domingo, 7 de janeiro de 2018

A bandeira



Dizem as regras militares e a vexilologia que as bandeiras e estandartes só devem ser arreados quando se abandona a praça.
No caso vertente, e mesmo esfarrapadíssima que estava (a imagem é antiga), foi antes.
Não creio que necessite de a hastear de novo.


By me

Merda





Porque hoje está frio, lembrei-me deste episódio

"Merda! É a única palavra que me vem à cabeça. Merda!

Pediu-me para uma sopa e fomos por ela. E disse-lhe que pedisse o que quisesse, já que não sabia se naquele snack de estação e àquela hora ainda haveria sopa. Já não e olhou-me, perguntado, se poderia ser um salgado e um sumo.
Disse-me depois, já no cais e enquanto esperávamos pelo comboio, que queria mesmo era uns trocos para poder pagar o quarto. Há três noites que estava a dormir num vão e não sabia se ainda lá estaria a roupa.
O que lhe faltava era menos ainda que o que eu havia recebido de troco, ao balcão. Dei-lho.
Olhou para mim, bem nos olhos pela primeira vez, e disse-me:
“Sabes? Isto hoje não é para mais nada. É mesmo só para o quarto. Estou tão cansada!”
“Não te perguntei nada, pois não? E ainda não me deste motivos para que não acreditasse em ti, pois não?”
Sorriu ainda mais.
E ficámos mais um nico à conversa, sobre a sua família lá na terra, os seus filhos e as idades, as reacções do pai e da mãe quando lá vai…
A dado passo, e antes de subirmos para a composição, mete a mão no bolso do casaco coçado e diz-me:
“Olha! Já vi que fumas. Não queres ficar com este maço? Está quase cheio. Deram-mo hoje.”
Mostrei-lhe os meus e disse-lhe que preferia fazê-los eu, obrigado.
Merda! Não me recordo de me terem oferecido algo de tão valioso. Merda!
Quando, uns vinte minutos depois, se levantou do seu banco para sair na estação dela, debruçou-se e deu-me dois chochos, dizendo baixinho:
“Vemo-nos por aí.”
Dei-lhe uma palmadinha no ombro e só me ocorreu dizer-lhe de resposta, também baixinho:
“Porta-te bem!”
Ficou no ar o seu sorriso, triste, e o seu odor.
Talvez que por isso ninguém tivesse ocupado o seu lugar no banco, não sei.
E talvez que nos vejamos por aí."

Tenho continuado a vê-la, no comboio ou na estação, durante estes quatro anos. E, volta e meia, temos tempo para uns dedos de conversa.
O seu aspecto tem-se detiorado, umas vezes mais depressa, outras nem tanto. E, num desses encotros, falou-me do seu estado de saúde. Pouco promissor.
Continua a ter um sorriso cada vez vez que me vê e gasta neles uns segundos mais que em redor quando me pede uns trocos.
Creio que já esqueceu o meu nome, que passou a tratar-me por “amiguinho”.
O seu não esqueço mas aqui não o divulgo, que há privacidades que assim devem continuar: privadas.
Não sei por quanto mais tempo a continuarei a ver.


Merda! É a única coisa que me apetece dizer. Merda!

By me

sábado, 6 de janeiro de 2018

Intimidades



Passada que é a época, e depois da chegada dos Reis, vem a rebaldaria.
Todos ao molho, protegidos de olhares indiscretos, no escurinho de uma caixa e aconchegados em plástico, farão o que muito bem entenderem até que se celebre outro aniversário e regressem à ribalta.

Prometo não interferir nas suas intimidades.

By me 

Sem título



Foi já há uns bons anos, decorria o meu projecto “Old Fashion” no Jardim da Estrela e fui abordado por duas senhoras catequistas já não sei de que confissão religiosa.
Não costumo ser rude para com estas pessoas. A sua conversa não me interessa por demais e tento afasta-las com a urbanidade que posso e sei. Por vezes recorrendo a estratagemas pouco ortodoxos, mas não rudes.
Desta feita esgotei todas as que tinha sem sucesso. Eu estava ali “amarrado” à minha câmara montada e elas tinham-me como “vítima” garantida.
A conversa terminou, com vitória para mim, quando lhes apresentei um argumento adequado ao que ali fazia:
“As senhoras prometem a felicidade numa eventual vida após a morte. Da qual não há testemunhos que não a fé. Eu propicio a felicidade, aqui e agora, ao entregar, de borla, fotografias a quem mas pede e provocando sorrisos. Quem, de nós, tem mais sucesso?”
Engoliram em seco, disseram mais uma ou duas coisas e zarparam. Devem ter-me identificado com Belezu encarnado.
Mas o certo é que essa é a minha abordagem.
Podemos e devemos trabalhar para a felicidade futura. Sejam quais forem os conceitos de felicidade e os prazos considerados.
Mas não devemos descurar a felicidade no momento em que vivemos. Não apenas fazendo por ela mas – e antes de mais - encontrando-a no que somos e temos.
E, principalmente, fazendo com que ela se espalhe, qual epidemia, em redor. Mesmo que em pequenas coisas e por uns instantes.
Como? Depende das circunstâncias, dos envolvidos e das suas capacidades.

Se a vida fosse uma fórmula resolvida…


By me

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

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Um dos graves problemas deste país (talvez deva dizer “povo”) é ser adepto do “come e cala”.
Refila e protesta no café, no trabalho, nas redes sociais mas, em tendo que tomar uma posição dando a cara e arcando com as consequências, encolhe-se. Continuando a sua vidinha de sempre, amargurado contra as injustiças mas conformado com o fado luso.
Isto quer se trate de um vizinho, de um empregador ou de um governante.
Protesta-se e espera-se que alguém faça alguma coisa.

Se eu mandasse alguma coisa neste país, forrava todos os sofás da zona de conforto com arame farpado.
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Códigos de conduta



Esta é uma reprodução de uma página de um livro.
Feita a correr, sofre de alguns defeitos, entre os quais a não uniformidade de iluminação. Confesso que me deu a preguiça e foi-me mais fácil usar a câmara que já estava montada que ligar o scanner, que está arrumadinho face ao seu reduzido uso.
O livro é a versão castelhana de “Achieving photographic style”, escrito por Michael Freeman, de 1984.
As fotografias são da autoria de Philip Jones-Griffiths (em cima) e Tim Page (em baixo).
Foram feitas durante a ofensiva Mini-Tet, Saigão, Vietnam, 1968.
Feitas quase ao mesmo tempo, mostram um rapaz a chorar a morte do seu irmão.
Foram elas usadas pelo autor do livro, e agora por mim, para mostrar como um mesmo assunto pode provocar estímulos semelhantes em fotógrafos e levá-los a fazer imagens quase idênticas. Quase!
Que nem a perspectiva é a mesma – a de cima foi feita mais perto que a de baixo – nem o instante da imagem é rigorosamente o mesmo.
São quase iguais, mas só quase.

É um dos defeitos que tenho (dos muitos que possuo): ter uma memória visual razoavelmente apurada. Quando me detenho algum tempo a olhar para algo, segundos que sejam, fica-me gravado algures na massa cinzenta, queira-o eu ou não. E, cedo ou tarde, acabo por me recordar do que vi. Foi o caso desta imagem deste livro, arrumado que estava ele aqui em casa e onde não mexia há uns anitos valentes.
E foi o caso de duas fotografias que vi no Facebook.
Uma delas tinha-me prendido a atenção, há dois dias, e a seu respeito tinha feito um comentário. Elogioso, por sinal.
Eis que, hoje de manhã, os meus olhos passam e param numa outra fotografia. Já a havia visto mas não me tinha detido nela. Desta feita parei, achei algo de estranho, e fui confirmar. De alguma forma eram tão iguais, na minha memória, que algo não batia certo.
E tinha eu razão!
Apesar de terem algumas diferenças notórias – contraste, saturação de cor, proporções – a perspectiva é exactamente a mesma. Ao ínfimo detalhe.
Sendo que não há referencias temporais (como é o caso da imagem que mostro, em que a posição do rapaz o denuncia) dos dois exemplos de que falo e que vi no Facebook sobram duas explicações:
1 – Foi usado um tripé, que recebeu duas câmaras, uma de cada autor. Perfeitamente possível. Pouco comum, mas possível.
2 – Uma das fotografias foi copiada da outra, re-editada e publicada. Também possível e, infelizmente, muito comum neste mundo da imagem digital e da internete.

Digo infelizmente porque, se for esse o caso, ainda que a segunda tenha o mérito de ter sido trabalhada (não me agrada tanto quanto a primeira, mas há alguma criatividade no trabalho de edição), não foi respeitado um código de conduta básico. O respeitar os créditos autorais.
Não me refiro ao pagamento de direitos ou taxas. Essa é uma questão polémica que ainda não está resolvida. Refiro-me, antes sim, a ter não sido citado o autor da imagem original. Dando-lhe os méritos ou deméritos de a ter feito, ainda que assumindo o tratamento posterior.

O copy/past na web é fácil e de borla. Todo e qualquer que nela publique o que quer que seja terá que estar consciente disso e preparado para que os seus trabalhos disso sejam alvo.
Agora quem copia e não atribui o seu a seu dono, principalmente se estiver intimamente ligado ao mundo da autoria (imagem, texto ou som), comete um acto a que, no mínimo, só posso chamar de “desleal”.
E, goste-se ou não, o seu a seu dono: a criatividade e a moralidade dos actos.


By me

Atitudes



Há uns anos precisei de recorrer aos préstimos de um advogado.
Tratava-se de tentar obter na justiça a compensação das despesas efectuadas na sequência de uma agressão.
Uma situação absurda. Tanto a agressão quanto o relacionamento com a advogada.
Que, a dado passo, me propõe ela eu apresentar em tribunal um conjunto de mentiras sobre os “danos não patrimoniais” sofridos. Insónias, pesadelos, medo, alteração de rotinas… um conjunto de queixas falsas.
Acrescente-se que teria que o fazer para que o montante a receber fosse suficiente para cobrir as despesas que tinha tido com a agressão e o seu trabalho, mais caro que o que eu reclamava.
Acabei por prescindir dos seus serviços, explicando-lhe que mentir não faz parte da minha forma de estar no mundo. Para além de ser crime fazê-lo na barra dos tribunais.
Não recebi o dinheiro gasto. Mas dormi muito mais tranquilo.


Ainda hoje, passados todos estes anos, me cruzo com ela amiúde. Quase todos os dias, para ser mais exacto. E continuo a não lhe dirigir a palavra, nem mesmo a saudação, a menos que seja mesmo necessário.

By me 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tempo



Hoje é dia três de Janeiro.
Uma daquelas datas pouco significativas: o Natal já foi e o ano novo também.
Faltam os Reis que, por cá, para além de ser a data de desmontar presépios e árvores de Natal, pouco significado tem.
As mesas fartas, se o foram, já não são, apesar de talvez ainda sobrarem uma ou outra guloseima das mais duráveis.
Da passagem de ano sobra alguma lembrança, nalguns casos dolorosa, mas já pouco etílica.
As bolsas voltaram a ter os cordões apertados, se alguma vez estiveram soltos. Que os extras, se existiram, abanaram orçamentos e já se sentem as prendas do novo ano, governamentais ou dos empresários, expressas sob a forma de códigos de barras e afins.
E eu olho para o relógio, o marcador de tempo entretanto congelado, e constato a total assimetria dos seus indicadores. Os ponteiros, cada um de seu tamanho, esparramados no mostrador, num total relaxe muito pouco exacto. Nada conforme com a convencional disposição de ponteiros para publicidade: 10:10. Talvez que um dia, quando mais nada tiver de relevante tenha para fazer, gaste algum tempo a tentar saber o porquê de terem escolhido essa hora como padrão. Talvez que os ponteiros subidos, simétricos, simulem os cantos de uma boca sorridente. Ou que seja mais apelativo vê-los subidos e equidistantes que descidos, tristes e ou “desarrumados”.
Tal como ainda hei-de vir a saber, com alguma certeza, o porquê de tantos mostradores escritos em numeração romana terem o número 4 escrito sob a forma de “IIII” e não “IV” como aprendemos na escola.
Em qualquer dos casos, e ao contrário destes, os ponteiros movem-se. E se não me despacho ficarei atrasado para os afazerem que me esperam.

Que Chronos vos acompanhe.

By me 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O botão



Nem todos os dias, em saindo da cama de manhã, tenho inspiração para uma primeira publicação.
Nessas ocasiões, busco-a em textos ou fotografias antigas, já usadas ou nem tanto.
É este o caso e tem sete anos.

Talvez por ser onde foi: Coimbra;
Talvez porque o raiar do dia prometia-o bonito e ameno e cumpriu;
Talvez porque a minha própria predisposição me tornasse mais alerta;
Talvez por ser Lua Cheia, ainda que quase ninguém o soubesse em pleno dia…
Certo é que não me recordo de ter visto num dia de Inverno, ainda que apetitoso, tanta gente enamorada em público.
Ele era no comboio, ele era nas ruas, ele era nos cafés, ele era nos jardins, ele era… Por todo o lado se podiam ver pares de todas as idades, de braço dado, p’la cintura ou no ombro, de mão dada a passear, em ternurentos beijos, mais ou menos repenicados,… Bonito de ver e capaz de fazer sorrir a alma mais empedernida!
Mas a cereja no topo do bolo aconteceu aí pelas quatro e tal da tarde.
Saía eu de um bar, de ter ido ver uma exposição de fotografia (aliás, o motivo da viagem: várias exposições) e parei na esplanada a olhar para uma janela partida. E oiço, mesmo ao meu lado, uma voz feminina a dizer:
“Oh amor, então tu não sabes pregar botões?”
Surpreso e com a discrição possível, olhei de revés:
Um casal, aí na casa dos 18/20 anos, sentados com imperiais em frente. Terá ele respondido qualquer coisa, que não percebi, mas cujo semblante denunciava algum embaraço, e ela respondeu, no mesmo tom:
“Mas tu, aqui nas calças, também te falta alguns. Deixa ver: um, dois… e atrás, também? Mas é tão fácil: a linha na agulha, num buraquinho, depois no outro…”
Uma outra resposta dele, igualmente em tom sumido, e ela terminou:
“Anda lá! Vamos a tua casa buscar isso e tratamos do assunto na minha. Vais ver que é rápido, amor.”
E, de mão dada, desceram a rampa que, muito apropriadamente, dá o nome ao bar: “Quebra Costas”.
E fiquei eu ali, a vê-los afastarem-se, deixando na mesa as imperiais meio bebidas e a aquecerem, como, eu, ao sol. E, entre elas, este botão.
Ainda estive para os chamar e entregar-lho. Mas depois…
Certamente que encontrarão botões para pôr ou tirar nas respectivas casas, na casa de um ou de outro. E não precisariam de um intruso p’lo caminho.
Fica o botão no meu bolso para que, em voltando a Coimbra e em os encontrando, lhes faça dele oferta.

By me


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Parar



Ignorou heroicamente o sinal de parar que a senhora lhe fez na paragem. Tal como teve reacção nula ao piscar da luz no seu painel, resultado de ter eu apertado o botão “parar” quando deixámos para trás a paragem anterior.
Só imobilizou o autocarro, uns bons cinquenta metros depois do local próprio, quando ouviu o berro que alerta que dei, bem como um outro passageiro.
Desembarquei eu, embarcou a senhora, depois de correr aquele pedaço. E aproximei-me da porta da frente, ainda aberta, para fazer um qualquer comentário sarcástico sobre o incidente e o ser o ultimo dia do ano. Fiquei calado.
O motorista, mostrando uma destreza pouco habitual, fechou as portas, destravou o longo autocarro e retomou a marcha, tudo isto com uma só mão. Que a outra manteve-se junto à cabeça, segurando o telemóvel com o qual vinha tendo e continuou a ter uma conversa com alguém algures.
Comentando episódio, alguém me referiu que o telefonema até que poderia ser importante, com alguém distante ou sobre um parente próximo de súbito doente. Abstive-me de argumentar.
Dificilmente aceito que a importância de um telefonema possa colocar em causa a segurança dos passageiros de um autocarro. Um cão surgido do nada ou uma bola perseguida por uma criança podem acontecer em qualquer lugar, em qualquer momento. E tenho dificuldade em imaginar um eficaz controlo de um autocarro, ainda por cima com atrelado como era o caso, por parte de um motorista que, para além de ir concentrado no telefonema, só tem uma mão livre para o fazer.

Recuso ficar calado perante um motorista profissional que assim coloque em risco a vida ou segurança daqueles que nele confiam para chegarem incólumes ao seu destino.
Recordo ter lido, há uns anos valente, que as sanções legais que impeçam o exercício de uma actividade profissional também impedem o normal ganhar a vida de quem nelas incorre. E que será inconstitucional impedir alguém de ganhar o seu sustento.
Um caso destes, em que a segurança de terceiros é deliberadamente colocada em risco por um profissional, deveria ser excepção.
Um profissional que assim se comporta deveria ser impedido de conduzir viaturas por um notório período (um mês, três meses, um ano). Para que se consciencializasse a sério do acto que cometeu. E para que os passageiros, que devem confiar em quem conduz, possam continuar a confiar.
E por muito draconiana que possa parecer a medida, prefiro-a a ter que ir visitar alguém a um hospital ou pior.

Nota adicional –
Este texto cumpre o desafio proposto: escrever um texto médio sem usar a palavra “não”. É um divertido exercício de escrita, que nos leva a encontrar fórmulas alternativas para exprimir o vigor da negação de acordo com situações e sentimentos.
É mais moroso? Claro que sim! Tudo aquilo que saia das rotinas implica pensar. E isso consome tempo. E energia.

Mas posso garantir que a satisfação de o fazer é real e que os sentimentos entretanto expressos se relativizam surpreendentemente.

By me