sábado, 11 de abril de 2026

Iconógrafo




Não mais sou fotógrafo!

Doravante considero-me, e assim gostarei de ser tratado, como iconógrafo, um fazedor de ícones.

Porquê esta mudança? Substancialmente devido às discussões que proliferam em tudo quanto é lado sobre se determinada imagem é ou não fotografia. As confusões sobre este tema são tantas que decidi colocar-me à margem delas.

 

Para todos os efeitos, as imagens são ícones.

Produzidas por meios foto-mecânico-quimico-eléctronicos, são o substituto de uma realidade, imagens representativas, ícones daquilo visto ou sentido pelo seu autor e como tal interpretado pelos que as vêem.

A alguns destes ícones é dada a categoria de fidedigno, por serem fiéis aos acontecimentos descritos. Fidedignos?!

Como pode uma imagem ou ícone ser fidedigno se apenas mostra duas de quatro dimensões?

Como pode ser cópia da realidade se deixa de fora quatro dos cinco sentidos?

Como pode ser fiel representação de um acontecimento se os bordos do seu enquadramento são como guilhotinas afiadas truncando do todo o visível apenas uma parte?

 

Por fotografia encontro num dicionário esta definição:

“do Gr. Phôs, photós, luz + graph, r de graphein, desenhar

s. f. arte de fixar numa chapa sensível, por meio da luz, a imagem dos objectos;

fig. Cópia fiel; retrato”

 

Eu ponho em causa quase tudo o que aqui se afirma, no que ao meu trabalho concerne:

- Não sabendo eu o que é uma “fotografia artística”, como já aqui o afirmei, não posso dizer que o que faço seja “arte”;

- Não uso chapas! Já as usei, nos tempos em que trabalhava com grandes formatos (saudades, caramba!). Agora uso película e flexível, em rolos ou, e é o que mais disso se aproxima, suportes digitais, em que o CCD se poderá comparar a uma chapa, mas não mais que isso;

- Cópia fiel não o é! Eventualmente uma fotocópia sê-lo-á, mas não aquilo que faço com a minha câmara.

O único aspecto com o qual concordo é a definição de “retrato”.

Efectivamente aquilo que faço (e entendo que todos os que usam câmaras fotográficas fazem) são retratos daquilo que vêem. Imagens subjectivas e interpretativas daquilo que vêem, sentem, pensam sobre o que está em frente da sua objectiva.

E depois do acto fotográfico, da captura da luz (essa efémera), é tudo trabalhado, subvertido, adulterado. Quer seja com químicos, com electrões, com a nobre prata ou os menos nobres corantes. Embutidos ou projectados sobre papel ou pedaços fosfóricos excitados por electrões.

Seja qual for a técnica usada, não são nunca, por nunca o serem, cópias fiéis da realidade mas tão só a minha interpretação dela. Da minha actividade resultam ícones do que vi, senti ou pensei!

E se até agora me intitulei de “fotógrafo” foi porque, tendo que haver um termo que definisse o que fazia, este era consensual: fotografia!

Mas, nos tempos que correm, são tantos os que a põem em causa, que argumentam se um dado trabalho será ou não fotografia, se esta ou aquela imagem é ou não arte fotográfica, que decidi deixar-me à margem de semelhantes discussões.

Aquilo que faço com a minha câmara, químicos e computador são ícones dos meus sentimentos.

E eu sou um iconógrafo!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Reduções estéticas




A maior parte das fotografias feitas nos dias de hoje por amadores ou entusiastas de fotografia são feitas para serem consumidas na web. Nos sites de fotografia, nas redes sociais, enviadas como mensagem.

Elas são consumidas em tamanhos que não ultrapassam, optimisticamente, um palmo de largo se em computador, poucos centímetros se em dispositivos moveis.

O tempo gasto por cada consumidor com cada uma dessas fotografias não ultrapassa os poucos segundos: cinco, na melhor das hipóteses.

E se é certo que as imagens são divulgadas, também é certo que quem as divulga quer algum tipo de resposta, um feed-back positivo de preferência. Um click para um um like, meia dúzia de palavras elogiosas.

Acontece que este consumir a correr, estes tamanhos minúsculos de imagens e a enormidade de fotografias publicadas faz com que não haja tempo para se interpretar toda a imagem, dos elementos que a compõem à forma como estão distribuídos e a respectiva mensagem. Do que resulta indiferença se a fotografia for complexa, cheia de conteúdo, sem leitura imediata ou fácil. Sem feed-back, portanto.

O que conduz quem produz fotografia, amador ou entusiastas, a minimalizar as imagens, a retirar elementos, a reduzi-las a pouco mais que simples grafismos, como que icones de um sistema operativo. Em que pouco há que pensar ou interpretar. Porque o agrado ao público é o principal objectivo e há que fotografar e exibir fotografias que lhe agrade.

Esta redução ao mínimo no acto fotográfico, se bem que venha a criar o chamado “estilo minimalista” está a “estupidificar” fotógrafos e consumidores de fotografia.

Imagens elaboradas, com diversas interpretações possíveis, com jogos de luz, cor, composição e elementos, que enchem a alma e nos fazem pensar, são coisas que estão a desaparecer. Da web, da imprensa, dos albuns.

E, com isto, a identificação cultural de quem produz e de quem consome.

As vertentes estéticas e semióticas dos povos, das culturas, dos quatro cantos do mundo, estão a aproximar-se, criando uma abordagem fotográfica uniforme, informe e incaracterística.

A vertente artística ou de expressão pessoal está a definhar, muito mais rapidamente do que gostaríamos.

Em breve, se não já, a fotografia mais não será que como as fontes de letra que usamos: padronizadas, imutáveis, iguais em todo o lado. E o seu uso para mais que dez linhas ou com mais de dois ou três centros de interesse e duas linhas de fuga será tão anacrónico quanto o saber apertar a cilha de um muar.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Espera lá!




Se eu bem entendo daquilo que tenho lido por aí, em paralelo com o tal pacote laboral pretende-se reduzir as penas a aplicar aos patrões que ocultem à segurança social a contratação de trabalhadores.

Logicamente, se ocultam também não pagam as respectivas contribuições.

Por outras palavras, facilitam as entidades patronais a infrigir a lei e, caso sejam apanhados, pagam em multas só 25% das penas actuais e não vão presos.

Ou, se preferirem, o crime passa a compensar.

Em contrapartida, os trabalhadores que assim ficarem “invisíveis” perante a segurança social vêem reduzidos os tempos e montantes a contar para as respectivas reformas.

Foi neste conjunto de partidos que você votou? Então conte amargar a longo prazo a decisão tomada. Você e todos os outros que, apesar de assim não terem votados, vão também ver o seu futuro comprometido.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

À-Lá-Minuta




Alguém me fez o favor de fazer este registo.

Da minha pessoa exercendo o mister de fotógrafo de jardim. Ou, se preferirem, de fotógrafo à-là-minuta.

Era, de facto, um conjunto pouco convencional, ver este tipo manuseando um artefacto supostamente vetusto, numa actividade já extinta ou quase, usando pendurada do ombro uma DSLR novinha em folha. E não cobrando p’la fotografia que fazia e entregava.

Destruidor de negócios, dirão alguns. Alegrador de corações, dirão os que por ela passaram. Doido varrido, acrescentarão ainda outros.

Serei tudo isso e mais um par de botas.

Mas posso assegurar que todas as centenas de pessoas que posaram para esta câmara ao longo daqueles três anos se afastaram com um sorriso nos lábios. De todos os estratos sociais, de todos os níveis culturais, de todos os continentes.

E, garanto, quando ao fim do dia regressava eu a casa puxando o carrinho onde tudo isto se arrumava e carregando-o por autocarros e comboios, ia trauteando uma qualquer musiquinha alegre e bem disposta. Com a certeza de ter feito nesse dia mais um quantos felizes, de que levavam uma história p’ra contar, tal como eu, e que obtiveram de borla aquilo que, nalguns casos, não tinham como pagar.

Há quem ande p’las ruas e templos a prometer ou anunciar a felicidade numa vida posterior e eterna. Há quem se bata por uma vida melhor nos quatro anos consecutivos. Durante três anos, e por poucos minutos que fossem (nalguns casos sei que foi por anos a fio), fiz gente feliz.

Creio ter ganho um lugar tranquilo no céu dos photógraphos.


By me

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Com cabeça




Das minhas primeiras compras a sério no campo da fotografia, a terceira foi um semi-fiasco.

Comecei por uma Pentax MX, com uma 50mm f/1,7. Um conjunto de entrada, particularmente fiel e robusto. Ainda possuo a objectiva.

A segunda foi uma objectiva 75-150mm f/4. Foi o que o meu orçamento permitiu e continua a prestar bons serviços, ainda que ambicionasse uma Vivitar 70-210mm f/4, série 1. Um topo de gama, à época e creio que ainda hoje.

A terceira foi um tripé. Um barato, cuja marca já não recordo, escolhido pelo aspecto, leveza e preço, ignorando eu muita coisa sobre tripés. Durou uns anos, mas antes de passar à reforma tratei de adquirir outro.

Não tinha eu a noção da importância da robustez, fruto dos materiais, peso e localização do centro de gravidade. Menos ainda sabia da importância da solidez da cabeça. Não apenas para suportar o peso que lhe é colocado como para absorver as vibrações provocadas pelo mecanismo de obturação: movimento do espelho e das cortinas.

 

De momento, passados todos estes anos, possuo diversos suportes de câmara. Uns minúsculos tripés de mesa, para câmaras de bolso ou quejando, um tripé de madeira e alumínio, mais velho que eu e usado quase que em exclusivo com a minha câmara “À-Lá-Minuta”, um Gitzo suficientemente pequeno para passeios, mas não tão leve quanto o meu corpo, já não tão novo, gostaria, e um Bembo.

Sou um fã incondicional deste último!

O seu sistema de fixação da abertura das pernas ou do ângulo de posicionamento da coluna são incomuns e, sem prática, arriscado. Um único travão para tudo isso. Mas permite colocar a cabeça em qualquer posição, em qualquer eixo, usando uma mão para segurar a câmara e outra para travar o conjunto. Engenhoso mas ardiloso.

Tem este tripé uma característica também original: nas suas pernas, de apenas duas secções, é a superior que entra na inferior e não o inverso como habitualmente. Isto aumenta-lhe o peso e o volume, mas permite usar o conjunto em água, lama ou areia sem que estas entrem no sistema. Recomenda-se para quem faça fotografia no exterior, em terrenos “sujos”, já que é muito fácil de limpar sem colocar em risco tubos e roscas de fixação.

Claro que tudo isto o torna pesado e um pouco incómodo de transportar, mas é fiel, robusto e, com o tempo, aprende-se a gostar muito. É o meu tripé de serviço.

 

No topo dos tripés, a cabeça. Peça tantas vezes negligenciada, tanto no peso que suporta como na forma como é travada. E, com o passar dos tempos e sem manutenção, acaba por nos trair naquilo que mais queremos: uma câmara solidamente colocada.

Tenho uma Gitzo clássica, velha e muito usada, e três Manfrotto: uma de rótula, relativamente robusta, e duas 115. Estas suportam razoavelmente bem o peso que lhes costumo colocar, absorvem bem as vibrações da câmara e são muito fáceis de manter e limpar. Dependendo do uso que lhes dou, uma vez a cada dois ou três anos mais ou menos.

Acrescente-se a vantagem de estas 115 de terem uma grande flexibilidade no tocante a posição, bem como os manípulos serem ajustáveis.

 

A maioria dos fotógrafos preocupa-se com sensores ou películas. Ainda bem!

Preocupam-se igualmente com as objectivas. Importantíssimo!

Mas os suportes, bem como os pára-sois, acabam por ficar “para quando houver oportunidade”. Alguns dos problemas que se encontram mas imagens finais surgem desta atitude.

Disse-me um mestre e amigo, atribuindo-o a uma mestre mundial: “Só há dois tipos de fotografia: tremidas ou feitas com tripé”.

Tal como me disse, com a mesma origem: “Se não podes ter um bom tripé, arranja um monopé!”

Passe-se os exageros, são dois bons conselhos.

 

Pentax K100D, Tamron SP 90 1:2,5


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terça-feira, 7 de abril de 2026

Vai ser bonito, vai!




Foi nomeado pelo presidente da Câmara Municipal de Sintra para o cargo de chefe da divisão da polícia municipal um elemento das listas do chega às legislativas e às autárquicas.

Consigo imaginar as mudanças de comportamento deste corpo de polícia em função das ordens emanadas de tal pessoa com tais conceitos sociais e políticos. Principalmente num município com tamanha variedade de etnias e origens.

Vai ser um fartote!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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domingo, 5 de abril de 2026

Encontros




E duas K100D encontraram-se numa tarde de festa.

Mas também numa tarde de afirmação, bem antes das troicas, das pandemias e das extremas direitas.

Pentax K100D, Tamron 18-200


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sábado, 4 de abril de 2026

Juventude




“Não sou optimista nem pessimista. Entre mim e a vida não há mal-entendidos.”

Almada Negreiros

 

Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6


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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Um retrato consentido - 2010



 

Espero apenas que o bonito sorriso que aqui exibes não seja apenas porque o dia estava bom, havia festa e tinhas uma flor na mão. Desejo mesmo que ele, o sorriso, seja porque acreditas, de alguma forma, no que ele significou e significa, e que tenhas como verdade que o futuro te pertence e que o irás construir à tua medida.

Quanto ao não teres hoje aquilo que, então, nós acreditámos e sonhámos, mais não posso fazer que, a ti e aos da tua geração, pedir desculpa pelo nosso falhanço.

E citar António Gedeão, excelentemente interpretado por Manuel Freire:

 

"...

Eles não sabem nem sonham

Que o sonho comanda a vida

E que sempre que o homem sonha

O mundo pula e avança

Como bola colorida

Entre as mãos duma criança."

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Literatura




Recordo um livro de ficção científica onde, num universo paralelo, a governação era obrigatória e rotativa por todos os cidadãos.

Ficavam apenas excluídos aqueles que manifestavam algum tipo de interesse em exercer o cargo.

Justificação do autor:

“A governação da coisa pública dá tanto trabalho e é tão incómoda que só quem tiver motivos obscuros a pode querer exercer. E esses não os queremos lá!”

 

Eu disse que era num universo paralelo.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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