Pentax K1
mkII, smc Pentax-m Macro 100 1:4
By me
Em 1982 estava eu em Málaga e a trabalhar para a RTVE na
transmissão do mundial de futebol.
Nas poucas manhãs que tinha livres, aproveitava para fazer
turismo, vadiando pela cidade e visitando museus.
Num deles, quase vazio àquela hora, acabei por ficar de
conversa com um jovem Argentino, recém formado em medicina, e que estava a
fazer um périplo pela europa.
A dado passo, e porque curioso é o meu nome do meio,
questionei-o sobre a recente guerra das Malvinas (ou Falckland) e sobre a
existência ou não de liberdade no seu país. A resposta deixou-me a pensar até
aos dias de hoje:
“Se nós somos livres? Claro que sim! Podemos sair à noite e
tudo.”
Pentax K100D, Pentax 18-55
By me
Verso
Um destes dias apresentar-me-ei no Parlamento, pedirei
respeitosamente a palavra e, quando me a derem, lerei a minha proposta de
revisão do código civil, penal, comercial, fiscal, …
Tratar-se-á de uma obra volumosa, de muitas páginas, tendo
escrito na última a palavra “continua” e coisa nenhuma em todas as outras.
O bicho-homem, na sua busca de uma sociedade perfeita, justa
e livre, acaba por fazer exactamente o oposto: usa uma teia intrincada de leis,
regras códigos, normas, imposições e proibições que, ao invés de o libertarem,
apenas o mantém limitado.
Na expressão plástica acontece o mesmo. Os autores vêem-se
confrontados com os limites dos suportes. Definidos em formas padronizadas pela
indústria e com regras concebidas em tempos de antanho e consideradas
inabaláveis.
No caso da fotografia ainda se vai mais longe, levando o
acto de distribuir as formas dentro do suporte com o nome de “enquadramento”.
Colocar dentro de um quadro ou quadrado, com limites bem visíveis.
As indústrias de câmaras, papeis, molduras, imprensas,
jornais, TVs, cinema, web, revistas… seguem pela mesma linha.
Um quarto ou meia placa, dois por três, três por quatro,
widescreen, cinemascope, meia página, mancha inteira, duas colunas…
Estou em crer que o artista plástico mais livre da história
do Homem, terá sido o nosso ante-ante-antepassado. Com as suas pinturas e
gravuras rupestres e a ausência de limites ou imposições.
Talvez que o seu descendente actual seja o pintor de
graffitis, mas mesmo assim é discutível.
Mas certamente não serão os fotógrafos que, nas artes
plásticas, se comportam com mais liberdade ou a assumem, atados que estão a
regras e limites.
P.S.: Não sei se sou fotógrafo, se não sou fotógrafo ou se
sou uma coisa ambivalente, vivendo dentro das minhas próprias contradições!
Reverso
Vir aqui, ou onde quer que seja, gritar “Abaixo a regras e
as leis! Viva a liberdade total!” é bonito.
Dá um aspecto de rebeldia, de excentricidade, de enfant
terrible, agravado pelo facto de quem o diz não ser exactamente um adolescente
a querer marcar um lugar ao sol.
Se a estas afirmações lhe juntarem um toque de anarquismo e
se falarmos de artes, a classificação passa para um intelectual, eventualmente
culto, que sabe do que está a falar.
Mas como a Terra gira sempre e mesmo nos pólos existe o dia
e a noite, temos que ver a questão do outro lado também: as convenções, as
razões da sua existência, a sua eficácia e necessidade. Mesmo que falemos de
arte e de formas de expressão.
A espécie humana é gregária. Se exceptuarmos alguns
excêntricos que decidem levar uma vida de ermitas, todos os indivíduos se
juntam, tentando usar as suas próprias fraquezas individuais em proveito
próprio e dos outros. Unidos temos mais força.
Mas esta vida em grupo só é possível se nos entendermos, se
comunicarmos os nossos desejos ou necessidades e se os outros elementos do
grupo (um continente, um país, uma religião, uma família) entenderem o que
queremos dizer.
Até aqui nada de novo!
As artes, maiores ou menores - e incluamos nelas a
fotografia - são uma forma de expressão individual mas também, quiçá principalmente,
uma forma de comunicação.
Haverá alguns que dirão que fotografam (pintam, escrevem,
compõem, etc.) para si mesmos, pouco lhes importando a reacção dos seus iguais.
Isto é uma mentira do tamanho de um comboio!
Por muito egocêntrico que se seja, por muito auto-suficiente
que se se declare, por muito que se aparente uma indiferença total pela opinião
dos demais, sempre se sente satisfação quando o nosso trabalho é reconhecido e
agrada. Fotografias incluídas.
Para que este agrado aconteça, há que conhecer o que e como
os outros gostam e, de algum modo, ir ao seu encontro. A mais das vezes até não
é difícil, já que somos fruto de culturas semelhantes ou iguais e a
globalização vai-as aproximando a cada dia que passa, estreitando os conceitos
de bom e de mau – no relacionamento entre indivíduos ou grupos e nas artes e
comunicação.
Os que hoje vivem, nasceram e cresceram sob a égide dos
audiovisuais (fotografia, cinema, tv, web) que, de tanto divulgados, formataram
os gostos e as preferências. E os códigos de comunicação, já agora.
Assim, é mais ou menos fácil de fazer um trabalho
fotográfico que agrade. Basta usarmos como referência os gostos colectivos,
escolhermos deles uma linha ou abordagem que mais nos agrade, introduzir um
pequeno elemento de diferença que crie alguma surpresa et voilá: aí estamos nós
a comunicar e a agradar!
Aqueles raros génios que rompem com os códigos e normas de
comunicação e expressão artística estabelecidos são, em regra, repudiados. Pelo
menos numa primeira fase. Porque o academismo não aceita a fuga aos cânones
tradicionais, porque o comum do consumidor ou receptor da mensagem não o
entende e aos seus códigos e não quer ter trabalho para o decifrar…
Com o passar do tempo, este novos códigos acabam por ser
entendidos, vingam e, alguns, são elevados à categoria de mestria.
Mas a maioria dos indivíduos não têm a capacidade (ou não se
querem dar ao trabalho) de inovar tão radicalmente. Contentam-se em usar os
códigos de comunicação instituídos (ou não são capazes de deles se afastarem) e
procuram que os seus iguais os descodifiquem de imediato, na busca do reconhecimento
e da satisfação.
Esta atitude conservadora, que não é nem boa nem má, é tanto
mais vital quanto quem está a comunicar é um profissional ou especialista de
comunicação. O seu trabalho é fazer passar mensagens (escritas, pintadas,
fotografadas) e quanto maiores forem as dificuldades na percepção do seu
conteúdo, mais difícil se torna ele encontrar trabalho ou clientes.
Estes profissionais debatem-se diariamente com o mesmo
problema: usando as regras para a facilidade e eficácia da comunicação (códigos
conhecidos, estéticas reconhecidas, uma pitada de surpresa), ficam muitas vezes
limitados no até onde podem ir na inovação. Em regra, não muito longe.
E isto passa-se com os fotógrafos também, que a fotografia é
uma forma de comunicação. Quer se trate de fotógrafos amadores ou
profissionais. Se pretendem que o seu trabalho, a sua expressão - individual ou
a pedido - seja entendida pelos seus iguais, pelo público anónimo das revistas
ou bem identificado na família, amigos ou conhecidos, tem que usar os códigos,
as regras, os métodos reconhecidos por eles. E, se puder ou souber, colocar uma
pitada de surpresa pelo caminho para fazer a diferença.
Terá se que se ater às paletes de cor dos suportes, aos
formatos industrializados, às perspectivas convencionadas e inteligíveis, aos
sentidos de leitura e aos suportes finais de exibição.
Não respeitar os códigos de comunicação, mesmo na
fotografia, é correr o risco de ser recebido com um sorriso de condescendência
ou mesmo a indiferença explícita.
E quem é que gosta de assim ser tratado?
By me
Foi há mais de um quartel, talvez.
Seguia com metade da turma para o Largo do Camões, ao fundo
à direita, para uns exercícios com câmara de vídeo. Se bem recordo, iriamos
praticar panorâmicas a velocidades diferentes jogar com velocidades angulares.
Em chegando a esta esquina, o “bando de pardais” ignorou o
semáforo, como este fulano aqui, e atravessou para o outro lado. Em lá
chegando, e dando pela minha falta, olharam para trás e chamaram-me.
Fiz orelhas moucas e esperei pelo verde. Só que, ao contrário
do que estavam à espera, quando ele surgiu no lugar de eu atravessar chamei-os.
Vieram, meio sem saber o que se passava, e eu nada. Nos
entretantos o sinal voltou a ficar vermelho e eu nada.
Quando ficou de novo verde para os peões aí sim, falei: “Agora
que está verde, podemos todos passar em segurança.”
Riram-se do insólito da situação, devem ter pensado “Mais
uma do stor JC!”, e lá fomos como e ao que íamos: um bando de gente a querer
fazer e aprender aquilo de que gostam.
Passados todos estes anos, eu com a cabeça toda branca, eles
e elas a começarem a ficar, mesmo que disfarcem, ainda há um ou dois que se
recordam do episódio. Fico
todo babado com isso.
Pentax K1 mkII, Pentax-M 28mm 1:2,8
Aparentemente as entidades governativas e as forças
policiais estão de acordo:
Não se pode montar tendas no espaço público.
E barraca, pode? É que ali para os lados de São Bento as
barradas são mais que muitas!
Pentax K7, Tamron 18-200
Duro mesmo é ver como as diversas organizações sociais e
políticas que vão emergindo defendem mais do mesmo.
Formais ou informais, com aspirações legislativas ou com
actividades no terreno, defendendo esta ou aquela metodologia, o certo é que os
ideais de sociedade que defendem passam por uma organização estratificada, em
que alguns têm direito e acesso a muito e muitos quase não têm direito a muito
pouco.
Os cuidados médicos, a alimentação, a educação, a justiça, a
habitação, não devem ser em função de uma classe social, com mais ou com menos
posses.
Ou há diferença no valor humano entre quem recolhe o lixo
dos contentores e quem produz esse mesmo lixo?
Ou há diferença no valor humano entre quem pastoreia as
cabras e quem lhes come o queijo?
Ou há diferença no valor humano entre quem tece a seda e
quem dorme nos respectivos lençóis?
Enquanto os objectivos forem os mesmos – a manutenção de uma
sociedade estratificada, com uns a existirem para servirem os outros -, bem que
podem mudar de estratégias, discursos ou fatiotas: não me convencem!
Pentax K100D, Pentax 18-55
Podem chamar de arruaceiros. Tal como podem chamar de
fascistas, de esquerdalha, de radicais, de carneirada, de provocadores, de ...
Aquilo que não podem tirar é o desejo e o direito de ter uma
vida digna, de um tecto para si e para os seus filhos, de comida na mesa, de
...
Demorou quase meio século e uma cadeira partida, mas os que
queriam impedir de a isso aceder acabaram por cair. Ficaram os saudosistas, mas
esses irão ter o mesmo fim.
Porque há muitas cadeiras em portugal. Tal como há muitos candeeiros onde colocar os
exemplos!
Pentax K7, Pentax 18-55
Duas da minha família Pentax, vestidas de preto.
Repare-se como cresceu a mais nova, à esquerda: Cinquenta
anos e o dobro do peso as separam.
E sim, esta é forma que mais gosto de iluminar: considerar
que a fonte de luz principal vem do lado de lá do assunto. Tudo o mais que
coloque é para controlar contrastes ou sombras.
Pentax K50,
Tamron SP Adaptal2 90mm 1:2,5
By me