quarta-feira, 6 de maio de 2026

Todas e cada uma




Ao longo dos anos tive diversas câmaras fotográficas. Confesso que já lhes perdi a conta, ainda que, se fizer um esforço de memória, conseguirei saber quantas com rigor.

Tive-as de quase todos os formatos, de 18x24 a 110, de dispendiosas e complexas a simples e baratinhas.

Cada uma delas cumpriu a sua função, satisfazendo os motivos para que foram compradas. Ainda que algumas me tenham sido oferecidas, por este ou aquele motivo. Cheguei mesmo ao ponto de construir uma, que se vê na imagem. Tal como construi uma objectiva.

Algumas já não possuo. Ou foram-se, vendidas nalgum momento de aperto económico, ou foram negociadas por troca de melhores, ou ainda oferecidas a quem não possuía e necessitava. Outras estão apenas guardadas porque, por este ou aquele motivo, deixaram de funcionar. Avarias ou falta de consumíveis, as mais das vezes. Outras ainda por uma questão de coleção. Recordo mesmo uma Polaroid que se desfez porque lhe caiu em cima um pesado martelo, num triste acidente.

De cada uma delas tenho memória de momentos, actos fotográficos. E com cada uma delas, quando lhes pego de novo, as minhas mãos sabem fazer aquilo que o cérebro pensava ter esquecido.

Mas há coisas que aprendi com cada uma e com todas:

Por um lado, não é a posse ou o uso desta ou daquela que me transforma em melhor ou pior fotógrafo. Eventualmente poderei dizer que com umas não poderei fazer fotografias que faço com outras.

Por outro lado, todas elas provocaram momentos únicos, irrepetíveis. E prazer. Ou satisfação. A ambos os lados da objectiva. Sem importar a sua complexidade ou preço. Ou mesmo fabricante.

Volta e meia pego numa das que estão guardadas e dou-lhe uso. Película ou electrónica. Isto porque o carinho e intimidade que tenho por cada uma faz com que não as queira “mortas” numa qualquer caixa ou estojo. Dar-lhes uso é dar-lhes vida.

Mas também para me recordar daquilo que não esqueço em momento algum: A câmara fotográfica é apenas aquilo que medeia entre aquilo que vejo e aquilo que mostro.

Na imagem, uma fotografia não “programada”, feita no decorrer do meu projecto “À-Lá-Minuta”, num jardim de Lisboa.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55


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domingo, 3 de maio de 2026

Viva quem faz - Tânia




Era uma festinha!

Com bonecos feitos com balões, castelo insuflável, prendas e lanche. Abrilhantado pelo “Sr. Lino”, que cantou Kuduro e Kizomba com letra adequada aos presentes. Talvez deva dizer, em rigor da palavra e do género, das presentes.

Que a festa era promovida pela organização “Ajuda de mãe”, entidade particular de apoio a jovens adolescentes, e adultas como me foi explicitado, mães solteiras. Com fortes dificuldades económicas ou sociais.

E o público era em consonância: mulheres de todas as idades e cores, algumas absurdamente novas, todas com crianças de colo ou pela mão. Alguns dos pequenotes com pouco mais que uns dias de vida. Aliás, e como comentou uma decana Caboverdiana com quem conversei, tão pequenos e novinhos que havia de que ter cuidado em não os pisar, espalhados que estavam pelas poucas cadeiras de plástico e pelo relvado contíguo.

Soube do que se passava porque o perguntei, abelhudo que sou. E quando, um pouco depois, um dos sócios do quiosque de gelados foi até lá, também movido pela curiosidade, lá lhe expliquei, acrescentando que era uma causa meritória.

Passada que foi uma meia hora, mais coisa, menos coisa, eis que vejo dirigir-se àquelas que pareciam ser as organizadoras a sócia do quiosque. Com um caixote de tamanho médio que segurava com ambas as mãos.

Falou o que tinha a falar, deixou o caixote e afastou-se. Com um sorriso para mim e a afirmação, a uns bons dez metros de distância: “A minha boa acção do dia!”

Não sei se tinha gelados (talvez não que o calor era muito e pouco durariam), se qualquer outra guloseima. Mas valeu a pena ver e saber que aconteceu. No Jardim da Estrela.

Viva quem faz e que possui estes olhos!

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 2 de maio de 2026

Mensagens




De todos os que vi este foi o mais sério, o mais profundo e, talvez, o mais pensado.

Porque que futuro pode imaginar um jovem casal quando não consegue um local a que chame lar, por muito modesto que seja? Que futuro pode imaginar para os filhos, que ainda não tem, quando mal consegue sutentar-se? Que futuro pode imaginar uma sociedade que a cada lei imposta vê aperterem-se as grilhetas da escravidão, ainda que sem ferro?

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Empatias




“Pedimos a vossa compreensão para os incómodos causados”

Esta é a frase com que a CP nos brinda ao informar-nos que o comboio que aguardamos está atrasado.

Frase estafada, que todo o utente da ferrovia nacional está cansado de ouvir, e que em bom português quer dizer “Estão tramados e nada iremos fazer.” Ou, ainda mais agressivamente, “Aguenta que doi menos!”

Eis que surge uma nova versão, num contexto diferente mas com o mesmo significado. Diz-nos Luis Montenegro que o governo tem empatia e compreensão face a aumento do custo de vida.

 

Se ele fosse ter empatia nos quintos do inferno, nós teríamos toda a compreensão do mundo!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Alegoria




Boa amiga fez-me saber da existência deste livro. E se o conhecimento não tem fronteiras nem limites, também não tem caminhos definidos previamente. Pelo menos p’ra mim. Tratei de o encontrar e trazer para casa.

Ao fim de dez páginas, apenas, dou com esta preciosidade.

Pergunto-me o que escreveria ou citaria a autora, Françoise Choay, se em vez de ter publicado o livro em 1992 o tivesse feito hoje mesmo. Que o conhecimento impresso está em decadência em benefício do conhecimento on-line. Com tudo o que de bom e de mau isso tem.

“…

O perspicaz Charles Perrault encanta-se por ver desaparecer, devido à multiplicação dos livros, os constrangimentos que pesavam sobre a memória: “hoje”, não se aprende quase nada de cor, porque se tem naturalmente em casa os livros que se lê, a que se pode recorrer quando se tem necessidade, de que se cita mais seguramente as suas passagens copiando-as do que fazendo fé na memória, como se fazia antigamente.

…“

Num estudo que li, há uns tempos, feito na Grã Bretanha, um conjunto de estudantes universitários foi confrontado com conhecimento novo em livros que procuraria numa biblioteca. Outro conjunto de estudantes universitários foi confrontado com o mesmo conhecimento, mas pesquisado na web.

Constatou-se que o primeiro grupo retinha melhor o que havia lido que o segundo grupo, que retinha melhor os locais onde o tinha encontrado.

Tenho para mim que o grave do conhecimento adquirido na net, apesar de mais rápido e pese embora a questão da fiabilidade das fontes, está na sua falência.

Em havendo quem queira fechar a rede (censura, guerra, questões económicas ou culturais) já não se tem acesso ao conhecimento porque restrito a este meio. Já os livros… bem, não é fácil de destruir toda a existência, mesmo considerando o espaço ocupado.

O dia do livro foi celebrado um destes dias. Mas, embora seja um utilizador intensivo da web e do conhecimento que ela propicia, não creio que alguma vez prescinda do papel, do prazer de ler um livro, de o folhear, de procurar na estante a lombada certa…

Mania minha, desde há muito tempo: em comprando um livro, escrevo logo na primeira página o preço, a data e o local onde o comprei. Interessante de constatar, as livrarias por onde fomos criando os nossos hábitos.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quarta-feira, 29 de abril de 2026

As 5 perguntas




É a luz, é sempre a luz!

Das cinco perguntas básicas do jornalismo – quem, como, quando, onde, porquê – nenhuma importa. É a luz!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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terça-feira, 28 de abril de 2026

Será que...?




Há meia dúzia de anos, disse-me um jovem em início de carreira:

“O 25 de Abril pode ter sido tudo isso, mas o certo é que me deu a possibilidade de hoje estar a trabalhar e receber a dobrar.”

 

Quando as liberdades são entendidas apenas como uma forma de ganhar dinheiro, mais dinheiro, pergunto-me se valeu a pena terem-se posto cravos nas pontas dos canos ou se não teria sido preferível deixar que o chumbo quente cumprisse a sua função.

Ou se não estará agora na altura de o fazer.


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Sorriso




Quando vi este sorriso não resisti: veio comigo.

Claro que um sorriso não funciona sozinho, pelo que veio onde estava instalado: um chassi ou porta-negativos formato 6,5x9 (2 1/4x31/4) que encontrei à venda numa loja da especialidade.

O interesse no chassis é simples: em tempos trabalhei com uma Linhoff Tecnika 70 e um dos formatos que suportava era este. Com o qual me entretive a “brincar” aos Ansel Adams e o seu Zone System. Cada negativo exposto e revelado individualmente para total controlo de contraste.

A dificuldade, em meados dos anos ’80 era encontrar película rígida com este formato. Havia apenas duas casas que o disponibilizavam, da marca Orwo, uma de porta aberta, a outra o seu representante, um escritório em Lisboa. ISO 125 (na altura a identificação era ASA) e já era muito bom.

Acrescente-se que esta fotografia foi feita com um smartphone, cujo ecrã é quase do tamanho destes negativos. E que todo o chassis, já agora.

Neste momento é meio-dia e pouco. Se ainda não sorriu ou fez alguém sorrir hoje, ainda tem metade do dia para o fazer. Tal como amanhã, depois, depois...


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domingo, 26 de abril de 2026

Imagem




No constante fazer de imagens do quotidiano, as que são normais, regulares, habituais, vão-se desvanecendo, como papel fotográfico mal fixado, restando delas contornos vagos e imprecisos.

Do que recordo de há 52 anos, para além da festa da revolução por si mesma (o fim da guerra, da censura, da ditadura, da polícia política...) ficam as imagens da festa do quotidiano!

Cada dia era um dia, razoavelmente imprevisivel e em que as suas consequências dependiam, em boa parte, do que fizessemos. Não deixávamos o futuro em mãos alheias e intervinhamos, a cada passo, nos que a nós dizia respeito e no que ao colectivo tocava.

Construíamos! Debatiamos! Sonhavamos! Faziamos!

É esse espírito de construção permanente, de almejar mais e melhor e de fazermos por isso (sem esperarmos que outros o fizessem por nós nem para eles passassemos as responsabilidades de tal) que recordo com mais força. São fotografias perfeitamente impressas e fixadas que jamais se desvanecerão. Apesar dos aspectos negativos (que os houve) que aconteceram então e que ainda hoje marcam parte da nossa vida.

No espelho do tempo vejo aquilo que agora faço porque aconteça: intervir na sociedade, estando lá de corpo e alma, melhorando o que de menos bom vamos tendo e celebrando o que de alegre e positivo existe.

Mas quando olho para trás e para o lado, lamento sinceramente que esta atitude interventiva, que então grassava, se tenha desvanecido, qual imagem velha e mal cuidada.

Quando, daqui por 52 anos, olharmos para as imagens deste tempo que vivemos, o que sobrará serão imagens cinzentas ou amareladas, mal fixadas e amarfanhadas.

Por que nesta sociedade, a alegria de ser passou a alegria de ter. E o consumismo dos tempos que correm transforma de um dia para o outro a novidade em velharia, pouco restando para recordar.

As fotografias que então fizemos com a alma repassam no tempo. As que hoje vamos fazendo, porque virtuais e efémeras, não sobreviverão à vertigem das novas novidades para consumir!

 

Nikon Coolpix P7000


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sábado, 25 de abril de 2026