terça-feira, 22 de setembro de 2026

Em campanha




Apareceram já a luz definhava e eu pensava em abandonar o jardim. Um grupo com bandeiras, exibindo o símbolo do seu partido sobre fundo branco (que estas coisas das campanhas eleitorais custam dinheiro!) Iam de banco em banco, tentando “impingir” os panfletos que traziam. E, para que não houvesse qualquer dúvida, a frente do opúsculo tinha a fotografia da mais alta figura do partido, sorrindo, justamente aquela que, em ganhando as eleições, poderá vir a ocupar o lugar de primeiro-ministro.

O facto de eu estar ali plantado, deambulando em torno da minha câmara e com outra pendurada no ombro, faz com que, por vezes, seja invisível. O que é uma sorte nestes casos. Mas não neste dia, nem para mim, nem para eles.

Depois dos velhotes, solitários ou não, nos bancos e do bando de garotos que ali festejava o primeiro dia de aulas e, consequentemente, o primeiro dia em que faltavam às aulas, foi a minha vez.

A cara dela não me era estranha e acredito que já a tivesse tido em frente da minha câmara, em estúdio de TV. Mas foi ele que fez as despesas da conversa e da função: Estendeu-me o folheto e perguntou-me “Quer ficar informado?”

A resposta já eu a tinha pronta, desde que os havia visto lá ao fundo: “Com isto ao peito, acha que iria votar em vocês?”

Estacaram, surpresos, e ela exibiu um sorriso amarelo quando viu aquilo que eu apontava. Já ele corou um pouco. Mas, se como disse antes, a cara dela me não era estranha, a dele não conhecia mas não esquecerei pela certa. Que a sua resposta, pronta, esteve ao nível.

“Já tivemos alguns a votar em nós. Já foram mais, mas já tivemos alguns e bons a votar em nós!”

E, estendendo-me a mão, afastaram-se, não sem antes ele acrescentar:

“Continue a querer mudar a coisa. O truque é esse: não desistir!”

O que ele não sabe é que, bem mais que “Querer mudar a coisa”, faço por isso todos os dias e vou-a mudando: Com o preço das minhas fotos, com os alertas sobre os actuais Big Brothers, com as intervenções sociais, com as conversas com os miúdos e graúdos que vou encontrando.

A revolução faz-se todos os dias, em todas as circunstâncias. Não apenas em campanha eleitoral!

 

Samsung S1060


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domingo, 13 de setembro de 2026

E memória




Saí de casa com duas câmaras fotográficas: Uma Brownie, nas costas e dentro da caixa de couro; uma câmara de bolso Pentax I-10, guardada no bolso.

O dia prometia ser duro (foi-o) e não quis arriscar muito peso. Mesmo assim, junto com o calor (escolhi mal o dia), foi um dia duro.

A Brownie porque está em testes (e eu com ela), a Pentax porque alguma outra coisa tinha que levar.

Regressei depois de almoçar mal e porcamente e com uma única fototografia: esta. Felizmente as fotografias pesam menos que o cimento destes arcos, que já conhecia, embora a distância.

Do bolso para as mãos, um clic, de novo para o bolso, que é a vantagem das câmaras de bolso. A perspectiva compunha-se à medida que me aproximava, qual dançarino nas táboas, à espera que o cérebro aceitasse o que os olhos viam. Aceitaram. Uma vez. Uma única vez, que não adiantava fazer mais. Qualquer outra coisa seria chover no molhado, apesar do calor que fazia.

Aprendi  com um mestre, ao vivo e a cores, a ver antes de usar a ferramenta. Não importa qual. Passeava-se, de mãos atrás das costas, olhando, olhando, até dizer “É daqui”! E era.

Não lhe chego aos calcanhares, mas esforço-me por isso.

Os meus respeitos, Zé Castelhano.

 

Pentax I-10


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sábado, 12 de setembro de 2026

Democracia




O maior receio de um político não é a derrota eleitoral. Que essa faz parte do jogo!

O seu maior medo é que o poder, a gestão da coisa pública, deixe de ser feito por políticos e passe para as ruas. Que passe a ser feito e gerido pelo povo, do mais anónimo ao mais ilustre.

Que, nessa mudança de organização da sociedade, se constata da utilidade (ou o seu oposto) daqueles que constituem a chamada “classe política”.

E não há nada pior para o amor-próprio de um político que a demonstração da sua inutilidade!

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Orgulho




Quando se fala em “fotografia” fala-se ou pensa-se no registo da luz. E quando se pensa no registo da luz, pensa-se em aquilatar a luz.

Podemos medi-la incidente ou reflectida, continua ou instantânea, na câmara ou fora dela, quando é na câmara pode ser integral, ponderada ou centro, pontual...

Há várias formas de medir a luz, cada uma funcional desde que a dominemos.

Desde há muitos anos que possuo este medidor de luz. Externo, pontual, continua, reflectida. Comprado bem em conta num mecânico de fotografia.

Trata-se de um Pentax Digital Spotmeter e, durante anos e anos, foi e é uma ferramenta fiel e um ponto de orgulho a sua posse.

Não tinha tampa e encontrei; não tinha borracha da ocular mas encontrei uma equivalente; não tinha parassol, não tem de origem, mas tratei de encontrar um com essa medida de rosca que usei mas sem gostar dele.

Agora está “encostado”, numa vitrine e num lugar de eleição, visto que encontrei um outro, de outra marca e multi funcional.

O problema deste tipo de aparelhos é que são rigorosos que é fácil fazer-se asneira: ou bem que se confunde isto com um fotómetro normal, ou bem que não se sabe dar uso ás leituras feitas. O conhecimento do seu funcionamento (ou de qualquer outro equivalente), a leitura do seu manual de instruções bem como de literatura sobre o tema é altamente recomendável.

Quem conhecer o trabalho de Ansel Adams e da sua “escola” de trabalho sabe bem do que falo.

Quanto ao resto, tenho muito orgulho em o possuir.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4


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Efemérides




Com tanta divulgação do “11 de setembro” e do seu 25º aniversário por parte dos media, caiu quase no olvido generalizado o 11 de setembro chileno, há uma cinquentena de anos.

Quase ninguem recorda o golpe de estado que esteve na origem de uma ditadura sangrenta nem ninguém lembra o forte apoio norte americano a tudo isto.

Não é politicamente correcto. E ensombra o papel de “polícia mundial” que os americanos reclamam para si. E os media vão atrás deles como gato atrás de bofe.

Claro que também é neste dia que se celebra o Diada, mas menos ainda sabem o que é.

 

Nikon Coolpix P7000


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(I)legalidades




E pronto: chegou o roubo autorizado!

A partir de 15 de Outubro as viagens de taxi a partir do aeroporto são de valor fixo.

Por outras palavras, a vigarice que grassava nas chegadas e abrangia mais de metade dos taxis passa a ser total e legal.

Ou ainda: ir de taxi para a freguesia de Alvalade custará tanto quanto ir para as freguesias de Avenidas Novas ou Lumiar, que ficam a mais do dobro da distância. Para não falar nas corridas que impliquem sair do concelho.

No lugar de penalizarem seriamente os infractores, penalizam muito seriamente o incauto turista que não conhece a geografia nem os caminhos. Os Portugueses que vão de Metro, que sempre é mais barato e pitoresco.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Just




Just for the fun


Samsung S1060


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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Em trânsito




Rondavam a mesma idade: vinte anitos, mais coisa, menos coisa.

Ambas sentadas à minha frente, no comboio, contrastavam entre si como azeite e água.

Uma, dita “gótica”, era toda preto e branco. Preto no vestuário, em que o branco aparecia apenas na sola das sapatilhas. E no tom de pele, que não deveria saber o que é sol há bem meio século.

A outra, também morena, mas com um ar rural, vestida com um vestido estampado em tons de rosa e verde pálidos.

Tinha esta, por enfeites, um par de brincos metálicos, com uns brilhantes, que me pareceram mais pechisbeque que outra coisa. Cara lavada, unhas não pintadas.

A de preto, sentada à minha frente, também de cara e unhas virgens, tinha tatuado no peito, que o decote em barco bem deixava ver, um morcego preto, com olhos vermelhos. Simétricos, no lábio de baixo, dois piercings metálicos. Nos lóbulos, brincos pretos, de massa.

Na mão de cada uma, um aparelhómetro de comunicação portátil. Um preto, como seria de esperar, estava ligado aos ouvidos e deveria ir jorrando música. Suficientemente baixo para que não a ouvisse eu.

O outro era cor-de-rosa, parecido com o do vestido, e estava a ser usado para ler mensagens.

A outra mão de cada uma segurava uma mala. Uma, uma mala ou saco, de pano preto, de alça bem comprida, decorado com caveiras em branco e vermelho.

A outra, se bem que tivesse a sua malinha no colo, segurava uma mala de viagem na coxia, não fosse tombar com os solavancos.

Saiu esta numa estação, na cidade. Ao levantar-se, endireitou o vestido atrás e, pela velocidade e decisão com que caminhou no cais, não teria muito tempo até ao autocarro de longo curso que supus que iria apanhar.

A outra levantou-se na estação seguinte. Mesmo que o saco fosse bem descido, a bater-lhe no joelho, o cós das calças de ganga preta fora subidos atrás, tapando pudicamente o elástico das cuecas, azul-bebé. Que contrastava com as rendinhas pretas que exibia de um lado e do outro das asas do morcego. O seu passo era de quem caminha para onde é obrigada, quiçá um emprego.

O que ambas tinham em comum era a dificuldade em tirarem os olhos da minha barba, branca, e do que trago na lapela, um Azinho em preto e branco. Estive vai-não-vai para lhes explicar o seu significado, mas não sei se aceitariam a conversa ou se o entenderiam.

 

É por estas, e por todas as outras, que gosto tanto de andar de comboio, suburbano ou longo curso. Que o mundo está ali, na lombriga metálica, com todas as suas diversidades e contrastes, partilhando bancos e coxias.

 

Pentax K7, Pentax 18-55


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Uma imagem




 Vale mais que mil palavras


Nikon Coopilx P7000


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Ideias




Quando vejo estes sacos repletos na beira de uma intervenção nas ruas alfacinhas, não posso deixar de pensar em munições.

Talvez sabendo disso, mudaram o piso pedonal da confluência da Rua de São Bento com a Caçada da Estrela e com a Avenida Dom Carlos I.

 

Nikon Coolpix P7000


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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Pois!




Façamos um pequeno exercício de imaginação.

Imaginemos que contrato uma empresa para fazer a limpeza e pintura exterior de um prédio: paredes e telhado. Andaimes, mão-de-obra, tintas e demais consumíveis, responsabilidade civil, prazos e orçamento.

Acontece que a empresa não cumpre. Não faz o trabalho de limpeza, instala os andaimes mas não há gente neles a trabalhar, bloqueia portas e janelas, ninguém consegue dormir descansado ou mesmo sair de casa em segurança.

Junto com isso, os andaimes estragaram o jardim do prédio, caíram peças em cima de automóveis sem que houvesse tempestade, duas janelas ficaram danificadas, o telhado ficou sem telhas e os algerozes entupidos.

Que se faria a uma empresa destas? Que opinião teriam os moradores e os dos demais prédios da rua, que impropérios e correspondência seria feita? Por quanto tempo se aguentaria esta situação? Com que consequências?

Certo!

E se for um governo para gerir a coisa pública? Educação, segurança, justiça, legislação, redes viárias, saúde…


Por quanto tempo? Com que consequências?


Pentax MX, smc Pentax-M 75-150, Kodak TriX


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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Manta de retalhos




Hoje chegou pelo correio um livro, aliás, um catálogo de uma exposição acontecida há muito tempo. Comprado num leilão on-line, veio satisfazer a minha curiosidade, mas seu tempo falarei disso.

Enquanto via as fotografias e nelas pensava, veio-me à memória um episódio, que até foi longo, acontecido faz muitos anos.

Estávamos numa fase de transição: enquanto na área de produção já se trabalhava em “pal plus”, um formato de imagem que, para além das características técnicas que implicava, tinha detalhes estéticos a considerar, na área de informação onde eu estava estávamos bem nos inícios.

Por ser assumidamente rectangular, no lugar do quase quadrado 3x4, tudo mudava: desde a forma como se enquadrava objectos e pessoas, passando pelas distâncias de trabalho e respectivas perspectivas e relações de primeiro plano com os fundos, até à velocidade com que se faz os movimentos (entrada, saída e espaço intermédio), com tempos diferenciados.

Bative-me seriamente com as chefias para termos uma acção de formação neste campo, nem que fosse sob o formato de “worshop” ou “learning on the job”. Para pensarmos no assunto, para trocarmos ideias, para uniformizar abordagens. Porque estava cada um de nós a descobrir métodos, sendo o resultado uma manta de retalhos, fruto apenas do nosso desconhecimento e falta de prática.

Há batalhas que se perdem e esta foi uma delas: nunca isso sucedeu! E nota-se!

Não há uma “escola” de trabalho, não há critérios uniformes, não há coesão na imagem. A manta de retalhos que antecipava e via então é grande e evidente. Tanto do ponto de vista de quem capta e gere a imagem como de quem concebe os espaços e os seus conteúdos. E é tanto pior quanto as diferenças nas origens formativas de quem pega na rabicha do arado (só os bem antigos conhecem a expressão, aos novos deixo o desafio de a descobrirem).

Enquanto trabalhamos solitários, como é o caso da esmagadora maioria dos fotógrafos, cada um usa e concebe os seus próprios conceitos e estéticas. Não há comparações!

Mas quando se trabalha numa equipa de imagem, estática ou animada, é importante que esta seja definida e uniforme. O espectador não pode ou não deve andar aos saltos, sendo a sequência de imagens fruto de uma linha comum e de todos os intervenientes conhecida e aceite. Mesmo a “falta de coerência” deve ser coerente.

Por mim, que faz muito tempo que deixei de lutar contra todos os moinhos e que agora só o faço com os que seleciono, apenas fico incomodado com essa ausência de linha de pensamento. Aprendo por mim já que não há “escola”, penso por mim já que não há uniformidade, evito os produtos de imagem de consumo massivo para evitar os incómodos.

Felizmente existe a fotografia para não estar frustrado durante todo o dia.

 

Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6


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Velharias




Porque mo lembraram, aqui fica um exemplar que, não sendo uma raridade mundial, não será das peças mais comuns.

Trata-se de uma Novoflex 600mm f:8, uma focal longa (e não uma teleobjectiva) concebida para fotografar natureza selvagem.

Infelizmente não possuo o apoio de ombro, o que a torna num conjunto não particularmente prático de usar senão com recurso a um tripé ou monopé.

Mas o seu sistema de focagem por gatilho, com prática, é particularmente útil para acompanhar com rigor objectos em movimento sem grandes amplitudes de movimentos.

Claro que, nos tempos que correm, isto é obsoleto. As teleobjectivas vieram encurtar tamanhos e diminuir pesos, os sistemas motorizados de focagem minimizar esforços e, se bem empregues, muito eficazes. Além de permitirem fotografar aviões, por exemplo, sem se correr o risco de ter uma brigada de intervenção rápida da polícia ao nosso lado ainda antes de conseguirmos fazer uma imagem de jeito.

Em qualquer dos casos, trata-se de um objecto interessante para a arqueologia da fotografia, em perfeito estado de funcionamento.

Não está à venda.

 

Pentax K7, Pentax 18-50


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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Num Setembro, há uns anos




Por vezes a fotografia vale por si mesma, sem mais explicações. Outras, há que contextualizar o fotografado para que faça algum sentido. Outras ainda será um texto ou uma ideia que necessita de uma ilustração. E é frequente considerar-se a ilustração fotográfica um género menor. Foi o que me saiu.

 

Num Setembro, há uns anos

A noite fora curta. Muito curta.

Somado a isso, um dia passado em andanças que me fizeram recordar outros tempos, que tinha prometido não voltarem. Mas as promessas foram criadas para se quebrarem.

Em cima de tudo isto, um almoço particularmente tardio, uma tarde de muito calor e o suave embalar do comboio, acabaram com as minhas resistências: quando dei por mim, tinha acabado de passar a minha estação.

Saí na seguinte e, no largo que lhe é fronteiro, parei um pouco. À sombra. E fiquei, sem pressas, a ver o que acontecia no lago da estação de um bairro suburbano num fim de tarde domingueira que, sendo Setembro, bem que podia ser Agosto.

Uma moça, em idade de terceiro ciclo escolar, e com trajes a condizer, esperava impacientemente por algo ou alguém. Não era da zona, que foi confirmar com funcionários dos autocarros locais se estaria onde pensava. P’lo semblante, pareceu-me que sim.

Eis que pára um carro, com um rapazola já bem crescidote ao volante e que, p’la forma como abordou os incomuns sentidos rodoviários, também não seria dali.

Toca o telemóvel dela, que atende: era ele. E não se conheciam.

Aguardava ela, e trazia ele, um manual escolar. Que ela reconheceu de imediato com um “É mesmo este, obrigado!”

Volta ele p’ro carro e ela p’ra carrinha de onde saíra, onde uma mulher, ao volante, aguardava com mais duas garotas atrás.

Seguiram os dois veículos e eu fiquei a vê-los afastarem-se. E pensando com os meus botões que aquilo terá sido uma cedência gratuita de manuais usados. É bom ver tal coisa ao vivo.

E estou eu a pensar e a sorrir sobre isto, quando sou abordado.

Um velhote, andrajoso e com um olho inchado e fechado, vinha pedir-me um cigarro. “Mas só se puder ser e não lhe fizer falta”, disse-me.

“Claro!” e tirei a cigarreira do bolso, abrindo-a e estendendo-lha. “Sirva-se”.

Olhou para ela, olhou para a sua mão suja e calejada e deixou-me de boca aberta: “Se não se importa, tire o senhor.”

Dei-lhe quatro.

Por vezes, compensa adormecer no comboio!

 

Nikon Coolpix P7000


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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Amores




Não tenho pressa. Nem cliente, nem prazos, nem encomenda. Não tenho urgências, portanto vou com calma.

Quando estou para aí virado, vou para o estúdio e viro mais algumas fotografias. Com tudo o que isso implica de preparação técnica, de preparação e verificação dos assuntos, de tratamento de imagem e de pesquisa posterior com o respectivo arquivamento. Uma hora cada, se tudo correr muito bem. Bem mais, se tudo correr muito mal.

Refiro-me à criação de uma espécie de catálogo das peças fotográficas que por aqui há. Para minha organização e organização de quem nisso pegar.

Desta feita estou de volta dos aparelhos de medição de luz, a que toda a gente chama de fotómetros. De tantos géneros e modos de utilização que são que, genericamente lhes podem chamar de “fotómetros”, ainda que tenham nomes específicos, em função da idade, do método e tecnologia, e da região do globo de onde são originários.

Hoje calhou que, de entre os que tirei da gaveta para fotografar viesse este. Um Quantum de sua marca, “calcu-flash-II” de seu nome.

Foi o meu terceiro aparelho de medida no campo fotográfico e não me recordo onde o comprei. Sei, antes sim, que tinha uma necessidade tremenda de aquilatar as luz emitida pelas unidades de luz instantânea: quantidades e qualidades, zonas iluminadas e zonas sombreadas. Não havendo lâmpadas piloto, isto é vital.

Acontece que de tanto usar e medir, de bem conhecer as fontes de luz, fui deixando de necessitar do aparelho, passando a confiar mais na minha experiência e colocando o “flashmeter” primeiro no saco, depois mesmo em casa. Dei-me mal algumas vezes, que a arrogância do “eu sei fazer” nem sempre resulta. Medir e ter certezas é importante.

Há anos que não lhe pegava, até porque uso outro, mais moderno e multifuncional.

Mas hoje, depois de ter verificado a ausência de baterias, ter limpo os contactos e colocado baterias novas, as minhas mãos sabiam o que fazer e o que procurar, mesmo antes de a minha mente se aperceber do que estava a fazer. Incluindo a escala adicional que lhe tinha acrescentado então e que permite ler as relações de contraste no quadrante de leitura.

Foi com carinho que o usei, foi com gentileza que o fotografei pensando na utilização da imagem, e foi com amor que decidi que, em terminando esta sequência que tenho entre mãos, merecerá uma abordagem mais cuidada e desligada de um catálogo.

Afinal, uma ferramenta como esta, com bem mais de quarenta anos, em perfeito estado de conservação estético e funcional, e sendo a primeira do seu género nas minhas mãos, merece um tratamento especial.

É que, digam o que disserem, não há amor como o primeiro!

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax 100-M macro 1:4


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É fácil




“As conversas são como as cerejas: umas atrás das outras”, diz-se.

Pois não sei qual a cereja anterior, apenas sei que dei connosco a conversar sobre fotografia (eu e quem trabalha atrás do balcão do café aqui da rua), e de como há pequenas coisas, tão simples, e que podem melhorar em muito as fotografias que fazemos. Isto sem se querer ser um “artista”, apenas querendo obter satisfação do que se possui nas festas e férias. Mesmo com um telemóvel.

A horizontalidade versus a verticalidade em função do assunto e da contextualização; o espaço próprio do ser humano e dos objectos e de como isso corresponde à nossa própria forma de estar e viver; o centro de interesse e os centros da imagem; o uso de primeiros planos;…

A certa altura tinha mais dois vizinhos aqui da rua a ouvirem e a experimentarem as minhas dicas com os seus telemóveis mesmo ali encostados ao balcão, a meu lado.

Foram uns vinte minutos proveitosos para todos, entre cafés e boletins de totoloto.

Pouco me importa o que dizem os lentes e catedráticos: tudo na vida é fácil, desde que nos dispúnhamos a aprender e nos ajudem ao nosso nível.

 

LG D405


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