segunda-feira, 25 de maio de 2026

Photographia – Fazer amor ou praticar sexo




Eu estava naquela galeria, a ver fotografias e a conversar com o autor. A certa altura, perguntou-me porque é que eu carregava todo aquele equipamento: uma mala pesada, cheia de coisas, e o meu monopé pendurado na alça da mala ou preso à mão.

Não me recordo da minha resposta, mas suponho que refletia a minha vontade de poder fotografar o que quisesse e estar preparado para isso, sem depender das limitações de uma pequena câmara de bolso. Mesmo que eu sempre tenha defendido que podemos fazer fotos boas ou satisfatórias com qualquer câmara, desde as mais sofisticadas até aquelas câmaras "pinhole" que estão um pouco na moda hoje em dia. Desde que conheça os seus limites e saiba usá-los bem.

Anos mais tarde, comprei uma câmara com um telemóvel acoplado. Uma boa câmara, com uma boa objectiva, é só apontar e disparar. Quase que "à prova de idiotas". O meu objetivo era praticar com uma câmara de focagem fixa e impor-me a prática da perspetiva, a irmã “pobre” das objetivas zoom atualmente.

Mais recentemente, comprei uma câmara de bolso. Objectiva muito boa, boa resolução, fácil de usar e o mais leve possível. E sempre pronta a usar, pendurada no meu cinto o tempo todo, como arma de reserva. Um bonito caderno de apontamentos fotográficos.

Se alguém me fizesse hoje a mesma pergunta a minha resposta seria diferente: gosto de fazer amor, não apenas de sexo.

Com a minha câmara reflex, digital ou analógica, posso abraçá-la, encostar o rosto nela, acariciá-la no anel de focagem ou zoom, tocá-la suavemente onde ela reage, tendo uma reação suave, sob a forma de uma fotografia.

Com a câmara do meu bolso ou do telemóvel, apenas apontamos e disparamos, e pronto. Nem sequer dá para lhe tocar, uma vez que o visor precisa de ser visto a uma distância de, pelo menos, 25/30 cm. Não há envolvimento romântico entre câmara, fotógrafo e modelo, não há "preparativos" nem "aquecimento". Só sexo, não amor!

Acredito que as fotografias são criadas na nossa mente, com as lentes dos nossos olhos. E tudo o resto, desde o enquadramento e a medição da luz até todas as tarefas de pós-produção (edição, impressão, emolduramento e assim por diante), são apenas as necessidades técnicas para satisfazer essa necessidade ou criação. Etapas necessárias para materializar a nossa imaginação!

Mas todo este processo também faz parte da diversão. Precisamos de nos divertir no trabalho, ou ele tornar-se-á uma obrigação. E ninguém gosta de obrigações!

Há uns tempos fotografei uma família com a minha câmara fotográfica "antiga". Um casal e duas crianças. A mulher tinha o sorriso mais bonito que já vi, brilhante, contagiante, cativante! Fiquei tão fascinado que, como caçador de imagens que sou, desejei ter aquele sorriso, quase que como um troféu.

Mas, nesse dia, fui para essa sessão fotográfica com uma versão mais leve, levando comigo apenas a câmara fotográfica antiga falsa com o seu tripé de madeira e a minha câmara de bolso, presa ao cinto. E nenhuma delas seria capaz de fazer o retrato que ela merecia.

A câmara "antiquada" precisa de estar no tripé, não só por causa do peso, mas também por causa do formato: quadrado e grande.

Quanto à câmara de bolso, a zoom tem apenas 5x de ampliação. Não conseguiria captar apenas o rosto dela, a não ser que me aproximasse demasiado, sendo invasivo. Por outro lado, a ausência de um para-sol impedir-me-ia de utilizar a forte luz de fundo do sol baixo como eu gosto. Nem mesmo a minha mão a fazer essa função resultaria, uma vez que a câmara não tem a distância focal necessária e eu teria sempre reflexos indesejados.

Se lhe pedisse para fazer um retrato daquele sorriso encantador, ou não conseguiria o enquadramento certo ou a iluminação seria fraca. E não pedi!

Não seria um ato de amor, aquela foto! Seria apenas sexo.

Talvez, um dia, estejamos todos juntos, ali ou noutro lugar qualquer. E estarei pronto para aquele sorriso com a minha Pentax, deixando a minha câmara de bolso no cinto ou em casa.

Quanto a esta fotografia, foi um acto de amor, enquadrando, brincando com a luz, a perspectiva e a profundidade de campo. E utilizando a minha Pentax K100D com a objectiva Sigma 70/300 a uma distância confortável. Mesmo que o sol não estivesse tão baixo como eu gostaria.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 23 de maio de 2026

Genealogia




Gostaria de vos apresentar as velhotas que comigo residem.

Há que lhes dar valor, mesmo que as novas gerações de câmaras as empurrem para um canto. No entanto, sempre gostaria de ver os jovens fotógrafos de hoje a fazerem tão belas fotografias como elas fizeram, com meios tão “rudimentares”.

Como lhes dou valor, volta e meia abro-lhes as porta, descem da vitrine e mostram-se, procurando na vitrine do lado a objectiva que mais lhes agrada. E ficam sempre algumas de fora.

Apresento-as: da esquerda para a direita, em cima: S1a (1962), SP 1000 (1973), S2 (1959), ES II (1973).

Em baixo, também da esquerda para a direita: SP (1964), S1 (1961), SV (1962).

Quanto às objectivas, e para não ofender as ausentes, não referirei nenhuma destas, apenas dizendo que variam entre 28mm e 200mm.

Para os mais atentos e conhecedores da matéria, alerto que há um elemento “penetra”, que não pertence a esta família. Mas gosto tanto dele, e sendo de época, que não resisti a inclui-lo. E em todas as fotografias de casamento há sempre alguém que ninguém conhece, não é? Fica o desafio de o nomearem e, se possível, identificarem.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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Privilégios




Podemos negar, inventar, justificar, contextualizar… podemos um montão de coisas menos apagar os factos.

E o certo é que no início dos anos 90 parava junto ao local onde trabalhava um carro que no vidro de trás tinha um autocolante com os seguintes dizeres:

“Quando deus criou o mundo, devia estar louca”

É meu privilégio poder dizer que trabalhámos juntos até eu me deixar disso.

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 22 de maio de 2026

O cota barbudo e os seus discursos inflamados




Tal como a maquinaria, também o corpo humano se vai gastando. E, de quando em vez, vá de ir fazendo testes: para confirmar aquilo que já se sabe ou para descobrir novas maleitas. Hoje foi dia disso.

Ao entregar a papelada perguntei quando estariam prontos, ao que me disseram que enviariam os resultados por correio eletrónico. Mas que se os quisesse impressos, que estariam disponíveis no dia 3.

“No dia 3?! Mas é dia de greve geral!”

“Pois é, mas eu venho de carro e não uso o comboio.”

“Mas o problema não é os comboios estarem parados. A questão mesmo é vocês virem trabalhar nesse dia.”

“Ah, bem, sabe como é...”

“Sei, ou acho que sei. Eu não faço greve porque já não estou no activo. Mas farei questão de nada fazer que dependa do trabalho de alguém que nesse dia não está de greve. Mas ao não fazerem greve, mesmo que estejam a não se incompatibilizarem com quem vos emprega, estão a não acautelar o vosso futuro. Em muitos aspectos importantes. Até no assegurarem o vosso posto de trabalho actual. Informem-se e actuem! Virei na quinta-feira, dia 4!”

Calei-me para mudar de posição. Que a minha anca esquerda estava a dar sinal de si. E olhei em redor.

Além de quem me atendia, mais três funcionárias atendiam gente a querer tratar da sua saúde. E em frente delas, várias pessoas a serem atendidas.

Mas todas elas, com ou sem farda imaculada, estavam paradas e a olhar para mim, o tipo das barbas que assim falava, num tom em crescendo. Quando viram o meu varrer de olhar, fizeram de conta que estavam muito ocupadas e o silêncio que se tinha feito, apenas cortado pela minha voz, desfez-se como que por magia.

Com um pouco de sorte, uma ou mais daquelas pessoas se recordarão no momento certo daquele cota barbudo que, já pouco podendo fazer pelo seu próprio futuro, não desiste de lutar pelos futuros alheios. Com palavras e com actos.

 

Lumix DCM – DZ 60


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quarta-feira, 20 de maio de 2026

RP




É daquelas coisas que já chateia porque deixaram de ser discretas para serem insistentes. Muito insistentes!

As forças de segurança e investigação policial encetaram há não muito tempo uma campanha de relações públicas muito activa. Todos os dias, várias vezes ao dia, a imprensa e as redes sociais relatam situações de crime ou infração em que a psp, a gnr ou a judiciária estão envolvidas com sucesso. Detenções, investigações, apreenções... crime, infrações, família, tráfico, trânsito, dinheiro, violência...

Todos os dias, várias vezes ao dia!

Mas, e para além disso, contam-nos e mostram-nos imagens e relatos positivos, desde a graduação de novos efectivos, às fotografias “de encomenda” dos e das agentes sorridentes, as viaturas impecéveis e brilhantes de lavadas, as fachadas imaculadamente pintadas das instalações...

O trabalho de quem está à frente das relações públicas das forças policiais está bem e recomenda-se. Mas não abusem, que já chateia!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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terça-feira, 19 de maio de 2026

O terceiro grupo




Havia uma senhora, noutros tempos e noutras vivências, com uma muito forte conotação politico-partidária, que quando me via na sua secretaria com alguma das minhas reclamações, sugestões ou discursos mais inflamados, tinha uma frase sacro-santa:

“Lá está o professor JC com o seu feitiozinho soviético”.

Nunca lho levei a mal. Era difícil levar a mal alguma coisa daquela senhora, até porque raramente fazia algo por mal.

E, se outro motivo não houvesse, ela tinha razão. Eu tenho um feitiozinho soviético.

Soviético, Malaio, Hondurenho, Zairense, Tuga, o que lhe quiserem chamar.

Agora uma coisa eu garanto:

Quando me chamam para engrossar fileiras e eu vou e acabo por ouvir e sentir um “nós e vocês”, é garantido que surge um terceiro grupo: os que estão fora.

E se não tiver mais ninguém, eu serei o presidente, o secretário geral, o presidente da assembleia-geral e farei quórum sozinho nas reuniões plenárias.

A dona Alice tinha razão: tenho um feitiozinho soviético!

 

Nikon Coolpix P7000


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Cada cor seu paladar




É verdade que sim: tenho uma quantidade razoável de pára-sois.

A maior parte deles adquiridos solitários, em feiras de usados e a preços menores que de saldo.

Eu explico.

Entendo que o pára-sol é peça fundamental da objectiva. Não apenas protege de luzes parasitas, evitando baixos contrastes ou reflexos internos indesejáveis, como protege a objectiva de acidentes. Já parti pára-sois com pancadas acidentais. Nunca uma objectiva. Acontece que alguns fabricantes e muitos utilizadores entendem-nos como acessórios não essenciais e, ou não os vendem com as objectivas, ou não os procuram para comprar junto com as objectivas. E no mercado de usados o mais comum é encontrar objectivas sem pára-sol.

Assim, quando encontro à venda um modelo que não tenha, levo-o comigo. E sabemos como os pára-sois são “esquisitos” nas suas características: tamanho, forma e fixação.

Guardo as objectivas sem pára-sol, estando colocados apenas nas que uso com frequência, excepto os dedicados em forma de pétala. Quando acontece ir buscar uma menos usada, passo pela gaveta e encontro um que faça a função, seja ou não da marca.

Alguns dificilmente os usarei, já que duvido que alguma vez venha a ter uma objectiva que o use. Principalmente quando a minha preferência é Pentax. Mas já tenho oferecido a quem procura e não encontra o certo para a que tem.

Estão ali quietinhos, fora de vista e guardados numa gaveta. À espera de serem usados e protegerem as fotografias que faço. Se elas são boas ou não, isso é outra história.

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

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domingo, 17 de maio de 2026

O outro lado


 

No seu filme “Yi-Yi”, premiado em Cannes em 2000, Edward Yang presenteia-nos com algumas preciosidades.

Desde logo o como fazer enquadramentos verticais usando um formato horizontal. Delicioso!

Mas, e o que me interessa neste caso, o ter colocado nas mãos de uma das principais personagens – uma criança – uma câmara fotográfica. De película.

O pai observa, posteriormente, as fotografias feitas e estranha a quantidade de imagens de gente de costas.

Quase no fim do filme, o catraio entrega ao tio uma fotografia contendo a respectiva nuca. E acrescenta:

“É para que vejas de ti aquilo que nunca vês.”

Fantástica, a ideia.

Efectivamente, é sempre interessante ver aquilo que crianças fotografam sem que lhes digam o que fotografar. O que lhes chama a atenção, a forma como enquadram, se já jogam ou não com primeiros planos…

E sendo certo que as crianças, em regra, aprendem por ver fazer e mimando o que vêem – os adultos ou iguais – parte daquilo que fazem é fotografar o que, de algum modo, chama a atenção dos outros.

Para os pequenos, com a sua relativização do tempo, a fotografia raramente é um registo para a posteridade ou “para mais tarde recordar”.

Fotografam porque aquele assunto, naquele momento e naquelas circunstâncias, lhes interessa.

E é essa a atitude que muitos de nós, fotógrafos entusiastas ou profissionais, temos: parte do nosso gesto de fotografar resulta da motivação de aquilo nos interessar naquele momento e naquelas circunstâncias.

É muitas vezes o factor “afirmação social” que nos leva, mais tarde, a recuperar essas imagens, mesmo que não muito bem feitas, e atribuir-lhes algum valor: documental, estético, comercial… Mostrar aos outros que, num dado momento e local, aquilo nos interessou. E como somos bons a registar aquilo que nos interessou, mesmo que o resultado não seja grande coisa.

Só os bons fotógrafos conseguem ultrapassar esta questão do “agora interessa-me” e fazer imagens que perduram no tempo.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Aprendiz




Há uns bons anos atrás, numa das minhas idas mais ou menos regulares a Barcelona, levei comigo uma sobrinha adoptiva.

Uns meses antes, aquando de um jantar com os seus pais, amigos de longa data, virei-me para ela e perguntei-lhe: “Como é? No verão queres ir comigo a Barcelona?”

Ficou a olhar para mim com cara de tola, os pais a rirem da brincadeira mas, nesse Setembro lá estivemos, 10 dias a ver e viver o possível para ambos.

Um dos locais onde não podia deixar de a levar foi o Museu Picasso. Ainda que não possua as principais obras do génio, cobre toda a sua vida, todas as suas fases, tendo, entre outros, muitos trabalhos da sua infância e esboços de trabalhos maiores e famosos.

No final, perguntei-lhe sobre o que mais havia gostado, entre o que tinha visto e aquilo que eu lhe tinha conseguido explicar.

A resposta foi bem clara, para quem tinha onze anos à altura: “Das pinturas de quando ele era criança e pintava como as pessoas!”

Vem esta estória a propósito de ver e ouvir dizer que não se gosta de regras e convenções.

Posso presumir – e saber – que Picasso, Miro, Dali e tantos outros, também não gostavam de regras e convenções e que, quando partiram para o seu estilo próprio e inovador, foi uma tentativa de quebra com todas elas.

No entanto, qualquer um deles dominava, ou tinha dominado, as formas de representação plásticas convencionais, de acordo com as regras estéticas em vigor.

Não apenas porque as estudaram e aprenderam como, querendo expressar os seus próprios sentimentos e emoções e que eles fossem entendidos por outros, tiveram que recorrer às convenções, códigos e regras existentes.

O que aconteceu foi que, a dado passo, se sentiram insatisfeitos com o que faziam, pois que não o interpretavam como representando o que lhes ia na alma. Partindo das convenções, começaram a inovar, variar, quebrar as regras e códigos estéticos instituídos até encontrarem uma outra linguagem. Onde eles próprios se reconhecessem e que outros, com sentimentos na mesma linha, os reconhecessem e aos seus sentimentos.

Por outras palavras, num círculo de comunicação restrito, criaram outras e novas formas de comunicação, com outras e novas regras e convenções.

Porque, na total ausência de regras e convenções, a comunicação não existe, já que quem vê não entende quem pinta (fotografa, compõe, filma, dança…)

Indo mais longe, o simples facto de nos exprimirmos define uma convenção ou regra, já que o seu autor convenciona ou define que aquele gesto, aquela cor, aquele som ou aquela organização de espaço corresponde a um dado sentimento seu. É um ícone ou a substituição de algo impalpável por algo material ou não, visível ou audível.

Aquilo que eu gosto de ouvir ou ler é, antes sim, que não se gosta destas regras ou convenções. Porque não satisfazem, porque não correspondem aos sentimentos ou porque representam uma geração com a qual se quer quebrar amarras e criar distância. Ou ainda porque essas regras ou convenções nos sufoca e prendem, aspirando nós a outros voos.

É isto que gosto de ler ou ouvir, principalmente se seguido por algo nesta linha:

“Não gosto disto, não me satisfaz, não me identifico com estas regras, convenções, linguagem! Vou partir e encontrar o meu próprio caminho, a minha própria forma de expressão, as minhas próprias regras, convenções, códigos!”

Quando oiço ou leio isto, a minha reacção é sempre a mesma: “ Aleluia! Mais um que aprendeu a pensar e que nos vai ensinar algo de novo! Deixa-me aprender contigo!”

Porque, enquanto por cá andar, serei sempre um aprendiz. E é tão bom!...

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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O sorriso noturno




O meu primeiro fotómetro foi um Sekonic. Para os mais rigorosos, um Sekonic Studio Delux L-28c.

O seu método de leitura preferêncial é o de luz incidente, pese embora também faça leituras reflectidas.

Pertence ele a uma série de aparelhos desta marca concebidos primordialmente para directores de fotografia de cinema e iluminadores de televisão e teatro e foi adoptado pelo mundo fora pelos respectivos profissionais.

O seu uso foi tão generalizado e com resultados tão positivos que, apesar de ter sido concebido em meados dos anos ’60, ainda hoje se vende ainda que com pequenas melhorias entretanto acrescentadas. Claro que para os que seguem as modas tecnológicas um aparelho cujo mostrador seja um ponteiro e não um ecrã digital é uma velharia desprezível, mas estão enganados.

Em qualquer dos casos, quando o comprei usado a um director de fotografia, não consegui encontrar o estojo com as lamelas ou slides que o tornam ainda mais versátil e prático de usar. Foi um desejo/sonho que fui alimentando ao logo de dezenas de anos, que só não foi sendo uma frustração porque me habituei ao que tinha.

Agora imaginem a minha satisfação ao descobrir há pouco que esta série de aparelhos ainda se fabricam e que o conjunto de lamelas ou slides também. Melhor ainda, que uma loja em Lisboa tinha esse estojo de lamelas à venda, novinho em folha. Ponderados os diversos factores – valor do negócio e importância do capricho – acabei por o ir buscar.

Não sou director de fotografia nem iluminador e o uso que darei a esta nova aquisição será mesmo diminuto. Mas o cumprir um sonho de mais de quatro décadas faz qualquer um adormecer com um sorriso nos lábios.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O tótó




Fui enganado. Não adianta argumentar em contrário.

Fui enganado e em parte a culpa foi minha, que fui na conversa de uma mais que simpática menina de um balcão de atendimento de uma grande empresa neste país.

Eu sabia o que queria há pouco mais de um mês, não foi o que me foi entregue e a resposta que recebi redundou, hoje, numa ida a uma outra loja dessa empresa (não importa qual) reclamar e obter aquilo que queria logo de início.

Haveria várias abordagens à questão: entrar a matar, refilando com tudo e todos; exigir o que queria ameaçando com os quintos dos infernos e mudança de fornecedor; ou entrar como se fosse muito burro, quase pedindo desculpa pela minha ignorância e existência, e pedindo que me resolvessem o problema. Que, em boa verdade, fora provocado por uma funcionária deles.

Optei pela última hipótese.

Fiz-me de tolo, de completo ignorante na matéria, contei a história toda desde pequenino, atirei com o meu charme e umas piadas feitas na hora a propósito do que estivéssemos a falar, dei bom uso à cor das minhas barbas e ao que delas se poderá interpretar, et voilá:

As coisas resolvidas, por quem me atendeu com o auxílio por ela reclamado de mais duas outras pessoas, pediram-me desculpa pelo incómodo e quase só faltou saírem do seu lugar para me abrirem a porta à saída.

E nem queiram saber o que eu me estava a divertir fazendo-me de totó!

É por estas e outras que prefiro o atendimento presencial, cara-a-cara, que os Call Center, onde estes truques não funcionam.

 

Nikon Coolpix P7000


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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Cházinho e futuro




Em primeiro lugar, sempre gostava de saber quem é que lhes deu confiança para tratarem os seus concidadão por “tu”. Garanto que não fui eu!

E iria ser uma barraca se alguém da “populaça” tratasse algum deputado ou ministro desta forma, em vez do convencionado e formal “você”.

Com este cartaz bem se vê o cházinho que não beberam quando eram pequenos.

Em segundo lugar, se o resultado de dois anos de trabalho pelo nosso futuro é aquilo que hoje temos, mais valia terem ficado quietos! E que fiquem quietos, que pelo andar da carruagem as coisas não irão melhorar.

Pelo menos há que reconhecer que assumem as responsabilidades. Cobraremos de modo formal no próximo acto eleitoral, ou informal antes disso.

 

Pentax K7, smc Pentax-FA 28-200


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Outros tempos




“Boa tarde! Faça o favor…?”

“Boa tarde! Eu queria falar com o sr. Duarte.”

“Com certeza. E quem é que quer falar com ele?”

“Eu disse que queria falar com o sr. Duarte.”

“E quem é que quer falar com o sr. Duarte?”

“Eu queria falar c…”

CLIC

A situação ou diálogo repetiu-se.

Só aquando da terceira ligação, sempre de número explícito, é que do outro lado se identificaram. Por sinal de uma loja onde eu havia feito uma encomenda, a avisarem-me que já lá estava o que tinha pedido.

No meio de tudo isto, o que tem mesmo piada é ter acontecido pouco depois de eu ter feito algumas fotografias em torno de uma vetusta cabine telefónica, que quase só existe para turista ver. De uma época em que ninguém se lembraria de iniciar uma conversa telefónica sem ser pela sua própria identificação.

 

Outros tempos.

 

LG-D405


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terça-feira, 12 de maio de 2026

O verdadeiro




Quando fazemos uma fotografia recorremos a sistemas mais ou menos complexos para aquilatar da quantidade de luz que queremos que chegue ao alvo, seja ele película ou sensor electrónico.

O sistema concebido para tal, pondera os factores envolvidos: a quantidade de luz que chega ao aparelho, a sensibilidade deste, a abertura de diafragma para deixar passar a luz e quanto tempo o alvo estará exposto a ela.

Fazemos isto usando aquilo a que chamamos de fotómetro, seja ele embutido na câmara, seja ele externo. Os mais antigos dão-nos a indicação que queremos através do posicionamento de um ponteiro, os mais modernos com os diversos valores expressos por números visíveis num ecrã.

Mas, seja qual for o sistema ou a modernidade, nunca estamos a medir a luz mas apenas a regular a forma como a vamos utilizar. Apenas alguns, e de forma acessória, nos dão a indicação de quantidade de luz, medindo-a em footcandle (a origem do termo português fotómetro) ou em lux, unidades mais ou menos universais.

Mas medir luz não é apenas exclusivo de quem capta imagem. Quem concebe espaços interiores, fábricas, habitações, salas de espetáculo, estações de caminho de ferro..., também necessitam de medir luz para que as actividades que aí se desenrolam tenham a quantidade necessária para que se veja o que se está a fazer ou acontecer.

É aí que entram os verdadeiros fotómetros ou luximetros: apenas medem quantidade de luz, deixando ao seu utilizador a tarefa de a usar a seu bel-prazer ou função. Ele sabe quanta luz necessita e quanta é libertada pelas diversas lâmpadas no mercado. Tal como saberá de que forma a quantidade de luz varia em função da distância e qual o rendimento dos reflectores onde cada lâmpada está colocada. O fotómetro é então usado para verificar os calculos efectuados e fazer correções nas posições da luminárias se tal for necessário. Ou substituir lâmpadas que, por deito de fabrico ou pela idade, já não tenham o rendimento desejável.

Vem tudo isto a propósito deste aparelho que aqui exibo: um verdadeiro fotómetro. Apenas mede luz, sem complexos cálculos de exposição fotográfica.

Comprado hoje, por um valor inferior ao de qualquer refeição de faca e garfo numa qualquer tasca barata. Vi o anúncio num site de artigos usados e não resiti a o juntar aos demais sistemas de medição de luz e de exposição fotográfica que por aqui existem.

Se o vou usar para fotografar? Quase de certeza que não. Estou demasiado viciado nos quadrantes e indicações dos “fotómetros” ou exposímetros, para usar de um bom pedaço de tempo a fazer contas complexas.

No entanto não confio por completo no que estes me sugerem. Nesta imagem, por exemplo,  usei o exposímetro da câmara mas reduzi a exposição em 1,5 EVs (mais uma unidade de relativização de exposição). Isto porque sei como funcionam os aparelhos e, se tivesse seguido as suas indicações, iria obter um cinzento feio e falso, no lugar de negro bem profundo do aparelho fotografado.

Os sistemas existentes, para fotografar ou seja para o que for, dão-nos informações auxiliares e não dogmas a seguir sem contestação. O ser humano ainda é a peça fundamental no resultado final.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Penso eu de que"




Em 2013 enviei eu o texto abaixo transcrito para a produção do programa “Cuidado com a língua”.

Está tão ou mais actual hoje como estava então.

 

Senhores:

Quando vi o vosso programa usando a fotografia como tema para bem usar a língua portuguesa, fiquei entusiasmado. “Este programa”, pensei, “quero eu para usar como referência sobre alguns disparates que se vão dizendo.”

Acontece que quando vi o programa não o estava a ouvir. Só alguns dias depois, e através do sitio da RTP o pude fazer. E logo mudei de opinião.

Que este programa não quero eu nem o irei usar como referência. E explico o porquê.

Começando logo com alguns erros técnicos “de palmatória”: o trabalho de laboratório, nomeadamente a positivação em papel da imagem, não pode ser sempre feita sob luz de segurança. Apenas quando se usa papel ortocromático, vulgarmente conhecido por “preto e branco”, isso é possível. No caso da fotografia ampliada para papel a cores, que é pancromático, isso é impossível.

(Se os termos “ortocromático” e “pancromático” parecem palavrões técnicos, veja-se um pouco de história e saiba-se o significado e origem dos prefixos “orto” e “pan”.)

Ainda dentro do laboratório, saiba-se que a “luz de segurança” usada não tem que ser obrigatoriamente vermelha. Alguns tipos de papel fotográfico ortocromáticos permitem usar lâmpadas ou lanternas de segurança verde-amarela. O que, acrescente-se, é quase o que se pode deduzir pelas imagens que nos apresentaram aquando da revelação do papel: o tom geral da imagem é bem mais amarelo-esverdeado que vermelho. Não seria fácil fazer a captura de imagem com luz vermelha, que tem muito pouco rendimento luminoso, mas um qualquer filtro na câmara ou o correcto tratamento posterior em edição fariam o serviço.

Em seguida, uma velha discussão: imagem analógica e imagem digital.

Toda e qualquer imagem fotográfica, digital ou não, é analógica. Existe sempre analogia entre a imagem captada e o respectivo assunto. E toda e qualquer imagem fotográfica só é visível depois de revelada. Ou, e como bem disseram, depois de “retirado ou véu”.

A diferença está em que a imagem captada em película necessita de “revelação” química e a captada por meios eléctricos necessita de “revelação” electrónica. Os processos de codificação e descodificação dos diversos tipos de formatos de imagem digital são, efectivamente, o revelar da informação que foi produzida pelo sensor da câmara que, antes de ser objecto desse tratamento, se encontra invisível. Ou “velada”.

O termo correcto para a fotografia captada em película será, se outro não quiserem usar, “foto-química”. Ou “… em película”.

O uso da expressão “fotografia analógica” surge apenas após a criação da fotografia electrónica ou digital e só porque haveria que dar um nome para diferenciar os processos de produção e respectivo arquivo dos processos intermédios.

Porque, e em olhando para duas boas fotografias, uma dita “analógica” e outra dita “digital” e já impressas, não se saberá qual ou quais os processos empregues. E ambas são analógicas, com toda a analogia ou semelhança entre o que nelas vemos e os assuntos fotografados.

Sobra uma questão velha de séculos: câmara ou máquina fotográfica.

Foi pena que em tudo o que disseram sobre a origem do termo “câmara”, se tivessem esquecido da “mãe” de todas as câmaras de produção de imagem: a câmara obscura.

Aquilo que é mais popularmente conhecido a seu respeito é o que nos conta Leonardo DaVinci. Mas os seus princípios remontam à antiguidade chinesa, à antiguidade grega, aos primórdios da cultura islâmica: um local escuro, com um orifício, que permite produzir uma imagem real, invertida e, geralmente, menor que o objecto.

A câmara fotográfica é isso mesmo; um local fechado à luz, onde ela entra por um espaço controlado, orifício simples ou com lentes compondo uma objectiva, produzindo uma imagem real, invertida e registável. 

E se a história e origem dos termos não servir para definir o termo certo, considerem-se dois exemplos: o cinema e o vídeo. Se os termos para identificar os sistemas de produção e captação de imagem cinematográfica ou videográfica são “câmara de cinema” e “câmara de vídeo”, porque se há-de usar “máquina” para a que lhes deu origem? Porque tem um “mecanismo”? Bem, a de cinema tem mecânica bem mais complexa que a de fotografia.

Sei que esta questão é velha, quase tanto quanto a fotografia. Mas, e muito curiosamente, é uma disputa que apenas existe em Portugal. Ao que sei, em nenhuma outra língua este problema se levanta, sendo o termo “câmara fotográfica” aceite como o único.

Faltou referirem duas outras questões, igualmente polémicas e linguísticas: o uso da expressão “velocidade de obturação”e o termo “lente”.

“Velocidade” é uma relação de qualquer acto em função de uma unidade de tempo. “Velocidade de sedimentação”, “velocidade de um automóvel”, “velocidade de escrita”. Quanto tempo para se obterem todos os sedimentos, quanto espaço se percorre por hora, quantas palavras se escrevem por minuto. É sempre qualquer coisa por unidade de tempo.

Acontece que aquilo que se regula numa câmara fotográfica é apenas o tempo que o alvo, película ou sensor, está exposto à luz. Apenas isto. Ajuste de tempo. Todo o mecanismo que destapa e volta a tapar o alvo se movimenta à mesma velocidade, seja qual for o ajuste que façamos. Que se trate de câmaras com obturador central (no interior da objectiva) quer se trate de câmaras com obturador plano-focal (no interior da câmara e junto do alvo).

Aliás, e em casos de dúvida, veja-se como esta tal “velocidade de obturação” é expressa: unidades de tempo. 1/500 de segundo, meio segundo, três minutos… Nunca uma referência qualquer coisa por tempo, como a luz (300000 quilómetros por segundo).

O termo “lente”, em questões de óptica, refere um pedaço de material, permeável à luz, cujas faces opostas não são paralelas. É um sistema óptico simples, cuja função é alterar a direcção da luz de uma forma controlada. Usamos lentes nos nossos óculos, usamos lentes nas lupas de aumento, usamos lentes (desta feita do modelo “fresnel”) na iluminação frontal de um automóvel ou num farol de costa.

Aquilo que as câmaras fotográficas possuem são conjunto ópticos, compostos de várias lentes de posição ajustável, as mais das vezes acrescidos de um mecanismo de controlo de fluxo luminoso a que damos o nome de “diafragma”. Alguns destes conjuntos possuem ainda o obturador no seu interior.

A estes conjuntos, complexos, dá-se o nome de objectiva.

A vulgarização do termo “lente” como sendo o sistema óptico que possuem as câmaras fotográficas (ou de cinema ou de vídeo) é um anglicismo a partir do termo “lens”.

A língua é uma coisa viva, evolutiva. E bem mais importante que o academismo é o servir para comunicar.

Podemos chamar a uma objectiva “batata frita” e intitular o tempo de exposição de “ovo estrelado”.

É indiferente que palavras usamos desde que nos entendamos. E muito brincam as crianças com isso, criando códigos de comunicação “secretos”, com palavras inventadas ou corruptelas da língua.

Mas, em termos profissionais ou quando se quer ensinar o uso de termos ou expressões “correctas”, convém ser-se rigoroso no que se transmite. Quiçá recorrendo a várias fontes de informação, científicas e credenciadas.

Ou então assumir que se trata de opinião, passível de contestação como esta que vos envio.

Não sou um lente na matéria, mas tão só um curioso. Mas custa-me ver ser dado como certo o que não o é, acrescido da responsabilidade dessas afirmações serem divulgadas pela televisão com o peso do rigor que um programa didáctico tem.

Como nota final: este texto ou missiva foi escrito ao desabrigo de qualquer acordo ortográfico. Assumidamente como tal. Mas também não me entendo como um especialista em ortografia.

Espero que o vosso programa continue a ter a efectiva simpatia e aparente simplicidade que nos cativa.

JC Duarte


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Interiores




TOC doméstico

 

Lumix DCM DZ 60


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domingo, 10 de maio de 2026

Prazeres




Há combinações que, na proporção certa, roçam o divino no palato.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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As fotografias feitas fora de ambientes controlados (estúdio) não são repetíveis. É o momento decisivo, como explicou o mestre. Podem ser copiadas ad nauseam, mas o acto fotográfico não se repete.

Tal como as emoções.

 

Nikon Coolpix P7000


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sábado, 9 de maio de 2026

Crises e emergências




Entre a guerra dos EUA e o Irão e os contágios com o hantavirus...

Já fez o seu açambarcamento de papel higiénico?

 

Lumix DCM TZ 60


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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Sem importância alguma




Esta é uma fotografia sem importância alguma.

Apenas uma parede, que me bloqueia o caminho, e uma janela, que não me deixa ver para além mas tão só o reflexo do que está atrás e acima de mim.

Não importa rigorosamente para nada!

Talvez que seja um aviso para que pare e pense no que foi.

Ou um incentivo para que siga e derrube o que se me atravesse na frente.

Ou apenas um relembrar que as imagens que vemos não são realidade mas antes uma ilusão daquilo que pensamos que existe.

Ou talvez, nada de pensamentos profundos, muito simplesmente que o meu olhar parou e fez-me parar, em trânsito na cidade, e que o meu vício de usar a câmara me obrigou a usá-la.

Como disse antes, não tem importância alguma esta fotografia.

 

Nikon Coolpix P7000


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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Até quando?




É verdade que sim, que gosto de falar de fotografia.

A questão que se põe é:

Quando é que aprendo a falar apenas daquilo que sei?

 

Pentax K100D, Tokina AT-X 400 1:5,6 + tubo de extensão


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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Todas e cada uma




Ao longo dos anos tive diversas câmaras fotográficas. Confesso que já lhes perdi a conta, ainda que, se fizer um esforço de memória, conseguirei saber quantas com rigor.

Tive-as de quase todos os formatos, de 18x24 a 110, de dispendiosas e complexas a simples e baratinhas.

Cada uma delas cumpriu a sua função, satisfazendo os motivos para que foram compradas. Ainda que algumas me tenham sido oferecidas, por este ou aquele motivo. Cheguei mesmo ao ponto de construir uma, que se vê na imagem. Tal como construi uma objectiva.

Algumas já não possuo. Ou foram-se, vendidas nalgum momento de aperto económico, ou foram negociadas por troca de melhores, ou ainda oferecidas a quem não possuía e necessitava. Outras estão apenas guardadas porque, por este ou aquele motivo, deixaram de funcionar. Avarias ou falta de consumíveis, as mais das vezes. Outras ainda por uma questão de coleção. Recordo mesmo uma Polaroid que se desfez porque lhe caiu em cima um pesado martelo, num triste acidente.

De cada uma delas tenho memória de momentos, actos fotográficos. E com cada uma delas, quando lhes pego de novo, as minhas mãos sabem fazer aquilo que o cérebro pensava ter esquecido.

Mas há coisas que aprendi com cada uma e com todas:

Por um lado, não é a posse ou o uso desta ou daquela que me transforma em melhor ou pior fotógrafo. Eventualmente poderei dizer que com umas não poderei fazer fotografias que faço com outras.

Por outro lado, todas elas provocaram momentos únicos, irrepetíveis. E prazer. Ou satisfação. A ambos os lados da objectiva. Sem importar a sua complexidade ou preço. Ou mesmo fabricante.

Volta e meia pego numa das que estão guardadas e dou-lhe uso. Película ou electrónica. Isto porque o carinho e intimidade que tenho por cada uma faz com que não as queira “mortas” numa qualquer caixa ou estojo. Dar-lhes uso é dar-lhes vida.

Mas também para me recordar daquilo que não esqueço em momento algum: A câmara fotográfica é apenas aquilo que medeia entre aquilo que vejo e aquilo que mostro.

Na imagem, uma fotografia não “programada”, feita no decorrer do meu projecto “À-Lá-Minuta”, num jardim de Lisboa.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55


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domingo, 3 de maio de 2026

Viva quem faz - Tânia




Era uma festinha!

Com bonecos feitos com balões, castelo insuflável, prendas e lanche. Abrilhantado pelo “Sr. Lino”, que cantou Kuduro e Kizomba com letra adequada aos presentes. Talvez deva dizer, em rigor da palavra e do género, das presentes.

Que a festa era promovida pela organização “Ajuda de mãe”, entidade particular de apoio a jovens adolescentes, e adultas como me foi explicitado, mães solteiras. Com fortes dificuldades económicas ou sociais.

E o público era em consonância: mulheres de todas as idades e cores, algumas absurdamente novas, todas com crianças de colo ou pela mão. Alguns dos pequenotes com pouco mais que uns dias de vida. Aliás, e como comentou uma decana Caboverdiana com quem conversei, tão pequenos e novinhos que havia de que ter cuidado em não os pisar, espalhados que estavam pelas poucas cadeiras de plástico e pelo relvado contíguo.

Soube do que se passava porque o perguntei, abelhudo que sou. E quando, um pouco depois, um dos sócios do quiosque de gelados foi até lá, também movido pela curiosidade, lá lhe expliquei, acrescentando que era uma causa meritória.

Passada que foi uma meia hora, mais coisa, menos coisa, eis que vejo dirigir-se àquelas que pareciam ser as organizadoras a sócia do quiosque. Com um caixote de tamanho médio que segurava com ambas as mãos.

Falou o que tinha a falar, deixou o caixote e afastou-se. Com um sorriso para mim e a afirmação, a uns bons dez metros de distância: “A minha boa acção do dia!”

Não sei se tinha gelados (talvez não que o calor era muito e pouco durariam), se qualquer outra guloseima. Mas valeu a pena ver e saber que aconteceu. No Jardim da Estrela.

Viva quem faz e que possui estes olhos!

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 2 de maio de 2026

Mensagens




De todos os que vi este foi o mais sério, o mais profundo e, talvez, o mais pensado.

Porque que futuro pode imaginar um jovem casal quando não consegue um local a que chame lar, por muito modesto que seja? Que futuro pode imaginar para os filhos, que ainda não tem, quando mal consegue sutentar-se? Que futuro pode imaginar uma sociedade que a cada lei imposta vê aperterem-se as grilhetas da escravidão, ainda que sem ferro?

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Empatias




“Pedimos a vossa compreensão para os incómodos causados”

Esta é a frase com que a CP nos brinda ao informar-nos que o comboio que aguardamos está atrasado.

Frase estafada, que todo o utente da ferrovia nacional está cansado de ouvir, e que em bom português quer dizer “Estão tramados e nada iremos fazer.” Ou, ainda mais agressivamente, “Aguenta que doi menos!”

Eis que surge uma nova versão, num contexto diferente mas com o mesmo significado. Diz-nos Luis Montenegro que o governo tem empatia e compreensão face a aumento do custo de vida.

 

Se ele fosse ter empatia nos quintos do inferno, nós teríamos toda a compreensão do mundo!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Alegoria




Boa amiga fez-me saber da existência deste livro. E se o conhecimento não tem fronteiras nem limites, também não tem caminhos definidos previamente. Pelo menos p’ra mim. Tratei de o encontrar e trazer para casa.

Ao fim de dez páginas, apenas, dou com esta preciosidade.

Pergunto-me o que escreveria ou citaria a autora, Françoise Choay, se em vez de ter publicado o livro em 1992 o tivesse feito hoje mesmo. Que o conhecimento impresso está em decadência em benefício do conhecimento on-line. Com tudo o que de bom e de mau isso tem.

“…

O perspicaz Charles Perrault encanta-se por ver desaparecer, devido à multiplicação dos livros, os constrangimentos que pesavam sobre a memória: “hoje”, não se aprende quase nada de cor, porque se tem naturalmente em casa os livros que se lê, a que se pode recorrer quando se tem necessidade, de que se cita mais seguramente as suas passagens copiando-as do que fazendo fé na memória, como se fazia antigamente.

…“

Num estudo que li, há uns tempos, feito na Grã Bretanha, um conjunto de estudantes universitários foi confrontado com conhecimento novo em livros que procuraria numa biblioteca. Outro conjunto de estudantes universitários foi confrontado com o mesmo conhecimento, mas pesquisado na web.

Constatou-se que o primeiro grupo retinha melhor o que havia lido que o segundo grupo, que retinha melhor os locais onde o tinha encontrado.

Tenho para mim que o grave do conhecimento adquirido na net, apesar de mais rápido e pese embora a questão da fiabilidade das fontes, está na sua falência.

Em havendo quem queira fechar a rede (censura, guerra, questões económicas ou culturais) já não se tem acesso ao conhecimento porque restrito a este meio. Já os livros… bem, não é fácil de destruir toda a existência, mesmo considerando o espaço ocupado.

O dia do livro foi celebrado um destes dias. Mas, embora seja um utilizador intensivo da web e do conhecimento que ela propicia, não creio que alguma vez prescinda do papel, do prazer de ler um livro, de o folhear, de procurar na estante a lombada certa…

Mania minha, desde há muito tempo: em comprando um livro, escrevo logo na primeira página o preço, a data e o local onde o comprei. Interessante de constatar, as livrarias por onde fomos criando os nossos hábitos.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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quarta-feira, 29 de abril de 2026

As 5 perguntas




É a luz, é sempre a luz!

Das cinco perguntas básicas do jornalismo – quem, como, quando, onde, porquê – nenhuma importa. É a luz!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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terça-feira, 28 de abril de 2026

Será que...?




Há meia dúzia de anos, disse-me um jovem em início de carreira:

“O 25 de Abril pode ter sido tudo isso, mas o certo é que me deu a possibilidade de hoje estar a trabalhar e receber a dobrar.”

 

Quando as liberdades são entendidas apenas como uma forma de ganhar dinheiro, mais dinheiro, pergunto-me se valeu a pena terem-se posto cravos nas pontas dos canos ou se não teria sido preferível deixar que o chumbo quente cumprisse a sua função.

Ou se não estará agora na altura de o fazer.


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Sorriso




Quando vi este sorriso não resisti: veio comigo.

Claro que um sorriso não funciona sozinho, pelo que veio onde estava instalado: um chassi ou porta-negativos formato 6,5x9 (2 1/4x31/4) que encontrei à venda numa loja da especialidade.

O interesse no chassis é simples: em tempos trabalhei com uma Linhoff Tecnika 70 e um dos formatos que suportava era este. Com o qual me entretive a “brincar” aos Ansel Adams e o seu Zone System. Cada negativo exposto e revelado individualmente para total controlo de contraste.

A dificuldade, em meados dos anos ’80 era encontrar película rígida com este formato. Havia apenas duas casas que o disponibilizavam, da marca Orwo, uma de porta aberta, a outra o seu representante, um escritório em Lisboa. ISO 125 (na altura a identificação era ASA) e já era muito bom.

Acrescente-se que esta fotografia foi feita com um smartphone, cujo ecrã é quase do tamanho destes negativos. E que todo o chassis, já agora.

Neste momento é meio-dia e pouco. Se ainda não sorriu ou fez alguém sorrir hoje, ainda tem metade do dia para o fazer. Tal como amanhã, depois, depois...


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domingo, 26 de abril de 2026

Imagem




No constante fazer de imagens do quotidiano, as que são normais, regulares, habituais, vão-se desvanecendo, como papel fotográfico mal fixado, restando delas contornos vagos e imprecisos.

Do que recordo de há 52 anos, para além da festa da revolução por si mesma (o fim da guerra, da censura, da ditadura, da polícia política...) ficam as imagens da festa do quotidiano!

Cada dia era um dia, razoavelmente imprevisivel e em que as suas consequências dependiam, em boa parte, do que fizessemos. Não deixávamos o futuro em mãos alheias e intervinhamos, a cada passo, nos que a nós dizia respeito e no que ao colectivo tocava.

Construíamos! Debatiamos! Sonhavamos! Faziamos!

É esse espírito de construção permanente, de almejar mais e melhor e de fazermos por isso (sem esperarmos que outros o fizessem por nós nem para eles passassemos as responsabilidades de tal) que recordo com mais força. São fotografias perfeitamente impressas e fixadas que jamais se desvanecerão. Apesar dos aspectos negativos (que os houve) que aconteceram então e que ainda hoje marcam parte da nossa vida.

No espelho do tempo vejo aquilo que agora faço porque aconteça: intervir na sociedade, estando lá de corpo e alma, melhorando o que de menos bom vamos tendo e celebrando o que de alegre e positivo existe.

Mas quando olho para trás e para o lado, lamento sinceramente que esta atitude interventiva, que então grassava, se tenha desvanecido, qual imagem velha e mal cuidada.

Quando, daqui por 52 anos, olharmos para as imagens deste tempo que vivemos, o que sobrará serão imagens cinzentas ou amareladas, mal fixadas e amarfanhadas.

Por que nesta sociedade, a alegria de ser passou a alegria de ter. E o consumismo dos tempos que correm transforma de um dia para o outro a novidade em velharia, pouco restando para recordar.

As fotografias que então fizemos com a alma repassam no tempo. As que hoje vamos fazendo, porque virtuais e efémeras, não sobreviverão à vertigem das novas novidades para consumir!

 

Nikon Coolpix P7000


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