sexta-feira, 23 de maio de 2014

Vermelho:



Cor do perigo, da proibição, do pecado, do sangue, da revolução.

Há quem não distinga um de outro significado e que queira destruir o que é útil, deixando sobreviver o que não presta!

By me

P'la janela



Três palavras sobre o dia de hoje:
1 – Está um tempo da treta, com uma luz feia e uma temperatura muito pouco consentânea com a época.
2 – É o último dia da campanha eleitoral e ainda não decidi o que fazer no domingo. Nenhuma das propostas me agrada especialmente, sendo que muitas me desagradam profundamente. Nenhum dos candidatos me agrada especialmente, sendo que alguns, pelo seu historial, me desagradam profundamente. Sendo certo que está excluída a possibilidade de não participar activa e construtivamente, creio que irei usar do método usado em ocasiões similares: o mal menor. Mas, de forma alguma, deixarei que sejam outros a decidir por inteiro por mim.
3 – Tenho um montão de coisas para fazer hoje e vontade nenhuma para as enfrentar. E algumas dessas coisas nada têm de agradável ou de cordialidade.


Há dias que mais valia serem riscados do calendário.

By me

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Cruzamentos



A vida é feita de encontros, cruzamentos, prioridades.
Há mesmo uma teoria que diz que num máximo de sete saltos se consegue chegar a qualquer pessoa no planeta, seja ela um anónimo membro do povo Mapuche na Patagónia Chilena, seja ela o presidente de uma qualquer super potência. Alguém, que conhece alguém, que conhece alguém…
As mais das vezes não precisamos disso. O nosso quotidiano e os seus cruzamentos habituais são suficientes para as nossas necessidades.
E um deles, comum à esmagadora maioria dos cidadãos, é o cruzamento na rua.
Duas ruas que se cruzam, uma passadeira de peões, o passeio e a porta de um prédio… a vida está cheia de cruzamentos.
Curioso mesmo, ou triste, é ver como tantos fazem questão de usar das “prioridades” que possuem, não cedendo nem um milímetro a quem consigo se cruza. Se fosse feito um levantamento de comportamentos, seriam os que exigem as prioridades os que fazem por não respeitar as prioridades alheias, exigindo um lugar ao sol que não lhe pertence.
Exemplo comum: passadeira de peões.
Nela presume-se que o peão tenha prioridade, devendo os automóveis parar para que passem. No entanto…
A um cidadão apeado esperar três segundos, quatro que sejam, para que passem dois ou três carros que se aproximam é inconsequente. Que são três ou quatro segundos na vida? Em compensação, o parar para que um peão passe, imobilizando a viatura, obrigando as viaturas atrás a pararem ou abrandarem, o retomar a marcha, engrenando outra velocidade do motor… são bem mais que três ou quatro segundos, dá muito mais trabalho, consome muito mais gasolina…
Faço questão de, em não tendo pressa demasiada e em aproximando-se um, dois ou três carros quando me aproximo de uma passadeira, de me afastar da berma e ceder a passagem. Por vezes mesmo fazendo um gesto explícito com a mão ou braço para que passem.
Estes três ou quatro segundos que “perco” na vida são largamente compensados pelo saber que, de um modo ou de outro, ajudei alguém a ter um dia mais fácil. Será pouquinho, p’la certa, mas muitos pouquinhos dados e recebidos fazem um dia cheio, mais sorridente e feliz. Para quem dá e para quem recebe.

Como tudo o mais, é uma questão de saber usar de prioridades nos cruzamentos. A nossa e a dos outros.

By me

Sorte ou nem tanto



Dizem que ter uma ferradura dá sorte.
Depende!
O mesmo não dirá o equídeo, onagro ou muar que a tenha perdido.
Tal como não o dirá quem, a tendo, a tenha recebido em pleno na cabeça.

Hoje sinto-me como asno fosse.

By me

Momentos



Há sempre uma madrugada que espera por si. Seja a que horas for do dia.

A questão é saber se você espera pela madrugada.

By me

Passageiros



A conversa já estava a azedar. Não era nada comigo, mas levantei o nariz do livro para a seguir, que as vozes já se alteravam
Estávamos no comboio suburbano, parados numa estação. A troca de palavras era entre o revisor e um passageiro. Mas a comunicação mal se fazia.
O passageiro, preto retinto, praticamente não falava português, tentando fazer-se entender em francês. Muito polidamente, mas em francês.
Por seu lado o revisor pouco ou nada sabia ou queria saber daquela língua. Apenas lhe interessava que o bilhete não era válido e havia que pagar a multa. Principalmente aqueles “escarumbas borlistas”, que tinham que pagar como todos os outros
A dado passo, agarra o passageiro por um braço, arranca-o do banco e arrasta-o para fora da composição. Os modos violentos do funcionário da CP pareceram-me muito para além do aceitável perante a atitude do passageiro.
Sabendo que o francês não é uma língua universal (e é pena porque até é bonita) resolvi intervir, quanto mais não fosse como intérprete. Pelo caminho que as coisas levavam, aquele fulano até que iria passar um mau bocado se ninguém o entendesse
Quando cheguei ao edifício, cruzei-me com o revisor que regressava à composição. Espumava e praguejava como poucos.
No cais, passageiros largavam impropérios contra a CP, o revisor e o passeiro borlista. Nada justifica estes atrasos!
E o comboio partiu.

Entrei meio a medo no gabinete do chefe da estação, onde este estava com a dificuldade que eu previa: a língua. Mas agora o tom da conversa tinha baixado para níveis civilizados.
Ofereci-me para traduzir, e a história assentava em mal entendidos. Tinha ele comprado uma senha de passe, aquando da sua mudança de residência para aquela zona, havia dias. Tinha perguntado se valia por um mês, o que lhe disseram que sim. O que não lhe explicaram era que se tratava de um mês de calendário e não de trinta dias a contar da data de compra.
E os bilhetes anteriores que tinha consigo comprovavam a veracidade da história.
Acontece, porém, que o chefe da estação já nada podia fazer. Apesar de estar incomodado com os modos do revisor, o auto já estava levantado. A multa teria que ser paga, até porque o infractor já estava identificado.
Havia apenas uma coisa a fazer: Apresentar a história no Gabinete de Apoio ao Cliente, no Rossio, e esperar que a sede resolvesse a questão. Ele próprio telefonaria para lá para contar a história.

Já que estava apeado, decidi acompanhar o caso. Fui com o passageiro até lá. A probabilidade de encontrar gente que fale francês é pequena nos tempos que correm.
Pelo caminho contou-me a sua história, rica de detalhes de países pobres e de dificuldades. Migrante clandestino, tinha conseguido legalizar a situação havia pouco, mas este tipo de situações só lhe estragavam as possibilidades de ficar em permanência.
Na altura, trabalhava na construção do tabuleiro ferroviário da ponte 25 de Abril. No turno da noite. E a jorna já estava perdida, que não lha iriam pagar com aquela atraso todo.
Chegados ao Rossio, apresentei o caso, mas nem tive muito que fazer já que a simpática senhora que ali estava não só já sabia do caso como dominava o francês.
Apesar disso, e tomadas as notas necessárias sobre a questão do bilhete, eu não me fiquei, que a questão da atitude do revisor me incomodava.
Ali mesmo formalizei queixa contra ele, por comportamento racista, impróprio e violento para com os passageiros.
E fiquei de voltar a saber o resultado das duas situações.

Passadas duas ou três semanas, recebi uma carta das relações públicas da CP, onde era informado do arquivamento do processo contra o passageiro, por terem sido provadas as suas argumentações.
Quanto à minha queixa sobre o revisor, nunca me responderam, mas deixei de o ver naquela linha, como era hábito. Suponho que tenha levado a sua raiva latente contra outras cores para outro lado. Pobres utentes dessa outra linha!

E o passageiro? Durante algum tempo cruzei-me com ele na estação. Depois deixei de o ver e aos seus conterrâneos.

Parte da comunidade Zairense migrou deste subúrbio para um outro qualquer mais barato, e ele deve tê-la acompanhado.

By me

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pequenas frustrações pequeno-burguesas



Chegar um tipo a casa, desenfarpelar-se ficando como veio ao mundo e, querendo beber algo antes do jantar, constatar que a última garrafa fora aberta na véspera.
Depois de hoje, não mereço!



By me

Doi-me a alma


Ex-Café


Ex-Pronto a vestir


Ex-Stand de automóveis

Estou sim?



- Estou sim, bom dia.
- Bom dia! Estou a falar com o senhor Duarte?
- É o próprio.
- O meu nome é Maria Silva e estou a falar em nome da empresa XPTO…
- Só um instante, que a minha memória é fraca. Deixe-me tomar nota… Disse-me que o seu nome é Maria Silva?
- Exactamente. E queria perguntar-lhe…
- Só mais um bocadinho. E disse-me que fala da empresa XPTO?
- Disse sim. E queria saber se…
- Um momento. O meu telefone deve estar com uma avaria, já que não vejo aqui o seu número.
- É natural, já que estou a falar da empresa XPTO e queria…
- Espere! Então é natural que não saiba o seu número?
- Sim, mas…
- Bem, não me parece cordial eu estar a falar com alguém de quem não posso confirmar a identidade. Quer fazer-me o favor de me dizer de que número está a falar?
- Sabe: não o posso fazer. Estou a falar de um sistema automático e as regras da empresa…
- A sua empresa não autoriza que se saiba o vosso número?
- Não, são as nossas regras. Mas eu queria saber se…
- Pois essas serão as vossas regras mas não são as minhas, p’la certa. Vamos fazer assim: a senhora liga-me de novo, de um número identificado, e a conversa pode prosseguir a partir deste ponto.
- Não posso fazer, lamento. Mas o meu objectivo é…
- O seu objectivo não sei e não creio que o venha a saber. Para que haja uma conversa é necessário que ambos os interlocutores estejam em pé de igualdade. E não me parece que seja o caso.
- Bem, nesse caso terei que desligar.

- Faça o favor, já que não fui eu que fiz a chamada. Bom dia!

By me

Mensagens subliminares



Eu não queria falar na coisa. Mas de tanto por aí se falar e de nada nem ninguém o referir, acho que rebento se não desabafar. Aqui vai:

Esteve um candidato ao parlamento europeu em Peniche que declarou que o surf deveria fazer parte dos currículos escolares.
Acredito que o tenha feito a piscar o olho aos praticantes locais, aos comerciantes locais, aos hoteleiros locais. Que pôr o país a praticar surf é um incremento para o turismo (veja-se o exemplo de McNamara) e o alimentar o sonho de crianças e jovens.
No entanto, é sabido que não pratica surf quem quer mas só quem pode; não vai a praias com ondas surfaveis quem quer mas só quem pode; não tem uma prancha de surf quem quer mas só quem pode; não tem um fato de surf quem quer mas só quem pode.
Pese embora a densidade populacional na zona costeira em desfavor do interior e pese embora a enormidade da orla marítima portuguesa, a prática de surf é para elites. Elites com dinheiro para a sua prática.
É assim estranho que esta candidata ao parlamento europeu tenha vindo defender a prática curricular de um desporto de elite nas escolas públicas.

Ou talvez não seja.
Que é sabido que os candidatos a parlamentos, europeus ou nacionais, são elites dentro dos respectivos partidos. E que os partidos se entendem como elites, estando vedada a pertença a um partido se os demais membros não aceitarem a inscrição.
O sistema de gestão da coisa pública, vulgo governação, está reservado a elites. Que assumem o nome de “partidos”. E que, uma vez eleitos para os cargos, excluem os cidadãos da responsabilidade das decisões, alegando que a democracia representativa assim o impõe.

No dia em que vir uma organização politico-partidária defender e pôr em prática, para além da demagogia popularuncha, o artigo dois da Constituição da República Portuguesa (“… visando a democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.”), contam com a minha participação activa.

Até lá, desculpem qualquer coisinha mas têm que levar comigo.

By me