terça-feira, 25 de outubro de 2022

Premonições?


 


Ele há coisas estranhas.

Durante uns anos mantive um projecto fotográfico, que ía executando quando tinha oportunidade: olhos. A esse projecto dei o nome de “Um olhar”.

O que acaba por ser engraçado é que durante uns dois anos foi exactamente isso que vimos dos outros, por via da pandemia. Nem nariz nem boca, só olhos, numa visão anormalmente larga e restricta por comparação com o “normal”. A mesma visão que esse meu projecto mostrava.

Terá sido uma premonição?

Um outro projecto fotográfico, antigo mas ainda em curso, é o de sapatos abandonados na rua, em particular sapatos solitários. Convenhamos que não será coisa comum de encontrar, mas tenho já uma razoável colecção de imagens de todo o tipo de calçado nestas condições.

Fica-me uma pergunta: será isto uma premonição de quê?


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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Bica e ...




Por vezes acontece: a minha câmara de bolso ganha “vida própria” e os ajustes alteram-se. Resultado: o flash, o pequenino flash que contem, fica activo e actua sem que eu o antecipe.

Foi o caso!

Claro que me apercebi da situação tarde demais e tive que repetir a fotografia, desta feita com a luz que havia visto e que era a que queria.

E sabem o que tem graça? Acabei por preferir a primeira. Não era a que queria mas, de algum modo, acabou por ser, mais que apenas um registo de um momento, um registo de um estado de espírito.

Vale o que vale e é também dos “falhanços” que construímos o nosso saber. Na fotografia e não só.


By me

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Dejá vu




 A minha primeira intervenção pública sobre a matéria foi há quase quarenta anos e foi uma “barraca”!

Gravava eu uma peça de teatro, em estúdio, e quiseram que fizesse um conjunto de planos variados sobre um quadro. Não recordo nem o quadro e muito menos o autor (ele que me perdoe). Recordo, antes sim, que me recusei a fazê-lo!

Argumentei com a veemência da juventude e a certeza da razão que não deveria ser truncada a obra de um artista, neste caso um quadro. Não se estava a fazer um trabalho de crítica ou análise sobre a obra ou o autor mas tão só a aproveitar o trabalho intelectual de outrem com fins que nunca sonhados por quem o tinha feito e, ainda por cima, a destruir esse mesmo trabalho ao fragmentá-lo.

A discussão foi feia, tanto com quem realizava o trabalho televisivo como com os colegas seniores que comigo constituam a equipa de câmaras.

Mas não arredei pé nem cedi um milímetro que fosse! Eu não o faria. Eu não iria destruir um trabalho criativo, mesmo que para fazer um outro.

Acabei por ser afastado daquela gravação, substituído por outro operador que não tinha os meus escrúpulos e, durante uns tempos, estive “de castigo”, arredado dos trabalhos que davam gozo fazer e remetido para as emissões, chatas e monótonas.

Mas dormi tranquilo naquela noite e em todas as que se lhe seguiram. Da mesma forma que não aceito que trunquem, fraccionem, destruam aquilo que eu mesmo crio, não serei eu que o farei às obras de outros.


Os anos foram passando, eu envelhecendo e ganhando experiência (alguma, pelo menos) mas neste aspecto continuo tão seguro quanto o estava então. E, ao longo de todo este tempo, muitas têm sido as conversa, mais tranquilas ou mais acesas, com repórteres de imagem e jornalistas. Tentando convencê-los que num trabalho em que se informa da existência de uma exposição ou equivalente, em que não há, por parte de quem o faz, uma atitude crítica ou analítica mas tão só de divulgação, o respeito pelo trabalho autoral deve ser primordial. Inventem-se soluções estéticas ou técnicas que o respeitem, gaste-se mais tempo com dada imagem ou reportagem mas, por favor, respeite-se o autor e a sua criatividade.


Dificilmente, hoje, voltarei a ser confrontado profissionalmente com uma situação análoga. Cada vez menos se usa de tempos de antena para mostrar eventos culturais e menos ainda em estúdio, que eu não ando em reportagem. Mas se a situação se repetir, será um dejà vu com quase 40 anos!


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domingo, 18 de setembro de 2022

O saco


 


Recordo o local exacto onde o comprei: uma loja, uma das melhores lojas do ramo de então, na esquina da rua de santa Justa com a rua dos Douradores, em Lisboa.

Atraíu-me, então, o formato, a capacidade e o facto de ser de fabrico português.

Algum tempo depois descobri-lhe o ponto fraco: a correia e a forma como prendia no saco. Resolvi a questão como se vê, recorrendo aos sólidos materiais usados pelo exército, com um pouco de pele de seleiro e algum trabalho artesanal.

Remonta isto à primeira metade dos anos 80 do século XX. Uns quarenta anos, portanto.

Como tudo o mais, envelheceu. E se fez muitos km no meu ombro, cheia ou quase, foi ficando gasta aqui e ali. E eu mudei de estratégia, preferindo mochila nas costas a saco num só ombro. Uma inflamação no nervo ciático convenceu-me.

E passou a ser útil para guardar equipamento em casa. E para transporte quando a quantidade a levar assim o exigia. Depois... já nem isso, apenas para guardar. Com o passar do tempo e a chegada de novos sacos, mochilas e malas, passou mesmo a guardar aquilo que, tal como ele, já não estava em uso.

Agora, que há que fazer escolhas, é mais um a que darei a merecida reforma. Será colocado no exterior no contentor de lixo, esperando que ainda possa vir a ser útil a alguém. Para fotografia, vídeo ou o que quer que seja.

Se bem recordo, comprei-o pelo outono. É a chegar ao outono que dele me despeço.


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sábado, 17 de setembro de 2022

Absurdos




Não é fácil de explicar a quem defende a ecologia quase que como solução última para a humanidade. Ou a quem acha que a simetria é o pináculo da perfeição. Ou a quem pensa que o equilíbrio, interior ou exterior, será a manifestação divina de algum estado de graça universal.

Em boa verdade, o equilíbrio, a ecologia, a simetria, são invenções humanas. Retrógradas, conservadoras, rígidas como aço e anti-natura no seu máximo.

O universo não é simétrico. O universo não é equilibrado. Quer vejamos isto do ponto de vista cósmico, quer vejamos isto à escala humana.

Se o universo fosse equilibrado, não teríamos a expansão e contração galáctica. Nem as amibas teriam saído do seu ambiente aquoso. Nem o ser humano teria descido das árvores.

É no desequilíbrio, na intranquilidade, na ausência de simetria (que nem o corpo humano possui) que a evolução acontece, que melhoramos e nos melhoramos. É na insatisfação, no tentar atingir o horizonte planetário, nas super-novas, que algo de novo acontece. Terá sido o desequilíbrio que provocou a extinção dos dinossaurios e o surgimento de novas espécies. Nós incluídos. Terá sido algum desequilíbrio que terá provocado o famoso big bang.

A estabilidade, a simetria, o equilíbrio, serão algo que procuramos porque raro, como os diamantes. E só porque raro lhes atribuímos valor. Material ou não.

Sou apologista da ausência de equilíbrio, da instabilidade, da assimetria. Na vida, na estética, na evolução.

A balança é uma invenção humana! Absurda, claro.

domingo, 4 de setembro de 2022

Olhando para trás


 


Numa livraria tropeço num livro.

Não que estivesse no chão, mas porque fiquei cativo de alguém ter pegado num texto de Fernando Pessoa e ilustrado com fotografias.

De confessar que as fotografias não me atraíram por demais. Documentais quanto baste, nem más nem boas, do meu ponto de vista.

Agora o texto…

Passe-se a imodéstia, esta foi a fotografia que fiz logo a seguir a o ter lido. Vale o que vale, como as fotografias do livro. Mas é a minha interpretação:



“Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer de me ser fácil entrar sem constrangimento nas casas conhecidas. A minha sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado.


Quando me sentei na cadeira, perguntei, por um acaso que lembra, ao rapaz barbeiro que me ia colocando no pescoço um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita, mais velho e com espírito, que estava doente. Perguntei-lhe sem que me pesasse a necessidade de perguntar: ocorreu-me a oportunidade pelo local e a lembrança. «Morreu ontem», respondeu sem tom a voz que estava por detrás da toalha e de mim, e cujos dedos se erguiam da última inserção na nuca, entre mim e o colarinho. Toda a minha boa disposição irracional morreu de repente, como o barbeiro eternamente ausente da cadeira ao lado. Fez frio em tudo quanto penso. Não disse nada.


Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.



O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um «o que será dele?». E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Delitos e critérios




As coisas são o que são, tal como as pessoas e as instituições.

Em 2010 o então deputado e vice presidente da bancada do PS, Ricardo Rodrigues, não gostou de algumas perguntas feitas no decorrer de uma entrevista para uma revista portuguesa. Irritado, levantou-se, guardou no bolso os gravadores de som que estavam a ser usados para a entrevista e abandonou o local. Esqueceu-se, coitado, que também ali estava uma câmara de vídeo que tudo registou.

O caso foi levado à justiça com algum mediatismo, e terminou, ao que sei, com uma indemnização de alguns, poucos, milhares de euros.

Ricardo Rodrigues, entretanto, deixou o protagonismo do Parlamento e foi eleito como autarca nos Açores.

Agora surge uma notícia que nos conta que o Ministério Público o acusa de prevaricação e abuso de poder ao, alegadamente, ter favorecido um irmão e outros familiares de autarcas locais na cedência de um espaço comercial para restauração.

Diz-se que a justiça e as suas sentenças servem para reparação de danos às vítimas e para reinsersão dos delinquentes, fazendo-os aprender da gravidade dos seus actos e o imperioso de não os repetirem.

No entanto há quem não aprenda e que continue a praticar actos que a sociedade condena. Mas esta também não aprende, continuando a eleger delinquentes para lugares públicos, onde decidem e gerem aquilo que é de todos nós.

A isto acrescente-se um detalhe curioso:

Soube deste caso recente através de uma notícia num jornal diário on-line. Como é hábito, ela está ilustrada com uma fotografia. No caso, uma de arquivo. Mas a fotografia mostra a fachada da Procuradoria Geral da República e não, como também é habitual, o retrato de quem aqui é acusado.

Pequenos requintes editoriais que muito contam a quem neles reparar.

 


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sábado, 16 de julho de 2022

Manias



 

O texto e a imagem têm dez anos, mais ou menos uns dias. O que acaba por ter graça é ter repetido as conversas e acções há poucos dias, agora noutro local. De facto, são manias.

 

“Manias

Há coisa de quinze dias tive uns técnicos de comunicações aqui em casa.

O trabalho implicava passar cabos e instalar equipamento, pelo que ainda demorou um pedaço.

A dada altura não resisti e perguntei-lhes se poderia fumar um cigarro.

Ficaram a olhar para mim, com cara de espanto, dizendo-me de seguida que naturalmente que sim, que eu estava em minha casa.

Ainda assim, fiquei na dúvida se a resposta foi de circunstância ou se, de facto, não se importavam que eu fumasse por perto.

É que, mesmo estando eles em minha casa, estavam também a trabalhar e não faria sentido obrigá-los a suportar os restos do meu vício.

Pouco tempo depois, numa jantarada de colegas num restaurante, um houve que não se conteve e, por duas vezes, tratou de acender um cigarro, às escondias de quem nos atendia. Era tarde e o espaço estava quase por nossa conta. Mas a noite estava simpática e aporta mesmo ali ao pé.

Ele há uns e há outros. Por mim, prefiro continuar a perguntar a quem recebo em casa, mesmo que em trabalho, se não incomodo.”


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sábado, 2 de julho de 2022

A explicitude e o seu oposto




O trabalho que tive em explicar a um profissional da imagem que a comunicação visual não tem que ser clara, explícita, inequívoca!
Esse é um dogma que se transmite em quase todas as escolas, manuais e workshops.
Mas não é verdade! Pelo menos não é uma verdade absoluta, universal.

Se falamos de consumo rápido de imagens – fotográficas, videográficas, cinematográficas – esse dogma aplica-se. Simplicidade na forma para facilitar o acesso ao conteúdo.
Mas posso querer eu, enquanto fotógrafo, não ser assim tão explícito. Querer obrigar quem vê o que faço a não entender de imediato, a parar para perceber, a questionar e questionar-se naquilo para onde olha e a, mais que olhar, ver.
O desconcerto na leitura, a dúvida, a procura de significado… também isto é comunicação, visual no caso da fotografia.
Dir-me-ão, talvez, que esta forma de comunicação reduz a muito poucos os que a lêem, na medida em que a dificuldade de acesso ou de interpretação, nos tempos que correm e com a rapidez de consumo de conteúdos, afasta os mais apressados ou menos curiosos.
Mas talvez nem sempre eu queira comunicar com esses, pouco me importando se entendem ou não. Ou melhor: ficando satisfeito se o entendem mas nada preocupado com o seu oposto.
Fazer diferente, mesmo que fora dos códigos habituais de comunicação, é uma necessidade que a todos assola de quando em vez.
A diferença entre a grande maioria dos que usam a fotografia e de alguns que também a usam, é que estes, nestes casos, pouco se importam com a reacção ou interpretação do público. “Likes” e “Coments” são “Cenas que não os assistem”.
Fazem-no e exibem-no porque lhes apeteceu, porque foi assim que alinharam a cabeça, o olho e o cérebro. E não para que outros gostem, ou mesmo que interpretem, entre dois clicks ou o passar rápido das páginas de um site ou revista.

Se o objectivo de um fotógrafo for a comunicação de massas, o chegar a todos, o fazer passar uma mensagem, o ganhar apreço ou dinheiro, mesmo que seja com uma pasta de dentes ou com um pôr-do-sol, esqueça-se tudo o que disse acima. Sigam-se as regras da academia, as fórmulas e os algoritmos, as modas e as convenções.


Mas se o objectivo for colocar a sua alma no que faz e mostra, pouco preocupado com as interpretações ou opiniões de terceiros…

By me

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Chamem-me o que quiserem




Uma das questões que mais atrapalha e comanda os comportamentos é o estar-se ou não integrado numa dada sociedade ou grupo.

E, com isso, controlar os seus comportamentos pelos comportamentos medianos, por aquilo que a “sociedade” define como correcto e não criticável.

Nada de mais errado, absurdo, contraproducente e castrante!


Esta atitude não permite o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo, com todas as suas características e potencialidades!

Apenas o transforma em mais um número, ajustando-se à mediania, com receio de ser diferente, notado, apontado a dedo, marginalizado em última análise.

E o erro, a meu ver e ainda ninguém argumentou e me convenceu em contrário, está na definição de “pertencer à sociedade”!

O que de facto acontece, e que poucos são os que o reconhecem ou afirmam e menos ainda os que agem em conformidade, é que no lugar de se pertencer, é-se a sociedade.

A sociedade é o conjunto de todos, com todas as vantagens do grupo e de cada um dos indivíduos. Não se integra a sociedade mas antes molda-se a sociedade à medida de cada um. E a soma de todos os “uns” forma o conjunto!

A contribuição que cada um faz nela, o empurrão que cada um dá no seu trajecto é que define o seu rumo, as suas regras, as suas leis e os comportamentos do todo.

Estas não são definidas por uma qualquer entidade obscura, mítica e autocrática, mas antes pela vivência e vontade de cada um dos seus componentes.

Andar nu, de fraque ou com nariz vermelho e grande é igualmente legítimo!

Ter este ou aquele comportamento apenas porque o grupo o define e não porque o queremos, é integrar um grande rebanho onde os pastores, filósofos, gestores ou políticos nos conduzem pela certa através de um pasto verdejante até ao matadouro ou altar onde nos sacrificam aos seus interesses privados ou entidades divinas.


Pela parte que me toca, tenho comportamentos que estão de acordo ou em desacordo com os que me cercam, não porque eles o querem ou o censuram mas antes porque eu o quero e eu sou a sociedade.


Sem todos os eus, a sociedade não existia!  


By me