segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Carne p'ra canhão



Os grandes confrontos entre exércitos faziam-se com linhas de homens que avançavam sobre o oponente, disparando as suas armas.
Acontece que estas eram de pólvora negra, de carregar pela boca, de um único tiro. Depois de disparadas, haveria que deitar pólvora pela abertura frontal do cano, acrescentar o projéctil, calcar tudo com uma vareta e garantir a existência do sistema de ignição na câmara: inicialmente por pederneira, mais tarde por fulminante.
Disparava a primeira linha, avançava a segunda para disparar enquanto a primeira iniciava o remuniciamento, avançava e dispara a terceira enquanto a primeira terminava o carregar da arma, avançava a primeira…
Quando a distância entre as linhas adversárias era muito pequena, passava-se à luta corpo a corpo, de espada ou baioneta, esta colocada na ponta do cano da espingarda ou mosquete.
Mas se este avanço era táctico, para tomar uma posição inimiga, estes estariam equipados com canhões. Que eram municiados também pela boca da arma. Mas que disparavam sobre as linhas inimigas que avançavam, dizimando-as as mais das vezes.
Neste tipo de confronto bélico, a primeira vaga de assalto tinha uma taxa de sobrevivência diminuta, menos de dez a vinte por cento, ao que sei.
E era a esta vaga, conjunto de três linhas, que se dava o nome de “carne para canhão”. Que se sabia ser dizimada pelos canhões inimigos e que era o preço para que as linhas seguintes chegassem ao corpo a corpo.

Hoje a pólvora negra é usada apenas em espectáculos pirotécnicos. As armas de carregar pela boca (mosquetes, revolveres de acção simples ou canhões) já não são mais que peças de museu. E a carne para canhão já não se espalha pelos campos de batalha da mesma forma.
Mas continua a existir, a carne para canhão.
Às ordens dos generais dos mercados e dos marechais da política, a carne para canhão somos nós, que vamos tombando nos campos de batalha económicos, vítimas das ofensivas bancárias e geopolíticas.
E com a ilusão da “doce morte do herói” continuamos a marchar armados de notas, moedas, contratos e consumos.
Os generais de hoje já não têm estrelas nos ombros, não vestem de caqui nem possuem cavalos brancos.
Mas nós continuamos a alimentas essas guerras, caindo na frente de combate às ordens desses que não saem dos gabinetes estratégicos.
Continuamos a ser a sua “carne para canhão”.
Até que um dia espetemos no chão as baionetas, deitemos fora as munições e enterremos as carteiras com notas e cartões.




Imagem: “Harvest of death”, de Timothy H. O’Sullivan, 1863, Gettysburg, USA
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Bienal de fotografia de VFX



Ainda sobre a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, sobre um dos trabalhos eu digo “não”, repito “não” e insisto no “não”.
Trata-se do trabalho de Eduardo Matos e está “exposta” num hostal.
A procura não foi fácil, considerando que os hostal são discretos na sua publicidade exterior e que os nomes das ruas nesta cidade não são tão evidentes quanto um forasteiro desejaria.
Mas eu gosto de me perder nas cidades, que me leva a novas descobertas, e este foi mais um caso.
Quando paro em frente ao edifício, com a minha câmara no ombro, o boné na cabeça e a mochila pequena nas costas, a simpática mocinha que fumava um cigarro ao sol da tarde pergunta-me se procuro um hostal. Achei-lhe graça, pois senti um nico de hesitação na língua, oscilando entre o português e o inglês. Acertou logo à primeira.
Quando lhe disse que procurava, sim, mas por causa daquilo (e apontei para o dístico do evento posto na parede), ela sorriu e disse que sim, que era ali, mas que não era bem uma exposição.
Perante a minha cara de espanto ela disse-me para entrar que me dava um exemplar. E deu, deixando cá fora chaves, telemóvel e um cigarro a arder.
Tratava-se de um talvez opúsculo, oito páginas em formato A4, impresso em preto e branco, sobre formas sentidas nas artes de pesca no rio Tejo, com esquemas, desenhos e fotografias.
Não terá sido este o trabalho que mais me agradou, num evento de fotografia. Mas, caramba: nem eu tenho que gostar de todos nem os trabalhos têm que ser feitos para agradar a todos.
Portanto, está tudo bem.
O que eu não gostei mesmo, e contra isso protesto, quase que em vernáculo convencional, é que o trabalho escrito apresenta-se ao público primeiramente em inglês e só depois, se procurarmos, em português.
Não! Não! Não!
Estamos em Portugal, o autor é português, o evento é português, as imagens são sobre algo específico de Portugal, a maioria do público é portuguesa…
Apesar da globalização, do transfronteiriço das artes, da língua inglesa ter assumido o papel destinado ao Esperanto e de se tratar de uma língua viva em quase todo o planeta, temos que manter as demais culturas. E a língua é um dos traços principais na definição de cultura.
Remeter a língua local e materna para segundo plano é, para além de uma soberba a roçar o caricato, o negar aquilo que somos. Enquanto povo e enquanto indivíduos.
Não creio que este senhor que assim renega as suas origens linguísticas fosse o que é hoje se as tivesse diferente.
E insulta-me quando menoriza aquilo que eu sou. Enquanto elemento de uma cultura e enquanto cidadão.
Falta acrescentar que quando fizermos tábua rasa de todas as culturas, quando falarmos todos a mesma língua e pintarmos ou fotografarmos ou esculpirmos ou arquitectarmos todos do mesmo modo, deixaremos de ser humanos para passar a ser robots de carne e osso.

É muito pouco importante se eu gostei ou não do trabalho que apresentou.
Mas farei o possível por divulgar a ofensa sentida na forma como o apresentou!
O seu nome é Eduardo Matos.


A imagem? Uma das da sua “exposição”, roubada da net.
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domingo, 15 de janeiro de 2017

Uma porta



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O canito



Esta fotografia foi feita do quarto piso da biblioteca municipal de Vila Franca de Xira.
Ao edifício e função foi dado o nome de “Fábrica da Palavra”, bastante adequado. Tal como, acho eu, a sua integração no espaço circundante, entre o rio e o caminho-de-ferro. Gostei de conhecer.
E estive lá para ver uma exposição de fotografia, que se dividia com imagens de grande formato do primeiro ao quarto piso. Seguindo o meu hábito, vi-as por duas vezes, uma primeira numa “conversa intima” com elas, uma segunda já depois de ler o que sobre elas fora escrito e a integração no local. Manias.
Assim, tive oportunidade de assistir ao que se vê na fotografia por duas vezes, com uma boa meia hora de intervalo.
De ambas as vezes a acção era a mesma: o canito a tentar forçar a porta de alumínio por baixo.
Não será uma questão de fome ou sede, já que são visíveis tachotas próprias para o efeito, à direita. Também não será uma questão de clima: o dia estava simpático e ele tinha como fugir do frio ou do calor, procurando o sol ou a sombra.
A questão, digo eu, punha-se mesmo no facto de ele querer sair dali, apesar de ser um terraço espaçoso. Ou de querer ir em busca dos humanos que habitam atrás daquelas paredes. Em qualquer dos casos, meia hora de esforço inútil contra pedra e alumínio, no local onde ele sabe ser a saída.
Solitário.

Fica o relato e a ilustração para aqueles que dizem gostar de animais mas que os têm confinados todo o dia num apartamento ou terraço.
Será que eles são realmente felizes?

Será que vocês gostariam de assim estar?

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sábado, 14 de janeiro de 2017

Em quadrado



Tenho estado a visitar a 16ª Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira.
Não vou falar na importância do evento: é o décimo sexto e acontece de dois em dois anos, o que lhe dá uma solidez quase a toda a prova.
Como bom tuga, fui guardando para mais tarde tão perfeitamente que por pouco perdia as principais. Por pouco.
Uma das que vi hoje valeu por todas as outras. Eu diria que valeu pelas que vi nos últimos anos, aqui ou em qualquer outro lugar.
Feitas por João Paulo Feliciano, talvez uma trintena de fotografias espalha-se pendurada das diversas bancas do mercado municipal. Por si só o local e a forma de exibir são incomuns, para não ir mais longe. E os conteúdos também nos fazem sair do habitual.
Mas o que me encheu o olho e a alma foi ver tantas fotografias em formato quadrado. Aquele formato que sempre rejeitei, que nunca pratiquei e cujo simples olhar sempre me fez afastar.
Desta feita fiquei convencido. É possível gerir um espaço simétrico, aborrecido, em nada semelhante à forma como vemos o mundo. E de um modo harmonioso, apelativo, bonito.
Será interessante notar que o próprio espaço – o mercado – é quadrado e que as quatro portas, a meio de cada lado, são encimadas por um pequeno torrão quadrado.
Foi tão surpreendente para mim gostar de fotografias quadradas que a primeira que fiz depois de sair foi enquadrada a pensar nesse formato.
No caso, o sr. Paulo Pereira, talvez o excêntrico do mercado, que me abordou etilicamente em inglês e que quis ser meu cicerone no mercado. E, no final, quis ser fotografado com a sua bicicleta decorada com relva. Verdadeira.

Fica o seu retrato. Quadrado.

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Uma questão de ética



É verdade que sim! Gosto de fotografar flores e folhas.
Gosto de ver a suavidade das suas texturas, gosto de registar os seus contornos trabalhados, gosto de sentir como a luz as atravessa, gosto de constatar como as suas nervuras se espraiam e desenvolvem.
Agora é garantido que nunca as fotografo em ambientes controlados! Aquela coisa de termos a luz como a queremos, de sabermos que o vento não as tira de foco e de podermos usar o tempo de exposição que entendemos sem que haja imagens tremidas… esse tipo de fotografias não faço!
E o motivo é razoavelmente simples: não me entendo dono do universo para poder decidir quais os seres vivos que devem morrer para meu deleite!
Matar um animal – mamífero ou insecto – ou uma planta – flor ou folhas – apenas porque me apetece fazer uma fotografia, numa espécie de orgasmo visual, isso é algo que me recuso fazer.
Se as condições o permitirem – luz, terreno, vento, perspectiva, técnicas – lá tentarei dar um arzinho da minha graça e trazer para casa um ícone daquilo de que gostei. E, se tiver arte e engenho, será quase tão bonito quanto o animal ou planta vivo de que gostei.

A alma também se alimenta. E, ao contrário do estômago, é de coisas vivas e belas. A morte pouco ou nada tem de belo, mesmo a de uma folha, se for eu a provocá-la!  

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Killing time



Bastidores

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Fotografia e activismo



“…
Los artistas tienen un tipo de control sin precedentes sobre su própria producción, pero la mayoria lo pierden de inmediato en la fase de posprodicción. Pieredn el control no solo sobre el objeto, sino también sobre su objetivo. Cuando una obra de arte sale de las manos del artista, queda fuera de su alcance en diversos sentidos. El contacto o la conexión com una obra (descrita por ciertos artistas – no solo mujeres – como una conexión umbilical o parental) puede perdese llegados a este punto. Como un niño, la obra es abandonada e una existência independiente en un mundo que puede transformala hasta hacerla irreconocible: enmarcala mal, colgarla bajo una luz inadecuada, mistificarla, despojarla de su ideologia o, por el contrario, utilizarla para demonstrar otros argumentos políticos. En esta fase, el artista entrega el poder del objeto al comerciante, museo o nuevo propietario, para volver al estúdio, a una nueva obra sobre la que todavia tiene ilusión de control.
…”

In: “Fotografia y activismo”, por Jorge Luís Marzo.

Imagem: by me

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Hoje é sexta-feira coisa-e-tal.

Aos supersticiosos recomenda-se que não saiam de casa. E mesmo assim…  

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

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Palmado da net