quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Manta de retalhos




Hoje chegou pelo correio um livro, aliás, um catálogo de uma exposição acontecida há muito tempo. Comprado num leilão on-line, veio satisfazer a minha curiosidade, mas seu tempo falarei disso.

Enquanto via as fotografias e nelas pensava, veio-me à memória um episódio, que até foi longo, acontecido faz muitos anos.

Estávamos numa fase de transição: enquanto na área de produção já se trabalhava em “pal plus”, um formato de imagem que, para além das características técnicas que implicava, tinha detalhes estéticos a considerar, na área de informação onde eu estava estávamos bem nos inícios.

Por ser assumidamente rectangular, no lugar do quase quadrado 3x4, tudo mudava: desde a forma como se enquadrava objectos e pessoas, passando pelas distâncias de trabalho e respectivas perspectivas e relações de primeiro plano com os fundos, até à velocidade com que se faz os movimentos (entrada, saída e espaço intermédio), com tempos diferenciados.

Bative-me seriamente com as chefias para termos uma acção de formação neste campo, nem que fosse sob o formato de “worshop” ou “learning on the job”. Para pensarmos no assunto, para trocarmos ideias, para uniformizar abordagens. Porque estava cada um de nós a descobrir métodos, sendo o resultado uma manta de retalhos, fruto apenas do nosso desconhecimento e falta de prática.

Há batalhas que se perdem e esta foi uma delas: nunca isso sucedeu! E nota-se!

Não há uma “escola” de trabalho, não há critérios uniformes, não há coesão na imagem. A manta de retalhos que antecipava e via então é grande e evidente. Tanto do ponto de vista de quem capta e gere a imagem como de quem concebe os espaços e os seus conteúdos. E é tanto pior quanto as diferenças nas origens formativas de quem pega na rabicha do arado (só os bem antigos conhecem a expressão, aos novos deixo o desafio de a descobrirem).

Enquanto trabalhamos solitários, como é o caso da esmagadora maioria dos fotógrafos, cada um usa e concebe os seus próprios conceitos e estéticas. Não há comparações!

Mas quando se trabalha numa equipa de imagem, estática ou animada, é importante que esta seja definida e uniforme. O espectador não pode ou não deve andar aos saltos, sendo a sequência de imagens fruto de uma linha comum e de todos os intervenientes conhecida e aceite. Mesmo a “falta de coerência” deve ser coerente.

Por mim, que faz muito tempo que deixei de lutar contra todos os moinhos e que agora só o faço com os que seleciono, apenas fico incomodado com essa ausência de linha de pensamento. Aprendo por mim já que não há “escola”, penso por mim já que não há uniformidade, evito os produtos de imagem de consumo massivo para evitar os incómodos.

Felizmente existe a fotografia para não estar frustrado durante todo o dia.

 

Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6


By me

Velharias




Porque mo lembraram, aqui fica um exemplar que, não sendo uma raridade mundial, não será das peças mais comuns.

Trata-se de uma Novoflex 600mm f:8, uma focal longa (e não uma teleobjectiva) concebida para fotografar natureza selvagem.

Infelizmente não possuo o apoio de ombro, o que a torna num conjunto não particularmente prático de usar senão com recurso a um tripé ou monopé.

Mas o seu sistema de focagem por gatilho, com prática, é particularmente útil para acompanhar com rigor objectos em movimento sem grandes amplitudes de movimentos.

Claro que, nos tempos que correm, isto é obsoleto. As teleobjectivas vieram encurtar tamanhos e diminuir pesos, os sistemas motorizados de focagem minimizar esforços e, se bem empregues, muito eficazes. Além de permitirem fotografar aviões, por exemplo, sem se correr o risco de ter uma brigada de intervenção rápida da polícia ao nosso lado ainda antes de conseguirmos fazer uma imagem de jeito.

Em qualquer dos casos, trata-se de um objecto interessante para a arqueologia da fotografia, em perfeito estado de funcionamento.

Não está à venda.

 

Pentax K7, Pentax 18-50


By me

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Num Setembro, há uns anos




Por vezes a fotografia vale por si mesma, sem mais explicações. Outras, há que contextualizar o fotografado para que faça algum sentido. Outras ainda será um texto ou uma ideia que necessita de uma ilustração. E é frequente considerar-se a ilustração fotográfica um género menor. Foi o que me saiu.

 

Num Setembro, há uns anos

A noite fora curta. Muito curta.

Somado a isso, um dia passado em andanças que me fizeram recordar outros tempos, que tinha prometido não voltarem. Mas as promessas foram criadas para se quebrarem.

Em cima de tudo isto, um almoço particularmente tardio, uma tarde de muito calor e o suave embalar do comboio, acabaram com as minhas resistências: quando dei por mim, tinha acabado de passar a minha estação.

Saí na seguinte e, no largo que lhe é fronteiro, parei um pouco. À sombra. E fiquei, sem pressas, a ver o que acontecia no lago da estação de um bairro suburbano num fim de tarde domingueira que, sendo Setembro, bem que podia ser Agosto.

Uma moça, em idade de terceiro ciclo escolar, e com trajes a condizer, esperava impacientemente por algo ou alguém. Não era da zona, que foi confirmar com funcionários dos autocarros locais se estaria onde pensava. P’lo semblante, pareceu-me que sim.

Eis que pára um carro, com um rapazola já bem crescidote ao volante e que, p’la forma como abordou os incomuns sentidos rodoviários, também não seria dali.

Toca o telemóvel dela, que atende: era ele. E não se conheciam.

Aguardava ela, e trazia ele, um manual escolar. Que ela reconheceu de imediato com um “É mesmo este, obrigado!”

Volta ele p’ro carro e ela p’ra carrinha de onde saíra, onde uma mulher, ao volante, aguardava com mais duas garotas atrás.

Seguiram os dois veículos e eu fiquei a vê-los afastarem-se. E pensando com os meus botões que aquilo terá sido uma cedência gratuita de manuais usados. É bom ver tal coisa ao vivo.

E estou eu a pensar e a sorrir sobre isto, quando sou abordado.

Um velhote, andrajoso e com um olho inchado e fechado, vinha pedir-me um cigarro. “Mas só se puder ser e não lhe fizer falta”, disse-me.

“Claro!” e tirei a cigarreira do bolso, abrindo-a e estendendo-lha. “Sirva-se”.

Olhou para ela, olhou para a sua mão suja e calejada e deixou-me de boca aberta: “Se não se importa, tire o senhor.”

Dei-lhe quatro.

Por vezes, compensa adormecer no comboio!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Amores




Não tenho pressa. Nem cliente, nem prazos, nem encomenda. Não tenho urgências, portanto vou com calma.

Quando estou para aí virado, vou para o estúdio e viro mais algumas fotografias. Com tudo o que isso implica de preparação técnica, de preparação e verificação dos assuntos, de tratamento de imagem e de pesquisa posterior com o respectivo arquivamento. Uma hora cada, se tudo correr muito bem. Bem mais, se tudo correr muito mal.

Refiro-me à criação de uma espécie de catálogo das peças fotográficas que por aqui há. Para minha organização e organização de quem nisso pegar.

Desta feita estou de volta dos aparelhos de medição de luz, a que toda a gente chama de fotómetros. De tantos géneros e modos de utilização que são que, genericamente lhes podem chamar de “fotómetros”, ainda que tenham nomes específicos, em função da idade, do método e tecnologia, e da região do globo de onde são originários.

Hoje calhou que, de entre os que tirei da gaveta para fotografar viesse este. Um Quantum de sua marca, “calcu-flash-II” de seu nome.

Foi o meu terceiro aparelho de medida no campo fotográfico e não me recordo onde o comprei. Sei, antes sim, que tinha uma necessidade tremenda de aquilatar as luz emitida pelas unidades de luz instantânea: quantidades e qualidades, zonas iluminadas e zonas sombreadas. Não havendo lâmpadas piloto, isto é vital.

Acontece que de tanto usar e medir, de bem conhecer as fontes de luz, fui deixando de necessitar do aparelho, passando a confiar mais na minha experiência e colocando o “flashmeter” primeiro no saco, depois mesmo em casa. Dei-me mal algumas vezes, que a arrogância do “eu sei fazer” nem sempre resulta. Medir e ter certezas é importante.

Há anos que não lhe pegava, até porque uso outro, mais moderno e multifuncional.

Mas hoje, depois de ter verificado a ausência de baterias, ter limpo os contactos e colocado baterias novas, as minhas mãos sabiam o que fazer e o que procurar, mesmo antes de a minha mente se aperceber do que estava a fazer. Incluindo a escala adicional que lhe tinha acrescentado então e que permite ler as relações de contraste no quadrante de leitura.

Foi com carinho que o usei, foi com gentileza que o fotografei pensando na utilização da imagem, e foi com amor que decidi que, em terminando esta sequência que tenho entre mãos, merecerá uma abordagem mais cuidada e desligada de um catálogo.

Afinal, uma ferramenta como esta, com bem mais de quarenta anos, em perfeito estado de conservação estético e funcional, e sendo a primeira do seu género nas minhas mãos, merece um tratamento especial.

É que, digam o que disserem, não há amor como o primeiro!

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax 100-M macro 1:4


By me

É fácil




“As conversas são como as cerejas: umas atrás das outras”, diz-se.

Pois não sei qual a cereja anterior, apenas sei que dei connosco a conversar sobre fotografia (eu e quem trabalha atrás do balcão do café aqui da rua), e de como há pequenas coisas, tão simples, e que podem melhorar em muito as fotografias que fazemos. Isto sem se querer ser um “artista”, apenas querendo obter satisfação do que se possui nas festas e férias. Mesmo com um telemóvel.

A horizontalidade versus a verticalidade em função do assunto e da contextualização; o espaço próprio do ser humano e dos objectos e de como isso corresponde à nossa própria forma de estar e viver; o centro de interesse e os centros da imagem; o uso de primeiros planos;…

A certa altura tinha mais dois vizinhos aqui da rua a ouvirem e a experimentarem as minhas dicas com os seus telemóveis mesmo ali encostados ao balcão, a meu lado.

Foram uns vinte minutos proveitosos para todos, entre cafés e boletins de totoloto.

Pouco me importa o que dizem os lentes e catedráticos: tudo na vida é fácil, desde que nos dispúnhamos a aprender e nos ajudem ao nosso nível.

 

LG D405


By me

domingo, 30 de agosto de 2026

O abuso e a reação




Foi hoje, ao almoço.

Neste restaurante, na zona do Parque das Nações, tiveram o desplante de me apresentar esta conta final, hoje em dia chamada de “consulta de mesa”.

Não ponho em causa nem a qualidade do que nos foi servido nem a excelsa qualidade do serviço de quem nos atendia. E muito menos os preços, pois que estavam na entrada do espaço tal como na ementa, pelo que não fomos surpreendidos.

Aquilo que me fez saltar a tampa, e fiz saber disso a um dos funcionários, foi vir incluida na “consulta de mesa” a gratificação sugerida, vulgo gorgeta, e acrescentada ao total. Uma leitura muito na diagonal faria saltar essa parcela e faria pagar a gorgeta como se obrigatório fosse.

Uma raio que os parta!

A gorgeta é um reconhecimento da qualidade do atendimento por parte que quem nos atende, não um pagamento obrigatório. Pelo menos em Portugal. Não podem impôr 7,5% de gorgeta, ainda que esteja impresso no final que é voluntário. Não comigo! Não em Portugal!

Estas americanisses (que se vão espalhando como uma epidemia) comigo não grassam e pago o que entendo, dentro dos valores apostos na ementa. O adicional (que é meu hábito pagar ou deixar) é em função da qualidade do serviço.

Deixei bem claro que não punha em causa a qualidade do serviço, mas que por estar expresso e impresso o como se avaliavam, pagaria 0.00% de gorgeta. E que ali não voltaria a deixar a minha pegada.

Paguei e saimos, com a certeza de ali eu não voltar. Nem que seja o único lugar em funcionamento na região.

Mas também não sou conhecido por ter bom feitio!

 

PentaxK7, Tamron 18-200, Scanner Epson


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sábado, 29 de agosto de 2026

Tempo




Suponho que nunca se perguntaram porque é que a semana tem sete dias. Não dez, tantos quantos os dedos das mãos, ou quinze, por um outro motivo qualquer. Sete!

Claro que a tradição judaico-cristã nos afirma que o universo foi criado em sete dias por um deus. Essa será uma explicação teológica, válida para crentes.

Mas há uma outra, bem mais prosaica, que talvez espante os menos avisados: a Lua.

Sabemos que o ciclo lunar tem 28 dias. E que cada fase da Lua (crescente, cheia, minguante e nova) dura sete dias. Aí está.

Para os antigos, que não tinham mecanismos de medição do tempo, este era medido em função dos fenómenos que conheciam e que ser repetiam.

O mais básico seria o dia, facilmente constatável. De seguida a Lua, também repetido e previsível. Mas 28 dias é muito tempo. Quase um mês.

Daí que as fases da Lua, cíclicas e regulares, numa quantidade de dias facilmente comensuráveis.

Para os que tenham dúvidas, legítimas face à ancestralidade do ciclo de sete dias, repare-se na quantidade de civilizações que ainda têm por tradição o calendário lunar. Claro que estas, por imposição do comércio e demais relações internacionais, acabaram por considerar não apenas o conceito de anos em função da translação em torno do Sol, com o ajusta de um dia extra por cada quatro anos, como o calendário gregoriano, com os seus meses não regulares. E as semanas, a não caberem em quantidade certa em cada mês. Excepto o Fevereiro, com 28 dias. Menos o bissexto.

A origem das unidades, sejam elas quais forem, é sempre meio obscura. Tal como o sistema hexadecimal, usado para movimentos circulares: horas, graus, minutos, segundos.

Entender o passado, onde se alicerça o presente, permite-nos construir o futuro. Seja em unidades de medida, pensamentos ou emoções. Mesmo que estas não se meçam.

 

Nikon Coolpix P7000


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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Ou não


 


Fumar mata devagar mas...

Quem tem pressa em morrer?

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Diatribes (ou não)




Foi há já uns anos valentes. Há quase vinte anos.

A câmara guardo-a, tal como quase todas as outras. As que não guardo foram as que vendi em momentos de grande aperto. Lamento cada uma delas.

A objectiva guardo-a, com os mesmos argumentos e lamentos que as câmaras. Com a diferença que, em tendo avariado, comprei uma igual tal o gosto que tinha e tenho pela sua flexibilidade.

Da barcaça nada sei. Passado todo este tempo, talvez esteja ainda a subir e descer o rio, fazendo pausa aquando do anoitecer, como era quase o caso.

A margem continua lá, com fauna e flora variavel de acordo com a estação do ano e aquilo que o ser humano vai deixando, com as suas travessias anunciadas e as suas construções efémeras.

O rio, esse, continua a correr debaixo das pontes como se nada fosse, escasseando uns anos, superabundando outros, como sempre fez desde o rio é rio. Alargando-se aqui, estreitando-se acoli, continua a fazer de fronteira aquém e além, dando nome a terras, barragens e pontes, como se disso dependesse alguma coisa. É-lhe indiferente.

A lua lá continua, ora tapada ora destapada, na sua quase sempierna revolução e servindo de mote a poetas e enamorados. Também serve de objectivo, como que primeira fronteira para o espaço infinito, aquele que queremos conquistar como quem quer conquistar uma praça forte ou uma medalha. Como se isso a importunasse, excepto a expectactiva de vir a ser o quintal das trazeiras onde iremos deixar os dejectos da humanidade, já que mais não conseguimos estragar este pedaço de rocha a que chamamos planeta terra.

Por mim, entre o agora e o agora cosmico, vou tentando registar os pedaços que vejo ou penso, transformado, como dizia o mestre, num taxidermista do tempo. Como se isso abalasse o cosmos ou a vida de alguém.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

quarta-feira, 26 de agosto de 2026