Eu estava naquela galeria, a ver fotografias e a conversar
com o autor. A certa altura, perguntou-me porque é que eu carregava todo aquele
equipamento: uma mala pesada, cheia de coisas, e o meu monopé pendurado na alça
da mala ou preso à mão.
Não me recordo da minha resposta, mas suponho que refletia a
minha vontade de poder fotografar o que quisesse e estar preparado para isso,
sem depender das limitações de uma pequena câmara de bolso. Mesmo que eu sempre
tenha defendido que podemos fazer fotos boas ou satisfatórias com qualquer
câmara, desde as mais sofisticadas até aquelas câmaras "pinhole" que
estão um pouco na moda hoje em dia. Desde que conheça os seus limites e saiba
usá-los bem.
Anos mais tarde, comprei uma câmara com um telemóvel
acoplado. Uma boa câmara, com uma boa objectiva, é só apontar e disparar. Quase
que "à prova de idiotas". O meu objetivo era praticar com uma câmara
de focagem fixa e impor-me a prática da perspetiva, a irmã “pobre” das
objetivas zoom atualmente.
Mais recentemente, comprei uma câmara de bolso. Objectiva
muito boa, boa resolução, fácil de usar e o mais leve possível. E sempre pronta
a usar, pendurada no meu cinto o tempo todo, como arma de reserva. Um bonito
caderno de apontamentos fotográficos.
Se alguém me fizesse hoje a mesma pergunta a minha resposta
seria diferente: gosto de fazer amor, não apenas de sexo.
Com a minha câmara reflex, digital ou analógica, posso
abraçá-la, encostar o rosto nela, acariciá-la no anel de focagem ou zoom, tocá-la
suavemente onde ela reage, tendo uma reação suave, sob a forma de uma
fotografia.
Com a câmara do meu bolso ou do telemóvel, apenas apontamos
e disparamos, e pronto. Nem sequer dá para lhe tocar, uma vez que o visor
precisa de ser visto a uma distância de, pelo menos, 25/30 cm. Não há
envolvimento romântico entre câmara, fotógrafo e modelo, não há
"preparativos" nem "aquecimento". Só sexo, não amor!
Acredito que as fotografias são criadas na nossa mente, com
as lentes dos nossos olhos. E tudo o resto, desde o enquadramento e a medição
da luz até todas as tarefas de pós-produção (edição, impressão, emolduramento e
assim por diante), são apenas as necessidades técnicas para satisfazer essa
necessidade ou criação. Etapas necessárias para materializar a nossa
imaginação!
Mas todo este processo também faz parte da diversão. Precisamos
de nos divertir no trabalho, ou ele tornar-se-á uma obrigação. E ninguém gosta
de obrigações!
Há uns tempos fotografei uma família com a minha câmara
fotográfica "antiga". Um casal e duas crianças. A mulher tinha o
sorriso mais bonito que já vi, brilhante, contagiante, cativante! Fiquei tão
fascinado que, como caçador de imagens que sou, desejei ter aquele sorriso,
quase que como um troféu.
Mas, nesse dia, fui para essa sessão fotográfica com uma
versão mais leve, levando comigo apenas a câmara fotográfica antiga falsa com o
seu tripé de madeira e a minha câmara de bolso, presa ao cinto. E nenhuma delas
seria capaz de fazer o retrato que ela merecia.
A câmara "antiquada" precisa de estar no tripé,
não só por causa do peso, mas também por causa do formato: quadrado e grande.
Quanto à câmara de bolso, a zoom tem apenas 5x de ampliação.
Não conseguiria captar apenas o rosto dela, a não ser que me aproximasse
demasiado, sendo invasivo. Por outro lado, a ausência de um para-sol
impedir-me-ia de utilizar a forte luz de fundo do sol baixo como eu gosto. Nem
mesmo a minha mão a fazer essa função resultaria, uma vez que a câmara não tem
a distância focal necessária e eu teria sempre reflexos indesejados.
Se lhe pedisse para fazer um retrato daquele sorriso
encantador, ou não conseguiria o enquadramento certo ou a iluminação seria
fraca. E não pedi!
Não seria um ato de amor, aquela foto! Seria apenas sexo.
Talvez, um dia, estejamos todos juntos, ali ou noutro lugar
qualquer. E estarei pronto para aquele sorriso com a minha Pentax, deixando a
minha câmara de bolso no cinto ou em casa.
Quanto a esta fotografia, foi um acto de amor, enquadrando,
brincando com a luz, a perspectiva e a profundidade de campo. E utilizando a
minha Pentax K100D com a objectiva Sigma 70/300 a uma distância confortável.
Mesmo que o sol não estivesse tão baixo como eu gostaria.
Pentax K100D, Sigma 70-300
By me










