terça-feira, 22 de julho de 2014

Tempo



Para além dos aparelhos normais para medir o tempo, usamos de muitos outros métodos naturais para dele nos apercebermos:
Sono, cansaço, fome, luz, ruído da passarada…
Mas ficamos baralhados quando um ou mais destes indicadores surge fora do tempo que pensamos que é.
Ouvir quando estamos podres de sono e a precisar desesperadamente de uma grande chávena de café, um som que entra p’la janela vindo da escuridão da noite, pode deixar-nos à-toa.
No caso, o camião do lixo ou o seu sucedâneo, o que limpa os contentores.

É que ficamos na dúvida se é muito cedo se é muito tarde.

By me

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Piadas e graçola



Lamento dizer mas, mesmo para o projecto “Oldfashion” há rotinas! Há rotinas nas abordagens, há rotinas nas poses, há rotinas nas réplicas e há rotinas nas graçolas que vou dizendo.
Nenhuma delas foi prevista ou inventada de propósito. Antes pelo contrário, foram surgindo à medida que tenho que ir lidando com quem me aborda. E foram ficando, em uso de acordo com os presentes, idades, géneros, aspectos e disposições.

Desta vez saiu-me na rifa um cavalheiro particularmente bem disposto, daqueles de fazerem a festa, largarem os foguetes e apanharem as canas. Quis mesmo fazer de “angariador”, tentando convencer passantes a fazerem-se fotografar como ele mesmo tinha sido.
Convencida da coisa foi uma senhora, com o seu filho. Conversa vai, conversa vem com ela, tive que admitir que a minha câmara era daquelas de “meter os cornos debaixo do pano”, à semelhança de uma que seu pai tinha tido. Fica a frase na memória, para uso especial e apropriado.
No final, aquando do momento mágico de retirar a imagem e mostra-la, tenho uma outra frase feita, que uso volta e meia:
“Se não gostar não leva, combinado?”
É mesmo só uma graçola, já que tal só me aconteceu uma vez e ainda não usava semelhante dito. Mas desta vez repetiu-se!
Não gostou, de todo, do que viu! E, “armando-se ao pingarelho” como se dizia em tempos de antanho, criticou a definição e o foco!
Balelas! Tretas! Desculpas de mau pagador! O que não gostou mesmo foi do seu sorriso!
É que, apesar dos seus trinta e picos anos, a vida que presumo que tenha levado e aquilo que suponho que tenha vindo a consumir transformou-lhe o semblante em algo parecido com uns sessenta anos bem medidos, com todas as rugas associadas. Espero que o filho nada tenha herdado aquando do parto.
Mas se estava dito, estava dito e, escondendo no bolso a foto, entretanto recuperada, lá voltei a “meter os cornos debaixo do pano” e a fazer outra fotografia. Desta vez sem provocar o sorriso habitual, mantendo apenas uma ligação visual e verbal para com o pimpolho.
E, desta feita, já gostou do que lhe mostrei, ainda que nada tivesse eu alterado: técnicas de impressão ou de focagem, que funcionam em automático.
E foram-se, rindo e partilhando a foto, mãe e filho.
Quanto à primeira foto, fica nos meus arquivos, na secção de “gente”, escondida de olhares estranhos em respeito ao seu pedido.
E continuarei a usar das minhas tiradas, agora enriquecidas com uma especial, reservada para público que a entenda e aceite. E a “colocar os cornos debaixo do pano”!



Imagem: me by Rui Palha, 2007

Alguma dúvida, sejam quem forem os “they” e os “us”?



By me

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Por vezes sinto-me entalado entre o céu e a terra.
E não é o céu que me atrapalha!



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Vão pó



Enquanto me surpreendia, deliciava e fotografava esta árvore assim “decorada”, num banco próximo uma senhora comentava:
“Pintarem assim uma árvore tão bonita…!”
As circunstâncias não me permitiam alongar-me em explicações, p’lo que acabei por ficar calado.
Mas, podendo, sempre lhe diria que esta árvore não foi pintada mas antes serviu de cartaz.
Que os cartazes são, regra geral, feitos de papel e este de madeira. Poupou-se todo o processo de transformação.
Que a árvore sobreviverá ao escrito, ao mudar a casca.
Que este cartaz, feito em frente a uma escola secundária em Lisboa, durará muito mais que qualquer outro feito de papel.
Que esta afirmação de revolta juvenil é perfeita.
Que tenho pena que tenhamos “crescido” a ponto de já quase nem pensarmos, quanto mais escrevermos, coisas como esta.

Palmas a quem o escreveu!

By me

domingo, 20 de julho de 2014

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Quando descobrimos novos horizontes, damos um passo em frente.
Quando sabemos que abrimos novos horizontes a outros, damos três passos em frente.


São estes “pequenos” prazeres que me vão dando alento.

Tudo se aproveita




É sempre uma dualidade terrível entre o que uma fotografia que fiz conta e o que eu quis contar com essa fotografia!

By me

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Talvez por ser Domingo. Talvez por ser Verão. Talvez por ser Portugal.
Os três primeiros títulos da versão on-line de um jornal nacional de referência (Diário de Notícias) são:
“Benfica, Sporting e FC Porto com 49 jogadores em fundos”, “Príncipe George já anda… e sem ajuda” e “ O Cristianinho às vezes pergunta pela mãe”.


Sinto-me informado de tudo o que é relevante.

By me 

Já lá estamos



Para os que se perguntam sobre onde isto vai parar, aqui fica uma resposta:
“Já lá estamos!”
Por enquanto já lá estamos!
E para quem acha que isto é pessimismo ou falta de vontade de mudança, aqui fica uma pergunta:
“E ideias novas para evoluir?”
Não há!
Por mais que olhemos em redor, por mais que procuremos entre pensadores e actuantes, todas as tendências e práticas são no sentido de, com uma ou outra roupagem, manter tudo como está.
Há mais de um século que estamos enquistados nas mesmas teorias, com ajustes em função das geopolíticas, dos mercados e das tecnologias. Mas as teorias levadas à prática são as mesmas.
As vontades de reduzir o fosso entre classes não vingam, nem entre quem compõe as classes superiores (não há lugar para mais!) nem entre quem compõe as classes inferiores (quero um lugar lá em cima!)
Mesmo aqueles que se apresentam ao povo com o que dizem ser alternativas democráticas são outras embalagens do mesmo produto. Podem mudar de pó para líquido ou para pastilhas mas continuam a ser detergente para colocar na máquina que continua a rolar, a rolar, a rolar…

Enquanto se não romper com os objectivos instituídos, os métodos pouco importarão, mesmo que uns mais apelativos ou inovadores que outros.
O que falta mesmo são objectivos concretos e diferentes. O que nos falta são ideias novas.

Até elas surgirem, não se preocupem com o “onde é que isto vai parar”. Já lá estamos.

By me 

sábado, 19 de julho de 2014

Não é fofinha



Esta não é uma fotografia fofinha! Mas toca-me fundo na memória, já que foi uma “primeira vez”:
Foi por causa desta porta que, pela primeira vez, andei a fugir à polícia depois da revolução, por via de fotografias.

Estava-se nos finais dos anos setenta e decorria naquele dia um conjunto de greves e manifestações.
Decidi eu ir fotografar o que se passava em frente ao meu sindicato. Não contava com o que me esperava: um cordão policial cercava o edifico, a meio de um quarteirão, e ninguém se podia aproximar.
De longe ainda fiz algumas fotografias (que tenho por aí no arquivo, não sei onde), mas o chefe do destacamento não gostou e quis deter-me, mandando alguns agentes no meu encalço. Apercebi-me e afastei-me p’lo jardim, numa espécie de jogo do gato e do rato, que eles pareciam não querer fazer grande alarido com a coisa.
Safei-me de mais “incómodos” por ter subido a bordo de um eléctrico, em andamento. Eles não quiseram “agarrar-me” lá dentro.

Foi a primeira.
O sindicato já não é aqui e a polícia já não cerca sindicatos.
De então para cá, tenho tido a minha quota-parte de situações equivalentes, com algumas detenções inconsequentes e sem se chegar a confrontos físicos. Mas algum medo p’lo caminho, isso garanto.

Esta não é uma fotografia fofinha. Mas recordar a “primeira” tem sempre o seu quê de fôfura.

By me