segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

De novo Segurança


Imagine que é alérgico à penicilina e entra inconsciente num hospital longe da sua área de residência, depois de ter sofrido um acidente. Se não houver ninguém consigo que transmita essa informação, arrisca-se a ser-lhe administrada uma substância que, em última análise, pode levar à morte.
Esta é uma situação-tipo em que a existência do registo de saúde electrónico (RSE) que o Governo quer criar podia, em teoria, salvar-lhe a vida. Terminou ontem o prazo para a apresentação das fases para a sua implantação: 2012 é o prazo final para estar no terreno, mas o bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, diz que o sistema nunca será seguro, se não avançar um projecto que se arrasta há mais de seis anos: a criação da assinatura digital dos médicos, à semelhança do que já acontece com os advogados.
Pedro Nunes sublinha que "sem este problema estar resolvido tudo o resto é conversa. É por aí que se devia começar". O responsável refere que o Ministério da Saúde está a tentar arrancar com um projecto bastante menos complexo, a declaração de óbito digital, que ainda não saiu do papel por falta da assinatura. A certa altura foi sugerido que para criar o documento digital bastaria que o médico introduzisse nome e número da cédula profissional, mas a ordem recusou, nota, pois seria "um mecanismo permeável a fraudes", já que estes dados até nas vinhetas das receitas estão visíveis.
A ideia é que o RSE venha a ser um repositório de informação clínica relevante para a prestação de cuidados de saúde, acessível a médicos e enfermeiros a partir de qualquer unidade de saúde do país (pública ou privada). Em Portugal só dez por cento dos dados de saúde circulam por via electrónica, estima o grupo de trabalho criado pelo Governo para estudar a situação.
O grupo de trabalho debateu também a questão da segurança em unidades de saúde e chegou à conclusão que serão "escassas ou pouco consistentes as iniciativas de definição de políticas de segurança abrangentes". José Carlos Nascimento, assessor do secretário de Estado da Saúde para as tecnologias de informação, não tem dúvida que os níveis de segurança melhorarão com o novo sistema. O que acontece agora? Muitos processos clínicos em papel estão numa gaveta de um arquivo numa sala de uma unidade de saúde. Quem lá entra? Quem pode ler o processo quando ele anda a circular ou está pousado numa secretária?
O bastonário vê a criação do registo como "positiva", mas diz que os problemas de segurança "serão mais complexos", já que a centralização de dados "facilita o acesso a mais utilizadores e à distância".
Questões em aberto
Os utilizadores com acesso ao registo têm que ficar bem definidos, sublinha José Carlos Nascimento, dando o exemplo da Defesa, em que nem todos os oficiais estão credenciados para ter acesso "a documentos top secret". O registo do rasto dos utilizadores é um dos aspectos mais importantes "para poder haver responsabilização", ao nível do acesso, tratamento, transmissão e divulgação de dados, nota.
Outro problema: imagine que parte um pé e entra numa urgência onde um médico ou um enfermeiro acedem ao seu registo electrónico e, além de saberem que toma comprimidos para a hipertensão, têm também conhecimento que sofre de esquizofrenia. Será que quer que este tipo de informação esteja disponível em qualquer acto médico?
Este é o tipo de situação que, em princípio, não poderá acontecer, ressalva José Carlos Nascimento. Vão entrar agora na fase de tipificação dos "casos de uso", para definir a informação acessível em cada contexto. Que tipo de dados pode um profissional de saúde conhecer, por exemplo, numa situação de emergência? Numa consulta de rotina? Esta reflexão será feita com médicos e vai ser pedido à Comissão Nacional de Protecção de Dados que acompanhe o processo, em vez de apenas dar um parecer no final, explica.
Muito está ainda em aberto, sublinha José Carlos Nascimento. Uma coisa é certa: "o cidadão é proprietário desses dados" e tem que poder validar a informação e dizer: "Tipo sanguíneo: O Rh+? Eu?" Mas nem toda a informação pode ser acedida pelo cidadão, nota Pedro Nunes, tem que haver dois níveis: dados objectivos e "apreciações subjectivas dos médicos", "que não podem ser do conhecimento do utente".
O utente hoje já tem direito a conhecer o seu processo clínico em papel, mas o acesso só pode ser feito através de um médico. Também no registo electrónico deverá haver informação sensível que necessita de mediação médica, refere o responsável do Ministério da Saúde.
Manuel José Soares, porta-voz da Comissão de Utentes de Saúde do Médio Tejo, defende por sua vez que avançar com o registo "sem estarem satisfeitos cuidados de saúde para muitos portugueses é começar pelo telhado". Guilherme Castro Henriques, coordenador do Movimento de Utentes dos Serviços de Saúde, diz que o projecto apenas peca por tardio, porque será um óptimo instrumento de prevenção do erro médico


Texto in: www.publico.pt
Imagem: edit by me

domingo, 31 de janeiro de 2010

13 anos - Para H.


Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Já sou mulherzinha;
já trago sombreiro,
já bailo ao Domingo
com as mais no terreiro.

Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.

Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.

E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co’as patas
Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.

Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.

O meu gibão largo
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,

dizendo-lhe: "Toma
gibão domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.

"A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co’as outras
e eu danço em terreiro."

Já sou mulherzinha;
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.

O mineiro é velho;
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.

Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.

Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro;

Que em ele assomando
co’o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.

Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos!
ai, céu verdadeiro!
ai, Páscoa florida,
que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.


Texto by: António Feliciano Castilho
Imagem: by me

sábado, 30 de janeiro de 2010

Fósforos


I’m still trying to give up smoking! And I do understand that no one wants go keep my very dear lighter. After all, it is a very personal object.
So, here is another way of helping me to stop smoking: buy those matches!
As common as rain, they are a Portuguese product. At least one of them is working. As for the other 39, the odds are good, but I give no guarantee.


Texto e imagem: by me

Segurança


Foi num destes dias que li no jornal Público:

Privacidade não é direito maior que segurança
José Manuel Anes, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, comentava assim o alerta lançado pela comissão de protecção de dados para a crescente intromissão na vida privada das pessoas, sintoma de uma sociedade vigiada, e para a necessidade de estudar o impacto e as consequências das medidas de vigilância.
“Claro que os cidadãos têm o direito à privacidade, mas há outro direito que não dispensam que é o direito à segurança no seu quotidiano e nas viagens de avião”, afirmou. Admitiu, ainda assim, a possibilidade de minimizar os aspectos intrusivos dessas medidas, mas nunca acabar com elas. Para José Manuel Anes, são providências “absolutamente indispensáveis” e que terão de continuar, porque “as ameaças e os riscos estão a aumentar”.

A este respeito recordo uma frase, lida não faz muito, e que me ficou registada ad aeternum:
“A sociedade está podre quando, em nome da segurança, se prescinde da liberdade!”
E, sobre o mesmo tema ainda, um poema de Bertolt Brecht me vem à ideia:
“Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.”

E se acredito e defendo as duas últimas citações, a primeira, mais que preocupado, deixa-me assustado. É que foi em nome da segurança, sob diversos aspectos, que se cometeram no último século, as maiores barbáries, incluindo a limitação ou cessação das liberdades, individuais ou colectivas.
No caso do artigo do Jornal Público, fala-se sobre o uso de scanners no acesso às viagens de avião. E, em nome da segurança colectiva, é justificada a violação, grosseira digo eu, da privacidade ou, pior ainda, da liberdade de cada cidadão exibir ou mostrar do seu corpo apenas aquilo que entender. E o corpo é a última posse do ser Humano, pelo menos após a extinção da escravatura.
Mas vou mais longe: Os conceitos subjacentes a esta afirmação legitimam toda e qualquer actividade preventiva das forças da ordem. Sobre quem quer que seja e seja qual for o argumento.
Por outras palavras, o conceito básico de um estado baseado na lei e na igualdade dos cidadãos cai por terra. Que, naquela afirmação fica implícito que todos são, ou podem ser, considerados culpados até prova em contrário. E, consequentemente investigados para provar da sua inocência.
E, na sequência desta inversão de valores, surgem com toda a naturalidade as polícias políticas, as prisões arbitrárias, os incentivos às delações anónimas. E instala-se o medo, em todos e cada um dos cidadãos, que nunca saberão se ou quando poderão ser a vítima seguinte ou se um qualquer gesto ou palavra sua poderão estar na origem das perseguições e destruição das suas vidas, públicas ou privadas.
É uma das técnicas mais comuns em qualquer ditadura a criação de um inimigo, preferencialmente sem rosto, que crie o medo generalizado nas populações e que leve os cidadãos a baixar a guarda, em nome da tal segurança, no tocante aos seus próprios direitos mais básicos, liberdade incluída.
Não gostaria de, uma vez mais, referir George Orwell. Mas cada vez mais o mundo tri-partido, a polícia do pensamento e a teletela obrigatória de ver e de duplo sentido, deixam de ser ficção. Transformaram-se em antecipação, assustadoramente próximas e reais!
E o Big Brother deixará de ser uma personagem de um livro ou o nome de um mau concurso televisivo.
Toda a minha vida tenho lutado contra isto! E sempre esperei morrer antes de dar esta guerra por perdida. Mas cada vez tenho menos ilusões!

Texto e imagem: by me

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Um olhar - Célia


By me

Compra de sapatos


Eu sei que sou um chato! Se em alguns aspectos sou condescendente até à estupidez, noutros sou exigente até à última pinguinha!
Em geral, a minha indumentária cabe na primeira categoria. Visto o que visto e que tenho mais à mão, sem me preocupar nada se esta peça, com esta cor, joga ou não com aquela outra. Desde que me sinta confortável…
Mas se, na minha indumentária haverá aspecto em que sou exigente é no calçado. Não que o seu aspecto seja importante, mas no seu conforto. Afinal, é em cima deles, dos pés e dos sapatos, que estou, e muitas horas por dia. Calçado desconfortável é algo que recuso, liminarmente. Devo mesmo dizer que tenho aqui um par que, por o comprei como confortável e acabei por constatar o contrário, estão ali sem uso.
Pois está na altura de comprar sapatos. Não é pressa, que quando os sinto bem nos pés até me custa trocá-los, mas antes que tenha que ser uma decisão rápida, vou olhando para as montras. E, se vir um par que aparente o conforto de que gosto, trato de saber o preço e, só depois disso, pondero a eventualidade de os comprar. Experimentando-os muito bem, claro.
Foi o caso de hoje: vi um par que parecia mesmo ter sido feito para os meus pés. E, estando dentro de valores comportáveis, entrei e pedi para os ver e calçar.
Saiu-me na rifa uma menina que, toda simpática e bonitinha de se ver, tratou de ir lá dentro trazer o tamanho que me servia: o 42. Regressa, minutos depois, com um par reluzente na mão, dizendo-me:
“O 42 já não tenho. Mas trago-lhe aqui o 44, pode ser que lhe sirvam.”
Fiquei a olhar para ela, incrédulo. Foi daquelas situações, raras, em que me faltou de imediato a resposta adequada.
Ainda pensei em perguntar-lhe se ela estaria a fazer alguma comparação entre o tamanho que ela gostaria dos meus pés com qualquer outra parte da minha anatomia. Ou ainda sugerir-lhe que ela poderia dar-me uma eficiente e agradável massagem nos pés até que eles crescessem e se adaptassem àquela medida. Mas qualquer uma destas respostas seria, para além de inconveniente, poucos conforme com o meu próprio comportamento e linguajar.
Acabei por ficar com cara de parvo e limitar-se a responder-lhe que, muito obrigado, mas que não costumo usar os dois pés num sapato só. E saí, lamentando de mim para mim que era pena que atrás daquele palmito de cara bonito de ver existissem apenas dois neurónios, e que ambos estivessem de férias hoje.
Vou acabar por continuar a usar por uns tempos estes dois, já velhotes, mas que se me fazem aos pés como se pele se tratasse e em que não penso quando os uso. E que, garantidamente, não deixarei abandonados numa qualquer rua do bairro.


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Meia na linha


Acaba por ter piada, esta meia na linha!
Dela tenho, pelo menos, um quarteirão de fotografias. Feitas em diversos dias, a diversas horas. De várias foram as vezes em que, chegando à estação de caminho-de-ferro do meio bairro, a vi caída na linha e a fotografei.
Poucas, se alguma, foram as que me convenceram. Ou era a luz, ou era a posição relativa dela com o brilho do carril. De todas elas fechei a câmara sem estar satisfeito. Esta foi a última. Que também não me satisfez, nem satisfaz.
Mas foi também a última que pude dela fazer. Que passados que foram mais de quinze dias em que aguçou a minha curiosidade de fotógrafo, hoje já lá não estava. A brigada de limpeza de via tinha já passado e levou-a.
Fica-me a dúvida, para além das eventuais estórias que esta meia possa contar sobre os pés e os caminhos que conheceu, onde terá ficado arrumada em definitivo, ela que ali jazeu chamando por mim.
Meia será, mas certamente que foi uma meia que conheceu e justificou o fim!

Texto e imagem: by me

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Coração na linha


Será este o coração do caminho de ferro ou alguém ficou de coração partido?
Pergunto-me quando me deixarei de surpreender com o que vejo entre chulipas.

Texto e imagem: by me

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Heroi!


Sou um herói!
Consegui deixar de fumar um montão de vezes hoje!


Texto e imagem: by me

domingo, 24 de janeiro de 2010