sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Temos pena



Uma das coisas que me aborrece de sobremaneira é dizerem-me (ou percebe-lo como implícito numa conversa):
“Mas eu mandei-te um mail!”
Ou, em alternativa:
“Mas eu mandei-te uma mensagem!”
Ou ainda:
“Tentei telefonar-te mas não atendeste!”
Como se fosse obrigatório que todos os dias, várias vezes ao dia, tenhamos que aceder ao correio electrónico ou ao telemóvel para ver tudo o que nos querem dizer ou fazer dizer.
Como se estivéssemos permanentemente à disposição de todo aquele que decide dizer-nos algo e haja a obrigação de disso tomar conhecimento.

Para os que assim pensam e assim agem para comigo, o meu muito sincero:

“Temos pena, mas para esse peditório já dei!”

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Opinião



Colado no exacto local onde se obliteram os bilhetes numa mais que concorrida estação de caminho de ferro com ligações suburbanas.

Perfeito e brilhante!

By me

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

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Alguém escreveu, numa crónica publicada num jornal: “O candidato a sabonete”.
Brilhante comparação. Fantástica! Que só peca por incompleta.
Pois que também há o candidato a detergente, que tudo limpará; o candidato a shampoo, sempre sem caspa, o candidato a sabão azul e branco, bem popular; o candidato a limpa-vidros, em prol da transparência; o candidato a lixívia, à moda antiga e corrosivo;…

Tudo ponderado – discursos, ideias, atitudes, história - sobram um ou dois que, não tendo por objectivo as limpezas íntimas ou domésticas, talvez valham a pena escolher.

Um pequeno depoimento



Este sou eu, numa fotografia feita há demasiado tempo para que me recorde quando.
Do que nela se vê, ainda possuo:
A barba, maior e branca; o chapéu e o colete, arrumados nem sei onde; o flash, o punho e o cabo disparador, o primeiro ainda em uso, ou outros guardados onde não os perco.
A câmara, propriamente dita, é uma Linhoff Tecnika 70. Produzia imagens em formato 6x7 ou 6x9, em película formato 120 ou, usando película rígida, imagens em 6,5x9, em carregadores (chassis) individuais e reveladas também individualmente.
Pese embora ter vendido esta câmara faz já bastante tempo, ainda hoje tenho saudades de a usar e do que com ela aprendi.
E se fui buscar esta velharia ao arquivo foi para que os que nasceram para a fotografia já na era do digital possam entender um pouco melhor o texto que se segue.
Trata-se da transcrição de uma eventual entrevista a Eliot Porter, publicada no livro “Dialogo com la fotografia”.
Nele fala-se de uma câmara Linhoff 9x12 e das consequências de a ter usado, nos idos de 1935. Tendo o negativo o dobro da área desta na imagem, pode imaginar-se o tamanho da câmara e a facilidade (ou não) de utilização. Ou, o que não é contado mas que consigo imaginar, tratar-se-ia de uma câmara não usável desta forma, mas tão só em tripé, com o que isso implica de transporte e manuseio.
Mas leia-se o texto:

“…
Quizás 1935 o 1936. Eso fue mientras yo todavia enseñava en el departamento de bacteriologia de Harvard. Volvia a Nueva York de vez en cuando com un conjunto de fotografias y se las mostraba. Las mirava y decía: “Oh, todas son confusas. No es un problema de precisión. La fotografia da mucho trabajo y tienes que trabajar más duro.” Fue siempre muy simpático, y nunca fue grosero conmigo. No me decía: “Pierdes el tiempo” o “Eso es basura”, pero las examinaba cuidadosamente. Entonces fui un verano a Suiza y Austria. Como resultado de su crítica, me compre una Linhoff de 9x12, comencé a tomar fotografias más grandes y me llevé esa cámara a Europa. Cuando volvi e hice algunas copias de fotografias tomadas en el Tirol y otros lugares, incluso fotografias de aves, se las enseñé a Stieglitz. Las miro cuidadosamente, las volvió a mirar una segunda vez, y me dijo: “Quiero exponer estas”. Así fue. Yo no lo esperaba. En cierto sentido fue como si me golpearan en la cabeza, pero fue un golpe muy agradable.
…”

Servirá, talvez, este pequeno depoimento como exemplo da necessidade de pensar a fotografia antes de a fazer. Antes de comprar a câmara que refere, o autor usava já as então novidades “Leica”. Película de 35mm, muito mais pequenas sequer que a exibida na imagem.

O facto de se pensar antes de fotografar, nem que seja devido à complexidade do equipamento, no lugar de se “disparar” à toa pela facilidade com que se o faz, fez toda a diferença.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Linhas



O caminho-de-ferro não é sempre composto de linhas rectas e paralelas.
A vida muito menos!


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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Zippo



"Olha lá! Então tu ainda andas com isso aí?"
"Isso o quê?"
"Isso: o isqueiro no cinto."
"Claro que sim! Os hábitos ou vícios perdem-se, mas um de cada vez. Por enquanto tratamos do tabaco. Dos Zippos falamos depois. Em qualquer dos casos, e sendo eu parcialmente responsavel pela existência de Zippos à venda em Portugal (história velha que agora não vem ao caso), mal seria se não tivesse um comigo, tal como o canivete Suiço. E nem um nem outro me deixam ficar mal. Queres ver?"
E, tirando o bendito isqueiro do seu estojo no cinto, tentei acendê-lo. Sem sucesso.
Ao fim de mais de duas semanas sem uso, a gasolina que continha, embebida no algodão do depósito, evaporara-se pelas fendas. A faísca ainda obtive, agora a chama... Se eu tivesse parado para pensar, no lugar de ser Chico Esperto, nem o teria tentado acender. 
Vou ter que esperar o regressar a casa para o carregar de novo. Porque, e tenham lá paciência, um isqueiro faz sempre falta, e não apenas para acender cigarros.

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Café



Já foi hábito meu, que ultimamente pouco tenho praticado: num balcão pedir um café sem manteiga.
Os motivos para tal são vários, que passam pelas brincadeiras e quebra de rotina para quem está do outro lado e terminam na rapidez com que sou atendido.
Por via desta expressão, aparentemente absurda, tenho já vivido situações caricatas em que umas vezes sou eu a vítima, outras o empregado, outras ainda clientes ao meu lado.
Desta feita foi diferente:
Entro num café de estação onde sou cliente, digamos, uma vez em cada duas ou três semanas. Mas acabo sempre por meter conversa o que, aliado ao meu visual, me transforma em tudo menos num cliente ocasional e anónimo.
Pois como a loja estava vazia, uma das mocinhas que ali está viu-me aproximar e tratou de fazer o expresso do costume. E quando encostei no balcão perguntou-me, sorrindo:
“Um café cheio, verdade?”
Não me fiquei e retorqui:
“Isso! E sem manteiga, por favor!”
“Sem manteiga?!”, espantou-se ela, como eu esperava.
“Claro! Já provou café com manteiga? Eu já e não gosto. Por isso peço sem manteiga.” Tudo isto dito com um ar perfeitamente impassível, ainda que rematado com um sorriso de orelha a orelha.
Foi a vez dela me deixar de boca aberta:
“Pois olhe que até já bebi café com manteiga e até gostava.” O seu sotaque brasileiro acentuou-se “ Quando era pequena o meu avô bebia disso de manhã e, só um pouquinho, deixava-nos provar.”
“Pois aposto que viviam no campo, o seu avô tinha animais de grande porte na quinta e as manhãs eram bem frescas, de Inverno!”
“Pôxa! Como sabe isso? O Paraná é parecido com Portugal e tínhamos cavalos na roça.”
“É que era isso que o meu avô fazia. Com um capote vestido por cima da roupa de dormir, à luz de uma candeia de petróleo, ia acordar e dar de comer às vacas antes do amanhecer. Mas antes de enfrentar o orvalho nocturno, bebia uma malga de café com uma colher de manteiga, para aquecer o corpo e a alma. Só depois de os animais terem forragem fresca na manjedoira é que regressava a casa, lavava-se e vestia-se comia o pequeno-almoço, na altura chamado de primeiro-almoço.
“É! Outros tempos e boas memórias!” E continuava a atender outros clientes que, entretanto, tinham chegado e queriam levar qualquer coisa no estômago na viagem que os levaria de volta a casa.

Quando me afastei do balcão, despesa paga, olhei em redor. Os que ficavam tinham cara de quem tinha passado todo o santo dia a trabalhar. Mas consegui vislumbrar em alguns, atrás do cansaço, um brilhozinho de nostalgia alegre.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Vícios



Os vícios são terríveis. São vícios!
Como o da nicotina, que estou a tentar perder.
Ou como o da cafeína, que ainda não decidi perder.
Ou como o da heroína, que nunca tive pelo que nunca terei dificuldade em perder.
Ou como o do oxigénio, que espero nunca perder pois que será definitivo junto com todos os outros vícios, congénitos ou não.
Ou como outros vícios adquiridos que não queremos perder, como o de fotografar, o de escrever, o de criar, o de construir, mesmo que protestando ou porque protestando.
São estes vícios que se me entranharam na pele sem que desse por isso ou fizesse algo por isso. E dou comigo tão dependentes deles como de outros que, subtil mas solidamente, também se me entranharam. Como um rosto, uma presença, uma voz, uma proximidade.
Como qualquer vício, também estes padecem de sintomas típicos quando em estado de carência. E satisfação total quando a eles cedemos.
Há vícios bons!

Nota fotográfica adicional, também fruto do vício:
Foi particularmente divertido ver a cara de estranheza daquele casal já idoso, sentado à minha frente no comboio, enquanto manuscrevia isto.
E muito mais divertido ver as suas caras quando fiz a fotografia com o telemóvel.

Mas o divertir-me com os outros e as suas reacções aos meus actos fotográficos também é um vício.

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O tempo é meu



Ontem perdi uma hora!
Não sei se foi ao sair da cama, se ao ler as notícias na net ou a tomar café com bolo do outro lado da rua.
A verdade é que, quando dei por mim, tinha perdido uma hora.
Bem que a procurei por entre as cobertas da cama, no fundo da chávena na cozinha e até no ralo da banheira.
Mas não encontrei a hora perdida!

Não é que seja muito importante. Atrás de uma vem outra hora, e outra ainda e ainda mais outra, e todos os dias têm muitas horas para usar. O que é frequente é desperdiçar horas em coisas inúteis, ou fúteis ou forçadas.

Mas, se por acaso virem por aí uma hora sem dono e sem uso, avisem-me que a vou buscar.

É que, sabem, gosto de cada hora do dia que vivo. Mesmo das menos boas!

By me

domingo, 10 de janeiro de 2016

Um olhar – Talvez Maria, a estudante



Hoje é dia dez de Janeiro, Domingo.
Feitas as contas, que são fáceis, conclui-se que hoje é o décimo quinto dia após ter acordado e dito: “É hoje!”
Claro que nem tudo são rosas neste percurso. Coisas há que deixam de acontecer ou que passam a acontecer.
Por exemplo:
Parte das fotografias feitas no meu projecto “um olhar” aconteceram por causa do tabaco. Abordado na rua ou num jardim para que desse um cigarro, propunha eu uma troca: um cigarro por uma fotografia dos olhos.
O inusitado da proposta, o ter sido eu o abordado e não o inverso, a câmara exibida, um sorriso apropriado, o alimentar o ego e, acima de tudo, o quererem um cigarro, acabavam por quebrar gelos e eu regressar a casa com mais um troféu fotográfico.

Se nada correr mal – e estou em crer que não – este não mais será motivo de conversa e de fotografias de olhos. Terei que inventar novas estratégias.

By me