quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Manuais




A história é velha de mais de quarenta anos.

Comprei este fotómetro a um amigo, colega e mestre, já usado e em excelentes condições de funcionamento.

Usava-o ele, essencialmente, para fazer medições de luz incidente e tinha-lhe sido fornecido uma ainda melhor. Vantagem minha.

Acontece que, já em casa, constato disparidades entre a sua leitura de luz reflectida e os resultados apresentados pela minha câmara. Estranhei e tratei de comparar as medições com outros aparelhos. Sempre a mesma diferença: um stop mais fechado em leitura reflectida. Em leitura incidente estava correctíssimo.

Não havia net como hoje nem os respectivos fóruns. E o manual de instruções, sempre vital, não me fornecia nenhuma indicação, numa primeira abordagem.

Mas a leitura atenta e interpretativa deu-me a resposta: tratando-se de um “fotómetro de estúdio” estava preparado para fazer medições directamente a partir do tom de pele e não de um cinzento com 18% de reflectância como eu queria e todos os outros aparelhos faziam. É interessante este método, supostamente dá resultados mais rápidos, mas é muito ambíguo, já que os tons de pele variam enormemente de individuo para individuo. Aliás, de zona do corpo para zona do corpo.

Resolvi a questão recorrendo ao espírito inventivo e de “desenrasca” que tão bem nos caracteriza:

Na grelha usada para medição reflectida, que aqui se vê entre os meus dedos, tapei alguns dos orifícios com fita preta. Tentativa e erro até os resultados serem os que queria. Bingo!

Até hoje matem-se fiel e constante nas suas medições, nunca me deixando ficar mal naquilo em que o usei.

O que acaba por ter piada é que há uns dez anos comprei um outro fotómetro. No caso específico, um exposímetro, já que não indica quantidades de luz mas tão só a exposição a fazer com ela. Luz continua e flash, luz incidente e reflectida pontual. Tudo em um.

A verdade é que, em modo spot constatei a mesma variação de um stop quando comparado com outros aparelhos que possuo. A marca é a mesma, “Seconic”, e a minha memória acordou. O manual de instruções está na net e forneceu-me a confirmação do que suspeitava: feito para medir a luz na pele do modelo.

Sendo um aparelho digital (L-558), a sua re-calibração foi bem mais fácil e rigorosa, permitindo-me manter os métodos e resultados consistentes do que vou fazendo.

 

Saber interpretar aquilo que usamos ou fazemos e ajustá-lo à prática é vital em tudo o que fazemos: fotografia ou vida.

A grande vantagem da fotografia é que vem com manual de instruções.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall 2 90 1:2,5


By me

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O cabo




Há quem pense que trabalhar no meio audiovisual é o mesmo que plantar batatas:

Basta poder pegar na enxada e dar uma cavadela para colocar a batata.

Agora vão lá perguntar àqueles que o fazem se mesmo isso não tem ciência!

Até o ponto do cabo da enxada onde colocamos as mãos importa, quanto mais!

 

Nikon Coolpix P7000


By  me

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Marca de luz




Fotografar implica a existência de algum tipo de luz. Mesmo que diminuto.

Pode ser natural ou artificial, constante ou instantânea.

Durante muitos anos recorri à luz artificial quando a natural não era suficiente ou do meu agrado. Em regra luz de flash.

Como o orçamento e o espaço nunca foram muitos, fui optando por flash portateis, vulgo speedlight. Comprados em função das necessidades do momento e das disponibilidades do mercado.

Claro que, sempre que possível, fui optando pela marca Pentax, acabando por juntar estes cinco.

Guardados em separado dos de outras marcas, já pouco uso dou a este tipo de luz pois acabei por optar pela luz LED, o certo para o que vou fazendo em interior.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4


By me

Nostalgias




Faz-me falta voltar a poder fazer fotografias destas

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Antônio Conselheiro




Toda a História tem pormenores originais, uns divertidos, outros não tanto.

A fotografia aqui exibida é de Antônio Conselheiro, um activista político-religioso que liderou um movimento ao estilo dos “sem-terra” no Brasil, no final dos anos oitenta do séc. XIX.

Ficou o movimento, e a guerra, conhecida por “A guerra dos Canudos”. E que terminou com aquilo a que se pode chamar de “massacre” dos “revoltosos” por parte do exército Brasileiro.

Nada tem de especial isto. Aconteceu um pouco por toda a parte ao longo dos tempos.

O que é realmente original é ter sido o líder desenterrado, que morreu na véspera do combate final, duas semanas depois para ser fotografado. Essa fotografia foi feita pelo fotógrafo brasileiro Flávio de Barros, ao serviço do exército.

O objectivo de tal macabro registo foi o divulgar a imagem pela imprensa nacional com o fito de demonstrar que o político e santo (ou vice-versa) mas rebelde, estava morto e, com ele, o movimento.

 

Há quem seja ”morto” nas fotografias (apagado delas) para que não haja provas públicas da sua envolvencia nas situações retratadas.

Esta intervenção fotográfica é, para mim, única na história.

Descoberta num pequenino livro sobre a história da fotografia no Império brasileiro, levantou-me suficientes desconfianças na sua veracidade a ponto de ter procurado outras fontes que o confirmassem.

 

Estranho mundo o nosso, o dos fotógrafos!


By me

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Fruta da época




Esta é uma garbosa chave de fendas que reside numa mala de ferramentas.

Fui dar com ela assim, como a vedes, por via da água e do frio que temos vivenciado.

Mas, pensando bem, quem não?

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Tristezas




Saber um ex-aluno a militar na extrema-direita é algo que me entristece.

É legítimo, mas entristece-me.

Se por outros motivos não fosse, porque não terá entendido que fotografia é partilha, é fraternidade, é dádiva sem olhar a quem ou porquê, mesmo que comercial. É procurar o que há de belo no universo, mesmo que horrendo.

É não ter interiorizado que cada bocadinho do mundo que recortamos com o nosso enquadramento e guardamos nos nossos arquivos faz parte de um todo que não dominamos mas que queremos melhor. Por isso o evidenciamos.

Saber que um ex-aluno não o entendeu ou que age em oposição disto significa que, de algum modo, falhei com ele. Por muito que possa saber e praticar de estética ou de técnica.

E isso entristece-me!

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

Prazeres




Coisas que me dão prazer fotográfico.

Entrar num local (real ou virtual) e reconhecer consistência nos trabalhos fotográficos exibidos. Perceber que quem ali está a expor-se tem uma linha de forma ou de conteúdo definidas, quer o próprio o reconheça ou não.

E ainda me dá mais prazer o entrar num local (real ou virtual) onde estão trabalhos de vários fotógrafos e reconhecer um autor de fotografias mesmo antes de ver o seu nome.

Posso não gostar do que vejo ou gostar muito, pouco importa. Mas uma coisa é certa: aquele autor fotográfico é bom.

 

Pentax K7, Sigma 70-300

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Onde e como?




É sabido que há gente especializada em gerir situações como estas. Bombeiros e militares têm gente e meios para tal.

Mas vou pensando nas centenas de pessoas que foram para o terreno para prestar socorro e reconstruir o urgente. Trabalhadores de empresas de várias valências, cidadãos voluntários, soltos ou organizados.

Mas uma pergunta me assalta: onde dorme ou repousa e o que comem e como é confecionado toda esta gente? Foram montadas tendas de campanha com camas equivalentes? Foram instaladas cozinhas de emergência? As unidades hoteleiras e de restauração abriram as portas a estas centenas de pessoas?

É que para além de dar apoio às vítimas, haverá que apoiar para que bem façam o que estão a fazer, nalguns casos tarefas penosas, exigentes e arriscadas.

 

Pentax K7, SMC Pentax 50 1:1,2


By me

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Depois da tempestade...




Diz o povo que depois da tempestade vem a bonança.

Mas isto anda de tal forma que depois de uma tempestade veio logo outra e atrás desta vem uma terceira, sempre sem a bonança de permeio.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


By me

Not!




Just for the fun (or not)


Pentax K1 mkII, Tamron SP 90 1:2,5

By me

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Modernices




“Pouco importa o que já fizeste se não te importares com o que ainda podes que fazer.”

 

Eu tenho uma pequena colecção de aparelhos de medida de luz.

Não gosto de lhes chamar de “fotómetros”, já que nem todos me apresentam resultados em “footcandle”. Alguns mostram-me “lux”, outros em Kelvin, outros ainda nem uma coisa nem outra, mas tão só os valores de exposição. Aliás, tenho mesmo um que não possui ponteiros nem célula e que é inerte, dependendo de uma mica graduada e da acuidade visual do utilizador.

Recentes ou bem antigos, incidente, reflectida, de largo ou estreito ângulo, continua ou instantânea, balanço e correcção de cor… tenho de quase tudo. Faltar-me-á um espectómetro, mas não tenho nem necessidade imediata nem meios para o comprar. Claro que nem aqui considero os sistemas de medição integrados nas câmaras.

Aquilo que ainda não tinha usado era a câmara de um telemóvel para aquilatar quantidade de luz. Surgiu agora a necessidade.

Uma conhecida recebeu e recuperou uma vetusta e ilustre câmara. Tudo agora funcional, excepto o “fotómetro” que, como seria de esperar, “morreu” de velho.

Lá lhe indiquei as velhas tabelas impressas no interior das embalagens de cartão em que se vendem os rolos fotográficos e que dão indicações preciosas, ainda que pouco precisas, sobre os ajustes de exposição em função das condições atmosféricas e mais uns trocos.

(É interessante verificar como é raro encontrar alguém que saiba que existia algo impresso no interior dessas embalagens. E, a maioria dos poucos que sabem, nunca o leram ou ponderaram as informações lá contidas. Um pouco como com os manuais de instruções.)

Pois para a ajudar, que a compra de um “fotómetro” está, para já, fora dos planos dessa minha conhecida, sugeri algo de forma errada: algo nunca tinha usado.

Refiro-me a aplicações para telemóvel que medem a luz e nos dão indicações sobre como ajustar a exposição: sensibilidade, tempo, abertura, EV…

Sendo que não gosto de ter pontos de interrogação suspensos sobre a cabeça, mas antes exclamação ou reticências, tratei de ver o que se encontra on-line.

São mais do que esperava. Alguns usam a câmara como sensor, outros um dispositivo adicional. Optei por experimentar um da primeira opção.

Numa primeira abordagem, gostei dos resultados. Comparado com as indicações dadas por duas câmaras e três aparelhos de medida externos, pareceu-me dar resultados medianamente consistentes e fiáveis.

Criei agora o desafio pessoal de usar este método e fotografar com a minha DSLR para tirar as teimas de modo prático.

 

Duas notas, no entanto:

- Independentemente dos resultados que obtiver, não creio que medir luz com um telemóvel dê o mesmo prazer ou afecto que com um fotómetro ou exposímetro;

- Não irei juntar um telemóvel à minha colecção de aparelhos de medida de luz.


By me

sábado, 31 de janeiro de 2026

Com F ou com PH



Primeiro

A coisa começou há muitos anos! Éramos – e eu os compinchas de várias andanças, incluindo a procura de perguntas e respostas – razoavelmente novos.

O caminho que então percorríamos juntos passava também pela fotografia. Partilhávamos os equipamentos, as técnicas, as estéticas os conhecimentos e descobertas que íamos fazendo. E, não sendo nenhum de nós génios, procurávamos também os livros e revistas onde pudéssemos ir beber em mestres o suficiente para os nossos passos.

Estávamos na década, melhor, no decénio de 70, inícios do de 80 e por cá, Portugal, pouca leitura havia em português sobre a matéria. Livros apenas alguns mais antigos, ao estilo de almanaques, e revistas só aquelas efémeras, cuja qualidade e pouca procura faziam morrer pouco depois de nascer.

A solução era, inexoravelmente, recorrer ao que vinha de fora, do Reino Unido, dos EUA, de França. Cada uma destas origens, então como agora, tinha abordagens diferentes às técnicas e estéticas e às soluções. E o hábito de ler, apreciar e mesmo falar ia-se atendo às línguas que praticávamos fotograficamente.

Claro que também contava, face à juventude que tínhamos, o prazer de usar um código semi-hermético aos circundantes, aqueles que não bebiam onde nós nos alimentávamos: o prazer de fazer imagens.

E criou-se a brincadeira, petulante é certo, de dizer que por cá se fazia “Fotografia” e que lá por fora se praticava “Photographia”.

Com o passar dos tempos e as variações de rumos das vidas de cada um, tudo isto se transformou ou diluiu. A literatura e os periódicos em língua portuguesa foram aparecendo, algumas por nós mesmos produzidas, muitas vindas de além-mar. E deixamos de parte a necessidade juvenil da afirmação por códigos e mistérios.

Mas a sensação da diferença entre “fotografia” e “Photographia” ficou. Já não agarrada à tradicional maledicência sobre tudo o que é português, mas antes para marcar alguma diferença no tipo de imagens produzidas, onde quer que fosse. Diferença esta que não está nas técnicas, nas estéticas ou nas temáticas. Constata-se em cada uma delas e no seu conjunto mas não reside aí.

Está, antes sim, na forma de pensar e de fazer fotografia.

Segundo

A representação pictórica, ou iconográfica, existe desde antes da escrita, com esta tem co-existido e, pela certa, a ela sobreviverá. Porque os códigos alfabéticos, fonéticos, ideográficos ou binários mudam com as civilizações e tecnologias, o que não sucede com o uso das belas-artes. Poderão estas mudar de estilos ou de interpretações, mas perduram.

O comum do ser humano, gregário que é mas igualmente desejoso de marcar a diferença na sociedade em que se insere, procura igualar ou suplantar aqueles que admira e a quem atribui qualidades superiores. Entre outros, os que bem se expressam, seja qual for a arte em causa. E a pintura e representação gráfica é uma delas. Mas ela não é tão simples como parece, já que, além do domínio das técnicas, implica um certo “fogo interior” que na maioria está apagado. Para já não falar na morosidade do processo.

Ao invés, a fotografia é quase imediata, por comparação. E é-o tanto mais quanto as técnicas usadas evoluem. Técnicas estas que, com um domínio não muito aprofundado, permitem obter resultados satisfatórios, não apenas perante a sensibilidade de quem as produz como a aceitação de quem as vê. E os automatismos contemporâneos ainda reforçam este facilitismo no fazer da fotografia.

Se a isto juntarmos o consumismo desenfreado que vamos vivendo e a necessidade de afirmação social mais pela posse de bens que pelo resultado daquilo que se é e se pensa, temos que meio mundo possui e utiliza câmaras fotográficas. E que o outro meio anseia por o ter e fazer.

Mas esta fotografia é feita a correr, oriunda em impulsos de momento, quase que por obrigação. As questões estéticas são ignoradas, dos factores de comunicação nem se desconfia, e com a mesma velocidade com que dispara o obturador, também o seu resultado é esquecido. Tão ou mais grave que isso, a fotografia contemporânea padece da efemeridade, já que o seu apagar ou destruir resulta do uso de uma ou duas teclas na sequencia de sistemas de armazenamento cheios. A mesma ausência de pensar no acto fotográfico conduz a uma ausência de importância no seu resultado. Conservar ou não uma fotografia é uma questão de apetite momentâneo. E já não se usam pastas de arquivo cuidadosamente arrumadas, caixas de sapatos empilhadas ou gavetas repletas de papéis mono ou multi-coloridos que, volte e meia eram remexidos e supostamente organizados.

Some-se a esta pouca importância dada ao pensar a fotografia o seu actual custo zero. Fazer uma fotografia ou dez consecutivas tem o mesmo preço e dá o mesmo trabalho em obter. Que o “rolo” já não chega ao fim e as memórias dos cartões são cada vez maiores.

Nos tempos que correm, a velha frase publicitária “Para mais tarde recordar” deixou de fazer sentido, face ao uso e importância que é dada à fotografia.

Terceiro

Alguns há, no entanto, que assim não procedem.

Ao olharem pelo visor da câmara, ou ainda antes disso, o seu objectivo é o registo permanente daquele jogo de luz e sombras, daquela perspectiva, o contar daquela história, o eternizar daquele momento. E que, em tendo oportunidade para tal, procuram melhorar as suas capacidades de o fazerem, tanto pela prática como pelo estudo de quem o faz ou fez ainda melhor. Em que a afirmação pela fotografia não passa pela competição com os restantes com base no resultado ou na exibição da factura do seu equipamento mas antes consigo mesmo e com o resultado obtido a cada imagem produzida.

E que sabem que esse processo começa com o olhar o assunto e termina com olhar sobre o produto acabado, sendo que tudo o resto que medeia entre um e outro são meras técnicas, mais ou menos dominadas. Na tomada de vista e na selecção e tratamento posterior.

Que sabem e praticam que uma fotografia é o resultado de um processo mental materializado pela técnica. E que é mais naquele que se preocupam que nesta.

Ao resultado dos trabalhos destes, chamo eu (e mais uns quantos não tão poucos quanto isso) “Photographia”. Para o trabalho dos demais fica o termo genérico de “Fotografia”. Alguns há, ainda, que diferenciam com o uso de maiúsculas e minúsculas, mas o significado é o mesmo.

Nenhum dos dois termos tem mais valor que o outro ou algum deles tem uma carga negativa. Porque, na vida, o que importa é a obtenção da felicidade naquilo que fazemos e nenhum método é universal ou único.

Mas porque não são iguais nem nos processos de obtenção nem nos resultados materiais, identifiquem-se umas e outras imagens e fotografias.

Até porque entre imagens fotográficas e fotografias (com “F” ou com “Ph”) também há diferenças. Mas isso são outros contos!


By me

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sapos




Tenho em casa um montão de coisas inúteis e estranhas. Algumas por estrear em frente da minha objectiva. Foi o caso.

Numa dessas caixas fui encontrar uma pequena e bem velha amostra daquilo que terei que engolir daqui a por pouco mais de uma semana.

Mas antes isto, fazendo-me ficar com o estômago aos saltinhos, que a alternativa, que me provocaria diarreia por uns cinco anos.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

Éticas




Foi talvez há um pouco mais de quarenta anos, não posso precisar.

Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.

Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia comprado pouco tempo antes.

Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação.

O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia. E eu era um bocado inexperiente.

O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores.

Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…

E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.

Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.

Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!

Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente, inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser feito como combinado.

Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com argumentos técnicos e estéticos não iriam ser possível fazer boas imagens com a presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por inteiro e sem a presença das operárias.

A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o que eu queria com aquilo.

Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por algumas, não muitas, horas.

As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.

Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este produtor.

Ainda hoje as recordo.

 

 

Nota extra: A fotografia não é da época. Os originais, em diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a correr, para acompanhar o texto.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

Dos invisíveis




De algum modo todos nós acompanhamos a tempestade que atravessou o país. Quer fosse porque se a viveu, quer fosse porque a comunicação dela falou.

Casas destelhadas, gente que morreu, negócios, indústrias, colheitas, áreas inundadas, falência de serviços e bens básicos... de quase tudo se falou e mostrou.

O que ficou de fora das pantalhas e letras, gordas ou magras, foi o que aconteceu aos vivem nos cartões ou frageis tendas.

Esses, os invisíveis que mais não são que os incómodos porque nos abordam à porta do supermercado ou nas esplanadas, a quem se vira a cara e que nem uma negação de ajuda têm direito porque lhes damos as costas, de quem nos desviamos porque o seu aspecto incomoda o nosso sentido de ordem pequeno-burguês, esses invisíveis não eleitores, não cidadãos, não pessoas, sem rosto nem voz, não tiveram nem cinco segundos ou duas linhas na comunicação social.

Que mais grave é o voar do telhado da indústria que a frágil tenda; que mal falam para as câmaras, que vergonha têm de terem perdido os cartões ou de terem os finos cobertores encharcados. E que sabem que as moedinhas à porta do supermercado vão rarear até os telhados se refazerem e as luzes voltarem a iluminar o sofá onde se acede às redes sociais.

Dos fracos não reza a histórias. Nem os noticiários.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


y me

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Final feliz




É um erro comum: confundir “ser fã de” com “ser fanático por”.

No meu caso e fotograficamente falando, pese embora ser fã da marca Pentax, não sou fanático. Nem exclusivo. Este é um exemplo disso.

Eu tinha vinte e qualquer coisa e, já nem sei porque motivo, adquiri uma Rolleiflex SL35. Talvez porque eu quereria ter uma segunda câmara para alternar entre preto e branco e côr. Talvez porque o nome da marca fosse sonante (então e agora), e garantidamente porque terá sido muito barato.

Recordo ter ido para a zona velha da cidade com um amigo e compincha fotográfico para fazer o rolo de estreia. E de ter, com ela, feito fotografias de um aparatoso e grave acidente de moto.

E pouco mais recordo dela. Uns dias depois, em chegando a casa constato que esta tinha sido assaltada e que a câmara tinha sido levada. Por sorte, algo deve ter assustado os ladrões que não passaram do átrio de entrada, ou teriam levado, com toda a facilidade, a mala com o restante material (este Pentax). Foi um amargo de boca de sempre tive.

Há não muito tempo vejo este exemplar na montra de uma loja. Por uma casualidade passei por ali. E até os olhinhos se me saltaram da cara! Seria o fim de um ciclo com dezenas de anos, um regresso ao passado com um final feliz.

Ainda resisti, ponderando durante uns dias. Que do ponto de vista orçamental não me convinha. Mas a gula venceu e fui busca-la. Mas ainda tive que esperar uns dias, que a primeira abordagem logo ali na loja demonstrou não estar o fotómetro calibrado. Mas quando lá voltei por ela, depois de afinada, saí da loja qual puto feliz com brinquedo há muito desejado.

Está ali para as curvas e para os rolos, assim eu saiba tirar partido de uma velharia do início dos anos 70.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mais um vez




Dizer “foi morto” é quase a mesma coisa que dizer “foi assassinado” ou “foi abatido”.

O problema põe-se no “quase”!

“Foi morto” é uma expressão neutra, não se sentindo que haja uma atribuição de culpa. É um mero facto.

“Foi assassinado” tem uma carga criminal. Quem assassina é um criminoso e deve ser punido pela lei.

“Foi abatido” aparenta legitimidade, um acto executado seguindo ordens superiores.

Em qualquer dos três casos existe alguém que morreu. Em qualquer dos três casos existe alguém que interveio nessa morte. E existe um jornalista que decide usar uma das três versões para fazer passar a sua opinião sobre o facto, moldando a opinião do públlico.

E nós, os anónimos do público, não queremos saber a opinião do jornalista.

Ide-vos!

.

Este desabafo, que não nada de original, surge na sequênncia das opções jornalísticas usadas por cá sobre os casos de cidadãos norte-americanos mortos por agentes da polícia.

 

Samsung S1060


By me

sábado, 24 de janeiro de 2026

Areia para os olhos




Vamos andando entretidos com as diatribes que nos aparecem lá do outro lado do Atlântico. E com as lutas presidenciais por cá. E as guerras a oriente, europeias ou mediterrânicas. E as horas de espera nos hospitais. E as depressões e tempestades, que mandam fechar estradas e suspender aulas. E os conflitos laborais, públicos ou privados.

E, no meio de tudo isto e o mais que venda jornais ou aberturas de noticiários, outras questões há que, na sombra de todas aquelas, vão sendo noticiadas mas quase que por engano.

Questões que não são urgentes mas que marcarão o futuro quotidiano de muitos milhares de portugueses. Em permanência.

Questões que não são de urgência ou de solvência mas tão só porque apetece à elite dirigente. Questões ideológicas, e à revelia dos programas eleitorais, que vão moldando aos poucos a sociedade sem que esta se possa pronunciar sobre o assunto.

No caso concreto, a eventual mas anunciada privatização das linhas urbanas da CP.

Aquelas linhas que transportam muitos milhares de cidadãos de e para o trabalho, gente que não tem alternativa nesse serviço público e imprescindível.

Porque, e não nos enganemos, a palavra chave desta classe dirigente é “privatizar”. Ideologicamente. Colocar os que menos têm a pagar para os que mais têm, através de serviços que são de todos e que querem só de alguns.

E vão-no fazendo com a discrição que conseguem, entre uma tempestade e uma sala de espera, à sombra de uma qualquer chacina lá longe. Com a cumplicidade dos media. Privados ou não.

Citando Saramago: “... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

 

Nikon Coolpix P7000

 By me

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Argumentos




Foi já há uns vinte anos, decorria o meu projecto “Old Fashion” no Jardim da Estrela e fui abordado por duas senhoras catequistas já não sei de que confissão religiosa.

Não costumo ser rude para com estas pessoas. A sua conversa não me interessa por demais e tento afasta-las com a urbanidade que posso e sei. Por vezes recorrendo a estratagemas pouco ortodoxos, mas não rudes.

Desta feita esgotei os que tinha sem sucesso. Eu estava ali “amarrado” à minha câmara montada e elas tinham-me como “vítima” garantida.

A conversa terminou, com vitória para mim, quando lhes apresentei um argumento adequado ao que ali fazia:

“As senhoras prometem a felicidade numa eventual vida após a morte. Da qual não há testemunhos que não a fé. Eu propicio a felicidade, aqui e agora, ao entregar, de borla, fotografias a quem mas pede e provocando sorrisos. Quem, de nós, tem mais sucesso?”

Engoliram em seco, disseram mais uma ou duas coisas e zarparam. Devem ter-me identificado como Belezu encarnado.

Mas o certo é que essa é a minha abordagem.

Podemos e devemos trabalhar para a felicidade futura. Sejam quais forem os conceitos de felicidade e os prazos considerados.

Mas não devemos descurar a felicidade no momento em que vivemos. Não apenas fazendo por ela mas encontrando-a no que somos e temos.

E, principalmente, fazendo com que ela se espalhe, qual epidemia, em redor. Mesmo que em pequenas coisas e por uns instantes.

Como? Depende das circunstâncias, dos envolvidos e das suas capacidades.

Se a vida fosse uma fórmula resolvida…

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

memória

Há pouco lembrei-me do Calimero.

É que ouvi um candidato presidencial a dizer que estão todos contra ele. Até o sistema está contra ele.

É uma injustiça de ir às lágrimas.


By me

Especial para fotógrafos




Tenho que admitir que, para mim, sair de casa sem uma câmara fotográfica é-me quase tão mau quanto sair de casa despido. Ambos os casos são hábitos muito antigos, e o ser humano é um animal de hábitos.

Tinha que ir à cidade tratar de dois ou três assuntos. Basicamente seria sair de um local para seguir para o seguinte, sem muito tempo para “vadiar” e fotografar. Mas, do memo modo que ir vestido, teria que levar uma câmara. Leve, de preferência.

Pouco tempo antes havia-me chegado às mãos a Pentax K-S2. Pequena e leve como eu queria. Com o acréscimo de ainda não estar bem familiarizado com ela. E por “familiarizado” entenda-se que as minhas mãos ainda não sabiam de cor a localização dos botões e a minha mente ainda não sabia de cor os menus e sub-menus. E ambas questões são importantes para que possamos encontrar o momento decisivo e o enquadramento certo sem nos preocuparmos muito com questões técnicas.

“Hoje vai esta”, pensei, em oposição às do costume: Uma DSRL K5 e uma DSLR K1. Por outras palavras, 670 gramas em oposição a 750 e 1010 gramas respectivamente.

Mas haveria que pensar na objectiva. Também leve, de preferência. A escolha recaiu na SMC Pentax-M 40 1:2,8. Não tenho em casa nenhuma objectiva com baioneta K mais pequena ou mais leve que isto. E, a juntar à escolha, é uma objectiva com um ângulo que não me dá muito conforto, o que me leva a insistir no seu uso até me ser “natural”.

“O conjunto certo”, pensei antes de olhar para ele.

Depois de olhar para ele já completo, concluí que, do ponto de vista visual, será difícil de encontrar melhor conjunto câmara/objectiva. É bonito e harmonioso nas suas proporções, quase que feitos um para o outro.

O que acaba por ser divertido? Passei a tarde ocupado às voltas na cidade, de um local para o outro e nem uma vez levei a câmara à cara. Mas também trago cuecas vestidas e nem uma vez precisei de lhes mexer.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Livros




Tal como alguns criminosos e delinquentes estão proíbidos de se aproximarem das suas vítimas, também eu deveria ter uma pulseira electrónica que me inibisse de me aproximar de livrarias. O estado das minhas finanças agradeceria.

Estive numa livraria. A STET, que recomendo a todos os da zona de Lisboa mas não só, já que também funciona on-line. A sua especialidade é a imagem, sob diversas facetas mas com a fotografia predominante, e é difícil lá ir sem se sair com algum livro na mão. Isto para quem se interesse sobre o tema, claro.

Passei por lá por via de uma obra que tinha encomendado e que, aparentemente, não se encontra sob a forma de papel. Mas, e para que vejam o tipo de atendimento, não o tendo deram-se ao trabalho, ali à minha frente, de procurar referências on-line sobre ela, incluindo a versão pdf. De borla! Se isto não é bom serviço ao cliente, não vejo o que possa ser.

Mas vim de lá com duas outras obras: uma particularmente dispendiosa até porque incomum, da qual tenho vergonha de agora e aqui falar, e esta bem mais modesta.

Ainda não me debrucei sobre ela. A bem dizer, vi-a e nem hesitei na sua compra, até porque bem acessível. O nome do autor é para mim como polen para abelhas. Gosto particularmente da forma como ele escrevia: na facilidade dos textos, apesar da profundidade dos conteúdos. E, particularmente, das ideias que lhes estão subjacentes de um ponto de vista geral  e social e que não apenas relacionadas com a imagem geral ou a fotografia ou pintura em particular. Para quem o não conhecer, recomendo vivamente.

 

Como adicional, acrescento que esta fotografia tem um erro crasso, de que só me apercebi depois de tratada.

Pese embora o enquadramento e a luz de base serem particularmente simples, a luz principal vem do lado direito e as sombras projectadas para a esquerda.

Ora isto é um disparate, a menos que se seja canhoto. Um destro terá o cuidado de ter a luz que ilumina o seu local de trabalho à sua esquerda, para que as sombras, ao escrever, se projectem para a direita. Ou se preferirem, para a zona do papel ainda não escrito, em vez de sobre o que se acabou de escrever.

Para quem nunca pensou no assunto, sugiro que tentem ter o candeeiro ou a janela de um lado ou do outro e verifiquem qual o mais confortável.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4

 

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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Lá terá que ser




E pronto!

Lá vou eu ter que engolir um sapo.

 

Pentax K-S2, SMC Pentax-M macro 50 1:4


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Texto e imagem




"Àquela hora não havia por perto outro local onde comer. O que via na montra e pela porta não lhe inspirava grande confiança, mas a fome mordia-lhe o estômago e o frio não ajudava. Entrou.

O cheiro a fritos era preponderante, mas isso não parecia incomodar os dois comensais isolados, que faziam parelha com o ambiente geral. Escolheu uma mesa, não muito próxima deles, e sentou-se.

Antes de olhar para a ardósia na parede onde se podia ler aquilo que a cozinha podia disponibilizar, olhou para a toalha. As manchas irregulares deixadas pelos clientes anteriores, sabe-se lá quando, competiam em contraste com o rectilíneo do xadrêz já pálido do tecido. Desejou que os guardanapos fossem de papel e que o copo estivesse como os guardanapos.

Ainda assim arriscou e pediu a quem estava atrás do avental e do bigode: uma sopa e uma jardineira de vitela."

 

Esta é a grande vantagem da literatura sobre a imagem: por muito descritiva que possa ser, deixa sempre alguma coisa à imaginação de quem lê:

Estaria pouco vestido ou nevaria? Quantas mesas na sala? De que cor seria a toalha? Que garrafas, se algumas, existiriam atrás do balcão?

Há todo um mundo de perguntas que o texto não responde e que ficam ao critério do leitor encontrar as respostas. Em função das suas experiências pessoais, da sua imaginação ou de um qualquer capricho momentâneo.

A imagem, cinematográfica ou outra, não nos dá essa possibilidade. Cada detalhe da sala e seus personagens está ali, no ecrã ou no papel, esclarecendo todas as dúvidas e nada deixando por saber. Claro que há excepções, como seja o filme “DogVille”, mas os mestres quebram as regras e as rotinas.

A fotografia fica a meia haste. Tudo o que está em frente da objectiva é captado, com maior ou menor detalhe, nada deixando à imaginação. Mas não tem o factor movimento, em regra. Dos personagens ou da câmara. Donde apenas sabemos o que nos é mostrado.

Uma das técnicas de fazer o espectador interagir com o que vê é não lhe mostrar tudo. Indo mais longe, truncar parte do visível – pessoas, objectos, espaços – levando quem vê à tarefa de imaginar o que falta. Criar-lhe a curiosidade de completar o que está em falta!

Técnica difícil, esta. Principalmente nos tempos que correm. Que se a tentativa de estimular a imaginação for muito forte, com a rapidez de consumo do digital o espectador desinteressa-se com facilidade. Por outro lado, e pelo mesmo motivo, se for muito fraca não chega a provocar a curiosidade.

Alguns mestres na imagem – e eu não sou mestre – jogam com este instavel equilíbrio entre “o que mostro e o que não mostro” de forma magistral. O instinto, a prática, o pensar, o recurso às diversas técnicas de ocultar ou semi ocultar, fazem dos seus trabalhos obras primas.

É por dar trabalho ou ignorar o método que a esmagadora maioria das fotografias que vemos são sensaboronas. De tão completas, de tão esclarecedoras, de tão fechadas sobre si mesmas, não permitem que o espectador pense ou sinta. “É aquilo e mais nada”, “tomei conhecimento e é quanto basta”.

A arte, nas suas diversas facetas, pode ser completa. Mas pode e deve levar o espectador mais além do que aquilo que recebe. Provocá-lo, criar-lhe alguma instabilidade, sentimentos ou perguntas. Quando isso não acontece, não são fotografias: são fotocópias do circundante.

Os meus cinco cêntimos.

 

Olympus C3030z


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domingo, 18 de janeiro de 2026

Dúvida ancestral




Diz a piada velha que se os deuses não quisessem que confundíssemos os Bs com os Vs não os tinham posto lado a lado no teclado.

Mas uma forma ou de outra, não deixem de ir botar ou votar este domingo.

 

Pentax K7, Tamron 18-200

 

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Lugares perigosos




Fui votar, como se esperaria. E, como de costume, à entrada e à saída quedei-me a ver os cidadãos que chegavam e partiam.

Cheguei a uma conclusão: as assembleias de voto devem estar cheias de carteiristas e afins!

É que toda a gente entrava e saía com as mãos nos bolsos, suponho que a segurar na carteira.

Em qualquer dos casos, lá dentro senti-me como que na polícia: Apresentaram-me um conjunto de fotografias para reconhecer malfeitores. E foram alguns que identifiquei como tal.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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sábado, 17 de janeiro de 2026

Emissões e reflexões




Se bem se pensar no assunto, raramente se fotografa a origem da luz.

Por muito que seja imprescidivel ao acto fotográfico, aquilo que fotografamos são as superfícies que a reflectem, sejam mais opacas ou mais transparentes.

O sol, as lâmpadas, a chama, até por motivos técnicos, é algo que não nos atrai muito a atenção. Não a emissão mas a reflexão.

Por isso mesmo, pelo menos em Portugal, a véspera do dia de eleições deveria também ser o dia da fotografia.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4

 

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Tal como hoje


 


Num sábado de reflexão, muito antes de nevar na serra.

 

Pentax LX, Vivitar 17 1:3,5, Agfachrome CT18


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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

É na imperfeição que está o belo




Quase simétrico. Ou, de acordo com algumas teorias, quase perfeito.

No entanto, e ao que julgo saber, a simetria não é apanágio do universo, começando desde logo pelo corpo humano. Continuando pelo formato dos astros e os seus movimentos absolutos ou relativos.

A simetria, tal como o equilíbrio, mais não são que invenções do bicho homem, numa tentativa de imitar um qualquer divino. Mas errando.

Que se esse tal de divino e ser perfeito tivesse querido criar o equilíbrio e a simetria, tê-lo-ia feito. E, por aquilo que sabemos, não fez.

Ao contrário, aquilo que existe é um continuo desequilíbrio, uma ligeira assimetria, cuja conjugação permite a continua mudança, a eterna evolução. Quer aqui na terra como nos céus.

O problema é que nós, no minúsculo que somos no todo, tudo vemos e aquilatamos à nossa escala. Quão arrogantes somos, em querermos ser mais que o todo!

Que bela é a assimetria e que harmonioso é o desequilíbrio, de onde viemos e para onde iremos.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O fiasco




É verdade que sim: eu gosto de brincar com as palavras.

Por vezes, quando estou de maré, vou buscar termos mais antigos, arcaicos mesmo. Outras, mais frequentemente, uso as parábolas ou analogias para contar o que quero ou sinto. Outras ainda recorro a segundas leituras ou mensagens subliminares para que a mensagem passe sem ser sob a forma de mensagem.

Na fotografia, que é uma forma de escrita, acontece-me o mesmo: a mensagem principal está lá, ainda que meio escondida para não ser muito evidente mas que, de algum modo, fique retida na mente de quem a possa ver.

Por vezes “estico-me”. Está tão dissimulada (ou o mais notório tem tanta força) que se perde no meio de tudo o resto. E só eu, que a concebi, entendo isso.

Foi agora o caso.

Quis mostrar que tinha um brinquedo fotográfico novo aqui em casa. E quis brincar com o conceito de “brinquedo” usando brinquedos reais na imagem, bem à vista, em evidência na composição e na luz. E deixei a mensagem principal em segundo plano, escondida pelos reais brinquedos, e fora de foco. Só alguns poucos, se alguns, se aperceberiam que estava ali uma referência a uma câmara fotográfica.

A imagem está técnicamente correcta, tem um primeiro plano forte, divertido, apelativo... mas falhou liminarmente no seu objectivo: todos repararam nos bonecos e ninguém se apercebeu do que está escrito lá atrás, na caixa.

Por vezes, de tanto querermos fazer, desfazemos no objectivo principal. E eu sei isso, o que me leva a ficar ainda mais frustrado comigo mesmo.

Mas há lições negativas que temos que viver ou reviver para não nos esquecermos delas.

 

Pentax K-S2, SMC Pentax-M macro 100 1:4


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Os treze anos




Os treze anos

 

Já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro:

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já bailo ao Domingo

com as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita,

como era primeiro;

sou a Senhora Ana,

que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto,

nas feiras já feiro,

já não me dá beijos

qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas,

e as deito ao ribeiro,

olho tudo à roda,

de cima do outeiro.

 

E só se não vejo

ninguém pelo arneiro,

me banho co’as patas

Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas,

rostinho trigueiro,

que mata de amores

a muito vaqueiro.

 

Miro-me, olhos pretos

e um riso fagueiro,

que diz a cantiga

que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha,

já por derradeiro

me vejo mui outra

da que era primeiro.

 

O meu gibão largo

de arminho e cordeiro,

já o dei à neta

do Brás cabaneiro,

 

dizendo-lhe: "Toma

gibão domingueiro,

de ilhoses de prata,

de arminho e cordeiro.

 

"A mim já me aperta,

e a ti te é laceiro;

tu brincas co’as outras

e eu danço em terreiro."

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita,

sou a Ana do outeiro;

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Não quero o sargento,

que é muito guerreiro,

de barbas mui feras

e olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho;

não quero o mineiro:

Mais valem treze anos

que todo o dinheiro.

 

Tão-pouco me agrado

do pobre moleiro,

que vive na azenha

como um prisioneiro.

 

Marido pretendo

de humor galhofeiro,

que viva por festas,

que brilhe em terreiro;

 

Que em ele assomando

co’o tamborileiro,

logo se alvorote

o lugar inteiro.

 

Que todos acorram

por vê-lo primeiro,

e todas perguntem

se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele,

romeira e romeiro,

vivendo de bodas,

bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos!

ai, céu verdadeiro!

ai, Páscoa florida,

que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha,

de Deus vos requeiro:

Casai-me hoje mesmo

com Pedro Gaiteiro.

 

António Feliciano Castilho

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


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