Pentax K7, Super Multi- Coated Takumar 35 1:3,5
By me
Recentemente veio parar-me às mãos este aparelho.
Já tens uns anitos (1968) mas, segundo o actual dono,
pertencia ao sogro e este cuidava do equipamento como ninguém.
Isto não me espanta se olhar para os estado de conservação,
que bastava ter a caixa de origem para ser fácil imaginar que tinha saído da loja
o ano passado.
Não tinha com ele o manual de utilização. Mas também não me
atrapalhou, que há páginas na net que estão bem apetrechadas de manuais e
demais informação relevante. Mas fazia-me falta, já que tinha alguma dificuldade
em perceber no todo o seu funcionamento. Está funcional em pleno, mas pode ser
confuso.
Mas o melhor de tudo está num pequeno parágrafo que quase
passa despercebido:
“It should
be mentioned at this stage that the Polysix-electronic cannot think for you. In
the same way that a computer is helpless without the skilled interpretation of
a programmer, so the Polysix-electronic will provide more precise exposure
information the more skillfully you use it.”
Eu acrescentaria aqui dois elementos: a objectiva e a
câmara. Não adianta ter a mais rápida e mais versátil objectiva nem a câmara mais
sensível e com mais menús, se não soubermos tirar partido do que temos nas
mãos.
Pentax K1
mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
By me
"Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho
quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o seu
fascínio de joia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe
suprimirmos os efeitos da sombra."
in "O elogio da sombra", by Junichiro Tanizaki
Pentax K1
mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
O conceito de liberdade é tão relativo que fiquei sem
palavras quando, em ’82 e em Málaga, perguntei a um jovem licenciado em
medicina se o seu país, Argentina, era um país livre e ele me disse:
“Sim, claro. Podemos sair à rua à noite e tudo.”
Nunca mais encarei a liberdade da mesma forma.
Pentax K7, smc Pentax-M 50 1:1,7
By me
Se fosse de dia, se fosse uma lamparina e se não tivesse
óculos, poderia dizer-se que estaria a fazer uma imitação de Diógenes, que
assim procurava um homem honesto.
Não sendo nada disso, até porque é uma busca que já desisti
de fazer, é apenas uma fotografia de noite, o estado luminoso em que se
encontrava a rua na altura em que consegui terminar a reparação de uma coitada
câmara que me foi pedido para fazer.
E se filosofia é, etimologicamente, a procura ou o amor ao
conhecimento, então talvez eu seja um praticante, mas só talvez, que dá mesmo
muito trabalho.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Não, isto não é uma imagem da frente e verso de um mesmo
aparelho de medição de luz.
São dois fotómetros quase identicos: o mesmo fabricante, o
mesmo sistema interior, o mesmo aspecto exterior, o mesmo nome. A única diferença
está na parte de trás do aparelho.
Nela consta o que aqui se vê e a que o fabricante, Gossen,
deu o nome de color finder.
Nos anos ’60, bem antes do digital, haveria que ter bem em
conta qual a temperatura de cor existente no local. E se os profissionais, com
mais poder de compra, tinham o caríssimos termocolorímetros, os amadores tinham
este sistema engenhoso que, não sendo rigoroso, dava uma ideia aproximada.
Em olhando para as duas barras coloridas, uma continua, a
outra dividida em pequenos quadrados, e colocando tudo isto sob a luz do
assunto, um dos quadrados seria mais parecido visualmente com a outra barra. E
a escala lida nos diria, mais ou menos, a temperatura de cor existente. Simples,
pouco rigoroso mas bastante facilitador do trabalho.
Os sitemas electrónicos e os automatismos ou ajustes manuais
de hoje não dão a mais pálida ideia do que era fotografar em côr há 60 anos.
Suponho que os aparelhos que possuiam o Color Finder seriam
um pouco mais caros que os seus iguais sem tal acréscimo. E que menos se
venderiam então. Por isso o não ser muito fácil de os encontrar à venda no mercado
de usados, pelo menos por cá. E fazia
tempo que procurava um exemplar. Veio este agora.
O que acaba por ser interessante é que boa parte de quem
vende fotómetros e que não é comerciante, é um aficionado pela fotografia ou um
profissional. Indo mais longe, tenho três aparelhos que me foram vendidos por
directores de fotografia que, por este ou aquele motivo decidiram “despachar”
as velharias das gavetas. E, na sua maioria, ficaram mais que satisfeitos por
fazer negócio com alguém que estima este tipo de equipamento, conhece o ofício
e com quem pôde estar uns bons minutos de conversa sobre a actividade.
O prazer de uma coleção não está apenas na posse do que a
constitui. Esse será um aspecto com menos de metade do peso. A satisfação está
na caça e no encontrar das peças que se procuram e na aprendizagem que se pode
obter conversando e ouvindo quem as vende. Essa é a verdadeira riqueza e não há
dinheiro que a pague.
Pentax K1
mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
By me
Acredito que muitos dos que usam a câmara fotográfica não
entendam este prazer:
Estarem confrontados com uma situação a registar e fazê-lo
com o ângulo de visão que têm disponível. Ajustando as diversas vertentes do
acto fotográfico a essa objectiva. Ou, em alternativa, decidirem que querem
esta ou aquela objectiva porque é a que tem as características que se desejam e
colocá-la na câmara. A satisfação advém, neste caso, da decisão se verificar acertada.
Últimamente tenho andado com uma 85mm 1:1,9, numa câmara
APS-C. É um ângulo de visão que se aproxima do meu natural, sendo quase uma
extensão natural do meu olhar. Hoje, ao sair de casa, acrescentei ao saco, nem
sei porquê, uma 35mm 1:3,5. Bingo!
Sentado na esplanada, retemperando forças da tarde longa que
as minhas pernas já não são o que eram, ia contemplando a avenida, o seu
movomento, as suas luzes.
Eis que fui surpreendido por uma mocinha (esta) que se sentou
a uma mesa de distância mas que me surpreendeu: sentou-se de costas para a
avenida e de frente para mim. Poderia ser lisonjeiro para com a minha pessoa,
mas não era o caso.
E ficámos ali, eu de volta do meu bolo de chocalate, ela de
volta do seu croissant, tentado cada um lidar com os pombos atrevidos que
vinham pelas migalhas.
Já ela se afastava e acabámos por estar à conversa, agora
partilhando mesa, sobre arte, críticos de arte, filósofos da imagem contemporânos
e trocando sugestões literárias sobre os temas. Entenda-se que ela é estudante
de artes nas vertentes teóricas, pelo que estes assuntos não lhe serão
estranhos.
Mas não se foi embora sem me satisfazer a minha curiosidade:
porque se havia sentado de costas para avenida, ao contrário de todos os demais
que ali estavam. Queria ela isolar-se para poder pensar muito a sério. Não lhe
perguntei sobre o quê.
Antes de levantar, o meu pedido sacramental: “Posso
fazer-lhe uma fotografia?”, que anuiu.
Abençoei o momento, uns minutos antes, em que havia trocado
a 85 pela 35. O trocar de objectiva é sempre um quebrar o momento do acordo tácito
ou explícito com um desconhecido. Foi o que me saiu!
E para aqueles que defendem que a 35mm não serve para
retrato, eis uma demonstração do seu contrário, pese embora a perspectiva
próxima.
E eis também a demonstração que uma objectiva com mais de
meio século completamente manual faz corar de vergonha algumas das modernas,
com todos os seus automatismos e etc.
Pentax K7,
Super Multi Coated Takumar 35 1:3,5
By me
Do ponto A ao ponto B na minha cidade natal, usando uma
objectiva de 1967.
Praça de toiros do Campo Pequeno, ao cair da noite.
Pentax K7, Pentax Super Takumar 85 1:1,9
By me
Quando, no decurso de uma viagem, encontramos indicação de
desvio que nos força a tal, interpretamo-la como um incidente de percurso e
continuamos, presumindo que se trata de algo inevitável mas temporário.
Mas se, na continuação dessa mesma viagem, constatamos que
as placas de desvio se sucedem, erráticas e sem nexo aparente, começamos a
colocar questões.
Será que embarquei na viagem certa?
Será que estou no veículo certo?
Será que chegarei a bom porto?
Será que chegarei a algum porto?
Será melhor sair nalguma escala?
Será que haverá alguma escala?
Adianta continuar numa viagem repleta de desvios e sem que
saibamos que rumo temos ou mesmo se haverá rumo?
Por vezes, em viagens atribuladas e quase sem sentido, faz
sentido arrear as velas, largar ancora, tomar a altura do sol, consultar o
quadrante e pensar seriamente na jornada feita e naquilo que, eventualmente,
teremos ainda p’la frente.
Nikon Coolpix P7000
By me
Rígida, não caminha nem nunca caminhou. Mais ainda, apesar
de amachucada, nunca foi calçada. E isto porque o seu interior, no lugar de
vazio e pronto a receber um pé, é maciço, feito de loiça.
Como aliás toda ela.
Explicado num português com forte sotaque francófono, o seu
vendedor da mesma cor da bota sempre me explicou que serviria, se o
quiséssemos, como cinzeiro. E, como que para mo demonstrar, lá me mostrou a
ranhura no calcanhar para segurar um cigarro a arder.
E, ao fim de tanto tempo com um olhar desperto para sapatos
(botas, chinelos, pantufas e afins) abandonados na rua, não pude deixar de
reparar que esta bota estava sozinha na banca de uma “feira” de ocasião, numa
estação de caminho de ferro.
Não resisti e, não a podendo fotografar ali mesmo,
comprei-a. Esta poderia não ter o par, mas não ficaria ali abandonada, no meio
de tanta outra quinquilharia e artesanato senegalês.
Para minha tristeza e talvez porque sou ingénuo, mal me
tinha afastado e outra ocupava o mesmo lugar.
Mas não pude deixar de dar uma gargalhada, ao constatar que
também esta era do pé direito. Suponho que, por baixo da bancada, haveria um
caixote cheio de botas de loiça, todas do pé direito.
E as do pé esquerdo? Onde estarão?
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Estava de férias em Lagos.
A família regularmente alugava a mesma casinha nos limites
rurais da cidade e íamo-nos espraiar de manhã e à tarde para a meia praia.
Uma ocasião vi um glorioso carro dos anos 50 estacionado na
avenida marginal. Impecável, parecia acabadinho de sair da fábrica. A seu lado,
uma pequena palmeira no passeio. Mais ao fundo, a muralha de pedra do porto e o
céu azul.
Este conjunto sugeriu-me uma imagem a fazer, desde que com a
luz no ângulo certo. Feitas as contas e olhada a bússola, seria pelo meio-dia.
Uns dias depois, tendo o céu a limpidez adequada, parti
descendo a colina, carregado com a câmara, as ópticas, os filtros, o tripé…
toda a parafernália. Havia que chegar ao local a tempo de apanhar o sol na
posição certa.
A meio caminho sou interpelado por um casal de velhotes que
caminhava em sentido inverso:
“- Olá, como está?
- Desculpem mas… conheço-vos?
- Não se lembra de nós?
- Confesso que não. Querem ajudar-me?
- Em Coimbra, junto à Sé velha, há uns anos… Aquela
fotografia que nos tirou…”
Recordei-me então e ficámos um niquinho à conversa.
Reformados que estavam, aproveitavam quando estava bom tempo
para passear e conhecer o país como não tinham podido quando jovens.
E, à medida que iam viajando, iam fotografando o que viam,
enquadrando-se ora um ora outro na imagem. Tinham uma única fotografia de ambos
desses passeios: Aquela em que eu me tinha oferecido para fazer com a câmara
deles, em Coimbra, aquando de uma das minhas peregrinações ao Encontros de
Fotografia.
Apenas uma, de milhares que tinham. Apenas uma que os
mostrava aos dois. Partilhando os Outonos amenos da vida e de Coimbra.
A minha oferta, tão natural quanto um copo de água, marcou-os
indelevelmente. Aquela fotografia não é uma fotografia para eles:
É “A” fotografia.
Confesso que na altura já nem me recordava do facto. E, não
fora eles, nem nunca mais o recordaria, de entre muitas situações semelhantes
vividas.
E esta fotografia, que nunca vi, é uma daquelas que consta
do meu álbum de recordações. Não como um ponto de viragem, mas mais como um
parágrafo no livro que vamos escrevendo e a que chamamos vida.
Quanto à foto do carro? Bem, a hora de verão está atrasada
em relação à solar, pelo que cheguei demasiadamente tarde nesse dia. Voltei lá
mais tarde, mas não consegui dar-lhe aquele ar retro-californiano que queria.
Não adianta imitar. Há que ser espontâneo e generoso na
fotografia, tal como na vida.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Estava numa feira de velharias e artesanato. O sol ainda não
tinha aquecido a sério e prometia vir a estar bravo. Por isso, eu estava mais
ou menos com pressa, a tentar fechar
negócio sobre um fotómetro Sverdlovsk 4 que ali estava à venda.
Mas não deixava de estar alerta com os demais visitantes.
Nunca se sabe o que aparece. E apareceu!
Entre as pessoas que se aproximavam, duas mocinhas. Uma
delas com duas câmaras penduradas no ombro esquerdo. Estranhei e esperei que se
aproximassem para melhor perceber. Uma era esta e saí-lhe ao caminho.
Turistas, não sei de onde, acabámos por estar à conversa
sobre a bela da Pentax. Herança do avô, tudo funcional excepto o fotómetro,
mesmo com pilha. Mostrou-ma e não era de todo a correcta.
Lá estive a explicar-lhe que pilha deveria usar e onde
comprar, mesmo que sem garantias de o fotómetro estar funcional.
Mas disse-me que usava a regra do f/16 e que, quando tinha
dúvidas, usava a digital para medir a luz. Esperta, a mocinha.
Elas lá foram no seu passeio turístico, mesmo que
escaldante. E eu fiquei com o registo de uma Pentax em uso na cidade de Lisboa,
coisa cada vez mais rara.
Pentax K1 mkII, smc Pentax-FA 28-200
By me
Eu tinha 17 anos.
Pôs-se a possibilidade de ir em viagem de finalistas a
Londres. A família não era abastada, longe disso, e não havia dinheiro para
tais aventuras, mas com boas-vontades daqui e dali a coisa compôs-se. Incluindo
a ajuda da família da minha namorada, que queria que eu fosse com ela.
O que não havia era como fazer o “para mais tarde recordar”.
Eu tinha uma câmara desde os doze anos, mas fazer fotografia era caro e estava
parada havia muito tempo. E era muito fracota. É muito fracota, que ainda a
possuo.
Um parente decidiu chegar-se à frente e emprestar-me a sua.
Recordo que era uma SLR mas não a marca. E possuía uma 50mm, mais que
suficiente para os registos, digam hoje o que disserem sobre zooms e edições
posteriores.
No dia em que me foi entregue (recordo o local exacto, a
luz, a sombra da frondosa árvore, a mesa e os bancos de pedra) foi-me dada uma
recomendação, entre outras, que não esqueci até hoje:
“Toma cuidado que ela só faz fotografias a cores!”
Quem ma emprestou já morreu, que o episódio é velho. As
fotografias que fiz foram a cores e estão algures no arquivo, numa caixa que
não sei qual. Já não olho para elas há anos e tenho a vaga memória de estarem
rosadas, naquele tom de fotografias coloridas e mal processadas, em que a luz e
a humidade são carrascos impiedosos.
E nunca virei a saber se esse meu primo, bem mais velho que
eu, estaria a falar a sério se na brincadeira. Segui as suas indicações mas, na
minha enorme ignorância sobre fotografia, aquela recomendação nunca me
convenceu por aí além.
Anos mais tarde, já a fotografia fazia parte integrante da
minha vida, disse-me uma senhora numa loja de fotógrafo em Castelo Branco que
os rolos em Preto e Branco já não se fabricavam. E que não tinham. E eu, que
tinha esgotado os que havia trazido de casa naquelas férias vadiando pelo país,
acabei por ir comprar num dos outros poucos fotógrafos que a cidade tinha,
ainda que tivesse penado para o encontrar.
Talvez que tivessem andado juntos na escola, aquela senhora
e aquele meu primo, ainda que a geografia não o indicasse.
Vadiei pelo Preto e Branco durante anos. Porque o
laboratório era meu, porque bem mais barato, porque o Ansel Adams era (e é) um
mestre a tentar imitar.
Mas percebi, a dado passo, que o suporte e a técnica têm que
ser usados em função daquilo que queremos transmitir e não podem ser
limitadores do que queremos fazer.
Tenho para mim que a vida é a cores, que reagimos a elas
como os cães aos cheiros, e é isso e dessa forma que quero mostrar.
O monocromatismo é apenas uma dessas formas.
Pentax K7,
Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5
By me
Quem achar que as temperaturas estão muito elevadas e quiser
algo mais fresquinho, sugiro um passeio até à Guarda.
De acordo com fontes oficiais enquanto que em Lisboa e pelas
oito da manhã se já registavam vinte e oito graus e uns trocos, à mesma hora na
Guarda os termómetros marcavam 14,6º.
É só uma dica.
Nicon Coolpix P7000
By me
Quando pego numa câmara ou
objectiva gosto de sentir uma de duas coisas: ou que é absolutamente nova (ou
quase) ou que tem história.
Algumas das que possuo vieram
para a minha mão novas. Ou quase novas. Retiradas da caixa por mim, ainda com o
“cheiro da fábrica”, ou da mãos de alguém adquiriu mas pouco uso lhe deu, tendo-a guardado com
cuidado ou carinho.
Muitas outras entraram em minha
casa depois de terem tido vários donos, uns mais cuidadosos que outros, algumas
com muito uso, amador ou profissional. Na medida em que consigo, tento saber essas
histórias, coisa que só é possível se for uma venda particular. Em lojas ou
feiras de rua, não sabem ou não querem contar qual o passado da câmara ou
objectiva.
Se aparentar ter um passado
vivido, tento conservar a aparência que possui. E tento tanto mais quanto mais
antiga é a peça. Tenho apenas o cuidado de a manter em condições de
funcionamento e evitar que se suje com pó ou semelhante. A chamada “patine” faz
parte do passado e da história.
Este é um detalhe de uma Pentax
S1A, fabricada entre 1962 e 1968. Absolutamente mecânica, haveria que usar um
fotómetro de mão ou um adicional à câmara para calcular a exposição. E esperar
não ter errado no calculo.
Da sua história pouco sei. Foi
comprada no meu mecânico de fotografia, e depois de muita insistência. O único
detalhe que consegui obter é o ter estado ali há muitos anos, na sequência da
desistência de um cliente.
Quando pego nela para lhe tirar
o pó ou para lhe apreciar algum detalhe, tento imaginar o seu passado.
Provavelmente nas mãos de um amador entusiasta, guardada no estojo de coiro de
origem, que entretanto se estragou, e usada para férias ou festas especiais.
Hoje tem marcas do tempo. Marcas
que não tentarei disfarçar e que tentarei não aumentar. Porque se não consigo
ver o que esteve à frente dela, essas marcas de algum modo contam sobre que
esteve atrás dela.
Quem quer que tenha sido,
obrigado por a ter conservado.
Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
Uma destas noites dou-me mal! A sério que me dou.
Preparava-me eu para ir conversar com Morfeu, já não tão
cedo quanto isso considerando a hora a que acabaria essa conversa, e batem-me à
porta. Sendo que ainda estava em trajes decentes, fui saber quem seria.
Tratava-se uma senhora minha vizinha, aliás, recém vizinha,
que me perguntou se teria uma chave com que pudesse abrir a porta dela.
Imagine-se o meu olhar de espanto. Ter eu uma chave que
abrisse a porta dela. Talvez que, noutras circunstâncias e com mais
aprofundados conhecimentos, isso fosse possível e até agradável. Mas sendo que
a conhecia apenas de vista e que nunca trocáramos mais que uns circunstanciais
cumprimentos, seria difícil de acontecer.
Lá lhe expliquei que não, que não tinha, ao que me contou
que tinha deixado a chave em casa e a porta se fechara.
“E está no trinco?” Estava! “Então espere um pouco que lhe
vou mostrar um truque.”
Voltei a casa e regressei com uma garrafa de litro e meio de
coca-cola, vazia. Já no patamar e usando do meu canivete, retalhei-a da forma
que se vê, ficando com uma tira de pouco mais de 25cm de plástico. Com ela, e
através da frincha, lá lhe abri a porta. Levei um pouco mais tempo do que
esperava: no lugar de dez, precisei de quase trinta segundo, que não encontrava
a malfadada lingueta a empurrar.
O seu olhar, inicialmente molhado, secou rapidamente e de
espanto passou a agradecimento.
E, antes que recuperasse o fôlego, expliquei-lhe a rir, que
aquele não era o meu ofício, que não andava a assaltar casas.
“Eu também não!” exclamou também já rir, exibindo um arame
retorcido com que tinha tentado fazer como nos filmes, no buraco da fechadura.
Rimos mais um pouco, trocámos nomes e um aperto de mão e
regressámos a casa, cada um à sua entenda-se. E se ela foi fazer o quer que
tenha sido que costuma fazer em sua casa, eu fui directo para a cama, que o
toque de alvorada é particularmente cedo por estes dias.
Mas já deitado, e enquanto esperava pela chegada da
inconsciência do sono, fiquei a pensar no episódio.
É que, aqui neste prédio e que me recorde, é terceira vez
que assim ajudo um vizinho. E se a coisa se sabe pode ser perigoso. Ou bem que
sou contactado pela polícia, depois de uma casa assaltada com este método, ou
sou acordado a altas horas da madrugada por alguém do prédio em apuros.
Ou, pior ainda, ser processado pela Coca-Cola por estar a
usar as suas garrafas para arrombar portas.
Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5
By me
Supostamente, o jornalista verá as cores do globo em preto e
branco.
Sem se deixar influenciar nem pelo colorido partidário, nem
pelos tons vivos das explosões ou os pálidos cadavéricos.
Em preto e branco para que todas as cores sejam tratadas
pelo que são, sem simpatias ou empatias pessoais.
Supostamente…
Nikon Coolpix P7000
By me
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
O que tem esta imagem de
particular? Nada, de facto, a não ser que uma foi feita com os últimos raios de
sol de um dia e a outra com os primeiros raios de sol do dia seguinte.
Entre uma e outra, a noite mais
curta do ano.
Detalhes pouco importantes a
menos que se pense, como eu, que os solstícios e os equinócios são datas
importantes. Tão importantes que os antigos, os muito, muito antigos, aqueles
que nem sabiam escrever, os celebravam. A tal ponto que se deram ao trabalho de
juntar esforços enormes para arrastar e erguer enormes penedos para com eles
assinalar as datas.
Do meu ponto de vista, os
solstícios e os equinócios deveriam ser feriados mundiais. Já que, aconteça o
que acontecer, faça o bicho homem o que fizer, continuarão a acontecer muito
para além da existência da espécie humana. E acontece desde antes da espécie
humana não passar de uma amiba.
A importância que nos atribuímos
reduz-se a coisa nenhuma perante o universo e a sua enormidade.
Bom solstício para todos vós.
Pentax K100D
Em 10 de Novembro de 2015, pela tardinha, em frente a este
edifício e na sequência de notícias do que ali havia sido votado, a multidão
que ali se encontrava repetiu quase até à exaustão um grito espontâneo ali
surgido, que ainda hoje recordo com um arrepio nas costas:
“Já caiu, já caiu, vai p’ra puta que pariu!”
Hoje não estava lá. Nem sei se lá se juntaram uns milhares
como então.
Mas apeteceu-me gritar algo de semelhante aqui da minha
janela, pese embora as causas e consequências sejam outras.
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
Tenho vindo a afirmar, ao longo dos tempos, que fazer ou ter
uma fotografia é o resultado de um sentimento de cobiça ou desejo de pose. Por
aquilo que nela está iconificado: o pôr-do-sol, a pessoa, o objecto.
Apenas para dar um exemplo que consubstancia esta afirmação,
quantos serão os que fotografam e exibem objectos que possuem? Com que lidam
todos os dias? A excepção será, talvez, quando a fotografia e a sua exibição
sirva para demonstrar que se possui o retratado – pessoa ou objecto.
E quanto mais precioso é o iconografado mais
sacramentalmente se guarda a imagem: álbuns especiais para aquelas férias ou
casamento, molduras caras para este ou aquele retrato de um parente ou amado e,
cereja no topo do bolo, a carteira onde constam as fotografias de parentes, em
regra muito queridos, vivos ou não. E, quando se fala nos filhos, netos,
namorado/a ou pais, aí está a carteira (mais modernamente o telemóvel) onde se
encontram as fotografias mais recentes ou significativas.
Mas a fotografia também é uma manifestação de afectos
negativos! Fotografa-se o acidente, o insólito, o feio, o incómodo!
E, aqui, há dois tipos de motivos: Ou o exaltar o fotógrafo,
mostrando assim, com a fotografia, que ele esteve no local, que testemunhou
aquela situação ou, menos frequente mas real, como forma de exorcismo do mal
retratado, tentando assim que o iconificado não passe disso e não seja parte
integrante da vida do fotógrafo ou exibidor.
Um pouco como sucede com as anedotas, de que tanto nos
rimos, e que, se bem as analisarmos, nunca falam de coisas agradáveis ou boas
que tenham sucedido aos intervenientes. Pelo contrário, rimo-nos com o mal dos
outros como que, com o riso, possamos afastar a possibilidade de o mesmo nos
acontecer.
Mas há ainda uma terceira atitude negativa que é tida
perante a fotografia. Neste caso, não perante o acto de a fazer mas antes para
com ela enquanto objecto ou ícone: a negação ou destruição!
O rasgar, queimar, destruir de uma fotografia é uma forma de
remover o que nela consta ou conta das vidas de quem assim age. Uma forma de
negar o passado ou tentar, com isso, impedir que este se repita ou continue.
Exemplo mais ou menos corriqueiro é o que sucede aquando de
uma zanga entre namorados ou quebra de votos de afectos. As fotografias do
“outro” são destruídas, na tristeza do privado ou na raiva do público.
Acontece mesmo ser o retratado a exigir a devolução de
fotografias que o “outro” possui de si, impedindo que o mesmo “outro” possua o
que quer que seja de quem protesta ou reclama. Nem mesmo a sua imagem!
O gesto supremo, então, é a adulteração da fotografia,
rasgando-a e destruindo apenas a metade em que se vê o “outro”, como que um
afirmar que se continua por cá, vivendo, mas que o “outro” já não faz parte dessa
vida.
Refira-se, também, nesta relação de afectos negativos para
com a fotografia, a adulteração bem mais sofisticada da imagem que foi o caso
(quem sabe se ainda é?) do apagar em fotografias presenças de gente caídas em
desgraça perante o regime. Como sucedeu, por diversas vezes, na União
Soviética, para citar apenas casos públicos e notórios.
É assim que se constata que a relação com a fotografia (ou
com a imagem no seu todo) é uma relação de afectos, de desejos de pose ou de
repúdio, como os agora descritos.
E você? Já destruiu alguma fotografia?
Fotografia original feita com o meu artefacto “À-Lá-Minuta”
By me
Ainda se fosse uma catraia, mesmo uma jovem adulta... Agora
já quarentona, fazendo da imagem o seu ofício, isso já me deixa boquiaberto.
Passei-lhe a câmara para a mão para que visse uns detalhes.
E ficou a olhar para ela, e para mim uns segundos,
perguntando de seguida "Está avariada? O ecrã não funciona!"
Lá lhe mostrei o visor óptico, dizendo-lhe que sim, que
funciona, mas que uso o sistema reflex, característica nativa dela.
De seguida, ao testar o que era suposto testar, admirou-se
de não conseguir focar. "Talvez porque aqui há pouca luz, adiantou."
E lá lhe expliquei, novamente, que também o autofocus
funciona, mas que uso foco manual. E que aquela objectiva não está concebida
para automatismos.
Fez-me lembrar aquelas crianças que não sabiam o que fazer
perante um telefone de disco e não de teclas.
Ainda se fosse uma criança...
Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5
By me
Uma janela, três bandeiras unidas na lusofonia e demasiado
vento em demasia para a segurança do sistema usado.
Outra versão se encontrará.
Lumix DCM-TZ60
By me
O que é que o El Corte Inglés
tem de melhor? A porta de saída!
Procurava um artigo em
particular que a internet me havia informado de ali estar à venda. E era o local
que mais me convinha em termos de acessibilidade.
Sendo que não conheço os cantos
à casa, quando entrei perguntei pelo local específico que procurava a um
segurança que ali estava.
Olhou para mim de alto a baixo
duas vezes antes de responder. Não foi nem rude nem simpático na resposta.
Apenas altivo e formal. Não gostei. Nem um nico.
Dei um passo atrás, olhei-o de
alto a baixo duas vezes, agradeci e virei costas, seguindo para o meu destino. Mas
maldizendo a hora em que decidira poupar esforço indo ali.
Mas já que estava no
supermercado, aproveitei para dar uma olhada em busca de um ou outro artigo
mesnos comum noutras grandes superfícies. Não tinham. Mas tinham um segurança
que me seguiu por todos os corredores uns passos atrás. Até eu passar as
cancelas de mãos e resto vazios.
Pensei em dois ou três
impropérios apropriados à situação e segui para onde me haviam indicado,
realizando a compra que queria.
O que eu não queria era ter um
outro segurança, que de discreto na sua função nada tinha, que me seguiu até eu
entrar na loja, esperou por mim cá fora, e continuou a me seguir até eu sair do
edifício.
Já não estava habituado a este
tipo de tratamento neste local. Que, infelizmente, é o que recebo de cada vez
que vou ao El Corte Inglés. Desdém de boa parte dos funcionários, suspeitas e
vigilância nada discreta por parte da segurança.
É certo que não me visto nos
seus departamentos ou na Avenida da Liberdade. Nem sou aparado por barbeiros de
elite ou manicures de sorrisos artificias.
Mas também é certo que esta
tarde apenas serviu para dar força a uma promessa pessoal já antiga: no El Corte
Inglés só se for para uma refeição tipo fast-food num local específico ou para
uma ida ao cinama. E mesmo assim só se não houver alternativa. Que isso de
elites arrogantes não são a minha praia.
E prefiro dar dois dedos de
conversa com uns sorrios de permeio com os cantoneiros de limpeza do meu bairro
que frequentar esta gentalha asquerosa que desedenha os diferentes.
Gosto muito da placa de saída
que ali existe.
Pentax K7, smc Pentax-FA 28-200
1:3,8-5,6
By me
Uma das questões que mais atrapalha e comanda os
comportamentos é o estar-se ou não integrado numa dada sociedade ou grupo.
E, com isso, controlar os seus comportamentos pelos
comportamentos medianos, por aquilo que a “sociedade” define como correcto e
não criticável.
Nada de mais errado, absurdo, contraproducente e castrante!
Esta atitude não permite o desenvolvimento e a felicidade do
indivíduo, com todas as suas características e potencialidades!
Apenas o transforma em mais um número, ajustando-se à
mediania, com receio de ser diferente, notado, apontado a dedo, marginalizado
em última análise.
E o erro, a meu ver e ainda ninguém argumentou e me
convenceu em contrário, está na definição de “pertencer à sociedade”!
O que de facto acontece, e que poucos são os que o
reconhecem ou afirmam e menos ainda os que agem em conformidade, é que no lugar
de se pertencer, é-se a sociedade.
A sociedade é o conjunto de todos, com todas as vantagens do
grupo e de cada um dos indivíduos. Não se integra a sociedade mas antes
molda-se a sociedade à medida de cada um. E a soma de todos os “uns” forma o
conjunto!
A contribuição que cada um faz nela, o empurrão que cada um
dá no seu trajecto é que define o seu rumo, as suas regras, as suas leis e os
comportamentos do todo.
Estas não são definidas por uma qualquer entidade obscura,
mítica e autocrática, mas antes pela vivência e vontade de cada um dos seus
componentes.
Andar nu, de fraque ou com nariz vermelho e grande é
igualmente legítimo!
Ter este ou aquele comportamento apenas porque o grupo o
define e não porque o queremos, é integrar um grande rebanho onde os pastores,
filósofos, gestores ou políticos nos conduzem pela certa através de um pasto
verdejante até ao matadouro ou altar onde nos sacrificam aos seus interesses
privados ou entidades divinas.
Pela parte que me toca, tenho comportamentos que estão de
acordo ou em desacordo com os que me cercam, não porque eles o querem ou o
censuram mas antes porque eu o quero e eu sou a sociedade.
Sem todos os eus, a sociedade não existia!
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
Tenho recordado recentemente as opções violentas alemãs da
época nazi.
O envio para campos de concentração ou de extermínio
daqueles que não estavam na “normalidade”: judeus, ciganos, deficientes, pretos,
homossexuais, comunistas...
Todos aqueles que, de algum modo, eram diferentes do ideal
nacionalista alemão imposto. Milhões!
E, de algum modo, todas estas vítimas serviram também para
alimentar o medo dos “inimigos internos” e que o poder autoritário da ditadura
se propunha a afastar da população “pura”.
Porque é que me tenho recordado desta barbárie e de como
começou?
Porque por cá o poder político instituído e os que lhes vão
dando apoio estão nesse inicio de caminho. São as leis contra os migrantes, é a
perseguição a ciganos, são os subsídios a deficientes, são os símbolos gay...
A coligação governamental, com os seus parceiros à direita,
estão a colocar como legal a discriminação aos diferentes. São normas, leis,
regulamentos, ditas “suaves”, mas que penalizam a diferença e criam no cidadão
comum a ideia de que aquilo que lhes custa na vida tem por origem essas
pessoas. Mas que cá estará o governo para os proteger.
São passinhos pequenos, de bebé, que quase não se dão por
eles no todo dessa discriminação social, na marginalização dos diferentes.
Mas nos anos 30 do século passado, na Alemanha, a coisa
começou também assim, discreta. Até chegar onde chegou!
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
Nesta loja não se engana ninguém!
Quando dizem “Liquidação Total” é mesmo isso que querem
dizer, já que nem sobra para cobrir, pudicamente, os manequins da montra.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me