quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Cota




Certo!
Já por cá ando há um pedaço mais de meio século, pelo que o apodo de “cota” não será de todo desajustado.
Em termos de captação e tratamento de imagem, ao já por cá andar há tanto tempo, fez com que usasse de quase todos os sistemas e suportes: películas e sensores, químicas e electrónicas, CCDs, CMOS e tubos de raios catódicos, matricial e sequencial, pequenos médios e grandes formatos, estáticos, animados e de alta resolução.
Alguns desses processos tornaram-se com que uma segunda natureza para mim, outros  mais não são que história, outros ainda me são um pouco estranhos, não os dominando por completo. E acredito que quem teve a sorte, como eu, de passar por tantos e tão díspares tenha dificuldade em estar a par de todos e que alguns deles pouco mais sejam que anacronismos curiosos ou tecnologias a dominar.
Por mim, que por dever de ofício ou satisfação da alma, tenho vindo a dominar ou a arranhar todos eles, tenho optado conhecer tão a fundo quanto me é possível o que tenho entre mãos, preocupando-me bem mais com os resultados que com os métodos. Quero “contar uma história”, e bem contada, com a ferramenta que estou a usar, preocupando-me a sério com as últimas tecnologias se e quando elas tiver que usar. Mantenho-me informado mas não as aprofundo como as que estou a usar ou em perspectivas disso.

Uma coisa há, no entanto, que é imutável. Que não depende dos equipamentos ou das tecnologias empregues: a luz. Esta, mais assim ou mais assado, com origem em aquecimento, descargas ou ionização de gás ou LEDs, continua a ser a emissão e reflexão de fotões, que têm uma trajectória rectilínea e um movimento ondulatório, cujas frequências são por nós traduzidas em cores, cuja interrupção na sua trajectória resulta em sombra, com uma intensidade variável na proporção inversa do quadrado da distância, cujo ângulo de reflexão é igual ao ângulo de incidência, e cuja trajectória é alterada pela aplicação de energia ou com materiais que lhe sejam permeáveis.
Mas, e principalmente, é ela que permite o captar imagem, sejam quais forem as tecnologias empregues. É ela que faz com que um dado assunto seja mais “bonito” ou nem tanto. É ela que nos permite contar histórias e estórias.
Nenhum fotógrafo, videógrafo, cineasta, profissional ou curioso interessado, ignora que ela é a sua matéria-prima nem a maltrata ou menospreza. Em o fazendo, os resultados são os que vamos vendo, infelizmente, na net, na imprensa, nos receptores.

Sendo esta a minha abordagem – talvez que de cota com mais de meio século – imagine-se como me sinto ao ter conversas com alguns da nova geração que entendem que a imagem se capta “mais ou menos” e que os contrastes, os ajustes das altas e baixas luzes, as sombras, os jogos de cor se tratam depois, desde que se possua uma boa máquina para os processar.
Um bom pós-processamento é vital na produção de imagem. Sempre o foi. E, se outros motivos não existissem, basta pensar que fotografia, vídeo e cinema têm – sempre – que ser objecto desse tratamento. Tanto na edição, como no controlo, na impressão, na etalonnage, nos efeitos especiais…
Mas com má matéria-prima – no caso, má imagem de origem ou má luz – por muito que se esforcem o mais que se consegue é um resultado sofrível. Se tanto. Nem mesmo os últimos avanços tecnológicos conseguem suprir essas falhas.
Dizerem-me que para se fazer uma boa imagem basta um gráfico de luzes e tons, estático ou animado é o mesmo que me dizerem que para Bruegel ou Leonardo bastava um bom pincel, que para Stanley ou Alfred bastava uma boa película ou que para Helmut ou Frank bastava um bom ampliador.

Serei cota com um pedaço mais de meio século a arrastar a carcaça mas, para mim, bem mais importante que o como é o porquê.

By me

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A prática da arte




 “A arte é uma fonte de conhecimento, tal como a ciência, a filosofia, etc., e a grande luta empreendida pelo homem para ir ajustando a sua concepção da realidade – que é o que o enaltece e o torna livre – não pode prosperar se se manipularem ideias que já foram concebidas e realizadas anteriormente. As formas caducas não podem conduzir a ideias actuais. Se as formas não forem capazes de ferir a sociedade que as recebe, de a irritarem, de a impelirem à meditação, de fazerem com que ela veja que está atrasada, senão estiverem em ruptura, então não são uma verdadeira obra de arte. Perante uma verdadeira obra de arte, o espectador deve sentir-se obrigado a fazer um exame de consciência e a pôr em dia as suas velhas concepções. O artista deve fazer com que ele compreenda que o seu mundo era estreito, e deve abrir-lhe novas perspectivas. Isto é: deve levar a cabo uma autêntica obra humanitária.

Quando o grande público encontra plena satisfação em determinadas formas artísticas, é porque essas formas já perderam toda a sua virulência.

Onde não houver verdadeiro impacto, não haverá arte. Quando a forma artística não é capaz de provocar o desconcerto no espírito do espectador e não o obriga a mudar a forma de pensar, não é actual. “



Texto: Antoni Tàpies, in “A prática da arte”, 1970

Imagem: by me

domingo, 27 de dezembro de 2020

Votos

 

Próspero e saudável ano novo para todos. Os que merecem e os que não merecem.

Os segundos porque quero que assistam de pé às vitórias dos primeiros.


By me

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Media e democracia


 


Excerto do artigo hoje publicado no jornal “Diário de Notícias”.

Parto do princípio que seja rigorosamente verdade.

Assim sendo, concluo sem dificuldade que a isenção politico-partidária das televisões portuguesas anda pelas ruas da amargura.

 

“As televisões (RTP, SIC e TVI) não vão mudar o alinhamento dos seus frente-a-frente para as presidenciais só porque entretanto se confirmou a candidatura de "Tino" de Rans. O líder do RIR e antigo militante do PS vai ficar de fora.

Vitorino Silva - "Tino" de Rans - já entregou as assinaturas para ser candidato presidencial mas será excluído dos frente-a-frente que as televisões (RTP, SIC e TVI) organizaram e que serão transmitidos de 2 a 9 de janeiro.

A decisão já estava tomada entre as direções de informação das três estações ainda antes de o antigo presidente da junta de freguesia de Rans (Penafiel) ter apresentado as assinaturas (apresentou nove mil quando só precisava de 7500).

O argumento das televisões é que, como os frente-a-frente terão lugar antes do período oficial de campanha (que começa a 11 de janeiro e terminará a 22, sendo as eleições a 24), é possível ter critérios editoriais que não impliquem tratamento absolutamente igualitário entre todas as candidaturas.

E assim, só estarão nos frente a frente os candidatos que, de uma forma ou de outra, têm alguma espécie de correspondência com os partidos parlamentares: Marcelo é apoiado pelo PSD e pelo CDS; Ana Gomes é militante do PS e apoiada pelo PAN; Marisa Matias pelo BE; João Ferreira pelo PCP e pelo PEV; André Ventura, pelo Chega; e Tiago Mayan, pela Iniciativa Liberal.

Obedecendo a este critério, "Tino" de Rans ficará de fora. Sendo líder de um partido - o RIR (Reagir, Incluir, Reciclar) não tem no entanto representação parlamentar.”

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 Imagem by me

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Prazeres ou nem tanto


 


Consigo entender parte da satisfação obtida na caça.

É ancestral, diria mesmo animal, e resulta do saber que há comida. Provém dos tempos em que obter carne para comer era coisa difícil, muitas vezes rara. Quer se tratasse da caça grossa feita em colectivo, quer de outra menor feita em solitário. Ou mesmo de armadilhas.
Não esquecer que a caça e o prazer da carne foram, durante séculos, privilégio das elites e que a ralé (entenda-se por povo, escravos, servos da gleba, pobres…) só as elas tinham acesso por deferência senhorial em dias especiais ou furtivamente. Quantas vezes punidos severamente se apanhados.
Ainda hoje a matança do porco e o tratamento das carnes é motivo de regozijo e festa nas aldeias e comunidades pequenas, em que se juntam as pequenas comunidades para celebrarem a abundancia.
Nos tempos que correm a caça poucas vezes é para comer. Eventualmente guardam-se algumas peças, pequenas, que a conservação no frio o permite.
O acto de matar, hoje, pode ser equiparado ao ir-se aos centros comerciais ou lojas de inutilidades: prazer pelo prazer da acumulação, do fútil, da ostentação, da posse de objectos (ou peças de carne) que, as mais das vezes, de nada servem e que são guardadas algures quase até ao esquecimento. Eventualmente, no caso da caça, vendidas passado que for a prazer de matar.
Consigo entender o prazer da caça enquanto sucesso num acto difícil.
Aquilo a que assistimos um destes dias não foi caça nem foi difícil nem foi para comer. Nem sequer foi animalesco instinto.
Foi crueldade pura e dura praticada por quem merecia ser objecto de caça.
Chamem os tigres e molhem a pólvora!

By me

Tradições



 

Dezembro é época de tradições. Pelo menos nesta zona do globo.

Usemo-la e contemos histórias ou estórias apropriadas.

Neste caso, um texto de um excelente autor, maldito para uns, magnifico para outros.

E, se excluirmos algum exagero aqui ou ali, certamente que reconhecerão o descrito.

 

Como a família da Lurdinhas passou a consoada do ano passado:

Para estreitar os laços familiares, não há nada que chegue à festa do Natal, lá isso é verdade, mas espero que neste ano as coisas corram melhor do que o ano passado e não seja preciso o meu pai ir mudar de roupa a meio do jantar por ter apanhado em cheio com o galheteiro do azeite nos cornos, atirado pela minha mãe que o topou a apalpar o cu à D. Filomena, uma prima da minha madrinha que veio de Angola e vive numa pensão em Almirante Reis e anda a estudar para manicure.

A minha mãe ficou bera e com razão, não é por ser minha mãe, esteve quase a dar-lhe o fanico e só gritava: «Tirem-me essa puta da frente! Tirem-me essa puta da frente!» Mas quando as pessoas são educadas, as coisas acabam por compor-se e bastou tirarem a D. Filomena de ao pé do meu pai para ficar tudo em sossego. No fim até estiveram as duas a falar de crochés e da telenovela, que nessa altura dava na televisão, e a D. Filomena ofereceu-se para tratar os pés da minha mãe, assim que acabasse um curso de calista que andava a tirar ali para os lados da Fonte Luminosa.

Essa bronca portanto foi o menos; o pior veio a seguir quando a minha avó teve a infeliz ideia de perguntar à prima Otília que presente de Natal é que lhe tinham dado os patrões do escritório onde ela trabalha e a parva descaiu-se a dizer que, do senhor Benjamim, recebeu um jogo de calcinhas e soutien em nylon, e do senhor Canelas, um vibrador-masturbador japonês, muito bonito, todo transistorizado.

Ora, ao ouvir isto, o Fernando, que é o marido da Otília e tinha metido na boca uma grande garfada, engasgou-se, engoliu uma data de espinhas de bacalhau, cuspiu o resto no prato do meu avô e desatou ao bofetão à mulher: «Sua cabra! Sua ordinária!» e a dizer que ia enfiar o vibrador pelo cu do Canelas acima e partir os cornos ao porcalhão do Benjamim.

E a palerma da Otília, em vez de se calar, como era a obrigação dela, cresceu para o marido que até parecia uma leoa: «Tire as patas de cima de mim, seu cabrão! Você é que tem cornos e dos grandes, ouviu?» E ele, todo a tremer: «Eu?! E ainda o dizes, grandessíssima puta?» E a Otília: «Pois digo para vergonha tua, que nem és marido nem nada! Se não fossem os meus patrões não sei o que seria de mim?». E desatou a chorar baba e ranho e então o Fernando agarrou na faca de cortar o bolo-rei e toda a família se pôs a gritar «Ai que ele mata-a! Ai que ele mata-a!», mas o meu pai tirou-lhe a faca e o tio Arnaldo obrigou-o a sentar-se na cadeira, deu-lhe palmadinhas nas costas e disse-lhe: «Não ligues ao que ela diz, pá, que as mulheres são todas umas putas», e ele ao ouvir estas boas palavras, ficou mais sossegado e até alargou um furo ao cinto para continuar a comer.

O pior é que a tia Palmira não gostou da conversa do marido e começou a refilar que não queria confusões, que se as outras eram putas ela era uma mulher séria, que quem não se sente não é filho de boa gente, etc., etc., mas o tio Arnaldo que é um bocado bruto atirou-lhe logo esta a matar: «Escusas de armar em séria, que todos sabem que andaste enrolada com o Gonçalves da farmácia quando ele te tratou do eczema»; e ela, logo: «E tu com a Gracinda da peixaria, que até escamas de pargo trazias para casa nas cuecas!» E o tio Arnaldo, muito fodido: «As escamas de pargo não são aqui chamadas para nada, porra!» E, ao dizer isto, deu tal murro num prato de filhoses que saltou calda para todo o lado e até eu fiquei com o cabelo enchapoçado dela. E o meu pai que ia acudir pela tia Palmira, esteve vai não vai para apanhar outra vez com o galheteiro, pois a minha mãe tinha-o sempre debaixo de olho; enfim, só visto!

O que valeu para que a festa de Natal não ficasse estragada foi a minha madrinha impor-se, visto ser ela a dona da casa, e avisar que não consentia faltas de respeito, que aquilo ali não era nenhuma taberna e que achava uma sacanice estarem a encher o bandulho à custa dela, com a comida cara como estava, e a portarem-se que nem javardos em vez de se mostrarem agradecidos. «Ou comem de bico calado ou vai tudo para o olho da rua!» disse ela e ninguém refilou; durante algum tempo só se ouviu mastigar, até que o senhor Aguinaldo, o sacana do velhote que está amigado com a minha madrinha e que até aí só abria a boca para meter para dentro, resmungou lá do canto que no olho da rua já nós devíamos estar há muito e que se a família dele fosse ordinária como a nossa já a tinha rifado. Um gajo bera, palavra de honra; não são coisas que se digam assim na frente das pessoas e ainda gostava de ver que merda de família é a dele; cheira-me que é para ali uma ciganada cheia de putas, chulos, sovaqueiras e arrebentas.

Mas a minha mãe, que tem muito jeito para compor as coisas quando não está com a bolha, disse que o melhor era a minha madrinha abrir a televisão, que tem programas muito bonitos no Natal, porque as conversas não fazem falta para nada e a gente não estava ali para conversar mas para comer e que assim as crianças sempre estavam mais distraídas. Foderam-me!

Foi assim que tive de gramar duas horas de chachadas como essa porcaria das canções do Natal, das entrevistas do Natal, das tradições do Natal, dos votos de Natal e até dos anúncios do Natal, sem ter feito mal a ninguém. Não é que eu goste de chavascal e sarrafada, mas, mal por mal, ainda preferia ver os parentes todos à porrada e a descobrir o cu uns aos outros do que ver a merda da televisão.

 

Texto: by José Vilhena

 Imagem: by me

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Nas sombras da memória




De minha casa para o liceu onde estudei era bem uma hora de viagem. Não havia vias rápidas, nem corredores do BUS e os próprios autocarros eram velhos. Aliás, tão velhos eram que ainda circulavam os de dois pisos de porta atrás, porta esta que não fechava. Era divertido para os que tentavam ir à borla, se o cobrador não aparecesse com o seu terrífico alicate. E aparecia com frequência.

Às sete e pouco da manhã o autocarro a que subia era sempre o mesmo, bem como os que comigo aguardavam na paragem. Eu diria que, mais que ser sempre o mesmo no horário, era efectivamente a mesma viatura.

Isto porque havia no caminho uma pequena subida, com pouco mais de vinte metros, mas particularmente íngreme. O suficiente para que aquele motor estafado e carregado como ia, se queixasse e recusasse a subi-la.

E, em o ouvindo a protestar, todos nós, os habituais viajantes, já sabíamos o que fazer: Saíamos todos, percorríamos aqueles vinte metros a pé, lado a lado com o velho verdinho de dois pisos e, em terminando a subida, embarcávamos de novo. Estivesse o sol já acima do horizonte ou fosse ainda noite fechada e a chover.

Interessante mesmo de recordar é que, ao regressarmos ao interior, cada um ia ocupar exactamente o mesmo lugar que tinha ocupado, fosse ele à janela ou na coxia, em baixo ou em cima, ou, na pior das hipóteses, de pé. E eram só quatro que iriam de pé, que havia lotação controlada.

Claro que os protestos aconteciam, não fôramos nós portugueses, por vezes com alguma dose de humor, outras nem tanto, fazendo a maioria cara de conformados, que outra alternativa não tínhamos.

Claro que isto hoje não sucederia. Não há autocarros em tão mau estado, não há autocarros só com quatro lugares de pé nem há autocarros de porta sempre aberta.

Mas também não há o sentimento de respeito pelo próximo como então.

Seria, hoje, uma correria para ver quem ficaria no lugar que mais lhe agradasse, com alguns encontrões e discussões sobre a legitimidade de se estar sentado ou o fatalismo de se ficar de pé.

Nestes quarenta e tal anos que nos separam do então vieram a democracia, a liberdade de expressão, os autocarros com ar condicionado, escassos lugares sentados e vias reservadas aos transportes públicos. Desapareceram a censura e a polícia política, as paragens-zona e o alicate do cobrador.

Mas também sobreveio uma sociedade competitiva, incentivada por governos, alimentada pelo consumo e encorajada pelo pseudo desporto em que o que mais conta é a vitória e não o participar. Em contrapartida, diluiu-se a capacidade de perdoar e a solidariedade como atitude permanente na vida.

Para além das memórias, tenho um alicate de cobrador para as reavivar. E tenho a prática do quotidiano, que me mantém vivo e sem vergonha de olhar o espelho.


Nota fotográfica adicional - este é o tipo de luz de que mais gosto: vindo do lado de lá do assunto.


By me

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Hoje

 


 

Para os antigos, os mesmo muito antigos, a contagem do tempo fazia-se por dias.

E é fácil de entender porquê. Sem mecanismos naturais ou manufacturados, o movimento aparente do sol, com o seu nascer e morrer no horizonte cíclico e garantido era algo fiável e facilmente contável.

Claro que muitos dias podem ser confundíveis e surge nova unidade de tempo, igualmente natural: a lua. O seu regular movimento de cheia a cheia, com as fases intermédias, permitiu definir meses e semanas. Estas de sete dias, tantos quantos os de cada fase.

O somatório de várias luas veio criar o ano, desta feita associado às estações do ano, igualmente cíclico. A própria natureza, com o reproduzir animal e vegetal, ajudou a confirmar a regularidade.

Ainda hoje usamos estas formar primárias de medição temporal: dias, semanas, meses, anos. E inventámos calendários, demos-lhes nomes e números, marcámos momentos especiais e celebramos cada ciclo que vivemos. E é tão verdade que zonas do globo há que comemoram o maior dos ciclos, o ano, com calendários lunares, ao invés dos relativamente modernos 365 dias e seis horas.

Mas entre dias, meses e anos assim observados e contados, há um outro acontecimento natural regular e observável que auxilia na contagem do tempo: a duração da luz natural. Sabemos da vivência e dos bancos da escola que os dias são mais longos no verão e mais curtos no inverno. E os antigos, os muito antigos, também se aperceberam disso. E deram-lhe importância suficiente para, unindo esforços, erguerem monumentos magníficos e duradoiros para assinalarem os maiores, menores ou equiduradoiros. Concebidos e orientados com um rigor quase assustador, se considerarmos os conhecimentos e capacidades de engenharia de então.

Este reconhecer de alguns dias do ano, solstícios e equinócios, aconteceu por todo o globo, em todos os continentes e civilizações. E o assinalar desses dias, em calendários mais ou menos elaborados ou em edificações mais primárias, também aconteceu por todo o lado, nas mais diversas e remotas civilizações e culturas.

É também por isso que eu, consumidor do átomo e do nano segundo, tenho especial admiração pelos muito antigos e pelos seus saberes, quantas vezes ignorados ou menosprezados hoje. Em particular no seu reconhecimento do tempo, que não dominamos mas que apenas podemos contar e usufruir. Quantas vezes inutilmente.

 

É nessa linha que tenho especial carinho pelos solstícios e equinócios, celebrados desde sempre e por todos. E, tivesse eu poder sobre as leis globais, decretaria esses quatro dias como feriados mundiais. Que não dependem de eventos humanos e que, façamos o que fizermos, continuarão a acontecer muito depois de o ser humano deixar de ser apenas uma memória no universo.

 

Hoje é um desses dias: Solstício, de inverno para uns de verão para outros. O dia mais curto ou mais longo, que as diversas teologias trataram de mascarar ou adaptar com outras histórias ou eventuais marcos humanos.

Sugiro que hoje, e se chegaram ao fim desta diatribe, olhem em redor. Para o céu ou para o horizonte, citadino ou campestre.

E que durante um pedacinho pensem na nossa própria efemeridade, no modo como ocupamos aquilo que não dominamos nem nos pertence, nas coisas boas ou más que com ele fazemos. Naquilo que não fazemos, desperdiçando a vida. E naquilo que faz com que cada dia, mês, ano, seja bom, válido e nos enche a alma.

 

Feliz solstício.


By me

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Formas de estar




 É incrível a quantidade de pessoas que são anti. Anti-Qualquer-Coisa.

Anti-fascista, anti-racista, anti-capitalista, anti-comunista, anti-sistema, anti-euro, anti-violência,… anti!

O que é curioso – ou triste – é que ser anti-qualquer-coisa, por muito nobre que seja a causa, é viver num estado de luta ou confronto permanente. É estar sempre a querer acabar com aquilo de que se é anti. Seja lá o que for!

E ao estar-se em luta permanente na prática está-se em luta consigo mesmo. Porque o resultado de se estar sempre num estado de anti é não se estar pró na vida. Que quem luta sempre na vida acaba por não a viver, por não se aperceber de tudo ou grande parte daquilo que é positivo.

Tenho uma atitude diferente: sou pró! Sou pró-felicidade, sou pró-liberdade, sou pró-responsabilidade, sou pró-bem-estar, sou pró-criatividade. Sou pró!

Claro que tenham cuidado os que impeçam o atingir aquilo pelo qual sou pró! Estão tramados! Que sou anti todos eles, com tudo o que isso implique!


Dirão que é uma questão de semântica. Pois talvez o seja.


Mas entre estar em luta para ser feliz ou ser feliz estando em luta, prefiro o primeiro.


By me

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Tradições




 Dezembro é época de tradições. Pelo menos nesta zona do globo.

Usemo-la e contemos histórias ou estórias apropriadas.

Neste caso, um texto de um excelente autor, maldito para uns, magnifico para outros.

E, se excluirmos algum exagero aqui ou ali, certamente que reconhecerão o descrito.


Como a família da Lurdinhas passou a consoada do ano passado:


Para estreitar os laços familiares, não há nada que chegue à festa do Natal, lá isso é verdade, mas espero que neste ano as coisas corram melhor do que o ano passado e não seja preciso o meu pai ir mudar de roupa a meio do jantar por ter apanhado em cheio com o galheteiro do azeite nos cornos, atirado pela minha mãe que o topou a apalpar o cu à D. Filomena, uma prima da minha madrinha que veio de Angola e vive numa pensão em Almirante Reis e anda a estudar para manicure.

A minha mãe ficou bera e com razão, não é por ser minha mãe, esteve quase a dar-lhe o fanico e só gritava: «Tirem-me essa puta da frente! Tirem-me essa puta da frente!» Mas quando as pessoas são educadas, as coisas acabam por compor-se e bastou tirarem a D. Filomena de ao pé do meu pai para ficar tudo em sossego. No fim até estiveram as duas a falar de crochés e da telenovela, que nessa altura dava na televisão, e a D. Filomena ofereceu-se para tratar os pés da minha mãe, assim que acabasse um curso de calista que andava a tirar ali para os lados da Fonte Luminosa.

Essa bronca portanto foi o menos; o pior veio a seguir quando a minha avó teve a infeliz ideia de perguntar à prima Otília que presente de Natal é que lhe tinham dado os patrões do escritório onde ela trabalha e a parva descaiu-se a dizer que, do senhor Benjamim, recebeu um jogo de calcinhas e soutien em nylon, e do senhor Canelas, um vibrador-masturbador japonês, muito bonito, todo transistorizado.

Ora, ao ouvir isto, o Fernando, que é o marido da Otília e tinha metido na boca uma grande garfada, engasgou-se, engoliu uma data de espinhas de bacalhau, cuspiu o resto no prato do meu avô e desatou ao bofetão à mulher: «Sua cabra! Sua ordinária!» e a dizer que ia enfiar o vibrador pelo cu do Canelas acima e partir os cornos ao porcalhão do Benjamim.

E a palerma da Otília, em vez de se calar, como era a obrigação dela, cresceu para o marido que até parecia uma leoa: «Tire as patas de cima de mim, seu cabrão! Você é que tem cornos e dos grandes, ouviu?» E ele, todo a tremer: «Eu?! E ainda o dizes, grandessíssima puta?» E a Otília: «Pois digo para vergonha tua, que nem és marido nem nada! Se não fossem os meus patrões não sei o que seria de mim?». E desatou a chorar baba e ranho e então o Fernando agarrou na faca de cortar o bolo-rei e toda a família se pôs a gritar «Ai que ele mata-a! Ai que ele mata-a!», mas o meu pai tirou-lhe a faca e o tio Arnaldo obrigou-o a sentar-se na cadeira, deu-lhe palmadinhas nas costas e disse-lhe: «Não ligues ao que ela diz, pá, que as mulheres são todas umas putas», e ele ao ouvir estas boas palavras, ficou mais sossegado e até alargou um furo ao cinto para continuar a comer.

O pior é que a tia Palmira não gostou da conversa do marido e começou a refilar que não queria confusões, que se as outras eram putas ela era uma mulher séria, que quem não se sente não é filho de boa gente, etc., etc., mas o tio Arnaldo que é um bocado bruto atirou-lhe logo esta a matar: «Escusas de armar em séria, que todos sabem que andaste enrolada com o Gonçalves da farmácia quando ele te tratou do eczema»; e ela, logo: «E tu com a Gracinda da peixaria, que até escamas de pargo trazias para casa nas cuecas!» E o tio Arnaldo, muito fodido: «As escamas de pargo não são aqui chamadas para nada, porra!» E, ao dizer isto, deu tal murro num prato de filhoses que saltou calda para todo o lado e até eu fiquei com o cabelo enchapoçado dela. E o meu pai que ia acudir pela tia Palmira, esteve vai não vai para apanhar outra vez com o galheteiro, pois a minha mãe tinha-o sempre debaixo de olho; enfim, só visto!

O que valeu para que a festa de Natal não ficasse estragada foi a minha madrinha impor-se, visto ser ela a dona da casa, e avisar que não consentia faltas de respeito, que aquilo ali não era nenhuma taberna e que achava uma sacanice estarem a encher o bandulho à custa dela, com a comida cara como estava, e a portarem-se que nem javardos em vez de se mostrarem agradecidos. «Ou comem de bico calado ou vai tudo para o olho da rua!» disse ela e ninguém refilou; durante algum tempo só se ouviu mastigar, até que o senhor Aguinaldo, o sacana do velhote que está amigado com a minha madrinha e que até aí só abria a boca para meter para dentro, resmungou lá do canto que no olho da rua já nós devíamos estar há muito e que se a família dele fosse ordinária como a nossa já a tinha rifado. Um gajo bera, palavra de honra; não são coisas que se digam assim na frente das pessoas e ainda gostava de ver que merda de família é a dele; cheira-me que é para ali uma ciganada cheia de putas, chulos, sovaqueiras e arrebentas.

Mas a minha mãe, que tem muito jeito para compor as coisas quando não está com a bolha, disse que o melhor era a minha madrinha abrir a televisão, que tem programas muito bonitos no Natal, porque as conversas não fazem falta para nada e a gente não estava ali para conversar mas para comer e que assim as crianças sempre estavam mais distraídas. Foderam-me!

Foi assim que tive de gramar duas horas de chachadas como essa porcaria das canções do Natal, das entrevistas do Natal, das tradições do Natal, dos votos de Natal e até dos anúncios do Natal, sem ter feito mal a ninguém. Não é que eu goste de chavascal e sarrafada, mas, mal por mal, ainda preferia ver os parentes todos à porrada e a descobrir o cu uns aos outros do que ver a merda da televisão.


Texto: by José Vilhena

Imagem: by me