sábado, 31 de janeiro de 2026

Com F ou com PH



Primeiro

A coisa começou há muitos anos! Éramos – e eu os compinchas de várias andanças, incluindo a procura de perguntas e respostas – razoavelmente novos.

O caminho que então percorríamos juntos passava também pela fotografia. Partilhávamos os equipamentos, as técnicas, as estéticas os conhecimentos e descobertas que íamos fazendo. E, não sendo nenhum de nós génios, procurávamos também os livros e revistas onde pudéssemos ir beber em mestres o suficiente para os nossos passos.

Estávamos na década, melhor, no decénio de 70, inícios do de 80 e por cá, Portugal, pouca leitura havia em português sobre a matéria. Livros apenas alguns mais antigos, ao estilo de almanaques, e revistas só aquelas efémeras, cuja qualidade e pouca procura faziam morrer pouco depois de nascer.

A solução era, inexoravelmente, recorrer ao que vinha de fora, do Reino Unido, dos EUA, de França. Cada uma destas origens, então como agora, tinha abordagens diferentes às técnicas e estéticas e às soluções. E o hábito de ler, apreciar e mesmo falar ia-se atendo às línguas que praticávamos fotograficamente.

Claro que também contava, face à juventude que tínhamos, o prazer de usar um código semi-hermético aos circundantes, aqueles que não bebiam onde nós nos alimentávamos: o prazer de fazer imagens.

E criou-se a brincadeira, petulante é certo, de dizer que por cá se fazia “Fotografia” e que lá por fora se praticava “Photographia”.

Com o passar dos tempos e as variações de rumos das vidas de cada um, tudo isto se transformou ou diluiu. A literatura e os periódicos em língua portuguesa foram aparecendo, algumas por nós mesmos produzidas, muitas vindas de além-mar. E deixamos de parte a necessidade juvenil da afirmação por códigos e mistérios.

Mas a sensação da diferença entre “fotografia” e “Photographia” ficou. Já não agarrada à tradicional maledicência sobre tudo o que é português, mas antes para marcar alguma diferença no tipo de imagens produzidas, onde quer que fosse. Diferença esta que não está nas técnicas, nas estéticas ou nas temáticas. Constata-se em cada uma delas e no seu conjunto mas não reside aí.

Está, antes sim, na forma de pensar e de fazer fotografia.

Segundo

A representação pictórica, ou iconográfica, existe desde antes da escrita, com esta tem co-existido e, pela certa, a ela sobreviverá. Porque os códigos alfabéticos, fonéticos, ideográficos ou binários mudam com as civilizações e tecnologias, o que não sucede com o uso das belas-artes. Poderão estas mudar de estilos ou de interpretações, mas perduram.

O comum do ser humano, gregário que é mas igualmente desejoso de marcar a diferença na sociedade em que se insere, procura igualar ou suplantar aqueles que admira e a quem atribui qualidades superiores. Entre outros, os que bem se expressam, seja qual for a arte em causa. E a pintura e representação gráfica é uma delas. Mas ela não é tão simples como parece, já que, além do domínio das técnicas, implica um certo “fogo interior” que na maioria está apagado. Para já não falar na morosidade do processo.

Ao invés, a fotografia é quase imediata, por comparação. E é-o tanto mais quanto as técnicas usadas evoluem. Técnicas estas que, com um domínio não muito aprofundado, permitem obter resultados satisfatórios, não apenas perante a sensibilidade de quem as produz como a aceitação de quem as vê. E os automatismos contemporâneos ainda reforçam este facilitismo no fazer da fotografia.

Se a isto juntarmos o consumismo desenfreado que vamos vivendo e a necessidade de afirmação social mais pela posse de bens que pelo resultado daquilo que se é e se pensa, temos que meio mundo possui e utiliza câmaras fotográficas. E que o outro meio anseia por o ter e fazer.

Mas esta fotografia é feita a correr, oriunda em impulsos de momento, quase que por obrigação. As questões estéticas são ignoradas, dos factores de comunicação nem se desconfia, e com a mesma velocidade com que dispara o obturador, também o seu resultado é esquecido. Tão ou mais grave que isso, a fotografia contemporânea padece da efemeridade, já que o seu apagar ou destruir resulta do uso de uma ou duas teclas na sequencia de sistemas de armazenamento cheios. A mesma ausência de pensar no acto fotográfico conduz a uma ausência de importância no seu resultado. Conservar ou não uma fotografia é uma questão de apetite momentâneo. E já não se usam pastas de arquivo cuidadosamente arrumadas, caixas de sapatos empilhadas ou gavetas repletas de papéis mono ou multi-coloridos que, volte e meia eram remexidos e supostamente organizados.

Some-se a esta pouca importância dada ao pensar a fotografia o seu actual custo zero. Fazer uma fotografia ou dez consecutivas tem o mesmo preço e dá o mesmo trabalho em obter. Que o “rolo” já não chega ao fim e as memórias dos cartões são cada vez maiores.

Nos tempos que correm, a velha frase publicitária “Para mais tarde recordar” deixou de fazer sentido, face ao uso e importância que é dada à fotografia.

Terceiro

Alguns há, no entanto, que assim não procedem.

Ao olharem pelo visor da câmara, ou ainda antes disso, o seu objectivo é o registo permanente daquele jogo de luz e sombras, daquela perspectiva, o contar daquela história, o eternizar daquele momento. E que, em tendo oportunidade para tal, procuram melhorar as suas capacidades de o fazerem, tanto pela prática como pelo estudo de quem o faz ou fez ainda melhor. Em que a afirmação pela fotografia não passa pela competição com os restantes com base no resultado ou na exibição da factura do seu equipamento mas antes consigo mesmo e com o resultado obtido a cada imagem produzida.

E que sabem que esse processo começa com o olhar o assunto e termina com olhar sobre o produto acabado, sendo que tudo o resto que medeia entre um e outro são meras técnicas, mais ou menos dominadas. Na tomada de vista e na selecção e tratamento posterior.

Que sabem e praticam que uma fotografia é o resultado de um processo mental materializado pela técnica. E que é mais naquele que se preocupam que nesta.

Ao resultado dos trabalhos destes, chamo eu (e mais uns quantos não tão poucos quanto isso) “Photographia”. Para o trabalho dos demais fica o termo genérico de “Fotografia”. Alguns há, ainda, que diferenciam com o uso de maiúsculas e minúsculas, mas o significado é o mesmo.

Nenhum dos dois termos tem mais valor que o outro ou algum deles tem uma carga negativa. Porque, na vida, o que importa é a obtenção da felicidade naquilo que fazemos e nenhum método é universal ou único.

Mas porque não são iguais nem nos processos de obtenção nem nos resultados materiais, identifiquem-se umas e outras imagens e fotografias.

Até porque entre imagens fotográficas e fotografias (com “F” ou com “Ph”) também há diferenças. Mas isso são outros contos!


By me

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sapos




Tenho em casa um montão de coisas inúteis e estranhas. Algumas por estrear em frente da minha objectiva. Foi o caso.

Numa dessas caixas fui encontrar uma pequena e bem velha amostra daquilo que terei que engolir daqui a por pouco mais de uma semana.

Mas antes isto, fazendo-me ficar com o estômago aos saltinhos, que a alternativa, que me provocaria diarreia por uns cinco anos.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

Éticas




Foi talvez há um pouco mais de quarenta anos, não posso precisar.

Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.

Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia comprado pouco tempo antes.

Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação.

O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia. E eu era um bocado inexperiente.

O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores.

Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…

E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.

Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.

Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!

Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente, inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser feito como combinado.

Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com argumentos técnicos e estéticos não iriam ser possível fazer boas imagens com a presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por inteiro e sem a presença das operárias.

A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o que eu queria com aquilo.

Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por algumas, não muitas, horas.

As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.

Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este produtor.

Ainda hoje as recordo.

 

 

Nota extra: A fotografia não é da época. Os originais, em diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a correr, para acompanhar o texto.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

Dos invisíveis




De algum modo todos nós acompanhamos a tempestade que atravessou o país. Quer fosse porque se a viveu, quer fosse porque a comunicação dela falou.

Casas destelhadas, gente que morreu, negócios, indústrias, colheitas, áreas inundadas, falência de serviços e bens básicos... de quase tudo se falou e mostrou.

O que ficou de fora das pantalhas e letras, gordas ou magras, foi o que aconteceu aos vivem nos cartões ou frageis tendas.

Esses, os invisíveis que mais não são que os incómodos porque nos abordam à porta do supermercado ou nas esplanadas, a quem se vira a cara e que nem uma negação de ajuda têm direito porque lhes damos as costas, de quem nos desviamos porque o seu aspecto incomoda o nosso sentido de ordem pequeno-burguês, esses invisíveis não eleitores, não cidadãos, não pessoas, sem rosto nem voz, não tiveram nem cinco segundos ou duas linhas na comunicação social.

Que mais grave é o voar do telhado da indústria que a frágil tenda; que mal falam para as câmaras, que vergonha têm de terem perdido os cartões ou de terem os finos cobertores encharcados. E que sabem que as moedinhas à porta do supermercado vão rarear até os telhados se refazerem e as luzes voltarem a iluminar o sofá onde se acede às redes sociais.

Dos fracos não reza a histórias. Nem os noticiários.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


y me

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Final feliz




É um erro comum: confundir “ser fã de” com “ser fanático por”.

No meu caso e fotograficamente falando, pese embora ser fã da marca Pentax, não sou fanático. Nem exclusivo. Este é um exemplo disso.

Eu tinha vinte e qualquer coisa e, já nem sei porque motivo, adquiri uma Rolleiflex SL35. Talvez porque eu quereria ter uma segunda câmara para alternar entre preto e branco e côr. Talvez porque o nome da marca fosse sonante (então e agora), e garantidamente porque terá sido muito barato.

Recordo ter ido para a zona velha da cidade com um amigo e compincha fotográfico para fazer o rolo de estreia. E de ter, com ela, feito fotografias de um aparatoso e grave acidente de moto.

E pouco mais recordo dela. Uns dias depois, em chegando a casa constato que esta tinha sido assaltada e que a câmara tinha sido levada. Por sorte, algo deve ter assustado os ladrões que não passaram do átrio de entrada, ou teriam levado, com toda a facilidade, a mala com o restante material (este Pentax). Foi um amargo de boca de sempre tive.

Há não muito tempo vejo este exemplar na montra de uma loja. Por uma casualidade passei por ali. E até os olhinhos se me saltaram da cara! Seria o fim de um ciclo com dezenas de anos, um regresso ao passado com um final feliz.

Ainda resisti, ponderando durante uns dias. Que do ponto de vista orçamental não me convinha. Mas a gula venceu e fui busca-la. Mas ainda tive que esperar uns dias, que a primeira abordagem logo ali na loja demonstrou não estar o fotómetro calibrado. Mas quando lá voltei por ela, depois de afinada, saí da loja qual puto feliz com brinquedo há muito desejado.

Está ali para as curvas e para os rolos, assim eu saiba tirar partido de uma velharia do início dos anos 70.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mais um vez




Dizer “foi morto” é quase a mesma coisa que dizer “foi assassinado” ou “foi abatido”.

O problema põe-se no “quase”!

“Foi morto” é uma expressão neutra, não se sentindo que haja uma atribuição de culpa. É um mero facto.

“Foi assassinado” tem uma carga criminal. Quem assassina é um criminoso e deve ser punido pela lei.

“Foi abatido” aparenta legitimidade, um acto executado seguindo ordens superiores.

Em qualquer dos três casos existe alguém que morreu. Em qualquer dos três casos existe alguém que interveio nessa morte. E existe um jornalista que decide usar uma das três versões para fazer passar a sua opinião sobre o facto, moldando a opinião do públlico.

E nós, os anónimos do público, não queremos saber a opinião do jornalista.

Ide-vos!

.

Este desabafo, que não nada de original, surge na sequênncia das opções jornalísticas usadas por cá sobre os casos de cidadãos norte-americanos mortos por agentes da polícia.

 

Samsung S1060


By me

sábado, 24 de janeiro de 2026

Areia para os olhos




Vamos andando entretidos com as diatribes que nos aparecem lá do outro lado do Atlântico. E com as lutas presidenciais por cá. E as guerras a oriente, europeias ou mediterrânicas. E as horas de espera nos hospitais. E as depressões e tempestades, que mandam fechar estradas e suspender aulas. E os conflitos laborais, públicos ou privados.

E, no meio de tudo isto e o mais que venda jornais ou aberturas de noticiários, outras questões há que, na sombra de todas aquelas, vão sendo noticiadas mas quase que por engano.

Questões que não são urgentes mas que marcarão o futuro quotidiano de muitos milhares de portugueses. Em permanência.

Questões que não são de urgência ou de solvência mas tão só porque apetece à elite dirigente. Questões ideológicas, e à revelia dos programas eleitorais, que vão moldando aos poucos a sociedade sem que esta se possa pronunciar sobre o assunto.

No caso concreto, a eventual mas anunciada privatização das linhas urbanas da CP.

Aquelas linhas que transportam muitos milhares de cidadãos de e para o trabalho, gente que não tem alternativa nesse serviço público e imprescindível.

Porque, e não nos enganemos, a palavra chave desta classe dirigente é “privatizar”. Ideologicamente. Colocar os que menos têm a pagar para os que mais têm, através de serviços que são de todos e que querem só de alguns.

E vão-no fazendo com a discrição que conseguem, entre uma tempestade e uma sala de espera, à sombra de uma qualquer chacina lá longe. Com a cumplicidade dos media. Privados ou não.

Citando Saramago: “... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

 

Nikon Coolpix P7000

 By me

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Argumentos




Foi já há uns vinte anos, decorria o meu projecto “Old Fashion” no Jardim da Estrela e fui abordado por duas senhoras catequistas já não sei de que confissão religiosa.

Não costumo ser rude para com estas pessoas. A sua conversa não me interessa por demais e tento afasta-las com a urbanidade que posso e sei. Por vezes recorrendo a estratagemas pouco ortodoxos, mas não rudes.

Desta feita esgotei os que tinha sem sucesso. Eu estava ali “amarrado” à minha câmara montada e elas tinham-me como “vítima” garantida.

A conversa terminou, com vitória para mim, quando lhes apresentei um argumento adequado ao que ali fazia:

“As senhoras prometem a felicidade numa eventual vida após a morte. Da qual não há testemunhos que não a fé. Eu propicio a felicidade, aqui e agora, ao entregar, de borla, fotografias a quem mas pede e provocando sorrisos. Quem, de nós, tem mais sucesso?”

Engoliram em seco, disseram mais uma ou duas coisas e zarparam. Devem ter-me identificado como Belezu encarnado.

Mas o certo é que essa é a minha abordagem.

Podemos e devemos trabalhar para a felicidade futura. Sejam quais forem os conceitos de felicidade e os prazos considerados.

Mas não devemos descurar a felicidade no momento em que vivemos. Não apenas fazendo por ela mas encontrando-a no que somos e temos.

E, principalmente, fazendo com que ela se espalhe, qual epidemia, em redor. Mesmo que em pequenas coisas e por uns instantes.

Como? Depende das circunstâncias, dos envolvidos e das suas capacidades.

Se a vida fosse uma fórmula resolvida…

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

memória

Há pouco lembrei-me do Calimero.

É que ouvi um candidato presidencial a dizer que estão todos contra ele. Até o sistema está contra ele.

É uma injustiça de ir às lágrimas.


By me

Especial para fotógrafos




Tenho que admitir que, para mim, sair de casa sem uma câmara fotográfica é-me quase tão mau quanto sair de casa despido. Ambos os casos são hábitos muito antigos, e o ser humano é um animal de hábitos.

Tinha que ir à cidade tratar de dois ou três assuntos. Basicamente seria sair de um local para seguir para o seguinte, sem muito tempo para “vadiar” e fotografar. Mas, do memo modo que ir vestido, teria que levar uma câmara. Leve, de preferência.

Pouco tempo antes havia-me chegado às mãos a Pentax K-S2. Pequena e leve como eu queria. Com o acréscimo de ainda não estar bem familiarizado com ela. E por “familiarizado” entenda-se que as minhas mãos ainda não sabiam de cor a localização dos botões e a minha mente ainda não sabia de cor os menus e sub-menus. E ambas questões são importantes para que possamos encontrar o momento decisivo e o enquadramento certo sem nos preocuparmos muito com questões técnicas.

“Hoje vai esta”, pensei, em oposição às do costume: Uma DSRL K5 e uma DSLR K1. Por outras palavras, 670 gramas em oposição a 750 e 1010 gramas respectivamente.

Mas haveria que pensar na objectiva. Também leve, de preferência. A escolha recaiu na SMC Pentax-M 40 1:2,8. Não tenho em casa nenhuma objectiva com baioneta K mais pequena ou mais leve que isto. E, a juntar à escolha, é uma objectiva com um ângulo que não me dá muito conforto, o que me leva a insistir no seu uso até me ser “natural”.

“O conjunto certo”, pensei antes de olhar para ele.

Depois de olhar para ele já completo, concluí que, do ponto de vista visual, será difícil de encontrar melhor conjunto câmara/objectiva. É bonito e harmonioso nas suas proporções, quase que feitos um para o outro.

O que acaba por ser divertido? Passei a tarde ocupado às voltas na cidade, de um local para o outro e nem uma vez levei a câmara à cara. Mas também trago cuecas vestidas e nem uma vez precisei de lhes mexer.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Livros




Tal como alguns criminosos e delinquentes estão proíbidos de se aproximarem das suas vítimas, também eu deveria ter uma pulseira electrónica que me inibisse de me aproximar de livrarias. O estado das minhas finanças agradeceria.

Estive numa livraria. A STET, que recomendo a todos os da zona de Lisboa mas não só, já que também funciona on-line. A sua especialidade é a imagem, sob diversas facetas mas com a fotografia predominante, e é difícil lá ir sem se sair com algum livro na mão. Isto para quem se interesse sobre o tema, claro.

Passei por lá por via de uma obra que tinha encomendado e que, aparentemente, não se encontra sob a forma de papel. Mas, e para que vejam o tipo de atendimento, não o tendo deram-se ao trabalho, ali à minha frente, de procurar referências on-line sobre ela, incluindo a versão pdf. De borla! Se isto não é bom serviço ao cliente, não vejo o que possa ser.

Mas vim de lá com duas outras obras: uma particularmente dispendiosa até porque incomum, da qual tenho vergonha de agora e aqui falar, e esta bem mais modesta.

Ainda não me debrucei sobre ela. A bem dizer, vi-a e nem hesitei na sua compra, até porque bem acessível. O nome do autor é para mim como polen para abelhas. Gosto particularmente da forma como ele escrevia: na facilidade dos textos, apesar da profundidade dos conteúdos. E, particularmente, das ideias que lhes estão subjacentes de um ponto de vista geral  e social e que não apenas relacionadas com a imagem geral ou a fotografia ou pintura em particular. Para quem o não conhecer, recomendo vivamente.

 

Como adicional, acrescento que esta fotografia tem um erro crasso, de que só me apercebi depois de tratada.

Pese embora o enquadramento e a luz de base serem particularmente simples, a luz principal vem do lado direito e as sombras projectadas para a esquerda.

Ora isto é um disparate, a menos que se seja canhoto. Um destro terá o cuidado de ter a luz que ilumina o seu local de trabalho à sua esquerda, para que as sombras, ao escrever, se projectem para a direita. Ou se preferirem, para a zona do papel ainda não escrito, em vez de sobre o que se acabou de escrever.

Para quem nunca pensou no assunto, sugiro que tentem ter o candeeiro ou a janela de um lado ou do outro e verifiquem qual o mais confortável.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Lá terá que ser




E pronto!

Lá vou eu ter que engolir um sapo.

 

Pentax K-S2, SMC Pentax-M macro 50 1:4


By me

Texto e imagem




"Àquela hora não havia por perto outro local onde comer. O que via na montra e pela porta não lhe inspirava grande confiança, mas a fome mordia-lhe o estômago e o frio não ajudava. Entrou.

O cheiro a fritos era preponderante, mas isso não parecia incomodar os dois comensais isolados, que faziam parelha com o ambiente geral. Escolheu uma mesa, não muito próxima deles, e sentou-se.

Antes de olhar para a ardósia na parede onde se podia ler aquilo que a cozinha podia disponibilizar, olhou para a toalha. As manchas irregulares deixadas pelos clientes anteriores, sabe-se lá quando, competiam em contraste com o rectilíneo do xadrêz já pálido do tecido. Desejou que os guardanapos fossem de papel e que o copo estivesse como os guardanapos.

Ainda assim arriscou e pediu a quem estava atrás do avental e do bigode: uma sopa e uma jardineira de vitela."

 

Esta é a grande vantagem da literatura sobre a imagem: por muito descritiva que possa ser, deixa sempre alguma coisa à imaginação de quem lê:

Estaria pouco vestido ou nevaria? Quantas mesas na sala? De que cor seria a toalha? Que garrafas, se algumas, existiriam atrás do balcão?

Há todo um mundo de perguntas que o texto não responde e que ficam ao critério do leitor encontrar as respostas. Em função das suas experiências pessoais, da sua imaginação ou de um qualquer capricho momentâneo.

A imagem, cinematográfica ou outra, não nos dá essa possibilidade. Cada detalhe da sala e seus personagens está ali, no ecrã ou no papel, esclarecendo todas as dúvidas e nada deixando por saber. Claro que há excepções, como seja o filme “DogVille”, mas os mestres quebram as regras e as rotinas.

A fotografia fica a meia haste. Tudo o que está em frente da objectiva é captado, com maior ou menor detalhe, nada deixando à imaginação. Mas não tem o factor movimento, em regra. Dos personagens ou da câmara. Donde apenas sabemos o que nos é mostrado.

Uma das técnicas de fazer o espectador interagir com o que vê é não lhe mostrar tudo. Indo mais longe, truncar parte do visível – pessoas, objectos, espaços – levando quem vê à tarefa de imaginar o que falta. Criar-lhe a curiosidade de completar o que está em falta!

Técnica difícil, esta. Principalmente nos tempos que correm. Que se a tentativa de estimular a imaginação for muito forte, com a rapidez de consumo do digital o espectador desinteressa-se com facilidade. Por outro lado, e pelo mesmo motivo, se for muito fraca não chega a provocar a curiosidade.

Alguns mestres na imagem – e eu não sou mestre – jogam com este instavel equilíbrio entre “o que mostro e o que não mostro” de forma magistral. O instinto, a prática, o pensar, o recurso às diversas técnicas de ocultar ou semi ocultar, fazem dos seus trabalhos obras primas.

É por dar trabalho ou ignorar o método que a esmagadora maioria das fotografias que vemos são sensaboronas. De tão completas, de tão esclarecedoras, de tão fechadas sobre si mesmas, não permitem que o espectador pense ou sinta. “É aquilo e mais nada”, “tomei conhecimento e é quanto basta”.

A arte, nas suas diversas facetas, pode ser completa. Mas pode e deve levar o espectador mais além do que aquilo que recebe. Provocá-lo, criar-lhe alguma instabilidade, sentimentos ou perguntas. Quando isso não acontece, não são fotografias: são fotocópias do circundante.

Os meus cinco cêntimos.

 

Olympus C3030z


By me

domingo, 18 de janeiro de 2026

Dúvida ancestral




Diz a piada velha que se os deuses não quisessem que confundíssemos os Bs com os Vs não os tinham posto lado a lado no teclado.

Mas uma forma ou de outra, não deixem de ir botar ou votar este domingo.

 

Pentax K7, Tamron 18-200

 

By me

Lugares perigosos




Fui votar, como se esperaria. E, como de costume, à entrada e à saída quedei-me a ver os cidadãos que chegavam e partiam.

Cheguei a uma conclusão: as assembleias de voto devem estar cheias de carteiristas e afins!

É que toda a gente entrava e saía com as mãos nos bolsos, suponho que a segurar na carteira.

Em qualquer dos casos, lá dentro senti-me como que na polícia: Apresentaram-me um conjunto de fotografias para reconhecer malfeitores. E foram alguns que identifiquei como tal.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

sábado, 17 de janeiro de 2026

Emissões e reflexões




Se bem se pensar no assunto, raramente se fotografa a origem da luz.

Por muito que seja imprescidivel ao acto fotográfico, aquilo que fotografamos são as superfícies que a reflectem, sejam mais opacas ou mais transparentes.

O sol, as lâmpadas, a chama, até por motivos técnicos, é algo que não nos atrai muito a atenção. Não a emissão mas a reflexão.

Por isso mesmo, pelo menos em Portugal, a véspera do dia de eleições deveria também ser o dia da fotografia.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4

 

By me

Tal como hoje


 


Num sábado de reflexão, muito antes de nevar na serra.

 

Pentax LX, Vivitar 17 1:3,5, Agfachrome CT18


By me

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

É na imperfeição que está o belo




Quase simétrico. Ou, de acordo com algumas teorias, quase perfeito.

No entanto, e ao que julgo saber, a simetria não é apanágio do universo, começando desde logo pelo corpo humano. Continuando pelo formato dos astros e os seus movimentos absolutos ou relativos.

A simetria, tal como o equilíbrio, mais não são que invenções do bicho homem, numa tentativa de imitar um qualquer divino. Mas errando.

Que se esse tal de divino e ser perfeito tivesse querido criar o equilíbrio e a simetria, tê-lo-ia feito. E, por aquilo que sabemos, não fez.

Ao contrário, aquilo que existe é um continuo desequilíbrio, uma ligeira assimetria, cuja conjugação permite a continua mudança, a eterna evolução. Quer aqui na terra como nos céus.

O problema é que nós, no minúsculo que somos no todo, tudo vemos e aquilatamos à nossa escala. Quão arrogantes somos, em querermos ser mais que o todo!

Que bela é a assimetria e que harmonioso é o desequilíbrio, de onde viemos e para onde iremos.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O fiasco




É verdade que sim: eu gosto de brincar com as palavras.

Por vezes, quando estou de maré, vou buscar termos mais antigos, arcaicos mesmo. Outras, mais frequentemente, uso as parábolas ou analogias para contar o que quero ou sinto. Outras ainda recorro a segundas leituras ou mensagens subliminares para que a mensagem passe sem ser sob a forma de mensagem.

Na fotografia, que é uma forma de escrita, acontece-me o mesmo: a mensagem principal está lá, ainda que meio escondida para não ser muito evidente mas que, de algum modo, fique retida na mente de quem a possa ver.

Por vezes “estico-me”. Está tão dissimulada (ou o mais notório tem tanta força) que se perde no meio de tudo o resto. E só eu, que a concebi, entendo isso.

Foi agora o caso.

Quis mostrar que tinha um brinquedo fotográfico novo aqui em casa. E quis brincar com o conceito de “brinquedo” usando brinquedos reais na imagem, bem à vista, em evidência na composição e na luz. E deixei a mensagem principal em segundo plano, escondida pelos reais brinquedos, e fora de foco. Só alguns poucos, se alguns, se aperceberiam que estava ali uma referência a uma câmara fotográfica.

A imagem está técnicamente correcta, tem um primeiro plano forte, divertido, apelativo... mas falhou liminarmente no seu objectivo: todos repararam nos bonecos e ninguém se apercebeu do que está escrito lá atrás, na caixa.

Por vezes, de tanto querermos fazer, desfazemos no objectivo principal. E eu sei isso, o que me leva a ficar ainda mais frustrado comigo mesmo.

Mas há lições negativas que temos que viver ou reviver para não nos esquecermos delas.

 

Pentax K-S2, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Os treze anos




Os treze anos

 

Já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro:

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já bailo ao Domingo

com as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita,

como era primeiro;

sou a Senhora Ana,

que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto,

nas feiras já feiro,

já não me dá beijos

qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas,

e as deito ao ribeiro,

olho tudo à roda,

de cima do outeiro.

 

E só se não vejo

ninguém pelo arneiro,

me banho co’as patas

Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas,

rostinho trigueiro,

que mata de amores

a muito vaqueiro.

 

Miro-me, olhos pretos

e um riso fagueiro,

que diz a cantiga

que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha,

já por derradeiro

me vejo mui outra

da que era primeiro.

 

O meu gibão largo

de arminho e cordeiro,

já o dei à neta

do Brás cabaneiro,

 

dizendo-lhe: "Toma

gibão domingueiro,

de ilhoses de prata,

de arminho e cordeiro.

 

"A mim já me aperta,

e a ti te é laceiro;

tu brincas co’as outras

e eu danço em terreiro."

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita,

sou a Ana do outeiro;

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Não quero o sargento,

que é muito guerreiro,

de barbas mui feras

e olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho;

não quero o mineiro:

Mais valem treze anos

que todo o dinheiro.

 

Tão-pouco me agrado

do pobre moleiro,

que vive na azenha

como um prisioneiro.

 

Marido pretendo

de humor galhofeiro,

que viva por festas,

que brilhe em terreiro;

 

Que em ele assomando

co’o tamborileiro,

logo se alvorote

o lugar inteiro.

 

Que todos acorram

por vê-lo primeiro,

e todas perguntem

se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele,

romeira e romeiro,

vivendo de bodas,

bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos!

ai, céu verdadeiro!

ai, Páscoa florida,

que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha,

de Deus vos requeiro:

Casai-me hoje mesmo

com Pedro Gaiteiro.

 

António Feliciano Castilho

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


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terça-feira, 13 de janeiro de 2026




De súbito lembrei-me dos velhos filmes do oeste americano, com pistolas, bandidos e heróis.

Neles, os vilões cobiçam a terra de famílias de fazendeiros, porque tem água e erva verde, e tudo fazem para ficar com ela. Incluindo contratar brutamontes para agredir os fazendeiros que não querem vender.

Claro que entretanto surge o herói que repõe a normalidade, quer com pistolas, quer com astúcia.

Estes filmes fazem parte da memória de muitos de nós. E a reposição final da justiça funcionava, para além do entretenimento, como que uma sublimação das injustiças da vida: um final feliz.

Hoje as pradarias verdejantes estão cobertas de gelo ou de florestas quase virgens. E o criador de gado vai, aos poucos, apropriando-se do que quer usando os brutamontes armados para fazer seu trabalho sujo.

Talvez mera coincidência o facto de tanto a ficção cinematográfica como a dolorosa realidade actual terem como cenário e protagonistas os eua.

Volta Trinitá! Mas, tal como o Arnol, salta da tela para a realidade e arruma com os bandidos. Mas trás a winchester do Wayne, que a coisa não vai lá só com uns valentes murros nos maus.

 

Imagem roubada da net


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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Fala comigo




Existem aquelas figuras, femininas ou masculinas, que são perfeitas.

As feições, as formas corporais, as cores da pele e da pelagem, a voz, a forma de moverem… Tudo nessas pessoas é perfeito.

Depois existem aquelas pessoas que são de excepção: ele é o olhar, o formato do queixo, o comprimento dos dedos, o volume de alguma parte do corpo, a voz em tom mais baixo ou mais agudo… alguma ou algumas dessas particularidades transformam aquela pessoa em alguém que não pode deixar de ser visto e apreciado.

Há ainda aquelas pessoas que, não tendo nada em si que seja realmente bonito, têm algum aspecto que é mesmo invulgar. Alguma discrepância na proporção das formas, um formato invulgar de rosto ou o que quer que seja, a cor dos olhos ou do pelo… Ou tão só um conjunto de características que, naquele lugar e tempo são incomuns mas que na sua região de origem são banais.

Apesar de tudo isto, não são estas pessoas, extremamente bonitas ou invulgares, que nos fazem ficar perdidamente apaixonados ou com quem queremos ficar para todo o sempre. São bonitas, vistosas, fazem-nos virar a cabeça ao passar, queremos conhecer melhor, mas… não passa disso: atracção física e visual.

Depois existem todas as outras pessoas, que não possuem nenhum atributo especial, que são completamente banais ou mesmo “feias”, que, quando com elas nos cruzamos na vida, nos prendem irresistivelmente, em quem não podemos deixar de pensar, com quem acabamos por viver momentos de paixão desmesurada ou amor eterno. Claro que isto também pode acontecer com as tais primeiras pessoas, as de excepção, mas sendo que são em percentagem reduzida, é bem mais comum que seja com alguém deste último grupo, o maior de todos.

 

O mesmo sucede com a fotografia.

Há fotografias esplêndidas, perfeitas nos aspectos técnicos e estéticos. Paisagens campestres ou urbanas, de pessoas, arquitectura, naturezas mortas, técnicas, publicidade… Existe um bom número de fotografias, e de autores, por esses mundo fora e ao longo da história da fotografia.

No entanto, com muitas delas, dessas perfeitas, não nos daríamos ao trabalho de as comprar ou recortar de uma revista para as emoldurar e pendurar numa parede. Ou ir folhear amiúde o livro onde constam para com ela deliciar os olhos e a alma.

Mas existem muitas outras, muitas mesmo, que não sendo perfeitas do ponto de vista académico, que não respeitando algumas das regras da proporção, do equilíbrio de massas e de tons, tendo linhas de fuga estranhas, se algumas, contendo assuntos banais ou mesmo desagradáveis, nos fazem ficar horas a mirá-las, degustando cada centímetro do papel ou do ecrã, falando connosco a cada instante e contando-nos sempre algo de novo.

 

Tenho para mim que uma boa fotografia não tem que ser perfeita! Tem que falar comigo!

Claro que há os academismos, os conceitos de técnica e de estética que são dominantes num dado momento e lugar, que pertencem à linguagem de comunicação e que a todos é comum. São essas ideias, estilos e métodos que ensinamos nas escolas de fotografia, que levamos os aprendizes a usar de modo inconsciente. Como quem conhece as métricas e sabe fazer uma quadra.

Mas também um manual de instruções de uma batedeira ou berbequim está tecnicamente perfeito, as manchas de texto e ilustrações estão equilibradas e de acordo com as modas em uso, o texto está gramaticalmente correcto e de acordo com a ortografia do momento… mas nada disso faz dele algo que queira ver e ver e ver e ver…

Uma fotografia de que realmente goste tem que me falar, tem que me contar algo, tem que me levar a imaginar mais que não apenas o que ali está expresso, tem que provocar a excitação da minha memória ou desafiar-me a memórias novas. Mesmo que as regras de ouro, os equilíbrios, as definições ou nitidez, os tons e as cores, mesmo as luzes, não estejam “perfeitos”.

Uma fotografia que não fale comigo, mesmo sendo “perfeita como nos livros” mais não me faz que pensar naquelas pessoas que são extremamente bonitas, mas pelas quais me não apaixono nem pensaria em casar.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Fotógrafos e advogados




Piada velha é afirmar que há duas coisas que quanto mais se cortam menos buracos têm. E enumerar: a rede a a lei.

Explicando: a cada corte que se fizer numa rede transformam-se dois buracos num só. De igual forma, a cada corte num artigo ou alínea da lei corta-se um buraco a ser aproveitado por advogados em prol do seu cliente.

Mas o pobre fotógrafo, para alem disso, ainda tem que lidar com outras leis: as leis da reflexão, as leis da refracção, as leis da gravidade...

E, tal como um advogado, o fotógrafo tem que tirar partido de todas elas, usando-as ou contornando-as de modo a chegar ao veredicto, perdão, à imagem que pretende.

Piadas à parte, a fotografia não mente: as interpretações de quem a vê é que podem variar.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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Café sem manteiga




Já foi hábito meu, que ultimamente pouco tenho praticado: num balcão pedir um café sem manteiga.

Os motivos para tal são vários, que passam pelas brincadeiras e quebra de rotina para quem está do outro lado e terminam na rapidez com que sou atendido.

Por via desta expressão, aparentemente e absurda, tenho já vivido situações caricatas em que umas vezes sou eu a vítima, outras o empregado, outras ainda clientes ao meu lado.

Desta feita foi diferente:

Entro num café de estação onde sou cliente, digamos, uma vez em cada quinze dias. Mas acabo sempre por meter conversa o que, aliado ao meu visual, me transforma em tudo menos num cliente ocasional e anónimo.

Pois como a loja estava vazia, uma das mocinhas que ali está viu-me aproximar e tratou de fazer o expresso do costume. E quando encostei no balcão perguntou-me, sorrindo:

“Um café cheio, verdade?”

Não me fiquei e retorqui:

“Isso! E sem manteiga, por favor!”

“Sem manteiga?!”, espantou-se ela, como eu esperava.

“Claro! Já provou café com manteiga? Eu já e não gosto. Por isso peço sem manteiga.” Tudo isto dito com um ar perfeitamente impassível, ainda que rematado com um sorriso de orelha a orelha.

Foi a vez dela me deixar de boca aberta:

“Pois olhe que até já bebi café com manteiga e até gostava.” O seu sotaque brasileiro acentuou-se “ Quando era pequena o meu avô bebia disso de manhã e, só um pouquinho, deixava-nos provar.”

“Pois aposto que viviam no campo, o seu avô tinha animais de grande porte na quinta e as manhãs eram bem frescas, de Inverno!”

“Pôxa! Como sabe isso? O Paraná é parecido com Portugal e tínhamos cavalos na roça.”

“É que era isso que o meu avô fazia. Com um capote vestido por cima da roupa de dormir, à luz de uma candeia de petróleo, ia acordar e dar de comer às vacas antes do amanhecer. Mas antes de enfrentar o orvalho nocturno, bebia uma malga de café com uma colher de manteiga, para aquecer o corpo e a alma. Só depois de os animais terem forragem fresca na manjedoira é que regressava a casa, lavava-se e vestia-se comia o pequeno-almoço, na altura chamado de primeiro-almoço.

“É! Outros tempos e boas memórias!” E continuava a atender outros clientes que, entretanto, tinham chegado e queriam levar qualquer coisa no estômago na viagem que os levaria de volta a casa.

Quando me afastei do balcão, despesa paga, olhei em redor. Os que ficavam tinham cara de quem tinha passado todo o santo dia a trabalhar. Mas consegui vislumbrar em alguns, atrás do cansaço, um brilhozinho de nostalgia alegre.

 

Olympus Camedia C3030


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ao calhas




Escolho um livro ao calhas da estante. Sai-me na rifa o “A tirania da comunicação”, de Ignacio Ramonet, escrito em 1999.

Também ao calhas o abro e aponto com um dedo. Eis o parágrafo que a sorte me mostrou:

William Randolph Hearst, o magnata da imprensa Americana que serviu de modelo ao Citizen Kane de Orson Wells, costumava dizer aos seus jornalistas: “Nunca aceitem que a verdade vos prive de uma boa história.” Em muitas redacções – até nas mais “honestas” -, esta máxima parece voltar a estar na moda. Assim, em 7 de Junho de 1998, a CNN não hesitou em apresentar, de uma forma espectacular, uma reportagem realizada pelo sue jornalista mais famoso, Peter Harnett, em que se afirmava que durante uma operação contra os desertores no Laos, no início dos anos 70, o exército dos estados unidos tinha usado gás Sarin, um gás mortífero. Uma semana mais tarde, o semanário Time (que pertencia ao mesmo grupo mediático, o Time-Warner) retomava e desenvolvia a notícia. No entanto, esta viria a revelar-se falsa. Um relatório provou que Arnett e a sua equipa, tinha empolado todo o caso a partir de declarações ambíguas de dois veteranos parcialmente amnésicos. Como se, à partida, os jornalistas tivessem decidido para qual das versões ia a sua preferência, devido ao seu formato sensacional. Este comportamento testemunha a tendência actual para “inventar um argumento” para a realidade, para “encenar” a informação, e força-la a adaptar-se à encenação que os jornalistas têm em mente. “O que importa neste novo jornalismo – denuncia Juan Luís Cebrián, antigo director do El Pais -, é que a encenação funcione, e não que ela esteja de acordo com a verdade”.

Um quarto de século depois, se excluirmos datas, nomes e locais, está tudo na mesma, senão pior!

 

Pentax K100D, Tamron 18-200


By me

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sobre fotografia




O Homem é gregário! Sobre isto não sobram dúvidas. É-o para procurar a força que o grupo dá e é-o para encontrar a segurança que o grupo oferece. E, acessoriamente, é-o porque o Homem é uma animal que comunica e necessita de um igual para comunicar.
Mas o Homem necessita também de se afirmar no grupo em que se insere. Afirmar-se como pertencendo ao grupo e afirmar-se como alguém especial no grupo.
Pouco importa que este grupo seja no campo da política, do desporto, da religião ou filosofia ou das artes. Ele diz que é adepto de, praticante de, crente em e, ao dizê-lo, procura os adeptos de, os praticantes de, os crentes em com os quais se identifica e com quem pode partilhar interesses.
Mas também diz que é o maior adepto de, o melhor praticante de, o mais fervoroso crente em. E fazem-se competições, avaliações, demonstrações para provar que não só se pertence ao grupo como, dentro dele, se é especial.
Há ainda uma outra forma de grupo com a respectiva identificação e consequente tentativa de afirmação no seu seio: a posse! A posse de bens móveis ou imóveis define grupos de possuidores. E o gosto pela posse do possuído ou pela sua utilização. A evidência do indivíduo no meio do grupo de possuidores é aferida pelas qualidades do que se possui: a maior biblioteca, o melhor carro, o luxo da dómus, a tecnologia.

No caso da fotografia sucede o mesmo.
Podem-se considerar dois, talvez três tipos de grupos: os que gostam de ver fotografia e os que gostam de fazer fotografia.
A afirmação individual dentro do primeiro grupo passa pelo conhecimento que se tem sobre autores, técnicas, estéticas e história e pela posse de documentação sobre isso. Quantidade e qualidade: muitos livros, muitas fotografias, trabalhos de mestres, obras de mestres.
Já a identificação e afirmação no grupo dos que fazem fotografia se pode dividir em dois sub-grupos: os que possuem os meios técnicos de a fazer e os que possuem qualidade no que fazem.


Nota intercalar:
A fotografia de Daguérre tal como a imprensa de Gutemberg podem ser – e são – considerados marcos na história da comunicação e do desenvolvimento da humanidade. E se a imprensa veio substituir o trabalho elaborado e elitista dos copistas, fazendo com que a mensagem por códigos-padrão (escrita) fosse acessível a todos e em todos os lugares, a fotografia veio “paralelizar-se” com a pintura no acesso à mensagem gráfica sem códigos-padrão (imagem).
Simplificou os processos de produção da imagem, passando a ser possível a qualquer um a sua produção e globalizou o seu consumo, passando a ser possível um sem-número de exemplares, fiéis entre si, todos originais (ao invés da pintura), e fora dos museus e galerias privadas.
Indo mais longe, e com a simplificação das técnicas fotográficas, deixou de ser necessário ser-se um especialista para produzir fotografias. A indústria evoluiu no sentido de deixar ao consumidor apenas o trabalho de apontar e premir o botão, deixando o trabalho monótono e elaborado da revelação e impressão para os laboratórios e técnicos especializados.
Actualmente, com os suportes digitais, mesmo aqueles estão quase que condenados à extinção, já que câmara e computador pessoal se completam.
Acontece que a simplificação dos processos elaborados (hardware) não veio alterar profundamente os processos intelectuais (software) da criação da imagem.
Continua a ser necessário “Pensar” na imagem, imaginar o resultado final, saber-se o que se quer mostrar ou contar, conhecer como transformar a tridimensionalidade e os cinco sentidos na bidimensionalidade e na exclusividade da visão. E, neste campo, não há tecnologia que simplifique. Há que pensar e sentir, mesmo que não se pense ou sinta que se está a pensar ou sentir.
E não nos enganemos: Isto dá trabalho! Muito trabalho! É a tentativa e erro, é o estudo, são as inúmeras frustrações por cada satisfação, é a paciência, é a pré-disposição diária para o fazer…
Mas, se pensarmos um pouquinho no comportamento humano, chegamos à conclusão que o bicho-homem não gosta de trabalhar. Toda a evolução das civilizações e das técnicas foi e é no sentido de facilitar as tarefas, de minimizar o esforço, de aumentar a satisfação. Fotografia incluída!
Donde a lei, quase universal, do menor esforço, não se coaduna com o trabalho físico e intelectual. Aquilo que se procura – uma forma fácil e sem esforço de fazer fotografia – é quase uma impossibilidade!

Temos assim que, no grupo humano dos fotógrafos, a evidencia do individuo se torna difícil porque trabalhosa.
Mais ainda, esta evidência não depende apenas do esforço do próprio mas também (e muito) do reconhecimento que o grupo lhe dá. Não basta fazer fotografias que agradem ao próprio: Têm que agradar ao grupo dos fotógrafos.
Mas o conceito “Agradar” é particularmente variável. Depende das correntes estéticas em voga, depende da opinião dos lentes académicos e daquilo que o mercado e negócio impõe.
Desta forma, aqueles que fotografam para “agradar”, que procuram o destaque no grupo, estão dependentes das variações culturais e das opiniões de quem influi. O ser-se bom não depende do esforço próprio.
Resta assim, àqueles que se querem evidenciar na fotografia e que não conseguem ser reconhecidos pela sua actividade, gritarem bem alto “Eu posso fazer porque tenho a melhor ferramenta!”
Deixou de ser uma afirmação no grupo pelo desempenho para passar a ser pela posse. E esta, porque material e mensurável, é comparável. E o que tiver a câmara mais sofisticada, a objectiva mais potente ou luminosa ou o laboratório ou PC mais completo é um “mais” no grupo. Afirma-se como elemento de destaque!

Claro que, no meio desta análise bastante cínica e materialista, quiçá minimalista, falta incluir alguns elementos da espécie humana: aqueles que, pertencendo a um grupo, não se preocupam em o ser ou em serem especiais no seu seio.
São aqueles que fotografam apenas e só porque lhes dá prazer fazê-lo e não para reconhecimento no grupo dos que fotografam. E para quem o reconhecimento é um factor acessório e não vital. Usam a fotografia como forma de expressão pessoal como outros fazem com a escrita, a pintura e outras artes. E se os outros gostam ou não, problema deles. E, muito naturalmente, não se preocupam em se afirmarem pela ferramenta que possuem!
Alguns desta categoria obtêm do grupo – e da humanidade – o reconhecimento de qualidades. Alguns mesmo acabam por tirar proveito disso, já que conseguem juntar a actividade que lhes agrada com a actividade que lhes dá o sustento.
Alguns outros só tarde na vida, senão mesmo depois de mortos, são objecto desse reconhecimento de qualidade.
A uns e outros, é dada a categoria de mestria!

E, em chegando a este ponto e porque mais não me apetece escrever por agora sobre o tema (e muito haveria para dizer), resta-me deixar uma afirmação:
Nenhum daqueles que são considerados “Bons fotógrafos”, façam ou não disso o seu objectivo ou ofício, o conseguiram sem muito trabalho. E sem conhecerem, em profundidade, o mundo e o Homem!


 Imagem: “Um homem de caridade”, by Eugene Smith

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