domingo, 6 de janeiro de 2019

Opções




Enquanto te preocupares com o equipamento e com o que ele pode fazer em vez de te questionares com a luz, com o assunto e com o que queres mostrar, não serás um fotógrafo mas antes um eventual bom vendedor de tralha e um mero registador de instantaneos.



By me

Diaphoto




Fotografar é medianamente fácil. Olhamos para o assunto, gostamos do que vemos, a luz é do nosso agrado e apontamos a câmara. E deixamos o controlo de exposição aos automatismos.
Alguns, não muitos, interpretam ou avaliam as indicações do exposímetro da câmara, seguindo as suas indicações ou conjugando as leituras com a análise da luz existente, bem como das reflectâncias dos elementos na imagem.
Mas… e antes de haver forma de avaliar e medir a luz através da câmara? Como era?
Usavam-se aparelhos de medida, manuais e externos: fotómetros ou exposímetros.
A diferença entre os termos (e sei que o segundo é estranho) está nas leituras que neles podemos fazer. Os fotómetros indicam-nos a quantidade de luz em “foot-candle”, ou “candela por pé quadrado”, havendo alguns que usam outra unidade, o “Lux”. Dessa leitura, e conjugada com a sensibilidade do material de registo luminoso, deduz-se tempo e abertura. Através de cálculos complexos ou, o que é generalizado, usando uma escala de correspondências integrada no aparelho.
Por sua vez o exposímetro apenas nos dá valores de exposição, ficando o seu utilizador sem saber a quantidade de luz. Profissionalmente usam-se os primeiros, que nos permitem fazer outros tipos de interpretação.
Grosso modo, destes aparelhos de medida existem dois tipos: os que, ao receberem a luz geram energia eléctrica que é quantificada ou os que, em recebendo a luz variam a resistencia à passagem de energia eléctrica, resistência essa igualmente quantificada. Nos segundos, é necessário fornecer a energia, em regra usando pilhas ou baterias.
Ambos os sistemas têm vantagens, sendo que os últimos são mais exactos quando existem tipos de luz com temperaturas de cor extremas, muito altas ou muito baixas: muitos azuis ou muitos vermelhos.
Mas… e como faziam os fotógrafos antes destes sistemas existirem? Como mediam a luz ou calculavam a exposição?
A experiência, fruto de tentativa e erro, era a pedra de toque. Consta que alguns fotógrafos, aquando do surgimento dos aparelhos de medida de luz, mesmo depois de os usarem ajustavam as leituras obtidas às suas próprias experiências visuais e de laboratório. Convenhamos que o rigor seria diminuto, mas a satisfação por se obter o efeito desejado seria grande, certamente.
Mas existia outro sistema que, ainda que dependesse da experiência do seu utilizador, era um auxiliar precioso: o extintómetro.
O seu sistema de funcionamento era relativamente simples: Olhando-se por um orifício, fazia-se deslocar à sua frente uma cunha fumada, cuja transparência ia da máxima até à opacidade. Quando o observador deixasse de ver parte do assunto, parte essa que dependia da calibração feita pelo fabricante, consultava-se a tabela do aparelho para se saber a relação tempo-abertura em função da sensibilidade.
Método estranho e de rigor bem duvidoso, mas na época fotografar, mais que uma ciência, era uma arte ou artesanato, com tudo o que isso implica.

Ao longo da minha vida havia visto apenas um aparelho desses. Em óptimo estado de conservação, ainda razoavelmente rigoroso, pertencia a um companheiro de andança fotográficas e lectivas. Que nunca se deixou convencer a vender-mo, ofertar-mo ou mesmo deixar-se “roubar”. Quando ia a sua casa, ficava eu a admira-lo, se não estivesse sacramentalmente guardado numa gaveta.
Há uns tempos, numa feira de velharias no Jardim da Estrela, dou com um. Ao preço pouco mais que simbólico de 15 euros. Confesso que se me tivessem pedido 3 ou 4 vezes esse valor, tê-lo-ia dado sem pensar muito. E, tão ou mais interessante ou excitante o tê-lo encontrado, foi que quem o vendia não sabia como funciona ou para que serve. Só depois do negócio feito lho expliquei.
Nos tempos que correm, nem deu muito trabalho a encontrar referencias. Referencias ao fabricante e data de fabrico, bem como o respectivo manual de instruções.

Para os que ainda pensavam que o jardim da Estrela não é um mundo cheio de surpresas, espero que tenham mudado de opinião.



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sábado, 5 de janeiro de 2019

Polícia do pensamento




As coisas são o que são e o tempo muda as embalagens mas não os conteúdos.
Está toda a gente, das redes sociais ao governo, passando por classes profissionais, escandalizadas com uma entrevista feita a um líder de extrema-direita. Dizem, com alguma razão, que foi dar tempo de antena e visibilidade a gente que melhor seria estar longe de nós, que os seus ideais são perigosos, tal como as suas práticas.
É um consenso de opiniões. Atitudes equivalentes às que aconteceram no pós revolução, em que os simpatizantes do antigo regime eram votados ao olvido, meio para que as suas ideias não voltassem, meio como forma de muitos sobrevivessem ao “caça às bruxas” da época.
Faz sentido considerando o pensar colectivo. De então e de agora.
Mas vejo os mesmos (ou quase) a ficarem indignados com a anunciada perseguição a pensadores comunistas e socialistas no brasil. Anunciada pelos novos governantes e sem disfarce algum. Logo no dia seguinte a estar em funções.
Convenhamos que o pensamento fascista não se pode comparar ao pensamento socialista ou comunista. Pese embora algumas ditaduras ditas comunistas não serem melhores que qualquer ditadura fascista. Nem as práticas.
Mas os crimes de pensamento (ou a polícia do pensamento, como descreveu Orwell) são tão perigosas num como noutro regime, sejam quais forem os alvos.
Pensar faz parte da liberdade. Privar o direito a pensar é limitar a liberdade. E o conceito “excesso de liberdade” é perigoso na medida em que haverá que definir os limites à liberdade e saber quem os define. Um ditador também defende a liberdade, dentro dos seus próprios moldes.
Perseguir, seja de que forma for, quem pensa diferente de nós é limitar a liberdade. E sabemos o que isso foi por cá, noutros tempos. Ou o que está a começar a acontecer por cá, agora. Um bom exemplo de perseguição à liberdade de pensar é o que acontece com as críticas à entrevista deste perigoso extremista. Este é de direita, mas poderia ser de esquerda, ou de uma profissão de fé, ou de um clube de futebol.
Deveremos agir, individual ou colectivamente, para que os pensamentos que atentem contra a liberdade não possam tomar forma. E uma boa forma de o fazer é não lhes dar publicidade.
Mas impedir que se expressem, calando-os ou censurando-os, é tão grave quanto atirar para um calabouço ou despedir alguém porque segue outra linha de pensamento. Ou fé.
Não será fácil gerir o equilíbrio entre os pensamentos e as paixões. Mas quando deixamos que as segundas tomem posse dos nossos actos, estamos a renegar os nossos próprios pensamentos.
Qualquer tipo de ditadura é perigosa. A que incide no pensamento será a pior, vinda de que lado vier.



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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Os pequenos donos da chave da retrete




Fala-se, em tudo quanto é media, na entrevista feita a um conhecido activista de extrema-direita em Portugal. Pessoa que já foi condenada por práticas relacionadas com os ideais que defende.
Infelizmente, este é apenas um líder a quem, eventualmente a comunicação social dá destaque. Pela positiva ou pela negativa.
O pior, mesmo, são os outros. Aqueles que não são lideres de coisa nenhuma mas praticam o mesmo ou equivalente.
Os que, activamente, praticam a discriminação negativa por género, cor ou ideias. Os que censuram quem fala, impondo a lei da rolha ou remetendo-os para locais inócuos. Os que, em lugar decisório, chamam a comentar a vida portuguesa gente sempre do mesmo quadrante, deixando de fora outras formas de pensar, mesmo que não extremistas. Os que, no escondido, mandam calar porque “falas e escreves demais” ou que se escondem no anonimato para imporem comportamentos e ideias.
São os quase anónimos, do nosso quotidiano, que se vão impondo, com sorrisos e falinhas mansas mas saudosos de tempos malditos. São os que, dizendo-se democratas, agem em contrário.
Ao Mário Machado deram tempo de antena e, por causa disso, irá entrar no olvido mediático. Os outros, de quem não se fala mas que conhecemos, ganham terreno com a nossa complacência.
É desses que tenho medo. Dos pequenos títeres, dos “donos da chave da retrete”, dos que, por pura ambição de poder, tentam subir usando os demais como degrau.
É contra esses muitos que me bato, se ao que faço se pode chamar bater. No trabalho, no café, no autocarro. Com conversa e actos que não apenas os impeçam de vingar como os denuncie em público pelos seus comezinhos comportamentos.
Enquanto deixarmos os pequenos propagarem os seus pensamentos e acções, teremos sempre o risco de termos Trumps ou Bolsonaros a guindarem-se e a estarem legitimamente a influir fortemente na nossa liberdade ser e pensar.



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Elogios




Não será o que há de mais bonito de contar, mas sempre aqui vai: há uns dias fizeram-me um dos mais rasgados elogios que me poderiam fazer.
Gente que me conhece desde há muito terá comentado que, e para além do meu desempenho profissional, eu era (ou sou) uma carta fora do baralho.
É particularmente curiosa esta expressão, em que nunca tinha pensado, mas que acho que se aplica perfeitamente.
Em qualquer uma das actividades que já exerci, tanto individualmente quanto integrado em equipas de trabalho, sempre fui o crítico, o que procura entender antes de executar, o que procura a justificação teórica e prática que melhor permita o resultado final.
E se isto é fácil e natural em tarefas ou trabalhos individuais, em equipa a coisa é mais difícil. Que muitos são os que, mesmo fazendo muito bem o que deles se espera, o fazem de forma mais automática, sem questionarem ou ponderarem os porquês do como desempenham as tarefas. E haver quem questione, quem pare para pensar, quem não seja um “Maria vai com as outras”, pode dificultar o trabalho do conjunto, mesmo que o resultado seja tão bom ou melhor que o previsto. E nem sempre o será.
Acontece que nunca deixei ter em mente uma forma de agir: “Se eu souber porquê, sei como”. Mesmo que isso signifique ter ouvido, num outro contexto e num outro tempo, que “É bom haver sempre alguém que sabe por um pauzinho na engrenagem”.
Talvez que o ser uma carta fora do baralho seja uma perturbação da vida regular, monótona e tranquila para muitos. Mas não sei ser de outra forma e dizerem-no é, do meu ponto de vista, um valente elogio.

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História e memória




A história tem memória selectiva. E se há acontecimentos que são contados até à exaustão, transformando-os em “relevantes factos a não esquecer”, outros há que são convenientemente não referidos até se transformarem em “não existentes”.
Mas nem sempre a história cai no esquecimento de todos.
A mítica sala lisboeta “Ritz Club” tem um percurso conturbado. As mais das vezes pela positiva.
Foi cabaret, sala de concertos, sala de teatro, sala de ensaios de bandas e grupos de teatro… Tive o privilégio de a ter conhecido nos tempos em que ali se ia beber um copo (ou vários) e assistir a um pseudo-decadente espectáculo musical. Creio que se encontra agora encerrada, devido a problemas estruturais e de insonorização. A idade não perdoa.
Tendo tido diversas utilizações, teve também diversos proprietários, que lhe foram dando o uso possível. Durante algum tempo pertenceu a uma sociedade composta por alguns músicos e actores de nomeada no panorama artístico, cultural e político nacional. A sala era alugada para pequenos concertos ou a grupos de teatro que não tinham sala própria, sendo um espaço alternativo.
E há um episódio que ali aconteceu e que não esqueço, pese embora não o tenha vivido:
A sala fora alugada por um pequeno grupo de teatro. A peça encenada e ensaiada, guarda-roupa, cenário, luz, som… tudo afinado ao possível, dadas as condições económicas do grupo. No dia do ensaio geral, uma das pessoas integrantes da sociedade que possuía a sala foi convidada a estar presente.
Pois essa pessoa não gostou do que viu, argumentou que a peça e a encenação não estavam consentâneas com a ala política dos proprietários, proibiu a estreia e cancelou o contrato de aluguer. O pano nunca subiu para aquele espectáculo teatral.
Soube eu da história porque, à época, estava eu de algum modo ligado ao teatro dito independente, na condição de fotógrafo, e a coisa soube-se. À boca pequena, que quem tomou tal decisão era figura grada no campo das artes cénicas e difícil seria provar a que a argumentação fora apresentada. Ou contestar o que então veio a público sobre o caso. E mesmo hoje quem mo contou não o pode confirmar, já que a maioria dos componentes da companhia com que então eu trabalhava já morreu.
Fica o episódio, que a história tratará de apagar de vez porque política e culturalmente incorrectos. Mas que algumas memórias não esquecem. E se agora dele me recordei foi porque as notícias referem por estes dias uma figura grada da cultura teatral portuguesa.
Tal como fica uma fotografia do espaço em causa, roubada da net.



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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Fotografias




Há fotografias de que me orgulho particularmente. Por um motivo ou por outro.
Do ano que agora terminou esta é, sem sombra de dúvida, a que mais me enche a alma.

E, só para que saibam, foi feita com um telemóvel.



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O segredo



- Psssst! Pssst!
- Quem? Eu?
- Sim! Olha, sabes guardar um segredo?
- Claro! O que é?
- .......
- Então? O que é o segredo?
- É segredo!
- Então para que me chamaste?
- Só para saber se sabias guardar um segredo. 
- …..
- …..
- E esse segredo? É bom?
- É pois! 
- E é segredo teres um segredo bom?
- Bem… Não! Isso não é um segredo.
- Então posso contar que tens um segredo bom. E não me vais atirar com essa pedra?
- Não. Esta pedra é a única que sabe o meu segredo e não o conta porque é segredo. Não é Pedra?
- …..

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Sapatos perdidos




Em tempos tive “uma panca” por fotografar sapatos abandonados na rua.
Ainda tenho mas ou são mais raros de encontrar ou eu ando menos atento. Talvez que as duas coisas.
Certo é que no bairro onde morei, e durante anos, eu sabia sempre o dia e o local onde ir encontrar vários. Desirmanados, no passeio ou no asfalto, lá estavam de homem ou de senhora.
Era sempre no primeiro de Janeiro, de manhã, e no cruzamento de duas ruas específicas.
Comentado o caso com uma senhora romena que trabalhava num café que eu frequentava, disse-me ela que tinha a vaga noção de haver um país da sua região de origem que tinha a tradição de atirar fora um sapato velho aquando da passagem de ano. Um gesto simbólico, tão válido como qualquer outro que queira forçar o nosso ditado “ano novo, vida nova”.
Agora, aqui onde moro, as coisas são diferentes. Este bairro já não parece ser uma sucursal das Nações Unidas, na diversidade de origens e culturas. Pelo contrário, é um bairro consolidado, com tradições muito próprias e uma média etária mais elevada. Já não vejo as sextas-feiras repletas de trajes de cerimónia para acederem aos locais de culto das suas fés. Nem oiço falar tantas línguas díspares de quatro continentes e variadas cores de pele.
Mas, por outro lado, é normal entrar-se num tasco ou café e, em dando a saudação, a maioria responder por igual. E, na terceira ou quarta vez que lá se entra, já não ser uma resposta automática mas mais personalizada. E ver mais cabeças cobertas com boinas ou chapéus, tal como eu. E, em sendo sábado ou domingo, encontrar gente com guitarra e viola ou concertina, a cantar à desgarrada.
Deixei de encontrar sapatos perdidos na rua. Mas ganhei calor humano e relações cordiais. E esta fotografia, feita num primeiro de Janeiro, tem já uns bons dez anos, para que se saiba.



By me

Ao calhas



Escolho um livro ao calhas da estante. Sai-me na rifa o “A tirania da comunicação”, de Ignacio Ramonet, escrito em 1999.
Também ao calhas o abro e aponto com um dedo. Eis o parágrafo que a sorte me mostrou:


William Randolph Hearst, o magnata da imprensa Americana que serviu de modelo ao Citizen Kane de Orson Wells, costumava dizer aos seus jornalistas: “Nunca aceitem que a verdade vos prive de uma boa história.” Em muitas redacções – até nas mais “honestas” -, esta máxima parece voltar a estar na moda. Assim, em 7 de Junho de 1998, a CNN não hesitou em apresentar, de uma forma espectacular, uma reportagem realizada pelo sue jornalista mais famoso, Peter Harnett, em que se afirmava que durante uma operação contra os desertores no Laos, no início dos anos 70, o exército dos estados unidos tinha usado gás Sarin, um gás mortífero. Uma semana mais tarde, o semanário Time (que pertencia ao mesmo grupo mediático, o Time-Warner) retomava e desenvolvia a notícia. No entanto, esta viria a revelar-se falsa. Um relatório provou que Arnett e a sua equipa, tinha empolado todo o caso a partir de declarações ambíguas de dois veteranos parcialmente amnésicos. Como se, à partida, os jornalistas tivessem decidido para qual das versões ia a sua preferência, devido ao seu formato sensacional. Este comportamento testemunha a tendência actual para “inventar um argumento” para a realidade, para “encenar” a informação, e força-la a adaptar-se à encenação que os jornalistas têm em mente. “O que importa neste novo jornalismo – denuncia Juan Luís Cebrián, antigo director do El Pais -, é que a encenação funcione, e não que ela esteja de acordo com a verdade”.


Vinte anos depois, se excluirmos datas, nomes e locais, está tudo na mesma, ou pior ainda!

Imagem: by me