domingo, 8 de março de 2026

Ferramenta




Quando acontece eu abrir o meu canivete para fazer algo simples como abrir uma carta ou descascar uma peça de fruta e alguém por perto dizer “Chega para isso lá que tenho medo!”, costumo fazer uma brincadeira.

Dizendo-lhe “Vou-te mostrar algo”, aproximo a lâmina da sua cara. Na vertical e com o gume virado para mim.

Naturalmente que a reacção é a esperada: ou recuam, ou fecham os olhos, ou ficam rígidos…

De seguida acrescento “Agora espera”. E aproximo à mesma distância uma esferográfica que, entretanto, tirei do bolso.

A reacção também é a esperada: coisa nenhuma. Nem recuo nem manifestação de receio ou medo.

E continuo eu:

“Repara: apesar de me conheceres, de teres alguma confiança em mim e de saberes que não te iria fazer mal, tiveste medo da lâmina. Mas não tiveste medo algum da caneta. E, no entanto, em menos de coisa nenhuma, poderia espetar-ta no pescoço, antes que pudesses reagir.”

Assim é com tudo o que existe: por si mesmos os objectos não são perigosos!

É o uso que lhes damos que poderá, ou não, ser perigoso ou nefasto.

Um canivete, sabemo-lo, tanto pode servir para abrir uma garganta, para descascar uma maçã ou para talhar na madeira uma flauta.

Tal como uma caneta tanto pode servir para assinar uma declaração de guerra, preencher um impresso ou escrever um poema.

E, em última análise, sempre se pode concluir que a caneta é mais perigosa que um canivete, já que nos defendemos deste mas não daquela.

Em querendo, pode-se ainda usar uma velha analogia: “O poder da pena sobre a espada”.

 

O mesmo se pode dizer sobre a fotografia. Por si mesma ela não fará mal a ninguém. Mais ainda, temos a opinião generalizada que a fotografia e o acto de fotografar são questões técnicas ou artísticas, inócuas portanto.

No entanto, num bucólico jardim e numa tarde primaveril, tanto posso fotografar uma flor de uma árvore como posso afastar as folhas e discretamente fotografar o casal de namorados que ali se encontram à revelia do conhecimento das respectivas caras-metades.

A fotografia, por si mesma, nada tem de mal.

Mas quando a usamos para quebrar a privacidade de terceiros, para entrar abusivamente na intimidade de outrem, torna-se pérfida, odiosa, tão maléfica quanto qualquer outro objecto.

 

Naquele Domingo fui fotografar fantasmas. Para o fazer como quero, a técnica implica o uso de um tripé e nele a câmara orientada para zonas onde passem pessoas. Nada discreto, portanto.

Pois no jardim onde o fiz, vários foram os adultos que, acompanhando crianças pequenas, olharam para mim e para a câmara e tripé com ar agressivo. Suponho que pensaram que eu estaria a fazer imagens dos pequenotes. E, nos tempos que correm, isso é “politicamente incorrecto”. Creio que nada disseram ou fizeram porque não me viram a espreitar pelo visor. Mas que as suas caras demonstraram desagrado, lá isso demonstraram.

Felizmente, para mim e para quem estava comigo, não se aperceberam que a câmara estava a ser usada com um cabo disparador, fabrico caseiro, e que se eu quisesse fazer as imagens que eles temiam não dariam por nada.

Quando não, lá teria eu que desmontar a tralha, mostrar-lhes o que tinha registado e explicar-lhes que procurava fantasmas. Inócuo, portanto.

 

A ferramenta nunca é perigosa. O uso que lhe damos é que sim!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

sábado, 7 de março de 2026

Plink




Tinha comprado a Pentax K100D há umas duas ou três semanas. A minha primeira Reflex Digital.

Saíra de casa para ir tomar um café e, por qualquer motivo, tinha-a pendurada no pescoço e não no ombro como é meu hábito.

De súbito oiço um “plink” violento vindo do meu ventre. Como nada me doía, olhei para a câmara. Estava o filtro neste estado!

Doeu-me a alma! Coisa nova assim estragada! Depois de pensar um pouco, acabei por perceber o que se passara: uma pedrinha, que seria pequena, saltara de sob a roda de um carro ao passar e acertara mesmo em cheio na objectiva.

Por sorte, tinha e tenho o hábito de usar um filtro de protecção nas objectivas. Se assim não fosse, teria sido a objectiva a sofrer os danos.

Este é um dos argumentos a favor do uso de filtros de protecção: protegerem!

Não apenas de situações como esta, muito raras que são, mas também da água, das poeiras, de pancadas acidentais. E, igualmente importante, de riscos ínfimos que acontecem na sua superfície quando fazemos limpeza. Não damos por eles mas existem e, de algum modo, afectam a qualidade da imagem.

Os detractores do uso de filtros UV argumentam e com razão, que qualquer filtro que se coloque em frente da objectiva, por muito bom que seja, altera sempre a imagem. Tal como cumpre a sua função de filtrar parte da luz, no caso os ultra-violetas, alterando a fidelidade da cor resultante.

Assm, há quem argumente com fervor o uso de filtro, tantos quantos, com o mesmo fervor, argumentam contra.

A minha posição, tão válida quanto a oposta, é simples: a menos que não confie no estado de conservação do filtro, uso-o quase sempre. A excepção é em estúdio, onde tudo acontece com mais calma e onde a probabilidade de acidentes ou sujeira é muito pequena.

Por acréscimo, um alerta que me foi dado por um mecânico fotográfico há uns tempos:

Dizia-lhe eu que todas as minhas objectivas têm um filtro colocado, mesmo as que estão guardadas. E ele avisou-me que a caixa de ar criada entre ele e o elemento frontal da objectiva pode ser propício à criação de fungos, coisa que evitamos a todo o custo.

Pensei no que ouvira e, em chegando a casa, tomei cautelas: retirei todos os  colocados, mantendo apenas naquelas que tenho a uso. Em querendo usar, é só colocar o respectivo filtro.

Fiquei, assim, com quatro tipos de filtros arquivados: os UV de protecção, os específicos para usar com preto e branco, os de correção ou compensação de cor, hoje pouco usados porque o digital já permite esses ajustes, tanto na tomada de vista como na edição, e os quadrados, de acrílico ou de gelatina, com funções específicas e que raramente uso.

Claro que, para além dos filtro quadrados que são colocados usando um suporte especial, dos outros tenho vários repetidos devido à variedade de diâmetros frontais das diversas objectivas. Em alguns casos, aneis de adaptação permitem usar filtros maiores em objectivas menores, mas isso vai obrigar a mudar de pára-sol.

Mas uma coisa é certa, e para além das posições radicais que os defensores de uma ou outra abordagem possam ter:

Seja o que for que coloquemos à frente de uma objectiva vai alterar o resultado final. As mais das vezes essas alterações são as desejadas. Por vezes temos surpresas desagradáveis.

A sugestão que posso dar, para satisfazer ambas as partes, é usar um filtro protector e, dependendo do uso que é dado, substituí-lo de quando em vez por um novo, mesmo que não se notem riscou ou outros problemas.

A fotografia tem uns vinte e cinco anos, foi feita com a Pentax K100D e, provavelmente, com a Tamron SP Adaptall2 90mm 1:2,5.

Hoje não a poderia fazer porque, apesar de todo o cuidado que fui tendo, o vidro acabou por cair do aro.


By me

sexta-feira, 6 de março de 2026

Juntem-se as gerações




Cinquenta anos existem nesta fotografia.

A câmara, uma Pentax K7, foi fabricada em 2009. A objectiva, uma Super Takumar 105 1:2,8, foi fabricada na segunda metade dos anos ’60.

E se a câmara me acompanha desde então, fiel, robusta e sempre pronta, com muitos km no meu saco ou no meu ombro, já a objectiva chegou-me às mãos um destes dias, tão completa e em tão bom estado como se tivesse acabado de sair da fábrica. Para minha satisfação e para a do meu bolso, já que foi bem barata.

As condições atmosféricas ainda não me permitiram testar por completo esta coisa bonita que agora aqui aportou, mas por aquilo que puder ver até agora, não estou de todo arrependido da a ter comprado.

Durante uns dias o meu saco vai andar armado apenas com M42.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4


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Um brinde




Um brinde a todas as nossas vitórias e fracassos, que é disso que somos feitos.


Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 5 de março de 2026

Diatribes




Quando num autocarro vamos sentados de costas para o motorista só vemos pela janela aquilo que já passou. Mas se estivermos de virados para a frente da viatura vemos o que se aproxima.

Assim é com a fotografia:

O fotógrafo vê o há-de acontecer mas o público apenas vê o que já aconteceu.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8


By me

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Verdades


“Os grandes cómicos e os grandes palhaços, contrariamente ao que às vezes se imagina, não são fúteis.

...

É que às vezes há umas coisas que nós demoramos dez minutos a proferir, três semanas a escrever e a vida inteira a pensar.”

 

José Barata Moura, in “Primeira Pessoa”, RTP 2026

 

Pentax MX, smc Pentax-M 50 1:1,7


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Um par




Já os tenho encontrado, solitários ou em pares, nos locais e situações mais diversas.

Mas fico curioso sobre como fica um par de sandálias, num dia farrusco, assim arrumadinhas lado a lado a um canto de uma paragem de autocarro em Lisboa.

Não foram jogadas fora, não foram perdidas, não fora esquecidas, não caíram de nenhum saco.

As histórias e estórias que estão por de trás de um ou dois sapatos caídos na rua ao abandono encheriam creio, vários tomos, tal como enchem a minha própria imaginação.

Em tom de conclusão, sempre acrescento que nove horas depois de ter feito esta fotografia já ali não estavam. Nunca saberei se foram recolhidas por algum cantoneiro municipal se apanhadas por alguém que entendeu dar-lhes préstimo.

 

Nikon Coolpix P7000


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terça-feira, 3 de março de 2026

Liberdade




De acordo com as leis e normas portuguesas, é obrigatório possuir-se um documento identificativo oficial: Bilhete de Identidade ou Cartão do Cidadão.

No entanto, e pasme-se, para se renovar o dito documento, mesmo que nada seja alterado, há que pagar por isso.

Por outras palavras: sou obrigado a pagar regularmente por algo que sou obrigado a fazer.

Posso não ter casa, posso não ter nenhum contracto com nenhuma empresa, posso não ter rendimentos, posso mesmo viver apenas do ar e das ervas selvagens que existem.

Mas pelo simples facto de existir sou obrigado a pagar.

 

Ouvi aí alguém falar em Liberdade?

 

Pentax K7, smc Pentax 50 1:7

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Um clássico




Suponho que conste em todos os manuais de governação:

Criar um inimigo, dentro ou fora de fronteiras, agir contra ele e afirmar que o estado e os governantes protegem os cidadãos.

Quanto assustador for esse inimigo e mais veemente for essa acção, quer pelos discursos, quer pelas legislações, quer por acções bélicas, mais os cidadãos se juntam em redor dos líderes, dando-lhes mais poderes na sua acção.

Claro que, em usando esta estratégia, o poder instituído consegue afastar para segundo plano, por vezes definitivamente, os seus detratores, garantindo assim a manutenção do status adquirido.

Isto nada tem de novo e tem sido usado ao longo de séculos em diversas civilizações mais ou menos autocráticas ou governantes com grandes ambições a tal.

Mesmo neste jardim à beira-mar e mal amanhado a que chamamos Portugal.

Já agora recordo o incremento da contestação interna e as eleições intercalares nos EUA em novembro.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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Alfarrabismo




Confesso que não resisti.

Numa página on-line sobre fotografia o autor mostra-nos este livro. Não exatamente este mas a sua versão original cuja capa não contém fotografias.

Quando o vi soaram campainhas na minha memória. Melhor, soaram carrilhões cá dentro. Eu conhecia aquilo e, ao mesmo tempo, não conhecia.

Apesar da hora bem tardia, atirei-me às estantes que, apesar de não lá muito bem organizadas, me mostravam as lombadas. Ao fim de um bom pedaço lá encontrei. Este.

O que acaba por ter graça é que o autor da página é um bem-disposto e provocava o público dizendo que lojas de livros usados sobre fotografia que se prezem têm que ter um ou dois exemplares deste. Claro que residindo no Reino Unido, local onde a versão original foi publicada, não conhece a realidade livreira portuguesa. Mas lá lhe respondi, exibindo o meu exemplar, que não está à venda.

Graça, mas graça mesmo, foi saber pelos demais comentários que esta obra se espalhou pelo mundo, do Brasil à Bulgária, passando pela Àfrica do Sul. Não sei se na Bulgária fizeram uma tradução ou se foi a versão original.

O que sei é que o meu exemplar foi comprado em Lisboa em 1982 e que custou 750 escudos. Provavelmente na livraria Bertrand.

Se o recomendo? O que recomendo sem sombra de dúvida é que andem de olho nos alfarrabistas e feirinhas onde aparecem livros com mais de 40 anos, como este. Garantidamente que estão desactualizados no que toca a técnica. As imagens serão “datadas” no que a estética diz respeito, pois seguirão as modas e tendências da época. Mas há coisas que não mudam e com os antigos aprendemos sempre qualquer coisa. Nem que seja a forma estável de segurar uma câmara ou a importância que tem um pára-sol.

Quanto ao resto, ver fotografias é sempre um prazer.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 50 1:4


By me