quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Os treze anos




Os treze anos

 

Já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro:

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já bailo ao Domingo

com as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita,

como era primeiro;

sou a Senhora Ana,

que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto,

nas feiras já feiro,

já não me dá beijos

qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas,

e as deito ao ribeiro,

olho tudo à roda,

de cima do outeiro.

 

E só se não vejo

ninguém pelo arneiro,

me banho co’as patas

Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas,

rostinho trigueiro,

que mata de amores

a muito vaqueiro.

 

Miro-me, olhos pretos

e um riso fagueiro,

que diz a cantiga

que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha,

já por derradeiro

me vejo mui outra

da que era primeiro.

 

O meu gibão largo

de arminho e cordeiro,

já o dei à neta

do Brás cabaneiro,

 

dizendo-lhe: "Toma

gibão domingueiro,

de ilhoses de prata,

de arminho e cordeiro.

 

"A mim já me aperta,

e a ti te é laceiro;

tu brincas co’as outras

e eu danço em terreiro."

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita,

sou a Ana do outeiro;

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Não quero o sargento,

que é muito guerreiro,

de barbas mui feras

e olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho;

não quero o mineiro:

Mais valem treze anos

que todo o dinheiro.

 

Tão-pouco me agrado

do pobre moleiro,

que vive na azenha

como um prisioneiro.

 

Marido pretendo

de humor galhofeiro,

que viva por festas,

que brilhe em terreiro;

 

Que em ele assomando

co’o tamborileiro,

logo se alvorote

o lugar inteiro.

 

Que todos acorram

por vê-lo primeiro,

e todas perguntem

se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele,

romeira e romeiro,

vivendo de bodas,

bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos!

ai, céu verdadeiro!

ai, Páscoa florida,

que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha,

de Deus vos requeiro:

Casai-me hoje mesmo

com Pedro Gaiteiro.

 

António Feliciano Castilho

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


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