quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sapos




Tenho em casa um montão de coisas inúteis e estranhas. Algumas por estrear em frente da minha objectiva. Foi o caso.

Numa dessas caixas fui encontrar uma pequena e bem velha amostra daquilo que terei que engolir daqui a por pouco mais de uma semana.

Mas antes isto, fazendo-me ficar com o estômago aos saltinhos, que a alternativa, que me provocaria diarreia por uns cinco anos.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

Éticas




Foi talvez há um pouco mais de quarenta anos, não posso precisar.

Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.

Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia comprado pouco tempo antes.

Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação.

O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia. E eu era um bocado inexperiente.

O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores.

Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…

E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.

Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.

Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!

Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente, inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser feito como combinado.

Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com argumentos técnicos e estéticos não iriam ser possível fazer boas imagens com a presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por inteiro e sem a presença das operárias.

A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o que eu queria com aquilo.

Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por algumas, não muitas, horas.

As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.

Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este produtor.

Ainda hoje as recordo.

 

 

Nota extra: A fotografia não é da época. Os originais, em diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a correr, para acompanhar o texto.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

Dos invisíveis




De algum modo todos nós acompanhamos a tempestade que atravessou o país. Quer fosse porque se a viveu, quer fosse porque a comunicação dela falou.

Casas destelhadas, gente que morreu, negócios, indústrias, colheitas, áreas inundadas, falência de serviços e bens básicos... de quase tudo se falou e mostrou.

O que ficou de fora das pantalhas e letras, gordas ou magras, foi o que aconteceu aos vivem nos cartões ou frageis tendas.

Esses, os invisíveis que mais não são que os incómodos porque nos abordam à porta do supermercado ou nas esplanadas, a quem se vira a cara e que nem uma negação de ajuda têm direito porque lhes damos as costas, de quem nos desviamos porque o seu aspecto incomoda o nosso sentido de ordem pequeno-burguês, esses invisíveis não eleitores, não cidadãos, não pessoas, sem rosto nem voz, não tiveram nem cinco segundos ou duas linhas na comunicação social.

Que mais grave é o voar do telhado da indústria que a frágil tenda; que mal falam para as câmaras, que vergonha têm de terem perdido os cartões ou de terem os finos cobertores encharcados. E que sabem que as moedinhas à porta do supermercado vão rarear até os telhados se refazerem e as luzes voltarem a iluminar o sofá onde se acede às redes sociais.

Dos fracos não reza a histórias. Nem os noticiários.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


y me

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Final feliz




É um erro comum: confundir “ser fã de” com “ser fanático por”.

No meu caso e fotograficamente falando, pese embora ser fã da marca Pentax, não sou fanático. Nem exclusivo. Este é um exemplo disso.

Eu tinha vinte e qualquer coisa e, já nem sei porque motivo, adquiri uma Rolleiflex SL35. Talvez porque eu quereria ter uma segunda câmara para alternar entre preto e branco e côr. Talvez porque o nome da marca fosse sonante (então e agora), e garantidamente porque terá sido muito barato.

Recordo ter ido para a zona velha da cidade com um amigo e compincha fotográfico para fazer o rolo de estreia. E de ter, com ela, feito fotografias de um aparatoso e grave acidente de moto.

E pouco mais recordo dela. Uns dias depois, em chegando a casa constato que esta tinha sido assaltada e que a câmara tinha sido levada. Por sorte, algo deve ter assustado os ladrões que não passaram do átrio de entrada, ou teriam levado, com toda a facilidade, a mala com o restante material (este Pentax). Foi um amargo de boca de sempre tive.

Há não muito tempo vejo este exemplar na montra de uma loja. Por uma casualidade passei por ali. E até os olhinhos se me saltaram da cara! Seria o fim de um ciclo com dezenas de anos, um regresso ao passado com um final feliz.

Ainda resisti, ponderando durante uns dias. Que do ponto de vista orçamental não me convinha. Mas a gula venceu e fui busca-la. Mas ainda tive que esperar uns dias, que a primeira abordagem logo ali na loja demonstrou não estar o fotómetro calibrado. Mas quando lá voltei por ela, depois de afinada, saí da loja qual puto feliz com brinquedo há muito desejado.

Está ali para as curvas e para os rolos, assim eu saiba tirar partido de uma velharia do início dos anos 70.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mais um vez




Dizer “foi morto” é quase a mesma coisa que dizer “foi assassinado” ou “foi abatido”.

O problema põe-se no “quase”!

“Foi morto” é uma expressão neutra, não se sentindo que haja uma atribuição de culpa. É um mero facto.

“Foi assassinado” tem uma carga criminal. Quem assassina é um criminoso e deve ser punido pela lei.

“Foi abatido” aparenta legitimidade, um acto executado seguindo ordens superiores.

Em qualquer dos três casos existe alguém que morreu. Em qualquer dos três casos existe alguém que interveio nessa morte. E existe um jornalista que decide usar uma das três versões para fazer passar a sua opinião sobre o facto, moldando a opinião do públlico.

E nós, os anónimos do público, não queremos saber a opinião do jornalista.

Ide-vos!

.

Este desabafo, que não nada de original, surge na sequênncia das opções jornalísticas usadas por cá sobre os casos de cidadãos norte-americanos mortos por agentes da polícia.

 

Samsung S1060


By me

sábado, 24 de janeiro de 2026

Areia para os olhos




Vamos andando entretidos com as diatribes que nos aparecem lá do outro lado do Atlântico. E com as lutas presidenciais por cá. E as guerras a oriente, europeias ou mediterrânicas. E as horas de espera nos hospitais. E as depressões e tempestades, que mandam fechar estradas e suspender aulas. E os conflitos laborais, públicos ou privados.

E, no meio de tudo isto e o mais que venda jornais ou aberturas de noticiários, outras questões há que, na sombra de todas aquelas, vão sendo noticiadas mas quase que por engano.

Questões que não são urgentes mas que marcarão o futuro quotidiano de muitos milhares de portugueses. Em permanência.

Questões que não são de urgência ou de solvência mas tão só porque apetece à elite dirigente. Questões ideológicas, e à revelia dos programas eleitorais, que vão moldando aos poucos a sociedade sem que esta se possa pronunciar sobre o assunto.

No caso concreto, a eventual mas anunciada privatização das linhas urbanas da CP.

Aquelas linhas que transportam muitos milhares de cidadãos de e para o trabalho, gente que não tem alternativa nesse serviço público e imprescindível.

Porque, e não nos enganemos, a palavra chave desta classe dirigente é “privatizar”. Ideologicamente. Colocar os que menos têm a pagar para os que mais têm, através de serviços que são de todos e que querem só de alguns.

E vão-no fazendo com a discrição que conseguem, entre uma tempestade e uma sala de espera, à sombra de uma qualquer chacina lá longe. Com a cumplicidade dos media. Privados ou não.

Citando Saramago: “... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

 

Nikon Coolpix P7000

 By me

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Argumentos




Foi já há uns vinte anos, decorria o meu projecto “Old Fashion” no Jardim da Estrela e fui abordado por duas senhoras catequistas já não sei de que confissão religiosa.

Não costumo ser rude para com estas pessoas. A sua conversa não me interessa por demais e tento afasta-las com a urbanidade que posso e sei. Por vezes recorrendo a estratagemas pouco ortodoxos, mas não rudes.

Desta feita esgotei os que tinha sem sucesso. Eu estava ali “amarrado” à minha câmara montada e elas tinham-me como “vítima” garantida.

A conversa terminou, com vitória para mim, quando lhes apresentei um argumento adequado ao que ali fazia:

“As senhoras prometem a felicidade numa eventual vida após a morte. Da qual não há testemunhos que não a fé. Eu propicio a felicidade, aqui e agora, ao entregar, de borla, fotografias a quem mas pede e provocando sorrisos. Quem, de nós, tem mais sucesso?”

Engoliram em seco, disseram mais uma ou duas coisas e zarparam. Devem ter-me identificado como Belezu encarnado.

Mas o certo é que essa é a minha abordagem.

Podemos e devemos trabalhar para a felicidade futura. Sejam quais forem os conceitos de felicidade e os prazos considerados.

Mas não devemos descurar a felicidade no momento em que vivemos. Não apenas fazendo por ela mas encontrando-a no que somos e temos.

E, principalmente, fazendo com que ela se espalhe, qual epidemia, em redor. Mesmo que em pequenas coisas e por uns instantes.

Como? Depende das circunstâncias, dos envolvidos e das suas capacidades.

Se a vida fosse uma fórmula resolvida…

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

memória

Há pouco lembrei-me do Calimero.

É que ouvi um candidato presidencial a dizer que estão todos contra ele. Até o sistema está contra ele.

É uma injustiça de ir às lágrimas.


By me

Especial para fotógrafos




Tenho que admitir que, para mim, sair de casa sem uma câmara fotográfica é-me quase tão mau quanto sair de casa despido. Ambos os casos são hábitos muito antigos, e o ser humano é um animal de hábitos.

Tinha que ir à cidade tratar de dois ou três assuntos. Basicamente seria sair de um local para seguir para o seguinte, sem muito tempo para “vadiar” e fotografar. Mas, do memo modo que ir vestido, teria que levar uma câmara. Leve, de preferência.

Pouco tempo antes havia-me chegado às mãos a Pentax K-S2. Pequena e leve como eu queria. Com o acréscimo de ainda não estar bem familiarizado com ela. E por “familiarizado” entenda-se que as minhas mãos ainda não sabiam de cor a localização dos botões e a minha mente ainda não sabia de cor os menus e sub-menus. E ambas questões são importantes para que possamos encontrar o momento decisivo e o enquadramento certo sem nos preocuparmos muito com questões técnicas.

“Hoje vai esta”, pensei, em oposição às do costume: Uma DSRL K5 e uma DSLR K1. Por outras palavras, 670 gramas em oposição a 750 e 1010 gramas respectivamente.

Mas haveria que pensar na objectiva. Também leve, de preferência. A escolha recaiu na SMC Pentax-M 40 1:2,8. Não tenho em casa nenhuma objectiva com baioneta K mais pequena ou mais leve que isto. E, a juntar à escolha, é uma objectiva com um ângulo que não me dá muito conforto, o que me leva a insistir no seu uso até me ser “natural”.

“O conjunto certo”, pensei antes de olhar para ele.

Depois de olhar para ele já completo, concluí que, do ponto de vista visual, será difícil de encontrar melhor conjunto câmara/objectiva. É bonito e harmonioso nas suas proporções, quase que feitos um para o outro.

O que acaba por ser divertido? Passei a tarde ocupado às voltas na cidade, de um local para o outro e nem uma vez levei a câmara à cara. Mas também trago cuecas vestidas e nem uma vez precisei de lhes mexer.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Livros




Tal como alguns criminosos e delinquentes estão proíbidos de se aproximarem das suas vítimas, também eu deveria ter uma pulseira electrónica que me inibisse de me aproximar de livrarias. O estado das minhas finanças agradeceria.

Estive numa livraria. A STET, que recomendo a todos os da zona de Lisboa mas não só, já que também funciona on-line. A sua especialidade é a imagem, sob diversas facetas mas com a fotografia predominante, e é difícil lá ir sem se sair com algum livro na mão. Isto para quem se interesse sobre o tema, claro.

Passei por lá por via de uma obra que tinha encomendado e que, aparentemente, não se encontra sob a forma de papel. Mas, e para que vejam o tipo de atendimento, não o tendo deram-se ao trabalho, ali à minha frente, de procurar referências on-line sobre ela, incluindo a versão pdf. De borla! Se isto não é bom serviço ao cliente, não vejo o que possa ser.

Mas vim de lá com duas outras obras: uma particularmente dispendiosa até porque incomum, da qual tenho vergonha de agora e aqui falar, e esta bem mais modesta.

Ainda não me debrucei sobre ela. A bem dizer, vi-a e nem hesitei na sua compra, até porque bem acessível. O nome do autor é para mim como polen para abelhas. Gosto particularmente da forma como ele escrevia: na facilidade dos textos, apesar da profundidade dos conteúdos. E, particularmente, das ideias que lhes estão subjacentes de um ponto de vista geral  e social e que não apenas relacionadas com a imagem geral ou a fotografia ou pintura em particular. Para quem o não conhecer, recomendo vivamente.

 

Como adicional, acrescento que esta fotografia tem um erro crasso, de que só me apercebi depois de tratada.

Pese embora o enquadramento e a luz de base serem particularmente simples, a luz principal vem do lado direito e as sombras projectadas para a esquerda.

Ora isto é um disparate, a menos que se seja canhoto. Um destro terá o cuidado de ter a luz que ilumina o seu local de trabalho à sua esquerda, para que as sombras, ao escrever, se projectem para a direita. Ou se preferirem, para a zona do papel ainda não escrito, em vez de sobre o que se acabou de escrever.

Para quem nunca pensou no assunto, sugiro que tentem ter o candeeiro ou a janela de um lado ou do outro e verifiquem qual o mais confortável.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4

 

By me