O episódio leva já uns bons trinta anos.
Pediram-me que fizesse parte do júri de seleção de
operadores de câmara de vídeo. Profissionais já feitos. E eu deveria elaborar
parte das provas teóricas e parte das provas práticas.
Para estas últimas concebi alguns exercícios a serem
executados em estúdio, com graus de complexidade variada. E com um adicional:
pese embora nenhum dos candidatos soubesse, cada um dos exercícios seria
executado três vezes e o que seria avaliado seria a ou as correções que cada um
fizesse a cada repetição. O que daria para perceber da noção que cada candidato
tinha do que havia feito e do que teria que corrigir.
O último exercício implicava bom controlo de velocidade de
panorâmica (movimento horizontal) e ajuste preciso de foco. Não era coisa fácil
mas alguma dificuldade haveria que existir para se poder diferenciar entre
candidatos.
Um deles, depois da primeira tentativa, que correu mal, e ao
ser “convidado” a fazer de novo, começou a testar a funcionalidade de todos os
botões que a câmara tinha. Estranhado tal procedimento, perguntei-lhe sobre o
que procurava. A resposta não poderia ser mais explícita sobre o seu grau
conhecimento do ofício: “Estou à procura do auto-focus, que isto é difícil.”
Dele não recordo nem nome nem rosto. Apenas que era um pouco
mais baixo que eu e que era homem.
Recordei este episódio há uns dias.
Passei a minha câmara fotográfica para as mãos de fotógrafo
que conheço e com larga experiência na matéria.
Depois de elogiar o quão bem aquele tamanho e peso fica nas
mãos, quis fazer um “boneco”. Vantagem do digital, que estes testes são de
borla. Mas estranhou a fotografia ter ficado desfocada e questionou-me. Lá lhe
tive que explicar que aquela objectiva, com uns bons 35 anos, não permitia o
foco automático e que o anel de focagem era o da frente. E acrescentei que o
ajuste dióptrico do visor estava calibrado para o meu olho, mas que o poderia
ajustar para ele, que é coisa fácil naquele modelo (Pentax K1).
“Ahhhhh!” foi a resposta, e fez mais uns dois disparos, sem
corrigir a ocular.
Já em casa, no computador, confirmei o que suspeitava: as
fotografias não estavam tão nítidas quanto se desejava.
Nos tempos que correm confia-se em demasia nos automatismos,
tendo-se perdido o hábito de, usando-os, pensar e aquilatar mesmo antes de os
usar.
Em termos fotográficos, os automatismos de focagem ou
exposição são úteis e uso-os. Mas só de quando em vez e muito frequentemente
com ajustes meus em cima do que o “japonês inteligente” sugere ou mesmo decide.
As decisões, técnicas ou estéticas, têm que ser minhas! Mesmo correndo o risco
de fazer asneira.
Pentax K1
mkII, Tamron SP Adaptall2 90mm 1:2,5
By me


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