segunda-feira, 25 de abril de 2022

Nós, os cotas




No dia de hoje fala-se da revolução, dos militares que a fizeram e deram o corpo às balas, da queda de um regime ditatorial, da liberdade...

Fala-se de tudo o que deve ser falado neste dia, faltando, no momento em que escrevo estas linhas, saber os conteúdos dos discursos solenes.

Mas há algo de que se não fala e que quem viveu, mesmo como adolescente como eu era, foi vital então e nos tempos que se seguiram: a sensação – melhor, a certeza – de que o futuro era nosso, estava nas nossas mãos e que tinhamos que o construir.

Nós mesmos, com algumas certezas e muitas incertezas, improvisando de acordo com as circunstâncias, discutindo, ventilando ideias e aprendendo com todos os outros uma forma de viver e pensar nova. Mesmo com os contra-revolucionários e nos momentos mais complexos.

Esta certeza de autonomia de liberdade nela foi-se diluindo. Hoje dependemos de instituições, de decisões superiores, encostamo-nos ao “alguém tem que fazer alguma coisa”. Sempre esquecendo que esse alguém somos nós.

O espírito revolucionário é algo difícil de manter porque implica alguma ausência de conforto, de estabilidade. Coisa que nós, que o vivemos independentemente das idades e dos feitos, vamos perdendo com o passar dos tempos. Um pouquinho hoje, uma cedência amanhã, um encolher de ombros depois...

Talvez que quando já não restar ninguém que tenha vivido ’74 e seguintes seja altura de um outro dia memorável, em que o povo mais ordene e que a paz pôdre seja varrida por um vento de libertação individual e interior.

Honra seja feita, encontramos jovens com esse espírito de revolução. Poucos mas encontramos. Porque são jovens (e a contestação é parte integrante do amadurecimento), porque o são realmente para além das idades e dos estatutos.

Mas são poucos, espalhados e ainda desorganizados. Conto com eles para as novas mudanças que fazem ou farão falta, quando eu já nem um cartaz consiga colar ou um grito possa soltar.


By me

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