E pronto!
Lá vou eu ter que engolir um sapo.
Pentax
K-S2, SMC Pentax-M macro 50 1:4
By me
"Àquela hora não havia por perto outro local onde
comer. O que via na montra e pela porta não lhe inspirava grande confiança, mas
a fome mordia-lhe o estômago e o frio não ajudava. Entrou.
O cheiro a fritos era preponderante, mas isso não parecia
incomodar os dois comensais isolados, que faziam parelha com o ambiente geral.
Escolheu uma mesa, não muito próxima deles, e sentou-se.
Antes de olhar para a ardósia na parede onde se podia ler
aquilo que a cozinha podia disponibilizar, olhou para a toalha. As manchas
irregulares deixadas pelos clientes anteriores, sabe-se lá quando, competiam em
contraste com o rectilíneo do xadrêz já pálido do tecido. Desejou que os
guardanapos fossem de papel e que o copo estivesse como os guardanapos.
Ainda assim arriscou e pediu a quem estava atrás do avental
e do bigode: uma sopa e uma jardineira de vitela."
Esta é a grande vantagem da literatura sobre a imagem: por
muito descritiva que possa ser, deixa sempre alguma coisa à imaginação de quem
lê:
Estaria pouco vestido ou nevaria? Quantas mesas na sala? De
que cor seria a toalha? Que garrafas, se algumas, existiriam atrás do balcão?
Há todo um mundo de perguntas que o texto não responde e que
ficam ao critério do leitor encontrar as respostas. Em função das suas
experiências pessoais, da sua imaginação ou de um qualquer capricho momentâneo.
A imagem, cinematográfica ou outra, não nos dá essa
possibilidade. Cada detalhe da sala e seus personagens está ali, no ecrã ou no
papel, esclarecendo todas as dúvidas e nada deixando por saber. Claro que há
excepções, como seja o filme “DogVille”, mas os mestres quebram as regras e as
rotinas.
A fotografia fica a meia haste. Tudo o que está em frente da
objectiva é captado, com maior ou menor detalhe, nada deixando à imaginação.
Mas não tem o factor movimento, em regra. Dos personagens ou da câmara. Donde
apenas sabemos o que nos é mostrado.
Uma das técnicas de fazer o espectador interagir com o que
vê é não lhe mostrar tudo. Indo mais longe, truncar parte do visível – pessoas,
objectos, espaços – levando quem vê à tarefa de imaginar o que falta. Criar-lhe
a curiosidade de completar o que está em falta!
Técnica difícil, esta. Principalmente nos tempos que correm.
Que se a tentativa de estimular a imaginação for muito forte, com a rapidez de
consumo do digital o espectador desinteressa-se com facilidade. Por outro lado,
e pelo mesmo motivo, se for muito fraca não chega a provocar a curiosidade.
Alguns mestres na imagem – e eu não sou mestre – jogam com
este instavel equilíbrio entre “o que mostro e o que não mostro” de forma
magistral. O instinto, a prática, o pensar, o recurso às diversas técnicas de
ocultar ou semi ocultar, fazem dos seus trabalhos obras primas.
É por dar trabalho ou ignorar o método que a esmagadora
maioria das fotografias que vemos são sensaboronas. De tão completas, de tão
esclarecedoras, de tão fechadas sobre si mesmas, não permitem que o espectador
pense ou sinta. “É aquilo e mais nada”, “tomei conhecimento e é quanto basta”.
A arte, nas suas diversas facetas, pode ser completa. Mas
pode e deve levar o espectador mais além do que aquilo que recebe. Provocá-lo,
criar-lhe alguma instabilidade, sentimentos ou perguntas. Quando isso não
acontece, não são fotografias: são fotocópias do circundante.
Os meus cinco cêntimos.
Olympus C3030z
By me
Diz a piada velha que se os deuses não quisessem que confundíssemos
os Bs com os Vs não os tinham posto lado a lado no teclado.
Mas uma forma ou de outra, não deixem de ir botar ou votar
este domingo.
Pentax K7, Tamron 18-200
Fui votar, como se esperaria. E, como de costume, à entrada
e à saída quedei-me a ver os cidadãos que chegavam e partiam.
Cheguei a uma conclusão: as assembleias de voto devem estar
cheias de carteiristas e afins!
É que toda a gente entrava e saía com as mãos nos bolsos,
suponho que a segurar na carteira.
Em qualquer dos casos, lá dentro senti-me como que na
polícia: Apresentaram-me um conjunto de fotografias para reconhecer
malfeitores. E foram alguns que identifiquei como tal.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Se bem se pensar no assunto, raramente se fotografa a origem
da luz.
Por muito que seja imprescidivel ao acto fotográfico, aquilo
que fotografamos são as superfícies que a reflectem, sejam mais opacas ou mais
transparentes.
O sol, as lâmpadas, a chama, até por motivos técnicos, é
algo que não nos atrai muito a atenção. Não a emissão mas a reflexão.
Por isso mesmo, pelo menos em Portugal, a véspera do dia de
eleições deveria também ser o dia da fotografia.
Pentax K1
mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4
Num sábado de reflexão, muito antes de nevar na serra.
Pentax LX, Vivitar 17 1:3,5, Agfachrome CT18
By me
Quase simétrico. Ou, de acordo com algumas teorias, quase
perfeito.
No entanto, e ao que julgo saber, a simetria não é apanágio
do universo, começando desde logo pelo corpo humano. Continuando pelo formato
dos astros e os seus movimentos absolutos ou relativos.
A simetria, tal como o equilíbrio, mais não são que
invenções do bicho homem, numa tentativa de imitar um qualquer divino. Mas errando.
Que se esse tal de divino e ser perfeito tivesse querido
criar o equilíbrio e a simetria, tê-lo-ia feito. E, por aquilo que sabemos, não
fez.
Ao contrário, aquilo que existe é um continuo desequilíbrio,
uma ligeira assimetria, cuja conjugação permite a continua mudança, a eterna
evolução. Quer aqui na terra como nos céus.
O problema é que nós, no minúsculo que somos no todo, tudo
vemos e aquilatamos à nossa escala. Quão arrogantes somos, em querermos ser
mais que o todo!
Que bela é a assimetria e que harmonioso é o desequilíbrio,
de onde viemos e para onde iremos.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
É verdade que sim: eu gosto de brincar com as palavras.
Por vezes, quando estou de maré, vou buscar termos mais
antigos, arcaicos mesmo. Outras, mais frequentemente, uso as parábolas ou
analogias para contar o que quero ou sinto. Outras ainda recorro a segundas
leituras ou mensagens subliminares para que a mensagem passe sem ser sob a
forma de mensagem.
Na fotografia, que é uma forma de escrita, acontece-me o
mesmo: a mensagem principal está lá, ainda que meio escondida para não ser muito
evidente mas que, de algum modo, fique retida na mente de quem a possa ver.
Por vezes “estico-me”. Está tão dissimulada (ou o mais
notório tem tanta força) que se perde no meio de tudo o resto. E só eu, que a
concebi, entendo isso.
Foi agora o caso.
Quis mostrar que tinha um brinquedo fotográfico novo aqui em
casa. E quis brincar com o conceito de “brinquedo” usando brinquedos reais na
imagem, bem à vista, em evidência na composição e na luz. E deixei a mensagem
principal em segundo plano, escondida pelos reais brinquedos, e fora de foco. Só
alguns poucos, se alguns, se aperceberiam que estava ali uma referência a uma
câmara fotográfica.
A imagem está técnicamente correcta, tem um primeiro plano
forte, divertido, apelativo... mas falhou liminarmente no seu objectivo: todos
repararam nos bonecos e ninguém se apercebeu do que está escrito lá atrás, na
caixa.
Por vezes, de tanto querermos fazer, desfazemos no objectivo
principal. E eu sei isso, o que me leva a ficar ainda mais frustrado comigo
mesmo.
Mas há lições negativas que temos que viver ou reviver para
não nos esquecermos delas.
Pentax
K-S2, SMC Pentax-M macro 100 1:4
By me
Os treze anos
Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.
Já sou mulherzinha;
já trago sombreiro,
já bailo ao Domingo
com as mais no terreiro.
Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.
Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.
Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.
E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co’as patas
Ao pé do salgueiro.
Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.
Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.
Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.
O meu gibão largo
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,
dizendo-lhe: "Toma
gibão domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.
"A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co’as outras
e eu danço em terreiro."
Já sou mulherzinha;
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.
Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.
Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.
O mineiro é velho;
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.
Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.
Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro;
Que em ele assomando
co’o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.
Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.
E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.
Ai, vida de gostos!
ai, céu verdadeiro!
ai, Páscoa florida,
que dura ano inteiro!
Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.
António Feliciano Castilho
Pentax K7,
Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5
By me
De súbito lembrei-me dos velhos filmes do oeste americano,
com pistolas, bandidos e heróis.
Neles, os vilões cobiçam a terra de famílias de fazendeiros,
porque tem água e erva verde, e tudo fazem para ficar com ela. Incluindo contratar
brutamontes para agredir os fazendeiros que não querem vender.
Claro que entretanto surge o herói que repõe a normalidade,
quer com pistolas, quer com astúcia.
Estes filmes fazem parte da memória de muitos de nós. E a
reposição final da justiça funcionava, para além do entretenimento, como que
uma sublimação das injustiças da vida: um final feliz.
Hoje as pradarias verdejantes estão cobertas de gelo ou de
florestas quase virgens. E o criador de gado vai, aos poucos, apropriando-se do
que quer usando os brutamontes armados para fazer seu trabalho sujo.
Talvez mera coincidência o facto de tanto a ficção
cinematográfica como a dolorosa realidade actual terem como cenário e
protagonistas os eua.
Volta Trinitá! Mas, tal como o Arnol, salta da tela para a realidade
e arruma com os bandidos. Mas trás a winchester do Wayne, que a coisa não vai
lá só com uns valentes murros nos maus.
Imagem roubada da net
By me
Existem aquelas figuras, femininas ou masculinas, que são
perfeitas.
As feições, as formas corporais, as cores da pele e da
pelagem, a voz, a forma de moverem… Tudo nessas pessoas é perfeito.
Depois existem aquelas pessoas que são de excepção: ele é o
olhar, o formato do queixo, o comprimento dos dedos, o volume de alguma parte
do corpo, a voz em tom mais baixo ou mais agudo… alguma ou algumas dessas
particularidades transformam aquela pessoa em alguém que não pode deixar de ser
visto e apreciado.
Há ainda aquelas pessoas que, não tendo nada em si que seja
realmente bonito, têm algum aspecto que é mesmo invulgar. Alguma discrepância
na proporção das formas, um formato invulgar de rosto ou o que quer que seja, a
cor dos olhos ou do pelo… Ou tão só um conjunto de características que, naquele
lugar e tempo são incomuns mas que na sua região de origem são banais.
Apesar de tudo isto, não são estas pessoas, extremamente
bonitas ou invulgares, que nos fazem ficar perdidamente apaixonados ou com quem
queremos ficar para todo o sempre. São bonitas, vistosas, fazem-nos virar a
cabeça ao passar, queremos conhecer melhor, mas… não passa disso: atracção
física e visual.
Depois existem todas as outras pessoas, que não possuem
nenhum atributo especial, que são completamente banais ou mesmo “feias”, que,
quando com elas nos cruzamos na vida, nos prendem irresistivelmente, em quem
não podemos deixar de pensar, com quem acabamos por viver momentos de paixão
desmesurada ou amor eterno. Claro que isto também pode acontecer com as tais
primeiras pessoas, as de excepção, mas sendo que são em percentagem reduzida, é
bem mais comum que seja com alguém deste último grupo, o maior de todos.
O mesmo sucede com a fotografia.
Há fotografias esplêndidas, perfeitas nos aspectos técnicos
e estéticos. Paisagens campestres ou urbanas, de pessoas, arquitectura,
naturezas mortas, técnicas, publicidade… Existe um bom número de fotografias, e
de autores, por esses mundo fora e ao longo da história da fotografia.
No entanto, com muitas delas, dessas perfeitas, não nos
daríamos ao trabalho de as comprar ou recortar de uma revista para as emoldurar
e pendurar numa parede. Ou ir folhear amiúde o livro onde constam para com ela
deliciar os olhos e a alma.
Mas existem muitas outras, muitas mesmo, que não sendo
perfeitas do ponto de vista académico, que não respeitando algumas das regras
da proporção, do equilíbrio de massas e de tons, tendo linhas de fuga
estranhas, se algumas, contendo assuntos banais ou mesmo desagradáveis, nos
fazem ficar horas a mirá-las, degustando cada centímetro do papel ou do ecrã,
falando connosco a cada instante e contando-nos sempre algo de novo.
Tenho para mim que uma boa fotografia não tem que ser
perfeita! Tem que falar comigo!
Claro que há os academismos, os conceitos de técnica e de
estética que são dominantes num dado momento e lugar, que pertencem à linguagem
de comunicação e que a todos é comum. São essas ideias, estilos e métodos que
ensinamos nas escolas de fotografia, que levamos os aprendizes a usar de modo
inconsciente. Como quem conhece as métricas e sabe fazer uma quadra.
Mas também um manual de instruções de uma batedeira ou
berbequim está tecnicamente perfeito, as manchas de texto e ilustrações estão equilibradas
e de acordo com as modas em uso, o texto está gramaticalmente correcto e de
acordo com a ortografia do momento… mas nada disso faz dele algo que queira ver
e ver e ver e ver…
Uma fotografia de que realmente goste tem que me falar, tem
que me contar algo, tem que me levar a imaginar mais que não apenas o que ali
está expresso, tem que provocar a excitação da minha memória ou desafiar-me a
memórias novas. Mesmo que as regras de ouro, os equilíbrios, as definições ou
nitidez, os tons e as cores, mesmo as luzes, não estejam “perfeitos”.
Uma fotografia que não fale comigo, mesmo sendo “perfeita
como nos livros” mais não me faz que pensar naquelas pessoas que são
extremamente bonitas, mas pelas quais me não apaixono nem pensaria em casar.
Nikon Coolpix P7000
By me
Piada velha é afirmar que há duas coisas que quanto mais se
cortam menos buracos têm. E enumerar: a rede a a lei.
Explicando: a cada corte que se fizer numa rede transformam-se
dois buracos num só. De igual forma, a cada corte num artigo ou alínea da lei
corta-se um buraco a ser aproveitado por advogados em prol do seu cliente.
Mas o pobre fotógrafo, para alem disso, ainda tem que lidar
com outras leis: as leis da reflexão, as leis da refracção, as leis da
gravidade...
E, tal como um advogado, o fotógrafo tem que tirar partido
de todas elas, usando-as ou contornando-as de modo a chegar ao veredicto,
perdão, à imagem que pretende.
Piadas à parte, a fotografia não mente: as interpretações de
quem a vê é que podem variar.
Pentax K7, Tamron 18-200
By me
Já foi hábito meu, que ultimamente pouco tenho praticado:
num balcão pedir um café sem manteiga.
Os motivos para tal são vários, que passam pelas
brincadeiras e quebra de rotina para quem está do outro lado e terminam na
rapidez com que sou atendido.
Por via desta expressão, aparentemente e absurda, tenho já
vivido situações caricatas em que umas vezes sou eu a vítima, outras o
empregado, outras ainda clientes ao meu lado.
Desta feita foi diferente:
Entro num café de estação onde sou cliente, digamos, uma vez
em cada quinze dias. Mas acabo sempre por meter conversa o que, aliado ao meu
visual, me transforma em tudo menos num cliente ocasional e anónimo.
Pois como a loja estava vazia, uma das mocinhas que ali está
viu-me aproximar e tratou de fazer o expresso do costume. E quando encostei no
balcão perguntou-me, sorrindo:
“Um café cheio, verdade?”
Não me fiquei e retorqui:
“Isso! E sem manteiga, por favor!”
“Sem manteiga?!”, espantou-se ela, como eu esperava.
“Claro! Já provou café com manteiga? Eu já e não gosto. Por
isso peço sem manteiga.” Tudo isto dito com um ar perfeitamente impassível,
ainda que rematado com um sorriso de orelha a orelha.
Foi a vez dela me deixar de boca aberta:
“Pois olhe que até já bebi café com manteiga e até gostava.”
O seu sotaque brasileiro acentuou-se “ Quando era pequena o meu avô bebia disso
de manhã e, só um pouquinho, deixava-nos provar.”
“Pois aposto que viviam no campo, o seu avô tinha animais de
grande porte na quinta e as manhãs eram bem frescas, de Inverno!”
“Pôxa! Como sabe isso? O Paraná é parecido com Portugal e
tínhamos cavalos na roça.”
“É que era isso que o meu avô fazia. Com um capote vestido
por cima da roupa de dormir, à luz de uma candeia de petróleo, ia acordar e dar
de comer às vacas antes do amanhecer. Mas antes de enfrentar o orvalho
nocturno, bebia uma malga de café com uma colher de manteiga, para aquecer o
corpo e a alma. Só depois de os animais terem forragem fresca na manjedoira é
que regressava a casa, lavava-se e vestia-se comia o pequeno-almoço, na altura
chamado de primeiro-almoço.
“É! Outros tempos e boas memórias!” E continuava a atender
outros clientes que, entretanto, tinham chegado e queriam levar qualquer coisa
no estômago na viagem que os levaria de volta a casa.
Quando me afastei do balcão, despesa paga, olhei em redor.
Os que ficavam tinham cara de quem tinha passado todo o santo dia a trabalhar.
Mas consegui vislumbrar em alguns, atrás do cansaço, um brilhozinho de
nostalgia alegre.
Olympus Camedia C3030
By me
Escolho um livro ao calhas da estante. Sai-me na rifa o “A
tirania da comunicação”, de Ignacio Ramonet, escrito em 1999.
Também ao calhas o abro e aponto com um dedo. Eis o parágrafo que a sorte me mostrou:
…
William Randolph Hearst, o magnata da imprensa Americana que
serviu de modelo ao Citizen Kane de Orson Wells, costumava dizer aos seus
jornalistas: “Nunca aceitem que a verdade vos prive de uma boa história.” Em
muitas redacções – até nas mais “honestas” -, esta máxima parece voltar a estar
na moda. Assim, em 7 de Junho de 1998, a CNN não hesitou em apresentar, de uma
forma espectacular, uma reportagem realizada pelo sue jornalista mais famoso,
Peter Harnett, em que se afirmava que durante uma operação contra os desertores
no Laos, no início dos anos 70, o exército dos estados unidos tinha usado gás
Sarin, um gás mortífero. Uma semana mais tarde, o semanário Time (que pertencia
ao mesmo grupo mediático, o Time-Warner) retomava e desenvolvia a notícia. No entanto,
esta viria a revelar-se falsa. Um relatório provou que Arnett e a sua equipa,
tinha empolado todo o caso a partir de declarações ambíguas de dois veteranos
parcialmente amnésicos. Como se, à partida, os jornalistas tivessem decidido
para qual das versões ia a sua preferência, devido ao seu formato sensacional.
Este comportamento testemunha a tendência actual para “inventar um argumento”
para a realidade, para “encenar” a informação, e força-la a adaptar-se à
encenação que os jornalistas têm em mente. “O que importa neste novo jornalismo
– denuncia Juan Luís Cebrián, antigo director do El Pais -, é que a encenação
funcione, e não que ela esteja de acordo com a verdade”.
…
Um quarto de século depois, se excluirmos datas, nomes e
locais, está tudo na mesma, senão pior!
Pentax K100D, Tamron 18-200
By me
Sabia que os EUA não reconhecem o Tribunal Penal
Internacional?
Por outras palavras, não aceitam julgamentos ou condenações neste
tribunal de cidadãos norte americanos, sejam eles executantes ou mandantes,
civis ou militares.
E no entanto... Bem, toda a gente sabe o que aconteceu
ontem:
Forças militares entraram noutro país para capturarem a sua
figura máxima para ser levada e julgada. Num julgamento que, não sejamos
ingénuos, já tem a sentença lavrada.
Nada como realmente, como dizia o anúncio de antanho.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me
Por vezes arranjamos lenha para nos queimarmos. Esta foi uma
delas!
A maioria de quem fotografa procura locais que atraiam o
olhar: perspectivas, luzes, acções. Eu não sou diferente.
Mas também gosto de, confrontado com um objecto, encontrar a
solução que mais me agrade para o registo. Quer no exterior, tentando encontrar
no local a luz, o fundo, a perspectiva possível, quer levando o objecto para
casa, falar com ele e tentar perceber o que tem para me dizer e, só então,
procurar a solução que ele me sugere.
Por isso vagueio por feirinhas de rua, lojas de
inutilidades, farejo montras e escaparates, tentando que algo assobie para mim.
Entrei numa loja de ferragens e ferramentas para dar dois
dedos de conversa com os donos, conhecidos de longa data.
A um canto isto, que me disse, sem mais delongas, “Vê lá se
me entendes e vê lá se consegues.”
Caramba! Um fio de prumo tem muito para contar, seja qual
for o tema da conversa. O problema é ele mesmo: latão polido e exclusivamente
composto de curvas, excepção ao fio e à ponteira indicadora. Reflexos em cima
de reflexos, sem planos paralelos nem linhas interuptoras.
Se joias e cutelaria, bem como relógios, são dos objectos
mais “canalhas” de fotografar, devido aos reflexos que, tendo que existir, têm
que ser controlados, este em redondo será uma das cerejas em cima de um desses
bolos.
Vou ter que ter longas conversas com ele, com e sem luz, até
encontrar mais soluções ou respostas. Esta foi a primeira tentativa.
Que me vai dar àgua pela barba, lá isso vai! Mas eu gosto de
desafios.
Pentax K1
mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4
By me
Por vezes atrasamo-nos.
Perante compromissos com outras pessoas, trabalho, a vida,
nós mesmos, a morte…
Apesar de não gostar de chegar atrasado, alguns atrasos
aplaudi. Com a morte, por exemplo, que já me pediu explicações e a mandei
bugiar, dizendo-lhe que lá chegarei mas só quando eu quiser.
O tipo de atraso que mais me incomoda, que mais me chateia,
que me deixa mesmo fora do sério é aquele comigo mesmo. Que podemos sempre
arranjar umas justificações, umas desculpas esfarrapadas perante terceiros, mas
é sempre muito complicado mentirmo-nos.
O tempo não perdoa! Chegar atrasado ao encontro que temos
connosco mesmos é muito mau!
Pentax K7,
Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5
By me
O caramelo teve azar: a história foi comigo.
Mas portou-se como um homemzinho, admitamos.
Eu conto:
Numa feira de velharias dou com este flash numa banca. Não
funciona. Para além de já não se encontrarem lâmpadas, mais difícil será
encontrar a pilha: 22,5 volts. Em qualquer dos casos, perguntei pelo preço.
Simpático, mas não me apeteceu, sendo só para colecção.
O meu olhar caiu ao lado, num fotómetro. Abri o estojo e...
Igual a um que tenho em casa. E a trabalhar, o meu.
"Mas tenho aqui outro fotómetro. Ora veja."
atira-me o vendedor já velhote.
"Isso não é um fotómetro!"
"É sim senhor!"
"Nem pouco mais ou menos!"
"Ora essa! É um fotómetro!"
"Não é! E aposto consigo: se eu perder compro o flash,
se eu ganhar oferece-mo."
"Combinado."
E apertámos as mãos.
Agora imaginem porque é que tenho o flash.
Fica o aviso para quem não me conhece bem:
Quando eu insistir que aposto, reponderem bem as variaveis
que eu, sendo certo que tenho muitíssimo a aprender, também tenho algumas
certezas.
By me
Recordo um livro de ficção científica: “O unicórnio”.
A trama, um bom bocado rebuscada, baseava-se no conceito dos
universos paralelos. E como uma espécie de um outro planeta tinha conseguido
dar um nó no continuo espaço-temporal para juntar todos os planetas Terra para
se alimentar de seres humanos. Vale o que vale, o enredo.
O que torna este livro digno de nota é que os herois, que se
encontraram devido a esse nó, acabam numa terrola meio isolada, numa sociedade
estilo vitoriana. Que os recebe com pompa e circunstância, oferecendo um jantar
de elites em sua honra.
No decurso do jantar os criados de mesa despem-se até à
nudez total e roubam todas as joias dos convivas, sem que estes protestem ou
façam algo para o evitar.
Na manhã seguinte os herois são acusados do roubo e têm que
fugir da turba enfurecida, até que um deles percebe o que se passa e despe-se,
levando os outros a fazer o mesmo. E a multidão passa por eles sem os ver e
segue.
A explicação é socialmente interessante: naquela sociedade
castrante e castrada, o nú é tão inaceitável que nem sequer o veem,
ignorando-o.
Por cá está a acontecer algo de semelhante, ainda que só
embrionário por enquanto:
O crescimento da extrema direita, no que toca a regras e
comportamentos sociais, com o conceito de elites genéticas e de excluídos, está
a implantar-se devagarinho.
Os portugueses, não acreditando que se repita o que
aconteceu e vai acontecendo, um pouco por todo o mundo, nos últimos cem anos,
não o estão a ver. “Isso aqui é impossível, não vai acontecer!”, dizem.
Até que alguém dê um nó nas linhas do tempo ou se dispa em
praça pública.
Pentax K7, Sigma 70-300
By me