foi entregue (recordo o local exacto, a luz, a sombra da frondosa árvore, a mesa e os bancos de pedra) foi-me dada uma recomendação, entre outras, que não esqueci até hoje:

“Toma cuidado que ela só faz fotografias a cores!”

Quem ma emprestou já morreu, que o episódio é velho. As fotografias que fiz foram a cores e estão algures no arquivo, numa caixa que não sei qual. Já não olho para elas há anos e tenho a vaga memória de estarem rosadas, naquele tom de fotografias coloridas e mal processadas, em que a luz e a humidade são carrascos impiedosos.

E nunca virei a saber se esse meu primo, bem mais velho que eu, estaria a falar a sério se na brincadeira. Segui as suas indicações mas, na minha enorme ignorância sobre fotografia, aquela recomendação nunca me convenceu por aí além.

Anos mais tarde, já a fotografia fazia parte integrante da minha vida, disse-me uma senhora numa loja de fotógrafo em Castelo Branco que os rolos em Preto e Branco já não se fabricavam. E que não tinham. E eu, que tinha esgotado os que havia trazido de casa naquelas férias vadiando pelo país, acabei por ir comprar num dos outros poucos fotógrafos que a cidade tinha, ainda que tivesse penado para o encontrar.

Talvez que tivessem andado juntos na escola, aquela senhora e aquele meu primo, ainda que a geografia não o indicasse.

Vadiei pelo Preto e Branco durante anos. Porque o laboratório era meu, porque bem mais barato, porque o Ansel Adams era (e é) um mestre a tentar imitar.

Mas percebi, a dado passo, que o suporte e a técnica têm que ser usados em função daquilo que queremos transmitir e não podem ser limitadores do que queremos fazer.

Tenho para mim que a vida é a cores, que reagimos a elas como os cães aos cheiros, e é isso e dessa forma que quero mostrar.

O monocromatismo é apenas uma dessas formas.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


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