Vale mais que mil palavras
Nikon Coopilx P7000
By me
Quando vejo estes sacos repletos na beira de uma intervenção
nas ruas alfacinhas, não posso deixar de pensar em munições.
Talvez sabendo disso, mudaram o piso pedonal da confluência
da Rua de São Bento com a Caçada da Estrela e com a Avenida Dom Carlos I.
Nikon Coolpix P7000
By me
Façamos um pequeno exercício de imaginação.
Imaginemos que contrato uma empresa para fazer a limpeza e pintura exterior de um prédio: paredes e telhado. Andaimes, mão-de-obra, tintas e demais consumíveis, responsabilidade civil, prazos e orçamento.
Acontece que a empresa não cumpre. Não faz o trabalho de limpeza, instala os andaimes mas não há gente neles a trabalhar, bloqueia portas e janelas, ninguém consegue dormir descansado ou mesmo sair de casa em segurança.
Junto com isso, os andaimes estragaram o jardim do prédio, caíram peças em cima de automóveis sem que houvesse tempestade, duas janelas ficaram danificadas, o telhado ficou sem telhas e os algerozes entupidos.
Que se faria a uma empresa destas? Que opinião teriam os moradores e os dos demais prédios da rua, que impropérios e correspondência seria feita? Por quanto tempo se aguentaria esta situação? Com que consequências?
Certo!
E se for um governo para gerir a coisa pública? Educação, segurança, justiça, legislação, redes viárias, saúde…
Por quanto tempo? Com que consequências?
Pentax MX, smc Pentax-M 75-150, Kodak TriX
By me
Hoje chegou pelo correio um livro, aliás, um catálogo de uma
exposição acontecida há muito tempo. Comprado num leilão on-line, veio
satisfazer a minha curiosidade, mas seu tempo falarei disso.
Enquanto via as fotografias e nelas pensava, veio-me à
memória um episódio, que até foi longo, acontecido faz muitos anos.
Estávamos numa fase de transição: enquanto na área de
produção já se trabalhava em “pal plus”, um formato de imagem que, para além
das características técnicas que implicava, tinha detalhes estéticos a
considerar, na área de informação onde eu estava estávamos bem nos inícios.
Por ser assumidamente rectangular, no lugar do quase
quadrado 3x4, tudo mudava: desde a forma como se enquadrava objectos e pessoas,
passando pelas distâncias de trabalho e respectivas perspectivas e relações de
primeiro plano com os fundos, até à velocidade com que se faz os movimentos
(entrada, saída e espaço intermédio), com tempos diferenciados.
Bative-me seriamente com as chefias para termos uma acção de
formação neste campo, nem que fosse sob o formato de “worshop” ou “learning on
the job”. Para pensarmos no assunto, para trocarmos ideias, para uniformizar
abordagens. Porque estava cada um de nós a descobrir métodos, sendo o resultado
uma manta de retalhos, fruto apenas do nosso desconhecimento e falta de
prática.
Há batalhas que se perdem e esta foi uma delas: nunca isso
sucedeu! E nota-se!
Não há uma “escola” de trabalho, não há critérios uniformes,
não há coesão na imagem. A manta de retalhos que antecipava e via então é
grande e evidente. Tanto do ponto de vista de quem capta e gere a imagem como
de quem concebe os espaços e os seus conteúdos. E é tanto pior quanto as
diferenças nas origens formativas de quem pega na rabicha do arado (só os bem
antigos conhecem a expressão, aos novos deixo o desafio de a descobrirem).
Enquanto trabalhamos solitários, como é o caso da esmagadora
maioria dos fotógrafos, cada um usa e concebe os seus próprios conceitos e
estéticas. Não há comparações!
Mas quando se trabalha numa equipa de imagem, estática ou
animada, é importante que esta seja definida e uniforme. O espectador não pode
ou não deve andar aos saltos, sendo a sequência de imagens fruto de uma linha
comum e de todos os intervenientes conhecida e aceite. Mesmo a “falta de coerência”
deve ser coerente.
Por mim, que faz muito tempo que deixei de lutar contra
todos os moinhos e que agora só o faço com os que seleciono, apenas fico
incomodado com essa ausência de linha de pensamento. Aprendo por mim já que não há “escola”, penso por mim já que não há uniformidade, evito os produtos de imagem
de consumo massivo para evitar os incómodos.
Felizmente existe a fotografia para não estar frustrado
durante todo o dia.
Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6
By me
Porque mo lembraram, aqui fica um exemplar que, não sendo
uma raridade mundial, não será das peças mais comuns.
Trata-se de uma Novoflex 600mm f:8, uma focal longa (e não
uma teleobjectiva) concebida para fotografar natureza selvagem.
Infelizmente não possuo o apoio de ombro, o que a torna num
conjunto não particularmente prático de usar senão com recurso a um tripé ou
monopé.
Mas o seu sistema de focagem por gatilho, com prática, é
particularmente útil para acompanhar com rigor objectos em movimento sem
grandes amplitudes de movimentos.
Claro que, nos tempos que correm, isto é obsoleto. As
teleobjectivas vieram encurtar tamanhos e diminuir pesos, os sistemas
motorizados de focagem minimizar esforços e, se bem empregues, muito eficazes.
Além de permitirem fotografar aviões, por exemplo, sem se correr o risco de ter
uma brigada de intervenção rápida da polícia ao nosso lado ainda antes de
conseguirmos fazer uma imagem de jeito.
Em qualquer dos casos, trata-se de um objecto interessante para
a arqueologia da fotografia, em perfeito estado de funcionamento.
Não está à venda.
Pentax K7, Pentax 18-50
By me
Por vezes a fotografia vale por si mesma, sem mais
explicações. Outras, há que contextualizar o fotografado para que faça algum
sentido. Outras ainda será um texto ou uma ideia que necessita de uma
ilustração. E é frequente considerar-se a ilustração fotográfica um género
menor. Foi o que me saiu.
Num Setembro, há uns anos
A noite fora curta. Muito curta.
Somado a isso, um dia passado em andanças que me fizeram
recordar outros tempos, que tinha prometido não voltarem. Mas as promessas foram
criadas para se quebrarem.
Em cima de tudo isto, um almoço particularmente tardio, uma
tarde de muito calor e o suave embalar do comboio, acabaram com as minhas
resistências: quando dei por mim, tinha acabado de passar a minha estação.
Saí na seguinte e, no largo que lhe é fronteiro, parei um
pouco. À sombra. E fiquei, sem pressas, a ver o que acontecia no lago da
estação de um bairro suburbano num fim de tarde domingueira que, sendo Setembro,
bem que podia ser Agosto.
Uma moça, em idade de terceiro ciclo escolar, e com trajes a
condizer, esperava impacientemente por algo ou alguém. Não era da zona, que foi
confirmar com funcionários dos autocarros locais se estaria onde pensava. P’lo
semblante, pareceu-me que sim.
Eis que pára um carro, com um rapazola já bem crescidote ao
volante e que, p’la forma como abordou os incomuns sentidos rodoviários, também
não seria dali.
Toca o telemóvel dela, que atende: era ele. E não se
conheciam.
Aguardava ela, e trazia ele, um manual escolar. Que ela
reconheceu de imediato com um “É mesmo este, obrigado!”
Volta ele p’ro carro e ela p’ra carrinha de onde saíra, onde
uma mulher, ao volante, aguardava com mais duas garotas atrás.
Seguiram os dois veículos e eu fiquei a vê-los afastarem-se.
E pensando com os meus botões que aquilo terá sido uma cedência gratuita de
manuais usados. É bom ver tal coisa ao vivo.
E estou eu a pensar e a sorrir sobre isto, quando sou
abordado.
Um velhote, andrajoso e com um olho inchado e fechado, vinha
pedir-me um cigarro. “Mas só se puder ser e não lhe fizer falta”, disse-me.
“Claro!” e tirei a cigarreira do bolso, abrindo-a e
estendendo-lha. “Sirva-se”.
Olhou para ela, olhou para a sua mão suja e calejada e
deixou-me de boca aberta: “Se não se importa, tire o senhor.”
Dei-lhe quatro.
Por vezes, compensa adormecer no comboio!
Nikon Coolpix P7000
By me
Não tenho pressa. Nem cliente, nem prazos, nem encomenda.
Não tenho urgências, portanto vou com calma.
Quando estou para aí virado, vou para o estúdio e viro mais
algumas fotografias. Com tudo o que isso implica de preparação técnica, de
preparação e verificação dos assuntos, de tratamento de imagem e de pesquisa
posterior com o respectivo arquivamento. Uma hora cada, se tudo correr muito
bem. Bem mais, se tudo correr muito mal.
Refiro-me à criação de uma espécie de catálogo das peças
fotográficas que por aqui há. Para minha organização e organização de quem
nisso pegar.
Desta feita estou de volta dos aparelhos de medição de luz,
a que toda a gente chama de fotómetros. De tantos géneros e modos de utilização
que são que, genericamente lhes podem chamar de “fotómetros”, ainda que tenham
nomes específicos, em função da idade, do método e tecnologia, e da região do
globo de onde são originários.
Hoje calhou que, de entre os que tirei da gaveta para
fotografar viesse este. Um Quantum de sua marca, “calcu-flash-II” de seu nome.
Foi o meu terceiro aparelho de medida no campo fotográfico e
não me recordo onde o comprei. Sei, antes sim, que tinha uma necessidade
tremenda de aquilatar as luz emitida pelas unidades de luz instantânea:
quantidades e qualidades, zonas iluminadas e zonas sombreadas. Não havendo
lâmpadas piloto, isto é vital.
Acontece que de tanto usar e medir, de bem conhecer as fontes
de luz, fui deixando de necessitar do aparelho, passando a confiar mais na
minha experiência e colocando o “flashmeter” primeiro no saco, depois mesmo em
casa. Dei-me mal algumas vezes, que a arrogância do “eu sei fazer” nem sempre
resulta. Medir e ter certezas é importante.
Há anos que não lhe pegava, até porque uso outro, mais
moderno e multifuncional.
Mas hoje, depois de ter verificado a ausência de baterias,
ter limpo os contactos e colocado baterias novas, as minhas mãos sabiam o que
fazer e o que procurar, mesmo antes de a minha mente se aperceber do que estava
a fazer. Incluindo a escala adicional que lhe tinha acrescentado então e que
permite ler as relações de contraste no quadrante de leitura.
Foi com carinho que o usei, foi com gentileza que o fotografei
pensando na utilização da imagem, e foi com amor que decidi que, em terminando
esta sequência que tenho entre mãos, merecerá uma abordagem mais cuidada e
desligada de um catálogo.
Afinal, uma ferramenta como esta, com bem mais de quarenta
anos, em perfeito estado de conservação estético e funcional, e sendo a primeira
do seu género nas minhas mãos, merece um tratamento especial.
É que, digam o que disserem, não há amor como o primeiro!
Pentax K1
mkII, smc Pentax 100-M macro 1:4
By me
“As conversas são como as cerejas: umas atrás das outras”,
diz-se.
Pois não sei qual a cereja anterior, apenas sei que dei
connosco a conversar sobre fotografia (eu e quem trabalha atrás do balcão do
café aqui da rua), e de como há pequenas coisas, tão simples, e que podem
melhorar em muito as fotografias que fazemos. Isto sem se querer ser um
“artista”, apenas querendo obter satisfação do que se possui nas festas e
férias. Mesmo com um telemóvel.
A horizontalidade versus a verticalidade em função do
assunto e da contextualização; o espaço próprio do ser humano e dos objectos e
de como isso corresponde à nossa própria forma de estar e viver; o centro de
interesse e os centros da imagem; o uso de primeiros planos;…
A certa altura tinha mais dois vizinhos aqui da rua a
ouvirem e a experimentarem as minhas dicas com os seus telemóveis mesmo ali
encostados ao balcão, a meu lado.
Foram uns vinte minutos proveitosos para todos, entre cafés
e boletins de totoloto.
Pouco me importa o que dizem os lentes e catedráticos: tudo
na vida é fácil, desde que nos dispúnhamos a aprender e nos ajudem ao nosso
nível.
LG D405
By me
Foi hoje, ao almoço.
Neste restaurante, na zona do Parque das Nações, tiveram o
desplante de me apresentar esta conta final, hoje em dia chamada de “consulta
de mesa”.
Não ponho em causa nem a qualidade do que nos foi servido
nem a excelsa qualidade do serviço de quem nos atendia. E muito menos os
preços, pois que estavam na entrada do espaço tal como na ementa, pelo que não
fomos surpreendidos.
Aquilo que me fez saltar a tampa, e fiz saber disso a um dos
funcionários, foi vir incluida na “consulta de mesa” a gratificação sugerida,
vulgo gorgeta, e acrescentada ao total. Uma leitura muito na diagonal faria
saltar essa parcela e faria pagar a gorgeta como se obrigatório fosse.
Uma raio que os parta!
A gorgeta é um reconhecimento da qualidade do atendimento
por parte que quem nos atende, não um pagamento obrigatório. Pelo menos em
Portugal. Não podem impôr 7,5% de gorgeta, ainda que esteja impresso no final
que é voluntário. Não comigo! Não em Portugal!
Estas americanisses (que se vão espalhando como uma
epidemia) comigo não grassam e pago o que entendo, dentro dos valores apostos
na ementa. O adicional (que é meu hábito pagar ou deixar) é em função da qualidade
do serviço.
Deixei bem claro que não punha em causa a qualidade do
serviço, mas que por estar expresso e impresso o como se avaliavam, pagaria
0.00% de gorgeta. E que ali não voltaria a deixar a minha pegada.
Paguei e saimos, com a certeza de ali eu não voltar. Nem que
seja o único lugar em funcionamento na região.
Mas também não sou conhecido por ter bom feitio!
PentaxK7, Tamron 18-200, Scanner Epson
By me
Suponho que nunca se perguntaram porque é que a semana tem
sete dias. Não dez, tantos quantos os dedos das mãos, ou quinze, por um outro
motivo qualquer. Sete!
Claro que a tradição judaico-cristã nos afirma que o
universo foi criado em sete dias por um deus. Essa será uma explicação
teológica, válida para crentes.
Mas há uma outra, bem mais prosaica, que talvez espante os
menos avisados: a Lua.
Sabemos que o ciclo lunar tem 28 dias. E que cada fase da
Lua (crescente, cheia, minguante e nova) dura sete dias. Aí está.
Para os antigos, que não tinham mecanismos de medição do
tempo, este era medido em função dos fenómenos que conheciam e que ser
repetiam.
O mais básico seria o dia, facilmente constatável. De
seguida a Lua, também repetido e previsível. Mas 28 dias é muito tempo. Quase
um mês.
Daí que as fases da Lua, cíclicas e regulares, numa
quantidade de dias facilmente comensuráveis.
Para os que tenham dúvidas, legítimas face à ancestralidade
do ciclo de sete dias, repare-se na quantidade de civilizações que ainda têm
por tradição o calendário lunar. Claro que estas, por imposição do comércio e
demais relações internacionais, acabaram por considerar não apenas o conceito
de anos em função da translação em torno do Sol, com o ajusta de um dia extra
por cada quatro anos, como o calendário gregoriano, com os seus meses não
regulares. E as semanas, a não caberem em quantidade certa em cada mês. Excepto
o Fevereiro, com 28 dias. Menos o bissexto.
A origem das unidades, sejam elas quais forem, é sempre meio
obscura. Tal como o sistema hexadecimal, usado para movimentos circulares:
horas, graus, minutos, segundos.
Entender o passado, onde se alicerça o presente, permite-nos
construir o futuro. Seja em unidades de medida, pensamentos ou emoções. Mesmo
que estas não se meçam.
Nikon Coolpix P7000
By me
Foi há já uns anos valentes. Há quase vinte anos.
A câmara guardo-a, tal como quase todas as outras. As que
não guardo foram as que vendi em momentos de grande aperto. Lamento cada uma
delas.
A objectiva guardo-a, com os mesmos argumentos e lamentos
que as câmaras. Com a diferença que, em tendo avariado, comprei uma igual tal o
gosto que tinha e tenho pela sua flexibilidade.
Da barcaça nada sei. Passado todo este tempo, talvez esteja
ainda a subir e descer o rio, fazendo pausa aquando do anoitecer, como era
quase o caso.
A margem continua lá, com fauna e flora variavel de acordo
com a estação do ano e aquilo que o ser humano vai deixando, com as suas
travessias anunciadas e as suas construções efémeras.
O rio, esse, continua a correr debaixo das pontes como se
nada fosse, escasseando uns anos, superabundando outros, como sempre fez desde
o rio é rio. Alargando-se aqui, estreitando-se acoli, continua a fazer de
fronteira aquém e além, dando nome a terras, barragens e pontes, como se disso
dependesse alguma coisa. É-lhe indiferente.
A lua lá continua, ora tapada ora destapada, na sua quase
sempierna revolução e servindo de mote a poetas e enamorados. Também serve de
objectivo, como que primeira fronteira para o espaço infinito, aquele que
queremos conquistar como quem quer conquistar uma praça forte ou uma medalha. Como
se isso a importunasse, excepto a expectactiva de vir a ser o quintal das
trazeiras onde iremos deixar os dejectos da humanidade, já que mais não
conseguimos estragar este pedaço de rocha a que chamamos planeta terra.
Por mim, entre o agora e o agora cosmico, vou tentando
registar os pedaços que vejo ou penso, transformado, como dizia o mestre, num taxidermista
do tempo. Como se isso abalasse o cosmos ou a vida de alguém.
Pentax K100D, Sigma 70-300
By me
David Hockney, nas suas incursões no mundo da fotografia e
do estático movimento ou do movimento estático, incluia quase sempre uma
fotografia onde se viam os seus pés.
Nunca aprofundei as razões de ser de tal pecularidade: se
como assinatura, se como prova de que esteve lá, se como início do movimento a
fazer com a câmara Polaroid...
Por mim, que até gosto de fotografar os sapatos abandonados
na rua e que me ponho a imaginar a vida que tiveram com pés dentro ou ao lado
da cama, não podia deixar de fotografar os meus sapatos. Com os pés dentro ou
fora.
Neste caso, conjugaram-se vários factores: o estar numa
pausa entre fotos, o pensar em substituir estas velhas pantufas, o ter entre
mãos uma uma câmara Pentax de excepção de pequena que é.
A luz, essa, é que me entra pela janela, sem mais enfeites
que um dia em que se antevêem várias tempestades ao logo da costa e travada
pela minha secretária de trabalho.
Significa alguma coisa? Não! Mas foi o que me apeteceu
fazer.
Pentax I-10
By me
Esta fotografia tem uns quarenta e tal anos.
Consto nela, tal como o meu chapéu e o meu primeiro tripé
Gitzo. A câmara, uma Pentax MX, não está na imagem porque foi usada para a
fazer.
O que consta, apesar de muito discreto, é o meu relógio,
usado como sempre no braço direito.
Comprado a um preço simpático, tinha um detalhe pouco comum
então: Sendo digital, usava um método misto de mostrar o tempo: ponteiros e
mostrador numérico. E tinha uma característica que me levou a ficar com ele, no
meio de muitos outros.
O seu cronómetro também funcionava em regressivo mas sem
iluminar o mostrador. Detalhe vital para quem revelava negativos de grande
formato em preto e branco, usando tinas abertas e na escuridão total.
Marcava-lhe 50 segundos e quando apitava era o momento da agitação de dez
segundos. Sempre no escuro, como impõe o uso de materiais pancromáticas. Só
algum tempo depois encontrei e comprei um tanque estanque à luz que me permitia
trabalhar com mais conforto, bem tarde na noite, já que usava a casa de banho
da família como laboratório. Fartei-me de usar fita adesiva para bloquear o
interruptor da luz no seu exterior.
Um compincha destas andanças, com as mesmas limitações,
usava um gravador de cassetes com um tema musical de que gostava cuja batida
rítmica lhe servia de guia temporal.
As técnicas, limitações e complicações evoluíram,
facilitando (ou dificultando) os processos. Mas o objectivo sempre foi o mesmo:
fazer Fotografia. Cujo dia mundial se comemorou esta semana.
By me
De tanto procurarmos a perfeição universal, esquecemos as
nossas próprias imperfeições.
E são elas o sal da vida!
Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 35 1:2,8
By me
Para os curiosos destas coisas, aqui fica uma imagem de um
copipod da Asahi Pentax.
Sendo uma peça concebida nos anos 60s, em que se usavam
câmaras em que a objectiva era fixada com o sistema M42 (rosca), este conjunto
está em estado novo mas o estojo para as suas peças é em material sintético,
pelo que posso deduzir que seja um dos últimos modelos.
Não me veio parar às mãos acompanhado do manual de
instruções, levando-me a descobrir sózinho todas as potencialidades deste
sistema, com um pouco de apoio do on-line.
Foi aí que fiquei a saber que as boas marcas da época tinham
sistemas semelhantes. Ainda não tinham surgido as fotocopiadoras e muito menos
os scaners, sendo este um dos meios para copiar documentos, quer a película
usada fosse o 35mm ou menor.
Alguns foram os estudiosos e os entusiastas da fotografia que
tinham ou desejavam ter uma peças destas. Eu era um deles.
Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
By me
Um destes dias cometi uma asneira. Grossa.
Melhor dizendo, fiz algo que valeu por duas asneiras: uma
pelo que fiz, outra porque já sabia que era asneira e insisti.
Tentei explicar a alguém os fundamentos de uma dada
objectiva: para que serve ou é usada, quais os motivos técnicos de assim ser e
quais os respectivos problemas.
Asneira!
Asneira porque já conhecia a pessoa e, mais que querer
aprender, queria exibir-se pelo possuir aquela peça, pouco comum, diga-se de
passagem.
E asneira porque este tipo de pessoas, mesmo que queira
saber algo, não querem saber fundamentos ou algo que vá mais para além do que
como se usa. As razões de ser dos seus aspectos são-lhe inúteis, entendo-as
como enfadonhas e supérfluas. É-lhes pouco importante saber o porquê,
limitando-se a “brincar” com o que têm, sem perceberem que, sabendo-o, podem ir
muito mais longe: na profissão ou na criatividade.
O mesmo acontece em inúmeros grupos na internet e com a
maioria de quem procura respostas nos tuturials em vídeo nos youtubes que por
aí há.
Exemplo estúpido ou não tanto: Alguém procura saber como
desapertar determinada peça, que por mais que tente não consegue. E alguém
explica que aquela peça desaperta para a esquerda. Chega de saber. Não importa
saber que, naquela peça e pelo tipo de movimento a que é sujeita, haverá que
ter a rosca invertida para que não se solte ao usar. Claro está que quem
perguntou e não aprendeu tudo, terá um dia a peça no chão porque mal usada e
mal apertada.
Os manuais de instruções existem para serem lidos mas também
como base a conhecimentos complementares e mais aprofundados. Os que ignoram os
manuais de instruções, os que procuram o conhecimento pela rama e colado com cuspo,
os que desdenham do saber, limitando-se a papaguear o que mal ouviram e a
copiar no lugar de entenderem o que outros fazem, nunca irão longe,
dificilmente subindo para além da fasquia da mediania.
Não os lamento, porque o que importa é que sejam felizes ao
alcançarem os objectivos a que se propõem. Mas cada vez tenho menos vontade de
lhes abrir novos horizontes.
Em jeito de complemento, sempre acrescento que a objectiva
em questão, não sendo a que está na imagem, era uma Nikon 24mm tilt and shift,
rara, dispendiosa e bela.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Poucas semanas depois de Abril de ’74, alguém escreveu num
muro por onde eu passava todos os dias a caminho do liceu:
“Liberdade para todos menos para os fascistas”.
Entendo o sentimento da época: O regime tinha acabado de
cair e haveria que vingar o passado. Mas foi uma frase que nunca me saiu da
cabeça.
Apesar de adolescente ou já quase não, o meu conceito de
liberdade não se conformava com isto. Afinal, a liberdade é liberdade. E a
ausência, ou a prisão, só seria admissível em caso de crime provado. O simples
facto de se pensar diferente não seria crime. O regime que acabava de cair
tinha a mantê-lo exactamente o punir quem pensava diferente. E isso não
queríamos.
Continuo a pensar da mesma forma. Pensar ou discursar
diferente não é crime. Podemos não gostar. Podemos tudo fazer para que os
discursos não sejam consequentes. Podemos mesmo não comparecer nos discursos.
Mas impedir discursos, impor pensamentos ou proibir pensamentos
será muita coisa, mas não liberdade. E queremos liberdade. A Liberdade!
À época ou pouco depois esta era a câmara que possuía. E
ainda não tinha começado a registar grafitis. Nem dos bons, nem dos maus.
Mas da minha memória ninguém tira o que vi nem a repulsa que
sentia todos os dias quando por aquela parede passava!
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
Interpretação subjectiva de um concerto de jazz em Lisboa
com um livro de Walker Evans na mão, usando um telemóvel com um gadjet.
LG-D405
By me
O assunto tocou-me de perto. De muito perto.
Uma pergunta feita num grupo de fotografia:
“Um bom professor de fotografia necessariamente precisa de
ser um bom fotógrafo?”
Achei que teria algo a dizer e, sendo que o poder de síntese
não é o meu forte, alonguei-me na resposta.
Aqui fica, com uma imagem de arquivo.
“Não creio que assim seja.
Se começarmos por aceitar que um bom professor não é o que
ensina mas antes o que ajuda a aprender, centrando a sua actividade na
qualidade da aprendizagem do aluno e não na qualidade do ensino do professor,
constatamos que o que importa é que os alunos aprendam.
Na aprendizagem importa que existam as dúvidas, provocadas
pelo professor ou surgidas naturalmente no aluno. Na aprendizagem importa que
haja curiosidade e vontade de esclarecer as dúvidas, junto do professor ou no
restante do mundo.
O papel do professor é, e para além de fornecer,
disponibilizar e fomentar os conhecimentos e competências no aluno, o de o
levar a procurar o seu próprio caminho, mesmo e principalmente contestando o
professor. De preferência, ir mais longe que ele.
Conheço alguns bons fotógrafos que dão aulas, que nada
percebem de pedagogia e que são incapazes de levar os seus alunos ou aprendizes
tão ou mais longe que eles mesmos.
E conheço alguns professores de fotografia que, sendo
medianos fotógrafos, sentem prazer ao serem ultrapassados pelos
alunos/aprendizes. São estes que nunca esquecemos com o passar dos anos.
Encontrar alguém que conjugue a excelência nos dois campos é
coisa rara.
Os meus cinco cêntimos.”!
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
A fotografia tem o terrível defeito de nos levar a fazer algumas
perguntas quando a vemos:
O quê, quando, quem, onde…
Ao contrário da pintura, que aceitamos não ser factual, da
fotografia esperamos algum tipo de semelhança com a realidade. “O fotógrafo
estava lá” ou “Documento” ou ainda “Para mais tarde recordar”.
Se não tem uma leitura ou interpretação imediata, se as respostas
àquelas perguntas não forem instantâneas, a imagem fotográfica é desprezada,
não se gastando com ela mais que o tempo de passar à seguinte.
Parar um pouco para deixar que sejamos nós a encontrar
dentro de nós as tais respostas, a deixar que seja a nossa imaginação ou
vivência a completar aquilo que o nosso racional não discerne, permitir um
diálogo entre quem vê e o que vê em vez de uma atitude passiva…
Da fotografia não se espera que nos ponha a pensar, que isso
dá muito trabalho. Mas isso também raramente nos permite sonhar.
Pentax K7, smc Pentax 50 1:1,2
By me
Recentemente veio parar-me às mãos este aparelho.
Já tens uns anitos (1968) mas, segundo o actual dono,
pertencia ao sogro e este cuidava do equipamento como ninguém.
Isto não me espanta se olhar para os estado de conservação,
que bastava ter a caixa de origem para ser fácil imaginar que tinha saído da loja
o ano passado.
Não tinha com ele o manual de utilização. Mas também não me
atrapalhou, que há páginas na net que estão bem apetrechadas de manuais e
demais informação relevante. Mas fazia-me falta, já que tinha alguma dificuldade
em perceber no todo o seu funcionamento. Está funcional em pleno, mas pode ser
confuso.
Mas o melhor de tudo está num pequeno parágrafo que quase
passa despercebido:
“It should
be mentioned at this stage that the Polysix-electronic cannot think for you. In
the same way that a computer is helpless without the skilled interpretation of
a programmer, so the Polysix-electronic will provide more precise exposure
information the more skillfully you use it.”
Eu acrescentaria aqui dois elementos: a objectiva e a
câmara. Não adianta ter a mais rápida e mais versátil objectiva nem a câmara mais
sensível e com mais menús, se não soubermos tirar partido do que temos nas
mãos.
Pentax K1
mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
By me
"Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho
quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o seu
fascínio de joia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe
suprimirmos os efeitos da sombra."
in "O elogio da sombra", by Junichiro Tanizaki
Pentax K1
mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
O conceito de liberdade é tão relativo que fiquei sem
palavras quando, em ’82 e em Málaga, perguntei a um jovem licenciado em
medicina se o seu país, Argentina, era um país livre e ele me disse:
“Sim, claro. Podemos sair à rua à noite e tudo.”
Nunca mais encarei a liberdade da mesma forma.
Pentax K7, smc Pentax-M 50 1:1,7
By me
Se fosse de dia, se fosse uma lamparina e se não tivesse
óculos, poderia dizer-se que estaria a fazer uma imitação de Diógenes, que
assim procurava um homem honesto.
Não sendo nada disso, até porque é uma busca que já desisti
de fazer, é apenas uma fotografia de noite, o estado luminoso em que se
encontrava a rua na altura em que consegui terminar a reparação de uma coitada
câmara que me foi pedido para fazer.
E se filosofia é, etimologicamente, a procura ou o amor ao
conhecimento, então talvez eu seja um praticante, mas só talvez, que dá mesmo
muito trabalho.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Não, isto não é uma imagem da frente e verso de um mesmo
aparelho de medição de luz.
São dois fotómetros quase identicos: o mesmo fabricante, o
mesmo sistema interior, o mesmo aspecto exterior, o mesmo nome. A única diferença
está na parte de trás do aparelho.
Nela consta o que aqui se vê e a que o fabricante, Gossen,
deu o nome de color finder.
Nos anos ’60, bem antes do digital, haveria que ter bem em
conta qual a temperatura de cor existente no local. E se os profissionais, com
mais poder de compra, tinham o caríssimos termocolorímetros, os amadores tinham
este sistema engenhoso que, não sendo rigoroso, dava uma ideia aproximada.
Em olhando para as duas barras coloridas, uma continua, a
outra dividida em pequenos quadrados, e colocando tudo isto sob a luz do
assunto, um dos quadrados seria mais parecido visualmente com a outra barra. E
a escala lida nos diria, mais ou menos, a temperatura de cor existente. Simples,
pouco rigoroso mas bastante facilitador do trabalho.
Os sitemas electrónicos e os automatismos ou ajustes manuais
de hoje não dão a mais pálida ideia do que era fotografar em côr há 60 anos.
Suponho que os aparelhos que possuiam o Color Finder seriam
um pouco mais caros que os seus iguais sem tal acréscimo. E que menos se
venderiam então. Por isso o não ser muito fácil de os encontrar à venda no mercado
de usados, pelo menos por cá. E fazia
tempo que procurava um exemplar. Veio este agora.
O que acaba por ser interessante é que boa parte de quem
vende fotómetros e que não é comerciante, é um aficionado pela fotografia ou um
profissional. Indo mais longe, tenho três aparelhos que me foram vendidos por
directores de fotografia que, por este ou aquele motivo decidiram “despachar”
as velharias das gavetas. E, na sua maioria, ficaram mais que satisfeitos por
fazer negócio com alguém que estima este tipo de equipamento, conhece o ofício
e com quem pôde estar uns bons minutos de conversa sobre a actividade.
O prazer de uma coleção não está apenas na posse do que a
constitui. Esse será um aspecto com menos de metade do peso. A satisfação está
na caça e no encontrar das peças que se procuram e na aprendizagem que se pode
obter conversando e ouvindo quem as vende. Essa é a verdadeira riqueza e não há
dinheiro que a pague.
Pentax K1
mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
By me
Acredito que muitos dos que usam a câmara fotográfica não
entendam este prazer:
Estarem confrontados com uma situação a registar e fazê-lo
com o ângulo de visão que têm disponível. Ajustando as diversas vertentes do
acto fotográfico a essa objectiva. Ou, em alternativa, decidirem que querem
esta ou aquela objectiva porque é a que tem as características que se desejam e
colocá-la na câmara. A satisfação advém, neste caso, da decisão se verificar acertada.
Últimamente tenho andado com uma 85mm 1:1,9, numa câmara
APS-C. É um ângulo de visão que se aproxima do meu natural, sendo quase uma
extensão natural do meu olhar. Hoje, ao sair de casa, acrescentei ao saco, nem
sei porquê, uma 35mm 1:3,5. Bingo!
Sentado na esplanada, retemperando forças da tarde longa que
as minhas pernas já não são o que eram, ia contemplando a avenida, o seu
movomento, as suas luzes.
Eis que fui surpreendido por uma mocinha (esta) que se sentou
a uma mesa de distância mas que me surpreendeu: sentou-se de costas para a
avenida e de frente para mim. Poderia ser lisonjeiro para com a minha pessoa,
mas não era o caso.
E ficámos ali, eu de volta do meu bolo de chocalate, ela de
volta do seu croissant, tentado cada um lidar com os pombos atrevidos que
vinham pelas migalhas.
Já ela se afastava e acabámos por estar à conversa, agora
partilhando mesa, sobre arte, críticos de arte, filósofos da imagem contemporânos
e trocando sugestões literárias sobre os temas. Entenda-se que ela é estudante
de artes nas vertentes teóricas, pelo que estes assuntos não lhe serão
estranhos.
Mas não se foi embora sem me satisfazer a minha curiosidade:
porque se havia sentado de costas para avenida, ao contrário de todos os demais
que ali estavam. Queria ela isolar-se para poder pensar muito a sério. Não lhe
perguntei sobre o quê.
Antes de levantar, o meu pedido sacramental: “Posso
fazer-lhe uma fotografia?”, que anuiu.
Abençoei o momento, uns minutos antes, em que havia trocado
a 85 pela 35. O trocar de objectiva é sempre um quebrar o momento do acordo tácito
ou explícito com um desconhecido. Foi o que me saiu!
E para aqueles que defendem que a 35mm não serve para
retrato, eis uma demonstração do seu contrário, pese embora a perspectiva
próxima.
E eis também a demonstração que uma objectiva com mais de
meio século completamente manual faz corar de vergonha algumas das modernas,
com todos os seus automatismos e etc.
Pentax K7,
Super Multi Coated Takumar 35 1:3,5
By me
Do ponto A ao ponto B na minha cidade natal, usando uma
objectiva de 1967.
Praça de toiros do Campo Pequeno, ao cair da noite.
Pentax K7, Pentax Super Takumar 85 1:1,9
By me
Quando, no decurso de uma viagem, encontramos indicação de
desvio que nos força a tal, interpretamo-la como um incidente de percurso e
continuamos, presumindo que se trata de algo inevitável mas temporário.
Mas se, na continuação dessa mesma viagem, constatamos que
as placas de desvio se sucedem, erráticas e sem nexo aparente, começamos a
colocar questões.
Será que embarquei na viagem certa?
Será que estou no veículo certo?
Será que chegarei a bom porto?
Será que chegarei a algum porto?
Será melhor sair nalguma escala?
Será que haverá alguma escala?
Adianta continuar numa viagem repleta de desvios e sem que
saibamos que rumo temos ou mesmo se haverá rumo?
Por vezes, em viagens atribuladas e quase sem sentido, faz
sentido arrear as velas, largar ancora, tomar a altura do sol, consultar o
quadrante e pensar seriamente na jornada feita e naquilo que, eventualmente,
teremos ainda p’la frente.
Nikon Coolpix P7000
By me
Rígida, não caminha nem nunca caminhou. Mais ainda, apesar
de amachucada, nunca foi calçada. E isto porque o seu interior, no lugar de
vazio e pronto a receber um pé, é maciço, feito de loiça.
Como aliás toda ela.
Explicado num português com forte sotaque francófono, o seu
vendedor da mesma cor da bota sempre me explicou que serviria, se o
quiséssemos, como cinzeiro. E, como que para mo demonstrar, lá me mostrou a
ranhura no calcanhar para segurar um cigarro a arder.
E, ao fim de tanto tempo com um olhar desperto para sapatos
(botas, chinelos, pantufas e afins) abandonados na rua, não pude deixar de
reparar que esta bota estava sozinha na banca de uma “feira” de ocasião, numa
estação de caminho de ferro.
Não resisti e, não a podendo fotografar ali mesmo,
comprei-a. Esta poderia não ter o par, mas não ficaria ali abandonada, no meio
de tanta outra quinquilharia e artesanato senegalês.
Para minha tristeza e talvez porque sou ingénuo, mal me
tinha afastado e outra ocupava o mesmo lugar.
Mas não pude deixar de dar uma gargalhada, ao constatar que
também esta era do pé direito. Suponho que, por baixo da bancada, haveria um
caixote cheio de botas de loiça, todas do pé direito.
E as do pé esquerdo? Onde estarão?
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Estava de férias em Lagos.
A família regularmente alugava a mesma casinha nos limites
rurais da cidade e íamo-nos espraiar de manhã e à tarde para a meia praia.
Uma ocasião vi um glorioso carro dos anos 50 estacionado na
avenida marginal. Impecável, parecia acabadinho de sair da fábrica. A seu lado,
uma pequena palmeira no passeio. Mais ao fundo, a muralha de pedra do porto e o
céu azul.
Este conjunto sugeriu-me uma imagem a fazer, desde que com a
luz no ângulo certo. Feitas as contas e olhada a bússola, seria pelo meio-dia.
Uns dias depois, tendo o céu a limpidez adequada, parti
descendo a colina, carregado com a câmara, as ópticas, os filtros, o tripé…
toda a parafernália. Havia que chegar ao local a tempo de apanhar o sol na
posição certa.
A meio caminho sou interpelado por um casal de velhotes que
caminhava em sentido inverso:
“- Olá, como está?
- Desculpem mas… conheço-vos?
- Não se lembra de nós?
- Confesso que não. Querem ajudar-me?
- Em Coimbra, junto à Sé velha, há uns anos… Aquela
fotografia que nos tirou…”
Recordei-me então e ficámos um niquinho à conversa.
Reformados que estavam, aproveitavam quando estava bom tempo
para passear e conhecer o país como não tinham podido quando jovens.
E, à medida que iam viajando, iam fotografando o que viam,
enquadrando-se ora um ora outro na imagem. Tinham uma única fotografia de ambos
desses passeios: Aquela em que eu me tinha oferecido para fazer com a câmara
deles, em Coimbra, aquando de uma das minhas peregrinações ao Encontros de
Fotografia.
Apenas uma, de milhares que tinham. Apenas uma que os
mostrava aos dois. Partilhando os Outonos amenos da vida e de Coimbra.
A minha oferta, tão natural quanto um copo de água, marcou-os
indelevelmente. Aquela fotografia não é uma fotografia para eles:
É “A” fotografia.
Confesso que na altura já nem me recordava do facto. E, não
fora eles, nem nunca mais o recordaria, de entre muitas situações semelhantes
vividas.
E esta fotografia, que nunca vi, é uma daquelas que consta
do meu álbum de recordações. Não como um ponto de viragem, mas mais como um
parágrafo no livro que vamos escrevendo e a que chamamos vida.
Quanto à foto do carro? Bem, a hora de verão está atrasada
em relação à solar, pelo que cheguei demasiadamente tarde nesse dia. Voltei lá
mais tarde, mas não consegui dar-lhe aquele ar retro-californiano que queria.
Não adianta imitar. Há que ser espontâneo e generoso na
fotografia, tal como na vida.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me