quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O unicórnio




Recordo um livro de ficção científica: “O unicórnio”.

A trama, um bom bocado rebuscada, baseava-se no conceito dos universos paralelos. E como uma espécie de um outro planeta tinha conseguido dar um nó no continuo espaço-temporal para juntar todos os planetas Terra para se alimentar de seres humanos. Vale o que vale, o enredo.

O que torna este livro digno de nota é que os herois, que se encontraram devido a esse nó, acabam numa terrola meio isolada, numa sociedade estilo vitoriana. Que os recebe com pompa e circunstância, oferecendo um jantar de elites em sua honra.

No decurso do jantar os criados de mesa despem-se até à nudez total e roubam todas as joias dos convivas, sem que estes protestem ou façam algo para o evitar.

Na manhã seguinte os herois são acusados do roubo e têm que fugir da turba enfurecida, até que um deles percebe o que se passa e despe-se, levando os outros a fazer o mesmo. E a multidão passa por eles sem os ver e segue.

A explicação é socialmente interessante: naquela sociedade castrante e castrada, o nú é tão inaceitável que nem sequer o veem, ignorando-o.

 

Por cá está a acontecer algo de semelhante, ainda que só embrionário por enquanto:

O crescimento da extrema direita, no que toca a regras e comportamentos sociais, com o conceito de elites genéticas e de excluídos, está a implantar-se devagarinho.

Os portugueses, não acreditando que se repita o que aconteceu e vai acontecendo, um pouco por todo o mundo, nos últimos cem anos, não o estão a ver. “Isso aqui é impossível, não vai acontecer!”, dizem.

 

Até que alguém dê um nó nas linhas do tempo ou se dispa em praça pública.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

Sem comentários: