Esta é uma garbosa chave de fendas que reside numa mala de
ferramentas.
Fui dar com ela assim, como a vedes, por via da água e do
frio que temos vivenciado.
Mas, pensando bem, quem não?
Pentax K1
mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4
Esta é uma garbosa chave de fendas que reside numa mala de
ferramentas.
Fui dar com ela assim, como a vedes, por via da água e do
frio que temos vivenciado.
Mas, pensando bem, quem não?
Pentax K1
mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4
Saber um ex-aluno a militar na extrema-direita é algo que me
entristece.
É legítimo, mas entristece-me.
Se por outros motivos não fosse, porque não terá entendido
que fotografia é partilha, é fraternidade, é dádiva sem olhar a quem ou porquê,
mesmo que comercial. É procurar o que há de belo no universo, mesmo que
horrendo.
É não ter interiorizado que cada bocadinho do mundo que
recortamos com o nosso enquadramento e guardamos nos nossos arquivos faz parte
de um todo que não dominamos mas que queremos melhor. Por isso o evidenciamos.
Saber que um ex-aluno não o entendeu ou que age em oposição
disto significa que, de algum modo, falhei com ele. Por muito que possa saber e
praticar de estética ou de técnica.
E isso entristece-me!
Pentax K100D, Sigma 70-300
By me
Coisas que me dão prazer fotográfico.
Entrar num local (real ou virtual) e reconhecer consistência
nos trabalhos fotográficos exibidos. Perceber que quem ali está a expor-se tem
uma linha de forma ou de conteúdo definidas, quer o próprio o reconheça ou não.
E ainda me dá mais prazer o entrar num local (real ou
virtual) onde estão trabalhos de vários fotógrafos e reconhecer um autor de
fotografias mesmo antes de ver o seu nome.
Posso não gostar do que vejo ou gostar muito, pouco importa.
Mas uma coisa é certa: aquele autor fotográfico é bom.
Pentax K7, Sigma 70-300
É sabido que há gente especializada em gerir situações como
estas. Bombeiros e militares têm gente e meios para tal.
Mas vou pensando nas centenas de pessoas que foram para o
terreno para prestar socorro e reconstruir o urgente. Trabalhadores de empresas
de várias valências, cidadãos voluntários, soltos ou organizados.
Mas uma pergunta me assalta: onde dorme ou repousa e o que
comem e como é confecionado toda esta gente? Foram montadas tendas de campanha
com camas equivalentes? Foram instaladas cozinhas de emergência? As unidades
hoteleiras e de restauração abriram as portas a estas centenas de pessoas?
É que para além de dar apoio às vítimas, haverá que apoiar
para que bem façam o que estão a fazer, nalguns casos tarefas penosas, exigentes
e arriscadas.
Pentax K7, SMC Pentax 50 1:1,2
By me
Diz o povo que depois da tempestade vem a bonança.
Mas isto anda de tal forma que depois de uma tempestade veio
logo outra e atrás desta vem uma terceira, sempre sem a bonança de permeio.
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
“Pouco importa o que já fizeste se não te importares com o
que ainda podes que fazer.”
Eu tenho uma pequena colecção de aparelhos de medida de luz.
Não gosto de lhes chamar de “fotómetros”, já que nem todos
me apresentam resultados em “footcandle”. Alguns mostram-me “lux”, outros em
Kelvin, outros ainda nem uma coisa nem outra, mas tão só os valores de
exposição. Aliás, tenho mesmo um que não possui ponteiros nem célula e que é
inerte, dependendo de uma mica graduada e da acuidade visual do utilizador.
Recentes ou bem antigos, incidente, reflectida, de largo ou
estreito ângulo, continua ou instantânea, balanço e correcção de cor… tenho de
quase tudo. Faltar-me-á um espectómetro, mas não tenho nem necessidade imediata
nem meios para o comprar. Claro que nem aqui considero os sistemas de medição
integrados nas câmaras.
Aquilo que ainda não tinha usado era a câmara de um
telemóvel para aquilatar quantidade de luz. Surgiu agora a necessidade.
Uma conhecida recebeu e recuperou uma vetusta e ilustre
câmara. Tudo agora funcional, excepto o “fotómetro” que, como seria de esperar,
“morreu” de velho.
Lá lhe indiquei as velhas tabelas impressas no interior das embalagens
de cartão em que se vendem os rolos fotográficos e que dão indicações
preciosas, ainda que pouco precisas, sobre os ajustes de exposição em função
das condições atmosféricas e mais uns trocos.
(É interessante verificar como é raro encontrar alguém que
saiba que existia algo impresso no interior dessas embalagens. E, a maioria dos
poucos que sabem, nunca o leram ou ponderaram as informações lá contidas. Um
pouco como com os manuais de instruções.)
Pois para a ajudar, que a compra de um “fotómetro” está,
para já, fora dos planos dessa minha conhecida, sugeri algo de forma errada:
algo nunca tinha usado.
Refiro-me a aplicações para telemóvel que medem a luz e nos
dão indicações sobre como ajustar a exposição: sensibilidade, tempo, abertura,
EV…
Sendo que não gosto de ter pontos de interrogação suspensos
sobre a cabeça, mas antes exclamação ou reticências, tratei de ver o que se
encontra on-line.
São mais do que esperava. Alguns usam a câmara como sensor,
outros um dispositivo adicional. Optei por experimentar um da primeira opção.
Numa primeira abordagem, gostei dos resultados. Comparado
com as indicações dadas por duas câmaras e três aparelhos de medida externos,
pareceu-me dar resultados medianamente consistentes e fiáveis.
Criei agora o desafio pessoal de usar este método e
fotografar com a minha DSLR para tirar as teimas de modo prático.
Duas notas, no entanto:
- Independentemente dos resultados que obtiver, não creio
que medir luz com um telemóvel dê o mesmo prazer ou afecto que com um fotómetro
ou exposímetro;
- Não irei juntar um telemóvel à minha colecção de aparelhos
de medida de luz.
By me
Primeiro
A coisa começou há muitos anos! Éramos – e eu os compinchas
de várias andanças, incluindo a procura de perguntas e respostas –
razoavelmente novos.
O caminho que então percorríamos juntos passava também pela
fotografia. Partilhávamos os equipamentos, as técnicas, as estéticas os
conhecimentos e descobertas que íamos fazendo. E, não sendo nenhum de nós
génios, procurávamos também os livros e revistas onde pudéssemos ir beber em
mestres o suficiente para os nossos passos.
Estávamos na década, melhor, no decénio de 70, inícios do de
80 e por cá, Portugal, pouca leitura havia em português sobre a matéria. Livros
apenas alguns mais antigos, ao estilo de almanaques, e revistas só aquelas
efémeras, cuja qualidade e pouca procura faziam morrer pouco depois de nascer.
A solução era, inexoravelmente, recorrer ao que vinha de
fora, do Reino Unido, dos EUA, de França. Cada uma destas origens, então como
agora, tinha abordagens diferentes às técnicas e estéticas e às soluções. E o
hábito de ler, apreciar e mesmo falar ia-se atendo às línguas que praticávamos
fotograficamente.
Claro que também contava, face à juventude que tínhamos, o
prazer de usar um código semi-hermético aos circundantes, aqueles que não
bebiam onde nós nos alimentávamos: o prazer de fazer imagens.
E criou-se a brincadeira, petulante é certo, de dizer que
por cá se fazia “Fotografia” e que lá por fora se praticava “Photographia”.
Com o passar dos tempos e as variações de rumos das vidas de
cada um, tudo isto se transformou ou diluiu. A literatura e os periódicos em
língua portuguesa foram aparecendo, algumas por nós mesmos produzidas, muitas
vindas de além-mar. E deixamos de parte a necessidade juvenil da afirmação por
códigos e mistérios.
Mas a sensação da diferença entre “fotografia” e
“Photographia” ficou. Já não agarrada à tradicional maledicência sobre tudo o
que é português, mas antes para marcar alguma diferença no tipo de imagens
produzidas, onde quer que fosse. Diferença esta que não está nas técnicas, nas
estéticas ou nas temáticas. Constata-se em cada uma delas e no seu conjunto mas
não reside aí.
Está, antes sim, na forma de pensar e de fazer fotografia.
Segundo
A representação pictórica, ou iconográfica, existe desde
antes da escrita, com esta tem co-existido e, pela certa, a ela sobreviverá.
Porque os códigos alfabéticos, fonéticos, ideográficos ou binários mudam com as
civilizações e tecnologias, o que não sucede com o uso das belas-artes. Poderão
estas mudar de estilos ou de interpretações, mas perduram.
O comum do ser humano, gregário que é mas igualmente
desejoso de marcar a diferença na sociedade em que se insere, procura igualar
ou suplantar aqueles que admira e a quem atribui qualidades superiores. Entre
outros, os que bem se expressam, seja qual for a arte em causa. E a pintura e
representação gráfica é uma delas. Mas ela não é tão simples como parece, já
que, além do domínio das técnicas, implica um certo “fogo interior” que na maioria
está apagado. Para já não falar na morosidade do processo.
Ao invés, a fotografia é quase imediata, por comparação. E
é-o tanto mais quanto as técnicas usadas evoluem. Técnicas estas que, com um
domínio não muito aprofundado, permitem obter resultados satisfatórios, não
apenas perante a sensibilidade de quem as produz como a aceitação de quem as
vê. E os automatismos contemporâneos ainda reforçam este facilitismo no fazer
da fotografia.
Se a isto juntarmos o consumismo desenfreado que vamos
vivendo e a necessidade de afirmação social mais pela posse de bens que pelo
resultado daquilo que se é e se pensa, temos que meio mundo possui e utiliza
câmaras fotográficas. E que o outro meio anseia por o ter e fazer.
Mas esta fotografia é feita a correr, oriunda em impulsos de
momento, quase que por obrigação. As questões estéticas são ignoradas, dos
factores de comunicação nem se desconfia, e com a mesma velocidade com que
dispara o obturador, também o seu resultado é esquecido. Tão ou mais grave que
isso, a fotografia contemporânea padece da efemeridade, já que o seu apagar ou
destruir resulta do uso de uma ou duas teclas na sequencia de sistemas de
armazenamento cheios. A mesma ausência de pensar no acto fotográfico conduz a
uma ausência de importância no seu resultado. Conservar ou não uma fotografia é
uma questão de apetite momentâneo. E já não se usam pastas de arquivo
cuidadosamente arrumadas, caixas de sapatos empilhadas ou gavetas repletas de
papéis mono ou multi-coloridos que, volte e meia eram remexidos e supostamente
organizados.
Some-se a esta pouca importância dada ao pensar a fotografia
o seu actual custo zero. Fazer uma fotografia ou dez consecutivas tem o mesmo
preço e dá o mesmo trabalho em obter. Que o “rolo” já não chega ao fim e as
memórias dos cartões são cada vez maiores.
Nos tempos que correm, a velha frase publicitária “Para mais
tarde recordar” deixou de fazer sentido, face ao uso e importância que é dada à
fotografia.
Terceiro
Alguns há, no entanto, que assim não procedem.
Ao olharem pelo visor da câmara, ou ainda antes disso, o seu
objectivo é o registo permanente daquele jogo de luz e sombras, daquela
perspectiva, o contar daquela história, o eternizar daquele momento. E que, em
tendo oportunidade para tal, procuram melhorar as suas capacidades de o
fazerem, tanto pela prática como pelo estudo de quem o faz ou fez ainda melhor.
Em que a afirmação pela fotografia não passa pela competição com os restantes
com base no resultado ou na exibição da factura do seu equipamento mas antes
consigo mesmo e com o resultado obtido a cada imagem produzida.
E que sabem que esse processo começa com o olhar o assunto e
termina com olhar sobre o produto acabado, sendo que tudo o resto que medeia
entre um e outro são meras técnicas, mais ou menos dominadas. Na tomada de
vista e na selecção e tratamento posterior.
Que sabem e praticam que uma fotografia é o resultado de um
processo mental materializado pela técnica. E que é mais naquele que se
preocupam que nesta.
Ao resultado dos trabalhos destes, chamo eu (e mais uns
quantos não tão poucos quanto isso) “Photographia”. Para o trabalho dos demais
fica o termo genérico de “Fotografia”. Alguns há, ainda, que diferenciam com o
uso de maiúsculas e minúsculas, mas o significado é o mesmo.
Nenhum dos dois termos tem mais valor que o outro ou algum
deles tem uma carga negativa. Porque, na vida, o que importa é a obtenção da
felicidade naquilo que fazemos e nenhum método é universal ou único.
Mas porque não são iguais nem nos processos de obtenção nem
nos resultados materiais, identifiquem-se umas e outras imagens e fotografias.
Até porque entre imagens fotográficas e fotografias (com “F”
ou com “Ph”) também há diferenças. Mas isso são outros contos!
By me
Tenho em casa um montão de coisas inúteis e estranhas. Algumas
por estrear em frente da minha objectiva. Foi o caso.
Numa dessas caixas fui encontrar uma pequena e bem velha
amostra daquilo que terei que engolir daqui a por pouco mais de uma semana.
Mas antes isto, fazendo-me ficar com o estômago aos saltinhos,
que a alternativa, que me provocaria diarreia por uns cinco anos.
Pentax K1
mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4
By me
Foi talvez há um pouco mais de quarenta anos, não posso
precisar.
Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de
uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de
envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais
alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.
Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia
comprado pouco tempo antes.
Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava
combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões
técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação.
O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios
caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia. E
eu era um bocado inexperiente.
O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada
em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia
de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e
telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o
trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores.
Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu
passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…
E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam
costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.
Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que
haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas
bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser
fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram
tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom
baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.
Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho
poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito
forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era
obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!
Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da
fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente,
inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como
nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser
feito como combinado.
Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com
argumentos técnicos e estéticos não iriam ser possível fazer boas imagens com a
presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a
solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por
inteiro e sem a presença das operárias.
A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o
produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava
para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o
que eu queria com aquilo.
Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu
era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o
conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por
algumas, não muitas, horas.
As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes
e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou
dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos
contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.
Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha
e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram
muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este
produtor.
Ainda hoje as recordo.
Nota extra: A fotografia não é da época. Os originais, em
diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a
correr, para acompanhar o texto.
Pentax K7,
Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5
By me