segunda-feira, 23 de março de 2026

Histórias velhas




À época não havia onde aprender o ofício. Aliás, só uma empresa tinha profissionais na área, já que era a única em Portugal que tinha aquele tipo de ramo: televisão.

Dos que passaram nas provas de admissão alguns de nós fomos admitidos ao curso de formação que nos daria as bases. Três meses de teóricas e dois meses de práticas. Na primeira parte seis horas por dia com diversos formadores em sala de aula, sem autorização de acedermos às áreas técnicas.

No primeiro dia de prática fomos recebidos no estúdio por três consagrados operadores de câmara. Daqueles cujo nome era de encher a boca.

Depois das apresentações, convidaram-nos a por em prática algo que haviamos aprendido das teóricas: executar um traveling. Por outras palavras, movimentar uma câmara para a frente ou para trás ou para os lados sempre com imagem útil.

Os que encheram o peito e foram mostrar as suas habilidades ou capacidades, ficaram todos de orelha murcha, já que nenhum foi capaz de o fazer, mesmo sob o sorriso irónico desafiante dos formadores.

Após o fiasco, um deles agarrou-se ao tripé e à câmara e quase que dançou uma valsa com ela, com uma suavidade e perfeição impressionantes.

Acabada a demonstração disseram-nos que no final do curso saberiamos fazer aquilo assim (ou lá perto) e que o truque ou técnica não estava (e não está) na força mas no jeito de o fazer. E isso aprende-se. Aprendemos.

Anos mais tarde sorria eu ao ver recém chegados, vindos de escolas profissionais ou mesmo já com experiência, a não serem capazes de fazer aqueles movimentos de câmara com suavidade, agarrando-se com força aos pedestais, coisa muito mais fácil de manobrar que um tripé.

Explicava-lhes então eu que aquilo se faz com quatro dedos: dois para o pedestal e dois para o punho da câmara. E que é fácil, muito fácil. E demonstrava.

Dava-me um prazer imenso ver como os seus olhos se abriam de espanto (mesmo os de alguns já com experiência) ao perceberem que afinal aquilo é quase manteiga, desde que se saibam os truques ou técnicas.

Terminava eu com a explicação dos motivos da física e da dinâmica que justificam essa facilidade. E essa é a “pedra de toque”. Perceber o porquê das coisas funcionarem. Permite bem fazer aquilo que se sabe fazer e aplicar esse conhecimento a situações novas ou diferentes, facilitando e melhorando a sua execução.

Os que não se preocupam em saber o que está para além do botão ou do manípulo nunca serão algo mais que repetidores ad nauseam das mesmas tarefas, incapazes de criar ou improvisar. A menos que se seja um génio, coisa rara de encontrar.

Isto é válido para imagem, culinária ou astronautica.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

domingo, 22 de março de 2026

Amor/ódio




Há tarefas com as quais tenho uma relação amor/ódio em que o ódio prevalece. Um bom exemplo é o emparelhar meias.

Com o passar dos anos acabei por encontrar uma solução que me evita ter que o fazer: desfiz-me das meias que tinha, novas ou velhas, e comprei vários pares de meias iguais. Todas iguais no tecido, na cor, no padrão. Assim, quando as tiro do varal onde secaram depois de lavadas, vão a monte para a gaveta. E quando vou por meias lavadas basta-me meter a mão e tirar duas. Sei que serão iguais.

Mas há outras tarefas que não podem assim ser tratadas. Implicam tempo disponível, disposição para as executar e tranquilidade no fazer. Um bom exemplo é o limpar o sensor de uma câmara digital.

Sabemos que o sensor é uma parte delicada da câmara e que qualquer poeira se nota na imagem final. E que qualquer risco no sensor é o seu fim. Por saber da delicadeza da tarefa, de que não gosto pela dose risco que implica, faço-a apenas em último recurso e quando me sinto suficientemente tranquilo para tal. Foi o caso.

Sentado à mesa de trabalho do “estúdio”, o local tão imaculamente limpo quanto o possível, deito mãos à obra. Cavidade da câmara limpa antes de expor o sensor, espátula de limpeza retirada do invólucro estéril e devidamente humedecida, faço a primeira passagem. A meio da segunda passagem, em sentido inverso, aconteceu o mais improvável: fiquei sem energia elétrica.

Não que processo implique eletricidade. De preferência até não, para evitar estáticas. Mas convém que eu veja o que estou a fazer, principalmente quando estou a intervir no sensor. E ficar às escuras com a espátula nele encostada será algo de todo não recomendável.

Consegui retirar a espátula da cavidade sem com ela tocar o que quer que fosse e desliguei a câmara. Às escuras fui em busca de uma luz alternativa e tratei de aguardar tranquilamente pelo regresso da energia. O que não demorou mais de meia hora.

Mas, ali mesmo quase às escuras, fiz uma jura solene: de agora em diante ou faço esta limpeza de dia, perto de uma janela, ou faço-a à luz de baterias devidamente carregadas. Sempre evito o susto, o risco e o soltar uns valentes palavrões.

Nota adicional: o sensor ficou incólume.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

quarta-feira, 18 de março de 2026

Imagem




Hoje fui tratado de um modo quase indigno: fizeram-me uma imagem!

É verdade que foi sugerida e eu aceitei mas, no final, nem ma mostraram e muito menos se proposeram dar-ma ou enviar-ma. “Tá feito, tá feito, venha outro!” como se eu estivesse na rua a acender um cigarro e viesse alguém com uma câmara apontada para mim.

Pior ainda: desnudei-me a pedido para a imagem.

Não que isso me incomode por demais. Nunca fui exibicionista ou envergonhado. Menos ainda com esta idade. No entanto, caramba: um tipo que se desnuda assim sem preconceitos perante a máquina merece um pouco de consideração. No mínimo deixarem-me ver aquilo que eles viram em mim que justificou o quererem fazer uma imagem. Mas não: nadica de nada.

Quando vim embora, vinha de mãos a abanar. Enfim, não completamente porque, liberto das restrições óbvias, vinha com um cigarro aceso, bem seguro por via da ventania.

Mas na minha cabeça ainda ressoavam aquelas palavras de antanho, que se repetem e que quase todos bem conhecem: “Encha bem. Não respire. Pode respirar.”

Saudades dos tempos em que ficávamos com o positivo em papel, à saída do fotógrafo. Ou a chapa em negativo à saída do consultório de RX.

 

Olympus C3030Z


By me

terça-feira, 17 de março de 2026

Imagem e realidade




Por vezes, pensando nisto e naquilo, chegamos a conclusões estranhas!

De acordo com as lei da física em geral e da óptica em particular, uma lente positiva – ou um sistema óptico positivo – formam uma imagem real, invertida e menor que o objecto.

Vem nos compêndios, aprendemos na escola e usamo-lo no quotidiano. Nas lupas, nas objectivas, no cristalino.

O que me leva a constatar que as imagens que temos e fazemos do mundo são, na sua essência original, o inverso do que pensamos e com que lidamos. Para chegarmos ao universo como o entendemos temos que inverter as imagens que produzimos, quer sejam a da câmara ou a do olhar.

Daqui que possa concluir, sem grande esforço, que o mundo que nos cerca e que constatamos com as imagens que construímos, é real, verdadeiro, muito maior do que o vemos e invertido à forma como o vemos.

Pergunto-me assim se, sendo o universo o inverso do que vemos, será que nós, seres humanos, temo motivos para assumirmos a importância que nos atribuímos?

E será que quando nos travamos de razões com alguém, o facto de vermos a vida de pernas para o ar não nos porá a ver o mundo com uma distorção diferente da do nosso interlocutor?

E vale a pena agredirmo-nos e matarmo-nos porque vemos e sentimos a vida do avesso?

 

Samsung S1060


By me

domingo, 15 de março de 2026

Cultura




Eis que me recordo de alguém que conheci que se candidatou ao cargo de realizador de televisão.

Na prova de cultura geral teve uma classificação de zero valores, da qual recorreu.

No recurso era argumentado que nenhuma das questões colocadas constavam num livro de cultura geral que havia estudado e que até sabia de cor.

Durante algum tempo este episódio era contado entre amigos e colegas, quando algum se sentia mais em baixo ou frustrado.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55

sábado, 14 de março de 2026

Escritas




Se pensarmos bem sobre o que fazemos, nós os fotógrafos, acabamos por chegar à conclusão que a nossa actividade funciona pela negativa.

Já nem falo, agora, na questão do enquadramento, em que com ele excluímos tudo o que nos cerca menos o que nos interessa. O sistema fotográfico assim nos obriga.

Falo, antes sim, que ao fotografarmos não estamos a registar a luz que nos agrada mas antes a modificação que ela sofreu. Quer seja por atravessar a atmosfera, quer seja porque algo se interpõe no seu caminho, quer seja a que é reflectida de um qualquer objecto ou ser vivo.

Não fotografamos a luz mas sim as suas consequências.

Tenho uma especial predilecção por fotografar empenas.

São telas grandes, impolutas de cores e irregularidades de formas, o local certo para que a luz, que não vemos, incida, se manifeste e nos mostre as alterações que sofre: as modificações de quando o sol está baixo no horizonte, atravessando mais atmosfera e materiais em suspensão; a reflexão na atmosfera, mostrando-nos um cor celeste tão breve quanto o pôr-do-sol; a interrupção no seu trajecto, feita pelos prédios vizinho, que reduz à bidimensionalidade fotográfica o que é de facto tridimensional…

Para todos os efeitos, sombras projectadas são fotografias, na medida em que é a escrita da luz que vemos.

Naquele dia atrasei-me no meu caminho, entretido que estive a ver aquele magote de gente jovem a desfrutar do jardim, do fim do dia e da antecipação de férias. Espraiados pela relva em pequenos grupos sentados nela ou não, cavaqueavam e riam-se por entre golos de cerveja barata com a displicência e alegria própria de quem ainda não entrou nas rotinas e obrigações laborais, parentais e horárias. Bom de ver, mesmo!

Quando decidi seguir e ir até a uma das minhas empenas favoritas constatei que era tarde: não chegaria a tempo de assistir à última fotografia ali exibida pelo sol.

Mas sendo que estava disposto a fotografar uma fotografia, escolhi outra: esta, que estava mesmo ali e que, fosse lá porque fosse, ainda não havia descoberto.

E se nós, fotógrafos, procuramos com a nossa parafernália tecnológica a perpetuidade do nosso trabalho, o universo, na sua eternidade, escreve breve e rápido, não se preocupando com conceitos estéticos ou tecnologias.

Gosto de empenas ao cair do dia. E de sentir, com a modificação das sombras, a nossa rotatividade. E a nossa brevidade.

Manias!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

sexta-feira, 13 de março de 2026

Zippo




Um dos meus muitos defeitos é o ter enorme dificuldade em deitar coisas fora. O que faz com que tenha um montão de coisas aparentemente inúteis em casa.

Quando deixei de usar os isqueiros Zippo para fumar, conservei tudo o que dessa marca tinha. Para além, claro, dos isqueiros. Torcidas, pedras, estojos, combustível...

As latas, estas três, estão por meio. Tinha uma em casa em uso, uma outra em casa de reserva e uma terceira no cacifo no trabalho. Assim como estavam, assim as guardei. Nunca se sabe se voltarei a usar os meus estimados Zippos.

Mas agora, considerando os tempos que correm e o que ainda têm dentro, pergunto-me quanto darão por elas numa casa de penhores.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


quinta-feira, 12 de março de 2026

Talvez Nelson




Hoje tive que ir ao centro da cidade. Àquele espaço a que chamam de Rossio mas que, na verdade, tem o nome de praça D. Pedro IV. A esse respeito, aliás, há uma história curiosa sobre a estátua que a encima, mas fica para outros contos. O certo é que a loja que vende aquilo que procurava fica-lhe nas imediações.

Feito o negócio voltei a atravessá-la, desta feita para ir a uma outra. Não teria que ser exactamente aquela, apenas era a farmácia mais próxima. Comprei o que necessitava, deixando lá ficar o saco de plástico que me queriam impingir, atravessei meia praça e sentei-me.

Faz tempo que não usava o meu tempo naqueles bancos e fui-me deliciando com um passatempo muito meu: adivinhar à distância a nacionalidade de quem por ali está. É divertido, ainda que nem sempre tenha oportunidade de o confirmar.

Estava nestes entreténs e sou abordado. Com muita educação, com um “boa tarde” e um “desculpe” inicial e um “faz favor” de permeio, pede-me uma moeda de auxílio. Não resisti!

Enquanto que uma das minhas mãos rebuscava o bolso do colete em busca das que lá estivessem, atirei-lhe: “Até que enfim que oiço falar português aqui no Rossio!”

Sorriu de orelha a orelha e retorquiu-me: “Sabe, venho a descer a pé a avenida desde o Marquês e é só gringos!” (O seu sotaque era de terras de Vera Cruz) “Nem eles me entendem nem eu os entendo. E hoje, tal como ontem, isto está muito vazio.”

Eu já me tinha apercebido da escassez de gente, apesar do dia sorridente e bonito, e concordei. “Deve ser das tempestades e do frio que se tem sentido.”, concluiu ele.

Trocámos mais umas banalidades sobre o tempo, mostrando-me ele o pesado casaco amarelo berrante que tinha para quando o sol se escondesse, e preparava-se para continuar a sua rotina de abordagens a transeuntes.

Mas não resisti e, mesmo com a 40mm que tinha na câmara, pedi–lhe por um retrato. Este.

Acedeu mas estranhou quando lhe sugeri que mudássemos de posição para que não ficasse com a parede de fundo cheia de sol. A sua desconfiança manifestou-se na sua expressão, que se desvaneceu com um sorriso quando depois a viu.

Seguiu ele para o lados de um fast-food das imediações, onde as pessoas são mais generosas, e eu voltei para o banco de pedra, para dar mais um momento de tranquilidade às minhas amigas que vivem nas minhas ancas.

Uma hora e muito depois, já sem luz para fotografar, levantava-se uma aragem fria e eu conseguia imagina-lo a envergar o casaco antes de regressar ao local onde pernoitaria.

Fica o retrato de alguém a quem não perguntei pelo nome mas a quem posso apelidar de Nelson.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8

 

 By me

Certezas




Há que saber dizer “Não” com tanta veemência que o próprio “Sim” se envergonhe de existir.

Mas também há que saber usar o “Sim” com tanta vontade, que o “Não” se encolha de medo.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

quarta-feira, 11 de março de 2026

Crimes domésticos

A limpeza de minha casa é feita por uma senhora contratada para o efeito.

Damo-nos bem, é eficiente no que faz e a quase única restrição ao seu trabalho é o espaço a que chamo pomposamente de estúdio. É o espaço que, regra geral, é usado como sala de estar e de refeições num apartamento normal mas que, e por ser a de maior área, foi desde logo reservada para o efeito. E a restrição é simples: deste espaço cuido eu!

Não que tenha algum receio por questões de segurança, mas porque os acidentes acontecem a qualquer um e uma vassoirada num tripé de iluminação ou quejando seria um desastre.


Quanto ao resto da casa deixo-a trabalhar à-vontade, deixando eu o escritório livre quando toca a vez dele. Não nos atrapalhamos.

Da última vez que cá esteve eu ía ficando com os cabelos em pé.

Estava ela a cuidar do pó no escritório e eu tive que lá ir em busca já nem sei de quê. E em cima de uma das pilhas de livros que lá tenho por já não caberem nas estantes (por ler, já meio lidos, a reler ou de consulta) havia ela colocado uma embalagem de limpar vidros. Mesmo em cima da capa de um deles.

Não lhe disse nada, apenas ficando uns segundos na porta a ponderar o que fazer. Aproximei-me do lugar do crime, peguei na embalagem e tratei de a colocar diretamente no tampo da mesinha onde se encontravam. E levei comigo o bendito livro, na esperança de poder reparar algum dano que pudesse ter havido. Não havia, por sorte, e a capa com fotografia impressa estava incólume.

Eu sei que a culpa é parcialmente minha, pois nunca lhe disse que em cima de livros apenas se colocam livros. E deixar uma marca de produto químico num livro é uma acto tão criminoso quanto o deixar cair uma câmara. Ou mudar de objectiva no meio de uma tempestade de areia. E a estima que tenho por livros só é suplantada pela estima que tenho ao equipamento fotográfico. É que tanto uns quanto os outros me permitem viajar ou fazer outros viajar por outros mundos ou realidades.

E vou passar a estar de olho sempre que ela for trabalhar para o escritório.

Nota – A imagem aqui exibida não é a do “crime” mas apenas uma reconstituição, com a segurança de ter colocado sob a embalagem algo onde se ficar uma mancha me é indiferente.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

By me