quarta-feira, 20 de maio de 2020

A morte da história viva




Leio por aí que a Livraria Barata está em risco de fechar.
Tal como ela, muitas outras tiveram este triste fim.
Defende-se o comércio local, o comércio de “bairro”, aquela cara conhecida que nos sugere ou recomenda. Exactamente aquele que já estava em crise e que com a actual vê o seu futuro com demasiadas nuvens negras.
Ter uma livraria por perto é como ter uma mercearia ou padaria por perto. Passamos por lá e, por impulso ou necessidade, trazemos um livro. Que nos vai levar mais longe. No sonho ou no saber.
As grandes superfícies, supermercados ou outras, pecam pela “ignorância” de quem lá vende. Dificilmente sabem algo sobre o autor ou o conteúdo e, se pedimos algo específico e fora dos “best sellers” não têm ou nem sabem se existe.
Recordo com saudade uma livraria no bairro onde vivi. Chamava “o meu livreiro”, ao sr. Augusto. Em lá indo, e dando uma voltinha pelas prateleiras, com vontade de ler mas sem inspiração no momento, dizia-lhe: “Sr. Augusto: ponha-me a ler!”
Perguntava-me ele sobro os dois ou três últimos livros que tinham estado na minha secretária ou mesa-de-cabeceira, parava um pouco e dirigia-se a algum ponto da loja, de onde voltava com um livro. Nunca me arrependi das suas escolhas.
Tal como não esqueço um episódio em procurava uma canção. Sabia-lhe o trautear, sabia-lhe o refrão, mas nem o intérprete nem o nome. Numa discoteca de centro comercial, e face ao meu pedido, a “menina do shopping” decidiu ir consultar a web. Quando lhe disse que há muito que ali procurava e não encontrava, teve uma saída tristemente brilhante: “Então se não está na net não existe!” Não a desenganei.

Fechar (eventualmente) uma libraria de bairro com projecção mais que na capital, no país, e ainda por cima com a história que tem, é morrer um pouco de nós.
Pelo menos de mim, que foi uma das livrarias onde aprendi o prazer de escolher e cobiçar livros e de onde nunca saí frustrado e sempre mais rico.
Em jeito de remate, gostaria de lembrar o seguinte:
Lidos que sejam dois conteúdos distintos, um num livro, outro numa página de web, lembra-se-hão do livro, do local, da capa… mas dificilmente da localização da página, sem mesmo terem a certeza que ainda existe.

Imagem roubada da net
By me

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