segunda-feira, 25 de maio de 2026

Photographia – Fazer amor ou praticar sexo




Eu estava naquela galeria, a ver fotografias e a conversar com o autor. A certa altura, perguntou-me porque é que eu carregava todo aquele equipamento: uma mala pesada, cheia de coisas, e o meu monopé pendurado na alça da mala ou preso à mão.

Não me recordo da minha resposta, mas suponho que refletia a minha vontade de poder fotografar o que quisesse e estar preparado para isso, sem depender das limitações de uma pequena câmara de bolso. Mesmo que eu sempre tenha defendido que podemos fazer fotos boas ou satisfatórias com qualquer câmara, desde as mais sofisticadas até aquelas câmaras "pinhole" que estão um pouco na moda hoje em dia. Desde que conheça os seus limites e saiba usá-los bem.

Anos mais tarde, comprei uma câmara com um telemóvel acoplado. Uma boa câmara, com uma boa objectiva, é só apontar e disparar. Quase que "à prova de idiotas". O meu objetivo era praticar com uma câmara de focagem fixa e impor-me a prática da perspetiva, a irmã “pobre” das objetivas zoom atualmente.

Mais recentemente, comprei uma câmara de bolso. Objectiva muito boa, boa resolução, fácil de usar e o mais leve possível. E sempre pronta a usar, pendurada no meu cinto o tempo todo, como arma de reserva. Um bonito caderno de apontamentos fotográficos.

Se alguém me fizesse hoje a mesma pergunta a minha resposta seria diferente: gosto de fazer amor, não apenas de sexo.

Com a minha câmara reflex, digital ou analógica, posso abraçá-la, encostar o rosto nela, acariciá-la no anel de focagem ou zoom, tocá-la suavemente onde ela reage, tendo uma reação suave, sob a forma de uma fotografia.

Com a câmara do meu bolso ou do telemóvel, apenas apontamos e disparamos, e pronto. Nem sequer dá para lhe tocar, uma vez que o visor precisa de ser visto a uma distância de, pelo menos, 25/30 cm. Não há envolvimento romântico entre câmara, fotógrafo e modelo, não há "preparativos" nem "aquecimento". Só sexo, não amor!

Acredito que as fotografias são criadas na nossa mente, com as lentes dos nossos olhos. E tudo o resto, desde o enquadramento e a medição da luz até todas as tarefas de pós-produção (edição, impressão, emolduramento e assim por diante), são apenas as necessidades técnicas para satisfazer essa necessidade ou criação. Etapas necessárias para materializar a nossa imaginação!

Mas todo este processo também faz parte da diversão. Precisamos de nos divertir no trabalho, ou ele tornar-se-á uma obrigação. E ninguém gosta de obrigações!

Há uns tempos fotografei uma família com a minha câmara fotográfica "antiga". Um casal e duas crianças. A mulher tinha o sorriso mais bonito que já vi, brilhante, contagiante, cativante! Fiquei tão fascinado que, como caçador de imagens que sou, desejei ter aquele sorriso, quase que como um troféu.

Mas, nesse dia, fui para essa sessão fotográfica com uma versão mais leve, levando comigo apenas a câmara fotográfica antiga falsa com o seu tripé de madeira e a minha câmara de bolso, presa ao cinto. E nenhuma delas seria capaz de fazer o retrato que ela merecia.

A câmara "antiquada" precisa de estar no tripé, não só por causa do peso, mas também por causa do formato: quadrado e grande.

Quanto à câmara de bolso, a zoom tem apenas 5x de ampliação. Não conseguiria captar apenas o rosto dela, a não ser que me aproximasse demasiado, sendo invasivo. Por outro lado, a ausência de um para-sol impedir-me-ia de utilizar a forte luz de fundo do sol baixo como eu gosto. Nem mesmo a minha mão a fazer essa função resultaria, uma vez que a câmara não tem a distância focal necessária e eu teria sempre reflexos indesejados.

Se lhe pedisse para fazer um retrato daquele sorriso encantador, ou não conseguiria o enquadramento certo ou a iluminação seria fraca. E não pedi!

Não seria um ato de amor, aquela foto! Seria apenas sexo.

Talvez, um dia, estejamos todos juntos, ali ou noutro lugar qualquer. E estarei pronto para aquele sorriso com a minha Pentax, deixando a minha câmara de bolso no cinto ou em casa.

Quanto a esta fotografia, foi um acto de amor, enquadrando, brincando com a luz, a perspectiva e a profundidade de campo. E utilizando a minha Pentax K100D com a objectiva Sigma 70/300 a uma distância confortável. Mesmo que o sol não estivesse tão baixo como eu gostaria.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 23 de maio de 2026

Genealogia




Gostaria de vos apresentar as velhotas que comigo residem.

Há que lhes dar valor, mesmo que as novas gerações de câmaras as empurrem para um canto. No entanto, sempre gostaria de ver os jovens fotógrafos de hoje a fazerem tão belas fotografias como elas fizeram, com meios tão “rudimentares”.

Como lhes dou valor, volta e meia abro-lhes as porta, descem da vitrine e mostram-se, procurando na vitrine do lado a objectiva que mais lhes agrada. E ficam sempre algumas de fora.

Apresento-as: da esquerda para a direita, em cima: S1a (1962), SP 1000 (1973), S2 (1959), ES II (1973).

Em baixo, também da esquerda para a direita: SP (1964), S1 (1961), SV (1962).

Quanto às objectivas, e para não ofender as ausentes, não referirei nenhuma destas, apenas dizendo que variam entre 28mm e 200mm.

Para os mais atentos e conhecedores da matéria, alerto que há um elemento “penetra”, que não pertence a esta família. Mas gosto tanto dele, e sendo de época, que não resisti a inclui-lo. E em todas as fotografias de casamento há sempre alguém que ninguém conhece, não é? Fica o desafio de o nomearem e, se possível, identificarem.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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Privilégios




Podemos negar, inventar, justificar, contextualizar… podemos um montão de coisas menos apagar os factos.

E o certo é que no início dos anos 90 parava junto ao local onde trabalhava um carro que no vidro de trás tinha um autocolante com os seguintes dizeres:

“Quando deus criou o mundo, devia estar louca”

É meu privilégio poder dizer que trabalhámos juntos até eu me deixar disso.

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 22 de maio de 2026

O cota barbudo e os seus discursos inflamados




Tal como a maquinaria, também o corpo humano se vai gastando. E, de quando em vez, vá de ir fazendo testes: para confirmar aquilo que já se sabe ou para descobrir novas maleitas. Hoje foi dia disso.

Ao entregar a papelada perguntei quando estariam prontos, ao que me disseram que enviariam os resultados por correio eletrónico. Mas que se os quisesse impressos, que estariam disponíveis no dia 3.

“No dia 3?! Mas é dia de greve geral!”

“Pois é, mas eu venho de carro e não uso o comboio.”

“Mas o problema não é os comboios estarem parados. A questão mesmo é vocês virem trabalhar nesse dia.”

“Ah, bem, sabe como é...”

“Sei, ou acho que sei. Eu não faço greve porque já não estou no activo. Mas farei questão de nada fazer que dependa do trabalho de alguém que nesse dia não está de greve. Mas ao não fazerem greve, mesmo que estejam a não se incompatibilizarem com quem vos emprega, estão a não acautelar o vosso futuro. Em muitos aspectos importantes. Até no assegurarem o vosso posto de trabalho actual. Informem-se e actuem! Virei na quinta-feira, dia 4!”

Calei-me para mudar de posição. Que a minha anca esquerda estava a dar sinal de si. E olhei em redor.

Além de quem me atendia, mais três funcionárias atendiam gente a querer tratar da sua saúde. E em frente delas, várias pessoas a serem atendidas.

Mas todas elas, com ou sem farda imaculada, estavam paradas e a olhar para mim, o tipo das barbas que assim falava, num tom em crescendo. Quando viram o meu varrer de olhar, fizeram de conta que estavam muito ocupadas e o silêncio que se tinha feito, apenas cortado pela minha voz, desfez-se como que por magia.

Com um pouco de sorte, uma ou mais daquelas pessoas se recordarão no momento certo daquele cota barbudo que, já pouco podendo fazer pelo seu próprio futuro, não desiste de lutar pelos futuros alheios. Com palavras e com actos.

 

Lumix DCM – DZ 60


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quarta-feira, 20 de maio de 2026

RP




É daquelas coisas que já chateia porque deixaram de ser discretas para serem insistentes. Muito insistentes!

As forças de segurança e investigação policial encetaram há não muito tempo uma campanha de relações públicas muito activa. Todos os dias, várias vezes ao dia, a imprensa e as redes sociais relatam situações de crime ou infração em que a psp, a gnr ou a judiciária estão envolvidas com sucesso. Detenções, investigações, apreenções... crime, infrações, família, tráfico, trânsito, dinheiro, violência...

Todos os dias, várias vezes ao dia!

Mas, e para além disso, contam-nos e mostram-nos imagens e relatos positivos, desde a graduação de novos efectivos, às fotografias “de encomenda” dos e das agentes sorridentes, as viaturas impecéveis e brilhantes de lavadas, as fachadas imaculadamente pintadas das instalações...

O trabalho de quem está à frente das relações públicas das forças policiais está bem e recomenda-se. Mas não abusem, que já chateia!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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terça-feira, 19 de maio de 2026

O terceiro grupo




Havia uma senhora, noutros tempos e noutras vivências, com uma muito forte conotação politico-partidária, que quando me via na sua secretaria com alguma das minhas reclamações, sugestões ou discursos mais inflamados, tinha uma frase sacro-santa:

“Lá está o professor JC com o seu feitiozinho soviético”.

Nunca lho levei a mal. Era difícil levar a mal alguma coisa daquela senhora, até porque raramente fazia algo por mal.

E, se outro motivo não houvesse, ela tinha razão. Eu tenho um feitiozinho soviético.

Soviético, Malaio, Hondurenho, Zairense, Tuga, o que lhe quiserem chamar.

Agora uma coisa eu garanto:

Quando me chamam para engrossar fileiras e eu vou e acabo por ouvir e sentir um “nós e vocês”, é garantido que surge um terceiro grupo: os que estão fora.

E se não tiver mais ninguém, eu serei o presidente, o secretário geral, o presidente da assembleia-geral e farei quórum sozinho nas reuniões plenárias.

A dona Alice tinha razão: tenho um feitiozinho soviético!

 

Nikon Coolpix P7000


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Cada cor seu paladar




É verdade que sim: tenho uma quantidade razoável de pára-sois.

A maior parte deles adquiridos solitários, em feiras de usados e a preços menores que de saldo.

Eu explico.

Entendo que o pára-sol é peça fundamental da objectiva. Não apenas protege de luzes parasitas, evitando baixos contrastes ou reflexos internos indesejáveis, como protege a objectiva de acidentes. Já parti pára-sois com pancadas acidentais. Nunca uma objectiva. Acontece que alguns fabricantes e muitos utilizadores entendem-nos como acessórios não essenciais e, ou não os vendem com as objectivas, ou não os procuram para comprar junto com as objectivas. E no mercado de usados o mais comum é encontrar objectivas sem pára-sol.

Assim, quando encontro à venda um modelo que não tenha, levo-o comigo. E sabemos como os pára-sois são “esquisitos” nas suas características: tamanho, forma e fixação.

Guardo as objectivas sem pára-sol, estando colocados apenas nas que uso com frequência, excepto os dedicados em forma de pétala. Quando acontece ir buscar uma menos usada, passo pela gaveta e encontro um que faça a função, seja ou não da marca.

Alguns dificilmente os usarei, já que duvido que alguma vez venha a ter uma objectiva que o use. Principalmente quando a minha preferência é Pentax. Mas já tenho oferecido a quem procura e não encontra o certo para a que tem.

Estão ali quietinhos, fora de vista e guardados numa gaveta. À espera de serem usados e protegerem as fotografias que faço. Se elas são boas ou não, isso é outra história.

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

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domingo, 17 de maio de 2026

O outro lado


 

No seu filme “Yi-Yi”, premiado em Cannes em 2000, Edward Yang presenteia-nos com algumas preciosidades.

Desde logo o como fazer enquadramentos verticais usando um formato horizontal. Delicioso!

Mas, e o que me interessa neste caso, o ter colocado nas mãos de uma das principais personagens – uma criança – uma câmara fotográfica. De película.

O pai observa, posteriormente, as fotografias feitas e estranha a quantidade de imagens de gente de costas.

Quase no fim do filme, o catraio entrega ao tio uma fotografia contendo a respectiva nuca. E acrescenta:

“É para que vejas de ti aquilo que nunca vês.”

Fantástica, a ideia.

Efectivamente, é sempre interessante ver aquilo que crianças fotografam sem que lhes digam o que fotografar. O que lhes chama a atenção, a forma como enquadram, se já jogam ou não com primeiros planos…

E sendo certo que as crianças, em regra, aprendem por ver fazer e mimando o que vêem – os adultos ou iguais – parte daquilo que fazem é fotografar o que, de algum modo, chama a atenção dos outros.

Para os pequenos, com a sua relativização do tempo, a fotografia raramente é um registo para a posteridade ou “para mais tarde recordar”.

Fotografam porque aquele assunto, naquele momento e naquelas circunstâncias, lhes interessa.

E é essa a atitude que muitos de nós, fotógrafos entusiastas ou profissionais, temos: parte do nosso gesto de fotografar resulta da motivação de aquilo nos interessar naquele momento e naquelas circunstâncias.

É muitas vezes o factor “afirmação social” que nos leva, mais tarde, a recuperar essas imagens, mesmo que não muito bem feitas, e atribuir-lhes algum valor: documental, estético, comercial… Mostrar aos outros que, num dado momento e local, aquilo nos interessou. E como somos bons a registar aquilo que nos interessou, mesmo que o resultado não seja grande coisa.

Só os bons fotógrafos conseguem ultrapassar esta questão do “agora interessa-me” e fazer imagens que perduram no tempo.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Aprendiz




Há uns bons anos atrás, numa das minhas idas mais ou menos regulares a Barcelona, levei comigo uma sobrinha adoptiva.

Uns meses antes, aquando de um jantar com os seus pais, amigos de longa data, virei-me para ela e perguntei-lhe: “Como é? No verão queres ir comigo a Barcelona?”

Ficou a olhar para mim com cara de tola, os pais a rirem da brincadeira mas, nesse Setembro lá estivemos, 10 dias a ver e viver o possível para ambos.

Um dos locais onde não podia deixar de a levar foi o Museu Picasso. Ainda que não possua as principais obras do génio, cobre toda a sua vida, todas as suas fases, tendo, entre outros, muitos trabalhos da sua infância e esboços de trabalhos maiores e famosos.

No final, perguntei-lhe sobre o que mais havia gostado, entre o que tinha visto e aquilo que eu lhe tinha conseguido explicar.

A resposta foi bem clara, para quem tinha onze anos à altura: “Das pinturas de quando ele era criança e pintava como as pessoas!”

Vem esta estória a propósito de ver e ouvir dizer que não se gosta de regras e convenções.

Posso presumir – e saber – que Picasso, Miro, Dali e tantos outros, também não gostavam de regras e convenções e que, quando partiram para o seu estilo próprio e inovador, foi uma tentativa de quebra com todas elas.

No entanto, qualquer um deles dominava, ou tinha dominado, as formas de representação plásticas convencionais, de acordo com as regras estéticas em vigor.

Não apenas porque as estudaram e aprenderam como, querendo expressar os seus próprios sentimentos e emoções e que eles fossem entendidos por outros, tiveram que recorrer às convenções, códigos e regras existentes.

O que aconteceu foi que, a dado passo, se sentiram insatisfeitos com o que faziam, pois que não o interpretavam como representando o que lhes ia na alma. Partindo das convenções, começaram a inovar, variar, quebrar as regras e códigos estéticos instituídos até encontrarem uma outra linguagem. Onde eles próprios se reconhecessem e que outros, com sentimentos na mesma linha, os reconhecessem e aos seus sentimentos.

Por outras palavras, num círculo de comunicação restrito, criaram outras e novas formas de comunicação, com outras e novas regras e convenções.

Porque, na total ausência de regras e convenções, a comunicação não existe, já que quem vê não entende quem pinta (fotografa, compõe, filma, dança…)

Indo mais longe, o simples facto de nos exprimirmos define uma convenção ou regra, já que o seu autor convenciona ou define que aquele gesto, aquela cor, aquele som ou aquela organização de espaço corresponde a um dado sentimento seu. É um ícone ou a substituição de algo impalpável por algo material ou não, visível ou audível.

Aquilo que eu gosto de ouvir ou ler é, antes sim, que não se gosta destas regras ou convenções. Porque não satisfazem, porque não correspondem aos sentimentos ou porque representam uma geração com a qual se quer quebrar amarras e criar distância. Ou ainda porque essas regras ou convenções nos sufoca e prendem, aspirando nós a outros voos.

É isto que gosto de ler ou ouvir, principalmente se seguido por algo nesta linha:

“Não gosto disto, não me satisfaz, não me identifico com estas regras, convenções, linguagem! Vou partir e encontrar o meu próprio caminho, a minha própria forma de expressão, as minhas próprias regras, convenções, códigos!”

Quando oiço ou leio isto, a minha reacção é sempre a mesma: “ Aleluia! Mais um que aprendeu a pensar e que nos vai ensinar algo de novo! Deixa-me aprender contigo!”

Porque, enquanto por cá andar, serei sempre um aprendiz. E é tão bom!...

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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O sorriso noturno




O meu primeiro fotómetro foi um Sekonic. Para os mais rigorosos, um Sekonic Studio Delux L-28c.

O seu método de leitura preferêncial é o de luz incidente, pese embora também faça leituras reflectidas.

Pertence ele a uma série de aparelhos desta marca concebidos primordialmente para directores de fotografia de cinema e iluminadores de televisão e teatro e foi adoptado pelo mundo fora pelos respectivos profissionais.

O seu uso foi tão generalizado e com resultados tão positivos que, apesar de ter sido concebido em meados dos anos ’60, ainda hoje se vende ainda que com pequenas melhorias entretanto acrescentadas. Claro que para os que seguem as modas tecnológicas um aparelho cujo mostrador seja um ponteiro e não um ecrã digital é uma velharia desprezível, mas estão enganados.

Em qualquer dos casos, quando o comprei usado a um director de fotografia, não consegui encontrar o estojo com as lamelas ou slides que o tornam ainda mais versátil e prático de usar. Foi um desejo/sonho que fui alimentando ao logo de dezenas de anos, que só não foi sendo uma frustração porque me habituei ao que tinha.

Agora imaginem a minha satisfação ao descobrir há pouco que esta série de aparelhos ainda se fabricam e que o conjunto de lamelas ou slides também. Melhor ainda, que uma loja em Lisboa tinha esse estojo de lamelas à venda, novinho em folha. Ponderados os diversos factores – valor do negócio e importância do capricho – acabei por o ir buscar.

Não sou director de fotografia nem iluminador e o uso que darei a esta nova aquisição será mesmo diminuto. Mas o cumprir um sonho de mais de quatro décadas faz qualquer um adormecer com um sorriso nos lábios.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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