sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um presépio




Pondo de parte o Pai Natal (de vermelho ou de branco) e a novel imagem barroca do menino Jesus, também pendurada nas janelas, as figuras da época são estas:
José, Maria e Jesus, não forçosamente por esta ordem.
Encontram-se um pouco (pouco mesmo) por todo o lado, sendo que os lares de crentes, por esta altura, têm um presépio montado, mais elaborado ou mais singelo.
Este é original. Construído artesanalmente por Simão Bolívar – não, não é piada, o brasileiro em causa é mesmo assim que se chama – é feito de pedaços de arame e de lata, reciclados. Tem a peculiaridade, como todos os artigos que fabrica, de ser móvel. Melhor, de ter peças moveis com as quais nos delicias aquando da sua venda.
Admito que quando o vi, há dois anos, me apaixonei por este presépio. Não apenas pela sua singeleza, até porque não sou crente, mas principalmente porque o elemento móvel, o berço, é encimado por aquilo a que o seu autor chama de “estrela”.
A minha deformação profissional leva-me a ver antes uma antena de TV. E a ironia de ver o berço do presépio ligado à TV era algo que não poderia deixar passar. Comprei-o e está aqui em casa.
Nesta quadra dita festiva, em que os valores económicos se sobrepõem aos teológicos ou filosóficos, aqui vo-lo deixo.

Texto e imagem: by me

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Dupla função




Estes são os carrinhos que, na cantina da empresa onde trabalho, servem para recolher os tabuleiros das refeições.
Nada têm de especial: altos, recebem uma boa quantidade de tabuleiros na vertical e dois em profundidade, feitos para serem facilmente carregados e descarregados, bem como lavados. E eficiência em evidencia.
Acontece, porém, que lhes dou ainda um outro uso, não público nem visível. É apenas de mim para mim, guardando cá no intimo o que desse uso resulta. Eu explico:
Conhecemos todos gente a quem podemos chamar de “fala-barato” ou de quem se pode dizer que “canta de galo”. Ou, para usar um termo menos simpático, “fanfarrões”.
São aqueles que dizem que fazem e que acontecem, que está tudo mal, que já não há espírito de grupo, que toada a gente só olha para o seu umbigo…
De uns sabemos não passar de fanfarronice ou conversa fiada, que intuímos que, em momentos de confusão, serão os que se escondem atrás das mesas ou de argumentos pouco sólidos mas justificativos para uma “fuga” discreta”. De outros, poucos, sabemos que serão os que estarão na primeira linha, os que darão a camisa ou subirão as escadas em chamas. De outros ainda temos dúvidas, que a conversa é convincente mas tem uma qualquer falha de sinceridade não muito visível.
Todos conhecemos gente desta!
Pois eu uso estes carrinhos de recolha de tabuleiros como forma de separar o trigo do joio, de saber, sem sombra de dúvida, quais são os que solidários e interventivos e quais os que mais se preocupam com a sua própria pele que com tudo o resto.
No regresso de uma refeição observo quem coloca o seu próprio tabuleiro logo à entrada ou o empurra lá para o fundo. Ou, se preferirem, quais os que se preocupem em deixar espaço para que outros os possam colocar com facilidade e quais os que nem nunca se preocuparam com semelhante questão, mesmo que saibam o difícil que é empurrar um tabuleiro que esteja à frente com a beira do nosso próprio tabuleiro. Não é mesmo nada fácil.
Ainda está para vir a primeira vez em que este diagnóstico simples e “de trazer por casa” se revele falível.
É que nem tudo serve apenas para aquilo que foi construído!

Texto e imagem: by me



É Natal sempre que um Homem se encontra com outro Homem e trata como Irmão!

Nas sombras da memória




De minha casa para o liceu onde estudei era bem uma hora de viagem. Não havia vias rápidas, nem corredores do BUS e os próprios autocarros eram velhos. Aliás, tão velhos eram que ainda circulavam os de dois pisos de porta atrás, porta esta que não fechava. Era divertido para os que tentavam ir à borla, se o cobrador não aparecesse com o seu terrífico alicate. E aparecia com frequência.
Às sete e pouco da manhã o autocarro a que subia era sempre o mesmo, bem como os que comigo aguardavam na paragem. Eu diria que, mais que ser sempre o mesmo no horário, era efectivamente a mesma viatura.
Isto porque havia no caminho uma pequena subida, com pouco mais de vinte metros, mas particularmente íngreme. O suficiente para que aquele motor estafado e carregado como ia, se queixasse e recusasse a subi-la.
E, em o ouvindo a protestar, todos nós, os habituais viajantes, já sabíamos o que fazer: Saíamos todos, percorríamos aqueles vinte metros a pé, lado a lado com o velho verdinho de dois pisos e, em terminando a subida, embarcávamos de novo. Estivesse o sol já acima do horizonte ou fosse ainda noite fechada e a chover.
Interessante mesmo de recordar é que, ao regressarmos ao interior, cada um ia ocupar exactamente o mesmo lugar que tinha ocupado, fosse ele à janela ou na coxia, em baixo ou em cima, ou, na pior das hipóteses, de pé. E eram só quatro que iriam de pé, que havia lotação controlada.
Claro que os protestos aconteciam, não fôramos nós portugueses, por vezes com alguma dose de humor, outras nem tanto, fazendo a maioria cara de conformados, que outra alternativa não tínhamos.
Claro que isto hoje não sucederia. Não há autocarros em tão mau estado, não há autocarros só com quatro lugares de pé nem há autocarros de porta sempre aberta.
Mas também não há o sentimento de respeito pelo próximo como então.
Seria, hoje, uma correria para ver quem ficaria no lugar que mais lhe agradasse, com alguns encontrões e discussões sobre a legitimidade de se estar sentado ou o fatalismo de ficar de pé.
Nestes quarenta anos que nos separam do então vieram a democracia, a liberdade de expressão, os autocarros com ar condicionado, escassos lugares sentados e vias reservadas aos transportes públicos. Desapareceram a censura e a polícia política, as paragens-zona e o alicate do cobrador.
Mas também sobreveio uma sociedade competitiva, incentivada por governos, alimentada pelo consumo e encorajada pelo pseudo desporto em que o que mais conta é a vitória e não o participar. Em contrapartida, diluiu-se a capacidade de perdoar e a solidariedade como atitude permanente na vida.
Para além das memórias, tenho um alicate de cobrador para as reavivar. E tenho a prática do quotidiano, que me mantém vivo e sem vergonha de olhar o espelho.

Texto e imagem: by me

Escrevendo a bordo




Para além de todas as tralhas habituais nos bolsos, há dois objectos extra que trago comigo: uma câmara fotográfica (se não for uma DSLR na sacola, é uma pequena no cinto) e um caderno de apontamentos.
É que, e para além de me poder apetecer fotografar, o faço amiúde, pode apetecer-me por no papel uma qualquer ideia ou texto, mesmo em local onde não possa usar do computador. E, além do mais, gosto mesmo de escrever à mão, com uma caneta de tinta permanente. É bem mais rápido no acompanhar as ideias que um teclado.
Um dos locais onde uso bastante papel e caneta é no comboio. Vinte ou quarenta minutos é, por vezes, quanto basta para escrevinhar um rascunho de ideia ou mesmo o texto completo. Fico eu e as palavras, ligado pela tinta, escrevendo em cima do joelho, literalmente.
Foi o caso desta noite.
O tempo de espera pelo comboio, no cais de embarque, foi fazendo crescer e tomar forma o conjunto. Depois, sentado, foi deixar que fluíssem do aparo para o papel, tão rápido quanto a mão consentia, intervalado apenas quando em busca da palavra ou expressão adequada.
Em o comboio saindo da estação anterior à minha estava feito. Rematei, como costumo fazer, com um título no início e a data. E fechei e guardei o caderno e caneta.
Qual não é a minha surpresa quando sou abordado pelo cavalheiro sentado à minha frente, que me pergunta se sou escritor. Rio-me da classificação e digo-lhe que não, que não passam de rabiscos. E pergunta-me se o poderia ajudar.
Guiniense de origem, tinha feito uma licenciatura em gestão na Rússia, estando por cá a concluir os estudos, suponho que a fazer um mestrado, desde há dois meses.
Mas tem um problema que os seus professores lhe apontam: para além do domínio da língua, dizem-lhe que parte dos seus trabalhos são plágio. E precisava de alguém que confrontasse os seus trabalhos com os textos das obras que consulta e de onde conjuga ideias, para os corrigir e apontar os eventuais plágios.
Mas que bota que me querem calçar!
Não sou escritor e o meu domínio da língua portuguesa é restrito ao seu uso mais ou menos normal. Não sei o suficiente para lhe corrigir trabalhos numa perspectiva linguística. Aconselhei-o a fazer uma coisa que sendo demorada, será a melhor forma de adquirir o uso fluente do português: ler. Ler autores portugueses, não traduções. Contemporâneos e clássicos, evitando, talvez, aqueles com escrita demasiado elaborada ou com um estilo demasiado personalizado. No meio do que vai aparecendo, temos alguns e bons que lhe poderiam servir de guia.
Mas é demorado, muito demorado, para quem tem que apresentar um trabalho a prazo.
Mas, bem mais grave que isso: sei coisa nenhuma de gestão para poder dizer, mesmo que comparado obras, se há plágio pelo caminho ou não. Não conheço os autores, não conheço as ideias já expressas e publicadas, é uma matéria que me passa por completo ao lado.
Como se pode ajudar alguém nestas condições? Sugeri-lhe que procurasse um professor, que não os que com ele lidam, que lhe visse os trabalhos e o aconselhasse. Ainda que, suspeito, isso não aconteça de borla e, pelo aspecto e por aquilo que sei dos estudantes dos PALOP, o dinheiro não seja o que mais abunda.
A conversa prolongou-se por bem meia hora, já tarde na noite, na estação suburbana onde ambos descemos.
Espero que, se e quando nos tornarmos a cruzar aqui no bairro ou a bordo de uma composição ferroviária, tenha ele boas notícias para me dar.

Quanto ao que escrevinhei sentado e embalado por cima dos carris, está ali, ainda em bruto. Passará pelo teclado talvez amanhã, em tendo tempo e inspiração para o rever e ilustrar.

Texto e imagem: by me

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fórmulas


Sendo certo que não há fórmulas absolutas para nada na vida, fotografia incluída, há pelo menos uma que funciona a 90%. Na fotografia também.
“Se eu souber o porquê, sei o como!”
Por outras palavras, e fotográficamente falando, se em olhando para um dado assunto souber porque o quero registar, porque é que “aquilo” merece uma fotografia, saberei quase com toda a certeza aquilo que quero pôr em evidência e quanto daquilo quero não mostrar, se for caso disso.
Depois, é jogar com a nossa ferramenta: a perspectiva.
E é jogar com a nossa matéria-prima: a luz.
Mas se eu não souber (ou perceber) porque é que quero mostrar, bem posso andar às voltas com as objectivas, com os pontos de vista, com a luz natural ou artificial que, no final da coisa, terei um registo ou imagem que me não convencerá.
E, se me não convencer, como poderá convencer ou agradar aos outros?
Pois se eu mesmo não “sabia” o que queria fazer…

By me

Um dia especial




Neste dia de celebração especial, transversal a todas as épocas e culturas, a que os Estónios chamam de “Pööripäev”, os Irlandeses de “Grianstad”, os Gregos de “Ηλιοστάσιο” e os Portugueses de “Solstício”, desejo que possam aproveitar a Luz na sua plenitude.
Tal como gostaria que soubessem em plena consciência que, se os ciclos não dependem de nós, aquilo que somos e seremos sai e sairá das nossas mãos e daquilo que com elas fizermos.


Texto e imagem: by me

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Bom dia!



Frio mas bonito.

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Cores de inverno 3



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Negócio




Troco:
Exemplar de “The photography reader”, de Liz Wells, em perfeito estado de conservação – nunca foi lido, foi comprado segundo exemplar por engano – por um exemplar do livro “Os mastigados” de Roussado Pinto.