terça-feira, 19 de março de 2013

Em trânsito



By me

Aurora




Saio de casa com o raiar da aurora.
O céu já não é aquele negrume absoluto e começa, muito timidamente, a assumir um tom leitoso, sem cor. Que me daria fortes indícios sobre as condições atmosféricas, não fora o caso de estar a chover. Por sorte, e apesar de forte, a chuva não é tocada a vento, que aliás nem sopra uma aragem, pelo que apenas as pernas das calças ficam molhadas.
O caminho para a estação é feito quase que completamente às escuras. As poupanças forçadas já chegaram ao meu burgo e as luzes da rua apagam-se ainda antes do sol se mostrar.
Mas não estou sozinho neste meu caminhar em direcção ao ganha-pão. Ainda que mais nenhum (ou quase) ser humano mostre a sua presença, os pássaros da zona fazem-se ouvir, não sei se celebrando mais um dia se relatando entre si os sonhos da noite. Mas que é agradável de os ouvir a descompasso com as minhas próprias passadas na calçada molhada, lá isso é.

E se esta foi a forma de o Inverno se despedir, neste seu último dia de existência este ano, foi uma suave e bonita despedida. Assim a Primavera se mostre simpática, que os humanos nada fazem nesse sentido.

By me

Manias




Esta é uma daquelas dúvidas que me assaltam quando, num sanitário público, sou confrontado com estes aparelhos:
Qual a opção correcta para secar as mãos?
No dispositivo da esquerda não há consumo de papel, esse material que tem origem nas árvores e que tão displicentemente vamos destruindo. Em alternativa, a energia que gasta aquecer e ventilar é notoriamente elevada e a sua origem é preciosa.
Em contrapartida, o dispositivo da direita não gasta energia e o papel que fornece pode ser reciclado. Mas não apenas não tem um aproveitamento a 100% da matéria-prima como a energia para o reciclar (transportes, fabrico, embalagens) também é notória.
Acrescente-se que o da esquerda não requer manutenção que não em caso de avaria, enquanto o da direita, menos propício a avarias, obriga a repor o rolo em função da sua utilização. Pelo que, e para além da fábrica, há que considerar o emprego de mão-de-obra neste trabalho.
Não seria a primeira nem a segunda vez que, confrontado com este dilema, me limito a sacudir e a esfregar as mãos, saindo do sanitário com elas apenas húmidas. E praguejando de seguida contra os meus escrúpulos, se estiver frio ou quiser acender um cigarro.

Neste caso específico, juro que me complica com os nervos ver o perfeito alinhamento dos azulejos, com as suas linhas rectas e ângulos rectos, a verticalidade de um dos aparelhos e o muito ligeiro desvio do outro.
Bolas! As coisas ou bem que estão alinhadas e certinhas, ou bem que o não estão. O “faz-de-conta” ou o “está quase lá” irrita-me!

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segunda-feira, 18 de março de 2013

A força da razão ou o seu contrário




Soube hoje que a empresa que fornecia bolos para a cantina de onde trabalho faliu. Não sei quantos trabalhadores tinha nem sei quanto lhes ficaram a dever.
Soube, hoje também, que uma cadeia de lojas de roupas e atoalhados, que em tempos tinha tido anúncios na rádio, fechou as portas. Não sei quantas lojas tinha, quantos empregados tinha nem quanto ficaram a dever-lhes.
Soube, hoje também, que três lojas de telemóveis localizados na zona da Rua da Palma e Martin Moniz, Lisboa, fecharam. Não sei quanto quem lá trabalhava ficou a haver dos respectivos patrões.

Isto é uma lista menos que minimalista do estado em que está o nosso comércio, indústria e emprego. Todos os dias fecham empresas, de todos os ramos, e todos os dias aumenta o número de pessoas que perdem o emprego, possivelmente sem terem como receber os salários em atraso e com as dívidas consequentemente acumuladas.
E vêm os nossos governantes falar em “rescisões amigáveis” entre os funcionários públicos?
Sejam funcionários públicos, sejam do sector privado, apenas irão aumentar as listas de desempregados, aumentar os encargos com os respectivos apoios sociais, diminuir a já de si diminuta quantidade de transacções comerciais no dia-a-dia de que depende todo o pequeno comércio e indústria…
Tenho que presumir que o real objectivo de quem está a governar este País é fecha-lo. Não para balanço, mas definitivamente.
O que não seria mau, não fossem todos os que cá moram.

Sugestão imperiosa de cumprir: despedir, com justa causa e sem direito a compensações, estes funcionários públicos de topo, vulgo governantes.
E, depois de despedidos, accionar a justiça sobre eles, com a acusação de “gestão danosa”.
Mas se nada disto for possível pela força da razão, use-se o inverso!

By me

Há uma coisa que eu garanto: as técnicas de venda agressivas, de porta em porta, fazem-me sair do sério!
Portanto, se vierem para os meus lados e tiverem o hábito de tocar duas vezes seguidas na campainha, seguido de bater com os nós dos dedos na porta, verifiquem primeiro se estou em casa.
Em caso positivo, sigam para a porta seguinte, que a responsabilidade é vossa.

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Informação meteorológica de segunda-feira



By me

Desbotado




Pego num livro mais ou menos ao calhas e sai-me este: “Dicionário das cores do nosso tempo”, de Michel Pastoureau. Tem, por subtítulo “Simbólica e sociedade”.
Em tempos entretive-me a divulga-lo por inteiro, tratando eu das ilustrações, feitas mais ou menos a correr e de acordo com o que ia encontrando na web.
Abrindo-o igualmente ao calhas, encontro esta entrada. A ilustração foi a que usei, há oito anos:

Desbotado
Durante séculos, as cores que não penetravam profundamente nas fibras do tecido, que não resistiam ás lavagens frequentes nem aos raios do sol, que davam aos tecidos e aos fatos um aspecto desbotado, deslavado, descorado, “mijado”, foram tidas em pouca consideração. Eram sinal de pobreza, reservados para os fatos de trabalho, ou até mesmo para os fatos de infâmia (nomeadamente na iconografia). O chiquíssimo era então a cor densa, saturada, estável, sólida, que resistia tanto à água como ao ar ou à luz. Numa palavra, a cor “tinta forte”, que durante décadas, no final do século XIX e no início do século XX, os fabricantes de têxteis e de fatos elogiaram e os vendedores de lixívias e os construtores de máqui­nas de lavar se esforçaram por não alterar (ao princípio, em vão).
Hoje em dia, a “tinta forte” já não é um valor. Todas as cores, aplicadas aos mais diversos materiais têxteis, são “tinta forte garan­tida”. O desbotado e o mijado tornaram-se, portanto, raridades e, por consequinte, particularidades procuradas. Como tantas vezes acontece, o pêndulo inclinou-se na outra direcção e a escala de valores inverteu-se. Assim, vendem-se, hoje em dia, camisas, T­-shirts, calças, roupa interior, fatos de banho e de desporto, com um aspecto desbotado (muitas vezes, desbotado e roçado). E são mais caros do que as roupas com tintas sólidas e uniformes. O mais extraordinário (e também o mais absurdo) é que todos esses tons desbotados, que parecem girar à volta de cores instáveis, se torna­ram duma espantosa solidez e, uma vez aplicados ao tecido, já não evoluem, nem com a lavagem nem com o sol. São “tinta forte”.
Foi na gama dos azuis que estas práticas se tornaram mais correntes, tendo sido os blue .jeans os primeiros a lançar essas modas e a articular as combinações mais desabridas. A tal ponto que, em domínios que nada têm a ver, nem com a roupa nem com os tecidos, se diz hoje, em francês corrente, ,jean e mesmo stoned jean ou bleached jean para designar certos tons de azul. Em Toulouse (antiga cidade do pastel) e em Marselha (antiga cidade do anil) deve haver muitos tintureiros a dar voltas no túmulo.

domingo, 17 de março de 2013

Proposta




É sabido que todo e qualquer movimento de massas necessita de um hino. Em particular se esse movimento se pautar por alguma violência ou entusiasmo.
É assim que temos os hinos das selecções, os hinos nacionais, as marchas militares… Não apenas os ritmos ajudam às movimentações como as letras empolgam quem os canta.
De igual forma temos os gestos. Em regra com uma mão, fechada ou aberta, no peito, na cabeça, acima dela. Esse gesto, tal como os hinos, identifica quem o faz, sincroniza multidões, canaliza energias.
Nos tempos que correm gestos novos são difíceis de encontrar. De uma forma ou de outra, a história recente tem-nos usado quase todos, sobrando ainda as conotações políticas de cada um. É, assim, difícil ter um gesto que una vontades e aspirações e que seja neutro para com o passado recente.
Difícil mas não impossível!
Proponho eu este gesto. Um clássico. Pouco ou nada filosófico. Conhecido por todos e com significado mais ou menos explícito. Um gesto que todos, em uníssono, podem fazer para demonstrar os seus sentimentos para com os governantes que nos andam a assaltar os bolsos e as dispensas.
Um gesto que não creio haver alguém que algures na sua vida não tenha feito, mais ou menos às claras ou às escondidas e com muita raiva. A raiva que todos sentimos.
Em contraste com o “Grândola”, assumido como hino de revolta mesmo não sendo muito ritmado, sugiro que em vez de um punho fechado ou aberto lhes façamos o clássico “dedo do meio”, sem pudores nem ideias partidárias.
Na discrição do vosso computador e longe das vistas mais pudicas, experimentem este gesto de revolta. Com força. Com genica. Com alma. Pensando naqueles contra quem, mais alto ou mais em surdina, têm vindo a protestar.
E digam-me, depois, se este pode ou não ser “O Gesto” que acompanhe os protestos públicos?

By me

Bica e jornal




Que eu tenho um mau feitio levado da breca é do conhecimento geral de quem me conhece.
Há coisas que me fazem sair do sério e só não intervenho mais incisivamente por questões de comodismo ou de desprezo pelos demais intervenientes!

Regularmente vou ao cafezinho ali a meio da rua tomar a “bica com bolo” da ordem.
Duas, três horas depois de acordar, dadas que sejam as voltinhas na web, o pequeno-almoço doméstico, a higiene matinal e uma boa dúzia de cigarros consumidos na ânsia de repor os níveis de nicotina perdidos com o sono.
Neste café, que prima pela luz e pela simpatia de quem ali trabalha, existe o hábito de se encontrarem disponíveis alguns jornais diários. Não que eu os consuma, que os do desporto ou dos boatos e maledicência me passam ao lado. Mas muitos há que o fazem.
Regra geral, esta leitura pública acontece à mesa, com todo o tempo e conforto, com uma chávena de café já vazia, por vezes num convite implícito a que os recém chegados se juntem à mesa.
Mas alguns há que fazem do balcão o seu lugar de leitura. Escancarado em cima do vidro, de braços abertos apoiados, chegam a chávena para o lado para deixar as letras livres.
Mas só as letras, que o espaço que os demais consumidores da loja utilizam fica restrito àquilo que entendem deixar livre. Nem para aceder ao que se quer consumir nem mesmo para se poder ver o que está em venda no expositor.
O cúmulo do azar será encontrar um casal que o faça em conjunto!
Aí o pedido da bica é feito por cima dos ombros, a recepção da chávena é feita por cima do jornal e o deitar do açúcar é um jogo de equilibrismo entre o pacote e o café.
Este olhar para o próprio umbigo é algo que me faz sair do sério, por vezes levando-me a ter “saídas” não muito simpáticas.


Há uns tempos deu-me para esta, em pleno bairro de Alvalade, em Lisboa: “Desculpe, mas… será que o meu café atrapalha o vosso jornal?”
O olhar que recebi na volta, se disparasse ter-me-ia transformado num passador! O aspecto de “patos bravos novos-ricos” com excesso de gel para um e roupas dignas de um “trottoir” para a outra, bem davam a entender que o dinheiro que possuíam, ganho sabe-se lá como, lhes dava direito a ocuparem todo o mundo e arredores.
Mas nem com esta afirmação consegui os míseros centímetros vitais para receber a chávena.
Não fui de modas! Com ar de desastrado, entornei quase todo o bendito café por cima do jornal, com uns salpicos adicionais para aquelas roupas engomadinhas.
Pedidos de desculpa, exclamações de desagrado, mas lá consegui tomar a bica (outra, que ma serviram) no espaço que me seria devido pelo preço que paguei!
Por parte de quem estava do outro lado do balcão não houve comentários. Mas os discretos sorrisos que lhes vi, depois da saída deles, bem que afirmavam um “Bem feita!” Mas como o cliente tem sempre razão, pouco mais poderiam ter feito.

Que este acto não foi bonito, não foi! Mas que me soube muito bem, lá isso soube!

By me

A raiva é como a maioria das refeições que comemos: confecciona-se ao lume e come-se quente.
Já a vingança, p’lo contrário, é como a maior parte das sobremesas: serve-se fria.
Esta é uma refeição longa e ainda estou no prato principal.

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