quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Por causado isqueiro



Encontrámo-nos numa espécie de terra de ninguém, um beco com escadas mesmo em frente à Assembleia da República, e que ainda não tinha sido fechado pela polícia.
Parei eu lá, a tentar respirar ar puro, depois de ter estado da mini-micro- manifestação em prol do governo. E aproveitei a sombra para uma pausa e um cigarro.
Ela já lá estava, também na sombra, e tirou da mala um maço de cigarros, daqueles brancos, longos e finos. E perguntou-me se eu lhe emprestava o isqueiro.
Isso é coisa que não faço e disse-lho. E expliquei:
“Não duvido de ninguém. Mas tenho muita estimação neste isqueiro e um acidente acontece a qualquer um. Caindo, lascaria o lacado preto que tem. Mas não importo nada de lhe dar lume.”
Riu-se, acendi-lhe o cigarro e aproveitei o ensejo: “E, em troca, posso fazer-lhe uma fotografia dos olhos? Só os olhos!”
Anuiu, um pouco a custo, depois de me perguntar porque a queria eu e de ouvir que gosto de fotografar olhos bonitos. E ficámos um nico de conversa, que é o que acontece quando se partilham cigarros, lume ou fotografias.
Disse-me que esta era a sua segunda manifestação. A primeira fora a da “geração à rasca”. Mas que agora estava ali em prol da democracia e do governo.
E fui-lhe respondendo, tentando explicar-lhe o que é democracia e vontade popular, o que é a diferença entre alternância e alternativa, perguntando-lhe se estava bem na vida, como aparentavam os poucos da manifestação onde queria estar… Não tinha ela muitos argumentos para me contrapor.
Os cigarros acabaram, os corpos agradeceram o fresco da sombra, e eu tinha que ir fotografar, que era para isso que ali estava. Separámo-nos com sorrisos de uma cumplicidade efémera.

Umas duas horas depois, enquanto acendia um cigarro, creio tê-la visto no meu lado da barricada, no meio de toda aquela gente que transbordava pacificamente do espaço que lhe fora reservado.

A sua fotografia?
Não estavam à espera que aqui a mostrasse, pois não?


By me

Sem comentários: