segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Escalas




Pequena câmara para grandes batalhas
Pentax K1 mkII, Tamron SP Adaptall2 90mm 1:2,5

By me

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Gum shoe




Provavelmente esta expressão nada diz aos falantes de português. E pouco dirá aos falantes de inglês.

Mas tropecei nela há já muitos anos num romance policial americano.

Por aquilo que pesquisei, era a alcunha dada aos detectives privados, as mais das vezes aqueles durões que fartavam-se de beber, de apanhar pancada, por quem as mulheres se apaixonavam e que, no fim da história, fazem vencer o bem sobre o mal, ainda que a fronteira entre ambos seja ténue.

Presumo que a alcunha advenha da necessidade de o detective seguir silenciosamente a sua presa, não fazendo ruído ao caminhar por usar sapatos com sola de borracha.

Foi um termo que me ficou na cabeça mas que recordei um sem número de vezes ao longo da vida. Em particular a vida profissional.

Se para um operador de câmara, tal como em muitas outras profissões, o ter os pés confortáveis é algo de muito importante, o tê-los silenciosos ao deslocar-se em estúdio é vital. Calçado com sola de couro e tacão rígido é algo que se não recomenda durante gravações ou directos.

Imagine-se o efeito de se ouvirem passos durante um conserto de música de câmara, num palco de madeira, oco por baixo. E isto não é ficção, que durante um ensaio, um operador de câmara foi expulso pelo maestro devido ao seu calçado.

Gum shoe, uma expressão que me baila na cabeça há mais de meio século.

 

Pentax K1 mkII, Tamron SP Adaptall2 90mm, 1:2,5

By me


No museu




Fui ver uma exposição de fotografia.
No museu da cidade, Palácio Pimenta, da autoria de Luis Pavão. Recomenda-se, para os mais novos verem como era alguma vivência em Lisboa nos últimos 20 anos do século passado e para os mais velhos recordarem, talvez, alguma das suas vivências.
Algumas das imagens, quatro ou cinco, estavam impressas em tamanho natural, recortadas e coladas na parede. Este é um dos exemplos.
Mas tiveram uma ideia patusca: colocar à frente desta fotografia um banco, como que num convite a sentar e fazer uma brincadeira fotográfica.
Foram mais longe na ideia e na sua concretização e criaram aqui uma luz em muito semelhante à dos retratados na parede. Como se vê aqui.
Resulta!
Só que... Só que esta luz, crua e bem vertical, evidencia ou exagera as rugas do rosto de quem aqui se sentar. A idade não perdoa e o amor-próprio também não.
Esta senhora não conseguia fazer uma selfie no banco e pediu-se ajuda. Usando o seu telemovel, fiz. Ela viu e comentou, amarga, que a idade não perdoa.
Tinha a minha câmara no ombro e a 90mm montada. Perguntei-lhe se podia usar a minha e anuiu. Afastei-me quanto bastou para que a perspectiva como que disfarçasse essas marcas do tempo. Mostrei-lha e disse-me que estava muito melhor.
Fiquei com o seu e-mail e já lha enviei.
Tal como costumo dizer, a luz é a minha matéria-prima, a perspectiva a minha ferramenta.
Pentax K1 mkII, Tamron SP Adaptal2 90mm, 1:2,5

By me

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Diatribe em torno de um prato vazio




A nossa existência está prenhe de códigos.

Conduta, vestuário, binário, morse, ... até o escrever é feito de códigos.

A alguns desses códigos nem prestamos atenção em demasia, como o falar, outros será particularmente grave não os seguir, como o de estrada.

Servem os códigos para organizar as relações entre pessoas, para que um acto de um seja bem interpretado pelos demais. Recordem a dificuldade em aprender caligrafia e ortografia, dois códigos bem mal seguidos nos tempos que correm.

A alguns desses códigos damos o nome genérico de etiqueta. E não me refiro às etiquetas apostas nos objectos, como roupa para identificar fabricante e qualidade, ou embalagens, para identificar preços ou valores.

Falo da etiqueta social, que rege comportamentos. A forma de cumprimentar um recém chegado, o cobrir ou descobrir a cabeça ao entrar num templo, quem se senta ao lado de quem a uma mesa de refeições.

E as mesas de refeições são um verdadeiro labirinto de etiquetas ou códigos sociais. Qual o copo certo para um determinado líquido, onde fica e qual é cada um dos talheres, de que lado se serve ou se retira a baixela...

Alguma desta etiqueta, como os restantes códigos, é muito condicionada pela geografia ou, se preferirem, pela cultura que a pratica. E aprendemos a etiqueta, ou o comportamento, desde pequeninos: como estar à mesa e o que fazer. Quem é o primeiro a sentar, mesmo quando todos já estão em redor, a posição das costas ou o lugar dos cotovelos, como segurar o talher...

Um desses conjunto de códigos refere o que fazer em terminando a refeição ou parte dela: o que fazer com os talheres.

Manda a etiqueta que devem ser colocados em paralelo, com o cabo para o mesmo lado. E que nunca, mas nunca, devem ser colocados cruzados, já que os códigos definem isto como “não gostei do que comi”. Coisa que será bem mal aceite por quem confecionou a comida ou os donos do lugar onde comemos: casa ou restaurante.

Há, no entanto, um código ou etiqueta que não é seguido em demasiados lugares, públicos ou privados: o comer-se o que consta de uma travessa ou terrina, ou mesmo tacho, comum a todos os comensais.

A refeição, desde sempre, é um local de partilha, de satisfação comum de uma necessidade básica. Um irmanar na ingestão de alimentos. E, nos tempos que vivemos, com as imposições laborais e horárias, um dos pouco momentos em que aquele pequeno grupo de gente está junto. Partilhando, para além da comida, as vivências e as ideias. Recentes ou distantes.

A não partilha de comida, ou de baixela, ou de talheres, ou mesmo se os pratos forem servidos fora do olhar de quem ali está sentado, é um modo de afastar ou separar aqueles que apenas naqueles momentos se partilham.

Toda a vida defendi a partilha. Como elemento de aproximação e igualização entre individuos ou grupos. É bem mais importante o partilhar que o dar. Até porque, em regra, dá-se o que sobra, mas o partilhar não define quantidade ou qualidade.

Quando se está num núcleo social, por pequeno que seja, e não se consegue que exista partilha, mesmo que muito se insista nessa tecla, o melhor é fazer uma de duas coisas: desistir do conceito ou desistir do grupo.

A minha opção foi a óbvia. Até porque “Burro velho...”

 

Pentax K1 mkII, Tamron SP Adaptall2 90mm, 1:2,5


By me

domingo, 28 de janeiro de 2024

Brindes




Fui a um feira de rua de velharias e pseudo-velharias em busca de um candeeiro destes.

Será para desmontar, pintar de preto mate as partes a usar e servir de suporte ou apoio a pequenos objectos a fotografar. Engenhocas!

Foi barato, como teria que ser, e veio com um brinde que tenho por precioso: uma lâmpada de filamento.

Apesar de estar fundida, será para guardar junto com outras que tenho, umas fundidas, outras não.

Com a velocidade a que a tecnologia evolui, com as questões energéticas e ecológicas, daqui por uns dez anos custarão fortunas, mesmo que fundidas. Que, e para além de terem saído de fabrico, quem as tem vai-se desfazendo delas, mesmo que funcionem. Serão raridades.

E será difícil mostrar aos vindoiros como nos alumiavamos nas noites de inverno. Ou de verão.

Quem as tiver que as guarde, que os netos ou bisnetos talvez achem graça.

Quanto à fotografia, os mais atentos notarão uma total falta de racord nos eixos de luz usados. Foi propositado. Mesmo com a luz, ou principalmente com a luz, podemos e devemos criar ambiências. De conforto ou desconforto, de acordo com os conteúdos e mensagens a fazer passar ao público.

Pentax K1 mkII, SMC Pentax 50mm 1:1,4


By me

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

O modelo e a modelação




Este é um dos meus modelos favoritos.

Possuidor de uma calma magnífica, não se cansa, mantém a posição tanto tempo quanto o necessário, não pede uma pausa para um café, tem sempre um sorriso nos lábios. O único senão é o fechar sempre os olhos quando o fotografo, mas já me vou habituando. De igual forma nada tem de criativo, mas para testes e ensaios isso não é um requisito.

Piadas de parte, há anos que venho dizendo que a luz é a minha matéria-prima e a perspectiva a minha ferramenta.

Agora, ao fim de tanto tempo, decidi ter um conjunto de luzes que me permitam “trabalhar” como quero, tanto para objectos como para pequenos espaços interiores.

Vantagem minha, ao longo dos tempos fui “colecionando” diversos modeladores de luz, bem como tripés.

Esta é a primeira imagem usando toda ou quase toda a parafernália, numa abordagem mais que clássica e cujo desenho de luz não é o meu favorito. Mas eu estava cheio de comichão nos dedos.

Falta-me um outro elemento vital: espaço confortável de trabalho, mas uma coisa de cada vez.

 

Pentax K1 mkII, Tamron SP Adaptall2 90mm 1:2,5, 4xNanlite FS150B


By me

sábado, 20 de janeiro de 2024

Chamem-me o que quiserem




Uma das questões que mais atrapalha e comanda os comportamentos é o estar-se ou não integrado numa dada sociedade ou grupo.

E, com isso, controlar os seus comportamentos pelos comportamentos medianos, por aquilo que a “sociedade” define como correcto e não criticável.

Nada de mais errado, absurdo, contraproducente e castrante!

Esta atitude não permite o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo, com todas as suas características e potencialidades!

Apenas o transforma em mais um número, ajustando-se à mediania, com receio de ser diferente, notado, apontado a dedo, marginalizado em última análise.

E o erro, a meu ver e ainda ninguém argumentou e me convenceu em contrário, está na definição de “pertencer à sociedade”!

O que de facto acontece, e que poucos são os que o reconhecem ou afirmam e menos ainda os que agem em conformidade, é que no lugar de se pertencer é-se a sociedade.

A sociedade é o conjunto de todos, com todas as vantagens do grupo e de cada um dos indivíduos. Não se integra a sociedade mas antes molda-se a sociedade à medida de cada um. E a soma de todos os “uns” forma o conjunto!

A contribuição que cada um faz nela, o empurrão que cada um dá no seu trajecto é que define o seu rumo, as suas regras, as suas leis e os comportamentos do todo.

Estas não são definidas por uma qualquer entidade obscura, mítica e autocrática, mas antes pela vivência e vontade de cada um dos seus componentes.

Andar nu, de fraque ou com nariz vermelho e grande é igualmente legítimo!

Ter este ou aquele comportamento apenas porque o grupo o define e não porque o queremos, é integrar um grande rebanho onde os pastores, filósofos, gestores ou políticos nos conduzem pela certa através de um pasto verdejante até ao matadouro ou altar onde nos sacrificam aos seus interesses privados ou entidades divinas.

Pela parte que me toca, tenho comportamentos que estão de acordo ou em desacordo com os que me cercam, não porque eles o querem ou o censuram mas antes porque eu o quero e eu sou a sociedade.

 

Sem todos os eus, a sociedade não existia! 

 

By me

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

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Primeira e última fotografia de um objecto inútil.

Agora cumpriu a sua função, absolutamente insuspeita quando o comprei há uns anos.

Não vai deixar saudades.

Pentax K50, Tamron 18-200


By me


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Inutilidades




Tenho em casa muitos objectos inúteis.

Não se tratam de elementos decorativos domésticos mas antes de coisas que fui adquirindo ao longo dos anos para fins fotográficos.

Ou porque os achei particularmente bonitos, ou porque os considerei um desafio, ou porque os entendi com simbólicos para um qualquer assunto a desenvolver... em regra são de pequeno valor e volume e vão ficando em caixas depois de cumprirem a função prevista.

Um há, no entanto, que ainda não cumpriu. Por outras palavras, ainda o não fotografei.

Comprado por capricho num dia mais ou menos banal mas que se veio a tornar especial, ainda não tinha encontrado nem forma nem motivo para ser a ilustração de qualquer coisa ou o motivo para sobre ele dissertar. Apesar de ser medianamente volumoso, tem vindo a acompanhar-me de casa em casa à espera da sua oportunidade.

Há coisa de um ano, em vendo-o num caixote de permeio com outros monos de que ainda não me desfiz, decidi que já só voltaria a ele num momento específico, bem íntimo com o momento em que o adquiri.

Ali tem estado fechado, espicaçando o fotógrafo que sou, sempre com a reserva de dia e simbolismo. E com o desafio sempre presente de não saber como o irei fotografar.

Se nada me surpreender, hoje será o dia. Em chegando a casa mais logo e já depois do sol pôr, irei buscá-lo onde está, olharei para ele e tentarei encontrar um solução visual. E, passados anos, uma inutilidade deixará de o ser. Após o que tomará o rumo de tantas inutilidades que se me atravessaram na vida.

Nota adicional: como se deduz do texto, este não é o objecto em causa.

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

domingo, 14 de janeiro de 2024

O cadinho da escrita




Leio um artigo de jornal onde encontro a expressão “... o perigoso caldinho onde fervem os principais motivos...”

Claro que pode ser uma gralha, que os correctores automáticos de texto são implacáveis.

Também pode ser o resultado de cansaço, que a notícia foi publicada já passava da meia-noite.

De igual forma, a crise que se vive em alguns jornais pode, de algum modo, desmotivar quem lá trabalha e não se aplicar no seu ofício em pleno.

Mas estou em crer que nada disto terá acontecido.

A expressão acima terá sido usada e escrita por já ter sido ouvida diversas vezes e querer que ela dê um toque de diferença na leitura e nas emoções que dela resultam. Mas quem a usou talvez nunca a tenha visto impressa, ou tenha estado numa forja ou num alto forno, ou mesmo nunca tenha visto documentários televisivos sobre o assunto.

É que a diferença entre “perigoso caldinho” e “perigoso cadinho” é maior que um comboio. Aliás, não creio que se façam comboios sem cadinhos.

Eu não sou exemplo no bem escrever. Não é essa a minha profissão, mas tão só a devoção. Mas espera-se que um jornalista o seja.

E para bem escrever há que muito ler, ter um léxico disponível bem alargado e conhecer e bem usar a sua grafia.

Claro que um bom dicionário, velhinho que seja, ajuda muito.

 

Pentax K50, Tamron 18-200

By me