Samsung 1060
By me
David Hockney, nas suas incursões no mundo da fotografia e
do estático movimento ou do movimento estático, incluia quase sempre uma
fotografia onde se viam os seus pés.
Nunca aprofundei as razões de ser de tal pecularidade: se
como assinatura, se como prova de que esteve lá, se como início do movimento a
fazer com a câmara Polaroid...
Por mim, que até gosto de fotografar os sapatos abandonados
na rua e que me ponho a imaginar a vida que tiveram com pés dentro ou ao lado
da cama, não podia deixar de fotografar os meus sapatos. Com os pés dentro ou
fora.
Neste caso, conjugaram-se vários factores: o estar numa
pausa entre fotos, o pensar em substituir estas velhas pantufas, o ter entre
mãos uma uma câmara Pentax de excepção de pequena que é.
A luz, essa, é que me entra pela janela, sem mais enfeites
que um dia em que se antevêem várias tempestades ao logo da costa e travada
pela minha secretária de trabalho.
Significa alguma coisa? Não! Mas foi o que me apeteceu
fazer.
Pentax I-10
By me
Esta fotografia tem uns quarenta e tal anos.
Consto nela, tal como o meu chapéu e o meu primeiro tripé
Gitzo. A câmara, uma Pentax MX, não está na imagem porque foi usada para a
fazer.
O que consta, apesar de muito discreto, é o meu relógio,
usado como sempre no braço direito.
Comprado a um preço simpático, tinha um detalhe pouco comum
então: Sendo digital, usava um método misto de mostrar o tempo: ponteiros e
mostrador numérico. E tinha uma característica que me levou a ficar com ele, no
meio de muitos outros.
O seu cronómetro também funcionava em regressivo mas sem
iluminar o mostrador. Detalhe vital para quem revelava negativos de grande
formato em preto e branco, usando tinas abertas e na escuridão total.
Marcava-lhe 50 segundos e quando apitava era o momento da agitação de dez
segundos. Sempre no escuro, como impõe o uso de materiais pancromáticas. Só
algum tempo depois encontrei e comprei um tanque estanque à luz que me permitia
trabalhar com mais conforto, bem tarde na noite, já que usava a casa de banho
da família como laboratório. Fartei-me de usar fita adesiva para bloquear o
interruptor da luz no seu exterior.
Um compincha destas andanças, com as mesmas limitações,
usava um gravador de cassetes com um tema musical de que gostava cuja batida
rítmica lhe servia de guia temporal.
As técnicas, limitações e complicações evoluíram,
facilitando (ou dificultando) os processos. Mas o objectivo sempre foi o mesmo:
fazer Fotografia. Cujo dia mundial se comemorou esta semana.
By me
De tanto procurarmos a perfeição universal, esquecemos as
nossas próprias imperfeições.
E são elas o sal da vida!
Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 35 1:2,8
By me
Para os curiosos destas coisas, aqui fica uma imagem de um
copipod da Asahi Pentax.
Sendo uma peça concebida nos anos 60s, em que se usavam
câmaras em que a objectiva era fixada com o sistema M42 (rosca), este conjunto
está em estado novo mas o estojo para as suas peças é em material sintético,
pelo que posso deduzir que seja um dos últimos modelos.
Não me veio parar às mãos acompanhado do manual de
instruções, levando-me a descobrir sózinho todas as potencialidades deste
sistema, com um pouco de apoio do on-line.
Foi aí que fiquei a saber que as boas marcas da época tinham
sistemas semelhantes. Ainda não tinham surgido as fotocopiadoras e muito menos
os scaners, sendo este um dos meios para copiar documentos, quer a película
usada fosse o 35mm ou menor.
Alguns foram os estudiosos e os entusiastas da fotografia que
tinham ou desejavam ter uma peças destas. Eu era um deles.
Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4
By me
Um destes dias cometi uma asneira. Grossa.
Melhor dizendo, fiz algo que valeu por duas asneiras: uma
pelo que fiz, outra porque já sabia que era asneira e insisti.
Tentei explicar a alguém os fundamentos de uma dada
objectiva: para que serve ou é usada, quais os motivos técnicos de assim ser e
quais os respectivos problemas.
Asneira!
Asneira porque já conhecia a pessoa e, mais que querer
aprender, queria exibir-se pelo possuir aquela peça, pouco comum, diga-se de
passagem.
E asneira porque este tipo de pessoas, mesmo que queira
saber algo, não querem saber fundamentos ou algo que vá mais para além do que
como se usa. As razões de ser dos seus aspectos são-lhe inúteis, entendo-as
como enfadonhas e supérfluas. É-lhes pouco importante saber o porquê,
limitando-se a “brincar” com o que têm, sem perceberem que, sabendo-o, podem ir
muito mais longe: na profissão ou na criatividade.
O mesmo acontece em inúmeros grupos na internet e com a
maioria de quem procura respostas nos tuturials em vídeo nos youtubes que por
aí há.
Exemplo estúpido ou não tanto: Alguém procura saber como
desapertar determinada peça, que por mais que tente não consegue. E alguém
explica que aquela peça desaperta para a esquerda. Chega de saber. Não importa
saber que, naquela peça e pelo tipo de movimento a que é sujeita, haverá que
ter a rosca invertida para que não se solte ao usar. Claro está que quem
perguntou e não aprendeu tudo, terá um dia a peça no chão porque mal usada e
mal apertada.
Os manuais de instruções existem para serem lidos mas também
como base a conhecimentos complementares e mais aprofundados. Os que ignoram os
manuais de instruções, os que procuram o conhecimento pela rama e colado com cuspo,
os que desdenham do saber, limitando-se a papaguear o que mal ouviram e a
copiar no lugar de entenderem o que outros fazem, nunca irão longe,
dificilmente subindo para além da fasquia da mediania.
Não os lamento, porque o que importa é que sejam felizes ao
alcançarem os objectivos a que se propõem. Mas cada vez tenho menos vontade de
lhes abrir novos horizontes.
Em jeito de complemento, sempre acrescento que a objectiva
em questão, não sendo a que está na imagem, era uma Nikon 24mm tilt and shift,
rara, dispendiosa e bela.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Poucas semanas depois de Abril de ’74, alguém escreveu num
muro por onde eu passava todos os dias a caminho do liceu:
“Liberdade para todos menos para os fascistas”.
Entendo o sentimento da época: O regime tinha acabado de
cair e haveria que vingar o passado. Mas foi uma frase que nunca me saiu da
cabeça.
Apesar de adolescente ou já quase não, o meu conceito de
liberdade não se conformava com isto. Afinal, a liberdade é liberdade. E a
ausência, ou a prisão, só seria admissível em caso de crime provado. O simples
facto de se pensar diferente não seria crime. O regime que acabava de cair
tinha a mantê-lo exactamente o punir quem pensava diferente. E isso não
queríamos.
Continuo a pensar da mesma forma. Pensar ou discursar
diferente não é crime. Podemos não gostar. Podemos tudo fazer para que os
discursos não sejam consequentes. Podemos mesmo não comparecer nos discursos.
Mas impedir discursos, impor pensamentos ou proibir pensamentos
será muita coisa, mas não liberdade. E queremos liberdade. A Liberdade!
À época ou pouco depois esta era a câmara que possuía. E
ainda não tinha começado a registar grafitis. Nem dos bons, nem dos maus.
Mas da minha memória ninguém tira o que vi nem a repulsa que
sentia todos os dias quando por aquela parede passava!
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
Interpretação subjectiva de um concerto de jazz em Lisboa
com um livro de Walker Evans na mão, usando um telemóvel com um gadjet.
LG-D405
By me
O assunto tocou-me de perto. De muito perto.
Uma pergunta feita num grupo de fotografia:
“Um bom professor de fotografia necessariamente precisa de
ser um bom fotógrafo?”
Achei que teria algo a dizer e, sendo que o poder de síntese
não é o meu forte, alonguei-me na resposta.
Aqui fica, com uma imagem de arquivo.
“Não creio que assim seja.
Se começarmos por aceitar que um bom professor não é o que
ensina mas antes o que ajuda a aprender, centrando a sua actividade na
qualidade da aprendizagem do aluno e não na qualidade do ensino do professor,
constatamos que o que importa é que os alunos aprendam.
Na aprendizagem importa que existam as dúvidas, provocadas
pelo professor ou surgidas naturalmente no aluno. Na aprendizagem importa que
haja curiosidade e vontade de esclarecer as dúvidas, junto do professor ou no
restante do mundo.
O papel do professor é, e para além de fornecer,
disponibilizar e fomentar os conhecimentos e competências no aluno, o de o
levar a procurar o seu próprio caminho, mesmo e principalmente contestando o
professor. De preferência, ir mais longe que ele.
Conheço alguns bons fotógrafos que dão aulas, que nada
percebem de pedagogia e que são incapazes de levar os seus alunos ou aprendizes
tão ou mais longe que eles mesmos.
E conheço alguns professores de fotografia que, sendo
medianos fotógrafos, sentem prazer ao serem ultrapassados pelos
alunos/aprendizes. São estes que nunca esquecemos com o passar dos anos.
Encontrar alguém que conjugue a excelência nos dois campos é
coisa rara.
Os meus cinco cêntimos.”!
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
A fotografia tem o terrível defeito de nos levar a fazer algumas
perguntas quando a vemos:
O quê, quando, quem, onde…
Ao contrário da pintura, que aceitamos não ser factual, da
fotografia esperamos algum tipo de semelhança com a realidade. “O fotógrafo
estava lá” ou “Documento” ou ainda “Para mais tarde recordar”.
Se não tem uma leitura ou interpretação imediata, se as respostas
àquelas perguntas não forem instantâneas, a imagem fotográfica é desprezada,
não se gastando com ela mais que o tempo de passar à seguinte.
Parar um pouco para deixar que sejamos nós a encontrar
dentro de nós as tais respostas, a deixar que seja a nossa imaginação ou
vivência a completar aquilo que o nosso racional não discerne, permitir um
diálogo entre quem vê e o que vê em vez de uma atitude passiva…
Da fotografia não se espera que nos ponha a pensar, que isso
dá muito trabalho. Mas isso também raramente nos permite sonhar.
Pentax K7, smc Pentax 50 1:1,2
By me