sábado, 17 de abril de 2021

Oráculo radical




Vivemos num mundo de imagens. Algumas bem claras e inequívocas, como a fotografia, o cinema e o vídeo. Outras, meros códigos ou convenções, como os sinais de trânsito ou os ícones informáticos. Outras ainda de interpretação nem sempre imediata, como é o caso dos logótipos comerciais.

De uma forma ou de outra, este produzir e consumir imagem tem por objectivo a simplificação da comunicação. Dentro da linha de “uma imagem vale mil palavras!”

E a evolução e a complexidade da tecnologia também assim o impele e obriga. Quem se recorda, no caso dos computadores das linhas de comando complexas, com palavras, letras e sintaxe rigorosas? Hoje o consumidor banal desconhece-as, usando tão só imagens e códigos visuais coloridos. Tal como noutras máquinas, os painéis de controlo são essencialmente compostos de símbolos e ícones, no lugar de palavras ou letras. Gradual mas firmemente, a imagem vai substituindo a palavra escrita.

E se isto sucede nos comunicadores formais de grande volume (industriais, media, audiovisual), sucede também com os comunicadores de pequeno porte mas a quem se destinam os primeiros: os consumidores individuais.

A tecnologia da imagem (fotografia, vídeo, infografismo) está ao alcance de quase qualquer um nas sociedades ocidentais, sendo que a sua posse e uso se torna quase que um símbolo de posição social, tal como o automóvel ou a marca de roupa que se veste.

A própria comunicação escrita convencional – a palavra – está a sofrer mutações. A técnica vai permitindo substituir as palavras e letras por símbolos gráficos – ícones de emoção, animados ou estáticos. Ou, mais simples ainda e menos tecnológico, a quantidade de letras usada na escrita vai diminuindo, com siglas, contracções e aglutinações.

De uma forma ou outra, a sociedade tecnológica e de consumo em que vivemos nos chamados “países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento”, a palavra escrita vai definhando em favor da imagem ou do grafismo visual.

Indo ainda mais longe e fazendo futurologia radical, estou em crer que dentro de algumas gerações (quatro, cinco, seis?) a escrita como a conhecemos hoje será um atavismo, usada apenas por lentes e estudiosos. Talvez também em documentos formais ou oficiais.

Esta hipotética evolução que antevejo não é nem boa nem má: é evolução. Mudanças nos hábitos e culturas, levadas a cabo pela tecnologia e globalização, tal como os copistas monásticos e o iluministas o foram com o advento da imprensa.

 

Mas, no meio de tudo isto, nesta sociedade em mutação baseada na imagem e comunicação, falha um aspecto vital: a preparação dos cidadãos.

A formação académica de base, de crianças e jovens, baseia-se nas letras e palavras, que ainda é a base actual da comunicação.

Mas não os prepara para saberem produzir ou consumir imagens. Prepara-os para saberem interpretar um texto escrito (por um romancista, jornalista ou um formulário) mas não para saberem ler uma fotografia, interpretarem um filme ou vídeo, descodificarem publicidade. E se não o souberem ler, interpretar, descodificar, serão estes agora jovens, futuros adultos analfabetos. E serão alvos fáceis para os que, em sabendo-o, usem desse conhecimento em favor dos seus interesses económicos, políticos, ideológicos de qualquer género.

A cultura dos códigos iconográficos e da imagem está já aí! Sem que a maioria de nós de tal se aperceba. E um povo ignorante, inculto, desatento, é o sonho de qualquer governante, magnata ou líder religioso: dócil e obediente!

By me

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Equidade na justiça e nos media


 


Começando por algum lado, começo por dizer que não simpatizo com José Sócrates.

No decurso da minha actividade profissional tive oportunidade de o ter na minha objectiva várias dezenas de vezes, entre uma a duas horas em boa parte delas, uma meia horita em muitas outras. Isto dá-me base sólida para dizer que não gosto dele.

Posto isto, gostaria de dizer aos que agora, e ao longo dos últimos anos, o têm acusado de más práticas económicas com proveito pessoal que estão a ser injustos e incorrectos.

Têm, ao longo de todo este tempo sabido da maioria das acusações que sobre ele pendem. Difundidas por jornais, televisões, rádios, internetes.

Mas quanto de vós ouviram ou tomaram conhecimento dos seus argumentos com a mesma intensidade ou detalhes das acusações? Muito poucos, se alguns.

Por outras palavras, julgaram e condenaram alguém com base apenas nas acusações e sem darem oportunidade do acusado se defender com os mesmos meios e tempo.

Não nos esqueçamos que o sistema de justiça que vigora na nossa sociedade baseia-se no princípio da igualdade de oportunidades na defesa e na acusação. Tal como se baseia no princípio da presunção da inocência até prova em contrário.

Este senhor José Sócrates (de quem, repito, não gosto) não tem sido tratado pelos media e pela opinião pública com equidade.

A esmagadora maioria dos portugueses tem-no como culpado e deseja-lha a mais pesada pena que os códigos da lei permitirem. Sem julgamento justo, sem lhe darem a possibilidade de se defender das acusações.

Se o mesmo acontecesse com qualquer um de vós, não terem possibilidade de argumentar de igual para igual com o acusador, cairia o Carmo e a Trindade. E diriam que a justiça está feita para os poderosos ou desonestos.

Sendo certo que não gosto de José Sócrates, desejo que seja condenado se se provarem as acusações. Mas que seja ilibado se não se provarem.

E desejo, mas não acredito, que os media divulguem com o mesmo ênfase a sua inocência, se for esse o caso. Notícias de primeira página, de abertura de noticiários, entrevistas a quem o possa demonstrar, fotografias, vídeos, escutas…

Mas não acredito que os portugueses, depois de convencidos pelos media da sua culpabilidade, mudem de opinião, se esse for o caso.

 

É nestes casos que se percebe o quão perigosos podem ser os órgãos de comunicação social, a quem interessam bem mais audiências e tiragens que justiça e equidade.


Imagem: edit by me

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Sem título




 Boa parte da população portuguesa pouco sabe sobre o que se comemora no próximo dia vinte e cinco.

Sabe que se trata da revolução de Abril, que foi em 1974, que terminou com o regime ditatorial e com a guerra e com a censura e com a polícia política e que permitiu pensar e dizer… Mas sabe-o por ouvir contar a quem o viveu. Não tem culpa de tal, já que seriam muito novos, se acaso fossem nascidos. Porque, afinal, 47 anos é uma vida, mais que uma vida para muitos.

Mas aquilo que as artes e as letras, bem como os historiadores e demais investigadores, não têm contado é o espírito dos tempos que se lhe seguiram!

Com muitas asneiras e erros pelo caminho, com faltas de alguns bens essenciais, com aproveitamentos de toda a ordem e pressões não muito claras ainda hoje, a verdade é que os cidadãos queriam construir o seu futuro. Com as suas mãos!

E no meio das vicissitudes de então, havia uma alegria no ar, uma vontade de fazer, um constante ouvir “Então e se fizéssemos isto? Bora lá!” e as mangas arregaçavam-se e algo acontecia. E, apesar das dificuldades endócrinas e exógenas, encontravam-se sorrisos e alegria a cada esquina. O entusiasmo era a tónica dominante!


Hoje, quem quer que se passeie em Portugal, vê semblantes carregados, olhares postos no chão, cores escuras e uniformes. E os comportamentos centrados nas actividades e vidas de cada um, ignorando ou fazendo por ignorar o que acontece fora do circulo mais fechado das suas vivências. Poucos são os que dão de si e do seu tempo para construir o amanhã da sociedade e, no lugar de se ouvir “Vamos fazer!” ouvimos tão só “Eles têm que fazer!”

É um muro de indiferença, é um alijar de responsabilidades, é um comprar resultados feitos. E as culpas caiem sempre em cima dos outros, esquecendo-se cada um de cumprir a parte que lhes cabe no colectivo que somos.

Porque se “O povo é quem mais ordena!”, é também ele quem constrói! Quando não, continuaremos num cinzentismo emparedado, numa mera antecipação da tumba que nos espera!


By me

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Truques e brincadeiras


 


Para os que gostam de experimentar diferente, fazendo do velho novo, abordar técnicas que, sendo de antanho, estão na moda e usando um toque de modernidade, aqui fica:

 

Uma brincadeira já com uns anitos.

Sacrifiquei uma tampa de corpo, da qual retirei um bom pedaço do seu centro.

Recortei um pedaço de cartolina preta com o tamanho e forma exacta para caber no exterior da tampa. Bem no seu centro, um orifício com meio a um centímetro de diâmetro. A necessidade da cartolina prende-se com o facto de o nome da marca estar gravado em relevo na tampa, comprometendo a geometria do sistema.

Cobrindo o orifício, um pedacinho de papel de alumínio, no centro do qual se faz o clássico minúsculo buraquinho com a ponta de uma agulha ou alfinete.

E pronto!

Com um nico de habilidade e engenho temos uma câmara pin-hole moderna, com resultados digitais.

O seu nome técnico é, como alguns saberão, “estenopeica”.

A imagem formada é, tal como com uma objectiva convencional, real, invertida e menor que o objecto fotografado.

As vantagens deste método, no lugar da clássica caixa ou lata e suporte argêntico, serão:

O imediatismo da coisa. Poderemos ver, “na hora” o resultado e fazer correcções;

Um razoável controlo de exposição. Nas câmaras que permitam uma medição e funcionamento TTL com objectivas manuais e antigas, bastará fazê-lo que teremos o tempo de exposição em função do diâmetro do orifício (sempre minúsculo naturalmente) e da distância a que se encontra do sensor (I=1/D², a velha fórmula vital em tanto na imagem e iluminação);

A possibilidade de variarmos o ângulo de visão sem grandes transformações. Para quem não gostar do ângulo conseguido com o sistema descrito e mostrado e quiser ângulos mais apertados, bastará afastar o artefacto construído, usando para tal um anel de extensão para “macro” ou um fole com o mesmo objectivo. Os parâmetros de exposição alteram-se naturalmente, mas obtêm-se assim uma “teleobjectiva”.

A sugestão óbvia, mesmo que em dia de sol intenso, é recorrer a um tripé, já que terão poses longas.

 

O resultado?

Este é um dos que obtive quando andei a “brincar” com o sistema há uns anos. A qualidade depende do diâmetro do orifício, do papel de alumínio usado e da perfeição e regularidade nos seus bordos com que o orifício seja feito. Na altura decidi melhorar o sistema que fiz e a qualidade resultante, mas… já sabem como é: aquilo que guardamos para depois tarde ou nunca acontece.

Para quem se quiser entreter, os testes de construção e criação do orifício podem ser feitos em casa, testando pela janela e em dia de sol, e o conjunto guardado numa caixinha que se arruma num qualquer compartimento do saco da tralha.

Divirtam-se e aproveitem os dias de sol que se aproximam.


By me

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Verdade ou consequência

 


 

Os objectos não mentem! Um prédio não mente, um garfo não mente, a lua não mente.

Aliás, e sobre a lua, costuma-se dizer que a lua é mentirosa. Isto porque, quando em quarto-decrescente aparenta ser um “C” e em quarto-crescente aparenta ser um “D”. Já do lado de lá do equador, Brasil por exemplo, a lua é verdadeira, assemelhando-se no seu formato às letras que atribuímos ao seu estado. Deve-se esta peculiaridade não à lua, que estará sempre da mesma forma, mas à posição de quem a vê, que no outro hemisfério se está de “pernas para o ar” em relação ao que acontece em Portugal.

Vem esta conversa a propósito de uma discussão quase tão velha quanto a fotografia: A fotografia é mentirosa ou verdadeira?

Eu diria que nem uma coisa nem outra. A fotografia é, apenas.

A mentira ou verdade está em quem a vê e quem a conta. Está em atribuir-se-lhe valores, está em dizer-se “isto é verdade, que eu estava lá!” ou em dizer-se “isto é verdade, é uma fotografia!”

Isto acontece porque se entende que a fotografia, sendo um sistema mecânico e autónomo de registo de luz, mostra-a para além dos valores verdade/mentira. E isto acontece porque nos habituámos a ver a fotografia como documento na imprensa, atestando a verdade do texto que a acompanha.

Mas também acontece que a sociedade tem sempre reservas perante o que a fotografia mostra. Os tribunais não aceitam fotografia como meio de prova, a menos que quem a fez esteja para além de qualquer suspeita. E quando se vê uma imagem fotográfica menos comum, era habitual ouvir-se “Ah, isso é montagem”. Hoje o que é trivial de se ouvir é “Ah, isso é photoshop”, o que vem a dar no mesmo.

Um bom exemplo de como a verdade ou mentira na fotografia depende, em exclusivo, do valor que lhe atribuímos, é a fotografia vencedora do World Press Photo de 2006. Nela vemos um carro de aspecto impecável, de capota descida e com alguns jovens a bordo, cruzando uma zona destruída por bombardeamentos no sul de Beirute. Lembro ter ouvido inúmeros comentários depreciativos sobre os jovens: “Como é possível andar-se assim no meio de tanta desgraça?!” Aquilo que a maioria não sabia ou não sabe é que esses mesmos jovens estavam no seu próprio carro, no seu próprio bairro, à procura da sua própria casa, bombardeada e destruída como todas as outras.

Em contrapartida, ao mostrar eu esta fotografia, muitos serão, como foram, que perguntarão se terei colocado um arame no interior do cigarro. A minha resposta é, como sempre foi, que a fotografia mostra o que realmente aconteceu, resultado de paciência, algumas tentativas e muitos anos de fumador. Sem arames ou quejandos.

Como terceiro exemplo, os serviços policiais que investigam os casamentos de conveniência com o objectivo de obter a cidadania portuguesa procuram, entre outros motivos de prova do afecto ou não entre os recém casados, a existência de fotografias que relatem o tempo de namoro: festas, amigos, lugares em comum, gestos de afecto… Claro que isto é um absurdo, que todos sabemos que tudo isso pode ser falsificado e que, em menos de uma semana e com as ajudas inevitáveis, qualquer um interessado no embuste cria uma vivência de anos de namoro num álbum fotográfico.

Assim, e voltando a um tema que tem mais de 150 anos, a fotografia não é nem verdadeira nem falsa. É a afirmação de veracidade de quem a mostra ou a interpretação como verdadeiro ou falso de quem a vê que lhe dá o valor moral.

Por mim, aceito qualquer imagem fotográfica. E interpreto-a, sempre, como verdadeira no sentido de ser aquilo que o seu autor me quis mostrar. Mesmo uma casa de pernas para o ar ou um rato de fato espacial a roubar pedaços de queijo da lua.

Quanto à factualidade do representado na fotografia, reservo-me sempre o direito de a pôr em causa, comparando o que vejo com a minha própria experiência e saber, considerando a credibilidade de quem a mostra e o que o seu autor me diz sobre a sua veracidade.

Quanto ao resto, e nos tempos que correm e com as tecnologias e media existentes, é sempre aconselhado usar de algum cepticismo.

 

By me

terça-feira, 6 de abril de 2021

Um olhar


 


Esta fotografia foi feita há oito anos, mais dia menos dia, integrada num projecto fotográfico a que dei o nome de “Um olhar”.

Não se adivinhava, nem nos horáculos mais pessimistas, que seria isto que veríamos dos rostos humanos anos depois.

Creio que os especialistas no comportamento humano, nas suas diversas vertentes, terão muito para estudar sobre os tempos que agora vivemos. Entre outros factores os trajes que são usados para que cada um (ou uma) se evidencie ou oculte na multidão, agora que as feições andam escondidas com máscaras. Cortes, cores, dimensões, quanto do corpo e pele se exibe ou não...

Enquanto não surgem em público textos sobre o assunto, aqui um que fiz sobre esta fotografia.

 

 

Nem sempre é fácil conseguir fazer este tipo de fotografia.

Há que ter algum tipo de contacto prévio antes de se conseguir pedi-lo. Principalmente quando a proximidade da câmara, óbvia pelo enquadramento, é deste calibre.

Confesso que qualquer conversa me serve para, a dada altura, fazer a abordagem certa. Que umas vezes resulta, outras nem por isso e que outras, bem mais estranho, fazem questão de ser apenas os olhos, nada mais. Em qualquer dos casos, mostro sempre o resultado, usando os dedos no ecrã para mostrar aquilo que, realmente, vou aproveitar.

Mas, tendo conseguido a fotografia, surge outra situação difícil: a identificação. Faço questão que a cada fotografia seja apenso um nome. Que a minha câmara é muito mal-educada e atribui números às pessoas. E, brincando com isto, acrescento que tomarei nota daquilo que me disserem, verdadeiro ou falso. Algumas pessoas dizem-mo de caras, outras sorriem, pensam num nome e dizem-mo, outras, muito simplesmente, dizem que mo não dizem. Nesta última situação alvitro eu um, que sempre foi aceite.

Este caso foi um pouco diferente. Não mo quis dizer, mas também não quis dizer que não queria dizer. Embaraçada, titubeou até que me atirou com um “não sei”.

Certo! respondi. O nome que vai com esta fotografia será “Não sei”.

Não gosto de faltar às minhas promessas, pelo que esta fotografia não se chama nem Maria, nem Ana, nem mesmo Zulmira.

Chama-se Não Sei simplesmente.

 

By me

domingo, 4 de abril de 2021

Plink


 


É uma discussão velha e acredito que se eternizará: usar ou não filtro protector na objectiva.

Os acérrimos da pureza e da extrema qualidade da imagem captada defendem que quantos mais elementos se colocarem entre o assunto e o material fotossensível mais alterações ou aberrações se obtêm. De geometria, de contraste ou de fidelidade cromática. Têm alguma razão.

Os restantes defendem que proteger o elemento frontal da objectiva é algo primordial. Tanto no que respeita a pancadas acidentais como de riscos eventuais, resultantes da limpeza. E é tanto mais certo quanto mais em exterior se trabalhar. E têm razão também.

Eu pertenço ao segundo grupo.

O meu relacionamento com a fotografia não me permite dar-me ao luxo de ter acidentes e perder ou danificar uma objectiva. E as alterações provocadas por um bom filtro protector são tão mínimas que se podem rotular de desprezíveis.

Já substituí vários filtros ao longo dos tempos. Que, por muito cuidado que se tenha na manutenção e limpeza das objectivas, haverá sempre um grão de poeira que não vemos e que acaba por provocar algum risco. E com o somar dos anos…

E já substituí filtros protectores porque cumpriram ao limite a sua função: proteger a objectiva contra agressões externas.

Já bati com ela, entortando o anel do filtro e partindo-o; já se partiu porque saltou uma pedrinha de sob a roda de um carro e acertou-lhe em cheio; já risquei filtros ao aplicar-lhe vaselina para efeitos de difusão da imagem…

O meu último acidente aconteceu ainda não há muito tempo: ao desmontar um cenário doméstico que incluía velas acesas, não tomei as devidas precauções e saltou um pouco de estearina para a objectiva. Incluindo o elemento frontal. Não consegui recuperar a integridade cristalina do filtro, ficando para sempre com uma mancha. Quase invisível a olho nu, mas que afecta a imagem.

Não sou o David Hamilton, que era patrocinado por uma marca de câmaras e objectivas, e que usava lixa fina e de modo controlado no elemento frontal das objectivas para obter uma difusão suave em algumas das suas fotografias.

E, convenhamos, é muito mais fácil e barato substituir um filtro danificado que uma objectiva.

 

Na imagem o filtro que estalou com a predrinha que o atingiu.


By me

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Suportes


 


Das minhas primeiras compras a sério no campo da fotografia, a terceira foi um semi-fiasco.

Comecei por uma Pentax MX, com uma 50mm f/1,7. Um conjunto de entrada, particularmente fiel e robusto. Ainda possuo a objectiva.

A segunda foi uma objectiva 75-150mm f/4. Foi o que o meu orçamento permitiu e continua a prestar bons serviços, ainda que ambicionasse uma Vivitar 70-210mm f/4, série 1. Um topo de gama, à época e creio que ainda hoje.

A terceira foi um tripé. Um barato, cuja marca já não recordo, escolhido pelo aspecto, leveza e preço, ignorando eu muita coisa sobre tripés. Durou uns anos, mas antes de passar à reforma tratei de adquirir outro.

Não tinha eu a noção da importância da robustez, fruto dos materiais, peso e localização do centro de gravidade. Menos ainda sabia da importância da solidez da cabeça. Não apenas para suportar o peso que lhe é colocado como para absorver as vibrações provocadas pelo mecanismo de obturação: movimento do espelho e das cortinas.

De momento, passados todos estes anos, possuo diversos suportes de câmara. Uns minúsculos tripés de mesa, para câmaras de bolso ou quejando, um tripé de madeira e alumínio, mais velho que eu e usado quase que em exclusivo com a minha câmara “À-Lá-Minuta”, um Gitzo suficientemente pequeno para passeios, mas não tão leve quanto o meu corpo, já não tão novo, gostaria, e um Bembo.

Sou um fã incondicional deste último!

O seu sistema de fixação da abertura das pernas ou do ângulo de posicionamento da coluna são incomuns e, sem prática, arriscado. Um único travão para tudo isso. Mas permite colocar a cabeça em qualquer posição, em qualquer eixo, usando uma mão para segurar a câmara e outra para travar o conjunto. Engenhoso mas ardiloso.

Tem este tripé uma característica também original: nas suas pernas, de apenas duas secções, é a superior que entra na inferior e não o inverso como habitualmente. Isto aumenta-lhe o peso e o volume, mas permite usar o conjunto em água, lama ou areia sem que estas entrem no sistema. Recomenda-se para quem faça fotografia no exterior, em terrenos “sujos”, já que é muito fácil de limpar sem colocar em risco tubos e roscas de fixação.

Claro que tudo isto o torna pesado e um pouco incómodo de transportar, mas é fiel, robusto e, com o tempo, aprende-se a gostar muito. É o meu tripé de serviço.

No topo dos tripés, a cabeça. Peça tantas vezes negligenciada, tanto no peso que suporta como na forma como é travada. E, com o passar dos tempos e sem manutenção, acaba por nos trair naquilo que mais queremos: uma câmara solidamente colocada.

Tenho uma Gitzo clássica, velha e muito usada, e três Manfrotto: uma de rótula, relativamente robusta, e duas 115. Estas suportam razoavelmente bem o peso que lhes costumo colocar, absorvem bem as vibrações da câmara e são muito fáceis de manter e limpar. Dependendo do uso que lhes dou, uma vez a cada dois ou três anos mais ou menos.

Acrescente-se a vantagem de estas 115 de terem uma grande flexibilidade no tocante a posição, bem como os manípulos serem ajustáveis.

 

A maioria dos fotógrafos preocupa-se com sensores ou películas. Ainda bem!

Preocupam-se igualmente com as objectivas. Importantíssimo!

Mas os suportes, bem como os pára-sois, acabam por ficar “para quando houver oportunidade”. Alguns dos problemas que se encontram mas imagens finais surgem desta atitude.

Disse-me um mestre e amigo, atribuindo-o a uma mestre mundial: “Só há dois tipos de fotografia: tremidas ou feitas com tripé”.

Tal como me disse, com a mesma origem: “Se não podes ter um bom tripé, arranja um monopé!”

Passe-se os exageros, são dois bons conselhos.


By me

quarta-feira, 31 de março de 2021

Desabafo fotográfico reduzido a letras:




Passo-me dos carretos quando vejo fotografias feitas com equipamentos muito caros, muito trabalhadas em editores de imagem e que têm o mar torto. Ou o retratado sem espaço para respirar. Ou que o centro de interesse está bem no meio, qual mira telescópica de arma de precisão.

Sugiro a esses autores que invistam em visitas a museus ou encontros de jovens fotógrafos, em estética no lugar de técnica, que vejam em vez de olharem.


Se, depois disso, quiserem pôr o mar a descair, a espampanante modelo com falta d’ar ou exercitarem o tiro ao alvo, estejam à vontade. Mas saibam porque é que o fazem!


By me

segunda-feira, 29 de março de 2021

Critérios editoriais


 


A cerimónia das entregas dos prémios “Óscar” acontecerá no próximo dia 25 de Abril.

Pergunto-me a que será dado mais destaques nos media portugueses: o cinema norte-americano ou a data na história portuguesa?


Imagem: edit by me from the web