segunda-feira, 28 de setembro de 2026

If I were taler




Há uma boa quantidade de anos, no meu deambular pela cidade, tirava partido do segundo mosquetão preso na minha mochila. Estava na alça direita e, as mais das vezes, estava vazio.

Mas em dias de manifestações de rua (havia-as amiúde) ou em estando para aí virado, vinha aí pendurado o meu monopé, tendo na ponta uma cabeça de encaixe rápido.

Servia ele para suportar uma câmara de bolso que tinha (e tenho), guardada na mochila e retirada quando as condições se proporcionavam. Não era a minha forma habitual de fotografar, mas permitiam pontos de vista incomum, num progecto a que chamava pomposamente “If I were taler”.

Colocava a câmara no monopé, esticava-o no seu comprimento máximo, activava o seu temporizador e levantava o conjunto tão alto quanto conseguia.

O resultado era “à zona”, já que não conseguia enquadrar nem o momento certo. Mas com a prática, fruto do conhecimento que tinha da objectiva e do eu contar o tempo do retardador, permitia-me fazer uns “bonecos” interessantes.

O habitual era fazê-los aquando grandes massas de gente, com ou sem primeiro plano. Era um mar de cabeças e faixas que davam a verdadeira dimensão da quantidade de gente presente.

Mas também quando tal mole não se juntava, permitindo imagens como esta, uma espécie de “voo de pássaro” baixinho, como se estivesse numa janela ou espreitando por cima do mobiliário urbano.

A taxa de aproveitamento era de cerca de 50%, o que não é mau, se pensarmos que o “momento decisivo” não acontecia nem havia um olho colado no visor da ocular.

Não posso dizer que seria o único a usar este método, mas nunca o vi em prática por cá, durante uns bons tempos. Depois vulgarizou-se, na medida do possível. Mais monopés no mercado, a introdução dos drones de pequeno tamanho (antes da legislação que os gere) fizeram com que esta novidade o deixasse de ser. E a imagem animada ganha espaço à imagem estática nos media, pessoais ou públicos.

Mas recordo que de uns militares sem uniforme que desfilaram em Lisboa ouvi o seguinte comentário: “Este deve ser da marinha, que veio com o periscópio”.

Acho que vou retomar a ideia, assim que reparar a alça do monopé, danificado do uso. Outros voos com os pés na terra.

 

Samsung S1060


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