domingo, 31 de maio de 2026

Três gerações, três continentes




Chegaram, mãe filho, este ao colo dela. Aliás, teria que ser assim se para trajectos maiores, que o pirralho era tão piquinino que o seu andar pouco mais era que pôr um pé à frente do outro para não cair.

Falámos um pouco e fizemos a fotografia. E quedámo-nos na conversa, mesmo depois da função terminada.

O pequenote, esse, é que pouco se interessou no que dizíamos. Partiu para descobrir novos mundos, na imensidão de uns dez metros em redor. E, sendo o seu caminhar o que era, cedo caiu.

À distancia a que estava, a mãe constatou que nada de grave acontecera. Tal como eu. O minorca, estendido ao comprido, de barriga para baixo, olhou em redor, sem choro ou beicinho, verificou a proximidade da mãe e lá se levantou para mais uma caminhada. Que acabou em queda de igual gravidade.

Afinal, é assim que aprendemos a caminhar, caindo, levantando-nos e continuando. E aprendendo como usar o que temos e onde e como pôr os pés.

A sua inexperiência era tal que, passado pouco, ei-lo de novo no chão.

A mãe, estrategicamente colocada na nossa conversa, ia verificando o resultado das quedas, ao mesmo tempo que se certificava que o seu trajecto não coincidia com o das bicicletas, shates ou patins que por ali pululam. Estava tudo controlado e tranquilo.

Quem assim não pensou foi uma velhinha, com ar de avó tremida mas extremosa, que à terceira queda do aprendiz de caminhante, achou que era demais.

Levantou-se do seu banco de jardim e, com uma dificuldade em caminhar equivalente à da criança, abeirou-se dele e levantou-o do chão. Regresando de seguida ao seu lugar sentado, não fora ser este selvaticamente ocupado por algum dos muitos outros idosos do jardim.

Pouquinho tempo depois, a cena repete-se: o pimpolho cai, a velhinha levanta-se e levanta-o e regressa ao seu repouso. Tudo sob o olhar vigilante da mãe, que ia cavaqueando comigo, à beira da minha câmara e tripé.

À terceira a coisa foi diferente: Depois de levantar o pequeno, que continuava sorridente como sempre, caminhou para nós com ele segurando-lhe o dedo. E a sua expressão advertia das advertências que haveria de dar à mãe “descuidada”.

Nada ouvi, que se encontraram a meio caminho, com troca de dedo agarrado. Trocado por calças, à altura dos joelhos, quando regressaram para junto de mim.

Com um sorriso, disse-me ela que este era um dos motivos para gostar do Jardim da Estrela: Fora aqui que ele dera o seu primeiro passo e era aqui que estava a aprender a andar. Bonito de ouvir!

Como que inspirado na conversa, o rapazinho afastou-se caminhando, de novo em direcção ao local onde a boa da velhinha continuava sentada. E a mãe, continuando a sorrir e fazendo contrastar o tom dos dentes com o da pele, acrescenta: “É melhor ir busca-lo antes que ela venha cá de novo!”

E foi, regressando ele ao colo e com a mãozinha esticada para a pelagem branca que me cresce no queixo e cara.

Quando, passado um pouco, se foram de vez, fiquei pensando que, na verdade, a melhor forma de aprender é ir caindo até aprender a coisa. E aproveitar a pequenez da altura para que as quedas sejam pequenas e pouco dolorosas.

Acontece, porém, que há sempre uma avozinha, cheia de boas intenções, que se intromete e tenta mudar o curso natural da vida. E que, ou bem que já se esqueceram que foram crianças e mães, ou bem que mais nada lhes resta fazer que interferir na vida dos outros, queiram ou não eles que isso aconteça.

E quem é que está na imagem? Pela certa que não se esperaria que eu aqui mostrasse os intervenientes neste episódio em torno do meu “Oldfashion”!

Em alternativa mostro este retrato. Que em comum com a estória apenas tem o local onde foi feito e minha câmara de madeira. Que a estória falou de três gerações e aqui mostro a Ana, vinda de um terceiro continente.

É que o Jardim da Estrela é assim como que um centro do mundo, onde de tudo acontece e onde de tudo converge.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

Luz




Que importância dariam a um aparelho de medição de luz que apenas faz isso: medir a luz?

Sem considerar valores ISO, valores f ou valores t, sem mesmo considerar tempos de exposição ou nos falasse em EV.

Um fotógrafo, como eu, tiraria proveito disto de tivesse por perto uma tabela complexa ou uma régua de cálculo, rectilínea ou redondinha. Ou recorresse a uma fórmula de física, diligentemente preenchida num telemovel.

Para mim tem importância por ser peça única aqui por casa, enquanto de ponteiro, fabricada pela marca Gossem algures nos anos 70 ou 80. E, cereja em cima do bolo, apesar de vetusta e ter um sistema interno que não necessita de bateria, estar a funcionar e num estado de conservação invejáveis.

E se fotografia é a escrita com luz, medi-la faz parte do processo.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro, 100 1:4


By me

sábado, 30 de maio de 2026

O quarto poder


 


Eis como o jornal Correio da Manhã titula dois artigos distintos:

“Imigrante ilegal enganou milhares com campanha solidária falsa para menino de 9 anos que sofre com doença rara”

“Três detidos em operação policial de "estratégia preventiva" em Queluz”

Se na primeira seria importante referir o ser imigrante ilegal, na segunda deveria ter sido referido serem cidadãos portugueses.

Mas se na segunda a nacionalidade não é relevante, na primeira também não deveria ser.

É assim que a comunicação social vai alimentando discursos xenófobos, alinhando sem o parecer com a extrema direita.

Comunicação social – o tal quarto poder que de objectivo e isento pouco ou nada tem.


Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Óbvio




“Isto é óbvio!”, disse uma amiga licenciada em comunicação social, ainda que não a exercer, a quem dei a ler este pedacinho como aperitivo de uma proposta de leitura.

“Certo!”, respondi-lhe. “Mas quem vê o óbvio? Quem pára para pensar nele e agir em conformidade? Tantos quantos os que param para ver a sombra na fachada aqui em frente, todos os fins de dia.”

Antes que o coloque numa das prateleiras dos que sei que irei voltar a ler, aqui vos deixo um nico do “Olhando o sofrimento dos outros”, de Susan Sontag:

“As fotografias objectivam: transformam um acontecimento ou uma pessoa em algo que pode ser possuído. E as fotografias são uma espécie de alquimia, por mais que sejam consideradas como um relato transparente da realidade.”

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

Uma questão de higiene




Por dever de cidadania e por dever de ofício, deveria ligar o televisor.

Mas acabei de tomar banho e não me quero sujar já.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5

Calmarias




A história foi-me contada na primeira pessoa, pela protagonista: a mocinha.

Com quinze anitos, está a repetir o 8º ano. Isto porque, no ano passado, foi retida (dantes diziam “foi chumbada”) por excesso de faltas. De acordo com a própria, era mais o tempo que passava na rua e com os “amigos” que nas aulas.

A solução apresentada (e posta em prática) pelos familiares, foi draconiana:

Retiraram-na da escola que frequentava, bem no centro de Lisboa e pertinho da casa de seus pais, e matricularam-na numa outra, ali para os lados de S. João do Estoril, ficando a residir durante a semana em casa de sua avó, nas imediações. O regresso à grande cidade só vai acontecendo pelos fins-de-semana, de sexta à tarde a domingo à tarde.

Disse-me ela, em conversa ali mesmo no meio do Jardim da Estrela e junto ao meu artefacto, que está mais que satisfeita por o ano lectivo estar quase a acabar e, com isso, poder regressar em definitivo à grande urbe.

Nas suas palavras, já não suporta mais o som da aragem nas folhas das árvores e o chilrear dos pássaros, de manhã assim que acorda até que adormece de novo, à noite. É tranquilidade a mais, desabafa!

Pois tenho que aplaudir a decisão e a prática desta família. Pena é que a esmagadora maioria, por este ou aquele motivo, não possam fazer o mesmo. Acredito que os protestos juvenis foram muitos e veementes. Mas, ainda de acordo com a mocinha, as notas são soberbas e as faltas zero.

E aquilo que ela mesma diz já não suportar (a calmaria, a aragem, a passarada), será recordado com nostalgia, estou certo, daqui por uns valentes anos, quando o corre-corre citadino forem demais e a tranquilidade um oásis nas férias anuais.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Photographia – Fazer amor ou praticar sexo




Eu estava naquela galeria, a ver fotografias e a conversar com o autor. A certa altura, perguntou-me porque é que eu carregava todo aquele equipamento: uma mala pesada, cheia de coisas, e o meu monopé pendurado na alça da mala ou preso à mão.

Não me recordo da minha resposta, mas suponho que refletia a minha vontade de poder fotografar o que quisesse e estar preparado para isso, sem depender das limitações de uma pequena câmara de bolso. Mesmo que eu sempre tenha defendido que podemos fazer fotos boas ou satisfatórias com qualquer câmara, desde as mais sofisticadas até aquelas câmaras "pinhole" que estão um pouco na moda hoje em dia. Desde que conheça os seus limites e saiba usá-los bem.

Anos mais tarde, comprei uma câmara com um telemóvel acoplado. Uma boa câmara, com uma boa objectiva, é só apontar e disparar. Quase que "à prova de idiotas". O meu objetivo era praticar com uma câmara de focagem fixa e impor-me a prática da perspetiva, a irmã “pobre” das objetivas zoom atualmente.

Mais recentemente, comprei uma câmara de bolso. Objectiva muito boa, boa resolução, fácil de usar e o mais leve possível. E sempre pronta a usar, pendurada no meu cinto o tempo todo, como arma de reserva. Um bonito caderno de apontamentos fotográficos.

Se alguém me fizesse hoje a mesma pergunta a minha resposta seria diferente: gosto de fazer amor, não apenas de sexo.

Com a minha câmara reflex, digital ou analógica, posso abraçá-la, encostar o rosto nela, acariciá-la no anel de focagem ou zoom, tocá-la suavemente onde ela reage, tendo uma reação suave, sob a forma de uma fotografia.

Com a câmara do meu bolso ou do telemóvel, apenas apontamos e disparamos, e pronto. Nem sequer dá para lhe tocar, uma vez que o visor precisa de ser visto a uma distância de, pelo menos, 25/30 cm. Não há envolvimento romântico entre câmara, fotógrafo e modelo, não há "preparativos" nem "aquecimento". Só sexo, não amor!

Acredito que as fotografias são criadas na nossa mente, com as lentes dos nossos olhos. E tudo o resto, desde o enquadramento e a medição da luz até todas as tarefas de pós-produção (edição, impressão, emolduramento e assim por diante), são apenas as necessidades técnicas para satisfazer essa necessidade ou criação. Etapas necessárias para materializar a nossa imaginação!

Mas todo este processo também faz parte da diversão. Precisamos de nos divertir no trabalho, ou ele tornar-se-á uma obrigação. E ninguém gosta de obrigações!

Há uns tempos fotografei uma família com a minha câmara fotográfica "antiga". Um casal e duas crianças. A mulher tinha o sorriso mais bonito que já vi, brilhante, contagiante, cativante! Fiquei tão fascinado que, como caçador de imagens que sou, desejei ter aquele sorriso, quase que como um troféu.

Mas, nesse dia, fui para essa sessão fotográfica com uma versão mais leve, levando comigo apenas a câmara fotográfica antiga falsa com o seu tripé de madeira e a minha câmara de bolso, presa ao cinto. E nenhuma delas seria capaz de fazer o retrato que ela merecia.

A câmara "antiquada" precisa de estar no tripé, não só por causa do peso, mas também por causa do formato: quadrado e grande.

Quanto à câmara de bolso, a zoom tem apenas 5x de ampliação. Não conseguiria captar apenas o rosto dela, a não ser que me aproximasse demasiado, sendo invasivo. Por outro lado, a ausência de um para-sol impedir-me-ia de utilizar a forte luz de fundo do sol baixo como eu gosto. Nem mesmo a minha mão a fazer essa função resultaria, uma vez que a câmara não tem a distância focal necessária e eu teria sempre reflexos indesejados.

Se lhe pedisse para fazer um retrato daquele sorriso encantador, ou não conseguiria o enquadramento certo ou a iluminação seria fraca. E não pedi!

Não seria um ato de amor, aquela foto! Seria apenas sexo.

Talvez, um dia, estejamos todos juntos, ali ou noutro lugar qualquer. E estarei pronto para aquele sorriso com a minha Pentax, deixando a minha câmara de bolso no cinto ou em casa.

Quanto a esta fotografia, foi um acto de amor, enquadrando, brincando com a luz, a perspectiva e a profundidade de campo. E utilizando a minha Pentax K100D com a objectiva Sigma 70/300 a uma distância confortável. Mesmo que o sol não estivesse tão baixo como eu gostaria.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

sábado, 23 de maio de 2026

Genealogia




Gostaria de vos apresentar as velhotas que comigo residem.

Há que lhes dar valor, mesmo que as novas gerações de câmaras as empurrem para um canto. No entanto, sempre gostaria de ver os jovens fotógrafos de hoje a fazerem tão belas fotografias como elas fizeram, com meios tão “rudimentares”.

Como lhes dou valor, volta e meia abro-lhes as porta, descem da vitrine e mostram-se, procurando na vitrine do lado a objectiva que mais lhes agrada. E ficam sempre algumas de fora.

Apresento-as: da esquerda para a direita, em cima: S1a (1962), SP 1000 (1973), S2 (1959), ES II (1973).

Em baixo, também da esquerda para a direita: SP (1964), S1 (1961), SV (1962).

Quanto às objectivas, e para não ofender as ausentes, não referirei nenhuma destas, apenas dizendo que variam entre 28mm e 200mm.

Para os mais atentos e conhecedores da matéria, alerto que há um elemento “penetra”, que não pertence a esta família. Mas gosto tanto dele, e sendo de época, que não resisti a inclui-lo. E em todas as fotografias de casamento há sempre alguém que ninguém conhece, não é? Fica o desafio de o nomearem e, se possível, identificarem.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

Privilégios




Podemos negar, inventar, justificar, contextualizar… podemos um montão de coisas menos apagar os factos.

E o certo é que no início dos anos 90 parava junto ao local onde trabalhava um carro que no vidro de trás tinha um autocolante com os seguintes dizeres:

“Quando deus criou o mundo, devia estar louca”

É meu privilégio poder dizer que trabalhámos juntos até eu me deixar disso.

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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sexta-feira, 22 de maio de 2026

O cota barbudo e os seus discursos inflamados




Tal como a maquinaria, também o corpo humano se vai gastando. E, de quando em vez, vá de ir fazendo testes: para confirmar aquilo que já se sabe ou para descobrir novas maleitas. Hoje foi dia disso.

Ao entregar a papelada perguntei quando estariam prontos, ao que me disseram que enviariam os resultados por correio eletrónico. Mas que se os quisesse impressos, que estariam disponíveis no dia 3.

“No dia 3?! Mas é dia de greve geral!”

“Pois é, mas eu venho de carro e não uso o comboio.”

“Mas o problema não é os comboios estarem parados. A questão mesmo é vocês virem trabalhar nesse dia.”

“Ah, bem, sabe como é...”

“Sei, ou acho que sei. Eu não faço greve porque já não estou no activo. Mas farei questão de nada fazer que dependa do trabalho de alguém que nesse dia não está de greve. Mas ao não fazerem greve, mesmo que estejam a não se incompatibilizarem com quem vos emprega, estão a não acautelar o vosso futuro. Em muitos aspectos importantes. Até no assegurarem o vosso posto de trabalho actual. Informem-se e actuem! Virei na quinta-feira, dia 4!”

Calei-me para mudar de posição. Que a minha anca esquerda estava a dar sinal de si. E olhei em redor.

Além de quem me atendia, mais três funcionárias atendiam gente a querer tratar da sua saúde. E em frente delas, várias pessoas a serem atendidas.

Mas todas elas, com ou sem farda imaculada, estavam paradas e a olhar para mim, o tipo das barbas que assim falava, num tom em crescendo. Quando viram o meu varrer de olhar, fizeram de conta que estavam muito ocupadas e o silêncio que se tinha feito, apenas cortado pela minha voz, desfez-se como que por magia.

Com um pouco de sorte, uma ou mais daquelas pessoas se recordarão no momento certo daquele cota barbudo que, já pouco podendo fazer pelo seu próprio futuro, não desiste de lutar pelos futuros alheios. Com palavras e com actos.

 

Lumix DCM – DZ 60


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quarta-feira, 20 de maio de 2026

RP




É daquelas coisas que já chateia porque deixaram de ser discretas para serem insistentes. Muito insistentes!

As forças de segurança e investigação policial encetaram há não muito tempo uma campanha de relações públicas muito activa. Todos os dias, várias vezes ao dia, a imprensa e as redes sociais relatam situações de crime ou infração em que a psp, a gnr ou a judiciária estão envolvidas com sucesso. Detenções, investigações, apreenções... crime, infrações, família, tráfico, trânsito, dinheiro, violência...

Todos os dias, várias vezes ao dia!

Mas, e para além disso, contam-nos e mostram-nos imagens e relatos positivos, desde a graduação de novos efectivos, às fotografias “de encomenda” dos e das agentes sorridentes, as viaturas impecéveis e brilhantes de lavadas, as fachadas imaculadamente pintadas das instalações...

O trabalho de quem está à frente das relações públicas das forças policiais está bem e recomenda-se. Mas não abusem, que já chateia!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

O terceiro grupo




Havia uma senhora, noutros tempos e noutras vivências, com uma muito forte conotação politico-partidária, que quando me via na sua secretaria com alguma das minhas reclamações, sugestões ou discursos mais inflamados, tinha uma frase sacro-santa:

“Lá está o professor JC com o seu feitiozinho soviético”.

Nunca lho levei a mal. Era difícil levar a mal alguma coisa daquela senhora, até porque raramente fazia algo por mal.

E, se outro motivo não houvesse, ela tinha razão. Eu tenho um feitiozinho soviético.

Soviético, Malaio, Hondurenho, Zairense, Tuga, o que lhe quiserem chamar.

Agora uma coisa eu garanto:

Quando me chamam para engrossar fileiras e eu vou e acabo por ouvir e sentir um “nós e vocês”, é garantido que surge um terceiro grupo: os que estão fora.

E se não tiver mais ninguém, eu serei o presidente, o secretário geral, o presidente da assembleia-geral e farei quórum sozinho nas reuniões plenárias.

A dona Alice tinha razão: tenho um feitiozinho soviético!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

Cada cor seu paladar




É verdade que sim: tenho uma quantidade razoável de pára-sois.

A maior parte deles adquiridos solitários, em feiras de usados e a preços menores que de saldo.

Eu explico.

Entendo que o pára-sol é peça fundamental da objectiva. Não apenas protege de luzes parasitas, evitando baixos contrastes ou reflexos internos indesejáveis, como protege a objectiva de acidentes. Já parti pára-sois com pancadas acidentais. Nunca uma objectiva. Acontece que alguns fabricantes e muitos utilizadores entendem-nos como acessórios não essenciais e, ou não os vendem com as objectivas, ou não os procuram para comprar junto com as objectivas. E no mercado de usados o mais comum é encontrar objectivas sem pára-sol.

Assim, quando encontro à venda um modelo que não tenha, levo-o comigo. E sabemos como os pára-sois são “esquisitos” nas suas características: tamanho, forma e fixação.

Guardo as objectivas sem pára-sol, estando colocados apenas nas que uso com frequência, excepto os dedicados em forma de pétala. Quando acontece ir buscar uma menos usada, passo pela gaveta e encontro um que faça a função, seja ou não da marca.

Alguns dificilmente os usarei, já que duvido que alguma vez venha a ter uma objectiva que o use. Principalmente quando a minha preferência é Pentax. Mas já tenho oferecido a quem procura e não encontra o certo para a que tem.

Estão ali quietinhos, fora de vista e guardados numa gaveta. À espera de serem usados e protegerem as fotografias que faço. Se elas são boas ou não, isso é outra história.

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

domingo, 17 de maio de 2026

O outro lado


 

No seu filme “Yi-Yi”, premiado em Cannes em 2000, Edward Yang presenteia-nos com algumas preciosidades.

Desde logo o como fazer enquadramentos verticais usando um formato horizontal. Delicioso!

Mas, e o que me interessa neste caso, o ter colocado nas mãos de uma das principais personagens – uma criança – uma câmara fotográfica. De película.

O pai observa, posteriormente, as fotografias feitas e estranha a quantidade de imagens de gente de costas.

Quase no fim do filme, o catraio entrega ao tio uma fotografia contendo a respectiva nuca. E acrescenta:

“É para que vejas de ti aquilo que nunca vês.”

Fantástica, a ideia.

Efectivamente, é sempre interessante ver aquilo que crianças fotografam sem que lhes digam o que fotografar. O que lhes chama a atenção, a forma como enquadram, se já jogam ou não com primeiros planos…

E sendo certo que as crianças, em regra, aprendem por ver fazer e mimando o que vêem – os adultos ou iguais – parte daquilo que fazem é fotografar o que, de algum modo, chama a atenção dos outros.

Para os pequenos, com a sua relativização do tempo, a fotografia raramente é um registo para a posteridade ou “para mais tarde recordar”.

Fotografam porque aquele assunto, naquele momento e naquelas circunstâncias, lhes interessa.

E é essa a atitude que muitos de nós, fotógrafos entusiastas ou profissionais, temos: parte do nosso gesto de fotografar resulta da motivação de aquilo nos interessar naquele momento e naquelas circunstâncias.

É muitas vezes o factor “afirmação social” que nos leva, mais tarde, a recuperar essas imagens, mesmo que não muito bem feitas, e atribuir-lhes algum valor: documental, estético, comercial… Mostrar aos outros que, num dado momento e local, aquilo nos interessou. E como somos bons a registar aquilo que nos interessou, mesmo que o resultado não seja grande coisa.

Só os bons fotógrafos conseguem ultrapassar esta questão do “agora interessa-me” e fazer imagens que perduram no tempo.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Aprendiz




Há uns bons anos atrás, numa das minhas idas mais ou menos regulares a Barcelona, levei comigo uma sobrinha adoptiva.

Uns meses antes, aquando de um jantar com os seus pais, amigos de longa data, virei-me para ela e perguntei-lhe: “Como é? No verão queres ir comigo a Barcelona?”

Ficou a olhar para mim com cara de tola, os pais a rirem da brincadeira mas, nesse Setembro lá estivemos, 10 dias a ver e viver o possível para ambos.

Um dos locais onde não podia deixar de a levar foi o Museu Picasso. Ainda que não possua as principais obras do génio, cobre toda a sua vida, todas as suas fases, tendo, entre outros, muitos trabalhos da sua infância e esboços de trabalhos maiores e famosos.

No final, perguntei-lhe sobre o que mais havia gostado, entre o que tinha visto e aquilo que eu lhe tinha conseguido explicar.

A resposta foi bem clara, para quem tinha onze anos à altura: “Das pinturas de quando ele era criança e pintava como as pessoas!”

Vem esta estória a propósito de ver e ouvir dizer que não se gosta de regras e convenções.

Posso presumir – e saber – que Picasso, Miro, Dali e tantos outros, também não gostavam de regras e convenções e que, quando partiram para o seu estilo próprio e inovador, foi uma tentativa de quebra com todas elas.

No entanto, qualquer um deles dominava, ou tinha dominado, as formas de representação plásticas convencionais, de acordo com as regras estéticas em vigor.

Não apenas porque as estudaram e aprenderam como, querendo expressar os seus próprios sentimentos e emoções e que eles fossem entendidos por outros, tiveram que recorrer às convenções, códigos e regras existentes.

O que aconteceu foi que, a dado passo, se sentiram insatisfeitos com o que faziam, pois que não o interpretavam como representando o que lhes ia na alma. Partindo das convenções, começaram a inovar, variar, quebrar as regras e códigos estéticos instituídos até encontrarem uma outra linguagem. Onde eles próprios se reconhecessem e que outros, com sentimentos na mesma linha, os reconhecessem e aos seus sentimentos.

Por outras palavras, num círculo de comunicação restrito, criaram outras e novas formas de comunicação, com outras e novas regras e convenções.

Porque, na total ausência de regras e convenções, a comunicação não existe, já que quem vê não entende quem pinta (fotografa, compõe, filma, dança…)

Indo mais longe, o simples facto de nos exprimirmos define uma convenção ou regra, já que o seu autor convenciona ou define que aquele gesto, aquela cor, aquele som ou aquela organização de espaço corresponde a um dado sentimento seu. É um ícone ou a substituição de algo impalpável por algo material ou não, visível ou audível.

Aquilo que eu gosto de ouvir ou ler é, antes sim, que não se gosta destas regras ou convenções. Porque não satisfazem, porque não correspondem aos sentimentos ou porque representam uma geração com a qual se quer quebrar amarras e criar distância. Ou ainda porque essas regras ou convenções nos sufoca e prendem, aspirando nós a outros voos.

É isto que gosto de ler ou ouvir, principalmente se seguido por algo nesta linha:

“Não gosto disto, não me satisfaz, não me identifico com estas regras, convenções, linguagem! Vou partir e encontrar o meu próprio caminho, a minha própria forma de expressão, as minhas próprias regras, convenções, códigos!”

Quando oiço ou leio isto, a minha reacção é sempre a mesma: “ Aleluia! Mais um que aprendeu a pensar e que nos vai ensinar algo de novo! Deixa-me aprender contigo!”

Porque, enquanto por cá andar, serei sempre um aprendiz. E é tão bom!...

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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O sorriso noturno




O meu primeiro fotómetro foi um Sekonic. Para os mais rigorosos, um Sekonic Studio Delux L-28c.

O seu método de leitura preferêncial é o de luz incidente, pese embora também faça leituras reflectidas.

Pertence ele a uma série de aparelhos desta marca concebidos primordialmente para directores de fotografia de cinema e iluminadores de televisão e teatro e foi adoptado pelo mundo fora pelos respectivos profissionais.

O seu uso foi tão generalizado e com resultados tão positivos que, apesar de ter sido concebido em meados dos anos ’60, ainda hoje se vende ainda que com pequenas melhorias entretanto acrescentadas. Claro que para os que seguem as modas tecnológicas um aparelho cujo mostrador seja um ponteiro e não um ecrã digital é uma velharia desprezível, mas estão enganados.

Em qualquer dos casos, quando o comprei usado a um director de fotografia, não consegui encontrar o estojo com as lamelas ou slides que o tornam ainda mais versátil e prático de usar. Foi um desejo/sonho que fui alimentando ao logo de dezenas de anos, que só não foi sendo uma frustração porque me habituei ao que tinha.

Agora imaginem a minha satisfação ao descobrir há pouco que esta série de aparelhos ainda se fabricam e que o conjunto de lamelas ou slides também. Melhor ainda, que uma loja em Lisboa tinha esse estojo de lamelas à venda, novinho em folha. Ponderados os diversos factores – valor do negócio e importância do capricho – acabei por o ir buscar.

Não sou director de fotografia nem iluminador e o uso que darei a esta nova aquisição será mesmo diminuto. Mas o cumprir um sonho de mais de quatro décadas faz qualquer um adormecer com um sorriso nos lábios.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O tótó




Fui enganado. Não adianta argumentar em contrário.

Fui enganado e em parte a culpa foi minha, que fui na conversa de uma mais que simpática menina de um balcão de atendimento de uma grande empresa neste país.

Eu sabia o que queria há pouco mais de um mês, não foi o que me foi entregue e a resposta que recebi redundou, hoje, numa ida a uma outra loja dessa empresa (não importa qual) reclamar e obter aquilo que queria logo de início.

Haveria várias abordagens à questão: entrar a matar, refilando com tudo e todos; exigir o que queria ameaçando com os quintos dos infernos e mudança de fornecedor; ou entrar como se fosse muito burro, quase pedindo desculpa pela minha ignorância e existência, e pedindo que me resolvessem o problema. Que, em boa verdade, fora provocado por uma funcionária deles.

Optei pela última hipótese.

Fiz-me de tolo, de completo ignorante na matéria, contei a história toda desde pequenino, atirei com o meu charme e umas piadas feitas na hora a propósito do que estivéssemos a falar, dei bom uso à cor das minhas barbas e ao que delas se poderá interpretar, et voilá:

As coisas resolvidas, por quem me atendeu com o auxílio por ela reclamado de mais duas outras pessoas, pediram-me desculpa pelo incómodo e quase só faltou saírem do seu lugar para me abrirem a porta à saída.

E nem queiram saber o que eu me estava a divertir fazendo-me de totó!

É por estas e outras que prefiro o atendimento presencial, cara-a-cara, que os Call Center, onde estes truques não funcionam.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Cházinho e futuro




Em primeiro lugar, sempre gostava de saber quem é que lhes deu confiança para tratarem os seus concidadão por “tu”. Garanto que não fui eu!

E iria ser uma barraca se alguém da “populaça” tratasse algum deputado ou ministro desta forma, em vez do convencionado e formal “você”.

Com este cartaz bem se vê o cházinho que não beberam quando eram pequenos.

Em segundo lugar, se o resultado de dois anos de trabalho pelo nosso futuro é aquilo que hoje temos, mais valia terem ficado quietos! E que fiquem quietos, que pelo andar da carruagem as coisas não irão melhorar.

Pelo menos há que reconhecer que assumem as responsabilidades. Cobraremos de modo formal no próximo acto eleitoral, ou informal antes disso.

 

Pentax K7, smc Pentax-FA 28-200


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Outros tempos




“Boa tarde! Faça o favor…?”

“Boa tarde! Eu queria falar com o sr. Duarte.”

“Com certeza. E quem é que quer falar com ele?”

“Eu disse que queria falar com o sr. Duarte.”

“E quem é que quer falar com o sr. Duarte?”

“Eu queria falar c…”

CLIC

A situação ou diálogo repetiu-se.

Só aquando da terceira ligação, sempre de número explícito, é que do outro lado se identificaram. Por sinal de uma loja onde eu havia feito uma encomenda, a avisarem-me que já lá estava o que tinha pedido.

No meio de tudo isto, o que tem mesmo piada é ter acontecido pouco depois de eu ter feito algumas fotografias em torno de uma vetusta cabine telefónica, que quase só existe para turista ver. De uma época em que ninguém se lembraria de iniciar uma conversa telefónica sem ser pela sua própria identificação.

 

Outros tempos.

 

LG-D405


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terça-feira, 12 de maio de 2026

O verdadeiro




Quando fazemos uma fotografia recorremos a sistemas mais ou menos complexos para aquilatar da quantidade de luz que queremos que chegue ao alvo, seja ele película ou sensor electrónico.

O sistema concebido para tal, pondera os factores envolvidos: a quantidade de luz que chega ao aparelho, a sensibilidade deste, a abertura de diafragma para deixar passar a luz e quanto tempo o alvo estará exposto a ela.

Fazemos isto usando aquilo a que chamamos de fotómetro, seja ele embutido na câmara, seja ele externo. Os mais antigos dão-nos a indicação que queremos através do posicionamento de um ponteiro, os mais modernos com os diversos valores expressos por números visíveis num ecrã.

Mas, seja qual for o sistema ou a modernidade, nunca estamos a medir a luz mas apenas a regular a forma como a vamos utilizar. Apenas alguns, e de forma acessória, nos dão a indicação de quantidade de luz, medindo-a em footcandle (a origem do termo português fotómetro) ou em lux, unidades mais ou menos universais.

Mas medir luz não é apenas exclusivo de quem capta imagem. Quem concebe espaços interiores, fábricas, habitações, salas de espetáculo, estações de caminho de ferro..., também necessitam de medir luz para que as actividades que aí se desenrolam tenham a quantidade necessária para que se veja o que se está a fazer ou acontecer.

É aí que entram os verdadeiros fotómetros ou luximetros: apenas medem quantidade de luz, deixando ao seu utilizador a tarefa de a usar a seu bel-prazer ou função. Ele sabe quanta luz necessita e quanta é libertada pelas diversas lâmpadas no mercado. Tal como saberá de que forma a quantidade de luz varia em função da distância e qual o rendimento dos reflectores onde cada lâmpada está colocada. O fotómetro é então usado para verificar os calculos efectuados e fazer correções nas posições da luminárias se tal for necessário. Ou substituir lâmpadas que, por deito de fabrico ou pela idade, já não tenham o rendimento desejável.

Vem tudo isto a propósito deste aparelho que aqui exibo: um verdadeiro fotómetro. Apenas mede luz, sem complexos cálculos de exposição fotográfica.

Comprado hoje, por um valor inferior ao de qualquer refeição de faca e garfo numa qualquer tasca barata. Vi o anúncio num site de artigos usados e não resiti a o juntar aos demais sistemas de medição de luz e de exposição fotográfica que por aqui existem.

Se o vou usar para fotografar? Quase de certeza que não. Estou demasiado viciado nos quadrantes e indicações dos “fotómetros” ou exposímetros, para usar de um bom pedaço de tempo a fazer contas complexas.

No entanto não confio por completo no que estes me sugerem. Nesta imagem, por exemplo,  usei o exposímetro da câmara mas reduzi a exposição em 1,5 EVs (mais uma unidade de relativização de exposição). Isto porque sei como funcionam os aparelhos e, se tivesse seguido as suas indicações, iria obter um cinzento feio e falso, no lugar de negro bem profundo do aparelho fotografado.

Os sistemas existentes, para fotografar ou seja para o que for, dão-nos informações auxiliares e não dogmas a seguir sem contestação. O ser humano ainda é a peça fundamental no resultado final.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Penso eu de que"




Em 2013 enviei eu o texto abaixo transcrito para a produção do programa “Cuidado com a língua”.

Está tão ou mais actual hoje como estava então.

 

Senhores:

Quando vi o vosso programa usando a fotografia como tema para bem usar a língua portuguesa, fiquei entusiasmado. “Este programa”, pensei, “quero eu para usar como referência sobre alguns disparates que se vão dizendo.”

Acontece que quando vi o programa não o estava a ouvir. Só alguns dias depois, e através do sitio da RTP o pude fazer. E logo mudei de opinião.

Que este programa não quero eu nem o irei usar como referência. E explico o porquê.

Começando logo com alguns erros técnicos “de palmatória”: o trabalho de laboratório, nomeadamente a positivação em papel da imagem, não pode ser sempre feita sob luz de segurança. Apenas quando se usa papel ortocromático, vulgarmente conhecido por “preto e branco”, isso é possível. No caso da fotografia ampliada para papel a cores, que é pancromático, isso é impossível.

(Se os termos “ortocromático” e “pancromático” parecem palavrões técnicos, veja-se um pouco de história e saiba-se o significado e origem dos prefixos “orto” e “pan”.)

Ainda dentro do laboratório, saiba-se que a “luz de segurança” usada não tem que ser obrigatoriamente vermelha. Alguns tipos de papel fotográfico ortocromáticos permitem usar lâmpadas ou lanternas de segurança verde-amarela. O que, acrescente-se, é quase o que se pode deduzir pelas imagens que nos apresentaram aquando da revelação do papel: o tom geral da imagem é bem mais amarelo-esverdeado que vermelho. Não seria fácil fazer a captura de imagem com luz vermelha, que tem muito pouco rendimento luminoso, mas um qualquer filtro na câmara ou o correcto tratamento posterior em edição fariam o serviço.

Em seguida, uma velha discussão: imagem analógica e imagem digital.

Toda e qualquer imagem fotográfica, digital ou não, é analógica. Existe sempre analogia entre a imagem captada e o respectivo assunto. E toda e qualquer imagem fotográfica só é visível depois de revelada. Ou, e como bem disseram, depois de “retirado ou véu”.

A diferença está em que a imagem captada em película necessita de “revelação” química e a captada por meios eléctricos necessita de “revelação” electrónica. Os processos de codificação e descodificação dos diversos tipos de formatos de imagem digital são, efectivamente, o revelar da informação que foi produzida pelo sensor da câmara que, antes de ser objecto desse tratamento, se encontra invisível. Ou “velada”.

O termo correcto para a fotografia captada em película será, se outro não quiserem usar, “foto-química”. Ou “… em película”.

O uso da expressão “fotografia analógica” surge apenas após a criação da fotografia electrónica ou digital e só porque haveria que dar um nome para diferenciar os processos de produção e respectivo arquivo dos processos intermédios.

Porque, e em olhando para duas boas fotografias, uma dita “analógica” e outra dita “digital” e já impressas, não se saberá qual ou quais os processos empregues. E ambas são analógicas, com toda a analogia ou semelhança entre o que nelas vemos e os assuntos fotografados.

Sobra uma questão velha de séculos: câmara ou máquina fotográfica.

Foi pena que em tudo o que disseram sobre a origem do termo “câmara”, se tivessem esquecido da “mãe” de todas as câmaras de produção de imagem: a câmara obscura.

Aquilo que é mais popularmente conhecido a seu respeito é o que nos conta Leonardo DaVinci. Mas os seus princípios remontam à antiguidade chinesa, à antiguidade grega, aos primórdios da cultura islâmica: um local escuro, com um orifício, que permite produzir uma imagem real, invertida e, geralmente, menor que o objecto.

A câmara fotográfica é isso mesmo; um local fechado à luz, onde ela entra por um espaço controlado, orifício simples ou com lentes compondo uma objectiva, produzindo uma imagem real, invertida e registável. 

E se a história e origem dos termos não servir para definir o termo certo, considerem-se dois exemplos: o cinema e o vídeo. Se os termos para identificar os sistemas de produção e captação de imagem cinematográfica ou videográfica são “câmara de cinema” e “câmara de vídeo”, porque se há-de usar “máquina” para a que lhes deu origem? Porque tem um “mecanismo”? Bem, a de cinema tem mecânica bem mais complexa que a de fotografia.

Sei que esta questão é velha, quase tanto quanto a fotografia. Mas, e muito curiosamente, é uma disputa que apenas existe em Portugal. Ao que sei, em nenhuma outra língua este problema se levanta, sendo o termo “câmara fotográfica” aceite como o único.

Faltou referirem duas outras questões, igualmente polémicas e linguísticas: o uso da expressão “velocidade de obturação”e o termo “lente”.

“Velocidade” é uma relação de qualquer acto em função de uma unidade de tempo. “Velocidade de sedimentação”, “velocidade de um automóvel”, “velocidade de escrita”. Quanto tempo para se obterem todos os sedimentos, quanto espaço se percorre por hora, quantas palavras se escrevem por minuto. É sempre qualquer coisa por unidade de tempo.

Acontece que aquilo que se regula numa câmara fotográfica é apenas o tempo que o alvo, película ou sensor, está exposto à luz. Apenas isto. Ajuste de tempo. Todo o mecanismo que destapa e volta a tapar o alvo se movimenta à mesma velocidade, seja qual for o ajuste que façamos. Que se trate de câmaras com obturador central (no interior da objectiva) quer se trate de câmaras com obturador plano-focal (no interior da câmara e junto do alvo).

Aliás, e em casos de dúvida, veja-se como esta tal “velocidade de obturação” é expressa: unidades de tempo. 1/500 de segundo, meio segundo, três minutos… Nunca uma referência qualquer coisa por tempo, como a luz (300000 quilómetros por segundo).

O termo “lente”, em questões de óptica, refere um pedaço de material, permeável à luz, cujas faces opostas não são paralelas. É um sistema óptico simples, cuja função é alterar a direcção da luz de uma forma controlada. Usamos lentes nos nossos óculos, usamos lentes nas lupas de aumento, usamos lentes (desta feita do modelo “fresnel”) na iluminação frontal de um automóvel ou num farol de costa.

Aquilo que as câmaras fotográficas possuem são conjunto ópticos, compostos de várias lentes de posição ajustável, as mais das vezes acrescidos de um mecanismo de controlo de fluxo luminoso a que damos o nome de “diafragma”. Alguns destes conjuntos possuem ainda o obturador no seu interior.

A estes conjuntos, complexos, dá-se o nome de objectiva.

A vulgarização do termo “lente” como sendo o sistema óptico que possuem as câmaras fotográficas (ou de cinema ou de vídeo) é um anglicismo a partir do termo “lens”.

A língua é uma coisa viva, evolutiva. E bem mais importante que o academismo é o servir para comunicar.

Podemos chamar a uma objectiva “batata frita” e intitular o tempo de exposição de “ovo estrelado”.

É indiferente que palavras usamos desde que nos entendamos. E muito brincam as crianças com isso, criando códigos de comunicação “secretos”, com palavras inventadas ou corruptelas da língua.

Mas, em termos profissionais ou quando se quer ensinar o uso de termos ou expressões “correctas”, convém ser-se rigoroso no que se transmite. Quiçá recorrendo a várias fontes de informação, científicas e credenciadas.

Ou então assumir que se trata de opinião, passível de contestação como esta que vos envio.

Não sou um lente na matéria, mas tão só um curioso. Mas custa-me ver ser dado como certo o que não o é, acrescido da responsabilidade dessas afirmações serem divulgadas pela televisão com o peso do rigor que um programa didáctico tem.

Como nota final: este texto ou missiva foi escrito ao desabrigo de qualquer acordo ortográfico. Assumidamente como tal. Mas também não me entendo como um especialista em ortografia.

Espero que o vosso programa continue a ter a efectiva simpatia e aparente simplicidade que nos cativa.

JC Duarte


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Interiores




TOC doméstico

 

Lumix DCM DZ 60


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domingo, 10 de maio de 2026

Prazeres




Há combinações que, na proporção certa, roçam o divino no palato.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


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As fotografias feitas fora de ambientes controlados (estúdio) não são repetíveis. É o momento decisivo, como explicou o mestre. Podem ser copiadas ad nauseam, mas o acto fotográfico não se repete.

Tal como as emoções.

 

Nikon Coolpix P7000


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sábado, 9 de maio de 2026

Crises e emergências




Entre a guerra dos EUA e o Irão e os contágios com o hantavirus...

Já fez o seu açambarcamento de papel higiénico?

 

Lumix DCM TZ 60


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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Sem importância alguma




Esta é uma fotografia sem importância alguma.

Apenas uma parede, que me bloqueia o caminho, e uma janela, que não me deixa ver para além mas tão só o reflexo do que está atrás e acima de mim.

Não importa rigorosamente para nada!

Talvez que seja um aviso para que pare e pense no que foi.

Ou um incentivo para que siga e derrube o que se me atravesse na frente.

Ou apenas um relembrar que as imagens que vemos não são realidade mas antes uma ilusão daquilo que pensamos que existe.

Ou talvez, nada de pensamentos profundos, muito simplesmente que o meu olhar parou e fez-me parar, em trânsito na cidade, e que o meu vício de usar a câmara me obrigou a usá-la.

Como disse antes, não tem importância alguma esta fotografia.

 

Nikon Coolpix P7000


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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Até quando?




É verdade que sim, que gosto de falar de fotografia.

A questão que se põe é:

Quando é que aprendo a falar apenas daquilo que sei?

 

Pentax K100D, Tokina AT-X 400 1:5,6 + tubo de extensão


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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Todas e cada uma




Ao longo dos anos tive diversas câmaras fotográficas. Confesso que já lhes perdi a conta, ainda que, se fizer um esforço de memória, conseguirei saber quantas com rigor.

Tive-as de quase todos os formatos, de 18x24 a 110, de dispendiosas e complexas a simples e baratinhas.

Cada uma delas cumpriu a sua função, satisfazendo os motivos para que foram compradas. Ainda que algumas me tenham sido oferecidas, por este ou aquele motivo. Cheguei mesmo ao ponto de construir uma, que se vê na imagem. Tal como construi uma objectiva.

Algumas já não possuo. Ou foram-se, vendidas nalgum momento de aperto económico, ou foram negociadas por troca de melhores, ou ainda oferecidas a quem não possuía e necessitava. Outras estão apenas guardadas porque, por este ou aquele motivo, deixaram de funcionar. Avarias ou falta de consumíveis, as mais das vezes. Outras ainda por uma questão de coleção. Recordo mesmo uma Polaroid que se desfez porque lhe caiu em cima um pesado martelo, num triste acidente.

De cada uma delas tenho memória de momentos, actos fotográficos. E com cada uma delas, quando lhes pego de novo, as minhas mãos sabem fazer aquilo que o cérebro pensava ter esquecido.

Mas há coisas que aprendi com cada uma e com todas:

Por um lado, não é a posse ou o uso desta ou daquela que me transforma em melhor ou pior fotógrafo. Eventualmente poderei dizer que com umas não poderei fazer fotografias que faço com outras.

Por outro lado, todas elas provocaram momentos únicos, irrepetíveis. E prazer. Ou satisfação. A ambos os lados da objectiva. Sem importar a sua complexidade ou preço. Ou mesmo fabricante.

Volta e meia pego numa das que estão guardadas e dou-lhe uso. Película ou electrónica. Isto porque o carinho e intimidade que tenho por cada uma faz com que não as queira “mortas” numa qualquer caixa ou estojo. Dar-lhes uso é dar-lhes vida.

Mas também para me recordar daquilo que não esqueço em momento algum: A câmara fotográfica é apenas aquilo que medeia entre aquilo que vejo e aquilo que mostro.

Na imagem, uma fotografia não “programada”, feita no decorrer do meu projecto “À-Lá-Minuta”, num jardim de Lisboa.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55


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domingo, 3 de maio de 2026

Viva quem faz - Tânia




Era uma festinha!

Com bonecos feitos com balões, castelo insuflável, prendas e lanche. Abrilhantado pelo “Sr. Lino”, que cantou Kuduro e Kizomba com letra adequada aos presentes. Talvez deva dizer, em rigor da palavra e do género, das presentes.

Que a festa era promovida pela organização “Ajuda de mãe”, entidade particular de apoio a jovens adolescentes, e adultas como me foi explicitado, mães solteiras. Com fortes dificuldades económicas ou sociais.

E o público era em consonância: mulheres de todas as idades e cores, algumas absurdamente novas, todas com crianças de colo ou pela mão. Alguns dos pequenotes com pouco mais que uns dias de vida. Aliás, e como comentou uma decana Caboverdiana com quem conversei, tão pequenos e novinhos que havia de que ter cuidado em não os pisar, espalhados que estavam pelas poucas cadeiras de plástico e pelo relvado contíguo.

Soube do que se passava porque o perguntei, abelhudo que sou. E quando, um pouco depois, um dos sócios do quiosque de gelados foi até lá, também movido pela curiosidade, lá lhe expliquei, acrescentando que era uma causa meritória.

Passada que foi uma meia hora, mais coisa, menos coisa, eis que vejo dirigir-se àquelas que pareciam ser as organizadoras a sócia do quiosque. Com um caixote de tamanho médio que segurava com ambas as mãos.

Falou o que tinha a falar, deixou o caixote e afastou-se. Com um sorriso para mim e a afirmação, a uns bons dez metros de distância: “A minha boa acção do dia!”

Não sei se tinha gelados (talvez não que o calor era muito e pouco durariam), se qualquer outra guloseima. Mas valeu a pena ver e saber que aconteceu. No Jardim da Estrela.

Viva quem faz e que possui estes olhos!

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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