Recordo um livro de ficção científica: “O unicórnio”.
A trama, um bom bocado rebuscada, baseava-se no conceito dos
universos paralelos. E como uma espécie de um outro planeta tinha conseguido
dar um nó no continuo espaço-temporal para juntar todos os planetas Terra para
se alimentar de seres humanos. Vale o que vale, o enredo.
O que torna este livro digno de nota é que os herois, que se
encontraram devido a esse nó, acabam numa terrola meio isolada, numa sociedade
estilo vitoriana. Que os recebe com pompa e circunstância, oferecendo um jantar
de elites em sua honra.
No decurso do jantar os criados de mesa despem-se até à
nudez total e roubam todas as joias dos convivas, sem que estes protestem ou
façam algo para o evitar.
Na manhã seguinte os herois são acusados do roubo e têm que
fugir da turba enfurecida, até que um deles percebe o que se passa e despe-se,
levando os outros a fazer o mesmo. E a multidão passa por eles sem os ver e
segue.
A explicação é socialmente interessante: naquela sociedade
castrante e castrada, o nú é tão inaceitável que nem sequer o veem,
ignorando-o.
Por cá está a acontecer algo de semelhante, ainda que só
embrionário por enquanto:
O crescimento da extrema direita, no que toca a regras e
comportamentos sociais, com o conceito de elites genéticas e de excluídos, está
a implantar-se devagarinho.
Os portugueses, não acreditando que se repita o que
aconteceu e vai acontecendo, um pouco por todo o mundo, nos últimos cem anos,
não o estão a ver. “Isso aqui é impossível, não vai acontecer!”, dizem.
Até que alguém dê um nó nas linhas do tempo ou se dispa em
praça pública.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me


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