sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Prazeres de caça




Quem faz fotografia gosta que o seu equipamento esteja em boas condições. E está sempre alerta para as ocasiões em que o pode usar. Faz sentido e eu faço fotografia.

Quem coleciona artigos de fotografia gosta que as peças que possui estejam em tão boas condições quanto o possível, apesar da idade que algumas já possam ter. E está sempre alerta para as ocasiões em que pode completar ou melhorar a sua coleção. Faz sentido e eu sou colecionador.

Mas há um outro aspecto que conta para o colecionador e, eventualmente, para quem faz fotografia: a história em torno da peças de equipamento que possui. E eu pertenço aos dois grupos.

Lembro, por exemplo, de uma Pentax Super A, que me foi vendida usada por alguém que me contou ter ela sido comprada pela filha quando estudava na alemanha e que agora estava no fundo de um armário porque ela preferia as câmaras digitais. E ele estava a precisar de dinheiro...

De igual modo recordo uma Pentax SFXn, comprada barata com duas objectivas e alguns acessórios pouco comuns, sobre os quais quem me vendeu me disse que tinham pertencido ao falecido pai que tinha tal estima no seu equipamento que o guardava religiosamente numa divisão da casa fechada à chave para que os filhos não lhe acedessem.

Eu gosto de conversar com quem vende para conseguir este manancial de histórias.

O que se vê na fotografia junta também tem história. Aliás, tem várias histórias.

Começa com a quase oferta da peça menor à direita, bem como do respectivo estojo, junto com uma outra compra que fiz. Trata-se de uma acessório a colocar num fotómetro Gossen Lunasix 3 para permitir fazer leituras de luz no ampliador fotográfico. Eu não tinha o fotómetro mas sabia que cedo ou tarde o teria, enquanto esta peça extra seria raro de encontrar. Esteve bastante tempo guardada à espera do momento. Que veio agora.

O dito fotómetro estava acompanhado de dois outros acessórios, à venda em Lisboa e por uma valor mais ou menos dentro dos parâmetros habituais e compatível com a minha disponibilidade. E em excelentes condições de funcionamento. Não me fiz rogado, já que o conjunto é invulgar, e tratei de combinar o encontro de negócios.

Neste, fiquei a saber que pertenciam ao seu patrão, o António Homem Cardoso, que estava a vender as peças mais antigas e que já não usa, para ficar com um conjunto minimalista. Até por causa da sua idade. Sorte a minha.

Sorte não apenas nas peças de per si mas com o acréscimo de saber que que me chegam às mãos vindas de alguém que é alguém no panorama fotográfico português.

Mas “cereja no topo do bolo” estava no aparelho, fabricado em meados dos anos 60. E de que só me apercebi em chegando a casa. Usa ele, de origem, pilhas que já não se fabricam porque baseadas em mercúrio. Há formas de contornar o problema, umas mais complexas que outras. Uma delas é o recurso a adaptadores para baterias actuais, vendidos pelo fabricante, caros e de encomenda demorada. Pois o belo do aparelho já os tinha, o que diz do cuidado e atenção do seu dono para com o que usava.

Todas as peças têm uma história, em que por vezes somos nós que as vivemos. Mas, para mim, as que realmente são importantes são as que me antecederam. É também com elas que se faz uma coleção.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4


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