Foi há já uns anos valentes. Há quase vinte anos.
A câmara guardo-a, tal como quase todas as outras. As que
não guardo foram as que vendi em momentos de grande aperto. Lamento cada uma
delas.
A objectiva guardo-a, com os mesmos argumentos e lamentos
que as câmaras. Com a diferença que, em tendo avariado, comprei uma igual tal o
gosto que tinha e tenho pela sua flexibilidade.
Da barcaça nada sei. Passado todo este tempo, talvez esteja
ainda a subir e descer o rio, fazendo pausa aquando do anoitecer, como era
quase o caso.
A margem continua lá, com fauna e flora variavel de acordo
com a estação do ano e aquilo que o ser humano vai deixando, com as suas
travessias anunciadas e as suas construções efémeras.
O rio, esse, continua a correr debaixo das pontes como se
nada fosse, escasseando uns anos, superabundando outros, como sempre fez desde
o rio é rio. Alargando-se aqui, estreitando-se acoli, continua a fazer de
fronteira aquém e além, dando nome a terras, barragens e pontes, como se disso
dependesse alguma coisa. É-lhe indiferente.
A lua lá continua, ora tapada ora destapada, na sua quase
sempierna revolução e servindo de mote a poetas e enamorados. Também serve de
objectivo, como que primeira fronteira para o espaço infinito, aquele que
queremos conquistar como quem quer conquistar uma praça forte ou uma medalha. Como
se isso a importunasse, excepto a expectactiva de vir a ser o quintal das
trazeiras onde iremos deixar os dejectos da humanidade, já que mais não
conseguimos estragar este pedaço de rocha a que chamamos planeta terra.
Por mim, entre o agora e o agora cosmico, vou tentando
registar os pedaços que vejo ou penso, transformado, como dizia o mestre, num taxidermista
do tempo. Como se isso abalasse o cosmos ou a vida de alguém.
Pentax K100D, Sigma 70-300
By me


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