sexta-feira, 19 de junho de 2026

Momentos




Em 10 de Novembro de 2015, pela tardinha, em frente a este edifício e na sequência de notícias do que ali havia sido votado, a multidão que ali se encontrava repetiu quase até à exaustão um grito espontâneo ali surgido, que ainda hoje recordo com um arrepio nas costas:

“Já caiu, já caiu, vai p’ra puta que pariu!”

Hoje não estava lá. Nem sei se lá se juntaram uns milhares como então.

Mas apeteceu-me gritar algo de semelhante aqui da minha janela, pese embora as causas e consequências sejam outras.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

Afectos e fotografia




Tenho vindo a afirmar, ao longo dos tempos, que fazer ou ter uma fotografia é o resultado de um sentimento de cobiça ou desejo de pose. Por aquilo que nela está iconificado: o pôr-do-sol, a pessoa, o objecto.

Apenas para dar um exemplo que consubstancia esta afirmação, quantos serão os que fotografam e exibem objectos que possuem? Com que lidam todos os dias? A excepção será, talvez, quando a fotografia e a sua exibição sirva para demonstrar que se possui o retratado – pessoa ou objecto.

E quanto mais precioso é o iconografado mais sacramentalmente se guarda a imagem: álbuns especiais para aquelas férias ou casamento, molduras caras para este ou aquele retrato de um parente ou amado e, cereja no topo do bolo, a carteira onde constam as fotografias de parentes, em regra muito queridos, vivos ou não. E, quando se fala nos filhos, netos, namorado/a ou pais, aí está a carteira (mais modernamente o telemóvel) onde se encontram as fotografias mais recentes ou significativas.

Mas a fotografia também é uma manifestação de afectos negativos! Fotografa-se o acidente, o insólito, o feio, o incómodo!

E, aqui, há dois tipos de motivos: Ou o exaltar o fotógrafo, mostrando assim, com a fotografia, que ele esteve no local, que testemunhou aquela situação ou, menos frequente mas real, como forma de exorcismo do mal retratado, tentando assim que o iconificado não passe disso e não seja parte integrante da vida do fotógrafo ou exibidor.

Um pouco como sucede com as anedotas, de que tanto nos rimos, e que, se bem as analisarmos, nunca falam de coisas agradáveis ou boas que tenham sucedido aos intervenientes. Pelo contrário, rimo-nos com o mal dos outros como que, com o riso, possamos afastar a possibilidade de o mesmo nos acontecer.

Mas há ainda uma terceira atitude negativa que é tida perante a fotografia. Neste caso, não perante o acto de a fazer mas antes para com ela enquanto objecto ou ícone: a negação ou destruição!

O rasgar, queimar, destruir de uma fotografia é uma forma de remover o que nela consta ou conta das vidas de quem assim age. Uma forma de negar o passado ou tentar, com isso, impedir que este se repita ou continue.

Exemplo mais ou menos corriqueiro é o que sucede aquando de uma zanga entre namorados ou quebra de votos de afectos. As fotografias do “outro” são destruídas, na tristeza do privado ou na raiva do público.

Acontece mesmo ser o retratado a exigir a devolução de fotografias que o “outro” possui de si, impedindo que o mesmo “outro” possua o que quer que seja de quem protesta ou reclama. Nem mesmo a sua imagem!

O gesto supremo, então, é a adulteração da fotografia, rasgando-a e destruindo apenas a metade em que se vê o “outro”, como que um afirmar que se continua por cá, vivendo, mas que o “outro” já não faz parte dessa vida.

Refira-se, também, nesta relação de afectos negativos para com a fotografia, a adulteração bem mais sofisticada da imagem que foi o caso (quem sabe se ainda é?) do apagar em fotografias presenças de gente caídas em desgraça perante o regime. Como sucedeu, por diversas vezes, na União Soviética, para citar apenas casos públicos e notórios.

É assim que se constata que a relação com a fotografia (ou com a imagem no seu todo) é uma relação de afectos, de desejos de pose ou de repúdio, como os agora descritos.

 

E você? Já destruiu alguma fotografia?

 

Fotografia original feita com o meu artefacto “À-Lá-Minuta”


By me

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A câmara




Ainda se fosse uma catraia, mesmo uma jovem adulta... Agora já quarentona, fazendo da imagem o seu ofício, isso já me deixa boquiaberto.

Passei-lhe a câmara para a mão para que visse uns detalhes.

E ficou a olhar para ela, e para mim uns segundos, perguntando de seguida "Está avariada? O ecrã não funciona!"

Lá lhe mostrei o visor óptico, dizendo-lhe que sim, que funciona, mas que uso o sistema reflex, característica nativa dela.

De seguida, ao testar o que era suposto testar, admirou-se de não conseguir focar. "Talvez porque aqui há pouca luz, adiantou."

E lá lhe expliquei, novamente, que também o autofocus funciona, mas que uso foco manual. E que aquela objectiva não está concebida para automatismos.

Fez-me lembrar aquelas crianças que não sabiam o que fazer perante um telefone de disco e não de teclas.

Ainda se fosse uma criança...

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Lusofonia


 

Uma janela, três bandeiras unidas na lusofonia e demasiado vento em demasia para a segurança do sistema usado.

Outra versão se encontrará.

 

Lumix DCM-TZ60

 

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Promessas

 



O que é que o El Corte Inglés tem de melhor? A porta de saída!

Procurava um artigo em particular que a internet me havia informado de ali estar à venda. E era o local que mais me convinha em termos de acessibilidade.

Sendo que não conheço os cantos à casa, quando entrei perguntei pelo local específico que procurava a um segurança que ali estava.

Olhou para mim de alto a baixo duas vezes antes de responder. Não foi nem rude nem simpático na resposta. Apenas altivo e formal. Não gostei. Nem um nico.

Dei um passo atrás, olhei-o de alto a baixo duas vezes, agradeci e virei costas, seguindo para o meu destino. Mas maldizendo a hora em que decidira poupar esforço indo ali.

Mas já que estava no supermercado, aproveitei para dar uma olhada em busca de um ou outro artigo mesnos comum noutras grandes superfícies. Não tinham. Mas tinham um segurança que me seguiu por todos os corredores uns passos atrás. Até eu passar as cancelas de mãos e resto vazios.

Pensei em dois ou três impropérios apropriados à situação e segui para onde me haviam indicado, realizando a compra que queria.

O que eu não queria era ter um outro segurança, que de discreto na sua função nada tinha, que me seguiu até eu entrar na loja, esperou por mim cá fora, e continuou a me seguir até eu sair do edifício.

Já não estava habituado a este tipo de tratamento neste local. Que, infelizmente, é o que recebo de cada vez que vou ao El Corte Inglés. Desdém de boa parte dos funcionários, suspeitas e vigilância nada discreta por parte da segurança.

É certo que não me visto nos seus departamentos ou na Avenida da Liberdade. Nem sou aparado por barbeiros de elite ou manicures de sorrisos artificias.

Mas também é certo que esta tarde apenas serviu para dar força a uma promessa pessoal já antiga: no El Corte Inglés só se for para uma refeição tipo fast-food num local específico ou para uma ida ao cinama. E mesmo assim só se não houver alternativa. Que isso de elites arrogantes não são a minha praia.

E prefiro dar dois dedos de conversa com uns sorrios de permeio com os cantoneiros de limpeza do meu bairro que frequentar esta gentalha asquerosa que desedenha os diferentes.

Gosto muito da placa de saída que ali existe.

 

Pentax K7, smc Pentax-FA 28-200 1:3,8-5,6


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domingo, 14 de junho de 2026

Todos os eus




Uma das questões que mais atrapalha e comanda os comportamentos é o estar-se ou não integrado numa dada sociedade ou grupo.

E, com isso, controlar os seus comportamentos pelos comportamentos medianos, por aquilo que a “sociedade” define como correcto e não criticável.

Nada de mais errado, absurdo, contraproducente e castrante!

Esta atitude não permite o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo, com todas as suas características e potencialidades!

Apenas o transforma em mais um número, ajustando-se à mediania, com receio de ser diferente, notado, apontado a dedo, marginalizado em última análise.

E o erro, a meu ver e ainda ninguém argumentou e me convenceu em contrário, está na definição de “pertencer à sociedade”!

O que de facto acontece, e que poucos são os que o reconhecem ou afirmam e menos ainda os que agem em conformidade, é que no lugar de se pertencer, é-se a sociedade.

A sociedade é o conjunto de todos, com todas as vantagens do grupo e de cada um dos indivíduos. Não se integra a sociedade mas antes molda-se a sociedade à medida de cada um. E a soma de todos os “uns” forma o conjunto!

A contribuição que cada um faz nela, o empurrão que cada um dá no seu trajecto é que define o seu rumo, as suas regras, as suas leis e os comportamentos do todo.

Estas não são definidas por uma qualquer entidade obscura, mítica e autocrática, mas antes pela vivência e vontade de cada um dos seus componentes.

Andar nu, de fraque ou com nariz vermelho e grande é igualmente legítimo!

Ter este ou aquele comportamento apenas porque o grupo o define e não porque o queremos, é integrar um grande rebanho onde os pastores, filósofos, gestores ou políticos nos conduzem pela certa através de um pasto verdejante até ao matadouro ou altar onde nos sacrificam aos seus interesses privados ou entidades divinas.

Pela parte que me toca, tenho comportamentos que estão de acordo ou em desacordo com os que me cercam, não porque eles o querem ou o censuram mas antes porque eu o quero e eu sou a sociedade.

Sem todos os eus, a sociedade não existia! 

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Conhecer o passado para prevenir o futuro




Tenho recordado recentemente as opções violentas alemãs da época nazi.

O envio para campos de concentração ou de extermínio daqueles que não estavam na “normalidade”: judeus, ciganos, deficientes, pretos, homossexuais, comunistas...

Todos aqueles que, de algum modo, eram diferentes do ideal nacionalista alemão imposto. Milhões!

E, de algum modo, todas estas vítimas serviram também para alimentar o medo dos “inimigos internos” e que o poder autoritário da ditadura se propunha a afastar da população “pura”.

Porque é que me tenho recordado desta barbárie e de como começou?

Porque por cá o poder político instituído e os que lhes vão dando apoio estão nesse inicio de caminho. São as leis contra os migrantes, é a perseguição a ciganos, são os subsídios a deficientes, são os símbolos gay...

A coligação governamental, com os seus parceiros à direita, estão a colocar como legal a discriminação aos diferentes. São normas, leis, regulamentos, ditas “suaves”, mas que penalizam a diferença e criam no cidadão comum a ideia de que aquilo que lhes custa na vida tem por origem essas pessoas. Mas que cá estará o governo para os proteger.

São passinhos pequenos, de bebé, que quase não se dão por eles no todo dessa discriminação social, na marginalização dos diferentes.

Mas nos anos 30 do século passado, na Alemanha, a coisa começou também assim, discreta. Até chegar onde chegou!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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segunda-feira, 8 de junho de 2026

O rigor da informação




Nesta loja não se engana ninguém!

Quando dizem “Liquidação Total” é mesmo isso que querem dizer, já que nem sobra para cobrir, pudicamente, os manequins da montra.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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Em redondo




Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestria ou nem tanto




Há normas, regras, técnicas, que temos por certas. Perfeitas.

Sabemo-lo dos livros, sabemo-lo dos trabalhos que vemos. Sabemo-lo dos trabalhos que fazemos.

E quando nos confrontamos com o seu quebrar ou distorcer, arrepiamo-nos. Porque sai das regras, porque nos incomoda na nossa procura do equilíbrio, do perfeito.

Uma dessas regras, e falando de cinema ou vídeo, é o racord.

Para quem não sabe, racord pode ser definido como continuidade, como coerência na sucessão do que é mostrado.

Pode ser na lógica da história, pode ser na lógica das imagens.

Um exemplo clássico será o vermos alguém com um objecto na mão direita e, na imagem seguinte, tê-lo na mão esquerda. Sem que nada se quebre na sucessão do tempo nem nos ter sido mostrado a mudança. E quem diz um objecto na mão, diz a direcção do caminhar ou olhar, uma peça de roupa, um penteado, a origem da luz…

A falha de racord é algo que os profissionais evitam, como o diabo a cruz.

Claro está que não há regras que não possam ser quebradas ou distorcidas. Sabendo-o e fazendo-o de propósito. Com o propósito explícito de provocar algum tipo de reacção ou emoção em quem o vê. Os mestres, os grandes mestres, usam-no. Para alterar ou condicionar a atitude passiva do espectador. Ou mostrar subtis alterações nas personagens.

Apercebermo-nos disso é um deleite.

O problema põe-se que esta quebra de regras não é segredo. Apenas implica mestria no seu uso, ou o resultado estará apenas um degrau assim de porcaria total.

Os não-mestres tentam imitá-los. As mais das vezes sem sucesso. No cinema, na televisão, nos vídeos on-line, na informação.

Afirmam que é uma técnica superior, que é admissível, que faz parte da nova linguagem do audiovisual.

Infelizmente, estes argumentos apenas servem para encobrir ou disfarçar a sua incapacidade de lidar com o racord e a sua falha. E dizem ser “arte” aquilo que é, na verdade, incompetência.

Ver um raro momento de arte é um prazer.

Ver tanta incompetência disfarçada é um tormento.

 

Pentax LX, Tamron SP 90 1:2,5, Agfachrome CT18


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