Acredito que muitos dos que usam a câmara fotográfica não
entendam este prazer:
Estarem confrontados com uma situação a registar e fazê-lo
com o ângulo de visão que têm disponível. Ajustando as diversas vertentes do
acto fotográfico a essa objectiva. Ou, em alternativa, decidirem que querem
esta ou aquela objectiva porque é a que tem as características que se desejam e
colocá-la na câmara. A satisfação advém, neste caso, da decisão se verificar acertada.
Últimamente tenho andado com uma 85mm 1:1,9, numa câmara
APS-C. É um ângulo de visão que se aproxima do meu natural, sendo quase uma
extensão natural do meu olhar. Hoje, ao sair de casa, acrescentei ao saco, nem
sei porquê, uma 35mm 1:3,5. Bingo!
Sentado na esplanada, retemperando forças da tarde longa que
as minhas pernas já não são o que eram, ia contemplando a avenida, o seu
movomento, as suas luzes.
Eis que fui surpreendido por uma mocinha (esta) que se sentou
a uma mesa de distância mas que me surpreendeu: sentou-se de costas para a
avenida e de frente para mim. Poderia ser lisonjeiro para com a minha pessoa,
mas não era o caso.
E ficámos ali, eu de volta do meu bolo de chocalate, ela de
volta do seu croissant, tentado cada um lidar com os pombos atrevidos que
vinham pelas migalhas.
Já ela se afastava e acabámos por estar à conversa, agora
partilhando mesa, sobre arte, críticos de arte, filósofos da imagem contemporânos
e trocando sugestões literárias sobre os temas. Entenda-se que ela é estudante
de artes nas vertentes teóricas, pelo que estes assuntos não lhe serão
estranhos.
Mas não se foi embora sem me satisfazer a minha curiosidade:
porque se havia sentado de costas para avenida, ao contrário de todos os demais
que ali estavam. Queria ela isolar-se para poder pensar muito a sério. Não lhe
perguntei sobre o quê.
Antes de levantar, o meu pedido sacramental: “Posso
fazer-lhe uma fotografia?”, que anuiu.
Abençoei o momento, uns minutos antes, em que havia trocado
a 85 pela 35. O trocar de objectiva é sempre um quebrar o momento do acordo tácito
ou explícito com um desconhecido. Foi o que me saiu!
E para aqueles que defendem que a 35mm não serve para
retrato, eis uma demonstração do seu contrário, pese embora a perspectiva
próxima.
E eis também a demonstração que uma objectiva com mais de
meio século completamente manual faz corar de vergonha algumas das modernas,
com todos os seus automatismos e etc.
Pentax K7,
Super Multi Coated Takumar 35 1:3,5
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