sábado, 30 de maio de 2026

O quarto poder


 


Eis como o jornal Correio da Manhã titula dois artigos distintos:

“Imigrante ilegal enganou milhares com campanha solidária falsa para menino de 9 anos que sofre com doença rara”

“Três detidos em operação policial de "estratégia preventiva" em Queluz”

Se na primeira seria importante referir o ser imigrante ilegal, na segunda deveria ter sido referido serem cidadãos portugueses.

Mas se na segunda a nacionalidade não é relevante, na primeira também não deveria ser.

É assim que a comunicação social vai alimentando discursos xenófobos, alinhando sem o parecer com a extrema direita.

Comunicação social – o tal quarto poder que de objectivo e isento pouco ou nada tem.


Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


By me

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Óbvio




“Isto é óbvio!”, disse uma amiga licenciada em comunicação social, ainda que não a exercer, a quem dei a ler este pedacinho como aperitivo de uma proposta de leitura.

“Certo!”, respondi-lhe. “Mas quem vê o óbvio? Quem pára para pensar nele e agir em conformidade? Tantos quantos os que param para ver a sombra na fachada aqui em frente, todos os fins de dia.”

Antes que o coloque numa das prateleiras dos que sei que irei voltar a ler, aqui vos deixo um nico do “Olhando o sofrimento dos outros”, de Susan Sontag:

“As fotografias objectivam: transformam um acontecimento ou uma pessoa em algo que pode ser possuído. E as fotografias são uma espécie de alquimia, por mais que sejam consideradas como um relato transparente da realidade.”

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

Uma questão de higiene




Por dever de cidadania e por dever de ofício, deveria ligar o televisor.

Mas acabei de tomar banho e não me quero sujar já.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5

Calmarias




A história foi-me contada na primeira pessoa, pela protagonista: a mocinha.

Com quinze anitos, está a repetir o 8º ano. Isto porque, no ano passado, foi retida (dantes diziam “foi chumbada”) por excesso de faltas. De acordo com a própria, era mais o tempo que passava na rua e com os “amigos” que nas aulas.

A solução apresentada (e posta em prática) pelos familiares, foi draconiana:

Retiraram-na da escola que frequentava, bem no centro de Lisboa e pertinho da casa de seus pais, e matricularam-na numa outra, ali para os lados de S. João do Estoril, ficando a residir durante a semana em casa de sua avó, nas imediações. O regresso à grande cidade só vai acontecendo pelos fins-de-semana, de sexta à tarde a domingo à tarde.

Disse-me ela, em conversa ali mesmo no meio do Jardim da Estrela e junto ao meu artefacto, que está mais que satisfeita por o ano lectivo estar quase a acabar e, com isso, poder regressar em definitivo à grande urbe.

Nas suas palavras, já não suporta mais o som da aragem nas folhas das árvores e o chilrear dos pássaros, de manhã assim que acorda até que adormece de novo, à noite. É tranquilidade a mais, desabafa!

Pois tenho que aplaudir a decisão e a prática desta família. Pena é que a esmagadora maioria, por este ou aquele motivo, não possam fazer o mesmo. Acredito que os protestos juvenis foram muitos e veementes. Mas, ainda de acordo com a mocinha, as notas são soberbas e as faltas zero.

E aquilo que ela mesma diz já não suportar (a calmaria, a aragem, a passarada), será recordado com nostalgia, estou certo, daqui por uns valentes anos, quando o corre-corre citadino forem demais e a tranquilidade um oásis nas férias anuais.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Photographia – Fazer amor ou praticar sexo




Eu estava naquela galeria, a ver fotografias e a conversar com o autor. A certa altura, perguntou-me porque é que eu carregava todo aquele equipamento: uma mala pesada, cheia de coisas, e o meu monopé pendurado na alça da mala ou preso à mão.

Não me recordo da minha resposta, mas suponho que refletia a minha vontade de poder fotografar o que quisesse e estar preparado para isso, sem depender das limitações de uma pequena câmara de bolso. Mesmo que eu sempre tenha defendido que podemos fazer fotos boas ou satisfatórias com qualquer câmara, desde as mais sofisticadas até aquelas câmaras "pinhole" que estão um pouco na moda hoje em dia. Desde que conheça os seus limites e saiba usá-los bem.

Anos mais tarde, comprei uma câmara com um telemóvel acoplado. Uma boa câmara, com uma boa objectiva, é só apontar e disparar. Quase que "à prova de idiotas". O meu objetivo era praticar com uma câmara de focagem fixa e impor-me a prática da perspetiva, a irmã “pobre” das objetivas zoom atualmente.

Mais recentemente, comprei uma câmara de bolso. Objectiva muito boa, boa resolução, fácil de usar e o mais leve possível. E sempre pronta a usar, pendurada no meu cinto o tempo todo, como arma de reserva. Um bonito caderno de apontamentos fotográficos.

Se alguém me fizesse hoje a mesma pergunta a minha resposta seria diferente: gosto de fazer amor, não apenas de sexo.

Com a minha câmara reflex, digital ou analógica, posso abraçá-la, encostar o rosto nela, acariciá-la no anel de focagem ou zoom, tocá-la suavemente onde ela reage, tendo uma reação suave, sob a forma de uma fotografia.

Com a câmara do meu bolso ou do telemóvel, apenas apontamos e disparamos, e pronto. Nem sequer dá para lhe tocar, uma vez que o visor precisa de ser visto a uma distância de, pelo menos, 25/30 cm. Não há envolvimento romântico entre câmara, fotógrafo e modelo, não há "preparativos" nem "aquecimento". Só sexo, não amor!

Acredito que as fotografias são criadas na nossa mente, com as lentes dos nossos olhos. E tudo o resto, desde o enquadramento e a medição da luz até todas as tarefas de pós-produção (edição, impressão, emolduramento e assim por diante), são apenas as necessidades técnicas para satisfazer essa necessidade ou criação. Etapas necessárias para materializar a nossa imaginação!

Mas todo este processo também faz parte da diversão. Precisamos de nos divertir no trabalho, ou ele tornar-se-á uma obrigação. E ninguém gosta de obrigações!

Há uns tempos fotografei uma família com a minha câmara fotográfica "antiga". Um casal e duas crianças. A mulher tinha o sorriso mais bonito que já vi, brilhante, contagiante, cativante! Fiquei tão fascinado que, como caçador de imagens que sou, desejei ter aquele sorriso, quase que como um troféu.

Mas, nesse dia, fui para essa sessão fotográfica com uma versão mais leve, levando comigo apenas a câmara fotográfica antiga falsa com o seu tripé de madeira e a minha câmara de bolso, presa ao cinto. E nenhuma delas seria capaz de fazer o retrato que ela merecia.

A câmara "antiquada" precisa de estar no tripé, não só por causa do peso, mas também por causa do formato: quadrado e grande.

Quanto à câmara de bolso, a zoom tem apenas 5x de ampliação. Não conseguiria captar apenas o rosto dela, a não ser que me aproximasse demasiado, sendo invasivo. Por outro lado, a ausência de um para-sol impedir-me-ia de utilizar a forte luz de fundo do sol baixo como eu gosto. Nem mesmo a minha mão a fazer essa função resultaria, uma vez que a câmara não tem a distância focal necessária e eu teria sempre reflexos indesejados.

Se lhe pedisse para fazer um retrato daquele sorriso encantador, ou não conseguiria o enquadramento certo ou a iluminação seria fraca. E não pedi!

Não seria um ato de amor, aquela foto! Seria apenas sexo.

Talvez, um dia, estejamos todos juntos, ali ou noutro lugar qualquer. E estarei pronto para aquele sorriso com a minha Pentax, deixando a minha câmara de bolso no cinto ou em casa.

Quanto a esta fotografia, foi um acto de amor, enquadrando, brincando com a luz, a perspectiva e a profundidade de campo. E utilizando a minha Pentax K100D com a objectiva Sigma 70/300 a uma distância confortável. Mesmo que o sol não estivesse tão baixo como eu gostaria.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 23 de maio de 2026

Genealogia




Gostaria de vos apresentar as velhotas que comigo residem.

Há que lhes dar valor, mesmo que as novas gerações de câmaras as empurrem para um canto. No entanto, sempre gostaria de ver os jovens fotógrafos de hoje a fazerem tão belas fotografias como elas fizeram, com meios tão “rudimentares”.

Como lhes dou valor, volta e meia abro-lhes as porta, descem da vitrine e mostram-se, procurando na vitrine do lado a objectiva que mais lhes agrada. E ficam sempre algumas de fora.

Apresento-as: da esquerda para a direita, em cima: S1a (1962), SP 1000 (1973), S2 (1959), ES II (1973).

Em baixo, também da esquerda para a direita: SP (1964), S1 (1961), SV (1962).

Quanto às objectivas, e para não ofender as ausentes, não referirei nenhuma destas, apenas dizendo que variam entre 28mm e 200mm.

Para os mais atentos e conhecedores da matéria, alerto que há um elemento “penetra”, que não pertence a esta família. Mas gosto tanto dele, e sendo de época, que não resisti a inclui-lo. E em todas as fotografias de casamento há sempre alguém que ninguém conhece, não é? Fica o desafio de o nomearem e, se possível, identificarem.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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Privilégios




Podemos negar, inventar, justificar, contextualizar… podemos um montão de coisas menos apagar os factos.

E o certo é que no início dos anos 90 parava junto ao local onde trabalhava um carro que no vidro de trás tinha um autocolante com os seguintes dizeres:

“Quando deus criou o mundo, devia estar louca”

É meu privilégio poder dizer que trabalhámos juntos até eu me deixar disso.

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 22 de maio de 2026

O cota barbudo e os seus discursos inflamados




Tal como a maquinaria, também o corpo humano se vai gastando. E, de quando em vez, vá de ir fazendo testes: para confirmar aquilo que já se sabe ou para descobrir novas maleitas. Hoje foi dia disso.

Ao entregar a papelada perguntei quando estariam prontos, ao que me disseram que enviariam os resultados por correio eletrónico. Mas que se os quisesse impressos, que estariam disponíveis no dia 3.

“No dia 3?! Mas é dia de greve geral!”

“Pois é, mas eu venho de carro e não uso o comboio.”

“Mas o problema não é os comboios estarem parados. A questão mesmo é vocês virem trabalhar nesse dia.”

“Ah, bem, sabe como é...”

“Sei, ou acho que sei. Eu não faço greve porque já não estou no activo. Mas farei questão de nada fazer que dependa do trabalho de alguém que nesse dia não está de greve. Mas ao não fazerem greve, mesmo que estejam a não se incompatibilizarem com quem vos emprega, estão a não acautelar o vosso futuro. Em muitos aspectos importantes. Até no assegurarem o vosso posto de trabalho actual. Informem-se e actuem! Virei na quinta-feira, dia 4!”

Calei-me para mudar de posição. Que a minha anca esquerda estava a dar sinal de si. E olhei em redor.

Além de quem me atendia, mais três funcionárias atendiam gente a querer tratar da sua saúde. E em frente delas, várias pessoas a serem atendidas.

Mas todas elas, com ou sem farda imaculada, estavam paradas e a olhar para mim, o tipo das barbas que assim falava, num tom em crescendo. Quando viram o meu varrer de olhar, fizeram de conta que estavam muito ocupadas e o silêncio que se tinha feito, apenas cortado pela minha voz, desfez-se como que por magia.

Com um pouco de sorte, uma ou mais daquelas pessoas se recordarão no momento certo daquele cota barbudo que, já pouco podendo fazer pelo seu próprio futuro, não desiste de lutar pelos futuros alheios. Com palavras e com actos.

 

Lumix DCM – DZ 60


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quarta-feira, 20 de maio de 2026

RP




É daquelas coisas que já chateia porque deixaram de ser discretas para serem insistentes. Muito insistentes!

As forças de segurança e investigação policial encetaram há não muito tempo uma campanha de relações públicas muito activa. Todos os dias, várias vezes ao dia, a imprensa e as redes sociais relatam situações de crime ou infração em que a psp, a gnr ou a judiciária estão envolvidas com sucesso. Detenções, investigações, apreenções... crime, infrações, família, tráfico, trânsito, dinheiro, violência...

Todos os dias, várias vezes ao dia!

Mas, e para além disso, contam-nos e mostram-nos imagens e relatos positivos, desde a graduação de novos efectivos, às fotografias “de encomenda” dos e das agentes sorridentes, as viaturas impecéveis e brilhantes de lavadas, as fachadas imaculadamente pintadas das instalações...

O trabalho de quem está à frente das relações públicas das forças policiais está bem e recomenda-se. Mas não abusem, que já chateia!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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terça-feira, 19 de maio de 2026

O terceiro grupo




Havia uma senhora, noutros tempos e noutras vivências, com uma muito forte conotação politico-partidária, que quando me via na sua secretaria com alguma das minhas reclamações, sugestões ou discursos mais inflamados, tinha uma frase sacro-santa:

“Lá está o professor JC com o seu feitiozinho soviético”.

Nunca lho levei a mal. Era difícil levar a mal alguma coisa daquela senhora, até porque raramente fazia algo por mal.

E, se outro motivo não houvesse, ela tinha razão. Eu tenho um feitiozinho soviético.

Soviético, Malaio, Hondurenho, Zairense, Tuga, o que lhe quiserem chamar.

Agora uma coisa eu garanto:

Quando me chamam para engrossar fileiras e eu vou e acabo por ouvir e sentir um “nós e vocês”, é garantido que surge um terceiro grupo: os que estão fora.

E se não tiver mais ninguém, eu serei o presidente, o secretário geral, o presidente da assembleia-geral e farei quórum sozinho nas reuniões plenárias.

A dona Alice tinha razão: tenho um feitiozinho soviético!

 

Nikon Coolpix P7000


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