terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Lá terá que ser




E pronto!

Lá vou eu ter que engolir um sapo.

 

Pentax K-S2, SMC Pentax-M macro 50 1:4


By me

Texto e imagem




"Àquela hora não havia por perto outro local onde comer. O que via na montra e pela porta não lhe inspirava grande confiança, mas a fome mordia-lhe o estômago e o frio não ajudava. Entrou.

O cheiro a fritos era preponderante, mas isso não parecia incomodar os dois comensais isolados, que faziam parelha com o ambiente geral. Escolheu uma mesa, não muito próxima deles, e sentou-se.

Antes de olhar para a ardósia na parede onde se podia ler aquilo que a cozinha podia disponibilizar, olhou para a toalha. As manchas irregulares deixadas pelos clientes anteriores, sabe-se lá quando, competiam em contraste com o rectilíneo do xadrêz já pálido do tecido. Desejou que os guardanapos fossem de papel e que o copo estivesse como os guardanapos.

Ainda assim arriscou e pediu a quem estava atrás do avental e do bigode: uma sopa e uma jardineira de vitela."

 

Esta é a grande vantagem da literatura sobre a imagem: por muito descritiva que possa ser, deixa sempre alguma coisa à imaginação de quem lê:

Estaria pouco vestido ou nevaria? Quantas mesas na sala? De que cor seria a toalha? Que garrafas, se algumas, existiriam atrás do balcão?

Há todo um mundo de perguntas que o texto não responde e que ficam ao critério do leitor encontrar as respostas. Em função das suas experiências pessoais, da sua imaginação ou de um qualquer capricho momentâneo.

A imagem, cinematográfica ou outra, não nos dá essa possibilidade. Cada detalhe da sala e seus personagens está ali, no ecrã ou no papel, esclarecendo todas as dúvidas e nada deixando por saber. Claro que há excepções, como seja o filme “DogVille”, mas os mestres quebram as regras e as rotinas.

A fotografia fica a meia haste. Tudo o que está em frente da objectiva é captado, com maior ou menor detalhe, nada deixando à imaginação. Mas não tem o factor movimento, em regra. Dos personagens ou da câmara. Donde apenas sabemos o que nos é mostrado.

Uma das técnicas de fazer o espectador interagir com o que vê é não lhe mostrar tudo. Indo mais longe, truncar parte do visível – pessoas, objectos, espaços – levando quem vê à tarefa de imaginar o que falta. Criar-lhe a curiosidade de completar o que está em falta!

Técnica difícil, esta. Principalmente nos tempos que correm. Que se a tentativa de estimular a imaginação for muito forte, com a rapidez de consumo do digital o espectador desinteressa-se com facilidade. Por outro lado, e pelo mesmo motivo, se for muito fraca não chega a provocar a curiosidade.

Alguns mestres na imagem – e eu não sou mestre – jogam com este instavel equilíbrio entre “o que mostro e o que não mostro” de forma magistral. O instinto, a prática, o pensar, o recurso às diversas técnicas de ocultar ou semi ocultar, fazem dos seus trabalhos obras primas.

É por dar trabalho ou ignorar o método que a esmagadora maioria das fotografias que vemos são sensaboronas. De tão completas, de tão esclarecedoras, de tão fechadas sobre si mesmas, não permitem que o espectador pense ou sinta. “É aquilo e mais nada”, “tomei conhecimento e é quanto basta”.

A arte, nas suas diversas facetas, pode ser completa. Mas pode e deve levar o espectador mais além do que aquilo que recebe. Provocá-lo, criar-lhe alguma instabilidade, sentimentos ou perguntas. Quando isso não acontece, não são fotografias: são fotocópias do circundante.

Os meus cinco cêntimos.

 

Olympus C3030z


By me

domingo, 18 de janeiro de 2026

Dúvida ancestral




Diz a piada velha que se os deuses não quisessem que confundíssemos os Bs com os Vs não os tinham posto lado a lado no teclado.

Mas uma forma ou de outra, não deixem de ir botar ou votar este domingo.

 

Pentax K7, Tamron 18-200

 

By me

Lugares perigosos




Fui votar, como se esperaria. E, como de costume, à entrada e à saída quedei-me a ver os cidadãos que chegavam e partiam.

Cheguei a uma conclusão: as assembleias de voto devem estar cheias de carteiristas e afins!

É que toda a gente entrava e saía com as mãos nos bolsos, suponho que a segurar na carteira.

Em qualquer dos casos, lá dentro senti-me como que na polícia: Apresentaram-me um conjunto de fotografias para reconhecer malfeitores. E foram alguns que identifiquei como tal.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

sábado, 17 de janeiro de 2026

Emissões e reflexões




Se bem se pensar no assunto, raramente se fotografa a origem da luz.

Por muito que seja imprescidivel ao acto fotográfico, aquilo que fotografamos são as superfícies que a reflectem, sejam mais opacas ou mais transparentes.

O sol, as lâmpadas, a chama, até por motivos técnicos, é algo que não nos atrai muito a atenção. Não a emissão mas a reflexão.

Por isso mesmo, pelo menos em Portugal, a véspera do dia de eleições deveria também ser o dia da fotografia.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4

 

By me

Tal como hoje


 


Num sábado de reflexão, muito antes de nevar na serra.

 

Pentax LX, Vivitar 17 1:3,5, Agfachrome CT18


By me

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

É na imperfeição que está o belo




Quase simétrico. Ou, de acordo com algumas teorias, quase perfeito.

No entanto, e ao que julgo saber, a simetria não é apanágio do universo, começando desde logo pelo corpo humano. Continuando pelo formato dos astros e os seus movimentos absolutos ou relativos.

A simetria, tal como o equilíbrio, mais não são que invenções do bicho homem, numa tentativa de imitar um qualquer divino. Mas errando.

Que se esse tal de divino e ser perfeito tivesse querido criar o equilíbrio e a simetria, tê-lo-ia feito. E, por aquilo que sabemos, não fez.

Ao contrário, aquilo que existe é um continuo desequilíbrio, uma ligeira assimetria, cuja conjugação permite a continua mudança, a eterna evolução. Quer aqui na terra como nos céus.

O problema é que nós, no minúsculo que somos no todo, tudo vemos e aquilatamos à nossa escala. Quão arrogantes somos, em querermos ser mais que o todo!

Que bela é a assimetria e que harmonioso é o desequilíbrio, de onde viemos e para onde iremos.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O fiasco




É verdade que sim: eu gosto de brincar com as palavras.

Por vezes, quando estou de maré, vou buscar termos mais antigos, arcaicos mesmo. Outras, mais frequentemente, uso as parábolas ou analogias para contar o que quero ou sinto. Outras ainda recorro a segundas leituras ou mensagens subliminares para que a mensagem passe sem ser sob a forma de mensagem.

Na fotografia, que é uma forma de escrita, acontece-me o mesmo: a mensagem principal está lá, ainda que meio escondida para não ser muito evidente mas que, de algum modo, fique retida na mente de quem a possa ver.

Por vezes “estico-me”. Está tão dissimulada (ou o mais notório tem tanta força) que se perde no meio de tudo o resto. E só eu, que a concebi, entendo isso.

Foi agora o caso.

Quis mostrar que tinha um brinquedo fotográfico novo aqui em casa. E quis brincar com o conceito de “brinquedo” usando brinquedos reais na imagem, bem à vista, em evidência na composição e na luz. E deixei a mensagem principal em segundo plano, escondida pelos reais brinquedos, e fora de foco. Só alguns poucos, se alguns, se aperceberiam que estava ali uma referência a uma câmara fotográfica.

A imagem está técnicamente correcta, tem um primeiro plano forte, divertido, apelativo... mas falhou liminarmente no seu objectivo: todos repararam nos bonecos e ninguém se apercebeu do que está escrito lá atrás, na caixa.

Por vezes, de tanto querermos fazer, desfazemos no objectivo principal. E eu sei isso, o que me leva a ficar ainda mais frustrado comigo mesmo.

Mas há lições negativas que temos que viver ou reviver para não nos esquecermos delas.

 

Pentax K-S2, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Os treze anos




Os treze anos

 

Já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro:

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já bailo ao Domingo

com as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita,

como era primeiro;

sou a Senhora Ana,

que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto,

nas feiras já feiro,

já não me dá beijos

qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas,

e as deito ao ribeiro,

olho tudo à roda,

de cima do outeiro.

 

E só se não vejo

ninguém pelo arneiro,

me banho co’as patas

Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas,

rostinho trigueiro,

que mata de amores

a muito vaqueiro.

 

Miro-me, olhos pretos

e um riso fagueiro,

que diz a cantiga

que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha,

já por derradeiro

me vejo mui outra

da que era primeiro.

 

O meu gibão largo

de arminho e cordeiro,

já o dei à neta

do Brás cabaneiro,

 

dizendo-lhe: "Toma

gibão domingueiro,

de ilhoses de prata,

de arminho e cordeiro.

 

"A mim já me aperta,

e a ti te é laceiro;

tu brincas co’as outras

e eu danço em terreiro."

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita,

sou a Ana do outeiro;

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Não quero o sargento,

que é muito guerreiro,

de barbas mui feras

e olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho;

não quero o mineiro:

Mais valem treze anos

que todo o dinheiro.

 

Tão-pouco me agrado

do pobre moleiro,

que vive na azenha

como um prisioneiro.

 

Marido pretendo

de humor galhofeiro,

que viva por festas,

que brilhe em terreiro;

 

Que em ele assomando

co’o tamborileiro,

logo se alvorote

o lugar inteiro.

 

Que todos acorram

por vê-lo primeiro,

e todas perguntem

se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele,

romeira e romeiro,

vivendo de bodas,

bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos!

ai, céu verdadeiro!

ai, Páscoa florida,

que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha,

de Deus vos requeiro:

Casai-me hoje mesmo

com Pedro Gaiteiro.

 

António Feliciano Castilho

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

terça-feira, 13 de janeiro de 2026




De súbito lembrei-me dos velhos filmes do oeste americano, com pistolas, bandidos e heróis.

Neles, os vilões cobiçam a terra de famílias de fazendeiros, porque tem água e erva verde, e tudo fazem para ficar com ela. Incluindo contratar brutamontes para agredir os fazendeiros que não querem vender.

Claro que entretanto surge o herói que repõe a normalidade, quer com pistolas, quer com astúcia.

Estes filmes fazem parte da memória de muitos de nós. E a reposição final da justiça funcionava, para além do entretenimento, como que uma sublimação das injustiças da vida: um final feliz.

Hoje as pradarias verdejantes estão cobertas de gelo ou de florestas quase virgens. E o criador de gado vai, aos poucos, apropriando-se do que quer usando os brutamontes armados para fazer seu trabalho sujo.

Talvez mera coincidência o facto de tanto a ficção cinematográfica como a dolorosa realidade actual terem como cenário e protagonistas os eua.

Volta Trinitá! Mas, tal como o Arnol, salta da tela para a realidade e arruma com os bandidos. Mas trás a winchester do Wayne, que a coisa não vai lá só com uns valentes murros nos maus.

 

Imagem roubada da net


By me


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Fala comigo




Existem aquelas figuras, femininas ou masculinas, que são perfeitas.

As feições, as formas corporais, as cores da pele e da pelagem, a voz, a forma de moverem… Tudo nessas pessoas é perfeito.

Depois existem aquelas pessoas que são de excepção: ele é o olhar, o formato do queixo, o comprimento dos dedos, o volume de alguma parte do corpo, a voz em tom mais baixo ou mais agudo… alguma ou algumas dessas particularidades transformam aquela pessoa em alguém que não pode deixar de ser visto e apreciado.

Há ainda aquelas pessoas que, não tendo nada em si que seja realmente bonito, têm algum aspecto que é mesmo invulgar. Alguma discrepância na proporção das formas, um formato invulgar de rosto ou o que quer que seja, a cor dos olhos ou do pelo… Ou tão só um conjunto de características que, naquele lugar e tempo são incomuns mas que na sua região de origem são banais.

Apesar de tudo isto, não são estas pessoas, extremamente bonitas ou invulgares, que nos fazem ficar perdidamente apaixonados ou com quem queremos ficar para todo o sempre. São bonitas, vistosas, fazem-nos virar a cabeça ao passar, queremos conhecer melhor, mas… não passa disso: atracção física e visual.

Depois existem todas as outras pessoas, que não possuem nenhum atributo especial, que são completamente banais ou mesmo “feias”, que, quando com elas nos cruzamos na vida, nos prendem irresistivelmente, em quem não podemos deixar de pensar, com quem acabamos por viver momentos de paixão desmesurada ou amor eterno. Claro que isto também pode acontecer com as tais primeiras pessoas, as de excepção, mas sendo que são em percentagem reduzida, é bem mais comum que seja com alguém deste último grupo, o maior de todos.

 

O mesmo sucede com a fotografia.

Há fotografias esplêndidas, perfeitas nos aspectos técnicos e estéticos. Paisagens campestres ou urbanas, de pessoas, arquitectura, naturezas mortas, técnicas, publicidade… Existe um bom número de fotografias, e de autores, por esses mundo fora e ao longo da história da fotografia.

No entanto, com muitas delas, dessas perfeitas, não nos daríamos ao trabalho de as comprar ou recortar de uma revista para as emoldurar e pendurar numa parede. Ou ir folhear amiúde o livro onde constam para com ela deliciar os olhos e a alma.

Mas existem muitas outras, muitas mesmo, que não sendo perfeitas do ponto de vista académico, que não respeitando algumas das regras da proporção, do equilíbrio de massas e de tons, tendo linhas de fuga estranhas, se algumas, contendo assuntos banais ou mesmo desagradáveis, nos fazem ficar horas a mirá-las, degustando cada centímetro do papel ou do ecrã, falando connosco a cada instante e contando-nos sempre algo de novo.

 

Tenho para mim que uma boa fotografia não tem que ser perfeita! Tem que falar comigo!

Claro que há os academismos, os conceitos de técnica e de estética que são dominantes num dado momento e lugar, que pertencem à linguagem de comunicação e que a todos é comum. São essas ideias, estilos e métodos que ensinamos nas escolas de fotografia, que levamos os aprendizes a usar de modo inconsciente. Como quem conhece as métricas e sabe fazer uma quadra.

Mas também um manual de instruções de uma batedeira ou berbequim está tecnicamente perfeito, as manchas de texto e ilustrações estão equilibradas e de acordo com as modas em uso, o texto está gramaticalmente correcto e de acordo com a ortografia do momento… mas nada disso faz dele algo que queira ver e ver e ver e ver…

Uma fotografia de que realmente goste tem que me falar, tem que me contar algo, tem que me levar a imaginar mais que não apenas o que ali está expresso, tem que provocar a excitação da minha memória ou desafiar-me a memórias novas. Mesmo que as regras de ouro, os equilíbrios, as definições ou nitidez, os tons e as cores, mesmo as luzes, não estejam “perfeitos”.

Uma fotografia que não fale comigo, mesmo sendo “perfeita como nos livros” mais não me faz que pensar naquelas pessoas que são extremamente bonitas, mas pelas quais me não apaixono nem pensaria em casar.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Fotógrafos e advogados




Piada velha é afirmar que há duas coisas que quanto mais se cortam menos buracos têm. E enumerar: a rede a a lei.

Explicando: a cada corte que se fizer numa rede transformam-se dois buracos num só. De igual forma, a cada corte num artigo ou alínea da lei corta-se um buraco a ser aproveitado por advogados em prol do seu cliente.

Mas o pobre fotógrafo, para alem disso, ainda tem que lidar com outras leis: as leis da reflexão, as leis da refracção, as leis da gravidade...

E, tal como um advogado, o fotógrafo tem que tirar partido de todas elas, usando-as ou contornando-as de modo a chegar ao veredicto, perdão, à imagem que pretende.

Piadas à parte, a fotografia não mente: as interpretações de quem a vê é que podem variar.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

Café sem manteiga




Já foi hábito meu, que ultimamente pouco tenho praticado: num balcão pedir um café sem manteiga.

Os motivos para tal são vários, que passam pelas brincadeiras e quebra de rotina para quem está do outro lado e terminam na rapidez com que sou atendido.

Por via desta expressão, aparentemente e absurda, tenho já vivido situações caricatas em que umas vezes sou eu a vítima, outras o empregado, outras ainda clientes ao meu lado.

Desta feita foi diferente:

Entro num café de estação onde sou cliente, digamos, uma vez em cada quinze dias. Mas acabo sempre por meter conversa o que, aliado ao meu visual, me transforma em tudo menos num cliente ocasional e anónimo.

Pois como a loja estava vazia, uma das mocinhas que ali está viu-me aproximar e tratou de fazer o expresso do costume. E quando encostei no balcão perguntou-me, sorrindo:

“Um café cheio, verdade?”

Não me fiquei e retorqui:

“Isso! E sem manteiga, por favor!”

“Sem manteiga?!”, espantou-se ela, como eu esperava.

“Claro! Já provou café com manteiga? Eu já e não gosto. Por isso peço sem manteiga.” Tudo isto dito com um ar perfeitamente impassível, ainda que rematado com um sorriso de orelha a orelha.

Foi a vez dela me deixar de boca aberta:

“Pois olhe que até já bebi café com manteiga e até gostava.” O seu sotaque brasileiro acentuou-se “ Quando era pequena o meu avô bebia disso de manhã e, só um pouquinho, deixava-nos provar.”

“Pois aposto que viviam no campo, o seu avô tinha animais de grande porte na quinta e as manhãs eram bem frescas, de Inverno!”

“Pôxa! Como sabe isso? O Paraná é parecido com Portugal e tínhamos cavalos na roça.”

“É que era isso que o meu avô fazia. Com um capote vestido por cima da roupa de dormir, à luz de uma candeia de petróleo, ia acordar e dar de comer às vacas antes do amanhecer. Mas antes de enfrentar o orvalho nocturno, bebia uma malga de café com uma colher de manteiga, para aquecer o corpo e a alma. Só depois de os animais terem forragem fresca na manjedoira é que regressava a casa, lavava-se e vestia-se comia o pequeno-almoço, na altura chamado de primeiro-almoço.

“É! Outros tempos e boas memórias!” E continuava a atender outros clientes que, entretanto, tinham chegado e queriam levar qualquer coisa no estômago na viagem que os levaria de volta a casa.

Quando me afastei do balcão, despesa paga, olhei em redor. Os que ficavam tinham cara de quem tinha passado todo o santo dia a trabalhar. Mas consegui vislumbrar em alguns, atrás do cansaço, um brilhozinho de nostalgia alegre.

 

Olympus Camedia C3030


By me

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ao calhas




Escolho um livro ao calhas da estante. Sai-me na rifa o “A tirania da comunicação”, de Ignacio Ramonet, escrito em 1999.

Também ao calhas o abro e aponto com um dedo. Eis o parágrafo que a sorte me mostrou:

William Randolph Hearst, o magnata da imprensa Americana que serviu de modelo ao Citizen Kane de Orson Wells, costumava dizer aos seus jornalistas: “Nunca aceitem que a verdade vos prive de uma boa história.” Em muitas redacções – até nas mais “honestas” -, esta máxima parece voltar a estar na moda. Assim, em 7 de Junho de 1998, a CNN não hesitou em apresentar, de uma forma espectacular, uma reportagem realizada pelo sue jornalista mais famoso, Peter Harnett, em que se afirmava que durante uma operação contra os desertores no Laos, no início dos anos 70, o exército dos estados unidos tinha usado gás Sarin, um gás mortífero. Uma semana mais tarde, o semanário Time (que pertencia ao mesmo grupo mediático, o Time-Warner) retomava e desenvolvia a notícia. No entanto, esta viria a revelar-se falsa. Um relatório provou que Arnett e a sua equipa, tinha empolado todo o caso a partir de declarações ambíguas de dois veteranos parcialmente amnésicos. Como se, à partida, os jornalistas tivessem decidido para qual das versões ia a sua preferência, devido ao seu formato sensacional. Este comportamento testemunha a tendência actual para “inventar um argumento” para a realidade, para “encenar” a informação, e força-la a adaptar-se à encenação que os jornalistas têm em mente. “O que importa neste novo jornalismo – denuncia Juan Luís Cebrián, antigo director do El Pais -, é que a encenação funcione, e não que ela esteja de acordo com a verdade”.

Um quarto de século depois, se excluirmos datas, nomes e locais, está tudo na mesma, senão pior!

 

Pentax K100D, Tamron 18-200


By me

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sobre fotografia




O Homem é gregário! Sobre isto não sobram dúvidas. É-o para procurar a força que o grupo dá e é-o para encontrar a segurança que o grupo oferece. E, acessoriamente, é-o porque o Homem é uma animal que comunica e necessita de um igual para comunicar.
Mas o Homem necessita também de se afirmar no grupo em que se insere. Afirmar-se como pertencendo ao grupo e afirmar-se como alguém especial no grupo.
Pouco importa que este grupo seja no campo da política, do desporto, da religião ou filosofia ou das artes. Ele diz que é adepto de, praticante de, crente em e, ao dizê-lo, procura os adeptos de, os praticantes de, os crentes em com os quais se identifica e com quem pode partilhar interesses.
Mas também diz que é o maior adepto de, o melhor praticante de, o mais fervoroso crente em. E fazem-se competições, avaliações, demonstrações para provar que não só se pertence ao grupo como, dentro dele, se é especial.
Há ainda uma outra forma de grupo com a respectiva identificação e consequente tentativa de afirmação no seu seio: a posse! A posse de bens móveis ou imóveis define grupos de possuidores. E o gosto pela posse do possuído ou pela sua utilização. A evidência do indivíduo no meio do grupo de possuidores é aferida pelas qualidades do que se possui: a maior biblioteca, o melhor carro, o luxo da dómus, a tecnologia.

No caso da fotografia sucede o mesmo.
Podem-se considerar dois, talvez três tipos de grupos: os que gostam de ver fotografia e os que gostam de fazer fotografia.
A afirmação individual dentro do primeiro grupo passa pelo conhecimento que se tem sobre autores, técnicas, estéticas e história e pela posse de documentação sobre isso. Quantidade e qualidade: muitos livros, muitas fotografias, trabalhos de mestres, obras de mestres.
Já a identificação e afirmação no grupo dos que fazem fotografia se pode dividir em dois sub-grupos: os que possuem os meios técnicos de a fazer e os que possuem qualidade no que fazem.


Nota intercalar:
A fotografia de Daguérre tal como a imprensa de Gutemberg podem ser – e são – considerados marcos na história da comunicação e do desenvolvimento da humanidade. E se a imprensa veio substituir o trabalho elaborado e elitista dos copistas, fazendo com que a mensagem por códigos-padrão (escrita) fosse acessível a todos e em todos os lugares, a fotografia veio “paralelizar-se” com a pintura no acesso à mensagem gráfica sem códigos-padrão (imagem).
Simplificou os processos de produção da imagem, passando a ser possível a qualquer um a sua produção e globalizou o seu consumo, passando a ser possível um sem-número de exemplares, fiéis entre si, todos originais (ao invés da pintura), e fora dos museus e galerias privadas.
Indo mais longe, e com a simplificação das técnicas fotográficas, deixou de ser necessário ser-se um especialista para produzir fotografias. A indústria evoluiu no sentido de deixar ao consumidor apenas o trabalho de apontar e premir o botão, deixando o trabalho monótono e elaborado da revelação e impressão para os laboratórios e técnicos especializados.
Actualmente, com os suportes digitais, mesmo aqueles estão quase que condenados à extinção, já que câmara e computador pessoal se completam.
Acontece que a simplificação dos processos elaborados (hardware) não veio alterar profundamente os processos intelectuais (software) da criação da imagem.
Continua a ser necessário “Pensar” na imagem, imaginar o resultado final, saber-se o que se quer mostrar ou contar, conhecer como transformar a tridimensionalidade e os cinco sentidos na bidimensionalidade e na exclusividade da visão. E, neste campo, não há tecnologia que simplifique. Há que pensar e sentir, mesmo que não se pense ou sinta que se está a pensar ou sentir.
E não nos enganemos: Isto dá trabalho! Muito trabalho! É a tentativa e erro, é o estudo, são as inúmeras frustrações por cada satisfação, é a paciência, é a pré-disposição diária para o fazer…
Mas, se pensarmos um pouquinho no comportamento humano, chegamos à conclusão que o bicho-homem não gosta de trabalhar. Toda a evolução das civilizações e das técnicas foi e é no sentido de facilitar as tarefas, de minimizar o esforço, de aumentar a satisfação. Fotografia incluída!
Donde a lei, quase universal, do menor esforço, não se coaduna com o trabalho físico e intelectual. Aquilo que se procura – uma forma fácil e sem esforço de fazer fotografia – é quase uma impossibilidade!

Temos assim que, no grupo humano dos fotógrafos, a evidencia do individuo se torna difícil porque trabalhosa.
Mais ainda, esta evidência não depende apenas do esforço do próprio mas também (e muito) do reconhecimento que o grupo lhe dá. Não basta fazer fotografias que agradem ao próprio: Têm que agradar ao grupo dos fotógrafos.
Mas o conceito “Agradar” é particularmente variável. Depende das correntes estéticas em voga, depende da opinião dos lentes académicos e daquilo que o mercado e negócio impõe.
Desta forma, aqueles que fotografam para “agradar”, que procuram o destaque no grupo, estão dependentes das variações culturais e das opiniões de quem influi. O ser-se bom não depende do esforço próprio.
Resta assim, àqueles que se querem evidenciar na fotografia e que não conseguem ser reconhecidos pela sua actividade, gritarem bem alto “Eu posso fazer porque tenho a melhor ferramenta!”
Deixou de ser uma afirmação no grupo pelo desempenho para passar a ser pela posse. E esta, porque material e mensurável, é comparável. E o que tiver a câmara mais sofisticada, a objectiva mais potente ou luminosa ou o laboratório ou PC mais completo é um “mais” no grupo. Afirma-se como elemento de destaque!

Claro que, no meio desta análise bastante cínica e materialista, quiçá minimalista, falta incluir alguns elementos da espécie humana: aqueles que, pertencendo a um grupo, não se preocupam em o ser ou em serem especiais no seu seio.
São aqueles que fotografam apenas e só porque lhes dá prazer fazê-lo e não para reconhecimento no grupo dos que fotografam. E para quem o reconhecimento é um factor acessório e não vital. Usam a fotografia como forma de expressão pessoal como outros fazem com a escrita, a pintura e outras artes. E se os outros gostam ou não, problema deles. E, muito naturalmente, não se preocupam em se afirmarem pela ferramenta que possuem!
Alguns desta categoria obtêm do grupo – e da humanidade – o reconhecimento de qualidades. Alguns mesmo acabam por tirar proveito disso, já que conseguem juntar a actividade que lhes agrada com a actividade que lhes dá o sustento.
Alguns outros só tarde na vida, senão mesmo depois de mortos, são objecto desse reconhecimento de qualidade.
A uns e outros, é dada a categoria de mestria!

E, em chegando a este ponto e porque mais não me apetece escrever por agora sobre o tema (e muito haveria para dizer), resta-me deixar uma afirmação:
Nenhum daqueles que são considerados “Bons fotógrafos”, façam ou não disso o seu objectivo ou ofício, o conseguiram sem muito trabalho. E sem conhecerem, em profundidade, o mundo e o Homem!


 Imagem: “Um homem de caridade”, by Eugene Smith

By me

domingo, 4 de janeiro de 2026

Nada como realmente




Sabia que os EUA não reconhecem o Tribunal Penal Internacional?

Por outras palavras, não aceitam julgamentos ou condenações neste tribunal de cidadãos norte americanos, sejam eles executantes ou mandantes, civis ou militares.

E no entanto... Bem, toda a gente sabe o que aconteceu ontem:

Forças militares entraram noutro país para capturarem a sua figura máxima para ser levada e julgada. Num julgamento que, não sejamos ingénuos, já tem a sentença lavrada.

Nada como realmente, como dizia o anúncio de antanho.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

sábado, 3 de janeiro de 2026

Desafios




Por vezes arranjamos lenha para nos queimarmos. Esta foi uma delas!

A maioria de quem fotografa procura locais que atraiam o olhar: perspectivas, luzes, acções. Eu não sou diferente.

Mas também gosto de, confrontado com um objecto, encontrar a solução que mais me agrade para o registo. Quer no exterior, tentando encontrar no local a luz, o fundo, a perspectiva possível, quer levando o objecto para casa, falar com ele e tentar perceber o que tem para me dizer e, só então, procurar a solução que ele me sugere.

Por isso vagueio por feirinhas de rua, lojas de inutilidades, farejo montras e escaparates, tentando que algo assobie para mim.

Entrei numa loja de ferragens e ferramentas para dar dois dedos de conversa com os donos, conhecidos de longa data.

A um canto isto, que me disse, sem mais delongas, “Vê lá se me entendes e vê lá se consegues.”

Caramba! Um fio de prumo tem muito para contar, seja qual for o tema da conversa. O problema é ele mesmo: latão polido e exclusivamente composto de curvas, excepção ao fio e à ponteira indicadora. Reflexos em cima de reflexos, sem planos paralelos nem linhas interuptoras.

Se joias e cutelaria, bem como relógios, são dos objectos mais “canalhas” de fotografar, devido aos reflexos que, tendo que existir, têm que ser controlados, este em redondo será uma das cerejas em cima de um desses bolos.

Vou ter que ter longas conversas com ele, com e sem luz, até encontrar mais soluções ou respostas. Esta foi a primeira tentativa.

Que me vai dar àgua pela barba, lá isso vai! Mas eu gosto de desafios.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Compromissos




Por vezes atrasamo-nos.

Perante compromissos com outras pessoas, trabalho, a vida, nós mesmos, a morte…

Apesar de não gostar de chegar atrasado, alguns atrasos aplaudi. Com a morte, por exemplo, que já me pediu explicações e a mandei bugiar, dizendo-lhe que lá chegarei mas só quando eu quiser.

O tipo de atraso que mais me incomoda, que mais me chateia, que me deixa mesmo fora do sério é aquele comigo mesmo. Que podemos sempre arranjar umas justificações, umas desculpas esfarrapadas perante terceiros, mas é sempre muito complicado mentirmo-nos.

O tempo não perdoa! Chegar atrasado ao encontro que temos connosco mesmos é muito mau!

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

Teimas ou apostas?




O caramelo teve azar: a história foi comigo.

Mas portou-se como um homemzinho, admitamos.

Eu conto:

 

Numa feira de velharias dou com este flash numa banca. Não funciona. Para além de já não se encontrarem lâmpadas, mais difícil será encontrar a pilha: 22,5 volts. Em qualquer dos casos, perguntei pelo preço. Simpático, mas não me apeteceu, sendo só para colecção.

O meu olhar caiu ao lado, num fotómetro. Abri o estojo e... Igual a um que tenho em casa. E a trabalhar, o meu.

"Mas tenho aqui outro fotómetro. Ora veja." atira-me o vendedor já velhote.

"Isso não é um fotómetro!"

"É sim senhor!"

"Nem pouco mais ou menos!"

"Ora essa! É um fotómetro!"

"Não é! E aposto consigo: se eu perder compro o flash, se eu ganhar oferece-mo."

"Combinado."

E apertámos as mãos.

Agora imaginem porque é que tenho o flash.

 

Fica o aviso para quem não me conhece bem:

Quando eu insistir que aposto, reponderem bem as variaveis que eu, sendo certo que tenho muitíssimo a aprender, também tenho algumas certezas.


By me

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O unicórnio




Recordo um livro de ficção científica: “O unicórnio”.

A trama, um bom bocado rebuscada, baseava-se no conceito dos universos paralelos. E como uma espécie de um outro planeta tinha conseguido dar um nó no continuo espaço-temporal para juntar todos os planetas Terra para se alimentar de seres humanos. Vale o que vale, o enredo.

O que torna este livro digno de nota é que os herois, que se encontraram devido a esse nó, acabam numa terrola meio isolada, numa sociedade estilo vitoriana. Que os recebe com pompa e circunstância, oferecendo um jantar de elites em sua honra.

No decurso do jantar os criados de mesa despem-se até à nudez total e roubam todas as joias dos convivas, sem que estes protestem ou façam algo para o evitar.

Na manhã seguinte os herois são acusados do roubo e têm que fugir da turba enfurecida, até que um deles percebe o que se passa e despe-se, levando os outros a fazer o mesmo. E a multidão passa por eles sem os ver e segue.

A explicação é socialmente interessante: naquela sociedade castrante e castrada, o nú é tão inaceitável que nem sequer o veem, ignorando-o.

 

Por cá está a acontecer algo de semelhante, ainda que só embrionário por enquanto:

O crescimento da extrema direita, no que toca a regras e comportamentos sociais, com o conceito de elites genéticas e de excluídos, está a implantar-se devagarinho.

Os portugueses, não acreditando que se repita o que aconteceu e vai acontecendo, um pouco por todo o mundo, nos últimos cem anos, não o estão a ver. “Isso aqui é impossível, não vai acontecer!”, dizem.

 

Até que alguém dê um nó nas linhas do tempo ou se dispa em praça pública.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me