domingo, 30 de dezembro de 2018

O regresso às origens:




Uma câmara, uma focal fixa, luz e cor. Mais nada.
E para os que dizem que é material velho (a câmara tem uns bons 8 anos na minha mão, a objectiva tem uns bons 35 de existência) eu diria que velhos são os trapos.
E mesmo estes são utilizados para fazer trapilhos, que se vendem a bom preço no artesanato.



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sábado, 29 de dezembro de 2018

Votos e tradições


Em Março vos desejarei bom ano novo. Que agora mais não é que uma data arbitrária num calendário por alguém inventado.
Seguindo a tradição Persa, mantida nas tradições Iraquianas, o ano novo celebra-se no Equinócio da Primavera.  
Seja como for, divirtam-se.


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Por vezes também faço assim: enquadramento original, sem correcções ou ajustes, tal e qual saiu da câmara.



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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Alma negra



Ela tinha uns olhos bonitos. Caramba! Como eram bonitos os seus olhos!
Não apenas a cor, de um verde pálido, aquoso, quase transparente, como o formato, de um amendoado estranho, suave, quase redondo não o sendo. Sem pinturas ou enfeites. Bonitos de ficar a olhar, mesmo naquele autocarro já apinhado de gente.
Em condições normais, na rua, com alguma calma e luz, certamente que a abordaria para os fotografar. Deixar escapar uns olhos daqueles seria pecado. Mas…
Mas o treme-treme do autocarro, o facto de aqueles olhos mal terem reparado em mim, divididos que estavam entre o conversar com a senhora sentada à sua frente e o telemóvel no facebook… difícil seria obter uma imagem daqueles olhos lindos de morrer.
E se os olhos são o espelho da alma, estes seriam bem mentirosos. Que toda aquela beleza de olhos era bem o oposto daquela alma negra e feia.

Sentada que estava num dos bancos reservados a pessoas com necessidades especiais, bem que viu o idoso que entrou de muletas. E rapidamente desviou o olhar para a tecnologia que tinhas nas mãos.
Tal como os belos olhos bem se fixaram, por uns instantes, naquela senhora com uma menina ao colo. Mas foram atraídos por um qualquer detalhe na tarde quase escura lá de fora.
Tal como varreram o possível de ver no meio de toda aquela gente o outro já velho e também de muletas que se agarrava com dificuldade a um varão do chocalheiro autocarro.
E foi com uma nítida raiva que olhou para a velha cigana sentada a seu lado, toda de negro profundo incluindo o lenço na cabeça, quando ela lhe deu uma cotovelada e lhe disse, bem alto: “Dê lá o lugar ao velhote! Não vê que ele mal se aguenta de pé?”
A resposta foi atabalhoada, com um mal pronunciado “Não tinha visto”, mas lá se levantou. Gesto inconsequente, que o lugar foi recusado com o argumento de que iria sair na paragem seguinte e era mais fácil nem se sentar.
E aqueles olhos lindos, bem como o seu rabo pesado e alma feia, voltaram a ocupar o banco, sem se preocuparem com outros idosos, de cabelos alvos, que se apertavam e encostavam uns aos outros no corredor apinhado.
Irritou-me! Mesmo! Um olhar bonito, mas bonito mesmo como aquele, não desculpa o desprezo pelos demais. Principalmente se ocupando um lugar reservado.

Aconteceu sairmos na mesma paragem minutos depois. E eu, irritado que estava, achei que não podia perder a ocasião.
Afivelei o meu mais charmoso sorriso e, sacando da câmara do bolso, abordei-a.
“Desculpe. Posso fotografar os seus olhos? Só os olhos!”
“Aaaah… Não, obrigado. Estamos com pressa.” E seguiu com a talvez mãe, talvez tia.
Tal como eu. Esforçando-me por manter o sorriso, insisti:
“É que, sabe, gosto de fotografar olhos bonitos. E os seus são lindíssimos. Posso?”, ao mesmo tempo que exibia a câmara.
Abrandou um pouco o passo, olhou para mim e insistiu meio sorrindo:
“Obrigado, mas estamos com pressa.”
“Mas é que gosto mesmo de fotografar olhos bonitos. Bonitos como os seus. E gosto mais ainda quando escondem uma alma negra e feia como a sua!”
Aqui estacaram ambas e enfrentaram-me. E continuei, mantendo o sorriso mas esfriando o tom de voz:
“Que bem vi como fez o possível por não ver quem precisava do lugar sentado que ocupava. Tal como vi o olhar que lançou à velha cigana quando ela a obrigou a levantar-se. E agora, vendo-a a caminhar sã e escorreita como se espera das suas vinte pouco primaveras, que não sei se invernos, ainda mais lhe reconheço a fealdade da sua alma.
Ainda tentou responder algo, mas não deixei, continuando:
“Mas, no fundo, ainda bem que não deixa. Agora já não sei se quero ter algo seu, mesmo que uma fotografia dos seus bonitos olhos. Sabe que mais? Boas festas, ainda que não merecidas!”
Dei meia volta e afastei-me.
É que, no fim de contas, nem sei se ela merecia ou se entendeu o responso. E se eu continuasse, talvez que viesse a recorrer a termos menos urbanos.


Quem vê caras – ou olhos – não vê corações. E estes foram a alma negra deste natal.

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O medo e as suas armas


Por aquilo que li num jornal, quem quiser festejar a passagem de ano no Terreiro do Paço, em Lisboa, será objecto de revista por parte das autoridades policiais.
Desculpem qualquer coisinha, mas este ano não estarei aí a ver o fogo de artifício.
Não me submeto à indignidade de ter que provar que sou inocente e que estou de boa fé num festejo ao ar livre num local que é suposto ser público.
Na minha cartilha, todos são inocentes até prova em contrário. E não admito ser tratado de forma diferente daquela que trato o meu semelhante.
Portanto, um valente “vão dar banho ao cão” para quem teve esta ideia brilhante.
E um lembrete. Os chamados “terroristas” têm como arma o medo e o terror. Estas supostas medidas de prevenção apenas servem os seus intentos ao lembrar o comum cidadão que tem motivos para ter medo. Por outras palavras: estão a fazer o trabalho de quem quer chegar a algum resultado instigando ao medo.



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Vestígios




Talvez que um dia eu venha a saber quem fez estes desenhos e com que objectivo, se algum.
Até lá, fica a curiosidade e a imaginação sobre o significado destes entalhes numa quase anónima pedra de calçada.



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Semáforos e co-existência




Vejamos as coisas desta forma:
Tenho uma opinião muito abaixo de simpática sobre quem prime um botão destes porque quer atravessar a rua em segurança e acaba por o fazer quando não há trânsito mas o semáforo ainda não está verde para os peões.
Quando, segundos depois, passa a vermelho para os automóveis e algum se imobiliza, fica quem vai a conduzir a perguntar-se sobre o motivo do sinal se ninguém está a cruzar a via.
É que “das duas três”: ou bem que não se prime o botão e se espera uma “aberta” para atravessar a rua, ou bem que se prime e se aguarda pelo sinal verde.



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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

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Tradições




Esta história tem já uns oito anitos, mas nesta coisa de tradições natalícias tem cabimento.

Eu estava encostado ao balcão do café da minha rua, à espera do “banheira e hambúrguer”, código privado ali criado para um café cheio e um pão de deus com queijo e manteiga. Rotinas.
Entrou um dos carteiros que faziam a rota da rua em que morava. Eram três, à vez, e conhecia-os de trocarmos uns dedos de conversa sobre trivialidades como o tempo, ou fotografia com um deles.
Depois de entregar a correspondência para ali destinada, olhou para mim e comentou:
“Ainda bem que o vejo, que andava a pensar em si. Tenho aqui uma coisa que acho que lhe é destinada.” E metendo a mão no pesado saco retirou uma caixa cúbica, aí com uns 20 cm de lado. “Vem do estrangeiro, parece-me”.
Fixe! Baril! Ganda pinta! Afinal o tipo das barbas brancas também recebe encomendas do Polo Norte!
Bem, não seria do Polo Norte, mas tão só do norte, da Grã Bretanha para ser exacto. Mas era lá de cima, do norte e do frio, prontos.
Acrescentou o bom do homem que a letra correspondente ao apartamento não estava bem legível e que poderia ter várias interpretações. E que, em o comentando com colegas lá na central de distribuição, um deles alvitrara que poderia ser para mim, o tipo das barbas e da fotografia. E era, mas achei graça que os carteiros me conhecessem pelo nome num bairro dormitório suburbano e num prédio com 96 apartamentos.
Dentro da caixa, que abri logo ali, estava isto: uma bela de uma objectiva fotográfica.
A sua alcunha era “travelling 28” e era propriedade de um membro de um grupo de fotografia na web de que eu fazia parte. E fora proposto que esta banal 28mm circulasse pelos membros aderentes ao desafio e que cada um fotografasse com ela. Em terminando o périplo regressaria ao dono.
Quando aceitei o desafio imaginei algumas a fazer, nos quinze dias em que “brincaria” com ela, pese embora possuísse uma quase igual, apenas um nico mais antiga. E estava a reservar-me para ela, que não tinha graça subverter um projecto colectivo como este.
Não recordo já para quem a enviei em terminando o prazo: ou foi para um Islandês, o único com esta nacionalidade no grupo, ou foi para um Australiano, terminando comigo a aventura europeia da “travelling 28”.
Em qualquer dos casos, sei que passados meses regressou a seu dono, numa fraternidade rara nos tempos que correm, entre gente que apenas se conhecia das trocas de mensagens e experiências num fórum global.
Fosse como fosse, e como natal é quando um Homem quiser, naquele ano chegou mais cedo, no café, e abri a prenda antes da data habitual.
Boas festas com ou sem prendinhas.



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domingo, 23 de dezembro de 2018

Votos natalícios




Neste Natal, os meus mais sinceros votos de paz e amor.



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Tradições



Dezembro é época de tradições. Pelo menos nesta zona do globo.
Usemo-las e contemos histórias ou estórias apropriadas.

Panelas de Natal

A tradição familiar dizia que o Menino Jesus descia pela chaminé para pôr prendas no sapatinho.
Assim, depois do jantar, a cozinha era imaculadamente arranjada, o fogão forrado com papeis “bonitos” e os sapatos colocados em cima deles.
Na manhã de Natal os pequenos, depois de toda a família acordada, eram autorizados a entrar na cozinha onde, para deslumbre total, lá estavam os presentes. Poucos, que os sapatos eram muitos, mas apetecidos e apreciados.
O mais velho dos quatro foi, naturalmente, o primeiro a ser informado da verdadeira história e a ser incluído na cerimónia da colocação das prendas.Depois do fogão decorado e dos mais pequenos terem recolhido à cama, foi a sua vez de colocar as suas prendas para toda a família, indo então deitar-se, que não podia ver as que lhe eram destinadas antes dos outros acordarem.
Acordou ele a meio da noite, com vontade de urinar e dirigiu-se à casa de banho. Mas logo lhe passou a vontade. Com receio que furasse o bloqueio de acesso à cozinha, tinham atado uma cadeira com tachos e panelas ao puxador da porta de seu quarto. Quando a abriu, tudo se espalhou pelo chão, acordando a casa por inteiro.
Não me recordo ao certo qual ou quais as prendas que recebi nesse ano. Mas tenho a vaga ideia de ter sido um famoso Renault 16 do “Tour” que esventrei e em cujo interior coloquei um pesado imã de bicicleta. Com ele, ganhava todas as provas de todo o terreno que na rua se faziam.
Ainda hoje, quando a família se reúne, ninguém me acredita que, então, apenas queria ir à casa de banho.

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sábado, 22 de dezembro de 2018

Tradições e imposições




Leio um artigo de jornal onde ficamos a saber que o metro de Lisboa, face à reduzida procura, encerrará o seu serviço às 22.00 horas de dia 24 de Dezembro e retomará a circulação às 8.00 do dia 25 de Dezembro.
Este acto de gestão será simpático para todos aqueles que ali trabalham, permitindo-lhes regressar a casa a tempo de passar a meia-noite com a família. Mas é antipático para todos aqueles que, não trabalhando na empresa, queiram regressar a casa e não o possam fazer ou que, no lugar de uma meia horita gastem hora e meia.
Sejamos honestos: Ainda que a celebração do Natal seja uma prática generalizada em Portugal, não é nem uma obrigação nem motivo para que os serviços essenciais encerrem. São milhares os que não observam a data como dia ou noite especial. Porque agnósticos, ateus ou crentes noutras confissões religiosas que não a cristã.
Os serviços de transporte público são serviço público. Tal como a difusão de rádio ou televisão, as forças de segurança, as urgências de saúde ou a protecção civil.
Em nome de todos aqueles que não têm carro para se deslocarem na cidade e que irão demorar o dobro ou o triplo do tempo para chegarem a casa, o meu obrigado ao Metropolitano de Lisboa!



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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Prendinhas




O Natal está à porta. E com ele aquele período em que acreditamos que a ecologia é substituir gasolina por renas e que os laçarotes coloridos são pacotes de saúde liofilizada, alimentação em kit, justiça em fascículos e devolução de impostos em calda.



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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

De raiva




Poderia usar diversos nomes classificativos, uns mais agressivos outros em bom vernáculo.
Mas o primeiro que me vem à cabeça é “cobardola”.
Aquelas pessoas que afixam nos locais de trabalho imposições de comportamento ou mesmo insultos indirectos e que não têm coragem para assinar o que fazem.
Na calada da manhã, no escuro do “ainda não começámos”, no silêncio possível do ar condicionado.
Em tempos andei a fazer e distribuir panfletos políticos. Naqueles tempos, fazê-lo era arriscado. Muito arriscado. No pelo e na liberdade. Felizmente alguns resolveram a situação e a liberdade de expressão é hoje integrante da nossa sociedade. Ainda que alguns a queiram extinguir.
Como estes cobardolas que o fazem pela calada, incapazes de dar a cara pelo que fazem ou pensam. E que se assim actuam, é-lhes igualmente fácil censurar ou punir aqueles que em público e sem pejo se exprimem.
Tenho o desprazer de ter um colega assim. Cobardolas.
E que nem mesmo quando instigado a pronunciar-se teve a coragem de assumir os seus actos.
Sei o que fazer: votá-lo ao ostracismo, sem mesmo lhe dar a saudação à chegada ou partida.
E se mais ordens ou imposições vierem, assim anónimas e cobardemente afixadas, terão o mesmo tratamento que desta última: “Bocas” apostas nas afixações, “bocas” atiradas para o ar, achincalhamento público do cobardolas.
Para ti, que o fazes, o meu desprezo e uma escarradela na cara!


Imagem: parte da capa do livro “A língua da tua mãe”
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Privacidades



A todos aqueles que gostam de ir para a rua e “caçar” desconhecidos e desconhecidas nos seus afazeres e que argumentam que é “arte”, que é “fotografia de rua”, que é legítimo fazerem e divulgarem sem uma palavra aos “caçados”, deixo uma pequena tarefa:
Vão ver na net ou nas bibliotecas (se souberem o que isto é!), públicas ou privadas, quantos fotógrafos de renome, daqueles que vos servem de inspiração, mostraram ou fotografaram parentes. Filhos, avós, esposas ou maridos, primas…
Constatam, com toda a certeza, que muito poucos o fizeram. E que a maioria dos que o fizeram guardaram a bom recato essas imagens.
Talvez que esses “grandes”, que vocês pretendem copiar, tenham uma séria noção do que é a privacidade (da imagem e da vida).
Se querem ser como eles, ou mais que eles, aprendam com eles tudo o que há a aprender, nas práticas e nas teorias.
E percebam que a posse de uma câmara e o “título” de fotógrafo não dá o direito de tudo desprezar.

E, já agora, leiam um belo romance, aproveitando que os dias frios e curtos convidam ao recolhimento: “O pintor de batalhas”, de Arturo Péres-Reverte. Ficarão mais ricos, p’la certa.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Tradições



Dezembro é época de tradições. Pelo menos nesta zona do globo.
Usemo-la e contemos histórias ou estórias apropriadas.

Há muito, muito tempo, numa terra muito, muito longe, o sr. Pilim e a srª Narta tiveram um filho. Carinhosamente deram-lhe o nome de Dinheirinho.
Sabendo do acontecimento e exultantes com a boa nova, de imediato três magos de reinos distantes se dispuseram a venerar e ofertar. Vinham eles do reino do Fisco, do reino da Banca e do reino do Comércio.
Ajoelhando-se à chegada, logo lhe entregaram o que traziam: um cartão de crédito, um cartão de cliente e um cartão de contribuinte. E disseram-lhe:
“Aqui tendes as nossas oferendas. Acreditamos que com elas sereis maior e mais poderoso. Usai-as como entenderdes.”
E assim aconteceu: o recém-nascido cresceu, a sua palavra e influência espalhou-se pelos quatro cantos do mundo e tornou-se omnipotente, omnipresente e omnisciente.
Os magos, por sua vez, deram graças pelo seu desenvolvimento e trataram de erguer, em tudo quanto é lugar, templos de veneração: Repartições de Finanças, Instituições de Crédito e Centros Comerciais.
E hoje, todos acorrem aos locais de culto em datas como esta, fazendo as suas preces e doando as suas oferendas, num ritual sempre acarinhado pelos sacerdotes.

Contada esta fábula, tenho que ir ali ao balcão agradecer com uma oferenda este bolo e bica e seguir depois para fazer uma promessa por uns cigarritos que gastarei. Alguém aí tem lume?

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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Feliz natal e etc.




“Um feliz Natal”, “Um santo Natal”, “Um bom Natal”!
É um corrupio,  por estes dias! Tudo quanto é gente afirma isto para tudo quanto é gente. À laia de despedida, no último dia em que se vêem antes da data em causa, deseja-se “um bom Natal”, “um feliz Natal”, “Um santo Natal”. Com a mesma ligeireza ou indiferença com que se deseja “um bom fim-de-semana”.
Eu, confesso, canso-me até à medula de o ouvir. Porque, no fundo, incomoda-me por um ror de motivos.
À uma porque a maioria das bocas que o proferem não têm realmente esse desejo e usam-no como forma coloquial, de bom-tom, quase que obrigatório.
Depois porque muitos do que o dizem fazem-no para com pessoas com quem passaram todo um ano, senão em guerra, pelo menos em indiferença. Um ignorar permanente apenas quebrado por uma data arbitrária assinalada a vermelho no calendário. Hipocrisia pura e dura!
Em seguida porque maioria que tal diz nem sequer é crente. Crente convicto, daqueles que fazem questão de seguir todo o ritual da igreja e que, no seu íntimo, fazem por ser o que os mandamentos mandam. Dos que assim não são, alguns talvez tenham uma fézinha lá no fundo mas, na prática, não celebram o Natal como a festa maior da sua fé. Antes como a festa grande do consumismo. Pelo que, ao fazerem tais votos sobre o Natal, não sei se se referem ao festejo do nascimento de Cristo, há mais de 2000 anos se à existência de mesa farta e presentes abundantes, de preferência dispendiosos.
Acrescente-se que, ao fazer votos sobre o Natal (ou Páscoa), está-se a presumir que quem os recebe partilha da mesma fé ou crença. O que nem sempre é verdade. Desejar “Bom Natal” a um Islâmico ou Judeu é, no mínimo, caricato. Para já não falar em Animistas, Budistas, Xintoístas ou outros menos comuns por cá. No meu caso particular, e se me quiserem desejar um “Bom Qualquer-coisa”, que seja antes um Solstício ou Equinócio. Estes sim, são datas comuns a todos, já que dispensam qualquer tipo de crença: estão aí para serem constatáveis por quem o quiser fazer e disso quiser fazer festa.
Por fim, quem faz votos de “Um bom Natal” pode ser acusado de sovinice aguda! Porque será que só se deseja de bom o Natal e apenas um? Se os desejos são positivos e significam “Tudo de bom para si!”, então não será apenas “um” dia por ano e não forçosamente um só ano, deixando de fora todos os Não-Natais e todos os restantes anos a serem vividos ou existenciados.
Para usar uma frase ouvida da boca de quem até nem gosto, prefiro antes o “Façam o favor de serem felizes!”
Ou, como eu mesmo costumo usar, “Divirtam-se e aproveitem bem a luz”.
Seja qual for o dia do ano e todos os anos do provir. Que divertirmo-nos e aproveitarmos o que de bom a natureza nos dá é uma boa forma de sermos felizes!

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Coerência, procura-se




No jornal leio um artigo em que nos falam sobre os números da eleição para o cargo de sercretário-geral da juventude socialista.
Segundo o artigo, foram mais os delegados que não escolheram a vencedora que os que nela votaram. Num universo de 336 votantes, só 165 votaram na única candidata. Por outras palavras, 49,1% dos delegados votaram na vencedora.
Os restantes ou não votaram, ou votaram branco ou nulo.
Leio este artigo e não recordo ter lido um artigo, um só que fosse, sobre o resultado da votação para presidente da república de que resultou a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa.
Segundo a comissão nacional de eleições, num universo de 9.751.398 eleitores, só 2.413.956 eleitores escolheram o actual detentor do cargo. Os restantes ou não votaram, ou escolheram outros candidatos, ou votaram branco ou nulo.
Feitas as contas, Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito por 24,7% dos portugueses.

Não sou defensor de Marcelo nem simpatizante do partido socialista. Mas gostava de ver os jornalistas a abordarem os temas com critérios coerentes.
Talvez eu esteja pedir muito, numa época em que as rivalidades partidárias começam a aquecer face às eleições que se aproximam. E é sabido que no amor, na guerra e na política vale tudo, mesmo tirar olhos.

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Tradições




Dezembro é a época de tradições. Pelo menos por cá.
Usemo-las e contemos histórias ou estórias apropriadas para a época.
Eis uma:

Era a véspera de Natal e ele estava de regresso a casa.
O dia tinha estado francamente tempestuoso e a noite, ainda que aparentasse estar calma, apenas anunciava que a qualquer momento iria igualar o dia.
O caminho entre a estação habitual e casa era longo e a subir. E boa parte dele desabrigado. O risco de ser apanhado a meio caminho pela tempestade era grande e desconfortável. Decidiu optar pela solução alternativa: desembarcar mais à frente, na estação seguinte, onde havia uma praça de táxis. Sentado e protegido da chuva e do vento, chegaria a casa.
Mas era véspera de Natal.
Os motoristas de táxi estariam na missa do galo ou no aconchego familiar e nem um aparecia para serviço. Nem mesmo a central telefónica atendia, que a telefonista deveria também ter tido a noite livre.
A solução última seria enfrentar a noite e a tempestade, se desabasse.
Na esquina surgiu um. Um táxi. Um carro de praça. Uma viatura que o haveria de levar a casa. Ocupado. E vinha de um outro concelho, não podendo ali recolher passageiros.
“Sorte a daquele!”, pensou ele. “Safou-se!”
Minutos depois, já com decisão da caminhada tomada mas não concretizada, eis que o táxi regressa. Encosta da praça, abre a janela e pergunta ao solitário que ali aguardava por um táxi que não havia:
“Vai para onde?”
Ele lá lhe respondeu, sabendo que de pouco serviria. Aquele carro não podia, ali, recolher passageiros. Manda a lei e a classe profissional é muito ciosa dos seus territórios.
“Venha, que o levo. Hoje, a esta hora, não consegue aqui apanhar um. Tem é que me dizer o caminho, que não conheço esta zona.” E, já em trânsito, acrescentou: “E sempre escuso de fazer todo o caminho para Lisboa vazio.”

Naquele ano, sem barbas e disfarçado de motorista de táxi, o Pai Natal apareceu-me uma hora mais cedo.

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domingo, 16 de dezembro de 2018

Escravidões




Vejo um programa americano onde se faz um rasgado elogio ao facto de a China estar a investir na tecnologia. E, como exemplo, o facto de já quase se não usar dinheiro físico mas antes pagamentos como telemóvel.
Uma conta bancário, um aparelho e um contrato com um servidor de net sem fios e todos os negócios se realizam.

Desculpem lá qualquer coisinha, mas…
Então eu tenho que pagar a intermediários para fazer um negócio? Beber um café, almoçar, transportar-me, consumir água ou energia… E tenho que pagar a um terceiro para o poder fazer? Um terceiro e um quarto e um quinto… Intermediários que influenciam a sociedade, impondo o seu produto como sendo um necessidade insubstituível. Intermediários que assumem o controlo de tudo o que fazemos, registando as nossas actividades e deslocações. Intermediários privados ou públicos, que tudo supervisionam.
A cada momento que passa a privacidade deixa de existir para benefício e lucro de alguns e controlo de todos por parte de uma elite política e económica.

“Não quero ser escravo”, disse-me um dia um jovem quando pensava em procurar emprego. Bem válido, esta afirmação!
Mas enquanto nos deixarmos levar pela febre da tecnologia, enquanto deixarmos que a nossa privacidade passe pelas decisões de uns quantos, enquanto não pensarmos que o nosso pensamento e acção estão a ficar condicionados pelas elites sedentas de poder…
Seremos escravos, queiramo-lo ou saibamo-lo ou não.
Só para se ter uma ideia, imagine-se que hoje e em Portugal, as redes de comunicação ficavam inactivas por 12 horas. Nem negócios, nem levantamento de dinheiro nos ATM, nem entretenimento… Nem sequer a simples compra de um papo-seco num supermercado, se com cartões de débito ou crédito não funcionarem. Ou as caixas registadoras, ligadas a uma central. Ou, pior: a nossa identidade é posta em causa.

A pior escravidão é a consentida.



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Tradições




Dezembro é época de tradições. Pelo menos nesta zona do globo.
Usemo-la e contemos histórias ou estórias apropriadas.
Neste caso, um texto de um excelente autor, maldito para uns, magnifico para outros.
E, se excluirmos algum exagero aqui ou ali, certamente que reconhecerão o descrito.

Como a família da Lurdinhas passou a consoada do ano passado:

Para estreitar os laços familiares, não há nada que chegue à festa do Natal, lá isso é verdade, mas espero que neste ano as coisas corram melhor do que o ano passado e não seja preciso o meu pai ir mudar de roupa a meio do jantar por ter apanhado em cheio com o galheteiro do azeite nos cornos, atirado pela minha mãe que o topou a apalpar o cu à D. Filomena, uma prima da minha madrinha que veio de Angola e vive numa pensão em Almirante Reis e anda a estudar para manicure.
A minha mãe ficou bera e com razão, não é por ser minha mãe, esteve quase a dar-lhe o fanico e só gritava: «Tirem-me essa puta da frente! Tirem-me essa puta da frente!» Mas quando as pessoas são educadas, as coisas acabam por compor-se e bastou tirarem a D. Filomena de ao pé do meu pai para ficar tudo em sossego. No fim até estiveram as duas a falar de crochés e da telenovela, que nessa altura dava na televisão, e a D. Filomena ofereceu-se para tratar os pés da minha mãe, assim que acabasse um curso de calista que andava a tirar ali para os lados da Fonte Luminosa.
Essa bronca portanto foi o menos; o pior veio a seguir quando a minha avó teve a infeliz ideia de perguntar à prima Otília que presente de Natal é que lhe tinham dado os patrões do escritório onde ela trabalha e a parva descaiu-se a dizer que, do senhor Benjamim, recebeu um jogo de calcinhas e soutien em nylon, e do senhor Canelas, um vibrador-masturbador japonês, muito bonito, todo transistorizado.
Ora, ao ouvir isto, o Fernando, que é o marido da Otília e tinha metido na boca uma grande garfada, engasgou-se, engoliu uma data de espinhas de bacalhau, cuspiu o resto no prato do meu avô e desatou ao bofetão à mulher: «Sua cabra! Sua ordinária!» e a dizer que ia enfiar o vibrador pelo cu do Canelas acima e partir os cornos ao porcalhão do Benjamim.
E a palerma da Otília, em vez de se calar, como era a obrigação dela, cresceu para o marido que até parecia uma leoa: «Tire as patas de cima de mim, seu cabrão! Você é que tem cornos e dos grandes, ouviu?» E ele, todo a tremer: «Eu?! E ainda o dizes, grandessíssima puta?» E a Otília: «Pois digo para vergonha tua, que nem és marido nem nada! Se não fossem os meus patrões não sei o que seria de mim?». E desatou a chorar baba e ranho e então o Fernando agarrou na faca de cortar o bolo-rei e toda a família se pôs a gritar «Ai que ele mata-a! Ai que ele mata-a!», mas o meu pai tirou-lhe a faca e o tio Arnaldo obrigou-o a sentar-se na cadeira, deu-lhe palmadinhas nas costas e disse-lhe: «Não ligues ao que ela diz, pá, que as mulheres são todas umas putas», e ele ao ouvir estas boas palavras, ficou mais sossegado e até alargou um furo ao cinto para continuar a comer.
O pior é que a tia Palmira não gostou da conversa do marido e começou a refilar que não queria confusões, que se as outras eram putas ela era uma mulher séria, que quem não se sente não é filho de boa gente, etc., etc., mas o tio Arnaldo que é um bocado bruto atirou-lhe logo esta a matar: «Escusas de armar em séria, que todos sabem que andaste enrolada com o Gonçalves da farmácia quando ele te tratou do eczema»; e ela, logo: «E tu com a Gracinda da peixaria, que até escamas de pargo trazias para casa nas cuecas!» E o tio Arnaldo, muito fodido: «As escamas de pargo não são aqui chamadas para nada, porra!» E, ao dizer isto, deu tal murro num prato de filhoses que saltou calda para todo o lado e até eu fiquei com o cabelo enchapoçado dela. E o meu pai que ia acudir pela tia Palmira, esteve vai não vai para apanhar outra vez com o galheteiro, pois a minha mãe tinha-o sempre debaixo de olho; enfim, só visto!
O que valeu para que a festa de Natal não ficasse estragada foi a minha madrinha impor-se, visto ser ela a dona da casa, e avisar que não consentia faltas de respeito, que aquilo ali não era nenhuma taberna e que achava uma sacanice estarem a encher o bandulho à custa dela, com a comida cara como estava, e a portarem-se que nem javardos em vez de se mostrarem agradecidos. «Ou comem de bico calado ou vai tudo para o olho da rua!» disse ela e ninguém refilou; durante algum tempo só se ouviu mastigar, até que o senhor Aguinaldo, o sacana do velhote que está amigado com a minha madrinha e que até aí só abria a boca para meter para dentro, resmungou lá do canto que no olho da rua já nós devíamos estar há muito e que se a família dele fosse ordinária como a nossa já a tinha rifado. Um gajo bera, palavra de honra; não são coisas que se digam assim na frente das pessoas e ainda gostava de ver que merda de família é a dele; cheira-me que é para ali uma ciganada cheia de putas, chulos, sovaqueiras e arrebentas.
Mas a minha mãe, que tem muito jeito para compor as coisas quando não está com a bolha, disse que o melhor era a minha madrinha abrir a televisão, que tem programas muito bonitos no Natal, porque as conversas não fazem falta para nada e a gente não estava ali para conversar mas para comer e que assim as crianças sempre estavam mais distraídas. Foderam-me!
Foi assim que tive de gramar duas horas de chachadas como essa porcaria das canções do Natal, das entrevistas do Natal, das tradições do Natal, dos votos de Natal e até dos anúncios do Natal, sem ter feito mal a ninguém. Não é que eu goste de chavascal e sarrafada, mas, mal por mal, ainda preferia ver os parentes todos à porrada e a descobrir o cu uns aos outros do que ver a merda da televisão.

Texto: by José Vilhena
Imagem: by me

sábado, 15 de dezembro de 2018

Resistência




Ainda cá estamos.
Passados todos estes anos, e apesar dos esforços vários, com várias origens e em diversos tempos, ainda cá estamos.
E só um está no museu.



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Registos




O acto de fotografar tem causas e consequências diversas.
Haverá sempre uma relação emocional com o assunto registado, mas tanto pode ser de amor como de ódio, tanto pode ser um desejo de apropriação como um momento de exorcismo.
A intimidade entre fotógrafo e assunto fotografado é algo que, a esmagadora maioria das vezes, só se constata através do resultado do acto, no exibir o registo lúmico.
Este é um registo raro de um momento de exorcismo, em que o acto de fotografar foi usado como escape, como protesto, como desabafo.
Não sei há quanto tempo não fotografava com tanta raiva e dor. Se justificada ou não será sempre algo de relativo. Mas sei que usei a fotografia como pobre ícone para dar forma ao que me ia na alma. Ao que me vai na alma.
Felizmente tinha por perto que fizesse o registo do registo. Quem me deixasse exprimir e ajudasse a apanhar os cacos.
Obrigado.



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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

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Por vezes, demasiadas, a sensação é esta:
Um pote cheio de coisa nenhuma!


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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Dúvidas


A questão das calendarizações ou oportunidades é terrível!
Há actividades que, sendo certas em qualquer momento do ano ou da vida, nalguns momentos serão mais oportunas que noutras. Ou mais convenientes.
O campo politico-laboral é um deles acontecimentos.
Faz sentido actuar por melhores condições de vida e de trabalho: segurança, salários, futuro. Em qualquer momento se deve providenciar para que isso aconteça.
Mas há ocasiões em que essas actuações serão mais convenientes que outras. Não no que concerne ao objectivo explícito da luta ou reivindicação mas antes ao que em torno disso acontece, ao ambiente social existente, às causas e consequências do momento em que se actua.
Ver mais longe que o fim do dia, do mês ou do ano permite-nos aperceber disso. Ou pensarmos que nos apercebemos. E as dúvidas, as interacções extra, os argumentos explícitos e implícitos podem levar-nos a concluir que, em torno de uma dada luta, outros interesses se levantam.
Por outras palavras: cheios de razão, de motivos para agir e intervir social e/ou laboralmente, podem muitos estar a ser levados para que se conquistem outros objectivos não confessos.
Ao contrário do outro, que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, eu tenho muitas. Sempre! E neste momento ainda mais.
Não mudei de posição ou atitude no que se refere a intervenção social. Apenas entendo que a manipulação tem limites.

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

As camisas



Foi há uns trinta e tal anos, não posso precisar.
Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.
Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia comprado pouco tempo antes.
Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação. 
O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia.
O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores. 
Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…
E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.
Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.
Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!
Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente, inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser feito como combinado.
Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com argumentos técnicos e estéticos que não iria ser possível fazer boas imagens com a presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por inteiro e sem a presença das operárias. 
A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o que eu queria com aquilo. 
Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por algumas, não muitas, horas. 
As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.
Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este produtor. 
Ainda hoje as recordo. 

Nota extra: A fotografia não da época. Os originais, em diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a correr, para acompanhar o texto.

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Consumo informativo



O que surgiu primeiro: o ovo ou a galinha?
O que é mais importante: a informação que os media querem vender ou a informação que o público quer consumir?

Os media procuram vender. Mais unidades e em mais quantidade que os seus concorrentes. Logo, vão atrás dos “gostos” do público.
O público usa a informação como forma de exorcizar os seus males, satisfazendo-se com o sucesso dos seus heróis e minimizando os seus males com a grandeza dos males dos outros.

Mas o público não quer ser informado em profundidade sobre as vitórias dos heróis. Porque sabe que cada vitória é consequência de muitas derrotas, e de derrotas está ele cheio no dia-a-dia.
E o público não quer saber das origens e consequências dos males dos outros, com receio de neles encontrar os seus próprios males, aqueles que o atrapalham e incomodam, e de poder antever o dia seguinte.
E como ninguém é herói todos os dias, o herói de hoje é o esquecido de amanhã, que novos heróis serão descobertos pelos media. Que se não tiverem novos heróis a apresentar, venderão menos e terão menos lucros, que ter lucro é o seu objectivo.
E como falar dos males em profundidade é remexer em feridas dolorosas, há que evitar essas dores, que ninguém compra produtos que provoquem dores agudas e prolongadas, e ter lucro é o seu objectivo.

A missão do comunicador contemporâneo (seja ele de texto, som, imagem ou ideias) é encontrar todos os dias novos heróis, novos males, que ajudem na facturação da empresa onde trabalham. Como esta facturação depende, em boa medida, da facturação da concorrência, há que ir mais longe, há que ser mais apelativo, há que mostrar ao público que os novos males que se mostram são mais maus e mais distantes, que os novos heróis que se exibem são mais dignos e mais credíveis.
Deixou de ser importante fazer, como nos juramentos de tribunal dos filmes americanos, “a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade.” Na concorrência dos media, apenas a “a verdade” tem algum peso (e não muito!). “Toda a verdade” deixou de ser importante, porque incómoda para o público e cara na produção. Já o “Nada mais que a verdade” depende dos conceitos éticos de quem produz, nem sempre os mais recomendáveis.

Assim, a relação entre os media e o público tornou-se (e é!) uma relação simplista em que um vende e o outro compra produtos para aliviar consciências e incómodos quotidianos. Tal como a botica vende pomadas para o lumbago e pensos para os calos.
A missão do jornalista ou do técnico de comunicação deixou de ser (se alguma vez foi) intervencionista na sociedade para ser a de fabricante de notícias, com a conta certa de dor e prazer no público para o manter como consumidor fiel.
E o público deixou de querer (se alguma vez quis) estar alerta sobre o que o cerca, restringindo-se ao seu pequeno mundo doméstico e familiar. Procura na informação os paliativos para as suas maleitas, não se preocupando com as suas causas nem com o prevenir de novas.

Alguns há, honra lhes seja feita, que não se encaixam neste consumismo informativo. Pessoas há que procuram saber mais e mais fundo, comunicadores há que procuram contar e explicar tudo sobre cada tema e sobre todos os temas. Mas como estas atitudes são cada vez em menor número, este circuito produtor/consumidor é cada vez mais marginal, talvez condenado à extinção.

Está em nós (produtores) e em nós (consumidores), não permitir que esta estupidificação no conhecimento do mundo que nos rodeia grasse como uma epidemia fatal!

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Jornaleiros




Em tempos dizia-se uma piada que nada tem de abonatório para os intervenientes:
“As principais ferramentas do jornalista são a tesoura e a fita-cola”.
Usava-se este chiste para caricaturar os “jornalistas” que faziam o seu trabalho limitando-se a recortar artigos de outros jornais e a colá-los no seu próprio.
Nos tempos que correm “As principais ferramentas do jornalista são o copy/past”.
Esta é piada minha, resultado da observação do como as notícias são resultado do que lhes é enviado pelas agências noticiosas e reproduzidas sem confirmação ou tratamento.
Mas os jornalistas hoje vão mais longe no seu “fazer notícias”.
Tropeço num artigo do Diário de Notícias que nos conta um pouco da vida da herdeira da fortuna e indústria dos cristais Swarovsky.
No final do artigo duas notas: uma remetendo-nos para o artigo original, publicado no “Dinheiro Vivo” e uma outra informando-nos que o artigo havia sido corrigido na nacionalidade da pessoa. E a data da correcção: 31 de Janeiro. O artigo original possui a mesma correcção.
A única coisa que diferem um do outro é que o do “Dinheiro Vivo” tem data de 6-12-2018 e o do “Diário de Notícias” tem data de 9-12-2018.
Por outras palavras: os jornais estão a publicar artigos agora que já têm quase um ano de escrita. A actualidade do texto será pouco importante, mas quem os ler ou bem que vai até ao fim e lê todos as palavras ou fica convencido que foi escrito agora.
Um pouco pior é o facto de ter sido copiado, palavra por palavra, sem acrescentar nem retirar uma vírgula. Já as ilustrações diferem, uma com uma galeria de imagens e um vídeo, a outra só com uma fotografia.

Ficam-me várias perguntas, fruto do meu mau feitio e cepticismo:
Qual ou quais as pertinências de publicar hoje um artigo com um ano?
Será que nada há a acrescentar ao que então foi escrito, actualizando-o?
Será que a referida senhora está com problemas com o seu império de cristais e jóias e necessitou de uma publicidade encapotada de notícia?
E se assim for, qual a transparência destes “jornais” no que toca a diferenciar notícias de publicidade?



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Génios



Ao caminhar na rua encontrou aquele insólito objecto caído no chão. Baixou-se, pegou-o e sacudiu-lhe o pó.
De imediato de lá saiu um estranho ser que lhe disse:
“Meu amo e senhor: Obrigado por me libertares. Tendes direito a um desejo!”
“Mas…. Quem és tu?”
“Sou um aprendiz de génio da lâmpada e tens direito à satisfação de um desejo.”
“Um desejo?! Mas o génio dá sempre três desejos!”
“Pois é, mas eu sou apenas um estagiário, pelo que só posso conceder um. E pede-me uma coisa simples, que ainda estou a aprender isto da magia.”
“Se é só um, tenho que pensar bem! 
Podia ser um carro… Um monte de dinheiro… Juventude… 
Não! Vou ser magnânimo! 
Se é apenas um, será algo para bem da humanidade! 
Desejo que termines com a guerra no médio Oriente! Esse é o meu desejo!”
“Eh lá! Olha que isso é muito difícil! Pede antes uma coisa mais fácil, por favor, que ainda estou a aprender…”
“Bem, então sendo assim… Desejo que termines com a crise em Portugal!”
“Ora bem, vejamos! Onde é que era mesmo essa guerra?”

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domingo, 9 de dezembro de 2018

Fraude é fraude!




Sobre a polémica dos registos de presenças fraudulentos na Assembleia da República, leio num jornal:
“…
O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, já tinha apontado a necessidade de uma maior exigência na "responsabilidade e responsabilização individual (de cada deputado) e coletivas (de cada grupo parlamentar), sancionando as irregularidades".
Fernando Negrão limitou-se a dizer que fará um "trabalho de sensibilização" e que há uma "relação sagrada entre deputado e eleitor", onde o grupo parlamentar não mete a colher. Essa sensibilização passa por "chamar a atenção dos deputados", mas o grupo parlamentar "não é uma empresa, não pode ir além disto".
...”
Pergunto ao lider da bancada do PSD onde enquadra a “relação sagrada entre deputado e eleitor” na disciplina ou liberdade de voto que os partidos aplicam.
Tal como pergunto se os parlamentares não estão ao serviço de Portugal, tal como os funcionários públicos. E se estes podem ser objecto de procedimentos disciplinares, que incluem o despedimento, o que impede que os deputados tenham o mesmo tratamento em situações análogas?
Fraude é fraude!


Imagem: edit by me