sábado, 13 de fevereiro de 2021

Fast food




 Digam o que disserem, a grande vantagem da literatura sobre as demais formas de contar histórias (pintura, cinema, fotografia, escultura) é a capacidade de deixar à imaginação de quem a frui tudo aquilo que lá não está contado.

De uma forma genérica assim é. Se eu ler que o homem entrou num restaurante, deixo à imaginação a cor da toalha, o tipo de luz, o formato da cadeira… Ficará até ao critério do leitor se o empregado de mesa é ou não careca. A menos, claro está, que qualquer destes detalhes, ou outros, sejam importantes para aquilo que que o autor e, consequentemente, para o leitor.

Já nas demais formas de contar histórias (ou estórias) esses detalhes têm que estar presentes. Quando o cineasta, ou fotógrafo ou pintor, nos quer mostrar o entrar no restaurante, veremos o dito restaurante, com a cor das toalhas, o tipo de luz, o formato das cadeiras. Até se o empregado é careca, se aparecer na imagem.

Isto deixa pouco à imaginação de quem vê, reduzindo as possibilidades de se fantasiar com base nas experiências ou vivências de quem vê. O restaurante é aquele e ponto final.

É, talvez, este facilitismo que a comunicação plástica nos impõe, este menos exigente esforço de interpretação, que leva a que o consumo de literatura vá sendo menor. Para quê esforçar-me a imaginar se posso deixar-me levar pela imaginação do autor?

Indo mais longe: quando a obra exposta não é explícita (fotografia, cinema, pintura) a reacção generalizada é de não gostar. Ou de não sentir empatia. “Então eu estou aqui para não pensar e este obriga-me a fazê-lo?”

Recordo um filme em particular intitulado “Dogville” e realizado por Lars von Trier. O minimalismo cénico, perfeito dentro do enredo e das emoções (fortíssimas) entre personagens, é algo difícil de digerir e que afasta a grande maioria do público. Apesar de ser uma obra magistral.

De igual modo, uma pintura ou fotografia que não nos conte tudo, deixando ao espectador o trabalho de imaginar o resto é algo que não agrada, merecendo pouco ou quase nada de atenção.

Será necessário que o trabalho exposto seja particularmente bem feito, estimulando fortemente as memórias ou emoções, para que mereça mais que uns segundos, poucos, de observação.

No caso específico da fotografia, que é um “recorte” do espaço/tempo que cercou o fotógrafo, ou o trabalho é explícito ou a primeira questão que é colocada é “o que é isto”. Logo seguida de “onde é” ou “quando foi”.

A necessidade do ser humano de tudo catalogar e organizar, aliada à preguiça de usar a imaginação para completar o que ali se não vê, leva a estas questões, ficando o espectador como agente passivo, incapaz de se relacionar emotivamente com o que assiste ou observa.  

E a actual forma de divulgação massiva da fotografia – a internete – incrementa esta forma de “não consumir” a imagem.

O tempo que a esmagadora maioria das pessoas usa para ver uma fotografia on-line é mais que diminuto. Poucos segundos mesmo. Que à distância de um click estão outras e outras e há que ver todas. E se não for explícita, completa, pouco exigente no que toca a imaginação e uso das nossas próprias experiências, rapidamente é esquecida, merecendo menos atenção que nada.

Aqueles que querem vingar no mundo da fotografia on-line vêem-se na obrigação de executar trabalhos bem explícitos, inequívocos, pouco provocadores da imaginação.

A subjectividade nas formas e conteúdos, nas técnicas e abordagens aos temas, o sair da normalidade, são formas de expressão que, em geral, estão a ser preteridas pela velocidade de consumo e a preguiça de digestão.


O fast-food invadiu a fotografia. E a pintura. E o cinema. E a escultura.


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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Modernices


 


“Pouco importa o que já fizeste se não te importares com o que ainda podes que fazer.”

 

Eu tenho uma pequena colecção de aparelhos de medida de luz.

Não gosto de lhes chamar de “fotómetros”, já que nem todos me apresentam resultados em “footcandle”. Alguns mostram-me “lux”, outros em Kelvin, outros ainda nem uma coisa nem outra, mas tão só os valores de exposição. Aliás, tenho mesmo um que não possui ponteiros nem célula e que é inerte, dependendo de uma mica graduada e da acuidade visual do utilizador.

Recentes ou bem antigos, incidente, reflectida, de largo ou estreito ângulo, continua ou instantânea, balanço e correcção de cor… tenho de quase tudo. Faltar-me-á um espectómetro, mas não tenho nem necessidade imediata nem meios para o comprar. Claro que nem aqui considero os sistemas de medição integrados nas câmaras.

Aquilo que ainda não tinha usado era a câmara de um telemóvel para aquilatar quantidade de luz. Surgiu agora a necessidade.

Uma conhecida recebeu e recuperou uma vetusta e ilustre câmara. Tudo agora funcional, excepto o “fotómetro” que, como seria de esperar, “morreu” de velho.

Lá lhe indiquei as velhas tabelas impressas no interior das embalagens de cartão em que se vendem os rolos fotográficos e que dão indicações preciosas, ainda que pouco precisas, sobre os ajustes de exposição em função das condições atmosféricas e mais uns trocos.

(É interessante verificar como é raro encontrar alguém que saiba da existência de algo impresso no interior dessas embalagens. E, a maioria dos poucos que sabem, nunca o leram ou ponderaram as informações lá contidas. Um pouco como com os manuais de instruções.)

Pois para a ajudar, que a compra de um “fotómetro” está, para já, fora dos planos dessa minha conhecida, sugeri algo de forma errada: algo nunca tinha usado.

Refiro-me a aplicações para telemóvel que medem a luz e nos dão indicações sobre como ajustar a exposição: sensibilidade, tempo, abertura, EV…

Sendo que não gosto de ter pontos de interrogação suspensos sobre a cabeça, mas antes exclamação ou reticências, tratei de ver o que se encontra on-line.

São mais do que esperava. Alguns usam a câmara como sensor, outros um dispositivo adicional. Optei por experimentar um da primeira opção.

Numa primeira abordagem, gostei dos resultados. Comparado com as indicações dadas por duas câmaras e três aparelhos de medida externos, pareceu-me dar resultados medianamente consistentes e fiáveis.

Criei agora o desafio pessoal de usar este método e fotografar com a minha DSLR para tirar as teimas de modo prático.

 

Duas notas, no entanto:

- Independentemente dos resultados que obtiver, não creio que medir luz com um telemóvel dê o mesmo prazer ou afecto que com um fotómetro ou exposímetro;

- Não irei juntar um telemóvel à minha colecção de aparelhos de medida de luz.


By me

Exercício de estilo




 Éramos três e todos ligados à fotografia, ao vídeo e TV e à escrita.

Das várias coisas que então partilhámos, e já lá vão umas dezenas de anos, recordo um exercício de criatividade, sugerido já não sei por quem.

Cada um de nós entregava a um dos outros uma fotografia feita por si e da sua escolha. Passado algum tempo, suponho que quinze dias mas não garanto, cada um apresentava ao terceiro a fotografia acompanhada de um texto, entretanto escrito. Novo ciclo de tempo e a foto e o texto eram entregues de novo ao primeiro, agora com uma nova fotografia a acompanhar. E quem recebia teria de novo um tempo limite para fazer um novo texto. E por aí fora até que algum de nós dissesse sobre o que tinha na mão: “Está completo! Não lhe acrescento nem uma virgula ou fotão”!

O exercício terminava aqui com três conjuntos de fotografias e textos evolutivos e de criação colectiva.

Nem para o texto nem para a imagem havia restrições. Poderia ser uma palavra, uma frase, um poema ou várias páginas de escrita “caótica”. E poderia ser em cores ou preto e branco, positivo, negativo ou diapositivo, fosse qual fosse o tamanho apresentado.


A Terra rodou milhares de  vezes e cada um de nós seguiu o seu rumo, aquém e além mar.  

Mas certamente que este exercício de estilo, esta diversão de comunicação de ideias e saudavelmente exigente, tê-los-á marcado como a mim.


Ainda hoje as imagens me provocam palavras, as palavras sugerem imagens e ambas as situações me levam a emoções.

E continua a ser um exercício interessante, ainda que agora a uma só voz, manter diariamente a relação palavra/imagem e imagem/palavra. Conseguir a ilustração certa, por vezes com tempos reduzidíssimos, ou a verborreia adequada a algo que vi e registei, consegue manter-me acordado e alerta, mesmo nas ocasiões mais apertadas.

Se o resultado é bom ou mau? Não sou juiz em causa própria, mas são incontáveis as vezes em que penso que poderia ter feito ou abordado o tema de outra forma.


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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Ortodoxias ou talvez não


 


Por vezes há que ser rigorosamente nada ortodoxo!

Aquela turma era um pouco mais “indisciplinada” que o habitual. Coisa que me agradava e agrada, já que nas áreas criativas a indisciplina é vital: há que ser indisciplinado na vida para deixar a criatividade crescer e ganhar raízes. Haverá que quebrar regras, mesmo que as de uma sala de aula, para ir mais longe.

Claro está que haverá sempre algum limite para este tipo de indisciplina. Em particular dentro de uma sala de aula, onde a “criatividade” individual não deve atrapalhar em demasia o trabalho do colectivo. Colegas ou professores.

Naquele dia, ou por ser primavera, ou porque as hormonas estivessem mais descontroladas, ou porque o fim de semana se aproximava, ou fosse lá porque fosse, a coisa estava mais difícil.

Os do costume, sentados atrás como habitualmente, estavam a ultrapassar as marcas. Eu bem tentava “acalmar as hostes”, com uns chamar de atenções, uns comentários mais incisivos, um levantar de voz… mas a coisa estava difícil.

Até que, a certa altura e já meio desesperado e não querendo usar das medidas disciplinares que o ambiente escolar permite, me lembrei disto: um apito que jazia num dos bolsos do colete, comprado uns dias antes para uma fotografia.

Peguei nele, pousei-o na mesa mesmo a meu lado e ficámos a namorarmo-nos por um pedaço. Até que, já sem outros recursos, o usei. Com força. A plenos pulmões. A ponto de até os meus ouvidos me doerem.

Fez-se um silêncio sepulcral naquela sala. Isso e um montão de olhos espantados virados para mim, a tentarem perceber que raio de maluquice me haveria ter atingido.

Quando os tímpanos deixaram de zumbir, expliquei à turma o que estava a acontecer, o como aqueles lá de trás estavam a impedir que os demais aprendessem e como esses mesmos estavam a impedir que eu fizesse o meu trabalho de os ajudar a aprender. E que havia e há momentos para a indisciplina e rebeldia, como já lhes havia demonstrado e até incitado, mas que outros havia e há em que o respeito pelos demais se sobrepõe.

Depois de uma pausa para digerir a situação, alguns deles fizeram exactamente aquilo que eu sabia que fariam: pediram desculpa aos colegas. Por meio de algumas gargalhadas que todos soltámos.

Por estranho que possa parecer a alguns mais incautos e que não conheçam este tipo de estudantes e adolescentes, o caso foi remédio quase santo. Durante algum tempo – semanas - quando a idade e a rebeldia os levava a excederem-se em sala, eram os outros que os lembravam do apito do maluco do prof JC. E entravam na normalidade livre que pretendíamos, sem peias nem mordaças, mas com respeito pelo trabalho do colectivo.

É evidente que nesse dia ouvi das boas dos colegas na sala de professores. Que o belo do apito se tinha ouvido em todo o edifício. E, explicadas as causas e as consequências, ficaram a olhar de lado para mim, uma vez mais. Pondo em dúvida a minha própria sanidade mental e a eficácia do método.

Mas certo é que se assistissem ao que se passava connosco portas adentro ou portões afora, e se verificassem os resultados no que a aprendizagem diz respeito, verificariam que a ortodoxia não será a melhor abordagem quando falamos em criatividade e descoberta de novos e pessoais caminhos.

 

Nota adicional: não encontrei uma fotografia do tal apito, que tenho por aqui algures.

Recorro a esta outra, também de arquivo. Acredito que se tivesse usado uma flauta, tocada lentamente e baixinho e mesmo que desafinado, o efeito teria sido o mesmo.

 

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Velharias


 


Duas velharias que tenho aqui por casa. Ambas quase sem uso que não a memória, mas sempre disponíveis para o que for preciso.

Acredito que a totalidade, ou quase, de quem isto vir reconhece a da esquerda. Um clássico pincel de barba. Tenho-o há mais de quarenta anos e, pelo uso que lhe dou, irá durar outros tantos. Pelos motivos óbvios.

Já o da direita… Quase que aposto em como menos de 1% de quem isto vir saberá reconhecer o objecto.

Trata-se de um “saca filme”, conhecido em inglês por “filme picker”. Serve para tirar o filme fotográfico de 35mm de dentro da respectiva cassete sem ter que destruir esta. Procure-se na web para saberem como funciona.

Usei-o em tempos e amiúde em laboratório a preto e branco. E, um destes dias, para ajudar uma conhecida no aprender a forma de carregar uma vetusta Leica M3, usando um rolo já fora de prazo e para estragar no exercício.

 

Já o como fiz esta fotografia…

Um candeeiro de mesa, por cima e um pouco do lado de lá do assunto; Um pacote de leite, aberto, espalmado e do avesso, do lado esquerdo, para atenuar, reflectindo, a sombra do pincel; uma folha de papel branco para atenuar a sombra do topo e pega do tabuleiro.

Não é necessário muito e dispendioso material para se fazer fotografia.

É imperioso, no entanto, vermos a fotografia antes de premir o botão.


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Vivemos numa sociedade em que pensar nos outros roça a inconstitucionalidade e a blasfémia.

Que os deuses nos protejam quando passar a dar direito prisão e fogueira.


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sábado, 6 de fevereiro de 2021

Seconic


 


A história é velha de quase quarenta anos.

Comprei este fotómetro a um amigo e mestre, já usado e em excelentes condições de funcionamento.

Usava-o ele, essencialmente, para fazer medições de luz incidente e tinha-lhe sido fornecido pela nossa empresa um ainda melhor. Vantagem minha.

Acontece que, já em casa, constato disparidades entre a sua leitura de luz reflectida e os resultados apresentados pela minha câmara. Estranhei e tratei de comparar as medições com outros aparelhos. Sempre a mesma diferença: um stop mais fechado em leitura reflectida. Em leitura incidente estava correctíssimo.

Não havia net como hoje nem os respectivos fóruns. E o manual de instruções, obtido com alguma dificuldade e sempre vital, não me fornecia nenhuma indicação numa primeira abordagem.

Mas a leitura atenta e interpretativa deu-me a resposta: tratando-se de um “fotómetro de estúdio” estava preparado para fazer medições directamente a partir do tom de pele e não de um cinzento com 18% de reflectância como eu queria e todos os outros aparelhos faziam. É interessante este método, supostamente dá resultados mais rápidos, mas é muito ambíguo, já que os tons de pele variam enormemente de individuo para individuo. Aliás, de zona do corpo para zona do corpo.

Resolvi a questão recorrendo ao espírito inventivo e de “desenrasca” que tão bem nos caracteriza:

Na grelha usada para medição reflectida, que aqui se vê entre os meus dedos, tapei alguns dos orifícios com fita preta. Tentativa e erro até os resultados serem os que queria. Bingo!

Até hoje matem-se fiel e constante nas suas medições, nunca me deixando ficar mal naquilo em que o usei.

O que acaba por ter piada é que há uns poucos  anos comprei um outro fotómetro, também “em segunda mão”. No caso específico um exposímetro, já que não indica quantidades de luz mas tão só a exposição a fazer com ela. Luz continua e flash, luz incidente e spotmeter. Tudo em um e com vantagem.

A verdade é que, em modo spot constatei a mesma variação de um stop quando comparado com outros aparelhos que possuo. A marca é a mesma, “Seconic”, e a minha memória acordou. O manual de instruções está na net e forneceu-me a confirmação do que suspeitava: feito para medir a luz na pele do modelo.

Sendo um aparelho digital (L-558), a sua re-calibração foi bem mais fácil e rigorosa, permitindo-me manter os métodos e resultados consistentes do que vou fazendo.

 

Saber interpretar aquilo que usamos ou fazemos e ajustá-lo à prática que temos é vital em tudo o que fazemos: fotografia ou vida.

A grande vantagem da fotografia é que vem com manual de instruções.


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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Pagamentos




 As traseiras da casa onde me fiz homem davam para uma rua sem saída. Toda a rua era traseiras, excepto lá no fundo onde uns poucos de prédios, em forma de largo, davam o deu melhor para esta artéria.

Hoje é parqueamento diurno e nocturno de moradores e não só. As frondosas árvores de agora eram então raquíticos troncos eternamente ameaçados na sua sobrevivência pela seca e as bolas com que a miudagem as acertava, já fora da linha lateral definida pelo lancil do passeio.

Sei que a acústica era boa. Não apenas se ouviam bastante bem as vozes maternas chamando os rebentos para a mesa ou cama, como pelo canto e música que se ouvia.

Ficava esta rua no roteiro de dois homens que cruzavam a cidade, pedindo esmola. Mas não o faziam de porta em porta, estendendo a mão à caridade de quem as abria.

Um deles com o seu saxofone e o outro com a sua voz, davam-nos pequenos mas belos concertos de árias clássicas ou populares.

O instrumentista era cego, o vocalista não possuía o braço esquerdo. Mas juntos, na sua deficiência, suplantavam alguns palcos de fraques e toilletes janotas.

As janelas engalanadas de roupa a secar enchiam-se de miúdos e graúdos, para os ver e ouvir. Mesmo até ao topo do alto 13º andar, o 3º balcão daquela sala aberta para o céu.

Depois da sua actuação de uns bons quinze a vinte minutos, ajudada pela acústica da rua, o cantor circulava junto aos prédios, olhando para cima e para o chão. Recolhia os pedaços de papel com moedas que eram atirados pelas janelas dos moradores.

Rasguei várias páginas dos cadernos da escola.

Não eram esmolas! Eram antes o pagamento sincero de bons momentos que ficavam na memória. Pela raridade e pela qualidade.

Na minha mente, sempre imaginei o cantor como um deficiente da guerra do ultramar, mas nunca o soube ao certo. O que era garantido era que, de cada vez que passava, talvez de três em três meses, a sua voz acompanhava o cabelo: envelhecia e perdia volume e qualidade.

Até que deixaram de aparecer.

Hoje, quando vejo alguém a tocar na rua, de cesto, caixa ou lata no chão em frente, num convite à esmola, recuso.

Não dou!

Não dou uma esmola!

Pago!

Pago o prazer que tenho em estar uns minutos parado, ou mesmo que só de passagem, a escutar música ao vivo, inesperada, bem ou mal executada mas ali, ao vivo. Que me aquece a alma.


Não dou esmolas: pago um serviço!


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Utopias


 


Confesso que há coisas que me custam a entender. Ou talvez não.

Entre um limite que será a enormidade dos lucros das empresas produtoras das vacinas e etc. e o limite no extremo oposto que seria a expropriação das fórmulas e processos de fabrico, que tal pagar às farmacêuticas uma boa maquia para que disponibilizem o que possuem de conhecimentos e técnicas para que possam ser fabricadas por todos os laboratórios, incluindo os estatais e militares, para que todo o processo se acelere?

Diz-vos isto um fotógrafo que sabe que a invenção da fotografia, e respectivos direitos, foram oferecidos à humanidade para que dela se retirassem todos os benefícios. E hoje é o que se sabe.


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Escatologia


 


Há uns anos, nove para ser mais rigoroso, tive um incidente na via pública de que resultou ficar com uma mão partida.

Vítima inocente, e depois de falar com a polícia que compareceu em força, em várias viaturas e de armas aperradas, lá fui tratar da minha pobre mão, inchada e dolorosa, nos hospitais.

Sendo que não adianta chorar sobre leite derramado, tentei tirar partido do episódio e do que se lhe seguiu, com alguns relatos e fotografias, as possíveis para quem tem a mão esquerda engessada. Ou recorrendo ao arquivo, como foi o caso desta.

 

“Foi mais ou menos a meio da semana passada. E ela foi tão recheada de peripécias tão inverosímeis, que começa a ser difícil fazer uma cronologia exacta.

Em qualquer dos casos, estava eu numa sala de espera enorme de um serviço de consultas externas hospitalares. Esperava eu ser atendido e tratar da minha vida de doente e paciente. Serviu para mitigarmos reciprocamente a impaciência o ter encontrado uma amiga, que ali também esperava vez, já em tratamento continuado.

Quando o painel brilhou o meu número avancei, confiante. Asneira!

Era a minha vez, sim senhor, mas faltava-me um papel que deveria ter sido emitido por quem ali me havia enviado.

“Mas repare!”dizia eu. “Tem aí o exame radiológico, em formato de CD, onde constam todos os elementos, desde a referência ao número do episódio clínico ao meu estado de saúde. Se ligarem – telefone ou net – para o outro hospital, lhe darão as informações de que carecem.”

A senhora levantou-se, contrafeita, e foi lá dentro, falar não sei com quem. Regressou irredutível:

“Falta-lhe esse papel. Nada feito. Tem que lá voltar.”

Eu sei que estas pessoas, por muito simpáticas e afáveis que sejam – e aquela estava a sê-lo – mais não fazem que cumprir ordens.

“Chame lá o seu chefe que falo eu com ele.”

Veio uma chefa, ainda mais simpática e sorridente que a subordinada (por isso é que é chefa) mas tão ou mais determinada a cumprir determinações quiçá superiores.

Nada satisfeito com a expectativa de ter que percorrer cerca de 20km em três transportes públicos diferentes, para cada lado, só por causa de um papel e da “teimosia” daquelas duas, não resisti e proferi:

“Vou dizer uma palavra feia!”

Criei uma pausa teatral, dando tempo a que quem me ouviu – e foram vários – que arremelgassem os olhos e sustivessem a respiração, e disse bem alto:

“Penico!”

Se, naquele momento, ali se tivessem aberto uns quinze a vinte balões, não teriam feito mais barulho no seu expirar!

Insisti no absurdo da situação, na estúpida perda de tempo e dinheiro nesse meu ir e voltar, mas nada consegui. E acrescentei:

“Vou dizer outra palavra feia! Autoclismo!”

Os sorrisos foram mais francos e aliviados, mas inconsequentes no sentido que eu queria.

Antes de abalar, paciente impaciente e inconformado, para onde me tinham mandado, estive vai-não-vai para lhes atirar com o supra-sumo desta minha lista de impropérios, contendo todos os “Rs” que o calão escatologico de salão permite:

“Retrete!”

Guardei-o!

A imbecilidade Kafkaniana das regras dos Serviço Nacional de Saúde não merece que eu perca o meu bom-humor.

Se outros motivos não existissem, seria mais trabalho meu que deles, que é difícil tirar o sono a quem apenas cumpre ordens e dedilha um teclado.”

 

Confesso que hoje, noutras circunstâncias e apesar de não haver gesso envolvido nem zelosos cumpridores de normas e burocracias, me apetece enxugar as lágrimas e dar bom uso ao vernáculo.

Não adianta coisa nenhuma, excepto o aliviar da alma. E isso é importante que aconteça.


By me