quinta-feira, 8 de março de 2018

Photógrapho?




Volta e meia oiço – ou leio – sobre casos que conto aqui ou ali:
“Então e não fotografaste? Tu, logo tu, sempre com a câmara contigo, não fotografaste!?”
A frequência com que me vou deparando com esta afirmação/interrogação vai aumentando, à medida que o tempo passa.
Efectivamente, cada vez menos fotografo o que assisto!

Existem em mim dois fotógrafos que se digladiam face às ocorrências: o bio-químico e o foto-mecânico.
Cada vez mais o primeiro tem relutância em deixar o segundo actuar perante a actividade humana. Aquilo que o segundo pode ver e, eventualmente, registar com a sua objectiva é infinitamente menos que aquilo que o primeiro constata.
Os cheiros, os sons, os sentimentos do dia-a-dia são tantos, tão apelativos, tão inebriantes, tão envolventes que, se todos eles passassem para a câmara, nada mais faria. Seria como aqueles turistas que vão de férias e vêm os locais pelo visor, e apenas por ele. Vi alguns assim na Expo98, por exemplo.
Se a magia da fotografia, a grande magia, é o contrair do tempo do antes e do depois para o durante a exposição efectuada, que duração teria uma exposição que englobasse a vida?
Se a fotografia faz parte da minha vida – e faz indubitavelmente – procuro fotografar com os olhos e, em havendo oportunidade, encontrar algo que, de alguma forma, transmita o que vi e/ou senti.
São ícones fotográficos o que vou fazendo, não procurando reproduzir realidade que não apenas a minha realidade. A minha forma de ver a realidade.
A fotografia documento - e as actuais tecnologias cada vez mais o incentivam – retiram-lhe validade. Já perdi a conta das vezes em que, confrontado alguém com fotografias minhas, me perguntou se a tinha trabalhado no photoshop. A credibilidade de uma fotografia, da fotografia, já não existe. Supondo que alguma vez existiu.

Por isso, quando vejo/vivo algo, prefiro gozar esses momentos, “fotografando” na “película” a que chamamos cérebro e guardar para mais tarde a materialização do todo que vi e senti.
Estou em crer que deixei de ser fotógrafo. O que sou? Nem eu sei bem!

Talvez um medíocre espectador com uma ferramenta que não domina.


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quarta-feira, 7 de março de 2018

Aniversários




Hoje celebra-se um aniversário.
Nada de especial, já que em cada um dos 365 dias do ano são milhões de aniversários que se celebram.
Mas este, em particular, é-me especial. É em boa parte por causa dele que sou o que sou, é em boa parte por causa dele que fui o que fui e é por causa dele que existo.
Não sou muito de celebrar aniversários, mas este é-me muito especial.



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terça-feira, 6 de março de 2018

Pensamentos




Que diria ele, sobre isto e outros assuntos, se a fotografia já existisse então e da sua relação teórica e prática com a realidade?

“Em primeiro lugar cumpre definir o nome e o verbo, depois, a negação e a afirmação, a preposição e o juízo. As palavras faladas são símbolos das afecções da alma, e as palavras escritas são símbolos das palavras faladas. E como a escrita não é igual em toda a parte, também as palavras faladas não são as mesmas em toda a parte, ainda que as afecções da alma de que as palavras são signos primeiros, sejam idênticas, tal como são idênticas as coisas de que as afecções referidas são imagens. Este tema foi por mim versado no meu livro “Da Alma”, pois faz jus a diferente disciplina. E tal como na alma tanto há um conceito independente do verdadeiro ou do falso, como um conceito a que necessariamente pertence um ou outro, o mesmo se diz da palavra, pois é na composição e na divisão que o verdadeiro e falso consistem.”
Aristóteles, 384 a.c. – 322 a.c., Grécia



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segunda-feira, 5 de março de 2018

Competição




Não! Eu não vi o festival da canção.
De igual forma, não vi a entrega dos óscares, não vejo jogos de bola nem vejo o que quer que seja que implique competição.
A competição – aquela actividade em que todos querem ser melhores que os outros – está na raiz de muitos dos problemas que nos afligem.
Na competição, seja do que for, há sempre o orgulho e satisfação em se ser o melhor. Um concorrente. E a frustração por não se ter sido o melhor. Todos os outros. Que deram o seu melhor mas que, ainda assim, não foi suficiente.
A competição é o culminar de por vezes longas preparações que resultam em frustrações. E, em caso de dúvida, vejam-se os semblantes tristes e chorosos dos que não atingem a vã-glória da vitória.
A única competição em que participo é a que me faz ter por adversário eu mesmo. Em que, todos os dias, tento ultrapassar-me nos feitos da véspera. Em que eu próprio sou o júri.
As minhas vitórias – e derrotas – guardo-as para mim. E no meu pódio cabem todos os competidores: eu.
Mas, e de igual importância, não faço minhas as vitórias dos outros. Não considero como meu sucesso o sucesso dos outros. Não me revejo como parasita do esforço dos outros. Não rejubilo quando “acerto” na previsão de vitória nem me entristeço quando o meu “ídolo” não sobe ao palco.
O seu esforço é seu e não meu e não alimento o meu ego com ele. Seja nas artes, no “desporto” ou na política.
A minha praia não é a competição!



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Café




De manhã se começa o dia.
Forte e cheio, por favor!


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sábado, 3 de março de 2018

Docência e decência




Parece que Pedro Passos Coelho vai leccionar na Universidade de Lisboa. Vai dar aulas de Administração Pública.
Na mesma instituição onde foi vaiado pelos alunos enquanto primeiro-ministro. E com salário de topo de carreira, logo de entrada.
E pergunto eu:
Será obrigatório ser aluno na sua cadeira? Os estudantes que recusarem ter tal pessoa por professor catedrático serão penalizados por isso? Que práticas e teorias ensinará, considerando o seu passado público e tornado público?
Acho que se anda a confundir docência com decência.


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sexta-feira, 2 de março de 2018

Pequenas omissões




Marine le Pen poderá ser julgada por publicar “imagens violentas” relacionadas com o Estado Islâmico. Caso o seja, incorre numa pena que pode ir até três anos de prisão e uma multa até 75.000 euros.
Isto é, grosso modo, o que se encontra em diversos órgãos de comunicação social, incluindo portugueses.
Aquilo que quase todos os portugueses não contam (por ignorância ou propositadamente) é que essas imagens incluem o corpo de um refém decapitado pelo EI. E que foram usadas para mostrar a diferença entre esse grupo e a Frente Nacional, de que ela é líder. Os factos remontam a 2015 e a referida fotografia acabou por ser retirada da net a pedido da família da vítima.
É curioso como uma “pequena omissão” numa notícia muda todo o contexto e a respectiva interpretação


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Outros tempos




Esta seria uma imagem passível de ser feita hoje.
A previsão meteorológica indica chuva em todo o país.
Mas isso só seria realmente possível se:
Ainda fosse hábito fotografar em película em preto e branco;
A posse de uma câmara reflex fosse interpretada como ferramenta profissional;
Os cidadãos não temessem chuva para fazerem ouvir os seus protestos e reivindicações.
Hoje isso não acontece.
A película é caso raro no panorama fotográfico; qualquer um tem uma câmara com ar “profissional”; a chuva arrefece os ânimos e demove os cidadãos das ruas e dos seus legítimos protestos.
Esta imagem remonta ao início dos anos 80, em Lisboa.



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quinta-feira, 1 de março de 2018

"fora da caixa"




Interpretar algo fotograficamente não é fácil.
Nem de fazer nem de ser aceite, que a fotografia “tem que ser” objectiva, de percepção imediata e sempre dentro dos padrões.
A “anarquia” na expressão pessoal é sempre mal aceite.
Mas os que se importam com isso ou estão no mercado para vender o seu produto ou pouco mais são que fotocopiadores do mundo que os cerca.

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Protestos e arquivos




O texto, tal como a fotografia, tem seis anos. O conceito que lhe está inerente tem muitos mais. Tantos quantos  a minha relação com a imagem, fotoquímica ou outra.

Perpétuo – Não apagar!
Do séc. XX poucas são as imagens de protestos ou rebeliões em Portugal.
É natural!
Se a fotografia era algo quase que reservado para elites amadoras ou profissionais, também o regime ditatorial não era particularmente simpático para com os registos de intervenções policiais. Nenhum regime o é, mas numa ditadura o desagrado transforma-se em antipatia agreste e violenta.
Em pleno séc. XXI a massificação dos sistemas de produção de imagem (estática ou animada), aliada às igualmente massificadas tecnologias de comunicação faz com que qualquer manifestação pública possa e seja registada. Com maior ou menor qualidade, plenas de emoção ou na frieza do olhar de um profissional do ramo.
Pergunto-me quantas, das muitos milhares que agora são feitas, sobreviverão até ao final deste séc., mesmo considerando as eventuais evoluções das tecnologias e o quão obsoletas sejam então as de hoje.
Porque, e convém que tenhamos disso forte consciência, o que agora vai acontecendo em Portugal é história. O que agora vai acontecendo nas ruas, na web, nos ministérios e nos centros de emprego é, a todos os títulos, período único. Lamentavelmente único.
A história se encarregará de o julgar, com a distância que a ciência impõe e baseada nos documentos de que disporá. Relatos, fotografias, vídeos, desenhos, troféus.
É nosso dever, enquanto protagonistas da história e colectores de imagens, garantir que nossa visão chegue ao futuro.
E sendo certo que os tempos que atravessamos serão objecto de dois julgamentos – o nosso, que o vivemos, e o dos vindouros – deixemos a estes as provas dos nossos sentimentos e vivências, garantindo que elas nos sobrevivem.
O apagarmos ou destruirmos as nossas imagens é tão odioso quanto o trabalho da censura afecta ao regime de Salazar ou a queima de livros pelos nazis, em ’33.

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