terça-feira, 31 de março de 2026

Golpes de sorte




Quem se interessa por fotografar não pode deixar de parte o aquilatar da luz. Quer seja com os sistemas inclusos na câmara, quer seja com fotómetros externos.

Eu gosto desses aparelhos, nas suas diversa valências, e uso-os, em casos de dúvidas, para ter algumas certezas no que faço. E gosto de os ir colecionando, numa coleção que é forçosamente diminuta pelos preços e pelo que há no mercado. Principalmente os mais antigos, alguns dos quais, por força do seu sistemas de medição de luz, já não funcionam.

Um destes dias apareceu à venda um aparelho que cobiçava para completar uma série de uma dada marca. E o preço era muito convidativo.

Combinado o encontro, quem o vendia confundiu-se e tinha consigo um completamente diferente. Na marca, na forma de funcionar, na forma de manuseio, no tamanho... meio em jeito de compensação por eu não levar o que queria, ofereceu-me este.

Fiquei a ganhar e nem quem vendia sabe quanto.

Se, por um lado, aquele que quero aparecerá cedo ou tarde, este é peça mais que incomum, ainda que não rara.

Podendo funcionar como todos os outros, na mão, tem um encaixe que permite ser colocado na sapata dita de flash, libertando a mão mas estando sempre disponível.

O sistema nem é novo, bem pelo contrário: se era usado na época em que os fotómetros tinham a célula sensível à luz em selénio e não usavam pilha, alguns hoje, com o revivalismo das câmaras de película, já são digitais com o mesmo sistema de suporte e vendem-se em lojas on-line.

Este pertence a um periodo intermédio (anos 1970), já com célula em silício (necessita de pilha) e com um sistema de medição equivalente ao das câmaras da época com fotómetro incorporado. Não terão existido muitos fabricantes a apostarem neste sistema, que foi rapidamente ultrapassado pelo usado nas câmaras reflex como as conhecemos, antes do advento do digital.

É assim que por vezes, “sem saber ler escrever” se encontram peças que marcaram a história da fotografia, mesmo que brevemente.

E uma das vantagens de as ir colecionando, ou juntando, é o irmos investigando o possível sobre o que adquirimos. E admirarmos a engenhosidade dos fabricantes e o complexo que era fazer as fotografias que hoje admiramos.

Mesmo que seja por uma pecinha do tamanho de meio maço de cigarros. E de borla.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4


By me

Dúvida




Tenho sempre esta dúvida sobre comportamentos ao entrar num sanitário público:

Perante tantos urinóis vazios (ou cabines individuais vazias) quais as que são preferidas pelos necessitados?

Alguma escolha será feita, algum desses equipamentos será mais usado: Pela proximidade da entrada, face à urgência sentida? O mais central, numa atitude de indiferença? O mais distante, em busca de privacidade?

Não será muito adequado o colocar câmaras ou sensores nestes locais para efectuar estatísticas. Mas acredito que os gestores ou manutentes destes espaços terão alguma opinião formada, quanto mais não seja pela degradação dos equipamentos ou pela sujidade acumulada ao fim do dia. Já quanto às motivações… só um inquérito junto dos aliviados poderá levar a alguma conclusão válida.

Alguém quer opinar?

 

Telemovel


By me

segunda-feira, 30 de março de 2026

Um retrato roubado

 


Um retrato roubado

 

Pentax K100D, Pentax 18-55


By me

Recortes do “Old fashion”




Na minha câmara, caixa, artefacto, o que lhe queiram chamar, tinha um mostruário.

Não é particularmente grande – três fotografias de cada lado – e faz muito que não o mudo. Tenho andado com vontade e de o fazer, mas a preguiça tem-se imposto e lá vai ficando. Ainda bem!

Uma das fotografias é de uma senhora e de sua filha. Romenas, a mãe não tem ofício certo que não seja andar a pedir, ao que me parece.

Uma ocasião um garoto, igualmente romeno e que as conhece, orgulhoso da sua recente aquisição – uma bicicleta – viu-me e veio cumprimentar-me. Tão orgulhoso estava que insistiu em ser de novo fotografado – tinha-o sido uns meses antes – mas desta feita aconteceu montado no corcel.

Enquanto a imagem se processava, sempre me foi dizendo que aquela senhora tinha estado ausente para a sua terra natal mas que regressaria na semana seguinte.

Umas semanas depois constatei que ela tinha regressado!

Sou abordado por dois homens, com uma terrível dificuldade em se exprimirem em português. Mas ao verem a fotografia da senhora, todas as barreiras linguísticas se derrubaram. Um deles soube dizer-me que a criança era linda, conhecendo-a pelo nome. E que era linda, e que era linda, e tão linda ao ponto de beijar a fotografia ali pendurada.

O seu companheiro lá se fez entender e comunicou-me que era a filha que ali estava fotografada.

Claro que quiseram ser fotografados e se a fotografia não fosse gratuita passaria a sê-lo.

Poder unir, ainda que com corantes jorrados num papel, uma família nómada e de parquíssimas posses, é pagamento que baste. E se a tarde rendeu pouco em quantidade, sobrou em qualidade!


By me

sábado, 28 de março de 2026

Recortes do “Old fasion”




Suficientemente ébrio para ser o motivo de chacota da garotada; suficientemente sóbrio para sentir curiosidade.

Suficientemente grosso para ter a língua entaramelada; suficientemente lúcido para perguntar, com timidez, se também podia.

Suficientemente bêbado para mal se aguentar direito; suficientemente arejado para guardar com mil cautelas a fotografia no seu saco maltrapilho.

Suficientemente toldado para me confidenciar alguns dos detalhes miseráveis da sua vida profissional; suficientemente ser humano para querer que se escrevesse por trás da foto o meu nome, a data e o local para mais tarde recordar.

Suficientemente gente para, ao afastar-se, agradecer com um aperto de mão e pedir desculpa de não estar nos seus melhores dias.

Suficientemente bom para, ao ir para onde quer que fosse naquele fim de dia, ainda olhar para trás com um sorriso para a garotada que dele chacoteava.

 

Quem? Não sou suficientemente despudorado para aqui e assim o exibir!

 

By me


Rapinagem


 


A crise está de tal modo que tudo nos roubam, tiram, subtraem. Legal ou ilegalmente.

Hoje sonegam-nos tempo, ao retirarem-nos uma hora de sono.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

Um retrato – e nunca saberei o seu nome

 


Tem vinte anos esta fotografia. E recordo com muito rigor as circunstâncias em que foi feita.

É que não sou pessoa de fotografar quem pede, quem dorme nem se sabe onde, quem passa fome. Não procuro colecionar troféus com a desgraça alheia.

Mas este caso... estava sentada no chão, com um copo como receptáculo de eventuais esmolas. Até aqui, infelizmente, o habitual. O que nada tinha de normal era o local onde se encontrava: numa transversal de uma avenida muito “bem” de Lisboa, numa zona de prédios vetustos e condenados para breve e onde os transeuntes mais que rareavam. E rareiam, segundo imagino.

Saltou-me à vista o seu total isolamento, de tudo e todos, o seu olhar perdido num ponto para além do horizonte bloqueado por prédios.

Contribuí. Uma espécie de obrigação, um dizer “hoje ainda recolhes alguma coisa”.  E tentei entabular conversa. Inconsequentemente. Que não partilhávamos língua nem vontade de conversar.

Foi por gestos que lhe pedi por uma fotografia, feita com uma câmara de bolso que tinha comigo. Anuíu com aquele olhar de “tanto me faz”. Nem sequer me pediu por uma moeda adicional pelo acto fotográfico.

Não tenho orgulho neste registo. Mas faz parte do meu arquivo e guardo-as todas, pois fazem parte do meu próprio percurso.

 

Samsung S1060


By me

sexta-feira, 27 de março de 2026

O protagonista




Este é o protagonista da história. Um quase vítima, salvo devido a boas vontades já raras e alguns sacrifícios.

Mas eu conto do princípio.

Em sendo fim de semana, o meu desembarque ferroviário em Lisboa, a caminho do trabalho, era na estação de Benfica. Dava-me mais jeito.

A mim e a muitos outros, que aqui fazem transbordo para autocarros com diversos destinos, próximos ou distantes.

Sendo que nunca gostei de correr de ou para o trabalho, costumo deixar os mais apressados tomar a dianteira. Acendo um cigarro e vou olhando em redor, umas vezes vendo coisa nenhuma, outras remoendo em ideias crescidas no comboio, outras ainda em busca de algo que justifique a câmara que trago no bolso. Naquele dia não foi excepção.

Mas notei que a composição demorava a partir. Coisa pouca, mas o suficiente para me alertar.

Eis que, de uma das portas abertas (estavam quase todas) saiu o revisor. Afastou-se do comboio enquanto que, com o olhar, varreu a plataforma já quase deserta. Em passos rápidos dirigiu-se à rampa de saída, debruçou-se sobre o parapeito e chamou. Não sei o que disse, que não estava eu perto o suficiente par ouvir, mas fez um chamamento. Que foi ouvido.

Uma mocinha, de vintes e poucos, arrepiou caminho, entrou numa carruagem e saiu de seguida. Na mão trazia um saco de plástico cheio.

O revisor olhou de novo para a plataforma, primeiro um lado, depois o outro. Neste, o seu olhar cruzou-se com o meu. Um sorriso e um aceno de cabeça meus, de agradecimento p’la atitude, um sorriso igualmente breve, com um encolher de ombros da parte dele. E embarcou, fazendo sinal ao maquinista para seguir. Que fez soar o apito, fechou as portas e reiniciou a marcha.

Todo este compasso de espera terá demorado, no máximo dos máximos, 90 segundos. O suficiente, talvez, para que algum passageiro a bordo bufasse de impaciência. No entanto não creio que tenha estragado em demasia a “tabela” a cumprir.

Desci as escadas, agora já sem gente apressada, e dirigi-me para a paragem onde haveria de tomar o autocarro. Sem grande surpresa, constatei que na fila estava a mocinha meio-esquecida. Que embarcou à minha frente e se sentou onde encontrou lugar. Aqui!

Não poderia eu meter conversa para um registo fotográfico mais explícito. Nem o lugar nem as circunstâncias o permitiriam.

Restou-me o fotografar à sorrelfa o saco, o bendito saco que quase seguia para destino desconhecido, não fora a boa vontade de um revisor da CP.

 

Andamos todos preocupados com o presente e apreensivos sobre o futuro. Alguns há, felizmente, que tratam de pintar com cores um pouco mais alegres e fruto dos seus bons actos o negrume que vemos.

Bem hajam!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

quinta-feira, 26 de março de 2026

Atitudes




A primeira vez que fui escalado para uma transmissão de uma tourada foi um drama.

Foi um drama para mim, que já então abominava essa prática e não queria contribuir para a sua divulgação; foi um drama no trabalho, que não aceitaram o meu pedido de mudança de tarefa por objeção de consciência; foi um drama em casa que me alertaram para a possibilidade de ser despedido se não comparecesse... foi um drama.

Acabei por ir e criar reboliço.

Quando a minha câmara estava no ar no momento em que o ferro era cravado, no lugar de acompanhar o vitorioso cavaleiro ou matador, acompanhava o toiro, apertando o plano até ficar apenas com a cabeça, os quartos dianteiros e, bem em evidência, o local onde ficara a bandarilha espetada. E, se o toiro me desse o seu melhor perfil, o brilho vermelho do sangue a escorrer.

O gritos do realizador eram portentosos, com insultos pelo caminho, mas não me desviei do meu objectivo. E repeti a proeza nas lides seguintes.

Em acabada a transmissão ouvi das boas, com ameaças dos quintos dos infernos, mas eu estava na minha, argumentando que se o objectivo era cravar a bandarilha, era isso que mostrava, por muito que isso incomodasse o público. E esse era o meu objectivo secreto: que o público se incomodasse e deixasse de ver aquilo.

Fiz mais duas ou três transmissões esse verão e nunca mais me escalaram para esses trabalhos. Fiquei uns tempos de castigo não formal, mas ganhei a guerra: comigo não contavam para essa barbárie.

Agora, passados que são uns decénios valentes, estou num dilema equivalente. Termina dentro de dias uma exposição fotográfica em Lisboa em que o tema são corridas de toiros.

Não duvido da qualidade do exposto. Se bem conheço o galerista, posso apostar que as fotografias são muito boas, mesmo sem as ter visto.

Mas não me apetece contribuir com a minha presença para o sucesso de uma exposição sobre esse tema.

Sei que estas minhas posições são polémicas e conduzem a conversas ou discussões sem fim e sem vencedores ou vencidos. E tenho-as tido ao longo da vida sobre diversos assuntos, desde produtos alimentares a actividades político-partidárias, passando por certames fotográficos e apertos de mão a figuras gradas da nossa sociedade.

Mas também sei que ninguém irá escrever na minha lápide fúnebre “Aqui jaz um tipo de bom feitio”.

 

Pentax K7, Tamron SP 90 1:2,5


By me

quarta-feira, 25 de março de 2026

Le nu




Termos que nos deslocar a pé na cidade tem destas coisas: ser surpreendido com mercados de rua onde podemos encontrar pequenos tesoiros. Foi o caso.

Este livro, usado, custou-me cinco euros. Quase o preços da chuva, convenhamos. Mas o seu valor é muito superior, se considerarmos outros factores que não os de capa.

Para além de fazer parte de uma série de livros que existe desde há 40 anos, ao que sei, que são razoavelmente bem impressos para o preço, no seu conjunto abordam todas as vertentes da fotografia. Monografias por autor ou temáticas.

Claro está que um livro temático depende, no seu conteúdo, das opções do editor. Que pode não deixar de ser tendencioso e terá, certamente, preferências. Este exemplar é um exemplo oposto num aspecto.

Ao contrário da esmagadora maioria das obras sobre o nu fotográfico, este não se atém ao nu feminino. Contendo fotografias desde 1855 até 1984, talvez que 20% delas são masculinas, o que é particularmente raro.

Começa, desde logo, por geralmente se fazerem muito menos fotografias de nu de homens que de mulheres. Suponho que haverá algum receio por parte dos homens fotógrafos de serem chamados de “bichas” se o fizerem.

Depois porque, e isto aplica-se na pintura também, a maioria dos consumidores de fotografia (em livro, em revistas ou individuais) serem homens. Quer os que compram avulso, quer os que encomendam aos autores para comprar. E, não nos enganemos, a grande maioria dos consumidores de fotografia, bem assim como os produtores, fazem-no como substituto daquilo que não podem possuir. Seja um pôr-do-sol, seja um castelo, seja um automóvel, seja um ser humano. Um acto de cobiça, se quiserem ir longe nos conceitos. Sendo a maioria dos consumidores e produtores de fotografia homens, faz algum sentido que cobicem mulheres. Na posse ou na produção de fotografias, as mais das vezes, o sentido estético pesa objectivamente. Mas a posse do fotografado pesa subjectivamente, sem que disso nos apercebamos.

Como se tudo isso não bastasse, existe um conceito bacoco em que o belo no corpo humano apenas acontece no feminino. Só as mulheres são belas, só os corpos das mulheres podem acordar a líbido, só os corpos das mulheres podem evocar sentimentos. Conceito bacoco e machista! Sugiro que perguntem às mulheres se assim acontece.

É assim, pelo acima dito sumariamente e por tudo o que não é dito que longo seria, que um livro que aborde a fotografia do nu e inclua fotografias de nus masculinos se torna numa peça rara de encontrar. Numa livraria, numa feira de rua ou numa biblioteca. Excepção feita à minha, onde constam alguns.

Acrescento que imagem da capa que mostro está assumidamente censurada por mim para evitar que os puritanos (humanos ou algoritmos) das redes sociais a bloqueiem tão rápido a encontrem ou seja denunciada.

 

Pentax K1 mk2, Tamron SP 90 1:2,5

 

By me


Reunião magna

Acho que todos conhecemos a expressão “o idiota da aldeia”.

É que todas as aldeias têm um, seja qual for o tamanho da aldeia. Mais cómico ou mais trágico ou mais violento. Mas, no fundo, são todos e cada um mais ou menos inofensivos.

A questão complica-se porque há muitas aldeias. E todas enviam o seu representante idiota a uma reunião magna. E nesta se toma o poder sobre todas as aldeias.

Temos tido diversos exemplos ao longo do tempo e do espaço. Alguns tão próximos que são o presente. E com isso somos geridos num congresso de idiotas em que o líder foi escolhido por ser o mais idiota de todos.

 

By me

segunda-feira, 23 de março de 2026

Histórias velhas




À época não havia onde aprender o ofício. Aliás, só uma empresa tinha profissionais na área, já que era a única em Portugal que tinha aquele tipo de ramo: televisão.

Dos que passaram nas provas de admissão alguns de nós fomos admitidos ao curso de formação que nos daria as bases. Três meses de teóricas e dois meses de práticas. Na primeira parte seis horas por dia com diversos formadores em sala de aula, sem autorização de acedermos às áreas técnicas.

No primeiro dia de prática fomos recebidos no estúdio por três consagrados operadores de câmara. Daqueles cujo nome era de encher a boca.

Depois das apresentações, convidaram-nos a por em prática algo que haviamos aprendido das teóricas: executar um traveling. Por outras palavras, movimentar uma câmara para a frente ou para trás ou para os lados sempre com imagem útil.

Os que encheram o peito e foram mostrar as suas habilidades ou capacidades, ficaram todos de orelha murcha, já que nenhum foi capaz de o fazer, mesmo sob o sorriso irónico desafiante dos formadores.

Após o fiasco, um deles agarrou-se ao tripé e à câmara e quase que dançou uma valsa com ela, com uma suavidade e perfeição impressionantes.

Acabada a demonstração disseram-nos que no final do curso saberiamos fazer aquilo assim (ou lá perto) e que o truque ou técnica não estava (e não está) na força mas no jeito de o fazer. E isso aprende-se. Aprendemos.

Anos mais tarde sorria eu ao ver recém chegados, vindos de escolas profissionais ou mesmo já com experiência, a não serem capazes de fazer aqueles movimentos de câmara com suavidade, agarrando-se com força aos pedestais, coisa muito mais fácil de manobrar que um tripé.

Explicava-lhes então eu que aquilo se faz com quatro dedos: dois para o pedestal e dois para o punho da câmara. E que é fácil, muito fácil. E demonstrava.

Dava-me um prazer imenso ver como os seus olhos se abriam de espanto (mesmo os de alguns já com experiência) ao perceberem que afinal aquilo é quase manteiga, desde que se saibam os truques ou técnicas.

Terminava eu com a explicação dos motivos da física e da dinâmica que justificam essa facilidade. E essa é a “pedra de toque”. Perceber o porquê das coisas funcionarem. Permite bem fazer aquilo que se sabe fazer e aplicar esse conhecimento a situações novas ou diferentes, facilitando e melhorando a sua execução.

Os que não se preocupam em saber o que está para além do botão ou do manípulo nunca serão algo mais que repetidores ad nauseam das mesmas tarefas, incapazes de criar ou improvisar. A menos que se seja um génio, coisa rara de encontrar.

Isto é válido para imagem, culinária ou astronautica.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

domingo, 22 de março de 2026

Amor/ódio




Há tarefas com as quais tenho uma relação amor/ódio em que o ódio prevalece. Um bom exemplo é o emparelhar meias.

Com o passar dos anos acabei por encontrar uma solução que me evita ter que o fazer: desfiz-me das meias que tinha, novas ou velhas, e comprei vários pares de meias iguais. Todas iguais no tecido, na cor, no padrão. Assim, quando as tiro do varal onde secaram depois de lavadas, vão a monte para a gaveta. E quando vou por meias lavadas basta-me meter a mão e tirar duas. Sei que serão iguais.

Mas há outras tarefas que não podem assim ser tratadas. Implicam tempo disponível, disposição para as executar e tranquilidade no fazer. Um bom exemplo é o limpar o sensor de uma câmara digital.

Sabemos que o sensor é uma parte delicada da câmara e que qualquer poeira se nota na imagem final. E que qualquer risco no sensor é o seu fim. Por saber da delicadeza da tarefa, de que não gosto pela dose risco que implica, faço-a apenas em último recurso e quando me sinto suficientemente tranquilo para tal. Foi o caso.

Sentado à mesa de trabalho do “estúdio”, o local tão imaculamente limpo quanto o possível, deito mãos à obra. Cavidade da câmara limpa antes de expor o sensor, espátula de limpeza retirada do invólucro estéril e devidamente humedecida, faço a primeira passagem. A meio da segunda passagem, em sentido inverso, aconteceu o mais improvável: fiquei sem energia elétrica.

Não que processo implique eletricidade. De preferência até não, para evitar estáticas. Mas convém que eu veja o que estou a fazer, principalmente quando estou a intervir no sensor. E ficar às escuras com a espátula nele encostada será algo de todo não recomendável.

Consegui retirar a espátula da cavidade sem com ela tocar o que quer que fosse e desliguei a câmara. Às escuras fui em busca de uma luz alternativa e tratei de aguardar tranquilamente pelo regresso da energia. O que não demorou mais de meia hora.

Mas, ali mesmo quase às escuras, fiz uma jura solene: de agora em diante ou faço esta limpeza de dia, perto de uma janela, ou faço-a à luz de baterias devidamente carregadas. Sempre evito o susto, o risco e o soltar uns valentes palavrões.

Nota adicional: o sensor ficou incólume.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

quarta-feira, 18 de março de 2026

Imagem




Hoje fui tratado de um modo quase indigno: fizeram-me uma imagem!

É verdade que foi sugerida e eu aceitei mas, no final, nem ma mostraram e muito menos se proposeram dar-ma ou enviar-ma. “Tá feito, tá feito, venha outro!” como se eu estivesse na rua a acender um cigarro e viesse alguém com uma câmara apontada para mim.

Pior ainda: desnudei-me a pedido para a imagem.

Não que isso me incomode por demais. Nunca fui exibicionista ou envergonhado. Menos ainda com esta idade. No entanto, caramba: um tipo que se desnuda assim sem preconceitos perante a máquina merece um pouco de consideração. No mínimo deixarem-me ver aquilo que eles viram em mim que justificou o quererem fazer uma imagem. Mas não: nadica de nada.

Quando vim embora, vinha de mãos a abanar. Enfim, não completamente porque, liberto das restrições óbvias, vinha com um cigarro aceso, bem seguro por via da ventania.

Mas na minha cabeça ainda ressoavam aquelas palavras de antanho, que se repetem e que quase todos bem conhecem: “Encha bem. Não respire. Pode respirar.”

Saudades dos tempos em que ficávamos com o positivo em papel, à saída do fotógrafo. Ou a chapa em negativo à saída do consultório de RX.

 

Olympus C3030Z


By me

terça-feira, 17 de março de 2026

Imagem e realidade




Por vezes, pensando nisto e naquilo, chegamos a conclusões estranhas!

De acordo com as lei da física em geral e da óptica em particular, uma lente positiva – ou um sistema óptico positivo – formam uma imagem real, invertida e menor que o objecto.

Vem nos compêndios, aprendemos na escola e usamo-lo no quotidiano. Nas lupas, nas objectivas, no cristalino.

O que me leva a constatar que as imagens que temos e fazemos do mundo são, na sua essência original, o inverso do que pensamos e com que lidamos. Para chegarmos ao universo como o entendemos temos que inverter as imagens que produzimos, quer sejam a da câmara ou a do olhar.

Daqui que possa concluir, sem grande esforço, que o mundo que nos cerca e que constatamos com as imagens que construímos, é real, verdadeiro, muito maior do que o vemos e invertido à forma como o vemos.

Pergunto-me assim se, sendo o universo o inverso do que vemos, será que nós, seres humanos, temo motivos para assumirmos a importância que nos atribuímos?

E será que quando nos travamos de razões com alguém, o facto de vermos a vida de pernas para o ar não nos porá a ver o mundo com uma distorção diferente da do nosso interlocutor?

E vale a pena agredirmo-nos e matarmo-nos porque vemos e sentimos a vida do avesso?

 

Samsung S1060


By me

domingo, 15 de março de 2026

Cultura




Eis que me recordo de alguém que conheci que se candidatou ao cargo de realizador de televisão.

Na prova de cultura geral teve uma classificação de zero valores, da qual recorreu.

No recurso era argumentado que nenhuma das questões colocadas constavam num livro de cultura geral que havia estudado e que até sabia de cor.

Durante algum tempo este episódio era contado entre amigos e colegas, quando algum se sentia mais em baixo ou frustrado.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55

sábado, 14 de março de 2026

Escritas




Se pensarmos bem sobre o que fazemos, nós os fotógrafos, acabamos por chegar à conclusão que a nossa actividade funciona pela negativa.

Já nem falo, agora, na questão do enquadramento, em que com ele excluímos tudo o que nos cerca menos o que nos interessa. O sistema fotográfico assim nos obriga.

Falo, antes sim, que ao fotografarmos não estamos a registar a luz que nos agrada mas antes a modificação que ela sofreu. Quer seja por atravessar a atmosfera, quer seja porque algo se interpõe no seu caminho, quer seja a que é reflectida de um qualquer objecto ou ser vivo.

Não fotografamos a luz mas sim as suas consequências.

Tenho uma especial predilecção por fotografar empenas.

São telas grandes, impolutas de cores e irregularidades de formas, o local certo para que a luz, que não vemos, incida, se manifeste e nos mostre as alterações que sofre: as modificações de quando o sol está baixo no horizonte, atravessando mais atmosfera e materiais em suspensão; a reflexão na atmosfera, mostrando-nos um cor celeste tão breve quanto o pôr-do-sol; a interrupção no seu trajecto, feita pelos prédios vizinho, que reduz à bidimensionalidade fotográfica o que é de facto tridimensional…

Para todos os efeitos, sombras projectadas são fotografias, na medida em que é a escrita da luz que vemos.

Naquele dia atrasei-me no meu caminho, entretido que estive a ver aquele magote de gente jovem a desfrutar do jardim, do fim do dia e da antecipação de férias. Espraiados pela relva em pequenos grupos sentados nela ou não, cavaqueavam e riam-se por entre golos de cerveja barata com a displicência e alegria própria de quem ainda não entrou nas rotinas e obrigações laborais, parentais e horárias. Bom de ver, mesmo!

Quando decidi seguir e ir até a uma das minhas empenas favoritas constatei que era tarde: não chegaria a tempo de assistir à última fotografia ali exibida pelo sol.

Mas sendo que estava disposto a fotografar uma fotografia, escolhi outra: esta, que estava mesmo ali e que, fosse lá porque fosse, ainda não havia descoberto.

E se nós, fotógrafos, procuramos com a nossa parafernália tecnológica a perpetuidade do nosso trabalho, o universo, na sua eternidade, escreve breve e rápido, não se preocupando com conceitos estéticos ou tecnologias.

Gosto de empenas ao cair do dia. E de sentir, com a modificação das sombras, a nossa rotatividade. E a nossa brevidade.

Manias!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

sexta-feira, 13 de março de 2026

Zippo




Um dos meus muitos defeitos é o ter enorme dificuldade em deitar coisas fora. O que faz com que tenha um montão de coisas aparentemente inúteis em casa.

Quando deixei de usar os isqueiros Zippo para fumar, conservei tudo o que dessa marca tinha. Para além, claro, dos isqueiros. Torcidas, pedras, estojos, combustível...

As latas, estas três, estão por meio. Tinha uma em casa em uso, uma outra em casa de reserva e uma terceira no cacifo no trabalho. Assim como estavam, assim as guardei. Nunca se sabe se voltarei a usar os meus estimados Zippos.

Mas agora, considerando os tempos que correm e o que ainda têm dentro, pergunto-me quanto darão por elas numa casa de penhores.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


quinta-feira, 12 de março de 2026

Talvez Nelson




Hoje tive que ir ao centro da cidade. Àquele espaço a que chamam de Rossio mas que, na verdade, tem o nome de praça D. Pedro IV. A esse respeito, aliás, há uma história curiosa sobre a estátua que a encima, mas fica para outros contos. O certo é que a loja que vende aquilo que procurava fica-lhe nas imediações.

Feito o negócio voltei a atravessá-la, desta feita para ir a uma outra. Não teria que ser exactamente aquela, apenas era a farmácia mais próxima. Comprei o que necessitava, deixando lá ficar o saco de plástico que me queriam impingir, atravessei meia praça e sentei-me.

Faz tempo que não usava o meu tempo naqueles bancos e fui-me deliciando com um passatempo muito meu: adivinhar à distância a nacionalidade de quem por ali está. É divertido, ainda que nem sempre tenha oportunidade de o confirmar.

Estava nestes entreténs e sou abordado. Com muita educação, com um “boa tarde” e um “desculpe” inicial e um “faz favor” de permeio, pede-me uma moeda de auxílio. Não resisti!

Enquanto que uma das minhas mãos rebuscava o bolso do colete em busca das que lá estivessem, atirei-lhe: “Até que enfim que oiço falar português aqui no Rossio!”

Sorriu de orelha a orelha e retorquiu-me: “Sabe, venho a descer a pé a avenida desde o Marquês e é só gringos!” (O seu sotaque era de terras de Vera Cruz) “Nem eles me entendem nem eu os entendo. E hoje, tal como ontem, isto está muito vazio.”

Eu já me tinha apercebido da escassez de gente, apesar do dia sorridente e bonito, e concordei. “Deve ser das tempestades e do frio que se tem sentido.”, concluiu ele.

Trocámos mais umas banalidades sobre o tempo, mostrando-me ele o pesado casaco amarelo berrante que tinha para quando o sol se escondesse, e preparava-se para continuar a sua rotina de abordagens a transeuntes.

Mas não resisti e, mesmo com a 40mm que tinha na câmara, pedi–lhe por um retrato. Este.

Acedeu mas estranhou quando lhe sugeri que mudássemos de posição para que não ficasse com a parede de fundo cheia de sol. A sua desconfiança manifestou-se na sua expressão, que se desvaneceu com um sorriso quando depois a viu.

Seguiu ele para o lados de um fast-food das imediações, onde as pessoas são mais generosas, e eu voltei para o banco de pedra, para dar mais um momento de tranquilidade às minhas amigas que vivem nas minhas ancas.

Uma hora e muito depois, já sem luz para fotografar, levantava-se uma aragem fria e eu conseguia imagina-lo a envergar o casaco antes de regressar ao local onde pernoitaria.

Fica o retrato de alguém a quem não perguntei pelo nome mas a quem posso apelidar de Nelson.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8

 

 By me

Certezas




Há que saber dizer “Não” com tanta veemência que o próprio “Sim” se envergonhe de existir.

Mas também há que saber usar o “Sim” com tanta vontade, que o “Não” se encolha de medo.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

quarta-feira, 11 de março de 2026

Crimes domésticos

A limpeza de minha casa é feita por uma senhora contratada para o efeito.

Damo-nos bem, é eficiente no que faz e a quase única restrição ao seu trabalho é o espaço a que chamo pomposamente de estúdio. É o espaço que, regra geral, é usado como sala de estar e de refeições num apartamento normal mas que, e por ser a de maior área, foi desde logo reservada para o efeito. E a restrição é simples: deste espaço cuido eu!

Não que tenha algum receio por questões de segurança, mas porque os acidentes acontecem a qualquer um e uma vassoirada num tripé de iluminação ou quejando seria um desastre.


Quanto ao resto da casa deixo-a trabalhar à-vontade, deixando eu o escritório livre quando toca a vez dele. Não nos atrapalhamos.

Da última vez que cá esteve eu ía ficando com os cabelos em pé.

Estava ela a cuidar do pó no escritório e eu tive que lá ir em busca já nem sei de quê. E em cima de uma das pilhas de livros que lá tenho por já não caberem nas estantes (por ler, já meio lidos, a reler ou de consulta) havia ela colocado uma embalagem de limpar vidros. Mesmo em cima da capa de um deles.

Não lhe disse nada, apenas ficando uns segundos na porta a ponderar o que fazer. Aproximei-me do lugar do crime, peguei na embalagem e tratei de a colocar diretamente no tampo da mesinha onde se encontravam. E levei comigo o bendito livro, na esperança de poder reparar algum dano que pudesse ter havido. Não havia, por sorte, e a capa com fotografia impressa estava incólume.

Eu sei que a culpa é parcialmente minha, pois nunca lhe disse que em cima de livros apenas se colocam livros. E deixar uma marca de produto químico num livro é uma acto tão criminoso quanto o deixar cair uma câmara. Ou mudar de objectiva no meio de uma tempestade de areia. E a estima que tenho por livros só é suplantada pela estima que tenho ao equipamento fotográfico. É que tanto uns quanto os outros me permitem viajar ou fazer outros viajar por outros mundos ou realidades.

E vou passar a estar de olho sempre que ela for trabalhar para o escritório.

Nota – A imagem aqui exibida não é a do “crime” mas apenas uma reconstituição, com a segurança de ter colocado sob a embalagem algo onde se ficar uma mancha me é indiferente.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

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Paciências




É característica de um fotógrafo, creio eu, o ser paciente.

Quer seja para saber esperar que o assunto aconteça, quer seja para saber esperar que a luz seja a que se quer, quer seja o aguardar que os químicos actuem ou o processador processe.

Um fotógrafo tem que ter paciência, em maior ou menor grau.

O que não sei é se eu terei paciência para lidar com esta câmara de faz-de-conta que encontrei um destes dias. Melhor dizendo, se terei a paciência necessária para resolver o puzzle que a câmara contém.

O resultado final terá 33 por 48 cm, juntando todas as 550 peças que o compõem. No final, supondo que lá chego, terei um painel repleto de fotografias de objectos de fotografia: câmaras, objectivas, iluminação, fotómetros, tripés, peças em madeira, em plástico, em metal, arcaicas, de película, digitais, pequeno médio e grande formato... há de todo um pouco, incluindo marcas.

E nem vale a pena perguntarem: a minha marca – Pentax – está aqui representada, bem como um modelo de fotómetro que possuo.

O único “crime” deste conjunto é a caixa, de lata e bonita como se vê, representar outra marca que  não a da minha predileção. E, nos dias de hoje com a massiva divulgação dos sistemas digitais, só quem seja mais cota a reconhecerá.

Fica o desafio.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-m Macro 100 1:4


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domingo, 8 de março de 2026

Ferramenta




Quando acontece eu abrir o meu canivete para fazer algo simples como abrir uma carta ou descascar uma peça de fruta e alguém por perto dizer “Chega para isso lá que tenho medo!”, costumo fazer uma brincadeira.

Dizendo-lhe “Vou-te mostrar algo”, aproximo a lâmina da sua cara. Na vertical e com o gume virado para mim.

Naturalmente que a reacção é a esperada: ou recuam, ou fecham os olhos, ou ficam rígidos…

De seguida acrescento “Agora espera”. E aproximo à mesma distância uma esferográfica que, entretanto, tirei do bolso.

A reacção também é a esperada: coisa nenhuma. Nem recuo nem manifestação de receio ou medo.

E continuo eu:

“Repara: apesar de me conheceres, de teres alguma confiança em mim e de saberes que não te iria fazer mal, tiveste medo da lâmina. Mas não tiveste medo algum da caneta. E, no entanto, em menos de coisa nenhuma, poderia espetar-ta no pescoço, antes que pudesses reagir.”

Assim é com tudo o que existe: por si mesmos os objectos não são perigosos!

É o uso que lhes damos que poderá, ou não, ser perigoso ou nefasto.

Um canivete, sabemo-lo, tanto pode servir para abrir uma garganta, para descascar uma maçã ou para talhar na madeira uma flauta.

Tal como uma caneta tanto pode servir para assinar uma declaração de guerra, preencher um impresso ou escrever um poema.

E, em última análise, sempre se pode concluir que a caneta é mais perigosa que um canivete, já que nos defendemos deste mas não daquela.

Em querendo, pode-se ainda usar uma velha analogia: “O poder da pena sobre a espada”.

 

O mesmo se pode dizer sobre a fotografia. Por si mesma ela não fará mal a ninguém. Mais ainda, temos a opinião generalizada que a fotografia e o acto de fotografar são questões técnicas ou artísticas, inócuas portanto.

No entanto, num bucólico jardim e numa tarde primaveril, tanto posso fotografar uma flor de uma árvore como posso afastar as folhas e discretamente fotografar o casal de namorados que ali se encontram à revelia do conhecimento das respectivas caras-metades.

A fotografia, por si mesma, nada tem de mal.

Mas quando a usamos para quebrar a privacidade de terceiros, para entrar abusivamente na intimidade de outrem, torna-se pérfida, odiosa, tão maléfica quanto qualquer outro objecto.

 

Naquele Domingo fui fotografar fantasmas. Para o fazer como quero, a técnica implica o uso de um tripé e nele a câmara orientada para zonas onde passem pessoas. Nada discreto, portanto.

Pois no jardim onde o fiz, vários foram os adultos que, acompanhando crianças pequenas, olharam para mim e para a câmara e tripé com ar agressivo. Suponho que pensaram que eu estaria a fazer imagens dos pequenotes. E, nos tempos que correm, isso é “politicamente incorrecto”. Creio que nada disseram ou fizeram porque não me viram a espreitar pelo visor. Mas que as suas caras demonstraram desagrado, lá isso demonstraram.

Felizmente, para mim e para quem estava comigo, não se aperceberam que a câmara estava a ser usada com um cabo disparador, fabrico caseiro, e que se eu quisesse fazer as imagens que eles temiam não dariam por nada.

Quando não, lá teria eu que desmontar a tralha, mostrar-lhes o que tinha registado e explicar-lhes que procurava fantasmas. Inócuo, portanto.

 

A ferramenta nunca é perigosa. O uso que lhe damos é que sim!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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sábado, 7 de março de 2026

Plink




Tinha comprado a Pentax K100D há umas duas ou três semanas. A minha primeira Reflex Digital.

Saíra de casa para ir tomar um café e, por qualquer motivo, tinha-a pendurada no pescoço e não no ombro como é meu hábito.

De súbito oiço um “plink” violento vindo do meu ventre. Como nada me doía, olhei para a câmara. Estava o filtro neste estado!

Doeu-me a alma! Coisa nova assim estragada! Depois de pensar um pouco, acabei por perceber o que se passara: uma pedrinha, que seria pequena, saltara de sob a roda de um carro ao passar e acertara mesmo em cheio na objectiva.

Por sorte, tinha e tenho o hábito de usar um filtro de protecção nas objectivas. Se assim não fosse, teria sido a objectiva a sofrer os danos.

Este é um dos argumentos a favor do uso de filtros de protecção: protegerem!

Não apenas de situações como esta, muito raras que são, mas também da água, das poeiras, de pancadas acidentais. E, igualmente importante, de riscos ínfimos que acontecem na sua superfície quando fazemos limpeza. Não damos por eles mas existem e, de algum modo, afectam a qualidade da imagem.

Os detractores do uso de filtros UV argumentam e com razão, que qualquer filtro que se coloque em frente da objectiva, por muito bom que seja, altera sempre a imagem. Tal como cumpre a sua função de filtrar parte da luz, no caso os ultra-violetas, alterando a fidelidade da cor resultante.

Assm, há quem argumente com fervor o uso de filtro, tantos quantos, com o mesmo fervor, argumentam contra.

A minha posição, tão válida quanto a oposta, é simples: a menos que não confie no estado de conservação do filtro, uso-o quase sempre. A excepção é em estúdio, onde tudo acontece com mais calma e onde a probabilidade de acidentes ou sujeira é muito pequena.

Por acréscimo, um alerta que me foi dado por um mecânico fotográfico há uns tempos:

Dizia-lhe eu que todas as minhas objectivas têm um filtro colocado, mesmo as que estão guardadas. E ele avisou-me que a caixa de ar criada entre ele e o elemento frontal da objectiva pode ser propício à criação de fungos, coisa que evitamos a todo o custo.

Pensei no que ouvira e, em chegando a casa, tomei cautelas: retirei todos os  colocados, mantendo apenas naquelas que tenho a uso. Em querendo usar, é só colocar o respectivo filtro.

Fiquei, assim, com quatro tipos de filtros arquivados: os UV de protecção, os específicos para usar com preto e branco, os de correção ou compensação de cor, hoje pouco usados porque o digital já permite esses ajustes, tanto na tomada de vista como na edição, e os quadrados, de acrílico ou de gelatina, com funções específicas e que raramente uso.

Claro que, para além dos filtro quadrados que são colocados usando um suporte especial, dos outros tenho vários repetidos devido à variedade de diâmetros frontais das diversas objectivas. Em alguns casos, aneis de adaptação permitem usar filtros maiores em objectivas menores, mas isso vai obrigar a mudar de pára-sol.

Mas uma coisa é certa, e para além das posições radicais que os defensores de uma ou outra abordagem possam ter:

Seja o que for que coloquemos à frente de uma objectiva vai alterar o resultado final. As mais das vezes essas alterações são as desejadas. Por vezes temos surpresas desagradáveis.

A sugestão que posso dar, para satisfazer ambas as partes, é usar um filtro protector e, dependendo do uso que é dado, substituí-lo de quando em vez por um novo, mesmo que não se notem riscou ou outros problemas.

A fotografia tem uns vinte e cinco anos, foi feita com a Pentax K100D e, provavelmente, com a Tamron SP Adaptall2 90mm 1:2,5.

Hoje não a poderia fazer porque, apesar de todo o cuidado que fui tendo, o vidro acabou por cair do aro.


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sexta-feira, 6 de março de 2026

Juntem-se as gerações




Cinquenta anos existem nesta fotografia.

A câmara, uma Pentax K7, foi fabricada em 2009. A objectiva, uma Super Takumar 105 1:2,8, foi fabricada na segunda metade dos anos ’60.

E se a câmara me acompanha desde então, fiel, robusta e sempre pronta, com muitos km no meu saco ou no meu ombro, já a objectiva chegou-me às mãos um destes dias, tão completa e em tão bom estado como se tivesse acabado de sair da fábrica. Para minha satisfação e para a do meu bolso, já que foi bem barata.

As condições atmosféricas ainda não me permitiram testar por completo esta coisa bonita que agora aqui aportou, mas por aquilo que puder ver até agora, não estou de todo arrependido da a ter comprado.

Durante uns dias o meu saco vai andar armado apenas com M42.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4


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Um brinde




Um brinde a todas as nossas vitórias e fracassos, que é disso que somos feitos.


Pentax K7, Tamron 18-200


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quinta-feira, 5 de março de 2026

Diatribes




Quando num autocarro vamos sentados de costas para o motorista só vemos pela janela aquilo que já passou. Mas se estivermos de virados para a frente da viatura vemos o que se aproxima.

Assim é com a fotografia:

O fotógrafo vê o há-de acontecer mas o público apenas vê o que já aconteceu.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8


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quarta-feira, 4 de março de 2026

Verdades


“Os grandes cómicos e os grandes palhaços, contrariamente ao que às vezes se imagina, não são fúteis.

...

É que às vezes há umas coisas que nós demoramos dez minutos a proferir, três semanas a escrever e a vida inteira a pensar.”

 

José Barata Moura, in “Primeira Pessoa”, RTP 2026

 

Pentax MX, smc Pentax-M 50 1:1,7


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Um par




Já os tenho encontrado, solitários ou em pares, nos locais e situações mais diversas.

Mas fico curioso sobre como fica um par de sandálias, num dia farrusco, assim arrumadinhas lado a lado a um canto de uma paragem de autocarro em Lisboa.

Não foram jogadas fora, não foram perdidas, não fora esquecidas, não caíram de nenhum saco.

As histórias e estórias que estão por de trás de um ou dois sapatos caídos na rua ao abandono encheriam creio, vários tomos, tal como enchem a minha própria imaginação.

Em tom de conclusão, sempre acrescento que nove horas depois de ter feito esta fotografia já ali não estavam. Nunca saberei se foram recolhidas por algum cantoneiro municipal se apanhadas por alguém que entendeu dar-lhes préstimo.

 

Nikon Coolpix P7000


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terça-feira, 3 de março de 2026

Liberdade




De acordo com as leis e normas portuguesas, é obrigatório possuir-se um documento identificativo oficial: Bilhete de Identidade ou Cartão do Cidadão.

No entanto, e pasme-se, para se renovar o dito documento, mesmo que nada seja alterado, há que pagar por isso.

Por outras palavras: sou obrigado a pagar regularmente por algo que sou obrigado a fazer.

Posso não ter casa, posso não ter nenhum contracto com nenhuma empresa, posso não ter rendimentos, posso mesmo viver apenas do ar e das ervas selvagens que existem.

Mas pelo simples facto de existir sou obrigado a pagar.

 

Ouvi aí alguém falar em Liberdade?

 

Pentax K7, smc Pentax 50 1:7