segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Tiranias




É teoria minha, faz muito tempo, que o conceito de “enquadramento” é uma tirania!

Por um lado, é o obrigar a que a imagem que queremos criar fique restrita aos limites do papel ou ecrã, obrigatoriamente excluindo o que não lá cabe e obrigatoriamente incluindo tudo o que é projectado pela objectiva.

Por outro lado, esta projecção é rectilínea (enfim, quase, já que também é ondulatória). E está obrigada a cumprir as regras da perspectiva e da geometria que, definida ou inventada pelo Homem actual, são adoptadas pelo consumidor, criador e fabricante de imagens como padrão. O que ou quem não as seguir é rotulado de disfunção ou erro, marginal, excêntrico ou louco.

Acrescente-se que consumidores de imagem, produtores de imagem e conteúdos e fabricantes de equipamentos se atêm a normas e formatos de imagem. Pela necessidade de produção de máquinas e suportes, pelas imposições das manchas gráficas nas publicações, pelas limitações de compatibilidade entre emissor e receptor nas telecomunicações, a actual sociedade de imagem técnica e mecânica está formatada. E o produtor ou o consumidor de imagem, levado pelo facilitismo, formata os seus conceitos estéticos por estas restrições, produzindo, aceitando ou consumindo imagens de acordo com estes padrões.

 

Enquanto elemento integrado na sociedade ocidental fui e sou formatado deste modo. Nascido nos anos cinquenta do séc. XX, a minha vivência visual foi objecto destes moldes e uniformizações, tanto em livros e periódicos, como na fotografia, como no cinema, como na televisão. Tem escapado a pintura e a arquitectura, mas estamos a falar de outras coisas. Os rectângulos em três por quatro, dois por três, dezasseis por nove, cinemascope, de ouro ou alguns outros, impuseram-se como formatos não apenas socialmente recomendáveis como também os únicos válidos.

Ao iniciar a minha actividade como produtor de imagem (fotografia, cinema, TV) não pude deixar de estar por isto mesmo influenciado. Culturalmente e por aquilo que me era exigido no ofício. A necessidade de as minhas imagens se integrarem num sistema de comunicação de massas, procurando que elas chegassem ao entendimento e aceitação do maior número possível de consumidores assim me levou a ser e fazer.

 

Mas, algures num tempo que não sei precisar, achei que estava peado. Se a minha produção de imagens profissionais tinha que seguir os cânones existentes, a minha satisfação com ela estava a diminuir. À medida que o tempo passava (passa) sinto que a rectangularidade e as proporções impostas não me satisfazem. Continua a haver limites no enquadramento a prenderem-me. Continuam a existir proporções formatadas a limitar-me.

No que ao vídeo e ao cinema diz respeito, pouco ou nada posso fazer. Não tenho poder, quiçá energia, para alterar o que quer que seja que me faça sentir mais livre na criação e comunicação.

 

Mas no que à fotografia toca…

Da existência de limites não posso fugir. Estou mesmo em crer que, a este respeito, os únicos realmente livres foram os nossos ante-ante-passados, com as suas pinturas rupestres e os nossos contemporâneos com os seus graffitis. Aplicam as suas imagens nas superfícies, independentemente das áreas ou limites desta. Se as imagens terminam antes dos limites, tanto melhor, senão, tanto pior. Não é este aspecto que condiciona.

Já no que às proporções diz respeito, a coisa muda de figura. Quando fotografo, excluo mentalmente do enquadramento do visor o que lá está que entendo estar a mais. Procuro que a perspectiva se ajuste aos centros de interesse e às relações entre eles, fazendo um enquadramento virtual em torno deles. Mais tarde, no processamento da imagem, ajusto as proporções da imagem em função do seu conteúdo e do que, na tomada de vista, imaginei.

O resultado? As mais das vezes é um rectângulo assumidamente horizontal, em que as proporções entre a largura e a altura são as necessárias e suficientes ao que tenho em vista. Conteúdo e mensagem. E se existir algum tipo de relação matemática entre uma e outra dimensão, é questão que não me perturba nem um pouco.

Se ao receptor das minhas imagens fotográficas agrada ou não esta abordagem, é uma questão que também não me tira o sono. Porque com as minhas imagens, as que faço para minha satisfação, não as faço para que sejam eficazes em termos de comunicação de massas mas, antes sim, para a minha própria satisfação. E esta não se prende com cânones, formatações culturais ou limitações impostas por fabricantes.

 

Pentax K100D, smc Pentax-M 50 1:17


By me

domingo, 1 de novembro de 2026

Câmara Bank



 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

 

Hoje




Se estive lá? Estive sim senhor!

Não tive coragem de me juntar aos demais no Chiado. As minhas pernas protestaram veementemente contra isso. Mas esperei pela multidão no Rossio, onde me mantive enquanto pude.

Deixei a câmara guardada no saco às costas e prestei atenção ao que era dito e quem lá estava. E disto retenho dois aspectos importantes:

A grande quantidade de cabelos grisalhos. Ao contrário do que nos querem fazer crer, aqui juntou-se gente de todas idades. Desde o estarem ao colo, porque ainda não sabem andar até gente que já tem dificuldade em andar. Até cadeiras de rodas ali vi, o que diz algo sobre os seus ocupantes.

O outro aspecto pertinente foi o que fui ouvindo, enquanto abancava nos bandos de pedra  para ganhar mais um tempinho. Dei pela presença de vários profissionais da educação, professores na sua maioria. Espalhados pelo largo do Rossio, em pequenos grupos de conversa.

Mas o que está acontecer com base na “crise da habitação” vai bem para além disso. Por um lado um braço de ferro entre a autoridade instituida e os cidadãos comuns. Por outro, o que se espera deste país quando os jovens ou não tanto, não possuindo um espaço a que possam chamar lar, não se sentem atraídos a serem pais. A explosão demografica, que já é negativa, transformar-se-à num descalabro.

Fica, em jeito de ilustração, uma fotografia feita com o telemóvel.

 

Samsung SM-A51F


By me

sábado, 31 de outubro de 2026

Bagas




Este é um texto fofinho para os que não gostam de outros bem mais sérios.

 

O Outono é a meia estação. Belo nas suas manhãs bem frescas mas dias tépidos, na sua luz baixa com tons lindos, antecipando as nuvens invernosas que as não deixarão ver, o cheiro da terra molhada com as primeiras chuvas… creio que todos gostam do Outono e eu não sou excepção.

E uma das coisas de que gosto nele são estas bagas.

Existem em variados matizes e os seus tamanhos oscilam, mas não muito, do que aqui se vêm.

As cores, fortes, vão compensando os castanhos e amarelos próprios da estação mas não enganando os insectos, que nunca os vi rondando-as.

Agora que eu as rondava quando pirralho, isso é um facto. Que o assalto que fazia (fazíamos), apesar dos espinhos, era implacável. Estas bagas tinham o tamanho certo para, inseridas nos brancos tubos das instalações eléctricas (também eles obtidos por via de por via de pilhagens), serem as munições certeiras para terríficas e sangrentas batalhas campais. Ou “aulais”, que nem dentro das salas de aulas as vítimas preferidas escapavam.

Ficam as memórias e fica alguma tristeza ao constatar que as bagas ali ficam durante tantas semanas. Ainda que nos alegrem a vista, a sua permanência é indiciadora que as batalhas de hoje se travam na virtualidade dos ecrãs, ficando de fora a sã convivência infanto-juvenil, mesmo que em campos opostos.

E que farão estes, quando adultos, se a não viveram quando crianças?

 

Desculpem o enviesar das ideias e o transformar um texto e imagem que se previam fofinhos para assuntos pesados, mas as palavras são como as bagas: vêm aos magotes e sem controlo.

 

Nikon Coolpix P7000

 

By me

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Premonições




Ele há coisas estranhas.

 

Durante uns anos mantive um projecto fotográfico, que ía executando quando tinha oportunidade: olhos. A esse projecto dei o nome de “Um olhar”.

O que acaba por ser engraçado é que durante uns dois anos foi exactamente isso que vimos dos outros, por via da pandemia. Nem nariz nem boca, só olhos, numa visão anormalmente larga e restricta por comparação com o “normal”. A mesma visão que esse meu projecto mostrava.

Terá sido uma premonição?

Um outro projecto fotográfico, ainda antigo mas em curso, é o de sapatos abandonados na rua, em particular sapatos solitários. Convenhamos que não será coisa comum de encontrar, mas tenho já uma razoável colecção de imagens de todo o tipo de calçado nestas condições.

Fica-me uma pergunta: será isto uma premonição de quê?

 

Panasonic DMC-TZ60

 

By me

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Por antecipação




 Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

Esta é uma fotografia improvável


 


Entre as câmaras que tenho em casa, destaco agora esta: uma Brownie six-20 modelo C.

Veio parar-me às mãos para não ser descartada e eu aproveitei para saber o que ela é capaz e o que eu sou capaz com ela.

Para a sua idade, posta no mercado em 1947, o seu estado de conservação é de excepção, considerando que não se trata de algo guardado numa vitrina mas antes algo que foi efectivamente usado.

No teste que com ela fiz – oito imagens que é o que um rolo de 620 permite nela – esta é uma das duas úteis, tirando partido de um quiosque espelhado que existe por aí na cidade.

A sua forma de utilização explica a perspectiva, a minha inaptidão justifica a falta de horizontalidade.

Quanto ao resto, velhos são os trapos, que todas as câmaras são boas desde que funcionem. Têm é algumas limitações. Tal como nós.

 

Brownie six-20, modelo C


By me

 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Qual a cópia, qual o original?

 


 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-m Macro 100 1:4


By me

Liberdades




Em 1982 estava eu em Málaga e a trabalhar para a RTVE na transmissão do mundial de futebol.

Nas poucas manhãs que tinha livres, aproveitava para fazer turismo, vadiando pela cidade e visitando museus.

Num deles, quase vazio àquela hora, acabei por ficar de conversa com um jovem Argentino, recém formado em medicina, e que estava a fazer um périplo pela europa.

A dado passo, e porque curioso é o meu nome do meio, questionei-o sobre a recente guerra das Malvinas (ou Falckland) e sobre a existência ou não de liberdade no seu país. A resposta deixou-me a pensar até aos dias de hoje:

“Se nós somos livres? Claro que sim! Podemos sair à noite e tudo.”

 

Pentax K100D, Pentax 18-55


By me

Dois tempos: o que foi e o que é.




Pentax K7, Tamron 18-200


By me