Rígida, não caminha nem nunca caminhou. Mais ainda, apesar
de amachucada, nunca foi calçada. E isto porque o seu interior, no lugar de
vazio e pronto a receber um pé, é maciço, feito de loiça.
Como aliás toda ela.
Explicado num português com forte sotaque francófono, o seu
vendedor da mesma cor da bota sempre me explicou que serviria, se o
quiséssemos, como cinzeiro. E, como que para mo demonstrar, lá me mostrou a
ranhura no calcanhar para segurar um cigarro a arder.
E, ao fim de tanto tempo com um olhar desperto para sapatos
(botas, chinelos, pantufas e afins) abandonados na rua, não pude deixar de
reparar que esta bota estava sozinha na banca de uma “feira” de ocasião, numa
estação de caminho de ferro.
Não resisti e, não a podendo fotografar ali mesmo,
comprei-a. Esta poderia não ter o par, mas não ficaria ali abandonada, no meio
de tanta outra quinquilharia e artesanato senegalês.
Para minha tristeza e talvez porque sou ingénuo, mal me
tinha afastado e outra ocupava o mesmo lugar.
Mas não pude deixar de dar uma gargalhada, ao constatar que
também esta era do pé direito. Suponho que, por baixo da bancada, haveria um
caixote cheio de botas de loiça, todas do pé direito.
E as do pé esquerdo? Onde estarão?
Pentax K7, Sigma 70-300
By me










