segunda-feira, 6 de março de 2023


 


Eu ignorante me confesso: não sei o que seja “Fotografia fine art”!

Vejo on-line (e em alguns livros) a classificação mas, olhando com atenção, não vejo nada de excepcional no que me é mostrado.

Nem do ponto de vista estético, nem do ponto de vista técnico, nem do ponto de vista semiotico, nem do ponto de vista conceptual.

Por outro lado, vejo nos mesmos meios fotografias de excepção, sob um ou mais conceitos, daquelas que me prendem o olhar, que me dão vontade de continuar a ver, daquelas que falam comigo e que me provocam emoções. E que não levam esse carimbo. Nem as fotografias nem os fotógrafos.

Talvez que seja eu o ignorante nestas coisa de fotografia e que melhor seria dedicar-me à pesca ou ao cultivo de hortícolas.


By me

quarta-feira, 1 de março de 2023




Há que saber dizer “Não” com tanta veemência que o próprio “Sim” se envergonhe de existir.

Mas também há que saber usar o “Sim” com tanta vontade, que o “Não” se encolha de medo. 


By me

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Em branco


 


Faz tempo que não me acontecia:

Ter um assunto sobre o qual perorar e faltar-me a arte ou o engenho para o fazer.  

O tema é por si só complexo: as ligações afectivas com uma imagem fotográfica. Ligações positivas e negativas, o modo de o manifestar, as consequências dessas manifestações e emoções e as diferenças disto tudo entre a imagem em formato digital e em suporte físico.

Tenho tentado dar corpo a essas ideias sob a forma de texto e imagem passível de ser acedido por aqui, nas autoestradas da informação e nas redes sociais. Mas estou em crer que ainda não estiveram essas ideias em “banho maria” aqui na minha cabeça o tempo suficiente para as colocar cá fora organizadas e sucintas o suficiente.

Que, para cada ponto acrescentado, muitos são os que surgem correlacionados, qual deles o mais complexo e com mais ramificações.

Talvez que não tenha pensado o suficiente sobre o assunto. Talvez que não tenha lido o suficiente de outros pensadores sobre o assunto. Talvez que, enquanto produtor de imagens fotográficas, não consiga o distanciamento suficiente. Talvez que tenha que deixar de ter afectos (positivos ou negativos) com as imagens para sobre isso discorrer.

Mas as ideias estão aí, batendo-me forte até porque com motivos recentes. Quase que me brotam da testa, quando não do teclado ou da caneta.

Mas o síndroma do papel virgem ou do ecrã vazio é terrível e doloroso.


By me

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Não me fΘd@m!


 


Volta e meia recordo uma expressão que um chefe que tive usava amiúde: “Oh pah, fΘd@-se, não me fΘd@s!”

Vem isto a propósito do conceito bacoco de a representação pictórica (pintura ou fotografia) ter que ser objectica, clara, legível, inequívoca.

Não me fΘd@m! Não tem que ser!

Tem que ser, antes de mais, um equivalente do que a alma de quem criou “viu”, sentiu, pensou, idealizou. A partir do momento em que o que fez corresponda a isso, está feito e bem feito.

O ser interpretável por quem isso veja é outra questão, bem mais complexa.

Começa, desde logo, pela decisão do autor sobre se essa questão é ou não pertinente.

Se for pertinente o autor terá, naturalmente, que se expressar usando códigos visuais que o público entenda. Óbvia ou implicitamente. E terá que adaptar aquilo que sente ou imaginou a esses códigos. A isto chama-se “comunicação visual”. E só será um trabalho bem feito se conseguir comunicar com o público. Se este conseguir “ver” ou sentir aquilo que o autor quis que “visse” ou sentisse. Mesmo dando uma “margem de manobra” muito grande, permitindo múltiplas interpretações.

Mas se não for pertinente, se o factor “comunicação” não for importante... Não me fΘd@m! O autor pode fazer o que muito bem entender, explícito ou confuso ao público, mesmo não interpretável, que a única coisa que conta é a sua satisfação em ter conseguido materializar o que “viu” ou sentiu.

E o público, especialista ou não, o mais que pode dizer é “não entendo”. Qualquer outro tipo de comentário é um disparate, porque o que está a ver não foi feito para que entenda ou interprete.

Claro que no caso da fotografia a coisa é mais complicada que na pintura. Que se admite a um autor pintar sem ser representativo, mas não se aceitam fotografias que não sejam “legíveis”! A ideia, oriunda dos primórdios do processo fotográfico, de que a fotografia é uma cópia da realidade ainda hoje vinga. É um disparate, mas ainda hoje vinga.

E como a esmagadora maioria dos utilizadores de câmaras fotográficas procura o agrado do público, procura igualmente produzir imagens interpretáveis, quantas vezes castrando a sua própria criatividade em prol do aplauso.

Oh pah! Não me fΘd@m!


By me

domingo, 15 de janeiro de 2023

Uma longa diatribe em torno de um objecto

 


 

Desde há muito que afirmo que a luz é a minha matéria-prima e a perspectiva a minha ferramenta.

Por isso, gosto de usar diversas objectivas, com diversos ângulos, escolhidas em função da perspectiva que quero ou sinto adequada à situação. De igual forma, gosto de usar diversas formas de medir ou aquilatar a luz que, para além da quantidade, haverá que avaliar da qualidade e dos contrastes que dela resultam. Manias!

Nestes meus gostos incluo os equipamentos que já foram usados, hoje obsoletos na versão de alguns. Gosto de ver e usar (se estiverem em condições disso) aquilo que os fotógrafos de antigamente usavam no fazer os seus trabalhos. Com todo um conjunto de saberes e palpites que os automatismos de hoje incorporam ou ignoram.

É assim que tenho vindo a juntar algumas peças antigas. Objectivas ou medidores de luz. Encontradas em bancas de rua ou lojas de velharias, sempre a bom preço que não tenho meios para uma coleção. Apenas para um ajuntamento.

Ontem encontrei mais uma peça, bem incomum por sinal. Esta.

Numa banca de rua que não contava encontrar, o vendedor disse-me que não sabia o que era, que aparentava estar avariada e pediu-me 3 euros por ela. Não discuti. Se fosse lanchar naquela zona pagaria isso ou mais.

Trata-se de um medidor de luz. Com um formato e modo de funcionamento que desconhecia. Mas é uma peça rara.

Com data de fabrico de cerca de 1938, utiliza um célula de selénio que, muito naturalmente, já está morta. Como nota técnica acrescento que os medidores de luz de selénio, agora em desuso, são fotogeradores: geram energia elétrica perante a luz. Não usam pilha, ao contrário dos de silício, e é a corrente gerada que é medida. Claro que estas células têm um tempo de vida limitado, que depende da data de fabrico e do tempo em que estiveram expostas à luz a gerar energia. Como disse, esta está morta.

Mas a raridade desta peça não se fica por aqui. Possui uma lente, retractil, para conduzir a luz reflectida do assunto para a célula e, assim, bem definir o ângulo de medição. Admito que nunca tinha visto nenhum aparelho de medição de luz reflectida de selénio com este processo.

Indo mais longe na sua raridade, tem uma etiqueta, de origem, em português. Convenhamos que, à época, tal não seria comum, considerando os não muitos possuidores de equipamento em portugal.

Mas mais: a etiqueta avisa que o aparelho tem escala adicional para ser usado com as objectivas Leica, que usavam escalas de diafragma próprias.  Recordo que, à época, as escalas de diafragma tal como as sensibilidades da película, não estavam padronizadas. Havia escalas e valores por país ou fabricante: USA, Reino Unido, Alemanha, Russia... Escalas aritméticas ou geométricas, com valores iniciais distintos porque calibrados com parâmetros diferentes. O que obrigava a que quem fotografava soubesse mesmo o que estava a fazer e não que apenas confiasse em automatismos então inexistentes.

Mas este aparelho tem um detalhe ainda mais curioso: um extintómetro.

É isto uma forma de aquilatar da quantidade de luz dependente da experiência do utilizador e usando um processo de escurecimento gradual, constatável através de um orifício pelo qual se observava o assunto a fotografar. Este aparelho, não tendo uma célula muito sensível, permitia desta forma que o utilizador pudesse calcular a exposição a fazer mesmo em baixas luzes e quando a célula não respondesse. Eram espertos, os alemães!

Este exposímetro, a hoje chamamos genérica e erradamente de fotómetro, está morto. A célula não responde e tem peças mecânicas soltas. Mas irá juntar-se aos demais que possuo. Que já não cabem todos na caixa que para tal arranjei. Mas de quando em vez, como faço com os demais, irei buscá-lo com a cautela que merece e farei de conta que está vivo. Que os objectos, tal como as pessoas, só estão mesmo mortas quando delas já não houver memória.


By me

sábado, 14 de janeiro de 2023

Somos deus


 


Ao contrário do que muitos pensam, a fotografia não é uma cópia da realidade. Esse foi o conceito surgido aquando da invenção da fotografia e teimosamente divulgado e defendido por muitos fotógrafos ou teóricos da fotografia.

A fotografia é realidade por si mesma!

O acto de criar algo que não existia uma fração de segundo antes, bem como o seu resultado, é realidade.

Levando a coisa mais longe, e correndo o risco de ofender algumas sensibilidades, o fotógrafo é deus, na medida em que usa a energia luminosa, a energia da câmara e a energia criativa para criar algo novo. Eventualmente diferente. E isso é, de acordo com todas a teologias, o que fazem os deuses.

Vendo as coisas de outra forma, a fotografia não é uma cópia da realidade mas antes cria tantas realidades quantas as pessoas que vejam cada fotografia. Porque a imagem fotográfica provoca em quem a vê todo um conjunto de emoções e apelos à memória e experiências de cada indivíduo que cria novas realidades. Não cópias mas novas.

Mesmo a fotografia documental ou a reportagem ou a fotografia de rua, agora tanto na moda, não são cópias do que quer que seja, realidade inclusa. Resultam, antes sim, da interpretação do fotógrafo sobre o que está à sua frente, dependendo das suas emoções e interpretações. A simples (ou não tanto) escolha de uma perspectiva e momento são prova disso.

Assim, sugiro que todo aquele que faz fotografia, mesmo que ocasional, mesmo que com telemovel ou outro dispositivo dito menor, perca esse conceito atávico de “cópia” e assuma de uma vez por todas que está a criar e não a copiar.


By me

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Coisas


 


Quem me conhece sabe que não me interesso sobre futebol.

Há muito que deixou de ser um desporto e, para além de ser um negócio que movimenta quantia astronómicas, é o alimento de alma de muitos pobres de alma.

Exactamente por ser isso me pergunto como pode ser aceitável que um jogador seja pago a peso de oiro para ser embaixador de um país na candidatura desse país à organização de um campeonato do mundo e ser oponente nessa mesma campanha ao seu país de origem e onde joga pela respectiva selecção.

Coisas há que são difíceis de engolir!


By me

sábado, 7 de janeiro de 2023

Quase


 


Com quase dez anos, este quase retrato foi quase encenado numa casa quase museu.


By me

Cinco cêntimos



"Àquela hora não havia por perto outro local onde comer. O que via na montra e pela porta não lhe inspirava grande confiança, mas a fome mordia-lhe o estômago e o frio não ajudava. Entrou.

O cheiro a fritos era preponderante, mas isso não parecia incomodar os dois comensais isolados, que faziam parelha com o ambiente geral. Escolheu uma mesa, não muito próxima deles, e sentou-se.

Antes de olhar para a ardósia na parede onde se podia ler aquilo que a cozinha podia disponibilizar, olhou para a toalha. As manchas irregulares deixadas pelos clientes anteriores, sabe-se lá quando, competiam em contraste com o rectilíneo do xadrêz já pálido do tecido. Desejou que os guardanapos fossem de papel e que o copo estivesse como os guardanapos.

Ainda assim arriscou e pediu a quem estava atrás do avental e do bigode uma sopa e uma jardineira de vitela."


Esta é a grande vantagem da literatura sobre a imagem: por muito descritiva que possa ser, deixa sempre alguma coisa à imaginação de quem lê: 

Estaria pouco vestido ou nevaria? Quantas mesas na sala? De que cor seria a toalha? Que garrafas, se algumas, existiriam atrás do balcão?

Há todo um mundo de perguntas que o texto não responde e que ficam ao critério do leitor encontrar as respostas. Em função das suas experiências pessoais, da sua imaginação ou de um qualquer capricho momentâneo.

A imagem, cinematográfica ou outra, não nos dá essa possibilidade. Cada detalhe da sala e seus personagens está ali, no ecrã ou no papel, esclarecendo todas as dúvidas e nada deixando por saber. Claro que há excepções, como seja o filme “DogVille”, mas os mestres quebram as regras e as rotinas.

A fotografia fica a meia haste. Tudo o que está em frente da objectiva é captado, com maior ou menor detalhe, nada deixando à imaginação. Mas não tem o factor movimento, em regra. Dos personagens ou da câmara. Donde apenas sabemos o que nos é mostrado.

Uma das técnicas de fazer o espectador interagir com o que vê é não lhe mostrar tudo. Indo mais longe, truncar parte do visível – pessoas, objectos, espaços – levando quem vê à tarefa de imaginar o que falta. Criar-lhe a curiosidade de completar o que está em falta.

Técnica difícil, esta. Principalmente nos tempos que correm. Que se a tentativa de estimular a imaginação for muito forte, com a rapidez de consumo do digital o espectador desinteressa-se com facilidade. Por outro lado, e pelo mesmo motivo, se for muito fraca não chega a provocar a curiosidade. 

Alguns mestres na imagem – e eu não sou mestre – jogam com este instavel equilíbrio entre “o que mostro e o que não mostro” de forma magistral. O instinto, a prática, o pensar, o recurso às diversas técnicas de ocultar ou semi ocultar, fazem dos seus trabalhos obras primas.

É por dar trabalho ou ignorar o método que a esmagadora maioria das fotografias que vemos são sensaboronas. De tão completas, de tão esclarecedoras, de tão fechadas sobre si mesmas, não permitem que o espectador pense ou sinta. “É aquilo e mais nada”, “tomei conhecimento e é quanto basta”. 

A arte, nas suas diversas facetas, pode ser completa. Mas pode e deve levar o espectador mais além do que aquilo que recebe. Provocá-lo, criar-lhe alguma instabilidade, sentimentos ou perguntas. Quando isso não acontece, não são fotografias: são fotocópias do circundante. 

Os meus cinco cêntimos.


By me

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Com F ou com Ph




Primeiro
A coisa começou há muitos anos! Éramos – e eu os compinchas de várias andanças, incluindo a procura de perguntas e respostas – razoavelmente novos.
O caminho que então percorríamos juntos passava também pela fotografia. Partilhávamos os equipamentos, as técnicas, as estéticas os conhecimentos e descobertas que íamos fazendo. E, não sendo nenhum de nós génios, procurávamos também os livros e revistas onde pudéssemos ir beber em mestres o suficiente para os nossos passos.
Estávamos na década, melhor, no decénio de 70, inícios do de 80 e por cá, Portugal, pouca leitura havia em português sobre a matéria. Livros apenas alguns mais antigos, ao estilo de almanaques, e revistas só aquelas efémeras, cuja qualidade e pouca procura faziam morrer pouco depois de nascer.
A solução era, inexoravelmente, recorrer ao que vinha de fora, do Reino Unido, dos EUA, de França. Cada uma destas origens, então como agora, tinha abordagens diferentes às técnicas e estéticas e às soluções. E o hábito de ler, apreciar e mesmo falar ia-se atendo às línguas que praticávamos fotograficamente.
Claro que também contava, face à juventude que tínhamos, o prazer de usar um código semi-hermético aos circundantes, aqueles que não bebiam onde nós nos alimentávamos: o prazer de fazer imagens.
E criou-se a brincadeira, petulante é certo, de dizer que por cá se fazia “Fotografia” e que lá por fora se praticava “Photographia”.
Com o passar dos tempos e as variações de rumos das vidas de cada um, tudo isto se transformou ou diluiu. A literatura e os periódicos em língua portuguesa foram aparecendo, algumas por nós mesmos produzidas, muitas vindas de além-mar. E deixamos de parte a necessidade juvenil da afirmação por códigos e mistérios.
Mas a sensação da diferença entre “fotografia” e “Photographia” ficou. Já não agarrada à tradicional maledicência sobre tudo o que é português, mas antes para marcar alguma diferença no tipo de imagens produzidas, onde quer que fosse. Diferença esta que não está nas técnicas, nas estéticas ou nas temáticas. Constata-se em cada uma delas e no seu conjunto mas não reside aí.
Está, antes sim, na forma de pensar e de fazer fotografia.

Segundo
A representação pictórica, ou iconográfica, existe desde antes da escrita, com esta tem co-existido e, pela certa, a ela sobreviverá. Porque os códigos alfabéticos, fonéticos, ideográficos ou binários mudam com as civilizações e tecnologias, o que não sucede com o uso das belas-artes. Poderão estas mudar de estilos ou de interpretações, mas perduram.
O comum do ser humano, gregário que é mas igualmente desejoso de marcar a diferença na sociedade em que se insere, procura igualar ou suplantar aqueles que admira e a quem atribui qualidades superiores. Entre outros, os que bem se expressam, seja qual for a arte em causa. E a pintura e representação gráfica é uma delas. Mas ela não é tão simples como parece, já que, além do domínio das técnicas, implica um certo “fogo interior” que na maioria está apagado. Para já não falar na morosidade do processo.
Ao invés, a fotografia é quase imediata, por comparação. E é-o tanto mais quanto as técnicas usadas evoluem. Técnicas estas que, com um domínio não muito aprofundado, permitem obter resultados satisfatórios, não apenas perante a sensibilidade de quem as produz como a aceitação de quem as vê. E os automatismos contemporâneos ainda reforçam este facilitismo no fazer da fotografia.
Se a isto juntarmos o consumismo desenfreado que vamos vivendo e a necessidade de afirmação social mais pela posse de bens que pelo resultado daquilo que se é e se pensa, temos que meio mundo possui e utiliza câmaras fotográficas. E que o outro meio anseia por o ter e fazer.
Mas esta fotografia é feita a correr, oriunda em impulsos de momento, quase que por obrigação. As questões estéticas são ignoradas, dos factores de comunicação nem se desconfia, e com a mesma velocidade com que dispara o obturador, também o seu resultado é esquecido. Tão ou mais grave que isso, a fotografia contemporânea padece da efemeridade, já que o seu apagar ou destruir resulta do uso de uma ou duas teclas na sequencia de sistemas de armazenamento cheios. A mesma ausência de pensar no acto fotográfico conduz a uma ausência de importância no seu resultado. Conservar ou não uma fotografia é uma questão de apetite momentâneo. E já não se usam pastas de arquivo cuidadosamente arrumadas, caixas de sapatos empilhadas ou gavetas repletas de papéis mono ou multi-coloridos que, volte e meia eram remexidos e supostamente organizados.
Some-se a esta pouca importância dada ao pensar a fotografia o seu actual custo zero. Fazer uma fotografia ou dez consecutivas tem o mesmo preço e dá o mesmo trabalho em obter. Que o “rolo” já não chega ao fim e as memórias dos cartões são cada vez maiores.
Nos tempos que correm, a velha frase publicitária “Para mais tarde recordar” deixou de fazer sentido, face ao uso e importância que é dada à fotografia.


Terceiro
Alguns há, no entanto, que assim não procedem.
Ao olharem pelo visor da câmara, ou ainda antes disso, o seu objectivo é o registo permanente daquele jogo de luz e sombras, daquela perspectiva, o contar daquela história, o eternizar daquele momento. E que, em tendo oportunidade para tal, procuram melhorar as suas capacidades de o fazerem, tanto pela prática como pelo estudo de quem o faz ou fez ainda melhor. Em que a afirmação pela fotografia não passa pela competição com os restantes com base no resultado ou na exibição da factura do seu equipamento mas antes consigo mesmo e com o resultado obtido a cada imagem produzida.
E que sabem que esse processo começa com o olhar o assunto e termina com olhar sobre o produto acabado, sendo que tudo o resto que medeia entre um e outro são meras técnicas, mais ou menos dominadas. Na tomada de vista e na selecção e tratamento posterior.
Que sabem e praticam que uma fotografia é o resultado de um processo mental materializado pela técnica. E que é mais naquele que se preocupam que nesta.
Ao resultado dos trabalhos destes, chamo eu (e mais uns quantos não tão poucos quanto isso) “Photographia”. Para o trabalho dos demais fica o termo genérico de “Fotografia”. Alguns há, ainda, que diferenciam com o uso de maiúsculas e minúsculas, mas o significado é o mesmo.
Nenhum dos dois termos tem mais valor que o outro ou algum deles tem uma carga negativa. Porque, na vida, o que importa é a obtenção da felicidade naquilo que fazemos e nenhum método é universal ou único.
Mas porque não são iguais nem nos processos de obtenção nem nos resultados materiais, identifiquem-se umas e outras imagens e fotografias.
Até porque entre imagens fotográficas e fotografias (com “F” ou com “Ph”) também há diferenças. Mas isso são outros contos!


By me