terça-feira, 3 de setembro de 2013

Talvez



Talvez por ser no fim de uma terça-feira muito quente. Talvez porque já é Setembro. Talvez por sermos tugas. Talvez…

Os suburbanos enchem no fim do dia. No início também, mas como se saiu da cama há pouco, não parecem tão cheios.
Por sorte minha, tanto num caso como no outro embarco no comboio antes de atingir o ponto de já não haver lugares sentados. Costumo fazer o trajecto sentadinho, umas vezes a ler, outras a escrever, outras ainda apenas a pensar.
Hoje regressava no terceiro modo quando, numa das estações em que lugares só de pé, vejo entrar uma senhora jovem, com uma criança de uns três anos ao colo. Vinha a petiza cheia de sono (e de calor, suponho) de chucha na boca.
A mãe, pensemos que o era, bem que olhava para cima, para um lado e para o outro, mas nada. Os lugares reservados, bem identificados com o que se vê na imagem, ficavam lá longe, havendo que percorrer o corredor já apinhado antes de lá chegar.
Chateei-me, chamei-a e dei-lhe o meu lugar, junto à janela. Não foi manobra fácil, que as dondocas na coxia não estavam lá muito com vontade de me deixar sair e deixá-la sentar. Mas não tiveram outro remédio.
Na passagem, agradeceu-me ela e, quando me encostei no patamar entre portas, agradeceu-me um homem. Que percebi depois ser o companheiro dela, talvez que o pai, e que carregava os sacos dos três.
Disse-lhe eu, encolhendo os ombros e em resposta, que não é necessário haver dísticos. Basta ter olhos.
“Nem todos os têm”, disse-me. “Nem todos.”
E ficámos assim, cada um segurando-se como e onde podia, mesmo que os comboios desta linha não sejam dos piores.
Três estações depois, sinto puxarem-me pelo colete. Detrás. Achei estranho, claro, e rodei a tentar saber o que se passava.
No banco, em cujas costas me encostava, estava um velhote, cabelo e bigode brancos, barba de três dias e roupa em fim de vida. E disse-me, levantando-se:
“Saio na próxima. Sente-se você!” E cruzou-se comigo em direcção à porta, enquanto a composição abrandava a marcha.
Claro que me sentei, mesmo que sob o olhar nada sorridentes dos outros e outras que estavam de pé.


Fim de estória, mas não do meu sorriso.  

By me

A máscara



O tempo apaga as memórias. As dos neurónios e as da matéria.
Felizmente, há quem vá fazendo alguns arquivos do que lhe vai passando pela frente.
Com um especial agradecimento a um ex-companheiro de equipa, de trabalho e de outras lides, que a guardou e agora ma lembrou, aqui fica uma diatribe minha, datada de 1980, publicada então num não periódico semi-clandestino, de seu nome “Clise”.

UMA PEÇA EM TELEVISÃO À PORTUGUESA

Personagens:
- Uma equipa técnica
- Uma equipa de realização
- Uma companhia de teatro
- Figurantes vários

Cenário:
- Um estúdio de televisão

I acto

Realizador – Veja se já podemos tirar testes para ensaiarmos.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Já podemos tirar testes? Não? Só mais dez minutos? Tá bem! Nós esperamos.

(20 minutos mais tarde)

Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Já podemos tirar os testes? Já? Óptimo (Desliga o telefone) A VT está pronta.
Realizador – Meus senhores, vamos ensaiar. Mete a 1! 2! 3! Mixing à 2! 1! Pára! Câmara 2: nesta altura o plano tem que ficar mais aberto para acompanhares o actor. Certo? Bom! Recomecemos. Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 2! Não! Esperem! Aqui não pode ser a 2. Câmara 3: Neste plano vais um pouco mais à esquerda e enquadras os actores. Isso! Recomecemos. Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! … 3! 2! Fade out! Está pronto! Vamos gravar! Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Arranca!... Já está! Atenção à claquete! Take 1, 1ª vez! Atenção às ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3!... 2! 1! 2! Então! A campainha não toca? O que se passa?
(Voz do assistente vinda do estúdio) – Deve estar avariada...
Era um fio solto! Já está pronta.
Realizador – Bom! Manda arrancar a VT! Ela que apague!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! … Já está? Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3!

(Triim! Triim! Triim!)

Anotadora – Sim? Como? Os níveis de áudio estão a chegar muito baixos? Só um momento? (Para o operador de som) A VT queixa-se que os níveis chegam muito baixos! Propõem que mudes de via para lá.
Operador de som – Bom! Vou ver o que posso fazer.

(10 minutos mais tarde)

Operador de som – Pergunte à VT se os mil ciclos já estão a chegar em boas condições, por favor.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Perguntam se os mil ciclos já estão a chegar em condições... Estão? Bom, então arranca. Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1!
Actor A – BLÁ! BLÁ! BLÁ! BLÁ!
Actor B – BLÁ BLÁ BLÉ... Pára! Pára! Enganei-me no texto. Podemos recomeçar?
Realizador – Sim! Sim! Manda apagar e arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! … Já está? Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3! 1! 2!... Então? … O que é lá isso? Manda parar a VT! Câmara 3: cuidado com esse avanço que entraste no campo da 2! Atenção a isso, heim! Apaga e arranca a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) Apaga e arranca!... Já está? Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 1! 2! 3! Mas … Que é isto? Quem foi o idiota que abriu a porta do fundo? Não sabem que não podem abrir aquela porta? Façam favor de fechar a porta atrás do ciclorama. (Para a Anotadora) – Manda apagar e recomeçar.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está? … Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3! … 3! 2! Fade out! Manda parar, que vamos ver!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára e passa para vermos!

(Decorre o visionamento)

Realizador — Meus senhores: vamos gravar outra vez! Manda arrancar a VT!
Anotadora— (Triim! Triim!) VT? Arranca! Já está?... Atenção claquete: take 1, 2ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador — Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Pára! Pára! Áudio: Entrou a girafa! Não se pode evitar isto? Caramba! Já estamos mais que atrasados!
Operador de som — Bom, eles estão a falar realmente baixo, mas vamos ver o que podemos fazer.
Realizador — Manda apagar e arrancar!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está? … Atenção claquete: Take 1, 2ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! …

(Triim! Triim!)

Anotadora –Sim! Como? A máquina avariou? Tá bem! Nós esperamos. (Para o Realizador) – A VT entupiu, temos que esperar!
Realizador – Meus senhores: A Videotape avariou! Vamos aproveitar esta pausa para um intervalo de meia hora. Recomeçamos às 4 e meia em ponto.

(Às 16.45)

Realizador – Veja se a VT já está pronta.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Podemos começar? Podemos? Óptimo! Só um momento! Podemos arrancar!
Realizador – Então que arranque!
Anotadora – Apaga e arranca. Já está? Atenção claquete: take 1…
Voz do assistente — Só um momento que um dos câmaras foi levantar senhas e ainda não voltou! Parece que há uma grande fila.
Anotadora – VT? Temos que esperar mais um pouco.

(Quinze minutos mais tarde)

Voz do Assistente – O estúdio está pronto.
Realizador (Para o microfone de ordens) – Então isto é que são horas de se voltar de um intervalo? Sabe que temos estado à sua espera?
Voz do Operador – Pois sim, desculpe, mas sabe que hoje é o último dia para se levantar as senhas e estava lá uma fila enorme. Sabe como estas coisas são....
Realizador – Pois sim. Manda arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Podes arrancar! Já está? … Atenção claquete: take 1! 2ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3! 1! 2! Abre um pouco! Abre 2! 1! Câmara 2, abre o plano! 3! Câmara 2, está a ouvir? Abre! 3! Não! PÁRA!... O que é que se passa? Como? Tem os auscultadores avariados? Chefe de equipa! Providencie para que a câmara 2 tenha uns auscultadores a funcionar! Que raio de casa esta, heim! Manda parar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára!

(Quinze minutos mais tarde)

Realizador – Já tem os auscultadores? Óptimo! Meus senhores: vamos recomeçar. Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está? Atenção claquete: take 1, 2ª vez. Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! ...3! 2! Fade out ! Manda parar a VT! Vamos ver.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára! Vamos ver. Sim?

(Decorre o visionamento)

Realizador – Vamos ensaiar o take 2! (desce ao estúdio)

(20 minutos mais tarde)

Realizador – Meus senhores: Vamos gravar!
Iluminador – Ainda não! Como é um novo cenário, ainda não tenho a luz pronta. É só mais um pouco.
Realizador – Então vamos depressa, que já estamos atrasados.

(Quinze minutos mais tarde)

Iluminador – Estamos prontos!
Realizador – Até que enfim! Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Arranca! Já está?... Atenção claquete: take 2, 1ª vez Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Fade in à 2! 1! 3! Mixing à 1! Mixing à 2! 3! 2! 1!
Som – Está alguém a martelar no estúdio. Temos que parar!
Realizador – Assistente, vê que barulho é esse. Estamos a gravar, bolas!

(Cinco minutos depois)

Assistente – Era lá fora. Prometeram não martelar mais.
Realizador – Bom. Manda arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca!
Som – Esperem um momento que está a passar um avião.
Anotadora – Está VT? Não arranques!
Realizador – Pronto, já passou. A VT que arranque.
Anotadora – VT? Arranca! Atenção claquete! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Fade in à 2! 1! 3! Mixing à 1!

(Neste instante entra um senhor, extraordinariamente bem vestido, com um sorriso primoroso, acompanhado de uma trupe de crianças, em visita de estudo aos estúdios)

Realizador – 2! 1! Mas... Mas... Que é isto? PÁRA! PÁRA! Manda parar a VT! Então isto é que são horas de se visitar um estúdio?
Senhor bem vestido – Como lá em baixo me disseram que estavam em ensaio, eu pensei...
Realizador – Claro! Que não incomoda, não é assim? Pois agora que já incomodou, vejam à vontade! Nós esperamos!

(Dez minutos mais tarde)

Realizador – Bom! Já não era sem tempo que se fossem! Arranca a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está?... Atenção ventoinhas! Atenção claquete: take 2, 1ª vez!
Chefe de equipa – Desculpa, mas olha que estamos no fim do horário. Há pessoal que tem que se ir embora.
Realizador – Mas… Não me façam uma coisa dessas! São só mais cinco minutos! Olha que este take é pequeno!
Chefe de equipa – Eu não tenho problemas. O pior é que há uma pessoa lá em baixo, que tem que se ir embora. Só se o fores convencer.
Realizador – Realmente, falta tão pouco... Eu vou lá abaixo! Manda parar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára!

(15 minutos de discussão mais tarde)

Realizador – Bom! Ele acedeu. Vamos ver se nos despachamos. Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca…
Controlo – Atenção à cara do actor! Está a transpirar. Tem a cara a brilhar muito!
Realizador – Manda parar a VT! CHAMEM A CARACTERIZAÇAO! JÁ DEVIAM TER VISTO ISTO! É SEMPRE À ÚLTIMA HORA QUE ESTAS COISAS ACONTECEM!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára!

Voz do Assistente, dez minutos mais tarde — Já estamos prontos.
Realizador – Manda arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está?... Atenção claquete: take 2, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Fade in à 2! 1! 3! Mixing à 1! Mixing à 2! 1! 3! 1!
Controlo – Atenção: A câmara 2 avariou! Está muito calor no estúdio!
Realizador – Está bem! 1, chega-te à esquerda! Mete a 3! 1! 3! Abre! 3! 1! 3! Fade out! Vamos ver.
Anotadora – (Triim! Triim) VT? Pára! Vamos ver.

(Decorre o visionamento)

Realizador – Meus senhores: acabaram os trabalhos! Muito obrigado pela colaboração!

(Neste momento, entram na régie cinco pessoas, todas de bata branca e de esplêndido físico. Uma delas, que tem um estetoscópio ao pescoço, diz) – Meus amigos: Acabou o tratamento! Vamos todos voltar à enfermaria para dormirmos um rico soninho! Vamos?

Fim do I acto

II acto (Leia-se o I acto)



By me

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Então e agora



O texto e a fotografia têm dois anos de escritos e publicados. Mas como veio a talhe de foice sempre aqui fica, e com o mesmo título.

Este é o segundo compasso de desenho que tenho na vida. O primeiro obtive-o algures pouco depois de ter saído da escola primária.
Vinha ele numa caixa de madeira, pintada de preto por fora e forrada a feltro negro por dentro, com os encaixes para as diversas peças bem entalhados e à medida. Recordo-me, também, que o fecho da caixa se fazia através de um veio longitudinal, cuja carrapeta se puxava pela direita da caixa e que bloqueava um pequeno aro metálico.
Esse compasso acompanhou-me durante toda a minha vida liceal, incluindo a disciplina de geometria descritiva, em que obtive a estrondosa nota de 19 valores no exame final. Nunca repeti a proeza!
Quando mo entregaram, talvez que com a mesma solenidade com que me deram o meu primeiro relógio de pulso, no exame da 4ª classe, disseram-me que era uma peça cara, de muito rigor e que teria que o estimar bem. O que fiz, apesar de muito eu gostar de desmontar coisas e de lhes dar outros usos que nunca o fabricante haveria imaginado. E usei-o nas aulas assim como quando construía carros, camiões e carros blindados em cartolina para as batalhas de mesa, entretém que me acompanhou por bons anos.
Em acabado o liceu, levou outros rumos que já não recordo e perdi-lhe o rasto. Mas não o esqueço, nem ao nome da marca, gravada no aço da bifurcação do compasso: Kern.

Este, comprei-o hoje, pela graça que lhe achei, num supermercado. O preço? Quase quatro euros. Uma ridícula ninharia, comparado com o que deve ter custado o que tive, se fizermos o ajuste cambial, nível salarial de minha família e de custo de vida. 
E duvido, muito sinceramente, que este durasse o mesmo nas mãos de um estudante nos dias de hoje. Pelo seu muito baixo custo e com a semelhança que a própria embalagem tem com a de um brinquedo. No meio de tudo o que hoje se transporta na sacola estudantil, e emparelhado com tecnologia electrónica de consumo, rapidamente a caixa se estragaria, as peças se perderiam e deixaria de ter utilidade. Para já não falar que a sua acessibilidade nos expositores das grandes superfícies lhe retiram por completo a solenidade e respeito por uma ferramenta de precisão.
Como nota final, sempre poderei dizer que só muito mais tarde me passou pelas mãos um apara-minas destes. Aquilo que sempre usei foi uma lixa para minas, por mim construída numa aula de trabalhos manuais, com madeira e lixa, que deixava o bico em bisel e não cónico. De grande rigor no traço e que obrigava a uma boa dose de disciplina, para que a grafite assim raspada se não espalhasse onde não devia. 


Com o nível de rigor que hoje se pede aos estudantes, com compassos “made in china” e mais baratos que um maço de cigarros… O futuro nos dirá que colheita teremos do que agora vamos semeando. 

By me

É por estas e por outras que eu vou ali vomitar e já volto!

Sempre o conheci como ligado ao Alentejo. Mesmo que residente em Lisboa, as suas raízes sempre as disse como alentejanas (Serpa, salvo erro) e sei que concorreu, não sei se com sucesso, a uma autarquia nessa zona do país.
Para minha surpresa, vejo-lhe a fotografia num cartaz de campanha política como candidato à minha autarquia, que é bem “aquém Tejo” e nada tem de planura.
Mesmo que fosse co-munícipe comigo desde sempre, não votaria nele. Conheço-lhe as ideias e até já trabalhei com ele o tempo suficiente para não o ter como pessoa que me possa representar.
Mas vê-lo saltapocinhas do Alentejo p’ra Lisboa, desta p’ra Sintra, assim como quem não quer a coisa, só para dar a cara e o nome a demais candidatos…
Fosse a lei eleitoral como a entendo:
“Para se candidatar a um círculo eleitoral, há que estar inscrito nele como eleitor desde, pelo menos, a eleição anterior.”

… e nada disto acontecia. Aqui e p’lo resto do país.

By me

A dúvida



Fica-me sempre aquela dúvida sobre roupa e afins:

Será que as etiquetas que são colocadas em camisas, roupa interior e outros são mesmo lidas ou são só usadas, como eu mesmo faço, para saber qual é o lado de dentro ao vestir?

By me

A mão



Um dia, de conversa com algumas colegas, falava-se de género e de olhares. Para onde os homens olham quando vêem uma mulher, qual o aspecto feminino que os atrai, e para onde olham as mulheres quando olham para um homem, que parte do corpo lhes atrai a atenção.
Confesso que fiquei particularmente surpreendido quando uma delas afirmou que as mulheres olham para as mãos dos homens. Afirmação secundada por duas outras colegas.
Não fiz (ainda) uma pesquisa aprofundada sobre o facto. Suponho que haverá um fundo de verdade e uma justificação para tal.
Mas, sendo certo que há por aí quem queira acabar com o piropo, transformando-o em crime de assédio sexual (sim, também eu falo da coisa, que está na moda) pergunto se poderei considerar como assédio o facto de uma mulher, conhecida ou não, me olhar para as mãos?
É que, se assim for, tenho que mudar de indumentária. Passarei a usar luvas, daquelas de inverno, grossas, só com duas cavidades, uma para o polegar, outra para os restantes dedos. Porque eu, que sou tímido e recatado, não quero andar por aí na rua ou no trabalho, a provocar pensamentos lascivos ou ridículos. Nem quero andar a ser insultado em pensamento por quem conheço e não conheço.

Piadas aparte (ainda que a opinião que foi formulada não seja piada) acho que essa questão de criminalizar o piropo é um disparate. Mais, uma acto de lesa cultura portuguesa. E explico:
Em tempos, aquando do meu projecto “Old Fashion” no Jardim da Estrela, conheci uma jovem da República Checa. Usava ela o jardim como local para a prática de ginástica matutina ou vespertina, nos tempos deixados livres pela pesquisa que estava a fazer para a sua tese de mestrado. Que, imagine-se, versava exactamente o piropo em língua portuguesa.
Conversámos algumas vezes sobre o seu trabalho e acabei assistindo-a com alguma literatura sobre a matéria que possuo.
No meio de tudo isto o que tem graça é que ela não considerava o piropo como um insulto ou assédio. Entendia-o como uma cantata, mesmo as especialidades dos “trolhas de andaime”, interessantes e agradáveis para as destinatárias, porque se trata de elogios às formas e posturas femininas. Um alimentar o ego.
Acrescentava ela que apenas lamentava que a mentalidade lusa o entendesse como insulto ou assédio, demonstrando assim como ainda estamos atavicamente presos a conceitos de segregação de género, em que o feminino é considerado o fraco, o frágil, não podendo ser prejudicado. E, por outro lado, o ficar reservado ao homem o papel de iniciar a corte ou de demonstrar interesse.
Culturas são culturas e estou certo que entre a portuguesa e a checa não haverá muito de comum neste campo.
Mas, por vezes, necessitamos de olhares externos para vermos como somos conservadores ou castrantes nos nossos comportamentos e opiniões. Ou discussões absurdas de quem parece mais interessado num retorno às burkas que à efectiva igualdade de género, como todas as outras igualdades.

Já agora, e a título de informação completar, aviso que quem for de turismo à ilha da Sardanha se deve abster por completo de usar o nosso quase inofensivo gesto de manguito. Por lá, este gesto é interpretado como o cúmulo do insulto, dando direito a prisão imediata.


Pelo sim, pelo não, vou tratar de procurar as tais luvas.  

By me

domingo, 1 de setembro de 2013

Da prática da ética



Ao longo dos anos tenho estado envolvido em diversas actividades de formação e educação. Entenda-se que o uso dos dois termos não é casual, já que não são sinónimos, ainda que o possam parecer.
Em todas elas os conteúdos estavam mais ou menos definidos à priori, nuns casos com mais rigor, noutros nem tanto. Nuns casos cumprindo programas definidos por outras entidades, noutros de minha exclusiva responsabilidade.
Do ponto de vista formal, esses conteúdos dividiam-se em duas características ou grandes áreas: a técnica e a estética. Dificilmente alguém poderá argumentar que ambas não são vitais no audiovisual, seja qual for o suporte e grau de aprofundamento.
Mas sempre fiz questão de, adaptadas aos grupo etários e culturais, de inserir duas outras áreas igualmente vitais: a semiótica e a ética. Mesmo que não constassem nos programas previstos por terceiros.
Destas quatro áreas, a mais fácil de ensinar (e de aprender) é a técnica. Para cada acção há uma reacção, o equipamento tem regras, leis, normas e limites próprios e o seu uso é de constatação imediato: ou resulta ou não resulta, ponto final. Claro que há sempre possibilidade de ir mais fundo e longe, mas mesmo isso tem limites.
O aspecto seguinte em termos de facilidade de ensino e aprendizagem é a estética. Mesmo que seja objecto de muita subjectividade, que dependa de gostos e hábitos, numa sociedade cada vez mais dependente da imagem já nos fazemos gente e aprendemos a ver e ouvir ainda antes de aprendermos a falar ou andar. Isto já nos dá, queiramo-lo ou não, uma cultura audiovisual de base, no tocante a estética que, queiramo-lo ou não, facilita a sua aprendizagem. E, mesmo que assim não fosse, a sociedade ocidental encarregou-se de a sistematizar, normalizar, enquadrar, a ponto de, para ela, ter criado regras. E, mesmo que um aluno ou formando não seja brilhante em termos estéticos, se as seguir não fará má figura.
Em seguida vem a semiótica. Mais complicada de sistematizar, depende em boa parte da idade e grau cultural do estudante a capacidade de a entender. Nos jovens torna-se mais complica a sua aplicação, já que a contestação que lhes é inerente não facilita o uso de códigos generalizados de uma geração anterior. Mas, e como em tantos outros aspectos, depende da forma como lhes é apresentada e de como lhes é demonstrada a importância do seu domínio. Vital, do meu ponto de vista.
Resta a mais difícil: a ética. Para além de variar entre culturas, sub-culturas ou mesmo “tribos” como hoje se usa dizer, a sua aceitação varia, e muito, com a personalidade e formação individual. Não importa o grupo etário: é sempre difícil fazer passar a mensagem por forma a ser intuída, no lugar de imposta. Que, e como bem sabemos, tudo quanto é imposto é alvo, assim que possível, de ser praticado o seu contrário. Não importa qual o campo de actividade. E com toda a subjectividade que está subjacente ao audiovisual, ainda mais.
Indo mais longe, entenda-se o seguinte: a principal ferramenta de um professor ou formador é a sua credibilidade. Se o que ele diz e afirma for aceite, será aprendido. Se ele não for credível, os níveis de sucessos dos alunos ou formandos serão, garantidamente, muito mais baixos.
E se isto é indubitavelmente válido nos campos da técnica, da estética e da semiótica, é uma verdade absoluta e inquestionável no campo da ética. Afirmar ou defender algo ou um comportamento e praticar o seu oposto é perder tempo do ponto de vista de pedagogia. Válido em todos os campos e idades.

Uma das principais dificuldades, do ponto de vista ético, de quem está ligado ao audiovisual, é o tratar por igual todos os que surgem em frente da objectiva. Não importa o quão não simpatizamos, ou mesmo odiamos, essa ou essas pessoas. Enquanto profissionais da imagem, são todos iguais e há um nível mínimo que não deve ser diminuído. Claro que podemos ter atitudes discriminatórias pela positiva. Mas pela negativa não! É bem mais honesto não aceitar o encargo que, propositadamente, fazermos menos bem só porque não podemos com aquela pessoa ou grupo.
E isto sei-o em profundidade e sem dúvidas pelos anos que levo de ofício e pela variedade de gente que me passou pela objectiva. E garanto que, de todas as vezes que me apeteceu mandar às urtigas as éticas e as civilidades e reagir de acordo com emoções primárias, me consegui conter, mantendo-me nos níveis mínimos aceitáveis: neutro.
Tal como garanto que daquela vez em que agredi um primeiro-ministro de Portugal, estando em serviço, foi um mero acidente, sem nada de premeditado ou segundas intenções.

Mas também garanto que muitas foram as vezes que meti as mãos nos bolsos e virei costas para não perder as estribeiras. Exactamente como hoje, caramba!

By me

É a luz



Mesmo num vão de escada esconso e asséptico, onde os cacifos se alinham, iguais e geométricos, atribuindo-nos mais um número para além de todos os demais, ficando lá dentro as idiossincrasias individuais, é a luz, caramba, é sempre a luz que faz a diferença!

E é ela, confesso, que me salva o dia.

By me

Ganhei o dia



Em saindo de casa, a caminho do trabalho, tenho que cruzar algumas passagens de peões, zebradas e devidamente sinalizadas.
Em regra, e se não tenho pressa, deixo passar o ou os carros que se estão quase a chegar a elas: aqueles dois ou três segundos que eu possa esperar são, certamente, menos incómodos para mim que para o automobilista, que terá que abrandar, quiçá parar, e retomar a marcha. E tudo se processa em conforto e segurança para todos.
Hoje não foi excepção: logo na primeira que encontrei, um carro com uma senhora ao volante. Lá lhe fiz o sinal, largo e explícito, para que passasse. Sorriu e agradeceu com um gesto. Que nem todos fazem, mas que eu imagino que o esbocem mentalmente.
Já cá em baixo, pertinho da estação, a situação repetiu-se: um carro que se aproximava da passadeira, eu a dar um passo atrás a abrir bem o braço: “Passe lá!”.
Desta feita, vi dois sorrisos rasgados. Que quem vinha ao volante era a mesma senhora que havia visto uns mil metros antes e, à pendura, uma outra que sorriu de igual forma.
Juro, p’las alminhas, que me fizeram ganhar dia!


By me

O barrete



Não que seja muito importante, que o não é. Mas este texto servirá, talvez, para esfregar na cara de uns e umas que eu cá conheço.
Tem andado fazer-me comichão no bichinho do ouvido o chamarem de “cardeal patriarca “ a D. Manuel Clemente. Não que eu saiba muito destas coisas da igreja católica apostólica romana, mas o seu a seu dono.
Acontece que o título de “bispo”, tal como o de “cardeal”, são cargos hierárquicos na igreja, tal como os de tenente, capitão, major, no exército.
Por seu lado, o título de “patriarca”, ainda que vitalício, refere-se ao cargo ocupado num patriarcado, que é uma divisão territorial da igreja, tal como diocese ou paróquia.
Por inerência de cargo, e por decisão lá do Vaticano, quem ocupe o cargo de “patriarca”, deverá ser promovido ao posto de “cardeal”, passando a assumir o título de “cardeal patriarca”, expressão que todos conhecemos.
Acontece que D. Manuel Clemente (e o termo Dom já de si é um título) é bispo. Foi-o como bispo auxiliar em Lisboa, foi-o como bispo do Porto. Ainda não foi promovido a cardeal.
Sê-lo-á, e de acordo com uma notícia agora lida, no início do próximo ano, em Roma.
Para quem tiver dúvidas a este respeito, vejam-se as imagens do prelado em questão e em como ele não usa, ainda, o barrete cardinalício - chapéu púrpura, de quatro pontas e sem borla no centro. Ser-lhe-á imposto (ou entregue) na cerimónia em Roma, no início do próximo ano.
Resta acrescentar, a título de informação complementar, que os patriarcados romanos no mundo não chegam a uma dúzia, que estão divididos entre os do Ocidente e os do Oriente (que não os da igreja ortodoxa) e que, ao que julgo saber, a existência de cada um se deveu a lutas pelo poder no seio da igreja católica, tanto de per si como na sua relação com o poder político ou régio.

Fica esta resenha, pouco - muito pouco – aprofundada.
E fica o recado, para uns e umas que têm a mania que, por terem o ofício que têm, tudo sabem: da próxima vez que forem confrontados com alguém que conteste o que afirmam aos quatro ventos, no mínimo confirmem aquilo que julgam saber.
Que não podemos estar sempre errados. Mas estar sempre certos também é difícil!

Fica a imagem dos barretes. Os cardinalícios, não os que alguns enfiam.

By me
Imagem algures da net