Enquanto fumador é-me difícil recusar um cigarro a quem mo
pede. E quanto mais difícil a vida de quem mo pede aparenta, mais facilmente o
dou. Que sei o quão difícil é ter que escolher entre comer e fumar. E o quão
bom é, nessas condições, conseguir fumar um cigarro inteiro, novinho em folha.
Por isso quando um sem abrigo ou equivalente me aborda dou
sem mais aquelas. A única questão é a forma como sou abordado, que se for
abrupta ou em forma de ordem, bem podem ir fumar para outro lado.
Por vezes, se estou de maré e a conversa o permite, proponho
uma troca sem obrigações: um cigarro por uma fotografia. Dou o cigarro na mesma
quando não aceitam o negócio, mas fico todo satisfeito quando consigo o boneco.
Terá sido este o caso, há uns bons quinze anos.
Sei o tempo porque o arquivo me informou. Sei que terá sido
uma “troca” porque me enfrenta com o cigarro apagado (por regra dou primeiro e
fotografo depois).
Aquilo que não sei, ou talvez tenha sabido mas esqueci, é o
seu nome. E isso irrita-me.
Uma fotografia de alguém não é apenas um troféu no cinto do
fotógrafo. É alguém que acedeu a partilhar-se, a dar-me um pouco de si. E isso
não pode ou não deve ficar no anonimato ou na frieza de um número.
Não sei o seu nome de baptismo. Mas vou chamar-lhe José para
que não seja apenas mais um. Nunca somos apenas mais um.
Pentax K7, SMC Pentax-M 50 1:1,7
By me







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