Aquelo dispositivo de dois depósitos ligados que, ao ser
invertido, a areia cai de um para outro, servindo de contador de tempo.
Por comparação pessoas há que, ao inverte-las, nem areia
cai.
By me
Aquelo dispositivo de dois depósitos ligados que, ao ser
invertido, a areia cai de um para outro, servindo de contador de tempo.
Por comparação pessoas há que, ao inverte-las, nem areia
cai.
By me
“Genesis 1
3Deus disse: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita. 4Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. 5Deus chamou à luz “dia” e às trevas “noite”. E houve tarde e houve manhã: primeiro dia.”
Mais detalhe, menos detalhe, esta ou aquela tradução, os livros sagrados das três maiores confissões religiosas (Judaísmo, Cristianísmo, Islamísmo) contam o mesmo.
O que nos pode levar a concluir que quem não respeitar a luz como coisa sagrada desrespeita Deus, seja ele qual for.
Fica o alerta para os fotógrafos.
Pentax K7, Tamron Adaptal2 90mm 1:2,5
By me
Temos sabido pelas notícias sobre as manifestações de
violência contestatária em França.
Sejamos honestos: o ou os motivos originais para esta onda
de contestação já se perderam ao longo desta semana. Sobra a contestação pela
contestação numa sociedade que não resolveu ainda problemas antigos que passam
pela recuperação (ou não) da guerra, do colonialismo, dos guetos, das elites
num país supostamente igualitário...
As reações institucionais a esta onda de contestação
violenta aconteceram há dois dias, salvo erro.
No meio de tudo o que foi destruído e dos confrontos entre
autoridade policial e manifestantes, foi incendiada a residência de um autarca,
não sei já em que cidade.
Foi perante isto que os políticos franceses usaram o termo “inaceitável”.
Porque os manifestantes ousaram tocar na elite política. Não lhes bastou
destruirem lojas e instituições oficiais. Não lhes bastou ficarem ruas inteiras
com carcaças de carros queimados e mobiliário urbano reduzido à ínfima
essência. Ousarem tocar num político, num eleito, num membro das elite
governativa, isso já é inaceitável e contra isso se unirão todas as forças de
investigação e repressão.
Aos franceses devemos a Revolução Francesa e o conceito “Liberdade,
Igualdade, Fraternidade”. Que está por cumprir, pois haverá sempre por lá uns
mais iguais que outros. Também lhes devemos a Comuna de Paris, que teve o
desfecho que conhecemos.
Entre mosquetes e cassetetes, gadanhas e petardos, Bastilhas
e Maios ’68, as revoltas têm sido e serão muitas. E enquanto a expressão “piet
noir” não for algo tão antigo quanto um qualquer trisavô, elas continuarão a
existir.
Desde que as elites não sejam postas em causa, ou a mostarda
ou pólvora lhes subirá ao nariz.
By me
O objecto
Comprado numa feira de velharias em segunda mão, quem mo
vendeu não sabia para que servia. Nem eu.
Trata-se de um mecanismo de corda que, em escolhendo um
tempo entre zero e dez segundos, e tendo encolhido a haste inferior, a solta no
final desse tempo. É de fabrico Suisso, e foi-me vendido com o estojo de
cabedal de origem pelo preço de um maço de cigarros. Dos baratos.
Não me pude queixar, principalmente por se tratar de objecto
cuja finalidade desconhecia.
Cerca de uma hora depois, o mais que tinha encontrado na net
foi a data de fabrico (1922), algumas fotografias com e sem a embalagem de
cartão original e até o esquema mecânico interior. Mas não a função. Mas acabei
por dar com a coisa, depois de dar trabalho às células cinzentas entre orelhas.
Trata-se de um temporizador fotográfico invertido. Por outras
palavras, ele não faz começar um exposição mas antes a termina, no máximo de
dez segundos, deste que tenhamos ajustado a câmara para “B”. Aplicavel num cabo
disparador de “bicha”, para evitar movimentos parasitas na câmara. Ou mesmo directo
no botão do obturador, se este tiver uma gola onde prender a haste. Algo impossível
de usar nas câmaras actuais.
Peça rara, que irá para a minha coleção de peças raras e
antigas.
A fotografia
Só há um coisa mais difícil de fotografar que mecanismos ou
cutelaria em metal polido: Mecanismos ou cutelaria em metal polido. Tudo quanto
é luz ali se reflete, como num espelho, e controlar esses reflexos não é coisa
nem fácil nem rápida. Mas eles devem existir para mostrar o material de que são
feitos os objectos.
Neste caso a coisa é mais complicada, já que haveria de
mostrar a escala de tempo ajustável, bem como uma outra de afinação. Ambas
rasgadas na superfície de metal e igualmente polidas e reflectoras. Indo mais longe,
haveria que ter algo visível no enquadramento que desse uma escala de tamanho
do referido objecto. Optei pela mão de madeira, que permite uma multiplicidade
de posições.
Já quanto ao metal, optei pela minha abordagem incial do
costume: a luz haveria que vir de cima e de trás. Mas para evidenciar as
inscrições, haveria que usar uma luz razante, tão tangencial quanto possível. Que,
de caminho, não apenas evitaria que a superfície ficasse um bloco de luz como
se refletiriam nos bordos, criando volume. Usei uma da esquerda e de cima e um
espelho de baixo e da direita que a refletia em oposição de 180º.
Propositadamente, deixei ficar algum pó na superfície
metálica para ajudar a defini-la. O mesmo em relação aos reflexos que nela se
vêem. Já o fundo deveria ter algo colorido para evidenciar a ausência de cor do
metal.
Foi barato o objecto, considerando que usei mais de uma hora
para o conhecer e mais de hora e meia para o fotografar.
Todos os prazeres fotográficos fossem assim.
Pentax K1 mkII, Tamron Adaptal2 90mm
By me
Lisboa
Pentax K1 mkII, Yashinon-DX 35mm 1:2,8
.
Numa escola onde lecionei, antes de o digital se impor como
norma fotográfica, tive uma discussão enorme com um dos directores.
Havia que comprar conjuntos para os alunos usarem e a nossa
escolha recaiu em Pentax. Pelo que havia no nosso mercado então e por questões
de orçamento. Uma P30, uma 28-80, uma 80-200 e uma 50. Para além de um flash,
um saco e um tripé. Seriam seis conjuntos.
Pois o director não queria aceitar, já que a 28-80 cobria o
ângulo da 50 e esta seria uma despesa a evitar. Não entendia ele que, e para além
da luminosidade da 50, ela permitia uma disciplina visual, um saber escolher a
perspectiva sem recorrer à variação de ângulo de visão, atitudes e disciplinas
pessoais vitais em fotografia.
Acabámos por ganhar a discussão, mas foi difícil.
Ainda hoje mantenho essa disciplina. Apesar de gostar de
captar detalhes com teleobjectiva, tenho épocas, como a que estou agora a
passar, em que me imponho o uso de grande-angular. Fixa. Grande-angular
moderada ou extrema.
Apesar de ter no saco ou mochila a ou as objectivas com as
quais me sinto mais confortável visualmente, a que mantenho na câmara é de
ângulo largo e é com isso que “vadio” na cidade ou me encaminho para um local
definido. Trabalho ou outro. E é divertido forçar-me a encontrar soluções estéticas
para aquilo que quero captar com esse ângulo de visão. Perspectiva e luz. Que
quero ter na mente ainda antes de ligar a câmara. Saber ver com o olhar antes
de ver com a objectiva.
Para quem não tem objectivas fixas (ou primárias como também
se diz) sugiro uma abordagem um pouco mais difícil de respeitar: sair de casa
com o firme propósito de usar apenas um ângulo pré-definido da zoom que possui.
E manter-se com esse ângulo (ou distância focal) todo o dia ou boa parte dele.
É bem mais difícil, já que a facilidade da zoom nos leva a “fazer batota”, mas
é uma questão de disciplina individual.
Esse foi um dos principais motivos de querermos, num
conjunto para jovens aprendizes, uma 50mm. Disciplina visual, por muito “louco”
que possa ser o resultado final.
By me
Um fotógrafo sente-se realizado quando o trabalho final
cumpre aquilo que imaginou antes de primir o botão da câmara. Essa é a sua
satisfação.
E a câmara (objectivas, luz, etc), bem como a pós produção,
são as ferramentas que usa para tal.
Mas também encontra satisfação no uso da ferramenta. Não
apenas porque lhe permite obter o resultado pretendido mas no seu manuseio:
facilidade no uso, o bem ficar na mão que a usa e, não pouco importante, a
estética da ferramenta. A “Belle Époque” e o movimento Bauhaus bem o sabiam e
bem se esforçaram para o conseguirem.
Há uns anos “deitei as mãos” a esta objectiva. A da
esquerda. Uma Takumar 135 1:3,5. Para além de bonita, para além de ter sido
fabricada no ano em que nasci, para além de estar em estado de práticamente
nova, custou metade do que me custou o adaptador para a poder usar nas câmaras
digitais. Guardo-a com carinho.
Tem ainda a particularidade de ter um sistema de “presset”
para o diafragma. Um sistema hoje obsoleto e poucos saberão o que é ter o
diafragma aberto para enquadramento e focagem e ter que o fechar manualmente
para fotografar.
Eis que hoje, numa feira de rua, encontro outra peça
igualmente incomum: um multiplicador focal. À direita. Para quem não sabe, o
colocar isto entre a objectiva e a câmara aumenta a “potência” da objectiva.
Para quem sabe, saberá igualmente que este sistema era e é o sistema dos pobres
para se ter uma objectiva potente, com o sacrfício da qualidade da imagem.
Este é mais incomum por dois motivos: por um lado porque em
vez de multiplicar por dois, o habitual, multiplica por três. A perda de
qualidade é equivalente. Mas também divide por três (grosso modo) a
luminosidade do conjunto. Este tem de incomum o possuir uma escala na sua base
que nos indica qual o diaframa (ou transmissão de luz) real que se tem para
usar. Coisa que hoje, com os medidores de luz incorporados nas câmaras, nem se
pensa ser nessessário. Na época (anos ’60), o habitual era usar um fotómetro
manual ou ter o olho treinado. Ou usar a regra do “Sunny 16”. E haveria que ter
esta ajuda se se queria uma fotografia bem exposta.
Se me perguntarem se o irei usar, a resposta é sim. Não faz
sentido possuir uma peça destas, a funcionar, sem lhe dar uso ou, pelo menos,
ter testado. Com a antecipação óbvia das questão de qualidade do resultado.
Fica na mala das M42.
By me
Já não há fascismo. Já não há PIDE. Já não há censura. Já
não há guerra colonial. Já não há caciques. Já não há bufos.
Não é verdade!
Ainda há censura, embora encapotada.
Ainda há caciques, embora com vários cartões.
Ainda há bufos, mas não ideológicos: ambições de carreira,
actualmente.
As revoluções são momentos específicos no tempo. As mais das
vezes, o mais notório que dá origem aos actos revolucionários extingue-se de um
modo ou de outro.
Mas aquilo que é inerente ao ser Humano mantém-se. Por cultura
ou por genética.
Quase meio século passou sobre Abril. E festeja-se a data
com alegria. Mesmo que a maioria dos cidadãos não saiba, na pele, o que foi o “antes
de”. Saberão por aquilo que leram, por aquilo que ouviram aos antigos, pelos
filmes e séries, por aquilo que romancearam.
Mas quando alguém é afastado de funções porque a chefia não
gostou do olhar que recebeu; quanto se ouve “cala-te, que falas e escreves
demais”; quando se “inventa um caso” para esconder outro; quando há figuras que
são alvo de notícia, várias vezes ao dia, em detrimento de outras; quando os
representantes representam os seus próprios interesses ou ideias, em detrimento
dos representados; quando os ideais políticos e partidários semelhantes aos de
antigamente ganham força entre os cidadãos...
Abril acabou há quase meio século. Hoje estamos em Maio,
ou Outubro, ou Fevereiro. O mês é outro, os ingredientes e métodos são outros,
as guerras fazem-se com petro-dolares ou petro-rublos.
Se não estivermos alerta para o regresso daquilo que não
quisémos, se não nos acautelarmos para novas ditaduras e métodos repressivos,
se não escutarmos com espírito crítico os discursos castrantes, mais ou menos
inflamados, se não afastarmos os candidatos a não democratas no poder...
De nada servirá descermos a avenida dando vivas ao que foi.
O que será virá igual com outras roupagens e outras formas de servidão
famélica.
Festeje-se a revolução. Mas acautele-se o futuro. Todos os
dias.
By me
A importância de uma ferramenta está na proporção directa
daquilo que se é capaz de fazer com ela.
É por isso que eu, em tendo acesso a uma ferramenta que não
conheço mas sobre a qual só posso deduzir as suas potencialidades, trato de ir
praticando e fazendo experiências com ela até que me seja “natural” o seu uso. Tentando
perder a lógica e hábitos de outras ferramentas e procurando adaptar-me a novas
lógicas e métodos.
No caso de objectivas, haverá que “ver” com o seu ângulo de
visão, com as suas distâncias de trabalho, focagem e profundidades de campo.
Haverá que antever as perspectivas que permite, o como evidenciar centros de
interesse pertinentes e anular conteúdos impertinentes.
E perceber quais as potencialidades e limitações que cada
uma tem e decidir se é aquele ângulo de visão (vulgo distância focal ou potência)
é ou não útil para materializar aquilo que vimos e imaginámos.
Admito que é um desafio pessoal e muito intimista o olhar
para algo e decidir qual a objectiva certa para o que quero. Claro que o uso
das objectivas zoom facilita o trabalho, mas quero mesmo é dizer-me “Para isto
é uma XXmm”. E sinto-me realizado se a minha escolha, com mais ou menos algum
ajuste, é a certa.
Tal como é um desfio pessoal encontrar soluções técnicas e
estéticas para contar o que quero dispondo apenas de uma objectiva: perspectiva
e enquadramento. E é aqui que recorro à objectiva zoom mais antiga que conheço e
que funciona a dois tempos: pé direito e pé esquerdo. Porque, e como costumo
dizer, se a luz é a minha matéria-prima, a perspectiva é a minha ferramenta.
By me