... the last meal.terça-feira, 4 de agosto de 2009
Campus de Justiça

Têm alguns elementos do sistema judicial afirmado que o novo Campus de Justiça, em Lisboa, poderia ter mais dignidade.
Vários foram os aspectos que me foram referidos em privado por alguns deles, como a ausência de água potável, a promiscuidade entre as partes e entre estas e os juízes, a dificuldade de estacionar viaturas, o não funcionamento de algumas vertentes das tecnologias de informação…
Nenhum deles referiu, em privado ou frente às câmaras, que a porta nobre lá está, com a escadaria monumental a separar o comum do cidadão do celestial local de justiça.
Na mente do dono da obra e do arquitecto responsável, por certo que, para aceder à justiça, há que penar e só os mais fortes e resistentes lá chegam.
Texto e imagem: by me
Vários foram os aspectos que me foram referidos em privado por alguns deles, como a ausência de água potável, a promiscuidade entre as partes e entre estas e os juízes, a dificuldade de estacionar viaturas, o não funcionamento de algumas vertentes das tecnologias de informação…
Nenhum deles referiu, em privado ou frente às câmaras, que a porta nobre lá está, com a escadaria monumental a separar o comum do cidadão do celestial local de justiça.
Na mente do dono da obra e do arquitecto responsável, por certo que, para aceder à justiça, há que penar e só os mais fortes e resistentes lá chegam.
Texto e imagem: by me
Sobre o Flickr

Li, há uns dias num blog sobre fotografia, uma frase provocante:
“Todas as imagens que hoje vemos, especialmente as postadas nos flickrs são todas absolutamente iguais.”
E concluiu o autor com uma outra, repleta de ironia:
“Na verdade, vivemos hoje uma estética flickeriana pós-moderna!”.
Estas duas afirmações mexem fundo comigo e sobre elas não posso deixar de aqui colocar o que penso, em concordância e em discordância.
Entenda-se, no entanto, que tento aqui ser sintético, o que não apenas não é fácil com este tema como não é uma característica que eu mesmo possua.
Comecemos por pensar no que o cidadão comum pensa ser um fotógrafo dito “profissional”.
É aquele que, qual caçador solitário, vai a lugares exóticos ou situações perigosas, e regressa com troféus sob a forma de fotografias. Ou aquele que priva com as beldades, aquelas que enchem o olho e que, ainda por cima, lhes diz o que fazerem e como se exibirem. Ou ainda, é aquele que está onde estão os grandes, os decisores, os que governam o mundo. É alguém que, por ser fotógrafo, é um privilegiado.
Claro está que esse tal cidadão comum ignora o quão difícil é aceder-se a alguns lugares, o quão complicado é conseguirem-se algumas credenciais, o quão violento pode ser o lidar com alguns seguranças, privados ou não. Ou quanta frustração pode estar (e em regra está) atrás de cada fotografia de sucesso!
Assim, e tal como sucede com as princesas, desportistas e gente do mundo do espectáculo e cinema, há uma tentativa de imitar os ídolos.
Acontece, porém, que fazer uma imagem é fácil, cada vez mais fácil. Uma câmara de média gama não custa uma fortuna, um computador para pós-tratamento também não e sabemos os que são programas pirateados, Desta forma, cada disparo em digital é a custo zero, depois de adquiridos os equipamentos de base. E a luz e o mundo estão aí para serem captados. Cada um à sua medida pode imitar os seus ídolos.
Por outro lado, o acesso à divulgação da fotografia era, até há uns tempos, difícil. Implicava arranjar uma galeria (e respectivo galerista) que estivesse na disposição de disponibilizar tempo e espaço ou uma revista ou jornal (com o respectivo editor fotográfico) que estive disposto a arriscar publicar.
Para além de os espaços físicos ou os de imprensa não serem assim tantos quanto isso, há ainda que passar pelos crivos dos galeristas, que decidem o que se pode ou não vender ou expor, o que é “arte” ou não é, bem como os editores fotográficos dos periódicos, que decidem se as imagens estão ou não em consonância com a linha editorial em causa ou com os artigos a ilustrar.
Hoje, os únicos filtros existentes são, ou podem ser, apenas as decisões dos fotógrafos, o ter-se acesso à web e uma conta num qualquer flickr. As escolhas do que se publica são, em exclusivo, dos autores dos trabalhos, sem qualquer outro aconselhamento ou decisão. O que faz com que as escolhas do que é colocado on-line se baseiem nos gostos e capacidades dos fotógrafos, seja qual for o seu “calibre”, e não nas opiniões de “lentes” e comerciantes, cuja opinião depende do seu conservadorismo, das modas estéticas vigentes e da capacidade de venda dos trabalhos. Sejam estes bons ou maus.
Mas também devemos considerar a quantidade de imagens que se produzem e os motivos de tal produção. É que, para além do custo zero e da facilidade de exibição, existe a efemeridade de cada fotografia.
Até há alguns anos, o consumo de fotografia fazia-se nas galerias e museus ou nos livros e revistas. E ia-se a exposições com o intuito de degustar o que lá estivesse, ou comprava-se a publicação com o mesmo objectivo. E se uma visita a um museu ou galeria fica na memória do visitante, as publicações ficam nas caixas ou estantes, sempre disponíveis para uma revisitação ou consulta. Por necessidade ou pelo simples prazer de ver trabalhos de que gostamos. Ou, melhor ainda, passear numa livraria, encontrar “velhos amigos” ou “ novos conhecidos” nas prateleiras e ter o prazer de as levar para casa e com eles passar uns bons momentos. Ou de com eles aprender algo mais.
Em alternativa, na web gastam-se uns escassos segundos a ver uma imagem, para logo de seguida se passar à seguinte, que são muitas por ali e há sempre outras para serem vistas. E, quantas mais são vistas, menos na memória se nos ficam. Meia hora depois de se iniciar esse périplo, de quantas nos recordamos? Ou do nome dos autores?
E se, enquanto consumidores de imagens, o sabemos, enquanto produtores de imagens igualmente. E para que o trabalho de cada um, seja produtor comum ou amador, ou um “expert” ou profissional, há que apresentar quantidade, por vezes mais que qualidade. Ser-se o último a publicar na web, no blog, no flickr (seja ele qual for), por forma a que essas imagens fiquem na página de entrada ou nos favoritos dos visitantes para que, de algum modo, fiquem em evidência. E serem visitadas ou vistas, tão assiduamente que fiquem na memória e se evidenciem na mol de fotografias vistas.
Sabemos também que, em regra, a quantidade é inimiga da qualidade. E o fotógrafo comum acaba por se repetir, ou repetir as fórmulas que conhece como eficazes na comunicação fotográfica, nesse seu anseio de ser conhecido e visto.
Para alicerçar a expressão “bombástica “No flickr as fotografias são todas iguais”, devemos considerar também nós mesmos, os que vemos essas tais fotografias.
De tantas imagens que vemos, mesmo que todas difiram em estéticas, técnicas e conceitos, acabamos por ter uma noção do todo e não das partes e, porque somos humanos e preguiçosos, um padrão no que vemos. Um padrão de heterogeneidade do qual é difícil de sair. Do qual é difícil de sairmos!
Por muito que nós mesmos possamos saber da matéria, tanto de estética como de técnica ou ainda de semiótica, findo um pedaço de “surfar” nos flickrs, acabamos por ficar com uma espécie de névoa, de criar padrões de análise que nos conduzem, inexoravelmente, a classificações minimalistas e uniformes. E ficarmos com essa tal ideia de que “no flickr as fotografias são todas iguais”.
Mas para fazermos essa análise das fotografias do flickr, ou de quaisquer outras fotografias ou de qualquer outra forma de expressão pessoal, haverá que abandonar os nossos próprios conceitos de estética e de qualidade e analisar os conceitos inerentes aos autores, bem assim como os contextos em que se inserem. À revelia do que afirma Popper, no seu excelso “Mito do contexto”.
Os fotógrafos que nos ficam na memória são, muito naturalmente, os muito bons, alguns mesmo génios. E a genialidade não se encontra nas farmácias ou na foz de um rio. É aquilo que alguns, poucos, têm e que muitos tentam imitar. E são esses muitos que enchem as páginas web. E que se esforçam por fazer melhor e/ou diferente as fotografias que apresentam. Sujeitos às limitações interiores que possuem. E às limitações que a vida lhes impõe: Não saem dos seus bairros, cidades, países, fotografam fora das horas de trabalho ou quando não há deveres familiares ou escolares a cumprir.
Ou, para ir ainda mais longe, estão formatados pela cultura em que se inserem, quer seja a apreendida nas publicações impressas, quer seja a apreendida nas publicações electrónicas. Ou ainda na TV e no cinema. Como seja a ditadura do número de ouro ou a imposição do espaço útil com quatro cantos em ângulo recto.
Para já não falar nas questões afectas aos respectivos países e regiões do globo. Com as suas cores saturadas, composições e assuntos mais agressivos, constatáveis nos climas quentes, ou as cores mais pastel e assuntos e estéticas mais tranquilos, visíveis nos autores de países mais frios. Ou a existência ou ausência de estabilidade sócio-económico-política que nesses países se possa viver.
Até porque sabemos que a inovação advém da inquietude e esta tanto pode ser endógena como exógena!
Não se pode deixar de parte a questão da facilidade da produção fotográfica. Se hoje basta ter a câmara, fazer click e os automatismos de fabricante fazem quase tudo o resto, se no photoshop a tentativa e erro são inconsequentes que os originais não se perdem ou destroem, assim não era até há algum tempo atrás. O grau de conhecimento sobre películas, exposição, químicos e afins era tal que só quem a tal actividade se dedicava obtinha satisfação no seu trabalho. Por outro lado, o custo de cada trabalho, aliado ao trabalho que cada imagem implicava eram de tal monta, bem como o tempo que mediava entre o fotografar e o ver a fotografia, que o simples premir do obturador obrigava à existência de muitas certezas nas decisões e gestos. E a uma razoável antevisão mental do resultado final.
Obrigavam a pensar a fotografia e no acto fotográfico. O que hoje é incomum de encontrar.
Claro que, no meio de todas estas considerações, para que a expressão ”No flickr todas as fotografias são iguais”, há ainda que pensar no que é o flickr. Ou o que são os espaços de publicação de fotografias na web, tenham o nome que tiverem.
Muito frequentemente, e bem mais do que se poderia esperar ou gostar, estes espaços são mais pontos de encontro social que galerias virtuais de fotografia. Usando a imagem, fotográfica ou não, busca-se reconhecimento de capacidades, pares no pensamento, um “lugar ao sol” ou tão só a quebra de solidão.
Sintomático de tal são os comentários deixados nas imagens publicadas e quem os deixa. Uma grande maioria é do género “Gostei!” ou equivalente e escritos por quem constar na lista de favoritos de quem é comentado. O número de visitas ao espaço de cada um depende, sem sombra de dúvida, do número de comentários feitos a outros e da quantidade de “adicionados”. As galerias virtuais são vistas em circuito fechado, criando-se grupos de interesse que não dependem da qualidade das imagens expostas mas tão só da assiduidade com que se comenta e se publicam novas fotografias. E, uma vez mais, a quantidade é sobrevalorizada em relação à qualidade.
Nestas circunstâncias, é natural vir a constatar as semelhanças dos trabalhos exibidos. As temáticas ficam restritas ao grupo, as estéticas também, para já não falar nas linguagens de imagem empregues.
Deverá ainda considerar-se um outro aspecto, vital do meu ponto de vista:
A esmagadora maioria das fotografias na web são produzidas por gente jovem. Porque é moda o uso das tecnologias de informação; porque é moda o uso da fotografia; porque é uma forma de comunicação no grupo a que se pertence ou se almeja pertencer.
Acontece, porém, que o órgão da visão é o ultimo a ficar completo. Em termos de maturidade fisiológica e em termos de maturidade de percepção. Ao invés do que acontece com a audição, a primeira a surgir, a que mais cedo se completa. E a comunicação sonora é a que mais cedo se pratica, até porque dispensa o contacto físico ou o uso de qualquer instrumento. Dir-se-ia que é a mais “animal”.
E porque a visão mais tarde se completa e mais complexa é, o seu uso exige mais prática, mais maturação do indivíduo, fruto das experiências e da vivência.
Por isso mesmo, é muito mais comum encontrar-se quem tenha sucesso na comunicação sonora ainda jovem, ao invés da comunicação visual, seja fotografia, pintura, cinema ou teatro, onde esse sucesso acontece bem mais tarde na vida.
Com todo este “discurso” sobre a eventual normalização das fotografias no flickr, não estou, de forma alguma, a retirar importância ou qualidade ao que ali é exposto. Tanto uma como outra, como em qualquer forma de expressão pessoal, devem ser avaliadas em função de quem as faz, bem mais que em função das regras ou modas em vigor.
Ao longo dos anos em que estive no papel de professor de fotografia e vídeo (prefiro usar o termo “ajudante de aprendizagem”!), a avaliação dos trabalhos que me eram apresentados era feita em função dos objectivos que aluno tinha com cada trabalho e em função da evolução que cada um apresentava ao longo do tempo. Considerando a mensagem que se pretendia transmitir e a eficácia com que ela era recebida no grupo a que se destinava.
Que uma fotografia pode ser particularmente boa, eficaz na comunicação e original em forma e conteúdo e ser, ao mesmo tempo, pouco ou nada apreciada fora do contexto a que se destina. Grupo etário, grupo social, grupo cultural. Quem quer que esteja fora dele e olhe para o conjunto dos trabalhos apresentados, verá uniformidade no conjunto, poucas diferenças ou originalidades. E cada uma ser igual às demais. Mas, dentro do grupo de destino, cada uma poderá ser a melhor, a mais comunicativa, a que mais sentimentos ou mensagens fará passar.
Caberá ao fotógrafo em causa, aprendiz numa escola, Freelancer, assalariado de uma publicação ou utente assíduo de um qualquer flickr, decidir se os trabalhos que apresenta se destinam ao publico em geral se a um grupo restrito com o qual se identifique.
E caberá a quem as analise, interpretar esses destinos e saber avaliar em função deles e não apenas com base nas regras e códigos aceites pela maioria. Para já não referir a questão de essa “maioria” ser ocidental, do médio-oriente ou do extremo-oriente. Que, para além de uma avaliação incompleta e, consequentemente, incorrecta, será castrante para quem a receba. E castrante na criatividade e capacidade de comunicação.
No meio de tudo isto onde fica a arte?
Tenho que admitir que eu mesmo não sei, até porque não sei o que é “Arte”, fotográfica ou outra.
Mas, sobre esta questão apenas, muito haveria que dizer e já aqui não tenho espaço nem o leitor paciência.
Para finalizar, repito que tudo o acima escrito não passa de uma síntese sobre a matéria. E, a par com a criatividade, o poder de síntese não é uma das minhas qualidades.
Espero, no entanto, ter-me feito entender a quem por aqui passar e tenha a coragem de tudo isto ler.
Texto e imagem: by me
“Todas as imagens que hoje vemos, especialmente as postadas nos flickrs são todas absolutamente iguais.”
E concluiu o autor com uma outra, repleta de ironia:
“Na verdade, vivemos hoje uma estética flickeriana pós-moderna!”.
Estas duas afirmações mexem fundo comigo e sobre elas não posso deixar de aqui colocar o que penso, em concordância e em discordância.
Entenda-se, no entanto, que tento aqui ser sintético, o que não apenas não é fácil com este tema como não é uma característica que eu mesmo possua.
Comecemos por pensar no que o cidadão comum pensa ser um fotógrafo dito “profissional”.
É aquele que, qual caçador solitário, vai a lugares exóticos ou situações perigosas, e regressa com troféus sob a forma de fotografias. Ou aquele que priva com as beldades, aquelas que enchem o olho e que, ainda por cima, lhes diz o que fazerem e como se exibirem. Ou ainda, é aquele que está onde estão os grandes, os decisores, os que governam o mundo. É alguém que, por ser fotógrafo, é um privilegiado.
Claro está que esse tal cidadão comum ignora o quão difícil é aceder-se a alguns lugares, o quão complicado é conseguirem-se algumas credenciais, o quão violento pode ser o lidar com alguns seguranças, privados ou não. Ou quanta frustração pode estar (e em regra está) atrás de cada fotografia de sucesso!
Assim, e tal como sucede com as princesas, desportistas e gente do mundo do espectáculo e cinema, há uma tentativa de imitar os ídolos.
Acontece, porém, que fazer uma imagem é fácil, cada vez mais fácil. Uma câmara de média gama não custa uma fortuna, um computador para pós-tratamento também não e sabemos os que são programas pirateados, Desta forma, cada disparo em digital é a custo zero, depois de adquiridos os equipamentos de base. E a luz e o mundo estão aí para serem captados. Cada um à sua medida pode imitar os seus ídolos.
Por outro lado, o acesso à divulgação da fotografia era, até há uns tempos, difícil. Implicava arranjar uma galeria (e respectivo galerista) que estivesse na disposição de disponibilizar tempo e espaço ou uma revista ou jornal (com o respectivo editor fotográfico) que estive disposto a arriscar publicar.
Para além de os espaços físicos ou os de imprensa não serem assim tantos quanto isso, há ainda que passar pelos crivos dos galeristas, que decidem o que se pode ou não vender ou expor, o que é “arte” ou não é, bem como os editores fotográficos dos periódicos, que decidem se as imagens estão ou não em consonância com a linha editorial em causa ou com os artigos a ilustrar.
Hoje, os únicos filtros existentes são, ou podem ser, apenas as decisões dos fotógrafos, o ter-se acesso à web e uma conta num qualquer flickr. As escolhas do que se publica são, em exclusivo, dos autores dos trabalhos, sem qualquer outro aconselhamento ou decisão. O que faz com que as escolhas do que é colocado on-line se baseiem nos gostos e capacidades dos fotógrafos, seja qual for o seu “calibre”, e não nas opiniões de “lentes” e comerciantes, cuja opinião depende do seu conservadorismo, das modas estéticas vigentes e da capacidade de venda dos trabalhos. Sejam estes bons ou maus.
Mas também devemos considerar a quantidade de imagens que se produzem e os motivos de tal produção. É que, para além do custo zero e da facilidade de exibição, existe a efemeridade de cada fotografia.
Até há alguns anos, o consumo de fotografia fazia-se nas galerias e museus ou nos livros e revistas. E ia-se a exposições com o intuito de degustar o que lá estivesse, ou comprava-se a publicação com o mesmo objectivo. E se uma visita a um museu ou galeria fica na memória do visitante, as publicações ficam nas caixas ou estantes, sempre disponíveis para uma revisitação ou consulta. Por necessidade ou pelo simples prazer de ver trabalhos de que gostamos. Ou, melhor ainda, passear numa livraria, encontrar “velhos amigos” ou “ novos conhecidos” nas prateleiras e ter o prazer de as levar para casa e com eles passar uns bons momentos. Ou de com eles aprender algo mais.
Em alternativa, na web gastam-se uns escassos segundos a ver uma imagem, para logo de seguida se passar à seguinte, que são muitas por ali e há sempre outras para serem vistas. E, quantas mais são vistas, menos na memória se nos ficam. Meia hora depois de se iniciar esse périplo, de quantas nos recordamos? Ou do nome dos autores?
E se, enquanto consumidores de imagens, o sabemos, enquanto produtores de imagens igualmente. E para que o trabalho de cada um, seja produtor comum ou amador, ou um “expert” ou profissional, há que apresentar quantidade, por vezes mais que qualidade. Ser-se o último a publicar na web, no blog, no flickr (seja ele qual for), por forma a que essas imagens fiquem na página de entrada ou nos favoritos dos visitantes para que, de algum modo, fiquem em evidência. E serem visitadas ou vistas, tão assiduamente que fiquem na memória e se evidenciem na mol de fotografias vistas.
Sabemos também que, em regra, a quantidade é inimiga da qualidade. E o fotógrafo comum acaba por se repetir, ou repetir as fórmulas que conhece como eficazes na comunicação fotográfica, nesse seu anseio de ser conhecido e visto.
Para alicerçar a expressão “bombástica “No flickr as fotografias são todas iguais”, devemos considerar também nós mesmos, os que vemos essas tais fotografias.
De tantas imagens que vemos, mesmo que todas difiram em estéticas, técnicas e conceitos, acabamos por ter uma noção do todo e não das partes e, porque somos humanos e preguiçosos, um padrão no que vemos. Um padrão de heterogeneidade do qual é difícil de sair. Do qual é difícil de sairmos!
Por muito que nós mesmos possamos saber da matéria, tanto de estética como de técnica ou ainda de semiótica, findo um pedaço de “surfar” nos flickrs, acabamos por ficar com uma espécie de névoa, de criar padrões de análise que nos conduzem, inexoravelmente, a classificações minimalistas e uniformes. E ficarmos com essa tal ideia de que “no flickr as fotografias são todas iguais”.
Mas para fazermos essa análise das fotografias do flickr, ou de quaisquer outras fotografias ou de qualquer outra forma de expressão pessoal, haverá que abandonar os nossos próprios conceitos de estética e de qualidade e analisar os conceitos inerentes aos autores, bem assim como os contextos em que se inserem. À revelia do que afirma Popper, no seu excelso “Mito do contexto”.
Os fotógrafos que nos ficam na memória são, muito naturalmente, os muito bons, alguns mesmo génios. E a genialidade não se encontra nas farmácias ou na foz de um rio. É aquilo que alguns, poucos, têm e que muitos tentam imitar. E são esses muitos que enchem as páginas web. E que se esforçam por fazer melhor e/ou diferente as fotografias que apresentam. Sujeitos às limitações interiores que possuem. E às limitações que a vida lhes impõe: Não saem dos seus bairros, cidades, países, fotografam fora das horas de trabalho ou quando não há deveres familiares ou escolares a cumprir.
Ou, para ir ainda mais longe, estão formatados pela cultura em que se inserem, quer seja a apreendida nas publicações impressas, quer seja a apreendida nas publicações electrónicas. Ou ainda na TV e no cinema. Como seja a ditadura do número de ouro ou a imposição do espaço útil com quatro cantos em ângulo recto.
Para já não falar nas questões afectas aos respectivos países e regiões do globo. Com as suas cores saturadas, composições e assuntos mais agressivos, constatáveis nos climas quentes, ou as cores mais pastel e assuntos e estéticas mais tranquilos, visíveis nos autores de países mais frios. Ou a existência ou ausência de estabilidade sócio-económico-política que nesses países se possa viver.
Até porque sabemos que a inovação advém da inquietude e esta tanto pode ser endógena como exógena!
Não se pode deixar de parte a questão da facilidade da produção fotográfica. Se hoje basta ter a câmara, fazer click e os automatismos de fabricante fazem quase tudo o resto, se no photoshop a tentativa e erro são inconsequentes que os originais não se perdem ou destroem, assim não era até há algum tempo atrás. O grau de conhecimento sobre películas, exposição, químicos e afins era tal que só quem a tal actividade se dedicava obtinha satisfação no seu trabalho. Por outro lado, o custo de cada trabalho, aliado ao trabalho que cada imagem implicava eram de tal monta, bem como o tempo que mediava entre o fotografar e o ver a fotografia, que o simples premir do obturador obrigava à existência de muitas certezas nas decisões e gestos. E a uma razoável antevisão mental do resultado final.
Obrigavam a pensar a fotografia e no acto fotográfico. O que hoje é incomum de encontrar.
Claro que, no meio de todas estas considerações, para que a expressão ”No flickr todas as fotografias são iguais”, há ainda que pensar no que é o flickr. Ou o que são os espaços de publicação de fotografias na web, tenham o nome que tiverem.
Muito frequentemente, e bem mais do que se poderia esperar ou gostar, estes espaços são mais pontos de encontro social que galerias virtuais de fotografia. Usando a imagem, fotográfica ou não, busca-se reconhecimento de capacidades, pares no pensamento, um “lugar ao sol” ou tão só a quebra de solidão.
Sintomático de tal são os comentários deixados nas imagens publicadas e quem os deixa. Uma grande maioria é do género “Gostei!” ou equivalente e escritos por quem constar na lista de favoritos de quem é comentado. O número de visitas ao espaço de cada um depende, sem sombra de dúvida, do número de comentários feitos a outros e da quantidade de “adicionados”. As galerias virtuais são vistas em circuito fechado, criando-se grupos de interesse que não dependem da qualidade das imagens expostas mas tão só da assiduidade com que se comenta e se publicam novas fotografias. E, uma vez mais, a quantidade é sobrevalorizada em relação à qualidade.
Nestas circunstâncias, é natural vir a constatar as semelhanças dos trabalhos exibidos. As temáticas ficam restritas ao grupo, as estéticas também, para já não falar nas linguagens de imagem empregues.
Deverá ainda considerar-se um outro aspecto, vital do meu ponto de vista:
A esmagadora maioria das fotografias na web são produzidas por gente jovem. Porque é moda o uso das tecnologias de informação; porque é moda o uso da fotografia; porque é uma forma de comunicação no grupo a que se pertence ou se almeja pertencer.
Acontece, porém, que o órgão da visão é o ultimo a ficar completo. Em termos de maturidade fisiológica e em termos de maturidade de percepção. Ao invés do que acontece com a audição, a primeira a surgir, a que mais cedo se completa. E a comunicação sonora é a que mais cedo se pratica, até porque dispensa o contacto físico ou o uso de qualquer instrumento. Dir-se-ia que é a mais “animal”.
E porque a visão mais tarde se completa e mais complexa é, o seu uso exige mais prática, mais maturação do indivíduo, fruto das experiências e da vivência.
Por isso mesmo, é muito mais comum encontrar-se quem tenha sucesso na comunicação sonora ainda jovem, ao invés da comunicação visual, seja fotografia, pintura, cinema ou teatro, onde esse sucesso acontece bem mais tarde na vida.
Com todo este “discurso” sobre a eventual normalização das fotografias no flickr, não estou, de forma alguma, a retirar importância ou qualidade ao que ali é exposto. Tanto uma como outra, como em qualquer forma de expressão pessoal, devem ser avaliadas em função de quem as faz, bem mais que em função das regras ou modas em vigor.
Ao longo dos anos em que estive no papel de professor de fotografia e vídeo (prefiro usar o termo “ajudante de aprendizagem”!), a avaliação dos trabalhos que me eram apresentados era feita em função dos objectivos que aluno tinha com cada trabalho e em função da evolução que cada um apresentava ao longo do tempo. Considerando a mensagem que se pretendia transmitir e a eficácia com que ela era recebida no grupo a que se destinava.
Que uma fotografia pode ser particularmente boa, eficaz na comunicação e original em forma e conteúdo e ser, ao mesmo tempo, pouco ou nada apreciada fora do contexto a que se destina. Grupo etário, grupo social, grupo cultural. Quem quer que esteja fora dele e olhe para o conjunto dos trabalhos apresentados, verá uniformidade no conjunto, poucas diferenças ou originalidades. E cada uma ser igual às demais. Mas, dentro do grupo de destino, cada uma poderá ser a melhor, a mais comunicativa, a que mais sentimentos ou mensagens fará passar.
Caberá ao fotógrafo em causa, aprendiz numa escola, Freelancer, assalariado de uma publicação ou utente assíduo de um qualquer flickr, decidir se os trabalhos que apresenta se destinam ao publico em geral se a um grupo restrito com o qual se identifique.
E caberá a quem as analise, interpretar esses destinos e saber avaliar em função deles e não apenas com base nas regras e códigos aceites pela maioria. Para já não referir a questão de essa “maioria” ser ocidental, do médio-oriente ou do extremo-oriente. Que, para além de uma avaliação incompleta e, consequentemente, incorrecta, será castrante para quem a receba. E castrante na criatividade e capacidade de comunicação.
No meio de tudo isto onde fica a arte?
Tenho que admitir que eu mesmo não sei, até porque não sei o que é “Arte”, fotográfica ou outra.
Mas, sobre esta questão apenas, muito haveria que dizer e já aqui não tenho espaço nem o leitor paciência.
Para finalizar, repito que tudo o acima escrito não passa de uma síntese sobre a matéria. E, a par com a criatividade, o poder de síntese não é uma das minhas qualidades.
Espero, no entanto, ter-me feito entender a quem por aqui passar e tenha a coragem de tudo isto ler.
Texto e imagem: by me
domingo, 2 de agosto de 2009
Papa-açorda

Todos os ofícios têm o seu quê de rotineiro. Mesmo os mais criativos, no quotidiano têm rotinas, actos ou métodos que são iguais em cada dia, em cada truque.
Mesmo um actor, dos que trabalham na rua interagindo com o público e dele dependendo para a sua perfomance, tem rotinas, deixas, gestos, reacções que são previsíveis porque iguais e repetidas. Já tive oportunidade de ver alguns a representar e, passado algum tempo e por muito bons e divertidos que sejam, acabamos por saber o que irá fazer com este ou aquele transeunte, o que lhe irá dizer, de que forma o irá mimar ou provocar. E trata-se de uma actividade bem criativa, onde o improviso é, em boa parte, a chave do sucesso.
O invés também é verdade. Por muito rotineira que possa ser uma profissão, há sempre oportunidade de se ser criativo, inovador, marcar pela diferença no que é feito. Quantidade, qualidade, perfeição. Querer e conseguir ir mais longe e melhor, nem que seja pelo simples, se simples é, de fazer de cada dia um diferente, competindo consigo mesmo e conseguir surpreender-se com os resultados.
Um destes dias tive uma dúvida de trabalho. Aquilo que venho fazendo faz algum tempo é ligeiramente diferente do que os meus companheiros fazem. É só um niquinho, mas é diferente.
Nestas circunstâncias sou assaltado por dúvidas: sei justificar o que faço mas, sendo diferente dos demais, estarei a fazê-lo bem feito? Ou estarei a cometer sistematicamente um erro?
Para tirar estas dúvidas (e criar novas, em regra) o melhor mesmo é trocar opiniões com companheiros de ofício. Ventilar ideias, criar conclusões, nem que sejam que estamos todos certos, ou todos errados, e que a diferença não é nem boa nem má.
Pois de um dos que consultei recebi como resposta que preferia a outra solução. E, questionado sobre o porquê da preferência, deixou-me esclarecido a seu respeito:
“Foi assim que me ensinaram!”
Emitir uma opinião com base no “sempre assim se fez” é mau! Denota incapacidade de ponderar, evoluir, mudar, procurar algo de melhor que, quanto mais não seja, possa não ser rotineiro.
Mas dizer “foi assim que me ensinaram” em vez de “foi assim que aprendi” é um transpor de responsabilidades, é um assumir não ter opinião própria, é um aceitar que faz o que faz apenas como imitador dos restantes, pouco lhe importando a validade do que está a ser feito.
Este exemplo, lamentavelmente real, é apenas mais um no meio de tantos outros que podemos encontrar a cada passo: o alijar de responsabilidades, o dar continuidade apenas porque é tradição, o não aceitar nem nada fazer em prol da inovação, da evolução. E o conformar-se com uma rotina cinzenta e entediante. Ser-se estático na vida!
Um pouco como uma refeição tomada num restaurante franshisado: tanto o conteúdo da ementa como paladar do que engolimos, não nos surpreende, nem pela negativa nem pela positiva.
Uma papa-açorda sempre igual, até ao tédio final!
Texto e imagem: by me
Mesmo um actor, dos que trabalham na rua interagindo com o público e dele dependendo para a sua perfomance, tem rotinas, deixas, gestos, reacções que são previsíveis porque iguais e repetidas. Já tive oportunidade de ver alguns a representar e, passado algum tempo e por muito bons e divertidos que sejam, acabamos por saber o que irá fazer com este ou aquele transeunte, o que lhe irá dizer, de que forma o irá mimar ou provocar. E trata-se de uma actividade bem criativa, onde o improviso é, em boa parte, a chave do sucesso.
O invés também é verdade. Por muito rotineira que possa ser uma profissão, há sempre oportunidade de se ser criativo, inovador, marcar pela diferença no que é feito. Quantidade, qualidade, perfeição. Querer e conseguir ir mais longe e melhor, nem que seja pelo simples, se simples é, de fazer de cada dia um diferente, competindo consigo mesmo e conseguir surpreender-se com os resultados.
Um destes dias tive uma dúvida de trabalho. Aquilo que venho fazendo faz algum tempo é ligeiramente diferente do que os meus companheiros fazem. É só um niquinho, mas é diferente.
Nestas circunstâncias sou assaltado por dúvidas: sei justificar o que faço mas, sendo diferente dos demais, estarei a fazê-lo bem feito? Ou estarei a cometer sistematicamente um erro?
Para tirar estas dúvidas (e criar novas, em regra) o melhor mesmo é trocar opiniões com companheiros de ofício. Ventilar ideias, criar conclusões, nem que sejam que estamos todos certos, ou todos errados, e que a diferença não é nem boa nem má.
Pois de um dos que consultei recebi como resposta que preferia a outra solução. E, questionado sobre o porquê da preferência, deixou-me esclarecido a seu respeito:
“Foi assim que me ensinaram!”
Emitir uma opinião com base no “sempre assim se fez” é mau! Denota incapacidade de ponderar, evoluir, mudar, procurar algo de melhor que, quanto mais não seja, possa não ser rotineiro.
Mas dizer “foi assim que me ensinaram” em vez de “foi assim que aprendi” é um transpor de responsabilidades, é um assumir não ter opinião própria, é um aceitar que faz o que faz apenas como imitador dos restantes, pouco lhe importando a validade do que está a ser feito.
Este exemplo, lamentavelmente real, é apenas mais um no meio de tantos outros que podemos encontrar a cada passo: o alijar de responsabilidades, o dar continuidade apenas porque é tradição, o não aceitar nem nada fazer em prol da inovação, da evolução. E o conformar-se com uma rotina cinzenta e entediante. Ser-se estático na vida!
Um pouco como uma refeição tomada num restaurante franshisado: tanto o conteúdo da ementa como paladar do que engolimos, não nos surpreende, nem pela negativa nem pela positiva.
Uma papa-açorda sempre igual, até ao tédio final!
Texto e imagem: by me
sábado, 1 de agosto de 2009
Na boca das crianças...

No quiosque da estação do meu bairro, ao comprar a dose diária de cigarros, interpelo as mocinhas que ali trabalham:
“Porque raio, sendo hoje dia 1 de Agosto, início de férias, de sol, de calor, de praia, está a chover? Expliquem-me!”
A resposta não se fez esperar:
“Porque andamos a dar cabo do planeta e agora ele está a vingar-se! É a explicação do meu irmão de onze anos.”
Na boca das crianças a verdade!
Texto e imagem: by me
“Porque raio, sendo hoje dia 1 de Agosto, início de férias, de sol, de calor, de praia, está a chover? Expliquem-me!”
A resposta não se fez esperar:
“Porque andamos a dar cabo do planeta e agora ele está a vingar-se! É a explicação do meu irmão de onze anos.”
Na boca das crianças a verdade!
Texto e imagem: by me
"Premenores" da língua
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Como se faz?

Já fotografei gente de todas as cores e continentes, idades e condições sociais.
Quer seja no deambular em busca de, quer seja no ficar quedo à espera que, o género humano vai ficando registado nas minhas películas, pixels ou neurónios.
Há, no entanto, um grupo de pessoas que nunca fotografei, para quem nunca dirigi a minha objectiva e com quem não sei se alguma vez me relacionarei fotograficamente.
E não apenas pelo pouco, se algum, interesse que essas pessoas têm pelo que faço mas, e principalmente, pelos escrúpulos que tenho em os fotografar. Que fotografar alguém sem o seu consentimento ou, no mínimo, sem o seu conhecimento, não é nem bonito nem respeitoso da sua liberdade de existir e viver.
E muito menos o será se os fotografados não puderem, de algum modo, reagir ao resultado do que faço, quer seja pelo agrado ou desagrado, quer seja pelo simples facto de lhes não ser possível ver as respectivas fotografias. Em circunstancia alguma.
Refiro-me a cegos!
Como se pode pedir a um cego que seja fotografado?
Como se pode “roubar” uma fotografia a alguém se esse alguém nem sabe o que lhe foi “roubado”?
Assim, aqui vos deixo a única fotografia que tenho coragem de fazer de um cego.
Talvez um dia, se inventarem fotografias em Braille…
Texto e imagem: by me
Quer seja no deambular em busca de, quer seja no ficar quedo à espera que, o género humano vai ficando registado nas minhas películas, pixels ou neurónios.
Há, no entanto, um grupo de pessoas que nunca fotografei, para quem nunca dirigi a minha objectiva e com quem não sei se alguma vez me relacionarei fotograficamente.
E não apenas pelo pouco, se algum, interesse que essas pessoas têm pelo que faço mas, e principalmente, pelos escrúpulos que tenho em os fotografar. Que fotografar alguém sem o seu consentimento ou, no mínimo, sem o seu conhecimento, não é nem bonito nem respeitoso da sua liberdade de existir e viver.
E muito menos o será se os fotografados não puderem, de algum modo, reagir ao resultado do que faço, quer seja pelo agrado ou desagrado, quer seja pelo simples facto de lhes não ser possível ver as respectivas fotografias. Em circunstancia alguma.
Refiro-me a cegos!
Como se pode pedir a um cego que seja fotografado?
Como se pode “roubar” uma fotografia a alguém se esse alguém nem sabe o que lhe foi “roubado”?
Assim, aqui vos deixo a única fotografia que tenho coragem de fazer de um cego.
Talvez um dia, se inventarem fotografias em Braille…
Texto e imagem: by me
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Para mais tarde recordar, ou talvez não

O normal de acontecer em torno da minha câmara de madeira é boa disposição e sorrisos, por vezes mesmo gargalhadas.
O que antecede e sucede ao click da função, faço eu para que assim seja, quer aproveitando a surpresa sorridente do fotografado, quer porque tiro partido das recordações agradáveis que a câmara e eu mesmo provocamos, ali se passam uns bons minutos de satisfação.
Foi o caso de um homem, já na casa dos noventas, que me confessou que a primeira fotografia que fez foi numa câmara destas, tinha ele 14 anos, vestindo o primeiro fato que possuiu. Foi fazê-la ao Campo Grande, em Lisboa, que era mais barato que nos outros fotógrafos de rua e muito mais barato que nos de loja. E fez, a pé, o percurso do Bairro Alto ao Campo Grande para não pagar o bilhete, que trabalhava 18 horas por dia numa taberna do bairro, morando por cima, emprego bom, à época, para quem chegou da província para sobreviver.
Faz tempo que não o vejo por ali, pelo Jardim da Estrela.
Foi também o caso daquela senhora idosa, frequentadora diária daquelas sombras e bancos de madeira, que comentou, um destes dias, para as amigas com quem estava, que já ali havia feito uma fotografia. E, em tom bem mais alto, para que eu a ouvisse, afirmou: “Ainda a tenho! É uma recordação…!”
Falta-me saber o que aquela fotografia lhe recorda, já que foi feita ainda não há três meses.
Mas nem sempre o que acontece por ali, relacionado com a minha “Oldfashion”, é assim agradável ou bom de recordar.
Um destes, dias, a uns bancos de distância do meu poiso, um homem e uma mulher discutiam. A bem dizer, era mais um monólogo que uma discussão.
Ele, com uns bons 25 anos a mais que ela, estava sentado, sem dizer o que quer que fosse, intercalando o olhar distante para o horizonte urbano com o levar à boca para umas goladas a garrafa de vinho que tinha na mão.
Ela, de pé à sua frente, reclamava ora em tom baixo, ora audível de onde eu me encontrava, que queria o cartão, que o cartão era dela.
A dado passo, oiço-o retorquir-lhe. “Olha! Vai mas é ali fazer uma fotografia!”, ao mesmo tempo que acenava com a cabeça para o meu lado.
Foi uma estreia, já que do muito que já ouvi sobre fotografia no geral e sobre a minha câmara em particular, nunca nada foi em tom de insulto ou como substituto de palavrão. E fiquei sem saber de que cartão se tratava, se de telemóvel se de Multibanco, que se foram embora sem que a questão ficasse resolvida, ao que me pareceu.
Mas, mais ou menos na mesma altura, não me recordo do dia exacto, um casal com criança de colo passam por mim. Ela a falar em tom baixo, mas ríspido, ele a tentar sorrir enquanto empurrava o carrinho da cachopita.
Parou ele, questionou o que é costume questionar e quis fazer o retrato. De família. Todos a sorrir como é da tradição. Esforço vão, que ela não o quis e a fotografia ficou-se por dois terços dos visitantes. Enquanto ela, de parte, mantinha o cenho franzido.
E mais ficou quando a viu, à fotografia, e confirmou o preço pedido: coisa nenhuma.
Quando se afastaram, continuou ela o discurso interrompido, por palavras e gestos, e continuou ele a tentar sorrir.
Desta feita, o fazer de uma fotografia não provocou nenhum sorriso. E não creio que, passados tempos, meses ou anos, sorriam pela recordação. Que há coisas que não são “Para mais tarde recordar!”
Texto e imagem: by me
O que antecede e sucede ao click da função, faço eu para que assim seja, quer aproveitando a surpresa sorridente do fotografado, quer porque tiro partido das recordações agradáveis que a câmara e eu mesmo provocamos, ali se passam uns bons minutos de satisfação.
Foi o caso de um homem, já na casa dos noventas, que me confessou que a primeira fotografia que fez foi numa câmara destas, tinha ele 14 anos, vestindo o primeiro fato que possuiu. Foi fazê-la ao Campo Grande, em Lisboa, que era mais barato que nos outros fotógrafos de rua e muito mais barato que nos de loja. E fez, a pé, o percurso do Bairro Alto ao Campo Grande para não pagar o bilhete, que trabalhava 18 horas por dia numa taberna do bairro, morando por cima, emprego bom, à época, para quem chegou da província para sobreviver.
Faz tempo que não o vejo por ali, pelo Jardim da Estrela.
Foi também o caso daquela senhora idosa, frequentadora diária daquelas sombras e bancos de madeira, que comentou, um destes dias, para as amigas com quem estava, que já ali havia feito uma fotografia. E, em tom bem mais alto, para que eu a ouvisse, afirmou: “Ainda a tenho! É uma recordação…!”
Falta-me saber o que aquela fotografia lhe recorda, já que foi feita ainda não há três meses.
Mas nem sempre o que acontece por ali, relacionado com a minha “Oldfashion”, é assim agradável ou bom de recordar.
Um destes, dias, a uns bancos de distância do meu poiso, um homem e uma mulher discutiam. A bem dizer, era mais um monólogo que uma discussão.
Ele, com uns bons 25 anos a mais que ela, estava sentado, sem dizer o que quer que fosse, intercalando o olhar distante para o horizonte urbano com o levar à boca para umas goladas a garrafa de vinho que tinha na mão.
Ela, de pé à sua frente, reclamava ora em tom baixo, ora audível de onde eu me encontrava, que queria o cartão, que o cartão era dela.
A dado passo, oiço-o retorquir-lhe. “Olha! Vai mas é ali fazer uma fotografia!”, ao mesmo tempo que acenava com a cabeça para o meu lado.
Foi uma estreia, já que do muito que já ouvi sobre fotografia no geral e sobre a minha câmara em particular, nunca nada foi em tom de insulto ou como substituto de palavrão. E fiquei sem saber de que cartão se tratava, se de telemóvel se de Multibanco, que se foram embora sem que a questão ficasse resolvida, ao que me pareceu.
Mas, mais ou menos na mesma altura, não me recordo do dia exacto, um casal com criança de colo passam por mim. Ela a falar em tom baixo, mas ríspido, ele a tentar sorrir enquanto empurrava o carrinho da cachopita.
Parou ele, questionou o que é costume questionar e quis fazer o retrato. De família. Todos a sorrir como é da tradição. Esforço vão, que ela não o quis e a fotografia ficou-se por dois terços dos visitantes. Enquanto ela, de parte, mantinha o cenho franzido.
E mais ficou quando a viu, à fotografia, e confirmou o preço pedido: coisa nenhuma.
Quando se afastaram, continuou ela o discurso interrompido, por palavras e gestos, e continuou ele a tentar sorrir.
Desta feita, o fazer de uma fotografia não provocou nenhum sorriso. E não creio que, passados tempos, meses ou anos, sorriam pela recordação. Que há coisas que não são “Para mais tarde recordar!”
Texto e imagem: by me
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Sobre uma notícia

E o texto, lido ontem no telemóvel sentado no comboio a caminho do trabalho, era este:
“Professor condenado a 14 anos por duplo fratricídio
Porto, 27 Julho (Lusa) – O tribunal condenou hoje a 14 anos de prisão o professor que a 12 de Março matou os seus dois irmãos numa padaria, golpeando-os com uma faca.
Ficou provado que Arnaldo F., professor de 54 anos, se deslocou à padaria Formosa, (propriedade da família) na Foz, com o intuito de se reunir com os seus dois irmãos para tratar de assuntos de herança.
Porém, por razões que não foi possível apurar, gerou-se uma discussão durante a qual o arguido empunhou uma faca e atingiu com golpes que lhes provocaram a morte.!”
E a pergunta é a seguinte:
Porque motivo, num texto sintético de 103 palavras sobre um julgamento e os factos com ele relacionados, existe por três vezes a palavra “professor”?
A identificação da actividade profissional do condenado em nada acrescenta ou retira seja o que for aos factos. Ter sido incluída uma vez, para identificar o estrato sócio-económico da pessoa em causa, teria sido suficiente, ainda que na classe de professores existam diversas condicionantes extra para o definir com rigor: o grau de ensino em que exerce, onde o exerce, há quanto tempo, etc.
Estou em crer que a tripla repetição de tal identificação não será inconsequente, tendo como intuito escondido ou motivo inconsciente, o denegrir esta classe profissional que, coincidência ou não, tem sido a que mais contestação tem feito ao actual governo e cujas consequências dos seus actos reinvidicatórios, afectando milhares de famílias por todo o país ao fazerem qualquer tipo de greve.
É assim, com pequenos detalhes quase imperceptíveis, que vai sendo moldada a opinião pública. E o pacato e desatento cidadão, engole o isco, o anzol e a chumbada, ficando assim intoxicado para o acto eleitoral seguinte.
O quarto poder, não democrático porque não sufragado, é exercido de acordo com interesses não confessos, poucas vezes respeitando a ética jornalística que, por sinal, até que está bem descrita nos livros de escola onde o ofício se aprende. Ensinado por professores, pertencentes à tal classe que aqui é denegrida bacocamente.
Texto: by me
Imagem: edit by me
“Professor condenado a 14 anos por duplo fratricídio
Porto, 27 Julho (Lusa) – O tribunal condenou hoje a 14 anos de prisão o professor que a 12 de Março matou os seus dois irmãos numa padaria, golpeando-os com uma faca.
Ficou provado que Arnaldo F., professor de 54 anos, se deslocou à padaria Formosa, (propriedade da família) na Foz, com o intuito de se reunir com os seus dois irmãos para tratar de assuntos de herança.
Porém, por razões que não foi possível apurar, gerou-se uma discussão durante a qual o arguido empunhou uma faca e atingiu com golpes que lhes provocaram a morte.!”
E a pergunta é a seguinte:
Porque motivo, num texto sintético de 103 palavras sobre um julgamento e os factos com ele relacionados, existe por três vezes a palavra “professor”?
A identificação da actividade profissional do condenado em nada acrescenta ou retira seja o que for aos factos. Ter sido incluída uma vez, para identificar o estrato sócio-económico da pessoa em causa, teria sido suficiente, ainda que na classe de professores existam diversas condicionantes extra para o definir com rigor: o grau de ensino em que exerce, onde o exerce, há quanto tempo, etc.
Estou em crer que a tripla repetição de tal identificação não será inconsequente, tendo como intuito escondido ou motivo inconsciente, o denegrir esta classe profissional que, coincidência ou não, tem sido a que mais contestação tem feito ao actual governo e cujas consequências dos seus actos reinvidicatórios, afectando milhares de famílias por todo o país ao fazerem qualquer tipo de greve.
É assim, com pequenos detalhes quase imperceptíveis, que vai sendo moldada a opinião pública. E o pacato e desatento cidadão, engole o isco, o anzol e a chumbada, ficando assim intoxicado para o acto eleitoral seguinte.
O quarto poder, não democrático porque não sufragado, é exercido de acordo com interesses não confessos, poucas vezes respeitando a ética jornalística que, por sinal, até que está bem descrita nos livros de escola onde o ofício se aprende. Ensinado por professores, pertencentes à tal classe que aqui é denegrida bacocamente.
Texto: by me
Imagem: edit by me
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