terça-feira, 17 de abril de 2018

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As palavras foram inventadas para dizer aquilo que o corpo e os olhos têm dificuldade ou pudor em dizer.



By me

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Iconógrafo


Ao contrário do que se possa pensar, a fotografia não tem que ser explícita nem ter leituras implícitas.
A forma como materializamos o que sentimos – neste caso com o registo lúmico – pode ser tão abstracto que apenas para o autor haja correspondência directa.
Nem sempre para o autor é importante que o público interprete o que fazemos de acordo com o que sentimos ou “vimos”.
Passe-se a enormidade da imodéstia das comparações, será que a cantora Maria João se preocupa que os vocábulos que produz quando canta sejam inteligíveis? Ou que Miró se preocupava que os seus pontos e traços tivessem um entendimento “universal”. Ou Kandisky com os rectângulos e quadrados?
Bem sei que, na velocidade do consumo actual, aquilo que não é perceptível em, no máximo, dois segundos, é rejeitado liminarmente. Que, para além do que temos pela frente, há toda uma enormidade de outras coisas para consumir, material ou emotivamente.
Mas eu não me entendo como fotógrafo. Já tive essa veleidade, pese embora use a fotografia como suporte material. E, se necessário, saiba usar a fotografia como forma de comunicação tradicional, em linha com o consumo habitual.
Se tiver que usar uma classificação para o que sou, e se as classificações forem importantes e servirem para algo, serei um iconógrafo. Faço ícones do meu interior, usando a luz e o que com ela vejo e sou capaz de registar.
Quanto ao resto, nem sempre estou preocupado que o público entenda. Ou que consiga fazer uma ligação entre a minha alma, o ícone e o que de concreto possa estar exibido.
Novamente, e num assombro de imodéstia, recordo-me de Weston e dos seus “equivalentes”. Dificilmente as suas nuvens nos dirão hoje, tal como então, o que lhe ia na alma quando as fotografou, imprimiu e exibiu, sem mais explicações que um “equivalent # XX”. Mas eram equivalentes ao seu estado de alma ou pensamentos, tal como argumentava.
Talvez que as redes sociais não sejam o local mais adequado para tais fotografias. Mas, com elas, também não pretendo reconhecimento ou interpretações.
Usando uma expressão de alguém que me é muito querido, são um vómito, uma vontade incontrolável de materializar o que sinto, sem nenhuma preocupação com interpretações ou “likes”.
Talvez que por isso raramente as publico ou mesmo as exibo para públicos mais restritos.



By me

domingo, 15 de abril de 2018

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By me

Porta




“Há governo? Sou contra!”
Esta frase esteve durante uns tempos e há bastante tempo afixada numa espécie mural apenas tolerado, multi-funcional e pseudolibertário lá onde trabalho.
Foi depois retirada, suponho que por alguém que se cansou de a ler ou porque alguém a descobriu ou ainda por alguém que se sentiu incomodado por algo que tentava acordar a sua consciência.
A questão de se ser contra um governo, seja ele qual for, nunca é o “ser-se do contra” por uma questão de estar na vida.
A existência de um governo é a materialização de uma tirania, mesmo que seja de maiorias sobre minorias. É a definição de uma hierarquia formal, em que uns mandam e os demais obedecem. É a presunção de que os seres humanos são uns pobres coitados, incapazes de tomar conta de si mesmos e que necessitam de um líder, qual pastor, para os conduzir a uma existência feliz e tranquila, em que a felicidade é definida pelos “pastores”. É o modo como alguns concretizam a sua ambição de poder, todo o poder, nada mais que poder, e bem para além das questões materiais.
Um governo, seja ele laboral, político ou religioso é a antítese da liberdade individual. E, consequentemente, a antítese da liberdade da espécie humana.
Portanto:
Há governo? Sou contra!



By me

sábado, 14 de abril de 2018

“Cantata de paz” – Sophia de Mello Breyner




Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

DÁfrica e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.


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Céptico




O cepticismo pode ser terrível!
Vulgarizado com a expressão “Ver para crer, como São Tomé”, é uma boa base de trabalho para a ciência.
Dizem os especialistas que uma teoria é válida até que se demonstre o seu contrário ou falsidade. E há os que, em torno de uma teoria, se esforcem por a demonstrar falsa. Ou porque querem desacreditá-la; ou porque querem provar, por não encontrarem falhas, que é verdadeira; ou apenas pelo hábito de ser céptico perante o que os cerca.
Levado ao extremo, haverá quem, perante a afirmação “Está a chover”, queira verificar.
Claro que a filosofia, no seu conceito original de “busca do conhecimento”, necessita do cepticismo como de pão para a boca. Quer se trate de argumentos para além do que a ciência pode provar, quer se trate de mera argumentação como os antigos Sofistas, os Cépticos sempre foram necessários para o avanço da Humanidade em todas a eras.
Por mim, que não sou Filósofo nem Sofista nem Céptico, tenho uma dose talvez que um nico acima da média de cepticismo. Talvez por ser Fotógrafo, que os fotógrafos só se interessam por aquilo que sai da norma, quer seja bom quer seja mau.
Perante uma afirmação, teórica ou prática, gosto de a dissecar e verificar erros ou falhas. O “grãozinho na engrenagem” é suficiente para ma fazer parar e questionar sobre a sua origem.
Por vezes o meu cepticismo manifesta-se por um nano segundo, nem chegando ao consciente. Outras vezes dou por isso mas não lhe atribuo importância. A vida é demasiado cheia de insólitos para que tudo questionemos.
Mas há ocasiões em que o meu cepticismo me faz parar, ponderar a fundo a incongruência do que vejo ou oiço. E acabo por demonstrar, mesmo que apenas no meu íntimo, que aquilo “não bate certo”. E encontro a falhas dos factos ou argumentos. A mentira ou distorção da verdade.
E é aqui que “a porca torce o rabo”! Nem sempre é avisado exteriorizar o que encontramos fruto do cepticismo. Ou porque daria muito trabalho argumentar (não sou Sofista); ou porque teria como consequência um crispar de atitudes com o “oponente”; ou porque não sou o “salvador do mundo” que tem por obrigação tudo descobrir e rectificar.
Mas as consequências do Cepticismo, mesmo que guardado no íntimo, ficam. Aquilo que se encontra com a sua prática, mesmo que não divulgadas, minam relações, confianças, actividades. Mesmo que seja o simples acreditar ou não que aquela tábua suporta o meu peso.
São muitas as vezes em que gostava de não ser tão céptico e ter uma muito maior dose de ingenuidade.

By me

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Resistente




Eu tinha tempo. Não estava ocioso, apenas a gozar a folga, fazendo pequenas tarefas no bairro: tabaco, euromilhões, cafezinho, ver as montras e pessoas…
Sem pressas, optei por ir onde não costumo, tentando tirar partido do que via e ouvia. Com a câmara pendurada no ombro.
A primeira vez que ouvi estava pacatamente à espera que o semáforo passasse a verde. Apesar de novos e velhos fazerem de conta de serem daltónicos.
A segunda vez que ouvi estava a meio da passagem. E, tal como da primeira, estranhei.
Na terceira já estava alerta e percebi, já no passeio onde parara, a origem do som:
As rodas de automóvel passarem por cima desta garrafa de plástico.
Ouvi mais algumas vezes, vendo o respectivo efeito, e decidi fazer uma superficial estatística: em cada dez carros cinco passavam com duas rodas em cima dela, dois só com uma, três não lhe tocavam.
Quando cheguei a quarenta viaturas achei que chegava. A garrafa mantinha-se imperturbável naquele local, atropelada sistematicamente, mas como que dizendo “Daqui não saio, daqui ninguém me tira!”
Deixei-a lá, trazendo o retrato de uma resistente!


By me

E porque dizem que hoje é dia do beijo...



By me

Fotografia




No dia em que é divulgada a fotografia vencedora do World Press Photo deste ano, proponho-vos outra fotografia.
Retirada do livro “Naughty Paris, erotic photographies of the twenties”, publicado pela Taschen, ignoro qual o autor, porque não referido. Procurando na net, também não a encontrei.
Espero que os puritanos da web não a censurem.
Também é fotografia, também passou pela imprensa, também transmite mensagens – e tantas -, também fará chocar algumas mentalidades mais sensíveis.

By me