quinta-feira, 18 de junho de 2026

A câmara




Ainda se fosse uma catraia, mesmo uma jovem adulta... Agora já quarentona, fazendo da imagem o seu ofício, isso já me deixa boquiaberto.

Passei-lhe a câmara para a mão para que visse uns detalhes.

E ficou a olhar para ela, e para mim uns segundos, perguntando de seguida "Está avariada? O ecrã não funciona!"

Lá lhe mostrei o visor óptico, dizendo-lhe que sim, que funciona, mas que uso o sistema reflex, característica nativa dela.

De seguida, ao testar o que era suposto testar, admirou-se de não conseguir focar. "Talvez porque aqui há pouca luz, adiantou."

E lá lhe expliquei, novamente, que também o autofocus funciona, mas que uso foco manual. E que aquela objectiva não está concebida para automatismos.

Fez-me lembrar aquelas crianças que não sabiam o que fazer perante um telefone de disco e não de teclas.

Ainda se fosse uma criança...

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Lusofonia


 

Uma janela, três bandeiras unidas na lusofonia e demasiado vento em demasia para a segurança do sistema usado.

Outra versão se encontrará.

 

Lumix DCM-TZ60

 

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Promessas

 



O que é que o El Corte Inglés tem de melhor? A porta de saída!

Procurava um artigo em particular que a internet me havia informado de ali estar à venda. E era o local que mais me convinha em termos de acessibilidade.

Sendo que não conheço os cantos à casa, quando entrei perguntei pelo local específico que procurava a um segurança que ali estava.

Olhou para mim de alto a baixo duas vezes antes de responder. Não foi nem rude nem simpático na resposta. Apenas altivo e formal. Não gostei. Nem um nico.

Dei um passo atrás, olhei-o de alto a baixo duas vezes, agradeci e virei costas, seguindo para o meu destino. Mas maldizendo a hora em que decidira poupar esforço indo ali.

Mas já que estava no supermercado, aproveitei para dar uma olhada em busca de um ou outro artigo mesnos comum noutras grandes superfícies. Não tinham. Mas tinham um segurança que me seguiu por todos os corredores uns passos atrás. Até eu passar as cancelas de mãos e resto vazios.

Pensei em dois ou três impropérios apropriados à situação e segui para onde me haviam indicado, realizando a compra que queria.

O que eu não queria era ter um outro segurança, que de discreto na sua função nada tinha, que me seguiu até eu entrar na loja, esperou por mim cá fora, e continuou a me seguir até eu sair do edifício.

Já não estava habituado a este tipo de tratamento neste local. Que, infelizmente, é o que recebo de cada vez que vou ao El Corte Inglés. Desdém de boa parte dos funcionários, suspeitas e vigilância nada discreta por parte da segurança.

É certo que não me visto nos seus departamentos ou na Avenida da Liberdade. Nem sou aparado por barbeiros de elite ou manicures de sorrisos artificias.

Mas também é certo que esta tarde apenas serviu para dar força a uma promessa pessoal já antiga: no El Corte Inglés só se for para uma refeição tipo fast-food num local específico ou para uma ida ao cinama. E mesmo assim só se não houver alternativa. Que isso de elites arrogantes não são a minha praia.

E prefiro dar dois dedos de conversa com uns sorrios de permeio com os cantoneiros de limpeza do meu bairro que frequentar esta gentalha asquerosa que desedenha os diferentes.

Gosto muito da placa de saída que ali existe.

 

Pentax K7, smc Pentax-FA 28-200 1:3,8-5,6


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domingo, 14 de junho de 2026

Todos os eus




Uma das questões que mais atrapalha e comanda os comportamentos é o estar-se ou não integrado numa dada sociedade ou grupo.

E, com isso, controlar os seus comportamentos pelos comportamentos medianos, por aquilo que a “sociedade” define como correcto e não criticável.

Nada de mais errado, absurdo, contraproducente e castrante!

Esta atitude não permite o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo, com todas as suas características e potencialidades!

Apenas o transforma em mais um número, ajustando-se à mediania, com receio de ser diferente, notado, apontado a dedo, marginalizado em última análise.

E o erro, a meu ver e ainda ninguém argumentou e me convenceu em contrário, está na definição de “pertencer à sociedade”!

O que de facto acontece, e que poucos são os que o reconhecem ou afirmam e menos ainda os que agem em conformidade, é que no lugar de se pertencer, é-se a sociedade.

A sociedade é o conjunto de todos, com todas as vantagens do grupo e de cada um dos indivíduos. Não se integra a sociedade mas antes molda-se a sociedade à medida de cada um. E a soma de todos os “uns” forma o conjunto!

A contribuição que cada um faz nela, o empurrão que cada um dá no seu trajecto é que define o seu rumo, as suas regras, as suas leis e os comportamentos do todo.

Estas não são definidas por uma qualquer entidade obscura, mítica e autocrática, mas antes pela vivência e vontade de cada um dos seus componentes.

Andar nu, de fraque ou com nariz vermelho e grande é igualmente legítimo!

Ter este ou aquele comportamento apenas porque o grupo o define e não porque o queremos, é integrar um grande rebanho onde os pastores, filósofos, gestores ou políticos nos conduzem pela certa através de um pasto verdejante até ao matadouro ou altar onde nos sacrificam aos seus interesses privados ou entidades divinas.

Pela parte que me toca, tenho comportamentos que estão de acordo ou em desacordo com os que me cercam, não porque eles o querem ou o censuram mas antes porque eu o quero e eu sou a sociedade.

Sem todos os eus, a sociedade não existia! 

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Conhecer o passado para prevenir o futuro




Tenho recordado recentemente as opções violentas alemãs da época nazi.

O envio para campos de concentração ou de extermínio daqueles que não estavam na “normalidade”: judeus, ciganos, deficientes, pretos, homossexuais, comunistas...

Todos aqueles que, de algum modo, eram diferentes do ideal nacionalista alemão imposto. Milhões!

E, de algum modo, todas estas vítimas serviram também para alimentar o medo dos “inimigos internos” e que o poder autoritário da ditadura se propunha a afastar da população “pura”.

Porque é que me tenho recordado desta barbárie e de como começou?

Porque por cá o poder político instituído e os que lhes vão dando apoio estão nesse inicio de caminho. São as leis contra os migrantes, é a perseguição a ciganos, são os subsídios a deficientes, são os símbolos gay...

A coligação governamental, com os seus parceiros à direita, estão a colocar como legal a discriminação aos diferentes. São normas, leis, regulamentos, ditas “suaves”, mas que penalizam a diferença e criam no cidadão comum a ideia de que aquilo que lhes custa na vida tem por origem essas pessoas. Mas que cá estará o governo para os proteger.

São passinhos pequenos, de bebé, que quase não se dão por eles no todo dessa discriminação social, na marginalização dos diferentes.

Mas nos anos 30 do século passado, na Alemanha, a coisa começou também assim, discreta. Até chegar onde chegou!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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segunda-feira, 8 de junho de 2026

O rigor da informação




Nesta loja não se engana ninguém!

Quando dizem “Liquidação Total” é mesmo isso que querem dizer, já que nem sobra para cobrir, pudicamente, os manequins da montra.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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Em redondo




Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestria ou nem tanto




Há normas, regras, técnicas, que temos por certas. Perfeitas.

Sabemo-lo dos livros, sabemo-lo dos trabalhos que vemos. Sabemo-lo dos trabalhos que fazemos.

E quando nos confrontamos com o seu quebrar ou distorcer, arrepiamo-nos. Porque sai das regras, porque nos incomoda na nossa procura do equilíbrio, do perfeito.

Uma dessas regras, e falando de cinema ou vídeo, é o racord.

Para quem não sabe, racord pode ser definido como continuidade, como coerência na sucessão do que é mostrado.

Pode ser na lógica da história, pode ser na lógica das imagens.

Um exemplo clássico será o vermos alguém com um objecto na mão direita e, na imagem seguinte, tê-lo na mão esquerda. Sem que nada se quebre na sucessão do tempo nem nos ter sido mostrado a mudança. E quem diz um objecto na mão, diz a direcção do caminhar ou olhar, uma peça de roupa, um penteado, a origem da luz…

A falha de racord é algo que os profissionais evitam, como o diabo a cruz.

Claro está que não há regras que não possam ser quebradas ou distorcidas. Sabendo-o e fazendo-o de propósito. Com o propósito explícito de provocar algum tipo de reacção ou emoção em quem o vê. Os mestres, os grandes mestres, usam-no. Para alterar ou condicionar a atitude passiva do espectador. Ou mostrar subtis alterações nas personagens.

Apercebermo-nos disso é um deleite.

O problema põe-se que esta quebra de regras não é segredo. Apenas implica mestria no seu uso, ou o resultado estará apenas um degrau assim de porcaria total.

Os não-mestres tentam imitá-los. As mais das vezes sem sucesso. No cinema, na televisão, nos vídeos on-line, na informação.

Afirmam que é uma técnica superior, que é admissível, que faz parte da nova linguagem do audiovisual.

Infelizmente, estes argumentos apenas servem para encobrir ou disfarçar a sua incapacidade de lidar com o racord e a sua falha. E dizem ser “arte” aquilo que é, na verdade, incompetência.

Ver um raro momento de arte é um prazer.

Ver tanta incompetência disfarçada é um tormento.

 

Pentax LX, Tamron SP 90 1:2,5, Agfachrome CT18


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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dificuldaddes




Ah pois é!

O difícil não é ganhar um campeonato do mundo de futebol. É garantido que alguma equipa o fará, seja lá qual for.

Difícil mesmo é conseguir enfiar uma linha num buraco de agulha tendo apenas um olho activo e zero de visão tridimensional.

Sempre gostava de ver se algum dos jogadores da selecção o consegue fazer.

 

Pentax K7, smc Pentax-M 50 1:1,7


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terça-feira, 2 de junho de 2026

Quando eu morrer




Quando eu morrer não ficarei conhecido, certamente, como um tipo de bom feitio. Ainda que procure ser afável quando tudo corre bem, se me incomodam ou se me sinto atingido, reajo nem sempre da forma mais previsível ou agradável.

Foi no Jardim da Estrela. A tarde corria bem, o dia estava bonito, toda a gente parecia estar de bem com a vida. A única excepção fora uma das idosas, habituées do espaço, a queixar-se de todos os bancos estarem ocupados, para ouvirem aquela “porcaria de música clássica”. Tratava-se, entenda-se, de um concerto de Jazz, ali, ao vivo e de borla, como as minhas fotografias. Mas, pondo este comentário de parte, tudo estava a correr pelo melhor.

A certa altura surgem estas duas mocinhas. Vieram direitas a mim, sabendo do preço que cobro, e quiseram fazer uma foto. Vinham com a boa disposição própria da sua adolescência, de ser final de férias, de estarem de regresso de uma temporada de praia e novos amigos e estarem, de volta a casa, a reencontrarem os velhos amigos. Típico de um domingo, inicio de Setembro, com óptimo tempo.

No final, ao verem-se no papel, reagiram como de costume nestas idades, variando apenas nos apodos com que se mimosearam. No caso, um “Que nojo!”, normal para quem ainda não encontrou o equilíbrio consigo mesmo. Mas, quando lhes disse que se não gostassem da fotografia, não a levavam, riram-se a bom rir e fugiram com ela.

Tudo pelo melhor! Para todos os intervenientes!

Passado um pedaço, uma hora talvez, hei-las de volta. Desta feita com uma amiga, com quem queriam repetir a função. Mas, enquanto trocávamos umas graçolas, uma delas, qual Luky Luke da Estrela, saca do telemóvel, interrompe a conversa comigo e saúda o seu interlocutor. E, sem mais explicações, zarpam as três para longe. Suponho que ao encontro de quem quer que estivesse do outro lado da antena.

Não gostei! Não gostei nem um pouco! Esta mania de que quando o telefone toca tudo pára, tudo se interrompe, incomoda-me de sobremaneira. Quase que me transforma num louco furioso! É que, afinal, a vida é bem mais que os telemóveis, as fotografias, os computadores, as músicas ou o que quer que seja. O mais importante nela é mesmo aquele ou aqueles com quem estamos e desrespeitá-los assim é bem pior que um insulto ou agressão. Pelo menos eu não gosto!

Uns vinte minutos depois, bem medidos, regressam. Acompanhadas as três por dois amigos, vieram interromper a conversa que eu mesmo estava a ter com uma já conhecida daquelas paragens, ainda que oriunda do outro lado do globo. E se eu não tinha gostado que a conversa anterior tivesse sido interrompida por um telemóvel, também não gostei de ser interrompido em directo, aquando de uma conversa ao vivo. Não gostei mesmo nada!

Tal como ela não gostou de ouvir, na sequência do seu “Quero agora fazer a fotografia!” o meu “Não!”, seguido de “”Não gostei que tivesses interrompido a conversa por causa do telemóvel; não gostei que tivesses interrompido a minha conversa com esta senhora só porque chegaste. Não faço a fotografia!”

Estranhou, insistiu e eu insisti: “As fotografias aqui são grátis porque eu quero. E esta fotografia eu não faço! Talvez que assim aprendas qualquer coisa de boa educação!”

Fez beicinho, bateu o pé em tom de birra, deu meia volta que nem um recruta na parada e, agarrando na mão de uma das amigas, afastou-se a trotar. Com o resto do bando a olhar para mim e para ela e a seguir-lhe os passos.

A senhora que comigo falava, do alto do seu metro e meio, sorriu, acenou que sim e traduziu para a amiga a conversa. Suponho que tenha sido factual, que eu de indiano nada sei. Sei, isso sim, que a companheira sorriu também e acenou que sim igualmente. E, após mais umas banalidades sobre o assunto, o tempo e a música que se iria ali escutar, afastaram-se para usufruir, prazenteiramente, o resto daquele domingo saboroso.

Quando morrer certamente que ninguém dirá: “Aqui jaz um tipo de bom feitio.” Mas, caramba, nessa altura também não estarei por cá para ouvir e retorquir. Espero, no entanto, que esta mocinha, agora mal-educada, continue por cá por muito tempo e com melhores atitudes para com os outros. Se assim for, valerá a pena o que de mim disserem!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Uma boa fotografia?




Um dos prazeres da fotografia é o desafio que nos levanta. Confrontados com um dado assunto ou objecto, conseguirmos usar a luz (quantidade e qualidade), materiais sensíveis, perspectiva e suporte final para reproduzirmos o que vimos ou imaginámos. A transposição da tridimensionalidade para a planura do papel ou ecrã.

Um dos temas que tenho por mais difícil de fotografar é vidros, joalharia ou cutelaria. Para além da questão do contexto em que são mostrados, o seu brilho e textura levam a que o rigor na tomada de vista seja levado muito a sério. Nunca tentei fotografar profissionalmente automóveis, mas creio que as dificuldades sejam semelhantes.

Outro tema que tenho por difícil é o bicho-homem. A sua mobilidade constante, a permanente mudança de expressão e de humor, a necessidade de transpor para a imagem a sua alma, karma ou que lhe queiram chamar, tornam este género fotográfico num dos mais difíceis e polémicos.

Acrescente-se que o retrato é a “pérola da dificuldade”, já que, e para além da crítica do fotógrafo e do público em geral, o próprio retratado é do que há de mais exigente. As questões técnicas e estéticas em geral deixam-no indiferente, mas as poses, as expressões, os olhares e sorrisos ou a postura corporal são vitais, e a culpa é sempre do fotógrafo.

 

Um bom exemplo desta prática e dificuldade é o meu projecto "Oldfashion". A perspectiva é escolhida por mim, considerando os elementos do fundo, a luz e a sua rotação de 90º durante o tempo que por ali estou.

Para simplificar o processo, os retratados são colocados em zona de sombra, tal como o fundo. Não apenas reduz os eventuais excessos de contraste difíceis de controlar neste método, como ainda permite que os sistemas automáticos de focagem e exposição funcionem medianamente bem.

O local onde os fotografados se colocam também é por mim escolhido. Por uma questão de composição de elementos – o corpo é vertical, o enquadramento horizontal – como também para que exista algum contraste de tons e luz entre o torso e o fundo. Nem sempre consigo que fiquem onde gostaria, já que demasiado controlo neste aspecto retira alguma espontaneidade aos fotografados. E a câmara, compromisso meu, não sai do local.

Sobre a pose, pouco ou nada intervenho. Para além de ajustar um tudo ou nada o eixo dos corpos em relação à objectiva, se for demasiado chocante o que naturalmente assumem, e de deixar cair uma laracha no momento da obturação, o resto é por conta deles.

De tudo isto resultam fotografias que técnica e esteticamente estão no limite do aceitável. Algumas abaixo, talvez. Mas a reacção dos retratados é particularmente divertida.

Ainda que a fotografia seja fracota, quase todos dizem que gostaram e que ficou boa, manifestando algum espanto que aquela caixa as possa fazer. Mesmo que as suas expressões demonstrem que não gostaram por ai além. As suas preocupações debruçam-se sobre as poses, os sorrisos, os olhares…

Uma senhora houve que, olhando para o papel que tinha na mão, comentou: “Esta sou eu, não é!” Pela conversa, prévia e posterior, entendi a sua tristeza face às agruras da sua vida. Uma outra, brasileira, e na casa dos quarenta, comentou o quanto tinha envelhecido nos últimos dois anos, tempo da sua estada por cá. A gente jovem ri-se de si mesma e procura com afinco os olhos e a expressão da boca. Num caso, cheguei mesmo a ter que ceder a minha lupa do relógio para que fossem vistos.

Mas, muito curioso, é o facto de serem os agentes das forças de segurança (PSP e GNR) os mais exigentes com o que vêem e recebem. É neste grupo, independentemente das idades e cuja maioria quer a fotografia em papel mas recusa a sua presença na internet, que se encontram a mais duras críticas. Quer seja a luz, quer seja o instante da expressão captada, quer seja a pose ou o local escolhido, quer seja por parecerem mais gordos… Nem mesmo outros fotógrafos que quiseram ser fotografados foram tão críticos. Não sei se esta atitude de rigor advirá dos seus ofícios, em que não deixam de ser o que são, estejam fardados ou à paisana.

Quanto aos demais fotografados, em regra, tomam por uma boa fotografia aquela que não o é, e que por vezes é medíocre.

 

O que me põe a perguntar, muito seriamente: “Afinal, o que é uma boa fotografia?”

 

Linhoff Kardan Color 9x12, Schneider 150 1:5,6, Agfachrome CT18, ca.1981


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O objecto e a sua imagem




O objecto

Comprado numa feira de velharias, quem mo vendeu não sabia para que servia. Nem eu.

Trata-se de um mecanismo de corda que, em escolhendo um tempo entre zero e dez segundos, e tendo encolhido a haste inferior, a solta no final desse tempo. É de fabrico Suisso, e foi-me vendido com o estojo de cabedal de origem pelo preço de um maço de cigarros. Dos baratos.

Não me pude queixar, principalmente por se tratar de objecto cuja finalidade desconhecia.

Já em casa ao fim de uma hora, o mais que tinha encontrado na net foi a data de fabrico (1922), algumas fotografias com e sem a embalagem de cartão original e até o esquema mecânico interior. Mas não a função. Mas acabei por dar com a coisa, depois de dar trabalho às células cinzentas entre orelhas.

Trata-se de um temporizador fotográfico invertido. Por outras palavras, ele não faz começar um exposição mas antes a termina, no máximo de dez segundos, deste que tenhamos ajustado a câmara para “B”. Aplicavel num cabo disparador de “bicha”, para evitar movimentos parasitas na câmara. Ou mesmo directo no botão do obturador, se este tiver uma gola onde prender a haste. Algo impossível de usar nas câmaras actuais.

Peça pouco comum, que irá para a minha coleção de peças raras e antigas.

 

A fotografia

Só há um coisa mais difícil de fotografar que mecanismos ou cutelaria em metal polido: Mecanismos ou cutelaria em metal polido. Tudo quanto é luz ali se reflete, como num espelho, e controlar esses reflexos não é coisa nem fácil nem rápida. Mas eles devem existir para mostrar o material de que são feitos os objectos.

Neste caso a coisa é mais complicada, já que haveria de mostrar a escala de tempo ajustável, bem como uma outra de afinação. Ambas rasgadas na superfície de metal e igualmente polidas e reflectoras. Indo mais longe, haveria que ter algo visível no enquadramento que desse uma escala de tamanho do referido objecto. Optei pela mão de madeira, que permite uma multiplicidade de posições.

Já quanto ao metal, fui pela minha abordagem incial do costume: a luz haveria que vir de cima e de trás. Mas para evidenciar as inscrições, haveria que usar uma luz razante, tão tangencial quanto possível. Que, de caminho, não apenas evitaria que a superfície ficasse um bloco de luz como se refletiriam nos bordos, criando volume. Usei uma da esquerda e de cima e um espelho de baixo e da direita que a refletia em oposição de 180º.

Propositadamente, deixei ficar algum pó na superfície metálica para ajudar a defini-la. O mesmo em relação aos reflexos que nela se vêem. Já o fundo deveria ter algo colorido para evidenciar a ausência de cor do metal.

Foi barato o objecto, considerando que usei mais de uma hora para o conhecer e mais de hora e meia para o fotografar.

 

Todos os prazeres fotográficos fossem assim.

 

Pentax K1 mkII, Tamron SP 90 1:2,5

 

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domingo, 31 de maio de 2026

Três gerações, três continentes




Chegaram, mãe filho, este ao colo dela. Aliás, teria que ser assim se para trajectos maiores, que o pirralho era tão piquinino que o seu andar pouco mais era que pôr um pé à frente do outro para não cair.

Falámos um pouco e fizemos a fotografia. E quedámo-nos na conversa, mesmo depois da função terminada.

O pequenote, esse, é que pouco se interessou no que dizíamos. Partiu para descobrir novos mundos, na imensidão de uns dez metros em redor. E, sendo o seu caminhar o que era, cedo caiu.

À distancia a que estava, a mãe constatou que nada de grave acontecera. Tal como eu. O minorca, estendido ao comprido, de barriga para baixo, olhou em redor, sem choro ou beicinho, verificou a proximidade da mãe e lá se levantou para mais uma caminhada. Que acabou em queda de igual gravidade.

Afinal, é assim que aprendemos a caminhar, caindo, levantando-nos e continuando. E aprendendo como usar o que temos e onde e como pôr os pés.

A sua inexperiência era tal que, passado pouco, ei-lo de novo no chão.

A mãe, estrategicamente colocada na nossa conversa, ia verificando o resultado das quedas, ao mesmo tempo que se certificava que o seu trajecto não coincidia com o das bicicletas, shates ou patins que por ali pululam. Estava tudo controlado e tranquilo.

Quem assim não pensou foi uma velhinha, com ar de avó tremida mas extremosa, que à terceira queda do aprendiz de caminhante, achou que era demais.

Levantou-se do seu banco de jardim e, com uma dificuldade em caminhar equivalente à da criança, abeirou-se dele e levantou-o do chão. Regresando de seguida ao seu lugar sentado, não fora ser este selvaticamente ocupado por algum dos muitos outros idosos do jardim.

Pouquinho tempo depois, a cena repete-se: o pimpolho cai, a velhinha levanta-se e levanta-o e regressa ao seu repouso. Tudo sob o olhar vigilante da mãe, que ia cavaqueando comigo, à beira da minha câmara e tripé.

À terceira a coisa foi diferente: Depois de levantar o pequeno, que continuava sorridente como sempre, caminhou para nós com ele segurando-lhe o dedo. E a sua expressão advertia das advertências que haveria de dar à mãe “descuidada”.

Nada ouvi, que se encontraram a meio caminho, com troca de dedo agarrado. Trocado por calças, à altura dos joelhos, quando regressaram para junto de mim.

Com um sorriso, disse-me ela que este era um dos motivos para gostar do Jardim da Estrela: Fora aqui que ele dera o seu primeiro passo e era aqui que estava a aprender a andar. Bonito de ouvir!

Como que inspirado na conversa, o rapazinho afastou-se caminhando, de novo em direcção ao local onde a boa da velhinha continuava sentada. E a mãe, continuando a sorrir e fazendo contrastar o tom dos dentes com o da pele, acrescenta: “É melhor ir busca-lo antes que ela venha cá de novo!”

E foi, regressando ele ao colo e com a mãozinha esticada para a pelagem branca que me cresce no queixo e cara.

Quando, passado um pouco, se foram de vez, fiquei pensando que, na verdade, a melhor forma de aprender é ir caindo até aprender a coisa. E aproveitar a pequenez da altura para que as quedas sejam pequenas e pouco dolorosas.

Acontece, porém, que há sempre uma avozinha, cheia de boas intenções, que se intromete e tenta mudar o curso natural da vida. E que, ou bem que já se esqueceram que foram crianças e mães, ou bem que mais nada lhes resta fazer que interferir na vida dos outros, queiram ou não eles que isso aconteça.

E quem é que está na imagem? Pela certa que não se esperaria que eu aqui mostrasse os intervenientes neste episódio em torno do meu “Oldfashion”!

Em alternativa mostro este retrato. Que em comum com a estória apenas tem o local onde foi feito e minha câmara de madeira. Que a estória falou de três gerações e aqui mostro a Ana, vinda de um terceiro continente.

É que o Jardim da Estrela é assim como que um centro do mundo, onde de tudo acontece e onde de tudo converge.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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Luz




Que importância dariam a um aparelho de medição de luz que apenas faz isso: medir a luz?

Sem considerar valores ISO, valores f ou valores t, sem mesmo considerar tempos de exposição ou nos falasse em EV.

Um fotógrafo, como eu, tiraria proveito disto de tivesse por perto uma tabela complexa ou uma régua de cálculo, rectilínea ou redondinha. Ou recorresse a uma fórmula de física, diligentemente preenchida num telemovel.

Para mim tem importância por ser peça única aqui por casa, enquanto de ponteiro, fabricada pela marca Gossem algures nos anos 70 ou 80. E, cereja em cima do bolo, apesar de vetusta e ter um sistema interno que não necessita de bateria, estar a funcionar e num estado de conservação invejáveis.

E se fotografia é a escrita com luz, medi-la faz parte do processo.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro, 100 1:4


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sábado, 30 de maio de 2026

O quarto poder


 


Eis como o jornal Correio da Manhã titula dois artigos distintos:

“Imigrante ilegal enganou milhares com campanha solidária falsa para menino de 9 anos que sofre com doença rara”

“Três detidos em operação policial de "estratégia preventiva" em Queluz”

Se na primeira seria importante referir o ser imigrante ilegal, na segunda deveria ter sido referido serem cidadãos portugueses.

Mas se na segunda a nacionalidade não é relevante, na primeira também não deveria ser.

É assim que a comunicação social vai alimentando discursos xenófobos, alinhando sem o parecer com a extrema direita.

Comunicação social – o tal quarto poder que de objectivo e isento pouco ou nada tem.


Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Óbvio




“Isto é óbvio!”, disse uma amiga licenciada em comunicação social, ainda que não a exercer, a quem dei a ler este pedacinho como aperitivo de uma proposta de leitura.

“Certo!”, respondi-lhe. “Mas quem vê o óbvio? Quem pára para pensar nele e agir em conformidade? Tantos quantos os que param para ver a sombra na fachada aqui em frente, todos os fins de dia.”

Antes que o coloque numa das prateleiras dos que sei que irei voltar a ler, aqui vos deixo um nico do “Olhando o sofrimento dos outros”, de Susan Sontag:

“As fotografias objectivam: transformam um acontecimento ou uma pessoa em algo que pode ser possuído. E as fotografias são uma espécie de alquimia, por mais que sejam consideradas como um relato transparente da realidade.”

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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Uma questão de higiene




Por dever de cidadania e por dever de ofício, deveria ligar o televisor.

Mas acabei de tomar banho e não me quero sujar já.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5

Calmarias




A história foi-me contada na primeira pessoa, pela protagonista: a mocinha.

Com quinze anitos, está a repetir o 8º ano. Isto porque, no ano passado, foi retida (dantes diziam “foi chumbada”) por excesso de faltas. De acordo com a própria, era mais o tempo que passava na rua e com os “amigos” que nas aulas.

A solução apresentada (e posta em prática) pelos familiares, foi draconiana:

Retiraram-na da escola que frequentava, bem no centro de Lisboa e pertinho da casa de seus pais, e matricularam-na numa outra, ali para os lados de S. João do Estoril, ficando a residir durante a semana em casa de sua avó, nas imediações. O regresso à grande cidade só vai acontecendo pelos fins-de-semana, de sexta à tarde a domingo à tarde.

Disse-me ela, em conversa ali mesmo no meio do Jardim da Estrela e junto ao meu artefacto, que está mais que satisfeita por o ano lectivo estar quase a acabar e, com isso, poder regressar em definitivo à grande urbe.

Nas suas palavras, já não suporta mais o som da aragem nas folhas das árvores e o chilrear dos pássaros, de manhã assim que acorda até que adormece de novo, à noite. É tranquilidade a mais, desabafa!

Pois tenho que aplaudir a decisão e a prática desta família. Pena é que a esmagadora maioria, por este ou aquele motivo, não possam fazer o mesmo. Acredito que os protestos juvenis foram muitos e veementes. Mas, ainda de acordo com a mocinha, as notas são soberbas e as faltas zero.

E aquilo que ela mesma diz já não suportar (a calmaria, a aragem, a passarada), será recordado com nostalgia, estou certo, daqui por uns valentes anos, quando o corre-corre citadino forem demais e a tranquilidade um oásis nas férias anuais.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Photographia – Fazer amor ou praticar sexo




Eu estava naquela galeria, a ver fotografias e a conversar com o autor. A certa altura, perguntou-me porque é que eu carregava todo aquele equipamento: uma mala pesada, cheia de coisas, e o meu monopé pendurado na alça da mala ou preso à mão.

Não me recordo da minha resposta, mas suponho que refletia a minha vontade de poder fotografar o que quisesse e estar preparado para isso, sem depender das limitações de uma pequena câmara de bolso. Mesmo que eu sempre tenha defendido que podemos fazer fotos boas ou satisfatórias com qualquer câmara, desde as mais sofisticadas até aquelas câmaras "pinhole" que estão um pouco na moda hoje em dia. Desde que conheça os seus limites e saiba usá-los bem.

Anos mais tarde, comprei uma câmara com um telemóvel acoplado. Uma boa câmara, com uma boa objectiva, é só apontar e disparar. Quase que "à prova de idiotas". O meu objetivo era praticar com uma câmara de focagem fixa e impor-me a prática da perspetiva, a irmã “pobre” das objetivas zoom atualmente.

Mais recentemente, comprei uma câmara de bolso. Objectiva muito boa, boa resolução, fácil de usar e o mais leve possível. E sempre pronta a usar, pendurada no meu cinto o tempo todo, como arma de reserva. Um bonito caderno de apontamentos fotográficos.

Se alguém me fizesse hoje a mesma pergunta a minha resposta seria diferente: gosto de fazer amor, não apenas de sexo.

Com a minha câmara reflex, digital ou analógica, posso abraçá-la, encostar o rosto nela, acariciá-la no anel de focagem ou zoom, tocá-la suavemente onde ela reage, tendo uma reação suave, sob a forma de uma fotografia.

Com a câmara do meu bolso ou do telemóvel, apenas apontamos e disparamos, e pronto. Nem sequer dá para lhe tocar, uma vez que o visor precisa de ser visto a uma distância de, pelo menos, 25/30 cm. Não há envolvimento romântico entre câmara, fotógrafo e modelo, não há "preparativos" nem "aquecimento". Só sexo, não amor!

Acredito que as fotografias são criadas na nossa mente, com as lentes dos nossos olhos. E tudo o resto, desde o enquadramento e a medição da luz até todas as tarefas de pós-produção (edição, impressão, emolduramento e assim por diante), são apenas as necessidades técnicas para satisfazer essa necessidade ou criação. Etapas necessárias para materializar a nossa imaginação!

Mas todo este processo também faz parte da diversão. Precisamos de nos divertir no trabalho, ou ele tornar-se-á uma obrigação. E ninguém gosta de obrigações!

Há uns tempos fotografei uma família com a minha câmara fotográfica "antiga". Um casal e duas crianças. A mulher tinha o sorriso mais bonito que já vi, brilhante, contagiante, cativante! Fiquei tão fascinado que, como caçador de imagens que sou, desejei ter aquele sorriso, quase que como um troféu.

Mas, nesse dia, fui para essa sessão fotográfica com uma versão mais leve, levando comigo apenas a câmara fotográfica antiga falsa com o seu tripé de madeira e a minha câmara de bolso, presa ao cinto. E nenhuma delas seria capaz de fazer o retrato que ela merecia.

A câmara "antiquada" precisa de estar no tripé, não só por causa do peso, mas também por causa do formato: quadrado e grande.

Quanto à câmara de bolso, a zoom tem apenas 5x de ampliação. Não conseguiria captar apenas o rosto dela, a não ser que me aproximasse demasiado, sendo invasivo. Por outro lado, a ausência de um para-sol impedir-me-ia de utilizar a forte luz de fundo do sol baixo como eu gosto. Nem mesmo a minha mão a fazer essa função resultaria, uma vez que a câmara não tem a distância focal necessária e eu teria sempre reflexos indesejados.

Se lhe pedisse para fazer um retrato daquele sorriso encantador, ou não conseguiria o enquadramento certo ou a iluminação seria fraca. E não pedi!

Não seria um ato de amor, aquela foto! Seria apenas sexo.

Talvez, um dia, estejamos todos juntos, ali ou noutro lugar qualquer. E estarei pronto para aquele sorriso com a minha Pentax, deixando a minha câmara de bolso no cinto ou em casa.

Quanto a esta fotografia, foi um acto de amor, enquadrando, brincando com a luz, a perspectiva e a profundidade de campo. E utilizando a minha Pentax K100D com a objectiva Sigma 70/300 a uma distância confortável. Mesmo que o sol não estivesse tão baixo como eu gostaria.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 23 de maio de 2026

Genealogia




Gostaria de vos apresentar as velhotas que comigo residem.

Há que lhes dar valor, mesmo que as novas gerações de câmaras as empurrem para um canto. No entanto, sempre gostaria de ver os jovens fotógrafos de hoje a fazerem tão belas fotografias como elas fizeram, com meios tão “rudimentares”.

Como lhes dou valor, volta e meia abro-lhes as porta, descem da vitrine e mostram-se, procurando na vitrine do lado a objectiva que mais lhes agrada. E ficam sempre algumas de fora.

Apresento-as: da esquerda para a direita, em cima: S1a (1962), SP 1000 (1973), S2 (1959), ES II (1973).

Em baixo, também da esquerda para a direita: SP (1964), S1 (1961), SV (1962).

Quanto às objectivas, e para não ofender as ausentes, não referirei nenhuma destas, apenas dizendo que variam entre 28mm e 200mm.

Para os mais atentos e conhecedores da matéria, alerto que há um elemento “penetra”, que não pertence a esta família. Mas gosto tanto dele, e sendo de época, que não resisti a inclui-lo. E em todas as fotografias de casamento há sempre alguém que ninguém conhece, não é? Fica o desafio de o nomearem e, se possível, identificarem.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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Privilégios




Podemos negar, inventar, justificar, contextualizar… podemos um montão de coisas menos apagar os factos.

E o certo é que no início dos anos 90 parava junto ao local onde trabalhava um carro que no vidro de trás tinha um autocolante com os seguintes dizeres:

“Quando deus criou o mundo, devia estar louca”

É meu privilégio poder dizer que trabalhámos juntos até eu me deixar disso.

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 22 de maio de 2026

O cota barbudo e os seus discursos inflamados




Tal como a maquinaria, também o corpo humano se vai gastando. E, de quando em vez, vá de ir fazendo testes: para confirmar aquilo que já se sabe ou para descobrir novas maleitas. Hoje foi dia disso.

Ao entregar a papelada perguntei quando estariam prontos, ao que me disseram que enviariam os resultados por correio eletrónico. Mas que se os quisesse impressos, que estariam disponíveis no dia 3.

“No dia 3?! Mas é dia de greve geral!”

“Pois é, mas eu venho de carro e não uso o comboio.”

“Mas o problema não é os comboios estarem parados. A questão mesmo é vocês virem trabalhar nesse dia.”

“Ah, bem, sabe como é...”

“Sei, ou acho que sei. Eu não faço greve porque já não estou no activo. Mas farei questão de nada fazer que dependa do trabalho de alguém que nesse dia não está de greve. Mas ao não fazerem greve, mesmo que estejam a não se incompatibilizarem com quem vos emprega, estão a não acautelar o vosso futuro. Em muitos aspectos importantes. Até no assegurarem o vosso posto de trabalho actual. Informem-se e actuem! Virei na quinta-feira, dia 4!”

Calei-me para mudar de posição. Que a minha anca esquerda estava a dar sinal de si. E olhei em redor.

Além de quem me atendia, mais três funcionárias atendiam gente a querer tratar da sua saúde. E em frente delas, várias pessoas a serem atendidas.

Mas todas elas, com ou sem farda imaculada, estavam paradas e a olhar para mim, o tipo das barbas que assim falava, num tom em crescendo. Quando viram o meu varrer de olhar, fizeram de conta que estavam muito ocupadas e o silêncio que se tinha feito, apenas cortado pela minha voz, desfez-se como que por magia.

Com um pouco de sorte, uma ou mais daquelas pessoas se recordarão no momento certo daquele cota barbudo que, já pouco podendo fazer pelo seu próprio futuro, não desiste de lutar pelos futuros alheios. Com palavras e com actos.

 

Lumix DCM – DZ 60


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quarta-feira, 20 de maio de 2026

RP




É daquelas coisas que já chateia porque deixaram de ser discretas para serem insistentes. Muito insistentes!

As forças de segurança e investigação policial encetaram há não muito tempo uma campanha de relações públicas muito activa. Todos os dias, várias vezes ao dia, a imprensa e as redes sociais relatam situações de crime ou infração em que a psp, a gnr ou a judiciária estão envolvidas com sucesso. Detenções, investigações, apreenções... crime, infrações, família, tráfico, trânsito, dinheiro, violência...

Todos os dias, várias vezes ao dia!

Mas, e para além disso, contam-nos e mostram-nos imagens e relatos positivos, desde a graduação de novos efectivos, às fotografias “de encomenda” dos e das agentes sorridentes, as viaturas impecéveis e brilhantes de lavadas, as fachadas imaculadamente pintadas das instalações...

O trabalho de quem está à frente das relações públicas das forças policiais está bem e recomenda-se. Mas não abusem, que já chateia!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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terça-feira, 19 de maio de 2026

O terceiro grupo




Havia uma senhora, noutros tempos e noutras vivências, com uma muito forte conotação politico-partidária, que quando me via na sua secretaria com alguma das minhas reclamações, sugestões ou discursos mais inflamados, tinha uma frase sacro-santa:

“Lá está o professor JC com o seu feitiozinho soviético”.

Nunca lho levei a mal. Era difícil levar a mal alguma coisa daquela senhora, até porque raramente fazia algo por mal.

E, se outro motivo não houvesse, ela tinha razão. Eu tenho um feitiozinho soviético.

Soviético, Malaio, Hondurenho, Zairense, Tuga, o que lhe quiserem chamar.

Agora uma coisa eu garanto:

Quando me chamam para engrossar fileiras e eu vou e acabo por ouvir e sentir um “nós e vocês”, é garantido que surge um terceiro grupo: os que estão fora.

E se não tiver mais ninguém, eu serei o presidente, o secretário geral, o presidente da assembleia-geral e farei quórum sozinho nas reuniões plenárias.

A dona Alice tinha razão: tenho um feitiozinho soviético!

 

Nikon Coolpix P7000


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Cada cor seu paladar




É verdade que sim: tenho uma quantidade razoável de pára-sois.

A maior parte deles adquiridos solitários, em feiras de usados e a preços menores que de saldo.

Eu explico.

Entendo que o pára-sol é peça fundamental da objectiva. Não apenas protege de luzes parasitas, evitando baixos contrastes ou reflexos internos indesejáveis, como protege a objectiva de acidentes. Já parti pára-sois com pancadas acidentais. Nunca uma objectiva. Acontece que alguns fabricantes e muitos utilizadores entendem-nos como acessórios não essenciais e, ou não os vendem com as objectivas, ou não os procuram para comprar junto com as objectivas. E no mercado de usados o mais comum é encontrar objectivas sem pára-sol.

Assim, quando encontro à venda um modelo que não tenha, levo-o comigo. E sabemos como os pára-sois são “esquisitos” nas suas características: tamanho, forma e fixação.

Guardo as objectivas sem pára-sol, estando colocados apenas nas que uso com frequência, excepto os dedicados em forma de pétala. Quando acontece ir buscar uma menos usada, passo pela gaveta e encontro um que faça a função, seja ou não da marca.

Alguns dificilmente os usarei, já que duvido que alguma vez venha a ter uma objectiva que o use. Principalmente quando a minha preferência é Pentax. Mas já tenho oferecido a quem procura e não encontra o certo para a que tem.

Estão ali quietinhos, fora de vista e guardados numa gaveta. À espera de serem usados e protegerem as fotografias que faço. Se elas são boas ou não, isso é outra história.

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

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domingo, 17 de maio de 2026

O outro lado


 

No seu filme “Yi-Yi”, premiado em Cannes em 2000, Edward Yang presenteia-nos com algumas preciosidades.

Desde logo o como fazer enquadramentos verticais usando um formato horizontal. Delicioso!

Mas, e o que me interessa neste caso, o ter colocado nas mãos de uma das principais personagens – uma criança – uma câmara fotográfica. De película.

O pai observa, posteriormente, as fotografias feitas e estranha a quantidade de imagens de gente de costas.

Quase no fim do filme, o catraio entrega ao tio uma fotografia contendo a respectiva nuca. E acrescenta:

“É para que vejas de ti aquilo que nunca vês.”

Fantástica, a ideia.

Efectivamente, é sempre interessante ver aquilo que crianças fotografam sem que lhes digam o que fotografar. O que lhes chama a atenção, a forma como enquadram, se já jogam ou não com primeiros planos…

E sendo certo que as crianças, em regra, aprendem por ver fazer e mimando o que vêem – os adultos ou iguais – parte daquilo que fazem é fotografar o que, de algum modo, chama a atenção dos outros.

Para os pequenos, com a sua relativização do tempo, a fotografia raramente é um registo para a posteridade ou “para mais tarde recordar”.

Fotografam porque aquele assunto, naquele momento e naquelas circunstâncias, lhes interessa.

E é essa a atitude que muitos de nós, fotógrafos entusiastas ou profissionais, temos: parte do nosso gesto de fotografar resulta da motivação de aquilo nos interessar naquele momento e naquelas circunstâncias.

É muitas vezes o factor “afirmação social” que nos leva, mais tarde, a recuperar essas imagens, mesmo que não muito bem feitas, e atribuir-lhes algum valor: documental, estético, comercial… Mostrar aos outros que, num dado momento e local, aquilo nos interessou. E como somos bons a registar aquilo que nos interessou, mesmo que o resultado não seja grande coisa.

Só os bons fotógrafos conseguem ultrapassar esta questão do “agora interessa-me” e fazer imagens que perduram no tempo.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Aprendiz




Há uns bons anos atrás, numa das minhas idas mais ou menos regulares a Barcelona, levei comigo uma sobrinha adoptiva.

Uns meses antes, aquando de um jantar com os seus pais, amigos de longa data, virei-me para ela e perguntei-lhe: “Como é? No verão queres ir comigo a Barcelona?”

Ficou a olhar para mim com cara de tola, os pais a rirem da brincadeira mas, nesse Setembro lá estivemos, 10 dias a ver e viver o possível para ambos.

Um dos locais onde não podia deixar de a levar foi o Museu Picasso. Ainda que não possua as principais obras do génio, cobre toda a sua vida, todas as suas fases, tendo, entre outros, muitos trabalhos da sua infância e esboços de trabalhos maiores e famosos.

No final, perguntei-lhe sobre o que mais havia gostado, entre o que tinha visto e aquilo que eu lhe tinha conseguido explicar.

A resposta foi bem clara, para quem tinha onze anos à altura: “Das pinturas de quando ele era criança e pintava como as pessoas!”

Vem esta estória a propósito de ver e ouvir dizer que não se gosta de regras e convenções.

Posso presumir – e saber – que Picasso, Miro, Dali e tantos outros, também não gostavam de regras e convenções e que, quando partiram para o seu estilo próprio e inovador, foi uma tentativa de quebra com todas elas.

No entanto, qualquer um deles dominava, ou tinha dominado, as formas de representação plásticas convencionais, de acordo com as regras estéticas em vigor.

Não apenas porque as estudaram e aprenderam como, querendo expressar os seus próprios sentimentos e emoções e que eles fossem entendidos por outros, tiveram que recorrer às convenções, códigos e regras existentes.

O que aconteceu foi que, a dado passo, se sentiram insatisfeitos com o que faziam, pois que não o interpretavam como representando o que lhes ia na alma. Partindo das convenções, começaram a inovar, variar, quebrar as regras e códigos estéticos instituídos até encontrarem uma outra linguagem. Onde eles próprios se reconhecessem e que outros, com sentimentos na mesma linha, os reconhecessem e aos seus sentimentos.

Por outras palavras, num círculo de comunicação restrito, criaram outras e novas formas de comunicação, com outras e novas regras e convenções.

Porque, na total ausência de regras e convenções, a comunicação não existe, já que quem vê não entende quem pinta (fotografa, compõe, filma, dança…)

Indo mais longe, o simples facto de nos exprimirmos define uma convenção ou regra, já que o seu autor convenciona ou define que aquele gesto, aquela cor, aquele som ou aquela organização de espaço corresponde a um dado sentimento seu. É um ícone ou a substituição de algo impalpável por algo material ou não, visível ou audível.

Aquilo que eu gosto de ouvir ou ler é, antes sim, que não se gosta destas regras ou convenções. Porque não satisfazem, porque não correspondem aos sentimentos ou porque representam uma geração com a qual se quer quebrar amarras e criar distância. Ou ainda porque essas regras ou convenções nos sufoca e prendem, aspirando nós a outros voos.

É isto que gosto de ler ou ouvir, principalmente se seguido por algo nesta linha:

“Não gosto disto, não me satisfaz, não me identifico com estas regras, convenções, linguagem! Vou partir e encontrar o meu próprio caminho, a minha própria forma de expressão, as minhas próprias regras, convenções, códigos!”

Quando oiço ou leio isto, a minha reacção é sempre a mesma: “ Aleluia! Mais um que aprendeu a pensar e que nos vai ensinar algo de novo! Deixa-me aprender contigo!”

Porque, enquanto por cá andar, serei sempre um aprendiz. E é tão bom!...

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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