É verdade que sim, que gosto de falar de fotografia.
A questão que se põe é:
Quando é que aprendo a falar apenas daquilo que sei?
Pentax K100D, Tokina AT-X 400 1:5,6 + tubo de extensão
By me
É verdade que sim, que gosto de falar de fotografia.
A questão que se põe é:
Quando é que aprendo a falar apenas daquilo que sei?
Pentax K100D, Tokina AT-X 400 1:5,6 + tubo de extensão
By me
Ao longo dos anos tive diversas câmaras fotográficas.
Confesso que já lhes perdi a conta, ainda que, se fizer um esforço de memória,
conseguirei saber quantas com rigor.
Tive-as de quase todos os formatos, de 18x24 a 110, de
dispendiosas e complexas a simples e baratinhas.
Cada uma delas cumpriu a sua função, satisfazendo os motivos
para que foram compradas. Ainda que algumas me tenham sido oferecidas, por este
ou aquele motivo. Cheguei mesmo ao ponto de construir uma, que se vê na imagem.
Tal como construi uma objectiva.
Algumas já não possuo. Ou foram-se, vendidas nalgum momento
de aperto económico, ou foram negociadas por troca de melhores, ou ainda
oferecidas a quem não possuía e necessitava. Outras estão apenas guardadas
porque, por este ou aquele motivo, deixaram de funcionar. Avarias ou falta de
consumíveis, as mais das vezes. Outras ainda por uma questão de coleção. Recordo
mesmo uma Polaroid que se desfez porque lhe caiu em cima um pesado martelo, num
triste acidente.
De cada uma delas tenho memória de momentos, actos
fotográficos. E com cada uma delas, quando lhes pego de novo, as minhas mãos
sabem fazer aquilo que o cérebro pensava ter esquecido.
Mas há coisas que aprendi com cada uma e com todas:
Por um lado, não é a posse ou o uso desta ou daquela que me
transforma em melhor ou pior fotógrafo. Eventualmente poderei dizer que com
umas não poderei fazer fotografias que faço com outras.
Por outro lado, todas elas provocaram momentos únicos,
irrepetíveis. E prazer. Ou satisfação. A ambos os lados da objectiva. Sem
importar a sua complexidade ou preço. Ou mesmo fabricante.
Volta e meia pego numa das que estão guardadas e dou-lhe
uso. Película ou electrónica. Isto porque o carinho e intimidade que tenho por
cada uma faz com que não as queira “mortas” numa qualquer caixa ou estojo.
Dar-lhes uso é dar-lhes vida.
Mas também para me recordar daquilo que não esqueço em
momento algum: A câmara fotográfica é apenas aquilo que medeia entre aquilo que
vejo e aquilo que mostro.
Na imagem, uma fotografia não “programada”, feita no
decorrer do meu projecto “À-Lá-Minuta”, num jardim de Lisboa.
Pentax K100D, Pentax 18-55
By me
Era uma festinha!
Com bonecos feitos com balões, castelo insuflável, prendas e
lanche. Abrilhantado pelo “Sr. Lino”, que cantou Kuduro e Kizomba com letra
adequada aos presentes. Talvez deva dizer, em rigor da palavra e do género, das
presentes.
Que a festa era promovida pela organização “Ajuda de mãe”,
entidade particular de apoio a jovens adolescentes, e adultas como me foi
explicitado, mães solteiras. Com fortes dificuldades económicas ou sociais.
E o público era em consonância: mulheres de todas as idades
e cores, algumas absurdamente novas, todas com crianças de colo ou pela mão.
Alguns dos pequenotes com pouco mais que uns dias de vida. Aliás, e como
comentou uma decana Caboverdiana com quem conversei, tão pequenos e novinhos
que havia de que ter cuidado em não os pisar, espalhados que estavam pelas
poucas cadeiras de plástico e pelo relvado contíguo.
Soube do que se passava porque o perguntei, abelhudo que
sou. E quando, um pouco depois, um dos sócios do quiosque de gelados foi até
lá, também movido pela curiosidade, lá lhe expliquei, acrescentando que era uma
causa meritória.
Passada que foi uma meia hora, mais coisa, menos coisa, eis
que vejo dirigir-se àquelas que pareciam ser as organizadoras a sócia do
quiosque. Com um caixote de tamanho médio que segurava com ambas as mãos.
Falou o que tinha a falar, deixou o caixote e afastou-se.
Com um sorriso para mim e a afirmação, a uns bons dez metros de distância: “A
minha boa acção do dia!”
Não sei se tinha gelados (talvez não que o calor era muito e
pouco durariam), se qualquer outra guloseima. Mas valeu a pena ver e saber que
aconteceu. No Jardim da Estrela.
Viva quem faz e que possui estes olhos!
Pentax K100D, Sigma 70-300
By me
De todos os que vi este foi o mais sério, o mais profundo e,
talvez, o mais pensado.
Porque que futuro pode imaginar um jovem casal quando não
consegue um local a que chame lar, por muito modesto que seja? Que futuro pode
imaginar para os filhos, que ainda não tem, quando mal consegue sutentar-se? Que
futuro pode imaginar uma sociedade que a cada lei imposta vê aperterem-se as
grilhetas da escravidão, ainda que sem ferro?
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
“Pedimos a vossa compreensão para os incómodos causados”
Esta é a frase com que a CP nos brinda ao informar-nos que o
comboio que aguardamos está atrasado.
Frase estafada, que todo o utente da ferrovia nacional está
cansado de ouvir, e que em bom português quer dizer “Estão tramados e nada
iremos fazer.” Ou, ainda mais agressivamente, “Aguenta que doi menos!”
Eis que surge uma nova versão, num contexto diferente mas
com o mesmo significado. Diz-nos Luis Montenegro que o governo tem empatia e
compreensão face a aumento do custo de vida.
Se ele fosse ter empatia nos quintos do inferno, nós
teríamos toda a compreensão do mundo!
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Boa amiga fez-me saber da existência deste livro. E se o
conhecimento não tem fronteiras nem limites, também não tem caminhos definidos
previamente. Pelo menos p’ra mim. Tratei de o encontrar e trazer para casa.
Ao fim de dez páginas, apenas, dou com esta preciosidade.
Pergunto-me o que escreveria ou citaria a autora, Françoise
Choay, se em vez de ter publicado o livro em 1992 o tivesse feito hoje mesmo.
Que o conhecimento impresso está em decadência em benefício do conhecimento
on-line. Com tudo o que de bom e de mau isso tem.
“…
O perspicaz Charles Perrault encanta-se por ver desaparecer,
devido à multiplicação dos livros, os constrangimentos que pesavam sobre a
memória: “hoje”, não se aprende quase nada de cor, porque se tem naturalmente
em casa os livros que se lê, a que se pode recorrer quando se tem necessidade,
de que se cita mais seguramente as suas passagens copiando-as do que fazendo fé
na memória, como se fazia antigamente.
…“
Num estudo que li, há uns tempos, feito na Grã Bretanha, um
conjunto de estudantes universitários foi confrontado com conhecimento novo em
livros que procuraria numa biblioteca. Outro conjunto de estudantes
universitários foi confrontado com o mesmo conhecimento, mas pesquisado na web.
Constatou-se que o primeiro grupo retinha melhor o que havia
lido que o segundo grupo, que retinha melhor os locais onde o tinha encontrado.
Tenho para mim que o grave do conhecimento adquirido na net,
apesar de mais rápido e pese embora a questão da fiabilidade das fontes, está
na sua falência.
Em havendo quem queira fechar a rede (censura, guerra,
questões económicas ou culturais) já não se tem acesso ao conhecimento porque
restrito a este meio. Já os livros… bem, não é fácil de destruir toda a existência,
mesmo considerando o espaço ocupado.
O dia do livro foi celebrado um destes dias. Mas, embora
seja um utilizador intensivo da web e do conhecimento que ela propicia, não
creio que alguma vez prescinda do papel, do prazer de ler um livro, de o folhear,
de procurar na estante a lombada certa…
Mania minha, desde há muito tempo: em comprando um livro,
escrevo logo na primeira página o preço, a data e o local onde o comprei.
Interessante de constatar, as livrarias por onde fomos criando os nossos
hábitos.
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
É a luz, é sempre a luz!
Das cinco perguntas básicas do jornalismo – quem, como,
quando, onde, porquê – nenhuma importa. É a luz!
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Há meia dúzia de anos, disse-me um jovem em início de
carreira:
“O 25 de Abril pode ter sido tudo isso, mas o certo é que me
deu a possibilidade de hoje estar a trabalhar e receber a dobrar.”
Quando as liberdades são entendidas apenas como uma forma de
ganhar dinheiro, mais dinheiro, pergunto-me se valeu a pena terem-se posto
cravos nas pontas dos canos ou se não teria sido preferível deixar que o chumbo
quente cumprisse a sua função.
Ou se não estará agora na altura de o fazer.
By me
Quando vi este sorriso não resisti: veio comigo.
Claro que um sorriso não funciona sozinho, pelo que veio
onde estava instalado: um chassi ou porta-negativos formato 6,5x9 (2 1/4x31/4)
que encontrei à venda numa loja da especialidade.
O interesse no chassis é simples: em tempos trabalhei com
uma Linhoff Tecnika 70 e um dos formatos que suportava era este. Com o qual me
entretive a “brincar” aos Ansel Adams e o seu Zone System. Cada negativo
exposto e revelado individualmente para total controlo de contraste.
A dificuldade, em meados dos anos ’80 era encontrar película
rígida com este formato. Havia apenas duas casas que o disponibilizavam, da
marca Orwo, uma de porta aberta, a outra o seu representante, um escritório em
Lisboa. ISO 125 (na altura a identificação era ASA) e já era muito bom.
Acrescente-se que esta fotografia foi feita com um smartphone,
cujo ecrã é quase do tamanho destes negativos. E que todo o chassis, já agora.
Neste momento é meio-dia e pouco. Se ainda não sorriu ou fez
alguém sorrir hoje, ainda tem metade do dia para o fazer. Tal como amanhã,
depois, depois...
By me
No constante fazer de imagens do quotidiano, as que são
normais, regulares, habituais, vão-se desvanecendo, como papel fotográfico mal
fixado, restando delas contornos vagos e imprecisos.
Do que recordo de há 52 anos, para além da festa da
revolução por si mesma (o fim da guerra, da censura, da ditadura, da polícia
política...) ficam as imagens da festa do quotidiano!
Cada dia era um dia, razoavelmente imprevisivel e em que as
suas consequências dependiam, em boa parte, do que fizessemos. Não deixávamos o
futuro em mãos alheias e intervinhamos, a cada passo, nos que a nós dizia
respeito e no que ao colectivo tocava.
Construíamos! Debatiamos! Sonhavamos! Faziamos!
É esse espírito de construção permanente, de almejar mais e
melhor e de fazermos por isso (sem esperarmos que outros o fizessem por nós nem
para eles passassemos as responsabilidades de tal) que recordo com mais força.
São fotografias perfeitamente impressas e fixadas que jamais se desvanecerão.
Apesar dos aspectos negativos (que os houve) que aconteceram então e que ainda
hoje marcam parte da nossa vida.
No espelho do tempo vejo aquilo que agora faço porque
aconteça: intervir na sociedade, estando lá de corpo e alma, melhorando o que
de menos bom vamos tendo e celebrando o que de alegre e positivo existe.
Mas quando olho para trás e para o lado, lamento
sinceramente que esta atitude interventiva, que então grassava, se tenha
desvanecido, qual imagem velha e mal cuidada.
Quando, daqui por 52 anos, olharmos para as imagens deste
tempo que vivemos, o que sobrará serão imagens cinzentas ou amareladas, mal
fixadas e amarfanhadas.
Por que nesta sociedade, a alegria de ser passou a alegria
de ter. E o consumismo dos tempos que correm transforma de um dia para o outro
a novidade em velharia, pouco restando para recordar.
As fotografias que então fizemos com a alma repassam no
tempo. As que hoje vamos fazendo, porque virtuais e efémeras, não sobreviverão
à vertigem das novas novidades para consumir!
Nikon Coolpix P7000
By me