segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Penso eu de que"




Em 2013 enviei eu o texto abaixo transcrito para a produção do programa “Cuidado com a língua”.

Está tão ou mais actual hoje como estava então.

 

Senhores:

Quando vi o vosso programa usando a fotografia como tema para bem usar a língua portuguesa, fiquei entusiasmado. “Este programa”, pensei, “quero eu para usar como referência sobre alguns disparates que se vão dizendo.”

Acontece que quando vi o programa não o estava a ouvir. Só alguns dias depois, e através do sitio da RTP o pude fazer. E logo mudei de opinião.

Que este programa não quero eu nem o irei usar como referência. E explico o porquê.

Começando logo com alguns erros técnicos “de palmatória”: o trabalho de laboratório, nomeadamente a positivação em papel da imagem, não pode ser sempre feita sob luz de segurança. Apenas quando se usa papel ortocromático, vulgarmente conhecido por “preto e branco”, isso é possível. No caso da fotografia ampliada para papel a cores, que é pancromático, isso é impossível.

(Se os termos “ortocromático” e “pancromático” parecem palavrões técnicos, veja-se um pouco de história e saiba-se o significado e origem dos prefixos “orto” e “pan”.)

Ainda dentro do laboratório, saiba-se que a “luz de segurança” usada não tem que ser obrigatoriamente vermelha. Alguns tipos de papel fotográfico ortocromáticos permitem usar lâmpadas ou lanternas de segurança verde-amarela. O que, acrescente-se, é quase o que se pode deduzir pelas imagens que nos apresentaram aquando da revelação do papel: o tom geral da imagem é bem mais amarelo-esverdeado que vermelho. Não seria fácil fazer a captura de imagem com luz vermelha, que tem muito pouco rendimento luminoso, mas um qualquer filtro na câmara ou o correcto tratamento posterior em edição fariam o serviço.

Em seguida, uma velha discussão: imagem analógica e imagem digital.

Toda e qualquer imagem fotográfica, digital ou não, é analógica. Existe sempre analogia entre a imagem captada e o respectivo assunto. E toda e qualquer imagem fotográfica só é visível depois de revelada. Ou, e como bem disseram, depois de “retirado ou véu”.

A diferença está em que a imagem captada em película necessita de “revelação” química e a captada por meios eléctricos necessita de “revelação” electrónica. Os processos de codificação e descodificação dos diversos tipos de formatos de imagem digital são, efectivamente, o revelar da informação que foi produzida pelo sensor da câmara que, antes de ser objecto desse tratamento, se encontra invisível. Ou “velada”.

O termo correcto para a fotografia captada em película será, se outro não quiserem usar, “foto-química”. Ou “… em película”.

O uso da expressão “fotografia analógica” surge apenas após a criação da fotografia electrónica ou digital e só porque haveria que dar um nome para diferenciar os processos de produção e respectivo arquivo dos processos intermédios.

Porque, e em olhando para duas boas fotografias, uma dita “analógica” e outra dita “digital” e já impressas, não se saberá qual ou quais os processos empregues. E ambas são analógicas, com toda a analogia ou semelhança entre o que nelas vemos e os assuntos fotografados.

Sobra uma questão velha de séculos: câmara ou máquina fotográfica.

Foi pena que em tudo o que disseram sobre a origem do termo “câmara”, se tivessem esquecido da “mãe” de todas as câmaras de produção de imagem: a câmara obscura.

Aquilo que é mais popularmente conhecido a seu respeito é o que nos conta Leonardo DaVinci. Mas os seus princípios remontam à antiguidade chinesa, à antiguidade grega, aos primórdios da cultura islâmica: um local escuro, com um orifício, que permite produzir uma imagem real, invertida e, geralmente, menor que o objecto.

A câmara fotográfica é isso mesmo; um local fechado à luz, onde ela entra por um espaço controlado, orifício simples ou com lentes compondo uma objectiva, produzindo uma imagem real, invertida e registável. 

E se a história e origem dos termos não servir para definir o termo certo, considerem-se dois exemplos: o cinema e o vídeo. Se os termos para identificar os sistemas de produção e captação de imagem cinematográfica ou videográfica são “câmara de cinema” e “câmara de vídeo”, porque se há-de usar “máquina” para a que lhes deu origem? Porque tem um “mecanismo”? Bem, a de cinema tem mecânica bem mais complexa que a de fotografia.

Sei que esta questão é velha, quase tanto quanto a fotografia. Mas, e muito curiosamente, é uma disputa que apenas existe em Portugal. Ao que sei, em nenhuma outra língua este problema se levanta, sendo o termo “câmara fotográfica” aceite como o único.

Faltou referirem duas outras questões, igualmente polémicas e linguísticas: o uso da expressão “velocidade de obturação”e o termo “lente”.

“Velocidade” é uma relação de qualquer acto em função de uma unidade de tempo. “Velocidade de sedimentação”, “velocidade de um automóvel”, “velocidade de escrita”. Quanto tempo para se obterem todos os sedimentos, quanto espaço se percorre por hora, quantas palavras se escrevem por minuto. É sempre qualquer coisa por unidade de tempo.

Acontece que aquilo que se regula numa câmara fotográfica é apenas o tempo que o alvo, película ou sensor, está exposto à luz. Apenas isto. Ajuste de tempo. Todo o mecanismo que destapa e volta a tapar o alvo se movimenta à mesma velocidade, seja qual for o ajuste que façamos. Que se trate de câmaras com obturador central (no interior da objectiva) quer se trate de câmaras com obturador plano-focal (no interior da câmara e junto do alvo).

Aliás, e em casos de dúvida, veja-se como esta tal “velocidade de obturação” é expressa: unidades de tempo. 1/500 de segundo, meio segundo, três minutos… Nunca uma referência qualquer coisa por tempo, como a luz (300000 quilómetros por segundo).

O termo “lente”, em questões de óptica, refere um pedaço de material, permeável à luz, cujas faces opostas não são paralelas. É um sistema óptico simples, cuja função é alterar a direcção da luz de uma forma controlada. Usamos lentes nos nossos óculos, usamos lentes nas lupas de aumento, usamos lentes (desta feita do modelo “fresnel”) na iluminação frontal de um automóvel ou num farol de costa.

Aquilo que as câmaras fotográficas possuem são conjunto ópticos, compostos de várias lentes de posição ajustável, as mais das vezes acrescidos de um mecanismo de controlo de fluxo luminoso a que damos o nome de “diafragma”. Alguns destes conjuntos possuem ainda o obturador no seu interior.

A estes conjuntos, complexos, dá-se o nome de objectiva.

A vulgarização do termo “lente” como sendo o sistema óptico que possuem as câmaras fotográficas (ou de cinema ou de vídeo) é um anglicismo a partir do termo “lens”.

A língua é uma coisa viva, evolutiva. E bem mais importante que o academismo é o servir para comunicar.

Podemos chamar a uma objectiva “batata frita” e intitular o tempo de exposição de “ovo estrelado”.

É indiferente que palavras usamos desde que nos entendamos. E muito brincam as crianças com isso, criando códigos de comunicação “secretos”, com palavras inventadas ou corruptelas da língua.

Mas, em termos profissionais ou quando se quer ensinar o uso de termos ou expressões “correctas”, convém ser-se rigoroso no que se transmite. Quiçá recorrendo a várias fontes de informação, científicas e credenciadas.

Ou então assumir que se trata de opinião, passível de contestação como esta que vos envio.

Não sou um lente na matéria, mas tão só um curioso. Mas custa-me ver ser dado como certo o que não o é, acrescido da responsabilidade dessas afirmações serem divulgadas pela televisão com o peso do rigor que um programa didáctico tem.

Como nota final: este texto ou missiva foi escrito ao desabrigo de qualquer acordo ortográfico. Assumidamente como tal. Mas também não me entendo como um especialista em ortografia.

Espero que o vosso programa continue a ter a efectiva simpatia e aparente simplicidade que nos cativa.

JC Duarte


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Interiores




TOC doméstico

 

Lumix DCM DZ 60


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domingo, 10 de maio de 2026

Prazeres




Há combinações que, na proporção certa, roçam o divino no palato.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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As fotografias feitas fora de ambientes controlados (estúdio) não são repetíveis. É o momento decisivo, como explicou o mestre. Podem ser copiadas ad nauseam, mas o acto fotográfico não se repete.

Tal como as emoções.

 

Nikon Coolpix P7000


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sábado, 9 de maio de 2026

Crises e emergências




Entre a guerra dos EUA e o Irão e os contágios com o hantavirus...

Já fez o seu açambarcamento de papel higiénico?

 

Lumix DCM TZ 60


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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Sem importância alguma




Esta é uma fotografia sem importância alguma.

Apenas uma parede, que me bloqueia o caminho, e uma janela, que não me deixa ver para além mas tão só o reflexo do que está atrás e acima de mim.

Não importa rigorosamente para nada!

Talvez que seja um aviso para que pare e pense no que foi.

Ou um incentivo para que siga e derrube o que se me atravesse na frente.

Ou apenas um relembrar que as imagens que vemos não são realidade mas antes uma ilusão daquilo que pensamos que existe.

Ou talvez, nada de pensamentos profundos, muito simplesmente que o meu olhar parou e fez-me parar, em trânsito na cidade, e que o meu vício de usar a câmara me obrigou a usá-la.

Como disse antes, não tem importância alguma esta fotografia.

 

Nikon Coolpix P7000


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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Até quando?




É verdade que sim, que gosto de falar de fotografia.

A questão que se põe é:

Quando é que aprendo a falar apenas daquilo que sei?

 

Pentax K100D, Tokina AT-X 400 1:5,6 + tubo de extensão


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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Todas e cada uma




Ao longo dos anos tive diversas câmaras fotográficas. Confesso que já lhes perdi a conta, ainda que, se fizer um esforço de memória, conseguirei saber quantas com rigor.

Tive-as de quase todos os formatos, de 18x24 a 110, de dispendiosas e complexas a simples e baratinhas.

Cada uma delas cumpriu a sua função, satisfazendo os motivos para que foram compradas. Ainda que algumas me tenham sido oferecidas, por este ou aquele motivo. Cheguei mesmo ao ponto de construir uma, que se vê na imagem. Tal como construi uma objectiva.

Algumas já não possuo. Ou foram-se, vendidas nalgum momento de aperto económico, ou foram negociadas por troca de melhores, ou ainda oferecidas a quem não possuía e necessitava. Outras estão apenas guardadas porque, por este ou aquele motivo, deixaram de funcionar. Avarias ou falta de consumíveis, as mais das vezes. Outras ainda por uma questão de coleção. Recordo mesmo uma Polaroid que se desfez porque lhe caiu em cima um pesado martelo, num triste acidente.

De cada uma delas tenho memória de momentos, actos fotográficos. E com cada uma delas, quando lhes pego de novo, as minhas mãos sabem fazer aquilo que o cérebro pensava ter esquecido.

Mas há coisas que aprendi com cada uma e com todas:

Por um lado, não é a posse ou o uso desta ou daquela que me transforma em melhor ou pior fotógrafo. Eventualmente poderei dizer que com umas não poderei fazer fotografias que faço com outras.

Por outro lado, todas elas provocaram momentos únicos, irrepetíveis. E prazer. Ou satisfação. A ambos os lados da objectiva. Sem importar a sua complexidade ou preço. Ou mesmo fabricante.

Volta e meia pego numa das que estão guardadas e dou-lhe uso. Película ou electrónica. Isto porque o carinho e intimidade que tenho por cada uma faz com que não as queira “mortas” numa qualquer caixa ou estojo. Dar-lhes uso é dar-lhes vida.

Mas também para me recordar daquilo que não esqueço em momento algum: A câmara fotográfica é apenas aquilo que medeia entre aquilo que vejo e aquilo que mostro.

Na imagem, uma fotografia não “programada”, feita no decorrer do meu projecto “À-Lá-Minuta”, num jardim de Lisboa.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55


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domingo, 3 de maio de 2026

Viva quem faz - Tânia




Era uma festinha!

Com bonecos feitos com balões, castelo insuflável, prendas e lanche. Abrilhantado pelo “Sr. Lino”, que cantou Kuduro e Kizomba com letra adequada aos presentes. Talvez deva dizer, em rigor da palavra e do género, das presentes.

Que a festa era promovida pela organização “Ajuda de mãe”, entidade particular de apoio a jovens adolescentes, e adultas como me foi explicitado, mães solteiras. Com fortes dificuldades económicas ou sociais.

E o público era em consonância: mulheres de todas as idades e cores, algumas absurdamente novas, todas com crianças de colo ou pela mão. Alguns dos pequenotes com pouco mais que uns dias de vida. Aliás, e como comentou uma decana Caboverdiana com quem conversei, tão pequenos e novinhos que havia de que ter cuidado em não os pisar, espalhados que estavam pelas poucas cadeiras de plástico e pelo relvado contíguo.

Soube do que se passava porque o perguntei, abelhudo que sou. E quando, um pouco depois, um dos sócios do quiosque de gelados foi até lá, também movido pela curiosidade, lá lhe expliquei, acrescentando que era uma causa meritória.

Passada que foi uma meia hora, mais coisa, menos coisa, eis que vejo dirigir-se àquelas que pareciam ser as organizadoras a sócia do quiosque. Com um caixote de tamanho médio que segurava com ambas as mãos.

Falou o que tinha a falar, deixou o caixote e afastou-se. Com um sorriso para mim e a afirmação, a uns bons dez metros de distância: “A minha boa acção do dia!”

Não sei se tinha gelados (talvez não que o calor era muito e pouco durariam), se qualquer outra guloseima. Mas valeu a pena ver e saber que aconteceu. No Jardim da Estrela.

Viva quem faz e que possui estes olhos!

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 2 de maio de 2026

Mensagens




De todos os que vi este foi o mais sério, o mais profundo e, talvez, o mais pensado.

Porque que futuro pode imaginar um jovem casal quando não consegue um local a que chame lar, por muito modesto que seja? Que futuro pode imaginar para os filhos, que ainda não tem, quando mal consegue sutentar-se? Que futuro pode imaginar uma sociedade que a cada lei imposta vê aperterem-se as grilhetas da escravidão, ainda que sem ferro?

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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