sexta-feira, 22 de maio de 2026

O cota barbudo e os seus discursos inflamados




Tal como a maquinaria, também o corpo humano se vai gastando. E, de quando em vez, vá de ir fazendo testes: para confirmar aquilo que já se sabe ou para descobrir novas maleitas. Hoje foi dia disso.

Ao entregar a papelada perguntei quando estariam prontos, ao que me disseram que enviariam os resultados por correio eletrónico. Mas que se os quisesse impressos, que estariam disponíveis no dia 3.

“No dia 3?! Mas é dia de greve geral!”

“Pois é, mas eu venho de carro e não uso o comboio.”

“Mas o problema não é os comboios estarem parados. A questão mesmo é vocês virem trabalhar nesse dia.”

“Ah, bem, sabe como é...”

“Sei, ou acho que sei. Eu não faço greve porque já não estou no activo. Mas farei questão de nada fazer que dependa do trabalho de alguém que nesse dia não está de greve. Mas ao não fazerem greve, mesmo que estejam a não se incompatibilizarem com quem vos emprega, estão a não acautelar o vosso futuro. Em muitos aspectos importantes. Até no assegurarem o vosso posto de trabalho actual. Informem-se e actuem! Virei na quinta-feira, dia 4!”

Calei-me para mudar de posição. Que a minha anca esquerda estava a dar sinal de si. E olhei em redor.

Além de quem me atendia, mais três funcionárias atendiam gente a querer tratar da sua saúde. E em frente delas, várias pessoas a serem atendidas.

Mas todas elas, com ou sem farda imaculada, estavam paradas e a olhar para mim, o tipo das barbas que assim falava, num tom em crescendo. Quando viram o meu varrer de olhar, fizeram de conta que estavam muito ocupadas e o silêncio que se tinha feito, apenas cortado pela minha voz, desfez-se como que por magia.

Com um pouco de sorte, uma ou mais daquelas pessoas se recordarão no momento certo daquele cota barbudo que, já pouco podendo fazer pelo seu próprio futuro, não desiste de lutar pelos futuros alheios. Com palavras e com actos.

 

Lumix DCM – DZ 60


By me

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