quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Automatismos




O episódio leva já uns bons trinta anos.

Pediram-me que fizesse parte do júri de seleção de operadores de câmara de vídeo. Profissionais já feitos. E eu deveria elaborar parte das provas teóricas e parte das provas práticas.

Para estas últimas concebi alguns exercícios a serem executados em estúdio, com graus de complexidade variada. E com um adicional: pese embora nenhum dos candidatos soubesse, cada um dos exercícios seria executado três vezes e o que seria avaliado seria a ou as correções que cada um fizesse a cada repetição. O que daria para perceber da noção que cada candidato tinha do que havia feito e do que teria que corrigir.

O último exercício implicava bom controlo de velocidade de panorâmica (movimento horizontal) e ajuste preciso de foco. Não era coisa fácil mas alguma dificuldade haveria que existir para se poder diferenciar entre candidatos.

Um deles, depois da primeira tentativa, que correu mal, e ao ser “convidado” a fazer de novo, começou a testar a funcionalidade de todos os botões que a câmara tinha. Estranhado tal procedimento, perguntei-lhe sobre o que procurava. A resposta não poderia ser mais explícita sobre o seu grau conhecimento do ofício: “Estou à procura do auto-focus, que isto é difícil.”

Dele não recordo nem nome nem rosto. Apenas que era um pouco mais baixo que eu e que era homem.

Recordei este episódio há uns dias.

Passei a minha câmara fotográfica para as mãos de fotógrafo que conheço e com larga experiência na matéria.

Depois de elogiar o quão bem aquele tamanho e peso fica nas mãos, quis fazer um “boneco”. Vantagem do digital, que estes testes são de borla. Mas estranhou a fotografia ter ficado desfocada e questionou-me. Lá lhe tive que explicar que aquela objectiva, com uns bons 35 anos, não permitia o foco automático e que o anel de focagem era o da frente. E acrescentei que o ajuste dióptrico do visor estava calibrado para o meu olho, mas que o poderia ajustar para ele, que é coisa fácil naquele modelo (Pentax K1).

“Ahhhhh!” foi a resposta, e fez mais uns dois disparos, sem corrigir a ocular.

Já em casa, no computador, confirmei o que suspeitava: as fotografias não estavam tão nítidas quanto se desejava.

Nos tempos que correm confia-se em demasia nos automatismos, tendo-se perdido o hábito de, usando-os, pensar e aquilatar mesmo antes de os usar.

Em termos fotográficos, os automatismos de focagem ou exposição são úteis e uso-os. Mas só de quando em vez e muito frequentemente com ajustes meus em cima do que o “japonês inteligente” sugere ou mesmo decide. As decisões, técnicas ou estéticas, têm que ser minhas! Mesmo correndo o risco de fazer asneira.

 

Pentax K1 mkII, Tamron SP Adaptall2 90mm 1:2,5


By me

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